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sábado, 24 de outubro de 2026

Fantasmas no Mundo Antigo

 

A crença na vida após a morte era central para cada uma das principais civilizações do mundo antigo e isso encorajou o reconhecimento da realidade dos fantasmas como espíritos dos falecidos que, por uma razão ou outra, ou retornavam do além-túmulo ou se recusavam a deixar a terra dos vivos.

Para as pessoas da época, não havia dúvida de que a alma de um ser humano sobrevivia após a morte corporal. Seja quais fossem as opiniões pessoais em relação ao assunto, culturalmente eram criados com a compreensão de que os mortos viviam em outra forma, que ainda requeria algum tipo de sustento. Vários fatores ditavam qual vida após a morte se teria: seu comportamento na terra, como seus restos fossem dispostos após o falecimento e/ou como eram lembrados pelos vivos.

Os detalhes da vida pós-morte variam de acordo com as diferentes culturas. Constante apenas é crença de que tal reino existia, que era governado por leis imutáveis e que as almas dos mortos permaneceriam lá a não ser que tivessem licença dos deuses para retornar à terra dos vivos por alguma razão específica. Entre estas razões estariam rituais funerários inadequados; falta de sepultamento; morte por afogamento na qual o corpo não fosse recuperado; assassinato no qual a vítima não fosse descoberta jamais (e portanto ficasse sem sepultamento adequado); ou para lidar com questões mal resolvidas ou fornecer um relato real dos eventos relativos à sua morte, como, por exemplo, alguém assassinado e que precisa de vingar sua morte, levando o assassino à justiça para poder descansar em paz.

A aparência dos fantasmas dos falecidos, mesmo aqueles amados, raramente representava uma experiência bem-vinda. Supunha-se que os mortos permaneceriam em seu próprio reino e não se esperava que atravessassem de volta ao mundo dos vivos. Quando tal evento ocorria, tratava-se de um sinal conclusivo de que alguma coisa estava terrivelmente errada. Quem experimentavam um encontro espiritual deveria cuidar do problema para que o fantasma retornasse à sua devida morada.

Este entendimento era tão prevalente que histórias de fantasmas podem ser encontradas, com enredos muito similares, nas antigas culturas da Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, China e Índia, bem como em regiões da Mesoamérica e nas regiões célticas da Irlanda e Escócia. Os fantasmas também são retratados na Bíblia de maneira muito semelhante às obras romanas iniciais. O que apresentamos a seguir não representa um tratamento abrangente do assunto. Existem vários livros sobre a crença em fantasmas em cada uma das culturas mencionadas e em muitas que não são. O propósito deste artigo é somente proporcionar aos leitores os conceitos básicos da vida após a morte e da crença em fantasmas no mundo antigo.

Fantasmas na Mesopotâmia

Na cultura mesopotâmica, a morte era o ato final da vida, da qual não havia retorno. A terra dos mortos era conhecida por muitas denominações; entre eles, Irkalla, o reino sob a terra conhecido como a "terra sem volta", onde as almas dos mortos residiam numa triste escuridão, comiam terra e bebiam de poças de lama (embora houvesse outras imagens da vida após a morte, como a que aparece na obra Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos).

Esta existência seria o ato final para todos os vivos, independente de quão ricos ou pobres tivessem sido, e estava sob o controle da sombria rainha Ereshkigal. Nenhuma alma tinha permissão de deixar Irkalla sob qualquer razão, nem mesmo uma deusa, como exemplificado pelo poema A Descida de Inanna, no qual mesmo a Rainha dos Céus (e irmã de Ereshkigal), Inanna, deveria encontrar um substituto para ficar em seu lugar uma vez que ela retornava ao mundo dos vivos. Porém, as almas que precisavam completar algum tipo de missão recebiam uma dispensa especial. Os fantasmas poderiam aparecer para pessoas na terra quando se acreditava que havia a necessidade de corrigir algum tipo de erro.

Estas aparições geralmente se manifestavam como uma doença entre os vivos. O acadêmico Robert D. Biggs assinala:

"Os mortos – especialmente os parentes – podiam também atormentar os vivos, particularmente se as obrigações familiares do fornecimento de oferendas a eles fossem neglicenciadas. Especialmente passíveis de retorno para afligir os vivos estavam os fantasmas de pessoas que tivessem morrido de mortes antinaturais ou que não fossem sepultados apropriadamente - por exemplo, a morte por afogamento ou no campo de batalha."

Os médicos da Mesopotâmia, conhecidos como Asu e Asipu, empregavam feitiços que aplacariam os fantasmas mas, antes que tal tratamento começasse, eles pediriam ao paciente para confessar honestamente quaisquer pecados que pudessem ter atraído o fantasma de volta do submundo. Na Mesopotâmia, as doenças eram consideradas uma manifestação externa da punição dos deuses ou dos espíritos dos falecidos por algum pecado. Presumia-se que quem os doentes seriam responsáveis pela falta até que se provasse o contrário.

Após a morte de alguém, surgia uma entidade espiritual conhecida como Gidim, que mantinha uma identidade pessoal com o falecido e viajava para a terra dos mortos. Seria esse Gidim que retornaria para assombrar os vivos caso os ritos funerários e sepultamento não tivessem sido realizados apropriadamente ou se houvesse algum ato ilegal relacionado à morte da pessoa. As inscrições deixam claro, porém, que algumas vezes o Gidim, perversamente, escapava de Irkalla para visitar a terra e molestava os vivos sem nenhuma razão especial.

Estes espíritos corriam o risco de serem punidos pelo deus solar Shamash, que transferiria as oferendas funerárias feitas a eles e as concedia a um Gidim que não tinha quem os lembrasse na terra e que, portanto, não dispunha de oferendas para a continuidade de sua existência. Ainda que haja registros de pessoas amadas retornando da vida após a morte com avisos ou conselhos, a maioria dos fantasmas da Mesopotâmia eram convidados incômodos que precisavam ser enviados de volta ao seu reino com o uso de encantamentos, amuletos, orações e exorcismo.

Fantasmas Egípcios

No antigo Egito, o retorno de um fantasma também era considerado uma questão muito séria. Os egípcios viam a não-existência como intolerável. Acreditava-se que, com a morte, a alma viajava para o Salão da Verdade, onde era julgada por Osíris e os Quarenta e Dois Juízes. Seu coração era pesado numa balança que tinha num dos pratos a pena branca da verdade; se fosse mais leve do que a pena, a alma prosseguia para a vida após a morte; se fosse mais pesado, era atirado ao chão e devorado pelo monstro Amut, fazendo com que a alma cessasse de existir.


O coração de alguém seria mais leve se tivesse vivido uma vida correta e mais pesado caso isso não tivesse ocorrido. A vida após a morte era conhecida como o Campo dos Juncos, uma imagem em espelho da vida terrena no Egito. Quem chegasse lá poderia desfrutar da casa que conhecia, do riacho que passava por ela, sua árvore e cão favoritos e, portanto, não havia razão para uma alma querer retornar à terra, a não ser por um motivo muito poderoso.

Nas épocas mais antigas do Egito, a alma era vista como uma entidade singular, chamada de Khu, o aspecto imortal de cada indivíduo mas, posteriormente, esta concepção se alterou e a alma passou a ser composta por nove diferentes componentes. Dois destes componentes, o Ba e Ka (espírito e personalidade), reuniam-se após a morte na forma do Akh, a entidade que retornaria como um fantasma. Se os ritos adequados não tivessem sido observados, ou algum pecado cometido pelos vivos seja antes ou depois da morte da pessoa, o Akh recebia a autorização dos deuses para retornar à terra a fim de corrigir o erro.

Os vivos atormentados pelo fantasma teriam de apelar diretamente ao espírito retornado na esperança de uma resposta razoável e, se isso não funcionasse, precisariam da intervenção de um sacerdote, que atuaria como um juiz entre os vivos e o morto. Um exemplo disso poderia ser como, quando alguma desgraça acontecia a um viúvo, sua causa era primeiro atribuída a algum "pecado" que ele tivesse ocultado de sua esposa. Ao chegar ao Campo dos Juncos e ter um conhecimento total sobre os fatos, ela então puniria o infrator. Numa carta de um viúvo para sua esposa falecida, encontrada numa tumba da época do Novo Reinado, o homem apela para o espírito de sua esposa para deixá-lo em paz, já que era inocente de qualquer malfeito:

"Qual coisa maligna teria eu feito a ti para suportar tanta maldade? O que fiz a ti? Mas o que fizeste a mim é colocar as mãos em mim, embora não tenha feito nada maligno a ti. Desde quando vivi contigo como teu marido até hoje, o que fiz a ti que precisaria esconder? Quando tu caíste doente, chamei um grande médico... Passei oito meses sem comer e beber como um homem. Chorei muito, junto com todos da minha casa, em plena rua. Dei roupas de linho para envolver-te e não deixei nenhum benefício para ti sem ser realizado. E agora, veja só, passei três anos sozinho sem entrar numa casa, embora não seja certo que alguém como eu devesse fazê-lo. Isso é o que fiz em tua memória. Mas, veja só, tu não sabes distinguir o bom do ruim. 

Se sepultado apropriadamente com os ritos adequados e relembrado continuamente, os espíritos dos mortos podiam trazer grandes benefícios para os vivos e protegê-los por toda a sua existência. Havia uma diferença significativa, porém, na compreensão egípcia de um "espírito" que residia pacificamente no Campo dos Juncos e um "fantasma" que retornava à terra.

Fantasmas na Grécia e Roma

Na antiga Grécia, a vida após a morte consistia em três reinos distintos. Quando alguém morria, uma moeda seria colocada em sua boca para pagar o barqueiro Caronte, que transportaria a alma através do rio Styx. Esta moeda não representava exatamente um “pagamento”, e sim um sinal de respeito entre a alma e os deuses – quando maior fosse seu valor, melhor seria o banco que ela conseguiria na barca de Caronte.

Uma vez que estivesse do outro lado, seria necessário passar pelo cão de três cabeças, Cérbero, e então ficar diante de três juízes para fazer um relato da sua vida. Após a história ter sido contada e os juízes conferenciarem, a alma receberia um copo com água do Rio Lete, as águas do esquecimento, o que apagaria todas as lembranças da sua antiga vida na Terra.

Os juízes designariam então um lugar para a alma: se você tivesse sido um guerreiro que morreu em batalha, iria para os Campos Elísios, um paraíso; se fosse simplesmente uma boa pessoa em vida, seu destino seria a Campo de Asfódelos, também agradável; se, ao contrário, tivesse sido uma má pessoa, então iria para a escuridão do Tártaro, onde as almas permaneciam até que expiassem os pecados cometidos em vida. Nenhuma alma “estava condenada à danação eterna”. Com o tempo, a alma no Tártaro poderia se elevar ao Campo de Asfódelos. A exemplo das culturas da Mesopotâmia e Egito, não se esperava que os mortos retornassem à terra por qualquer razão, mas algumas vezes isso acabava acontecendo. A cultura romana adotava este paradigma básico e tinha uma crença muito mais profunda em fantasmas do que os gregos.

Na comédia Mostellaria (A Casa Assombrada), o comediógrafo romano Plauto conta a história de um rico comerciante ateniense chamado Teopropride, que viaja a negócios e deixa sua casa aos cuidados do filho, Filolache. Este vê a oportunidade de desfrutar da vida ao máximo na ausência do pai, em vez de se mostrar um gerente responsável, e faz um vultoso empréstimo para comprar a liberdade de sua amada, uma escrava. Além disso, gasta ainda mais dinheiro para promover uma grande festa para seus amigos na casa do pai.

Tudo corre bem para Filolache até que seu escravo, Trânio, avisa que soube do retorno inesperado de Teopropride, que logo estará de volta à cidade. O filho entra em pânico, sem saber o que fazer com seus convidados ou como explicará as despesas desmedidas, mas Trânio lhe garante que tudo ficará bem. Ele tranca Filolache e seus convidados na casa e encontra-se com Teopropide do lado de fora, dizendo-lhe que ele não pode entrar porque se descobriu que a residência está assombrada. Segundo seu relato, um fantasma apareceu a Filolache num sonho, no meio da noite, enquanto as tochas ainda estão acesas, e lhe informou que tinha sido assassinado ali, muito tempo atrás, por um anfitrião maligno, que o matou para roubar seu ouro. Trânio acrescenta que o cadáver do homem assassinado ainda está escondido na casa, motivo pelo qual há um risco para qualquer um que ouse entrar.

Teopropide acredita completamente na história e se desespera por não saber onde vai viver dali por diante. Um agiota aparece então, exigindo o pagamento pelo empréstimo feito por Filolache para comprar a escrava, e Trânio explica que o dinheiro foi usado para comprar a casa vizinha, já que a residência da família está inabitável. Mesmo quando Teopropide vai até a casa vizinha e fala com Simo, o proprietário – que nega tê-la vendido para Filolache –, o comerciante ainda não mostra sinais de dúvida sobre a história do fantasma.

Entendia-se que os fantasmas na antiga Roma apareceriam de certos modos previsíveis e, geralmente, em certas horas da noite. O historiador D. Felton observa que o público que se divertiu com Mostellaria acharia a história de fantasma improvisada de Trânio hilariante porque não concordava com o que as pessoas sabiam ser verdade em casos de assombração: o fantasma de um homem assassinado apareceria num aposento iluminado por uma tocha (desde que fantasmas não podiam ser vistos sem algum tipo de luz), mas não apareceriam num sonho, a não ser que fosse um amigo ou pessoa amada.

Fantasmas que apareciam em sonhos eram considerados um tipo completamente diferente de espírito de um "inquieto" que teria sofrido uma morte injusta ou antinatural e sem os ritos apropriados de sepultamento. Na sua pressa em elaborar uma história para o mestre da casa, Trânio confunde dois tipos diferentes de fantasmas e, conforme assinala Felton, o público daquele tempo acharia esta confusão hilariante.

Uma interessante mudança neste paradigma é a história da donzela Philinnion, conforme o relato de Flégon de Trales (século II) e, mais tarde, Proclo (século V). Philinnion é casada com um dos grandes generais de Alexandre, o Grande, Cratero, e morre após seis meses de matrimônio. Ela retorna à vida e visita um jovem chamado Machate todas as noites, em seu aposento na casa dos pais da falecida. Quando é descoberta pelos pais, ela explica que foi libertada do submundo para um propósito específico e então morre pela segunda vez.

A historiadora Kelly E. Shannon, entre outros, destaca que Flégon não mede esforços para autenticar a história, apresentando-a como um relato em primeira pessoa, na forma de uma carta relativa a um evento histórico que aconteceu num lugar específico (Anfípolis) numa certa época (durante o reinado de Filipe II da Macedônia), sem, no entanto, entrar em muitos detalhes para evitar que um leitor familiarizado com o lugar e a época colocasse o relato em dúvida. Shannon acrescenta:

"No que seria razoável um leitor acreditar? A literatura romana é repleta de criaturas, objetos e ocorrências estranhas e inexplicáveis, desde centauros até aparições fantasmagóricas, passando por erupções vulcânicas. E eles não estão confinados ao mundo do mito. Relatos sobre a natureza frequentemente focam em fenômenos que podem parecer bizarros ou impossíveis: autores como Plínio, o Velho apresentam como fatos coisas que um público moderno e racional acharia difícil ou mesmo impossível de levar a sério. 

Este fenômeno mencionado por Shannon, chamado pelos romanos de mirabilia (maravilhas ou milages), incluem bestas falantes, mulheres-espírito incrivelmente altas, visões dos deuses e fantasmas. Entre os milagres mais famosos está o conto de Plínio, o Jovem (61-115), que traz a história do filósofo Atenodoro, que vem para Atenas e ouve falar a respeito de uma casa assombrada, muito barata porque todos receiam o fantasma que nela vive. Atenodoro aluga a casa e, naquela noite, ouve um balançar de correntes e acorda para encontrar um homem em seu aposento que gesticula para que ele se levante e venha com ele. O filósofo segue o fantasma até o quintal da casa, onde o espírito repentinamente se desvanece no ar.

No dia seguinte, Atenodoro pede ao magistrado da cidade para cavar um buraco naquele ponto exato, onde eles encontram os restos mortais de um homem acorrentado. Após o sepultamento com os rituais apropriados, a casa deixa de ser assombrada. Esta história é típica de um lugar mal-assombrado no qual um espírito aparece para buscar reparação por um erro. O sepultamento inadequado dos mortos - ou a falta de túmulo - era considerada a principal razão para o retorno de um espírito da vida após a morte, acima, inclusive, do desejo de um espírito de ter sua morte vingada.

A possibilidade de um espírito retornar para pedir a uma pessoa amada para vingar sua morte é ilustrada por um conto relatado por Apuleio, no qual um homem chamado Trasilo se apaixona pela esposa de seu amigo, Tlepolemo, e o mata durante uma caçada. O espírito de Tlepolemo aparece para sua esposa num sonho, conta-lhe como morreu e pede a ela para vingá-lo. Trasilo queria cortejá-la, mas ela recusara o pedido porque ainda estava de luto. Agora, porém, ela diz ao pretendente que ele pode visitá-la naquela noite. A viúva oferece ao visitante vinho misturado com uma droga e, quando Trasilo cai num estupor, ela o cega com seu grampo de cabelo, declarando que a morte é uma punição muito branda para tal crime: a partir daquele momento, o assassino deveria vaguear pela vida sem ver o mundo. Em seguida, ela vai até a tumba do marido, revela a história de sua morte e tira a própria vida com a espada do falecido. A seu próprio pedido, Trasilo é encerrado na tumba de Tlepolemo e morre de fome.

Estas são as duas principais maneiras pelas quais o público da época entendia que os fantasmas se manifestariam (embora não fossem as únicas formas), seja em sonhos ou em aparições físicas, geralmente com alguma relação a problemas da sua morte – o mesmo paradigma observado em outras culturas.

Fantasmas na China e Índia

Na cultura chinesa, o espírito de uma pessoa que tivesse se afogado, morrido sozinha ou em batalha ou sofrido algum tipo de morte que resultasse no corpo insepulto apareceria fisicamente, mas somente poderia ser vista à noite, sob a luz de tochas. O espírito de um ancestral que quisesse relatar alguma informação ou dar um aviso apareceria num sonho.

O filósofo Mo Ti (v. 470-391 a.C.) considerava os fantasmas uma realidade e argumentava de forma favorável à aceitação do relato do fantasma do ministro Tu Po, que teria voltado do além-túmulo para matar Xuan, o rei de Zhou. Ele raciocina que quando uma pessoa ensina a operar uma máquina qualquer, com a qual não se está familiarizado, ou quando se fala sobre uma região da qual nada se conhece, deve-se aceitar o que é dito caso seja um relato crível e feito por testemunhas confiáveis.

Acompanhando esta linha de raciocínio, o que se diz sobre fantasmas deveria ser aceito se aqueles que relatam as histórias são confiáveis no que afirmam sobre outras coisas que podem ser verificadas. Como os relatos históricos antigos, bem como contemporâneos do seu tempo, contêm referências a fantasmas, devem ser aceitos como realidade - da mesma forma como se reconhece a história estabelecida e notícias do dia -, ainda que não se tenha vivido a experiência pessoalmente.

A crença chinesa em fantasmas era fortemente influenciada pela prática do culto aos ancestrais, pois acreditava-se que os falecidos continuariam a exercer um poderoso efeito no cotidiano dos vivos. Como em outras culturas mencionadas, os espíritos dos mortos podiam beneficiar os vivos, exceto se o sepultamento e ritos funerários tivessem sido inapropriados ou inexistentes, o que seria motivo suficiente para uma autorização dos céus com o objetivo de corrigir o erro.

O Festival dos Fantasmas, cujo objetivo é homenagear e apaziguar os mortos, continua a ser realizado no décimo-quinto dia do sétimo mês do ano Conhecido como o "Mês dos Fantasmas". Este período caracteriza-se pela redução ao mínimo do véu entre o reino dos vivos e dos mortos, o que permitiria aos últimos cruzarem a fronteira mais facilmente (semelhante ao conceito do Samhain celta e do festival mesoamericano conhecido como Dia dos Mortos). Durante o Festival dos Fantasmas, as pessoas deixavam alimentos e presentes para os falecidos, na esperança de que eles permanecessem em seu próprio reino e não viessem atormentar os vivos.

O além-túmulo chinês começava com uma jornada na qual a alma atravessava uma ponte sobre um abismo, onde era julgada. Se fosse considerada merecedora, prosseguia, parava num pavilhão para contemplar a terra dos vivos uma última vez e então bebia um copo de uma mistura chamada Mengpo Soup, que a fazia esquecer completamente da vida terrena. A cultura sobre fantasmas da China diverge nesse ponto sobre o que acontece com a alma a seguir: conforme algumas obras, a alma vai para o céu; conforme outras, reincarna. Se a alma é considerada indigna quando cruza a ponte, cai para o inferno, onde vai permanecer. Em qualquer dos casos, não se espera que a alma retorne para o mundo dos vivos e, se isso acontece e não é um ancestral aparecendo num sonho com avisos ou conselhos, certamente há forças malignas envolvidas.

Isso é exemplificado na história de Ning Caicheng e Nie Xiaoqian, relatada no livro de histórias de Pu Songling (1680). Acredita-se que ela seja muito mais antiga do que o século XVII e o enredo traz a visita de Ning a um templo, onde ele é visitado pelo fantasma da donzela Nie. Ela tenta seduzi-lo, mas ele resiste devido à crença numa conduta virtuosa. Dois outros viajantes que visitaram o templo são encontrados mortos na manhã seguinte, com buracos abertos nas solas dos pés e seu sangue drenado.

Nie respeita a virtude de Ning ao resistir aos avanços e lhe conta que ela morreu no templo quanto tinha apenas 18 anos e ficou sob controle de um demônio monstruoso que habitava o terreno onde foi sepultada. Este monstro exigia que ela seduzisse viajantes e drenasse o sangue das vítimas para alimentá-lo. Ning desenterra os restos mortais de Nie e os leva para casa, onde realiza um sepultamento adequado próximo à sua casa, fazendo libações no túmulo como sinal de respeito e homenagem. Após realizar os rituais funerários apropriados para a jovem, ele se vira para ir embora, mas ela o chama. Ning descobre então que ela retornou à vida devido à sua conduta virtuosa e seus esforços para sepultá-la de forma correta. Eles se casam e, segundo a lenda, vivem felizes para sempre e têm vários filhos.

As histórias de fantasmas chinesas quase sempre possuem uma moral nos moldes da Lenda de Ning e Nie e enfatizam o comportamento virtuoso e gentileza para com os outros. O próprio Confúcio acreditava na eficácia destas histórias porque sentia que as lições aprendidas de encontros sobrenaturais poderiam instilar virtudes apropriadas nos vivos. Isso seria verdade até no caso dos encontros com os chamados Fantasmas Famintos, espíritos cujos parentes tinham se esquecido de seus deveres de respeito e recordação ou aqueles que tivessem sido assassinados sem que os responsáveis fossem levados à justiça. Acreditava-se que os Fantasmas Famintos recebiam uma autorização especial dos deuses para atormentar os vivos até que recebessem o que lhes era devido. Eles poderiam assombrar os vivos ou habitar a casa e se comportar de acordo com o familiar poltergeist.

Isso também se aplicava à Índia, onde os fantasmas dos falecidos eram vistos como um tipo de Fantasmas Famintos. Chamados de Bhuta na antiga (e moderna) Índia, apareciam como humanos, mas com pés ao contrário, e mudavam de aparência sem aviso. Os pés ao contrário simbolizavam que alguma coisa estava errada, que o espírito estava numa condição antinatural. Os Bhutas se materializavam quando a pessoa morria antes do seu tempo estabelecido de permanência na terra. Desde que estavam incapazes de desfrutar de suas vidas na plenitude, eles voltavam à terra na esperança de possuir o corpo de alguém.

A possessão fantasmagórica, incluindo o espírito reanimando seu próprio cadáver, era uma grande preocupação na antiga Índia. Alguns estudiosos sustentam que isso levou à prática da cremação dos falecidos. Se o cadáver fosse cremado, o espírito não poderia retornar para reanimá-lo. Além disso, queimavam-se certas especiarias, junto com o uso de amuletos e orações, para proteger os vivos da possessão fantasmagórica do espírito incapaz de reanimar seu antigo corpo.

Desde que estes espíritos morreram antes de seu tempo devido, sentiam-se infelizes e geralmente zangados. Acreditava-se que os fantasmas causavam múltiplos problemas quando se manifestavam fisicamente mas, como em outras culturas, eram considerados benéficos quando apareciam em sonhos e se tratava de alguém conhecido, especialmente um parente.

Um Bhuta particularmente perigoso chamava-se churail, o espírito de uma mulher morta ao dar à luz. Ele seria encontrado em encruzilhadas e esquinas e tentaria fazer amizade com os vivos. Se fosse uma mulher, a churail iria atrás das suas crianças e ou tentaria possuir seu corpo; no caso de um alvo masculino, o espírito procuraria seduzi-lo e matá-lo. Uma vez que o Bhuta (mesmo uma churail) tivesse vivido o seu tempo previsto na terra, deixaria o mundo dos vivos e voltaria à fila da reencarnação.

A crença indiana na existência além-túmulo relativa à transmigração das almas ditava que os falecidos fossem julgados conforme seus atos terrenos, o que determinaria sua destinação acima ou abaixo na hierarquia espiritual na próxima encarnação. Parece, porém, que isso não acontecia com todas as almas, desde que há histórias envolvendo regiões, casas ou mesmo cidades assombradas onde os fantasmas teriam estado presentes por muitos séculos.

O mais famoso destes locais é o Forte Bangarh, em Rajasthan, uma cidade abandonada que seria habitada por fantasmas. Construída no período do Império Mughal, em 1573, era, segundo a lenda, uma localidade próspera até ser amaldiçoada por um ermitão recluso que vivia nas vizinhanças. Numa versão da história, este ermitão era um sábio que teria dado sua benção para a construção da cidade, sob a condição de que nenhuma das construções fosse tão alta a ponto de lançar uma sombra sobre sua casa, situada numa colina, bloqueando a luz solar. Os construtores originais respeitaram esse pedido mas, posteriormente, ele foi esquecido e acréscimos feitos ao palácio fizeram com que a sombra alcançasse a residência do ermitão. Ele amaldiçoou a cidade e seus habitantes por sua falta de consideração e, em apenas uma noite, todos os andares superiores das construções foram destruídos. Quem sobreviveu abandonou o local e construiu uma nova cidade nas proximidades, também chamada Bangarth.

Outra versão da história envolve a bela princesa Ratnavi e o maligno mago Baba Balnath. Ele estava apaixonado pela princesa, mas sabia que ela jamais corresponderia aos seus sentimentos. O mago então preparou uma poção do amor que faria a princesa ficar atraída poderosamente por ele, e a disfarçou como um perfume, que lhe foi entregue, como um presente, quando se encontraram no mercado. Ratnavi suspeitou que o frasco contivesse alguma coisa além de um perfume e derramou o conteúdo numa rocha próxima que, por causa dos poderes mágicos de atração, rolou diretamente em direção ao mago e o esmagou.

À beira da morte, Baba Balnath amaldiçoou Ratnavi e toda a cidade e jurou que ninguém viveria no interior de seus muros novamente. Como na primeira versão, a cidade foi abandonada numa única noite após alguma catástrofe e, confirmando a maldição, jamais foi habitada novamente – pelos vivos, ao menos. Acredita-se que os mortos, porém, ainda residem em Forte Bangarth e há relatos nos dias atuais de pessoas alegando ter ouvido vozes espectrais, gargalhadas na velha casa de banho, passos e há quem diga ter visto luzes movendo-se pela cidade e até mesmo o espírito da própria princesa Ratnavi.

Fantasmas Mesoamericanos

No sistema de crenças maias, fantasmas que se demoram, tais como aqueles que habitariam Forte Bangarth, eram intoleráveis e precisavam ser mantidos à distância através de encantamentos e amuletos ou conduzidos de volta ao submundo através da intercessão de um Daykeeper (Guardião do Dia), um tipo de xamã. Esta noção da vida além-túmulo parecia-se muito com a das civilizações da Mesopotâmia, segundo a qual o submundo seria um local sombrio e terrível, mas os maias foram além: no submundo maia (chamado de Xibalba ou Metnal) havia numerosos Senhores dos Mortos que poderiam enganar as almas dos falecidos que tentavam encontrar seu caminho rumo ao paraíso.

Uma vez que a alma descia para este mundo subterrâneo, seria uma jornada da qual não havia retorno. Fantasmas, como nas demais culturas mencionadas, não deviam voltar para a esfera terrena. O espírito poderia deixar o corpo e ser conduzido através de uma grande extensão de água pelo espírito de um cão, que ajudaria a alma a navegar entre as jornadas e armadilhas dos Senhores de Xibalba até chegar à Árvore da Vida, que precisaria escalar para alcançar o paraíso.

Os espíritos que retornavam, portanto, eram considerados antinaturais a não ser, como em outras culturas, que aparecessem em sonhos e fossem reconhecidos como amigos ou membros da família (embora isso nem sempre fosse o caso). Os maias preferiam acreditar que os mortos que não encontravam o descanso eterno retornariam na forma de plantas, que tanto podiam ser benéficas ou maléficas.

O melhor exemplo desta crença é a Lenda de Xtabay, que conta a história de duas belas mulheres, Xkeban e Utz-Colel. Xkeban era maltratada pelo povo respeitável do povoado porque tinha feito sexo com um homem fora do casamento, mas os mais pobres a adoravam por causa de sua bondade e gentileza. Utz-Colel era altamente respeitada pelos mais ricos porque vinha de uma boa família e observava toda a etiqueta social adequada; em compensação, tinha um coração duro e cruel e não se importava com ninguém além de si mesma.

Certo dia, uma flagrância estranha e intoxicante tomou conta da vila e, quando os pobres buscaram sua origem, chegaram à cabana de Xkeban e a encontraram morta. A adorável flagrância emanava de seu corpo. Eles a sepultaram e, no dia seguinte, belas flores selvagens foram descobertas sobre seu túmulo, com o mesmo perfume sentido no dia anterior.

Logo a seguir, Utz-Colel morreu – e de seu corpo subiu um odor terrível. O povo respeitável do povoado a sepultou com grande cerimônia, como uma boa e nobre mulher, com muitas flores. No dia seguinte, porém, as flores tinham murchado e morrido. De seu túmulo cresceu a flor conhecida como Tzacam, que não tem perfume, enquanto da sepultura de Xkeban cresceu a flor Xtabentun, com um doce perfume. As almas correspondentes das duas mulheres se fundiram às respectivas flores.

Quanto Utz-Colel descobriu que era uma flor espinhosa sem perfume, ficou com ciúmes de Xkeban e convenceu-se de que o pecado amoroso da rival teria lhe trazido tal recompensa. Ela fez um acordo com os espíritos sombrios de Xibalba para trazê-la de volta à vida, de forma que pudesse fazer sexo com qualquer um que lhe agradasse e, assim, receber as mesmas bençãos de Xkeban. Utz-Colel não compreendia, no entanto, que era movida apenas pela ambição, enquanto que Xkeban tinha sido motivada por amor. Então, ela retornou à terra como Xtabay, a flor que cresce do cacto Tzacam mas, algumas vezes, assumia a forma humana e esperava por viajantes em encruzilhadas. Se um homem lhe desse atenção, ela o seduziria e o mataria. Se o viajante fosse uma mulher, seria punida por afligir sua tranquilidade.

Nas crenças astecas há uma entidade similar, que se parece muito com as churails da Índia. O espírito asteca, chamado Cihuateteo, é o fantasma de uma mulher que morreu ao dar à luz. Estes espíritos também assombravam encruzilhadas mas ignoravam os viajantes; esperavam mulheres com crianças e então derrubavam a mulher e roubavam seus filhos. Também se acreditava que elas conseguiriam se esgueirar para dentro das casas à noite para abduzir crianças.

Amuletos e encantamentos seriam penduradas nas entradas e janelas para afastar a cihuateteo. No sistema asteca de crenças, fantasmas seriam também hóspedes indesejados, que só traziam más notícias ou serviam como presságios de desgraças. Como os maias, os astecas consideravam o além-túmulo como um local sombrio e sem retorno. Se um espírito voltasse, seria uma clara indicação de que alguma coisa estava errada ou que havia problemas à vista.

Como os maias e tarascanos, os astecas acreditavam que os cachorros podiam ver e proteger as pessoas contra fantasmas. Assim, eles sepultavam os falecidos com cães que serviriam à alma na vida após a morte, bem como a guiaria através do submundo, protegendo-a contra os espíritos malignos. Os tarascanos temiam profundamente os fantasmas em geral e, dessa forma, desenvolveram o conceito do cão espírito.

Acreditava-se que os fantasmas eram os espíritos daqueles que tinham sido sepultados de forma imprópria, morrido sozinhos numa caçada e nunca encontrados e também dos afogados. Eles voltariam para assombrar os vivos até que seus corpos fossem descobertos e enterrados adequadamente, de acordo com o cerimonial funerário. O problema, claro, era que os cadáveres poderiam não ser encontrados. Nesses casos, os tarascanos consideravam que um cão espírito poderia descobrir o corpo e conduzir a alma para a vida além-túmulo, evitando que atormentasse os vivos.

Os mortos eram celebrados nas culturas mesoamericanas em vez de pranteados, o que deu origem ao evento conhecido hoje como O Dia dos Mortos (El Dia de los Muertos). A comunidade se reúne nesta ocasião para relembrar os que passaram para o outro lado e para homenagear suas vidas. Originalmente, os astecas honravam a deusa do submundo, Mictecacihuatl, durante este festival, e também as almas das crianças e adultos falecidos. O festival costumava acontecer durante o período da colheita do milho (final de Julho e decorrer de Agosto) mas, após a conquista espanhola, mudou para Novembro, para coincidir com o Dia de Todos os Santos da igreja católica.

Fantasmas Celtas

Esta mudança de estação do Dia dos Mortos na Mesoamérica ocorreu devido à política católica de "cristianização" dos festivais pagãos existentes. Uma celebração similar, observada em locais da Europa setentrional como Irlanda, Escócia e Gales, é conhecida como Samhain (pronuncia-se sou-uen). Os pagãos destas regiões viam a vida como cíclica e não linear e portanto os anos giravam, como uma roda. Samhain era o fim de um ciclo e o início do próximo e acreditava-se que, nesta época, o véu entre os vivos e os mortos afinava-se, o que permitiria aos falecidos voltar à vida.

Isso acontecia no final de Outubro e início de Novembro, tradicionalmente começando no pôr do sol em 31 de Outubro e indo até 2 de Novembro (embora em alguns casos a celebração ocorresse por uma semana antes de 31 de Outubro e uma semana após). Ainda que muitas fontes modernas da Internet e algumas séries populares de TV dos Estados Unidos afirmem que Samhain era o deus celta dos mortos, a quem seriam dedicados sacrifícios no dia 31 de Outubro, isso não é verdade. Jamais houve um deus celta dos mortos chamado de Sam Hain. "Samhain" simplesmente significa "o fim do verão" na linguagem celta.

Conforme a crença dos celtas, os mortos caminhavam livremente pelo mundo dos vivos neste período e as pessoas preparavam refeições que seus amigos e parentes falecidos apreciavam em vida. Samhain era uma celebração importante, a ocasião em que se fazia a colheita, o gado era morto e salgado para o inverno e os ossos eram queimados, uma prática que deu origem aos bone fires, atualmente conhecidos como "bonfires" [fogueiras].

O lado sombrio de Samhain, porém, residia nos mortos inquietos (como os Fantasmas Famintos chineses), também lives para vaguear. Por isso, as pessoas iniciaram a prática de usar máscaras para não serem reconhecidas por um espírito que quisesse prejudicá-las. Este costume evoluiu para a comemoração moderna do Halloween.

O Império Romano tinha conquistado a maior parte das regiões célticas no século I e, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do império, no século IV, a igreja incorporou muitos feriados pagãos em seu calendário. Devido à popularidade de Samhain, foi incluído pela igreja como Allhallows ou Hallowmas, que se tornou o Dia de Todas as Almas e depois o Dia de Todos os Santos, época em que se orava pelas almas dos mortos no purgatório. Como Samhain na Europa, o mesmo ocorreu com o Dia dos Mortos no México; os festivais pagãos viraram efemérides do calendário cristão.

Conclusão

Ainda que a crença de que os mortos podiam retornar à terra no Dia de Todos os Santos persistisse, mudou quando a visão cristã da vida além-túmulo cresceu em popularidade e os fantasmas ficaram relacionados a demônios e o diabo. A Bíblia menciona fantasmas em passagens como Mateus 14:25-27, Marcos 6:48-50 e Lucas 24:37:39. Entre as mais famosas citações referentes a fantasmas está a de I Samuel 28:7-20, na qual o Rei Saul vai até a Bruxa de Endor e pede para que ela conjure o fantasma de Samuel, sem antigo conselheiro e um profeta de Deus. Por causa disso, Saul perde o favoritismo de Deus por preferir consultar um espírito sobre o que fazer, em vez de confiar seu destino a Deus.

Os fantasmas, e especialmente a conjuração de espíritos, assumiu uma conotação negativa à medida que o cristianismo ganhava mais adeptos. A passagem em Marcos 6 também é interpretada como uma representação negativa de fantasmas, pois os discípulos pensam que Jesus é um fantasma quando o veem caminhando sobre as águas. Fantasmas não podiam caminhar sobre as águas, somente deuses e aqueles que eram divinos e, portanto, quando o confundem com um espírito, isso mostraria sua dificuldade em receber a mensagem de salvação de Jesus. O estudioso Jason Robert Combs assinala como o autor de Marcos sabia que sua audiência reconheceria o simbolismo do fantasma. Ele escreve:

"Deuses e homens divinos caminham sobre as águas; fantasmas não. Mas quando os discípulos veem Jesus caminhando sobre as águas, eles acreditam no impossível ao invés do óbvio. A inclusão de Marcos deste absurdo, “porque eles o viram caminhando sobre o mar pensaram que era um fantasma” (6:49), enfatiza de forma dramática a interpretação equivocada do messianismo de Jesus. 

O autor de Marcos continuamente destaca que os discípulos falhavam em reconhecer quem era Jesus e sua missão. O uso do termo fantasma logo no início do livro faria este ponto claro para o público da época, conhecedor do fato de que um espírito não poderia caminhar sobre as águas e que, além disso, a água costumava ser empregada para afugentá-los. O livro bíblico de I João 4:1 declara que se deveria testar todos os espíritos para verificar se eram de Deus e não acreditar que cada espírito seria o que aparentava. Esta passagem, somada à crença expressada em Marcos, I Samuel e outros, encorajou uma conotação ainda mais negativa dos fantasmas do que as pessoas tinham anteriormente.

Embora os fantasmas não tenham sido sempre considerados como indesejados e antinaturais, estavam agora ligados ao demoníaco e vistos como agentes do diabo. As pessoas eram encorajadas a rejeitá-los já que, quando morriam, suas almas iriam para o céu, inferno ou purgatório, sem retornarem à terra. Se alguém via um fantasma, então, assumiria que se tratava de um truque do diabo para atrair a alma para o inferno, ao trazer dúvidas sobre a ordem divina de Deus.

Esta atitude sobre os fantasmas é explorada com fins dramáticos na obra de Shakespeare Hamlet, quando o príncipe dinamarquês duvida que o fantasma que viu seja realmente do seu pai voltando do além-túmulo e diz: "O espirito que eu vi/Pode ser um demônio, e o demônio tem poder/Para assumir uma forma agradável,sim, e talvez/Pela minha fraqueza e melancolia/Como ele é potente com tais espíritos/Provocar minha danação" (II.ii. 610-615). Esta visão dos fantasmas alterou completamente a velha concepção de que eles eram almas dos falecidos e, uma vez que eram demoníacos, desencorajava-se a crença em tais seres.

Com o tempo, uma crescente confiança no secular e mais “científico” modo de ver o mundo completou o trabalho iniciado pela igreja e relegou os fantasmas ao reino da superstição e ficção. A julgar pelo número de websites e livros devotados ao assunto, há muitos interessados no tema dos fantasmas nos dias atuais mas, em termos gerais, a crença não é encorajada culturalmente; uma situação exatamente oposta à posição dos fantasmas no mundo antigo.

O jornalista John Keel, que investigou muitos dos chamados eventos paranormais e é mais conhecido pela sua obra The Mothman Prophecies (As Profecias do Homem-Mariposa), afirmou certa vez que não existe o “paranormal” ou “sobrenatural”. Após citar vários estranhos eventos que pessoas teriam experimentado durante a história, Keel observa que o que as pessoas atualmente chamam de “paranormal” ou “sobrenatural” são na verdade aspectos normais e naturais da vida na terra.

O mundo dos espíritos, fantasmas e almas aparecendo do além-túmulo, de acordo com ele, podem ser tão reais hoje quando eram para as pessoas do mundo antigo; a razão pela qual não mais se aceitam fantasmas como uma parte da vida é simplesmente porque o mundo que opera desta forma não é mais reconhecido como válido. Um novo paradigma de como o mundo funcionava nasceu com o cristianismo e depois com a aceitação de uma visão secular do universo. Com isso, os fantasmas foram distanciados ainda mais do reino dos vivos até que, finalmente, eles perderam seu vigor e se tornaram a matéria-prima de narrativas e lendas.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Divindades da Mesopotâmia Antiga: Evolução, Significado, Imagens

 


Deidades Mesopotâmicas

Ao contrário de algumas religiões monoteístas posteriores, na mitologia mesopotâmica não existia um tratado teológico sistemático sobre a natureza das divindades. O exame de mitos, lendas, textos rituais e imagens antigos revela que a maioria dos deuses era concebida em termos humanos. Eles tinham formas humanas ou semelhantes a humanos, eram masculinos ou femininos, mantinham relações sexuais e reagiam a estímulos com razão e emoção. Por serem semelhantes aos humanos, eram considerados imprevisíveis e, muitas vezes, caprichosos. Suas necessidades de comida e bebida, abrigo e cuidados eram semelhantes às dos humanos. Ao contrário dos humanos, porém, eles eram imortais e, como reis e templos sagrados, possuíam um esplendor chamado melammu. Melammu é um brilho ou aura, um glamour que o deus incorporava. Podia ser temível ou inspirador de admiração. Os templos também tinham melammu. Se um deus descesse ao Mundo Inferior, ele perdia seu melammu. Com exceção da deusa Inanna (Ishtar em acádio), os principais deuses eram masculinos e tinham pelo menos um consorte. Os deuses também tinham famílias.

Ao contrário de algumas religiões monoteístas posteriores, na mitologia mesopotâmica não existia um tratado teológico sistemático sobre a natureza das divindades. O exame de mitos, lendas, textos rituais e imagens antigas revela que a maioria dos deuses era concebida em termos humanos. Eles tinham formas humanas ou semelhantes a humanos, eram masculinos ou femininos, mantinham relações sexuais e reagiam a estímulos com razão e emoção. Por serem semelhantes aos humanos, eram considerados imprevisíveis e, muitas vezes, caprichosos. Suas necessidades de comida e bebida, abrigo e cuidados eram semelhantes às dos humanos. Diferentemente dos humanos, porém, eles eram imortais e, como reis e templos sagrados, possuíam um esplendor chamado melammu. Melammu é um brilho ou aura, um glamour que o deus incorporava. Podia ser temível ou inspirador de reverência. Os templos também possuíam melammu. Se um deus descesse ao Mundo Inferior, perdia seu melammu. Com exceção da deusa Inanna (Ishtar em acádio), os principais deuses eram masculinos e tinham pelo menos uma consorte. Os deuses também tinham famílias.”

Mundo Espiritual Sumério

O sumério não tinha a concepção do que entendemos por deus. Os poderes sobrenaturais que ele adorava ou temia eram espíritos de natureza material. Cada objeto tinha seu zi, ou “espírito”, que o acompanhava como uma sombra, mas, diferentemente de uma sombra, podia agir independentemente do objeto ao qual pertencia. As forças e os fenômenos da natureza eram eles próprios “espíritos”; o raio que atingia o templo, ou o calor que ressecava a vegetação da primavera, eram tão “espíritos” quanto o zi, ou “espírito”, que permitia à flecha atingir seu alvo e matar sua vítima.

Quando o contato com os semitas introduziu a ideia de um deus entre os sumérios, seus poderes e atributos ainda eram concebidos sob a forma de um espírito. O sumério que não havia sido influenciado pelos ensinamentos semitas falava do “espírito do céu” em vez do deus ou deusa do céu, do “espírito de Ea” em vez do próprio Ea, o deus das profundezas. O homem também possuía um zi, ou “espírito”, ligado a si; ​​era a vida que lhe dava movimento e sensação, o princípio da vitalidade que constituía sua existência individual. De fato, foi a manifestação da energia vital no homem e nos animais inferiores que deu origem a toda a concepção do zi.

A força que permite ao ser animado respirar e agir, mover-se e sentir, estendia-se também aos objetos inanimados; se o sol e as estrelas se moviam pelos céus, ou se a flecha voava pelo ar, era pela mesma causa que permitia ao homem andar ou ao pássaro voar. O zi dos sumérios era, portanto, uma contraparte do ka, ou “duplo”, da crença egípcia. A descrição dada pelos estudiosos egípcios do ka aplicar-se-ia igualmente ao zi da crença suméria. Ambos pertencem ao mesmo nível de pensamento religioso; aliás, são tão semelhantes que surge a questão de se a crença egípcia não teria derivado da crença da antiga Suméria.

Mundo Semítico dos Deuses

Completamente diferente era a ideia que fundamentava a concepção semítica de um mundo espiritual. Ele acreditava em um deus à imagem de quem o homem fora criado. Era um deus cujos atributos eram humanos, mas intensificados em poder e ação. A família humana na Terra tinha sua contraparte na família divina no céu. Ao lado do deus estava a deusa, um reflexo incolor do deus, como a mulher ao lado do homem. O par divino era acompanhado por um filho, herdeiro do poder de seu pai e seu representante e intérprete. Assim como o homem estava à frente das coisas criadas neste mundo, também o deus estava à frente de toda a criação. Ele havia trazido todas as coisas à existência e poderia destruí-las se assim o desejasse.

O semita se dirigia ao seu deus como Baal ou Bel, “o senhor”. Era o mesmo título dado ao chefe da família, da esposa ao marido, do servo ao seu senhor. Havia tantos Baalins ou Baals quantos grupos de adoradores. Cada família, cada clã e cada tribo tinha seu próprio Baal, e quando famílias e clãs se desenvolviam em cidades e estados, os Baalins se desenvolviam junto com eles. A forma visível de Baal era o Sol; o Sol era o senhor do céu e, com isso, também da terra e de tudo o que nela havia.

Mas o Sol se apresentava sob dois aspectos. Por um lado, era a fonte de luz e vida, amadurecendo os grãos e fazendo florescer as ervas; por outro, ressecava todos os seres vivos com o calor intenso do verão e destruía tudo o que havia criado. Baal, o deus-Sol, era, portanto, ao mesmo tempo benéfico e malévolo; às vezes olhava favoravelmente para seus adoradores, outras vezes se enfurecia e enviava pragas e infortúnios sobre eles. Mas, sob ambos os aspectos, era essencialmente um deus da natureza, e os ritos com os quais era adorado eram, consequentemente, sensuais e até mesmo provocantes.
Evolução das divindades babilônicas

Essas eram as duas concepções totalmente distintas do divino, da união das quais se formou a religião oficial da Babilônia. A religião popular do país também surgiu delas, embora de forma mais inconsciente. O semita deu ao sumério seus deuses, com seus sacerdotes, templos e cerimônias. O sumério, em troca, ofereceu sua crença em uma infinidade de espíritos, seus amuletos e necromancia, seus feiticeiros e seus livros sagrados. Diferentemente dos deuses dos semitas, os "espíritos" dos sumérios não eram movidos por paixões humanas. Na verdade, não possuíam natureza moral. Assim como os objetos e forças que representavam, eles cercavam a humanidade, sobre a qual infligiam danos ou conferiam benefícios. Mas os danos eram mais frequentes do que os benefícios; a soma do sofrimento e do mal supera a da felicidade neste mundo, especialmente em uma sociedade primitiva.

Assim, os “espíritos” eram temidos como demônios, em vez de serem adorados como poderes do bem, e, em vez de um sacerdote, era necessário um feiticeiro que conhecesse os encantos e encantamentos capazes de afastar sua malevolência ou obrigá-los a servir aos homens. A religião suméria, de fato, era xamanística, como a de algumas tribos siberianas atuais, e seus ministros eram xamãs ou curandeiros versados ​​em feitiçaria e bruxaria, cujos feitiços eram poderosos para repelir os ataques do demônio e expulsá-lo do corpo de sua vítima, ou para invocá-lo em vingança contra o inimigo.

O xamanismo, porém, em sua forma pura e simples, é incompatível com um estado avançado de cultura, e com o passar do tempo a fé xamânica dos sumérios tendeu a uma forma rudimentar de politeísmo. Dentre a multidão de espíritos, dois ou três assumiram uma posição mais dominante do que os demais. O espírito do céu, o espírito da água e, sobretudo, o espírito do mundo subterrâneo, onde os fantasmas dos mortos e os demônios da noite se reuniam, tomaram precedência sobre os outros. Já antes do contato com os semitas, começaram a assumir os atributos de deuses. Templos foram erguidos em sua honra, e onde havia templos, havia também sacerdotes.

Essa transição de certos espíritos para deuses parece ter sido facilitada pelo estudo dos céus e dos corpos celestes, pelo qual os babilônios eram imemorialmente famosos. De qualquer forma, o ideograma que denota “um deus” é uma estrela de oito raios, da qual talvez possamos inferir que, na época da invenção da escrita pictórica que deu origem aos caracteres cuneiformes, os deuses e as estrelas eram idênticos.

Desenvolvimento dos deuses babilônicos e assírios

Morris Jastrow afirmou: “A religião da Babilônia e da Assíria passa, ao longo de seu extenso desenvolvimento, pelas diversas fases da concepção animista da natureza, até chegar à concentração dos Poderes divinos em alguns Seres sobrenaturais. Naturalmente, quando começamos a conhecer a história do Vale do Eufrates, já ultrapassamos o período em que praticamente toda a religião do povo se resumia à personificação dos poderes da natureza e a algumas cerimônias simples que giravam em torno de duas ideias principais: o tabu e o totemismo. A organização até mesmo da forma mais simples de governo, que envolve a divisão da comunidade em pequenos grupos ou clãs, com a autoridade investida em certos indivíduos privilegiados, acarreta, como corolário necessário, uma seleção dentre os vários poderes personificados que se fazem sentir nos incidentes e acidentes da vida cotidiana. Essa seleção leva, em última instância, à formação do panteão.”

“Os deuses que se destacam no culto de uma religião, tanto em suas formas oficiais quanto populares, podem ser definidos como o remanescente do vasto e indefinido número de Poderes reconhecidos universalmente pelo homem primitivo. Enquanto no estágio animista inicial da religião o Poder ou espírito que se manifesta na vida da árvore é colocado no mesmo plano que o espírito que se supõe residir em um riacho, ou com o Poder que se manifesta no calor do sol ou na severidade de uma tempestade, a experiência repetida gradualmente ensina o homem a diferenciar entre os Poderes que afetam sua vida de forma marcante e quase contínua, e aqueles que apenas incidentalmente se impõem à sua atenção. O processo de seleção recebe, como já foi mencionado, um forte impulso com a criação de pequenos grupos, resultantes da expansão da família para a comunidade. Esses dois fatores, a experiência repetida e a evolução social, embora talvez não sejam os únicos envolvidos, constituem os principais elementos no desenvolvimento da vida religiosa de um povo.”

“No caso da religião da Babilônia e da Assíria, encontramos o processo de seleção que leva principalmente ao culto do sol e da lua, do Poder que se manifesta na vegetação e do Poder que se vê nas tempestades e nas massas de água. Sol, lua, vegetação, tempestades e água constituem as forças com as quais o homem entra em contato frequente, senão constante. Sendo a agricultura e o comércio duas atividades primordiais na civilização que se desenvolveu no Vale do Eufrates, é natural que as principais divindades cultuadas nos diversos centros políticos do período mais remoto da história babilônica sejam personificações de um ou outro desses cinco Poderes. As razões para a escolha do sol e da lua são óbvias.”

“Os dois grandes luminares celestes atrairiam um povo mesmo antes de se atingir um estágio de habitação fixa, coincidente com os primórdios da agricultura. Mesmo para o nômade sem lar, a lua serviria de guia em suas andanças e, como medida do tempo, seria destacada entre os Poderes que entram permanente e continuamente na vida do grupo e do indivíduo. Com a transição do estágio nômade inferior para o superior, marcado pela domesticação de animais e a consequente vida pastoril, a vegetação natural dos prados assumiria uma importância maior. Ao chegar o estágio em que o homem não depende mais do que a natureza produz por si só, mas se torna um parceiro ativo na obra da natureza, sua dependência do Poder que reconhece no sol se tornaria mais enfaticamente evidente. A longa experiência lhe ensinará o quanto seu sucesso ou fracasso no cultivo da terra dependerá da benevolência do sol e das chuvas nas tempestades do inverno. Distinguir entre os vários fatores envolvidos na produção de alimentos é fundamental. Sobre o seu bem-estar, ele chegaria à concepção de uma grande tríade: o sol, o poder da vegetação e da fertilidade que reside na terra, e o poder que se manifesta em tempestades e chuvas.

Divindades, poder e natureza na Mesopotâmia

Ira Spar, do Metropolitan Museum of Art, escreveu: “Possuindo poderes maiores que os dos humanos, muitos deuses eram associados a fenômenos astrais como o sol, a lua e as estrelas, outros às forças da natureza como os ventos e as águas doces e oceânicas, outros ainda a animais reais — leões, touros, bois selvagens — e criaturas imaginárias como dragões que cuspiam fogo.

No hino sumério "Enlil no E-Kur", o deus Enlil é descrito como aquele que controla e anima a natureza: "Sem a Grande Montanha Enlil... as carpas não subiriam do mar, não nadariam velozmente. O mar não produziria todos os seus tesouros, nenhum peixe de água doce depositaria seus ovos nos canaviais, nenhuma ave do céu construiria ninhos nas vastas terras; no céu, as nuvens densas não abririam suas bocas; nos campos, o trigo não preencheria as terras aráveis, a vegetação não cresceria exuberante na planície; nos jardins, as árvores frondosas da montanha não dariam frutos."

Como figuras supremas, os deuses eram transcendentes e impressionantes, mas, ao contrário da maioria das concepções modernas do divino, eram distantes. Temidos e admirados, em vez de amados, os grandes deuses eram reverenciados e louvados como mestres. Podiam demonstrar bondade, mas também eram inconstantes e, às vezes, como explicado na mitologia, tomavam decisões ruins, o que explica por que os humanos sofrem tantas dificuldades na vida.

“De um modo geral, os deuses viviam uma vida de conforto e tranquilidade. Enquanto os humanos estavam destinados a vidas de trabalho árduo, muitas vezes para uma existência marginal, os deuses do céu não trabalhavam. A humanidade foi criada para aliviar seus fardos e prover-lhes cuidados diários e alimento. Os humanos, e não os animais, serviam aos deuses. Frequentemente distantes, os deuses podiam responder bem às oferendas, mas num instante podiam também se enfurecer e atacar os humanos com uma vingança que poderia resultar em doenças, perda de meios de subsistência ou morte.”

Divindades, política e cidades da Mesopotâmia

Ira Spar, do Metropolitan Museum of Art, escreveu: “Tábuas cuneiformes datadas do terceiro milênio a.C. indicam que os deuses estavam associados às cidades. Cada comunidade cultuava a divindade padroeira de sua cidade no templo principal. O deus do céu An e sua filha Inanna eram cultuados em Uruk; Enlil, o deus da terra, em Nippur; e Enki, senhor das águas subterrâneas, em Eridu. Essa associação da cidade com a divindade era celebrada tanto em rituais quanto em mitos. A força política de uma cidade podia ser medida pela proeminência de sua divindade na hierarquia dos deuses. Babilônia, uma cidade menor no terceiro milênio a.C., tornou-se uma importante presença militar no período da Babilônia Antiga, e sua divindade padroeira, mencionada em um texto de Abu-Salabikh de meados do terceiro milênio a.C. como estando entre os últimos colocados na hierarquia dos deuses, ascendeu para se tornar a principal divindade do panteão quando Babilônia alcançou a supremacia militar no final do segundo milênio a.C.

“Os eventos políticos influenciaram a composição do panteão. Com a queda da hegemonia suméria no final do terceiro milênio a.C., a cultura babilônica e o controle político se espalharam pelo sul da Mesopotâmia. No final do terceiro milênio a.C., os textos sumérios listavam aproximadamente 3.600 divindades. Com a queda do poder político sumério e a ascensão das dinastias amoritas no final do terceiro milênio e início do segundo milênio a.C., as tradições religiosas começaram a se fundir.

As divindades sumérias mais antigas foram absorvidas pelo panteão dos povos de língua semítica. Algumas foram relegadas a um status subordinado, enquanto novos deuses assumiram as características das divindades mais antigas. O deus sumério An tornou-se o semítico Anu, enquanto Enki tornou-se Ea, Inanna tornou-se Ishtar e Utu tornou-se Shamash. Como Enlil, o deus supremo sumério, não tinha equivalente no panteão semítico, seu nome permaneceu inalterado. A maioria das divindades sumérias menores desapareceu de cena. No final do segundo milênio, o mito babilônico "Enuma Elish" menciona apenas 300 deuses celestiais. Nesse processo de associação dos deuses semíticos à supremacia política, Marduk suplantou Enlil como chefe dos deuses e, segundo "Enuma Elish", Enlil deu a Marduk seu próprio nome, de modo que Marduk se tornou o "Senhor do Mundo". Da mesma forma, Ea, o deus das águas doces subterrâneas, diz de Marduk no mesmo mito: "Seu nome, como o meu, será Ea. Ele estabelecerá os procedimentos para todos os meus ofícios. Ele se encarregará de todas as minhas ordens."

Deuses babilônicos e assírios e o clima da Mesopotâmia

Morris Jastrow disse: “Tudo isso se aplica com peculiar força ao clima do Vale do Eufrates, com suas duas estações, a chuvosa e a seca, dividindo o ano. O bem-estar da região dependia das chuvas abundantes que, começando no final do outono, continuavam ininterruptamente por vários meses, frequentemente acompanhadas de trovões, relâmpagos e ventos fortes. No período mais remoto da história do Vale do Eufrates, encontramos distritos inteiros cobertos por uma rede de canais, que serviam ao duplo propósito de evitar as inundações destrutivas causadas pela cheia do Eufrates e do Tigre, e de garantir uma irrigação mais direta dos campos.”

“Ao sol, à terra e às tempestades, seria acrescentado, como uma quarta sobrevivência do estágio animista, o Poder que reside nos dois grandes rios e no Golfo Pérsico, que para os babilônios era o “Pai das Águas”. O comércio, seguindo os passos da agricultura, conferiria uma importância adicional ao elemento água como meio de transporte, e a percepção dessa importância encontraria uma expressão natural no culto às divindades da água. Embora os principais deuses do panteão assim desenvolvido sejam idênticos aos Poderes ou espíritos que pertencem ao estágio animista da religião, podemos limitar a designação “divindades” àquele período do desenvolvimento da vida religiosa com o qual estamos aqui preocupados e que representa, para enfatizar o ponto mais uma vez, uma seleção natural de um número relativamente pequeno de Poderes dentre um grupo promíscuo e quase ilimitado.”

“Talvez seja mais ou menos uma questão de acaso que encontremos em um dos centros da antiga Babilônia a principal divindade adorada como um deus-sol, em outro como uma personificação da lua e em um terceiro como a deusa da terra. Não temos, contudo, meios de rastrear a associação de ideias que levou à escolha de Shamash, o deus-sol, como divindade padroeira de Larsa, e Sippar, o deus-lua Sin, como padroeiro de Ur e Harran, e Ishtar, a grande deusa-mãe, personificação do poder da vegetação na terra e da fertilidade entre os animais e a humanidade, como o centro do culto em Uruk. Por outro lado, podemos acompanhar a associação de ideias que levou o antigo povo da cidade de Eridu, situada em tempos remotos na foz do Golfo Pérsico, a escolher uma divindade aquática conhecida como Ea como divindade padroeira do local. No caso da mais importante das divindades da tempestade, Enlil ou Ellil, associada à cidade de Nippur, Também podemos acompanhar o processo que resultou nessa associação; porém, esse processo é de caráter tão especial e peculiar que merece ser descrito com mais detalhes.

Hierarquia de divindades da Mesopotâmia

Ira Spar, do Metropolitan Museum of Art, escreveu: “A partir do segundo milênio a.C., os teólogos babilônicos classificaram seus principais deuses em uma ordem numérica hierárquica. Anu era representado pelo número 60, Enlil pelo 50, Ea pelo 40, Sin, o deus da lua, pelo 30, Shamash pelo 20, Ishtar pelo 15 e Adad, o deus das tempestades, pelo 6.”

Morris Jastrow disse: “Anu, Enlil e Ea, que presidem o universo, são supremos sobre todos os deuses e espíritos inferiores combinados como Anunnaki e Igigi, mas confiam a direção prática do universo a Marduk, o deus da Babilônia. Ele é o primogênito de Ea e, como o mais digno e apto para a tarefa, Anu e Enlil voluntariamente confiam o governo universal a ele. Esse reconhecimento de Marduk pelas três divindades, que representam as três divisões do universo — céu, terra e todas as águas — marca a profunda mudança religiosa que ocorreu com a ascensão de Marduk a uma posição de comando entre os deuses. De uma personificação do sol, com seu culto localizado na cidade da Babilônia, sobre cujos destinos ele preside, ele passa a ser reconhecido como líder e diretor da grande Tríade. Correspondendo, portanto, à predominância política alcançada pela cidade da Babilônia como capital do império unificado e, como consequência direta disso, ao patrono do centro político.” torna-se o chefe do panteão a quem deuses e humanos prestam homenagem. A nova ordem não deve, contudo, ser vista como uma ruptura com o passado, pois Marduk é retratado assumindo a chefia do panteão pela graça dos deuses, como o legítimo herdeiro de Anu, Enlil e Ea.

“A ele também são atribuídos os atributos e poderes de todos os outros grandes deuses: Ninib, Shamash e Nergal, as três principais divindades solares; Sin, o deus da lua; Ea e Nebo, as principais divindades da água; Adad, o deus da tempestade; e, especialmente, o antigo Enlil de Nippur. Ele se torna como Enlil, “o senhor das terras”, e é conhecido principalmente como o bel ou “senhor”. Dirigido a ele em termos que transmitem enfaticamente a impressão de que ele é o único e verdadeiro deus, quaisquer tendências em direção a um verdadeiro monoteísmo que se desenvolvam no Vale do Eufrates, todas se concentram em torno dele.”

“O culto sofre uma mudança profunda correspondente. Hinos, originalmente compostos em honra de Enlil e Ea, são transferidos para Marduk. Em Nippur, como veremos, desenvolveu-se um elaborado ritual de lamentação para as ocasiões em que catástrofes nacionais, derrotas, quebras de safra, tempestades destrutivas e pestes revelavam o desagrado e a ira dos deuses. Nesses momentos, eram feitos esforços sinceros, por meio de súplicas, acompanhadas de jejum e outros símbolos de contrição, para alcançar uma reconciliação com os Poderes enfurecidos. Esse ritual, devido à preeminência religiosa de Nippur, tornou-se a norma e o padrão em todo o Vale do Eufrates, de modo que, quando Marduk e Babilônia praticamente substituíram Enlil e Nippur, as fórmulas e os apelos foram transferidos para a divindade solar da Babilônia, que, representando mais particularmente o deus-sol da primavera, era bem adequada para ser vista como aquela que traria bênçãos e favores após as tristezas e tribulações da estação tempestuosa, que havia abatido o país.”

Assim como o ritual de lamentação de Nippur se tornou o modelo a ser seguido em outros lugares, em Eridu, sede do culto a Ea, a divindade da água, desenvolveu-se, ao longo do tempo, um elaborado ritual de encantamento, composto por fórmulas sagradas, acompanhadas de ritos simbólicos com o propósito de exorcizar os demônios que se acreditava serem as causas das doenças e de libertar aqueles que haviam caído sob o poder de feiticeiros. A estreita associação entre Ea e Marduk (cujo culto, como será demonstrado posteriormente, foi transferido de Eridu para a Babilônia) levou à disseminação desse ritual de encantamento para outras partes do Vale do Eufrates. Ele foi adotado como parte do culto de Marduk e, consequentemente, a parte que cabia a Ea foi transferida para o deus da Babilônia. Essa adoção, mais uma vez, não se deu na forma de uma usurpação violenta por Marduk de funções que não lhe pertenciam, mas como uma transferência feita voluntariamente por Ea a Marduk, como seu filho.

“Da mesma forma, os mitos originalmente narrados sobre Enlil de Nippur, Anu de Uruk e Ea de Eridu foram harmoniosamente combinados, e o papel de herói e conquistador foi atribuído a Marduk. Entre esses mitos, destacava-se a história da conquista das tempestades de inverno, retratadas como o caos que precede o reinado da lei e da ordem no universo. Em cada um dos principais centros, o caráter de criador foi atribuído à divindade patrona: em Nippur, a Enlil; em Uruk, a Anu; e em Eridu, a Ea. Os feitos desses deuses foram combinados em uma narrativa que retrata os passos que levam ao estabelecimento gradual da ordem a partir do caos, com Marduk sendo aquele a quem os outros deuses confiaram a difícil tarefa. Marduk é celebrado como o vencedor de Tiamat — um monstro que simboliza o caos primordial. Em celebração ao seu triunfo, todos os deuses se reúnem em solenidade e o tratam por cinquenta nomes — um procedimento que, na fraseologia antiga, significa a transferência de todos os atributos envolvidos nesses nomes. O nome é a essência, e cada nome denota poder adicional. Anu saúda Marduk como "o mais poderoso dos deuses" e, finalmente, Enlil e Ea se apresentam e declaram que seus próprios nomes serão, doravante, dados a Marduk. "Seu nome", diz Ea, "será Ea como o meu", e assim, mais uma vez, o poder do filho é confirmado pelo pai.

Imagens e símbolos de divindades mesopotâmicas

Ira Spar, do Metropolitan Museum of Art, escreveu: “A partir de meados do terceiro milênio a.C., muitas divindades eram representadas em forma humana, distinguindo-se dos mortais pelo tamanho e pela presença de cocares com chifres. As estátuas dos deuses eram principalmente feitas de madeira, cobertas com uma camada de ouro e adornadas com vestes ornamentadas.” 

A deusa Inanna usava um colar de lápis-lazúli e, segundo o mito "A Descida de Ishtar ao Mundo Inferior", era adornada com joias elaboradas. Os textos mencionam baús, propriedade da deusa, repletos de anéis de ouro, pingentes, rosetas, estrelas e outros tipos de ornamentos que podiam enfeitar suas vestes. As estátuas não eram consideradas deuses de fato, mas sim imbuídas da presença divina. Por serem semelhantes a humanos, eram lavadas, vestidas, alimentadas e bebidas, e tinham um quarto ricamente decorado.

“As divindades também podiam ser representadas por símbolos ou emblemas. Alguns símbolos divinos, como o punhal do deus Assur ou a rede de Enlil, eram usados ​​em juramentos para confirmar uma declaração. Símbolos divinos aparecem em estelas e naru (pedras de fronteira) representando deuses e deusas. Marduk, por exemplo, a divindade padroeira da Babilônia, era simbolizado por uma pá com ponta triangular; Nabu, o patrono da escrita, por uma cunha cuneiforme; Sin, o deus da lua, tinha uma lua crescente como símbolo; e Ishtar, a deusa do céu, era representada por uma roseta, uma estrela ou um leão.”

Símbolos dos deuses em marcos de fronteira

Entre as pedras de demarcação com símbolos dos deuses, destaca-se uma do reinado do rei cassita Nazi-maruttash (c. 1320 a.C.), encontrada em Susa e atualmente no Louvre. Morris Jastrow disse: “Os símbolos mostrados na Face D são: na fileira superior, Anu e Enlil, simbolizados por santuários com tiaras; na segunda fileira — provavelmente Ea [santuário com cabeça de cabra-peixe e cabeça de carneiro] e Ninlil (santuário com o símbolo da deusa); na terceira fileira — a ponta de lança de Marduk, Ninib (maça com duas cabeças de leão); Zamama (maça com cabeça de abutre); Nergal (maça com cabeça de leão); na quarta fileira, Papsukal (pássaro em uma haste), Adad (ou Ranunan — tridente de raio nas costas de um boi agachado); correndo ao lado da pedra, o deus-serpente, Siru.

“Na face C estão os símbolos de Sin, o deus da lua (crescente); Shamash, o deus do sol (disco solar); Ishtar (estrela de oito pontas); a deusa Gula sentada em um santuário com o cachorro como seu animal aos pés; Ishkhara (escorpião); Nusku, o deus do fogo (lâmpada). As outras duas faces (A e B) estão cobertas com a inscrição. Dezenove deuses são mencionados na inscrição, onde são invocados para amaldiçoar qualquer um que danifique ou destrua a pedra, ou interfira com as disposições contidas na inscrição.”

Outra pedra de demarcação, da qual se mostram duas faces, data do reinado de Marduk-baliddin, rei da Babilônia (c. 1170 a.C.) e foi encontrada em Susa, estando agora no Louvre. Os símbolos representados na ilustração são: Zamama (maça com cabeça de abutre); Nebo (santuário com quatro fileiras de tijolos e um dragão em forma de cabeça à sua frente); Ninib (maça com duas cabeças de leão); Nusku, o deus do fogo; Marduk (ponta de lança); Bau (pássaro caminhando); Papsukal (pássaro empoleirado em um poste); Anu e Enlil (dois santuários com tiaras); Sin, o deus da lua (crescente). Além disso, há Ishtar (estrela de oito pontas), Shamash (disco solar), Ea (santuário com cabeça de carneiro e um peixe-cabra à sua frente), Gula (cão sentado), a deusa Ishkhara (escorpião), Nergal (maça com cabeça de leão), Adad (ou Ramman - boi agachado com um garfo de raios na cabeça), Sim - o deus serpente (serpente enrolada no topo de uma pedra).

“Todos esses deuses, com exceção do último mencionado, são citados nas maldições ao final da inscrição, juntamente com suas consortes. Em alguns casos (por exemplo, Shamash, Nergal e Ishtar), divindades menores do mesmo tipo são adicionadas, as quais passaram a ser consideradas formas dessas divindades ou seus assistentes; e, por fim, alguns deuses adicionais, notadamente Tamuz (sob a forma Damu), sua irmã Geshtin-Anna (ou belit seri) e as duas divindades cassitas Shukamuna e Shumalia. Ao todo, quarenta e sete deuses e deusas são enumerados, número que, no entanto, como indicado, pode ser reduzido a um número comparativamente pequeno.”

Consortes femininas dos deuses da Mesopotâmia

Morris Jastrow disse: “Enquanto cada deus masculino do panteão tinha uma consorte, essas deusas tinham uma participação comparativamente insignificante no culto. Em muitos casos, elas nem sequer possuem nomes distintos, sendo meramente a contraparte de seus consortes, como Nin-lil, “senhora da tempestade”, ao lado de En-lil, “senhor da tempestade”, ou ainda de forma mais indefinida como Nin-gal, “a grande senhora”, a consorte do deus lunar Sin, ou como Dam-kina, “a esposa fiel”, a associada de Ea, ou como Shala, “a senhora” suprema, a consorte de Adad.” 

Em outros casos, elas são especificadas por títulos que fornecem atributos que refletem as características de suas consortes, como Sarpanit, “a brilhante”, a designação comum da consorte de Marduk — claramente uma alusão à qualidade solar do próprio Marduk — ou como Tashmit, “obediência”, a consorte de Nebo — plausivelmente explicada como um reflexo do serviço que Nebo, como filho, deve a seu pai e superior, Marduk. No caso de Anu, encontramos sua consorte designada pela adição de uma terminação feminina ao seu nome. Como Antum, essa deusa é meramente um pálido reflexo de seu senhor e mestre. Um pouco mais distintivo é o nome da consorte de Ninib, Gula, que significa “a grande”. Isso, pelo menos, enfatiza o poder da deusa, embora na realidade seja a Ninib a quem a “grandeza” se atribui, enquanto Gula, ou Bau, como também é chamada, brilha por meio da glória refletida.

“Em todos esses casos, fica evidente que a associação de uma contraparte feminina com o deus é meramente uma extensão do círculo dos deuses dos costumes sociais prevalentes na sociedade humana; e a posição inferior atribuída a essas deusas se deve, da mesma forma, à posição social designada à mulher no antigo Oriente, que, embora gozasse de mais direitos do que se supõe normalmente, ainda assim, como esposa, estava sob o controle completo de seu marido — uma auxiliar e companheira, uma parceira júnior, senão sempre silenciosa, o segundo eu de seu marido, movendo-se e tendo seu ser nele.

“Mas ao lado dessas consortes mais ou menos obscuras, há uma deusa que ocupa uma posição excepcional e, mesmo no período histórico mais antigo, possui um status igual ao dos grandes deuses. Aparecendo sob múltiplas designações, ela é a deusa associada à terra, a grande deusa-mãe que dá à luz tudo o que tem vida — animado e inanimado. A concepção de tal poder repousa claramente na analogia sugerida pelo processo de procriação, que pode ser brevemente definido como a mistura dos princípios masculino e feminino. Toda a natureza, constantemente engajada no esforço de se reproduzir, era, portanto, vista como resultado da combinação desses dois princípios. Em escala maior, o sol e a terra representam tal combinação. A terra, produzindo sua vegetação infinita, era considerada o princípio feminino, fecundada pelos raios benéficos do sol. “Do pó vieste e ao pó retornarás” ilustra a extensão dessa analogia à vida humana, que nos mitos antigos é igualmente representada como surgindo da mãe terra. É, portanto, nos centros de A adoração ao sol, como a de Uruk, onde encontramos os primeiros vestígios da personalidade distintiva de uma deusa-mãe. A este antigo centro podemos atribuir o nome distintivo, Ishtar, como designação desta deusa, embora mesmo em Uruk ela seja mais comumente referida por um título mais vago, Nana, que transmite apenas a ideia geral de "senhora". A cena de abertura da grande epopeia nacional da Babilônia, conhecida como as aventuras de Gilgamesh, se passa em Uruk, que assim se apresenta como o local onde se originou a parte mais antiga da narrativa composta.

Deuses do Sol na Mesopotâmia

Morris Jastrow disse: “Quaisquer que sejam as razões que levaram a essa concentração de todas as fases desfavoráveis ​​do deus-sol em Nergal, a proeminência que o culto de Babbar (ou Shamash) adquiriu em Sippar foi certamente um dos fatores envolvidos. Esse culto não pode ser separado do de Larsa. A designação do deus em ambos os lugares é a mesma, e o nome do principal santuário do deus-sol tanto em Larsa quanto em Sippar é E-Babbar (ou E-Barra), “a casa brilhante”. O culto a Babbar foi transferido de um lugar para o outro, precisamente como o culto a Marduk foi levado de Eridu para a Babilônia. Embora Larsa pareça ser o mais antigo dos dois centros, Sippar, a partir dos tempos de Sargão, começa a se distanciar de seu rival e, nos tempos de Hamurabi, assume o caráter de uma segunda capital, ficando imediatamente atrás da Babilônia e frequentemente em estreita associação com essa cidade. Nem mesmo o culto a Marduk conseguiu ofuscar o brilho de Shamash em Sippar. Durante os últimos dias do império neobabilônico, fica-se com a impressão de que havia, de fato, alguma rivalidade entre os sacerdotes de Sippar e os da Babilônia. Nabonedos, o último rei da Babilônia, é descrito como tendo ofendido Marduk ao se aliar aos partidários de Shamash, de modo que, quando Ciro entra na cidade, é aclamado como o salvador do prestígio de Marduk e recebido de braços abertos pelos sacerdotes da Babilônia.

“O caráter solar original de Marduk, como vimos, foi obscurecido pela assunção dos atributos de outras divindades que foram praticamente absorvidas por ele, mas no caso de Shamash em Sippar, nenhuma transformação desse caráter ocorreu. Ele permanece, ao longo de todos os períodos, a personificação do poder benéfico que reside no sol. A única mudança a ser notada como consequência da preeminência do culto em Sippar é que o deus-sol deste lugar, absorvendo em certa medida muitos dos cultos solares locais menores, torna-se o deus-sol supremo, ocupando o lugar que Ninib de Nippur ocupava no antigo panteão babilônico. O nome semítico do deus — Shamash — torna-se o termo específico para o sol, não apenas na Babilônia, mas em todo o domínio dos semitas e da influência semítica.”

“Contudo, era necessário encontrar um lugar para os cultos solares em centros tão importantes que nem mesmo o Shamash de Sippar pudesse absorver. Nippur manteve seu prestígio religioso ao longo de todas as vicissitudes, e seu patrono solar era considerado, no sistema teológico, como a representação mais específica do sol da primavera; enquanto em Cuthah, Nergal era retratado como o sol do solstício de verão, com todas as associações ligadas a essa estação difícil. A diferenciação tinha, em grande medida, uma importância puramente teórica. O culto prático não era afetado por tais especulações e, sem dúvida, em Cuthah, Nergal também era adorado como um poder benéfico. Por outro lado, Ninib, como uma sobrevivência do período em que era o “Shamash” de todo o Vale do Eufrates, também é considerado, como Nergal, um deus da guerra e da destruição, além de suas manifestações benéficas. Nos mitos antigos que tratam de seus feitos, seu título comum é “guerreiro”, e o planeta Saturno, com o qual ele é identificado na astrologia, compartilha muitas das características.” de Marte-Nergal. Shamash de Sippar também ilustra essas duas fases. Assim como Ninib, ele é um “guerreiro” e frequentemente se mostra enfurecido contra seus súditos.

“A característica mais significativa do culto solar na Babilônia, que se aplica particularmente a Shamash de Sippar, é a associação da justiça e da retidão com o deus. Shamash, como juiz da humanidade, é quem traz à luz os crimes ocultos, punindo os malfeitores e defendendo aqueles que foram injustamente condenados. É ele quem profere os julgamentos nos tribunais. Os sacerdotes, em sua função de juízes, falam em seu nome. As leis são promulgadas como decretos de Shamash; é significativo que até mesmo um adorador tão fervoroso de Marduk quanto Hamurabi coloque a figura de Shamash à cabeceira do monumento no qual inscreve os regulamentos do famoso código por ele compilado, designando assim Shamash como a fonte e a inspiração da lei e da justiça.”

“Os hinos a Shamash, quase sem exceção, expressam essa atribuição. Ele é assim invocado:

“A descendência daqueles que agem injustamente não prosperará.
O que suas bocas proferem em tua presença
, tu destruirás; o que sai de suas bocas, tu dissiparás.
Tu conheces suas transgressões, o plano dos ímpios, tu rejeitas.
Todos, sejam quem forem, estão sob teus cuidados;
tu guias seus pedidos, os aprisionados, tu libertas;
tu ouves, ó Shamash, petições, orações e súplicas.”
Outra passagem do hino declara que
“Aquele que não aceita suborno, que se importa com os oprimidos
, é favorecido por Shamash — sua vida será prolongada.”

Recorrendo ao Deus da Tempestade em Tempos de Seca

Eric A. Powell escreveu na revista Archaeology Magazine: No vale de Amuq, no sul da Turquia, uma curiosa estatueta de chumbo de cerca de 2,5 centímetros de altura, desenterrada em um sítio rural da Idade do Bronze, está dando aos arqueólogos uma ideia de como os moradores que viviam por volta de 2000 a.C. reagiram a um período marcado por secas cada vez mais intensas.

Uma equipe liderada pelo arqueólogo Murat Akar, da Universidade Mustafa Kemal, descobriu a estatueta durante a escavação de um silo de grãos no sítio arqueológico conhecido como Toprakhisar Höyük. Os arqueólogos ficaram imediatamente impressionados com a aparência peculiar do objeto. Com a forma de um touro, ele lembra objetos de chumbo que circulavam entre os comerciantes da Anatólia naquela época. Mas também apresenta semelhanças com artefatos maiores da Mesopotâmia chamados estacas de fundação, objetos cônicos ou em forma de prego com inscrições dedicadas aos deuses e colocados sob as paredes de edifícios importantes.

Akar acredita que a estatueta híbrida anatólia-mesopotâmica foi feita por recém-chegados atraídos para Toprakhisar Höyük pelo resiliente sistema fluvial da região, que a teria tornado um refúgio durante períodos de seca. “Acreditamos que o Vale do Amuq era uma zona de refugiados no início do segundo milênio a.C.”, afirma. “Crenças, ideias, costumes e novos hábitos de culto e rituais provavelmente foram transmitidos para a região por meio desses movimentos populacionais do norte da Mesopotâmia.” Os touros passaram a ser intimamente associados aos diversos cultos aos deuses da tempestade da região, que ganharam destaque por volta da época em que o objeto foi colocado no silo de grãos. Talvez tenha sido deixado ali por pessoas que buscavam a proteção do deus da tempestade contra maiores dificuldades enquanto construíam uma nova vida em uma terra estrangeira.

Demônios da Mesopotâmia

Ira Spar, do Metropolitan Museum of Art, escreveu: “Os demônios eram vistos como bons ou maus. Acreditava-se que os demônios malignos eram agentes dos deuses, enviados para cumprir ordens divinas, frequentemente como punição por pecados. Eles podiam atacar a qualquer momento, trazendo doenças, miséria ou morte. Os demônios Lamastu eram associados à morte de bebês recém-nascidos; os demônios Gala podiam entrar nos sonhos. Os demônios podiam incluir os fantasmas irados dos mortos ou espíritos associados a tempestades.” 

“Alguns deuses desempenhavam um papel benéfico na proteção contra flagelos demoníacos. Uma divindade representada com o corpo de um leão e a cabeça e os braços de um homem barbudo era considerada capaz de afastar os ataques de demônios-leão. Pazuzu, um deus de aparência demoníaca com rosto canino e corpo escamoso, possuindo garras e asas, podia trazer o mal, mas também podia atuar como protetor contra ventos malignos ou ataques de lamastu-demônios. Rituais e magia eram usados ​​para afastar ataques demoníacos, tanto presentes quanto futuros, e para combater o infortúnio. Demônios também eram representados como criaturas híbridas humano-animais, algumas com características de pássaros.

Embora se dissesse que os deuses eram imortais, alguns mortos em combate divino tinham que residir no submundo junto com os demônios. A "Terra Sem Retorno" ficava sob a terra e sob o abzu, o oceano de água doce. Lá, os espíritos dos mortos (gidim) habitavam em completa escuridão, sem nada para comer além de pó e sem água para beber. Este submundo era governado por Eresh-kigal, sua rainha, e seu marido Nergal, juntamente com sua casa de trabalhadores e administradores.