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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Santo Agostinho: vida, confissões e conversão

 

SANTO AGOSTINHO

Santo Agostinho (354-430 d.C.) foi considerado o cristão mais influente "entre São Paulo e Lutero". Nascido com o nome de Aurélio Agostinho, ele foi o bispo cristão de Hipona, um posto avançado romano no norte da África, nos últimos dias do Império Romano, quando as comunidades cristãs estavam bem estabelecidas, mas divididas.

Os esforços de Santo Agostinho ajudaram a esclarecer muitas questões doutrinárias controversas e a definir o que é a Igreja cristã hoje. Seu relato da juventude em suas "Confissões" é amplamente considerado uma biografia clássica da experiência de conversão. Além das contribuições que fez à religião, Agostinho também foi chamado de o primeiro grande psicólogo, o pai da autobiografia e pioneiro no uso da literatura para autoanálise e exploração da autoconsciência. Sua filosofia baseou-se fortemente em conceitos platônicos.

Carl A. Volz escreveu: “Agostinho combinou o poder criativo de Tertuliano e a amplitude intelectual de Orígenes com o senso eclesiástico de Cipriano, a perspicácia dialética de Aristóteles com o entusiasmo idealista e a profunda especulação de Platão, o senso prático do latim com o intelecto ágil do grego. Agostinho é o maior filósofo da era patrística e, sem dúvida, o teólogo mais importante e influente da Igreja depois do Novo Testamento. O magistério doutrinal da Igreja provavelmente não seguiu nenhum outro autor teológico com tanta frequência quanto o seguiu, certamente no Ocidente.”

A vida de Agostinho

Segundo a Enciclopédia de Filosofia da Internet: “Agostinho é o primeiro autor eclesiástico cujo desenvolvimento completo pode ser claramente rastreado, bem como o primeiro em cujo caso podemos determinar o período exato abrangido por sua carreira, até o dia exato. Ele próprio nos informa que nasceu em Tagaste (atual Suk Arras), na Numídia proconsular, em 13 de novembro de 354; morreu em Hipona (logo ao sul da atual Bona) em 28 de agosto de 430. [Tanto Suk Arras quanto Bona estão na atual Argélia, a primeira a 60 milhas a oeste-sul e a segunda a 65 milhas a sudoeste de Túnis, a antiga Cartago.]

Carl A. Volz escreveu: O pai, Patrício, um funcionário municipal, converteu-se à Igreja como catecúmeno apenas no final da vida e foi batizado pouco antes de sua morte (371). A mãe, Mônica, era uma cristã devota. Agostinho foi primeiro para Cartago para sua educação, onde teve um relacionamento com uma mulher que durou até cerca de 384. O filho, Adeodato (falecido em 390), nasceu em 372. Em 373, enquanto lia Hortênsio, de Cícero, desenvolveu o desejo de uma base filosófica para sua vida. Pouco depois, juntou-se aos maniqueus como "auditor". Retornou a Tagastro entre 374 e 375 e tornou-se professor de Artes Liberais, mas Mônica recusou-se a deixá-lo morar com ela em casa porque ele havia rejeitado o cristianismo. Após sua conversa com Fausto de Milevis, o principal maniqueísta, abandonou essa filosofia, pois considerava Fausto um tagarela.

Em 384, mudou-se para Roma, já cético em relação à filosofia. No mesmo ano, foi nomeado professor de retórica em Milão, graças à influência de Símaco, prefeito pagão em Roma. Agostinho passou a se interessar pelo neoplatonismo e pelas obras de Plotino. Continuou a estudar esse movimento, bem como o cristianismo, através dos ensinamentos de Simpliciano, um cristão neoplatônico que mais tarde sucedeu Ambrósio. 

Em 385, renunciou ao cargo e retirou-se para Cassiciacum, uma propriedade perto de Milão. Foi batizado por Ambrósio na véspera da Páscoa de 387, juntamente com seu filho. Em seguida, partiu para retornar à África com o filho e Mônica, mas ela faleceu durante a viagem. Em 388, retornou a Tagaste, onde viveu por três anos em reclusão monástica. Em 391, foi ordenado sacerdote contra a sua vontade. Em 395, tornou-se bispo coadjutor de Valério de Hipona e logo depois... depois que o sucedeu como bispo.

Como bispo, ele continuou a vida comunitária monástica com seu clero, da qual deriva a Regra de Agostiniano. Dedicou-se então ao trabalho literário, especialmente à luta contra as heresias. Primeiro, combateu o maniqueísmo, depois o donatismo e, finalmente, o pelagianismo. Morreu em Hipona, em 28 de agosto de 430, enquanto a cidade estava sitiada pelos vândalos.

A infância e os pais de Santo Agostinho

Santo Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia (atual Souk-Ahras, no leste da Argélia), em 13 de novembro de 354. Seu pai era um rico proprietário de terras berbere e pagão. Sua mãe, a futura Santa Mônica, era uma cristã devota. O estilo de vida hedonista de seu pai teve forte influência sobre Agostinho em sua juventude. Aos dezesseis anos, ele abandonou a educação cristã para estudar em Cartago, onde "se aventurou na astrologia".

Segundo a Enciclopédia de Filosofia da Internet: “Seu pai, Patrício, como membro do conselho, pertencia às classes influentes do local; no entanto, encontrava-se em dificuldades financeiras e parece não ter tido nada de notável, nem em capacidade intelectual nem em caráter, mas sim ter sido uma pessoa vivaz, sensual e de temperamento explosivo, totalmente absorta em seus interesses mundanos e hostil ao cristianismo até o fim da vida; tornou-se catecúmeno pouco antes de Agostinho completar dezesseis anos (369-370).

À sua mãe, Mônica (assim consta nos manuscritos, seu nome não é Monica; n. 331, m. 387), Agostinho acreditava mais tarde que devia o que ela se tornou. Mas, embora ela fosse evidentemente uma mulher honrada, amorosa, abnegada e capaz, nem sempre foi o ideal de mãe cristã que a tradição lhe atribui. Sua religião na juventude apresenta traços de formalidade e mundanismo; sua ambição para com o filho parece, a princípio, ter tido pouca seriedade moral, e ela lamentou mais o maniqueísmo dele do que sua sensualidade precoce. Parece ter sido por intermédio de Ambrósio e Agostinho que ela alcançou a piedade pessoal madura com a qual deixou este mundo.

Seus pais tinham grande orgulho de Agostinho quando menino. Ele recebeu sua primeira educação em Tagaste, aprendendo a ler e escrever, bem como os rudimentos da literatura grega e latina, com professores que seguiam os antigos métodos pagãos tradicionais. Parece que ele não teve instrução sistemática na fé cristã nesse período e, embora matriculado entre os catecúmenos, aparentemente só esteve perto do batismo quando uma doença e seu próprio desejo juvenil o tornaram temporariamente provável.

O hedonismo de Santo Agostinho

Santo Agostinho era mulherengo, jogador e crítico das virtudes. Teve um filho com uma amante antes dos vinte anos, viveu com ela por 10 anos fora do casamento e depois a abandonou para se casar com uma socialite. Mesmo depois de entrar para um mosteiro, costumava rezar: "Dá-me a castidade, mas não agora!"

Alguns estudiosos acreditam que Santo Agostinho era homossexual. Essa afirmação baseia-se, em parte, em uma passagem de suas "Confissões" sobre um homem que ele conheceu na juventude: "Eu sentia que a alma dele e a minha eram 'uma só alma em dois corpos' e, portanto, a vida sem ele era horrível. Eu odiava viver como se fosse metade de uma vida." Após a morte desse homem, Agostinho disse que cogitou o suicídio, mas "temeu morrer, para que aquele a quem eu tanto amava não morresse por inteiro." Apesar de seu estilo de vida hedonista, Santo Agostinho sentia-se atraído por cultos religiosos que pregavam a abnegação.

Segundo a Enciclopédia de Filosofia: “Seu pai, encantado com o progresso do filho nos estudos, enviou-o primeiro para a vizinha Madaura e depois para Cartago, a cerca de dois dias de viagem. Um ano de ociosidade forçada, enquanto se acumulavam os meios para essa educação mais cara, provou ser um período de deterioração moral; mas devemos ter cuidado para não formar nossa concepção da vida viciosa de Agostinho apenas com base nas Confissões. 

Falar, como faz Mommsen, de “dissipação frenética” é atribuir peso excessivo às suas próprias expressões penitentes de auto-reprovação. Olhando para trás como bispo, ele naturalmente considerou toda a sua vida até a “conversão” que o levou ao batismo como um período de afastamento do caminho certo; mas não muito tempo depois dessa conversão, ele julgou de forma diferente e encontrou, de certo ponto de vista, o ponto de virada de sua carreira ao se dedicar à filosofia – aos dezenove anos.

Essa visão de sua juventude, que também pode ser encontrada nas Confissões, provavelmente se aproxima mais da verdade do que a concepção popular de um jovem mergulhado em todos os tipos de imoralidade. Quando começou a estudar retórica em Cartago, é verdade que (na companhia de colegas cujas ideias de prazer eram provavelmente muito mais grosseiras que as suas) ele se entregou aos prazeres sensuais. Mas sua ambição o impediu de permitir que suas dissipações interferissem em seus estudos. Seu filho Adeodato nasceu no verão de 372, e foi provavelmente a mãe dessa criança que o encantou logo após sua chegada a Cartago, por volta do final de 370. 

Mas ele permaneceu fiel a ela até cerca de 385, e a tristeza que sentiu ao se separar dela demonstra a natureza do relacionamento. Na visão da civilização daquele período, tal união monogâmica se distinguia de um casamento formal apenas por certas restrições legais, além da informalidade de seu início e da possibilidade de uma dissolução voluntária. Até mesmo a Igreja demorou a condenar tais uniões de forma absoluta, e parece que Mônica recebeu publicamente a criança e sua mãe em Tagaste. De qualquer forma, Agostinho era conhecido em Cartago não como um boêmio, mas como um estudante tranquilo e honrado. Ele, no entanto, estava interiormente insatisfeito com sua vida.

Santo Agostinho escreveu em Confissões: Livro III: Capítulo I: 1. Cheguei a Cartago, onde um caldeirão de amores profanos fervilhava ao meu redor. Eu ainda não estava apaixonado, mas estava apaixonado pelo amor; e, por uma fome oculta, odiava-me por não sentir com mais intensidade essa fome. Eu buscava algo para amar, pois estava apaixonado pelo ato de amar, e odiava a segurança e um caminho fácil, livre de armadilhas. Dentro de mim, havia uma carência daquele alimento interior que é tu mesmo, meu Deus — embora essa carência não me causasse fome. E permaneci sem apetite por esse alimento incorruptível — não porque já estivesse saciado dele, mas porque quanto mais vazio me tornava, mais o detestava. Por causa disso, minha alma estava doente; e, cheia de feridas, exalava, ansiando por ser arranhada pelas coisas dos sentidos. 

Contudo, se essas coisas não tivessem alma, certamente não inspirariam nosso amor. Amar e ser amado era doce para mim, e tanto mais quando eu desfrutava do corpo da pessoa amada. Assim, contaminei a fonte da amizade com a imundície da concupiscência e obscureci seu brilho com a lama da luxúria. Contudo, por mais imundo e impuro que eu fosse, ainda ansiava, em vaidade excessiva, por ser considerado elegante e urbano. E me entreguei precipitadamente ao amor que tanto almejava. Meu Deus, minha misericórdia, com quanta amargura, em tua infinita bondade, temperaste essa doçura para mim! Pois eu não só era amado, como também atingia secretamente o ápice do prazer; e, no entanto, estava alegremente preso a vícios incômodos, de modo que podia ser açoitado com as varas de ferro em brasa do ciúme, da suspeita, do medo, da ira e da discórdia.

Período neoplatônico de Agostinho

Segundo a Enciclopédia de Filosofia da Internet: O Hortênsio de Cícero, hoje perdido com exceção de alguns fragmentos, causou-lhe uma profunda impressão. Conhecer a verdade tornou-se, a partir de então, seu maior desejo. Por volta da época em que o contraste entre seus ideais e sua vida real se tornou insuportável, ele aprendeu a conceber o cristianismo como a única religião que poderia conduzi-lo à realização de seu ideal. Mas seu orgulho intelectual o impediu de abraçá-lo sinceramente; as Escrituras não se comparavam às de Cícero; ele buscava sabedoria, não submissão humilde à autoridade.

“Aos trinta e um anos, ele foi fortemente atraído pelo neoplatonismo pela lógica de seu desenvolvimento. O caráter idealista dessa filosofia despertou um entusiasmo ilimitado, e ele também foi atraído por sua exposição do ser intelectual puro e da origem do mal. Essas doutrinas o aproximaram da Igreja, embora ele ainda não compreendesse totalmente o significado de sua doutrina central sobre a personalidade de Jesus Cristo. Em seus primeiros escritos, ele menciona esse contato com o ensinamento neoplatônico e sua relação com o cristianismo como o ponto de virada de sua vida. 

A verdade, como pode ser constatado por uma comparação cuidadosa de seus escritos anteriores e posteriores, é que seu idealismo havia sido distintamente fortalecido pelo neoplatonismo, que, ao mesmo tempo, revelou sua própria vontade, e não uma natura altera nele, como o sujeito de seus desejos mais baixos. Isso tornou o conflito entre o ideal e o real em sua vida mais insuportável do que nunca. Contudo, seus desejos sensuais ainda eram tão fortes que parecia impossível para ele se libertar deles.”

Santo Agostinho escreveu em Confissões: Capítulo IV: Entre tais como estes, naquele período instável da minha vida, estudei os livros de eloquência, pois era na eloquência que eu ansiava por eminência, embora por um motivo repreensível e vaidoso, e por um deleite na vaidade humana. No curso normal dos estudos, deparei-me com um certo livro de Cícero, cuja linguagem quase todos admiram, embora não o seu coração. Este livro em particular contém uma exortação à filosofia e chamava-se Hortênsio. Ora, foi este livro que mudou definitivamente toda a minha atitude e voltou as minhas orações para ti, ó Senhor, e me deu nova esperança e novos desejos. 

Subitamente, toda vã esperança tornou-se inútil para mim, e com um incrível calor no coração, anseiei por uma imortalidade de sabedoria e comecei então a levantar-me para poder retornar a ti. Não foi para afiar ainda mais a minha língua que utilizei aquele livro. Eu tinha então dezenove anos; Meu pai havia falecido dois anos antes, e minha mãe era quem sustentava meus estudos de retórica. O que me conquistou nela [isto é, no Hortensius] não foi o estilo, mas o conteúdo.

“Quão ardente eu estava então, meu Deus, quão ardente era meu desejo de fugir das coisas terrenas para Ti! Nem sequer sabia como Tu me tratavas naquela época. Pois em Ti reside a sabedoria. Em grego, o amor pela sabedoria é chamado de "filosofia", e foi com esse amor que aquele livro me inflamou. Há alguns que seduzem através da filosofia, sob um nome grandioso, atraente e honrado, usando-a para encobrir e adornar seus próprios erros. E quase todos os que fizeram isso, na época de Cícero e antes dela, são censurados e apontados em seu livro.”

Período Maniqueísta de Agostinho

Após lecionar retórica por vários anos em Cartago, mudou-se para Roma, onde se converteu temporariamente ao maniqueísmo, uma seita liderada por um profeta persa que via a espiritualidade como uma luta interior e promovia a abstinência sexual, a alimentação exclusivamente vegetal e a crença de que a luta pessoal entre o bem e o mal representava uma batalha cósmica. Santo Agostinho também foi influenciado pelos céticos, um grupo que, em suas formas mais extremas, evitava toda atividade e contato humano, refugiando-se no deserto. Uma de suas ideias centrais era a impossibilidade de se ter certeza de qualquer coisa.

Segundo a Enciclopédia de Filosofia: “Nesse estado de espírito, ele estava pronto para ser influenciado pela chamada “propaganda maniqueísta”, que então era ativamente disseminada na África, aparentemente sem ser muito impedido pelo édito imperial contra as assembleias da seita. Duas coisas o atraíram especialmente nos maniqueus: eles se sentiam à vontade para criticar as Escrituras, particularmente o Antigo Testamento, com total liberdade; e prezavam a castidade e a abnegação. A primeira condizia com a impressão que a Bíblia havia causado no próprio Agostinho; a segunda correspondia de perto ao seu estado de espírito na época. 

A oração que ele nos diz ter tido em seu coração então, “Senhor, dá-me castidade e temperança, mas não agora”, pode ser tomada como a fórmula que representa a atitude de muitos dos ouvintes maniqueístas. Agostinho foi classificado entre eles durante seus dezenove anos; mas ele não foi além, embora tenha se mantido firmemente no maniqueísmo por nove anos, durante os quais se esforçou para converter todos os seus amigos, desprezou os sacramentos da Igreja e manteve frequentes disputas com crentes católicos.

“Após concluir seus estudos, ele retornou a Tagaste e começou a lecionar gramática, hospedando-se na casa de Romanianus, um cidadão proeminente que lhe havia prestado muitos serviços desde a morte de seu pai, e a quem converteu ao maniqueísmo. Mônica ficou profundamente triste com a heresia do filho, proibindo-o de entrar em sua casa, até ser tranquilizada por uma visão que prometia sua restauração. Ela também se consolou com as palavras de um certo bispo (provavelmente de Tagaste) de que "o filho de tantas lágrimas não poderia se perder". Ele parece ter passado pouco mais de um ano em Tagaste, quando o desejo por um campo mais amplo, juntamente com a morte de um querido amigo, o levou a retornar a Cartago como professor de retórica.

O período seguinte foi de estudo diligente, que resultou (por volta do final de 380) no tratado, há muito perdido, De pulchro et apto. Enquanto isso, o domínio do maniqueísmo sobre ele estava diminuindo. Sua frágil cosmologia e metafísica já não o satisfaziam há muito tempo, e as superstições astrológicas, fruto da credulidade de seus discípulos, ofendiam sua razão. Os membros da seita, não querendo perdê-lo, tinham grandes esperanças em um encontro com seu líder, Fausto de Mileva; mas quando este chegou a Cartago no outono de 382, ​​também se mostrou decepcionante, e Agostinho deixou de ser, em essência, um maniqueísta. 

Ele ainda não estava, contudo, preparado para substituir a doutrina que havia defendido por outra coisa, e permaneceu em comunhão externa com seus antigos companheiros enquanto prosseguia sua busca pela verdade. Logo após suas convicções maniqueístas ruírem, ele deixou Cartago rumo a Roma, em parte, ao que parece, para escapar da influência preponderante de sua mãe. mente que ansiava por total liberdade de investigação. Aqui, por obrigações de amizade e gratidão, ele foi levado a uma estreita convivência com os maniqueus, dos quais havia muitos em Roma, não apenas ouvintes, mas perfeitos ou membros plenamente iniciados.

Santo Agostinho retorna ao cristianismo em Milão com Santo Ambrósio

Santo Agostinho voltou a se interessar pelo cristianismo quando se mudou para Milão com sua mãe e ficou sob a influência do famoso bispo da cidade, Santo Ambrósio.

Segundo a Enciclopédia de Filosofia: o prefeito Símaco o enviou a Milão, certamente antes do início de 385, em resposta a um pedido por um professor de retórica. “A mudança de residência completou a separação de Agostinho do maniqueísmo. Ele ouviu a pregação de Ambrósio e, por meio dela, familiarizou-se com a interpretação alegórica das Escrituras e com a fragilidade da crítica bíblica maniqueísta, mas ainda não estava pronto para aceitar o cristianismo católico. Sua mente ainda estava sob a influência da filosofia cética da Academia posterior. 

Esta foi a fase menos satisfatória de seu desenvolvimento intelectual, embora suas circunstâncias externas fossem cada vez mais favoráveis. Ele tinha sua mãe novamente consigo e compartilhava uma casa e um jardim com ela e seus dedicados amigos Alípio e Nebrídio, que o haviam seguido para Milão; sua posição social segura também é demonstrada pelo fato de que, em deferência aos pedidos de sua mãe, ele foi formalmente prometido em casamento a uma mulher de posição social adequada.”

Como catecúmeno da Igreja, ele ouvia regularmente os sermões de Ambrósio. O bispo, embora ainda nada soubesse das lutas internas de Agostinho, o acolheu da maneira mais amigável, tanto por seu próprio bem quanto pelo de Mônica. Contudo, Agostinho era atraído apenas pela eloquência de Ambrósio, não por sua fé; ora concordava, ora questionava. Moralmente, sua vida talvez estivesse em seu ponto mais baixo. Ao ficar noivo, repudiara a mãe de seu filho; mas nem a dor que sentia por essa separação, nem a consideração por sua futura esposa, que ainda era jovem demais para casar, o impediram de tomar uma nova concubina durante os dois anos seguintes. 

A sensualidade, porém, começou a lhe causar cansaço, por mais que se importasse em lutar contra ela. Seu idealismo não estava de modo algum morto; ele disse a Romeno, que estava em Milão a negócios nessa época, que desejava viver inteiramente de acordo com os ditames da filosofia; e chegou-se a fazer um plano para a fundação de uma comunidade de retiros. do mundo, que deveria viver inteiramente para a busca da verdade. Com esse projeto, sua intenção de se casar e sua ambição interferiram, e Agostinho ficou mais distante do que nunca da paz de espírito.

Santo Agostinho escreveu em Confissões: Livro V: Capítulo XIII: 23: E a Milão cheguei, a Ambrósio, o bispo, famoso em todo o mundo como um dos melhores homens, teu servo devotado. Seu discurso eloquente, naqueles tempos, abundantemente proveu teu povo com a farinha do teu trigo, a alegria do teu azeite e a embriaguez sóbria do teu vinho. A ele fui conduzido por ti sem o meu conhecimento, para que por ele eu pudesse ser conduzido a ti com pleno conhecimento. Aquele homem de Deus me recebeu como um pai receberia e acolheu minha chegada como um bom bispo deveria. 

E comecei a amá-lo, é claro, não de imediato como um mestre da verdade, pois eu havia perdido completamente a esperança de encontrá-la em tua Igreja — mas como um homem amigo. E eu o ouvia atentamente — embora não com a motivação correta — enquanto ele pregava ao povo. Eu tentava descobrir se sua eloquência fazia jus à sua reputação e se fluía com mais ou menos intensidade do que diziam. E assim, eu me detive atentamente em suas palavras, mas, quanto ao assunto, eu era apenas um ouvinte desatento e desdenhoso. Eu me encantava com o charme de seu discurso, que era mais erudito, embora menos alegre e reconfortante, do que o estilo de Fausto. Quanto ao assunto, porém, não havia comparação possível, pois este último vagava em enganos maniqueístas, enquanto aquele ensinava a salvação com a maior solidez. Mas "a salvação está longe dos ímpios", como eu era então quando estava diante dele. Contudo, eu me aproximava, gradual e inconscientemente.

A conversão de Agostinho

Segundo a Enciclopédia de Filosofia: “A ajuda veio de uma maneira curiosa. Um conterrâneo seu, Pontício, visitou-o e contou-lhe coisas que ele nunca ouvira sobre a vida monástica e as maravilhosas conquistas sobre o eu que haviam sido alcançadas sob sua inspiração. O orgulho de Agostinho foi ferido; que os incultos pudessem tomar o reino dos céus pela força, enquanto ele, com todo o seu conhecimento, ainda estava cativo da carne, parecia-lhe indigno. Quando Pontício partiu, após algumas palavras veementes para Alípio, ele foi apressadamente com ele para o jardim para resolver esse novo problema. Seguiu-se então a cena tão frequentemente descrita. 

Dominado por suas emoções conflitantes, ele deixou Alípio e se jogou sob uma figueira em lágrimas. De uma casa vizinha veio a voz de uma criança repetindo incessantemente as simples palavras Tolle, lege, “Pegue e leia”. Pareceu-lhe uma indicação divina; ele pegou o exemplar das epístolas de São Paulo que havia deixado onde ele e Alípio estavam.” Estava sentado e abriu o livro em Romanos 13. Quando chegou às palavras: "Vivamos honestamente, como em pleno dia; não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e devassidão", pareceu-lhe que uma mensagem decisiva havia sido enviada à sua própria alma, e sua resolução foi tomada. Alípio encontrou uma palavra para si mesmo algumas linhas adiante: "Acolhei o que é fraco na fé"; e juntos entraram na casa para levar as boas novas a Mônica. Isso aconteceu no final do verão de 386.

Santo Agostinho escreveu em Confissões: Livro VIII: Capítulo XII: 28. Ora, quando a profunda reflexão trouxe à tona, das profundezas secretas da minha alma, toda a minha miséria e a amontoou diante da vista do meu coração, levantou-se uma poderosa tempestade, acompanhada de uma forte chuva de lágrimas. Para que eu pudesse entregar-me completamente às minhas lágrimas e lamentações, afastei-me furtivamente de Alípio, pois me pareceu que a solidão era mais apropriada para o ato de chorar. Afastei-me o suficiente para sentir que nem mesmo a sua presença me impedia. Era assim que eu me sentia naquele momento, e ele percebeu. Suponho que eu tivesse dito algo antes de me levantar e ele notou que a minha voz estava embargada pelo choro. E assim ele permaneceu sozinho, onde estávamos sentados juntos, muito surpreso. 

Deitei-me debaixo de uma figueira — como, não sei — e deixei correr livremente as minhas lágrimas. As torrentes dos meus olhos jorraram um sacrifício aceitável a ti. E, não exatamente com essas palavras, mas com este sentido, clamei a ti: "E tu, ó Senhor, até quando? Até quando, ó Senhor? Estarás irado para sempre? Oh, não te lembres contra nós das nossas antigas iniquidades." Pois eu sentia que ainda estava subjugado por elas. Lancei esses gritos de pesar: "Até quando, até quando? Amanhã e amanhã? Por que não agora? Por que não nesta mesma hora põe fim à minha impureza?"

“Eu estava dizendo essas coisas e chorando com o mais amargo arrependimento do meu coração, quando de repente ouvi a voz de um menino ou menina — não sei ao certo — vinda da casa vizinha, repetindo sem parar: “Pega, lê; pega, lê.” ["tolle lege, tolle lege"] Imediatamente parei de chorar e comecei a pensar seriamente se era comum crianças cantarem algo assim em alguma brincadeira, mas não me lembrava de ter ouvido nada parecido. Então, represando o torrente de minhas lágrimas, levantei-me, pois não pude deixar de pensar que aquilo era uma ordem divina para abrir a Bíblia e ler a primeira passagem que encontrasse. 

Pois eu tinha ouvido falar de como Antônio, entrando por acaso na igreja enquanto o evangelho estava sendo lido, recebeu a admoestação como se o que estava sendo lido tivesse sido dirigido a ele: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me.” Por meio de tal oráculo, ele se converteu imediatamente a ti.”

Então, rapidamente voltei ao banco onde Alípio estava sentado, pois ali eu havia deixado o livro do apóstolo quando saí. Peguei-o, abri-o e, em silêncio, li o parágrafo que primeiro me chamou a atenção: "Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e libertinagem, não em brigas e inveja, mas revistam-se do Senhor Jesus Cristo e não façam planos para satisfazer os desejos da carne". Não quis ler mais nada, nem precisei. Pois, instantaneamente, assim que a frase terminou, algo como a luz da plena certeza infundiu em meu coração e toda a escuridão da dúvida desapareceu.

Ordenação de Agostinho

Após sua conversão e batismo, Agostinho retirou-se para um mosteiro e mais tarde retornou à África, onde passou alguns anos na propriedade de sua família antes de ser ordenado sacerdote. Santo Agostinho foi consagrado bispo em 395 d.C. De acordo com a Enciclopédia de Filosofia: “Agostinho, decidido a romper completamente com sua antiga vida, renunciou ao cargo e escreveu a Ambrósio pedindo o batismo. Os meses que se passaram entre aquele verão e a Páscoa do ano seguinte, na qual, segundo o costume da época, ele pretendia receber o sacramento, foram passados ​​em agradável tranquilidade em uma casa de campo, disponibilizada por um amigo, em Cassisiacum (Casciago, 47 minutos a oeste de Alilan). 

Ali, Mônica, Alípio, Adeodato e alguns de seus alunos lhe fizeram companhia, e ele continuou a lhes dar palestras sobre Virgílio e a manter discussões filosóficas. Todo o grupo retornou a Milão antes da Páscoa (387), e Agostinho, com Alípio e Adeodato, foi batizado. Planos foram então feitos para retornar à África; mas estes foram frustrados pela morte de Mônica, que ocorreu em Óstia enquanto se preparavam para atravessar o oceano.” mar, e foi descrita por seu filho devotado em uma das passagens mais ternas e belas das Confissões.

Agostinho permaneceu pelo menos mais um ano na Itália, aparentemente em Roma, vivendo a mesma vida tranquila que levara em Cassisíaco, estudando e escrevendo, na companhia de seu compatriota Evódio, mais tarde bispo de Uzalis. Ali, onde estivera mais intimamente ligado aos maniqueus, sua guerra literária com eles naturalmente começou; e ele também escrevia sobre o livre-arbítrio, embora este livro só tenha sido concluído em Hipona, em 391. No outono de 388, passando por Cartago, retornou a Tagaste, um homem muito diferente do Agostinho que a deixara cinco anos antes. 

Alípio ainda estava com ele, assim como Adeodato, que morreu jovem, não sabemos quando nem onde. Ali, Agostinho e seus amigos retomaram uma vida tranquila, embora ainda não monástica em nenhum sentido, em comum, e prosseguiram com seus estudos prediletos. Por volta do início de 391, tendo encontrado um amigo em Hipona para ajudá-lo na fundação do que ele chamava de mosteiro, vendeu sua herança e foi ordenado presbítero em resposta a uma demanda geral, embora não sem algumas dúvidas de sua parte.

Os anos que passou no presbitério (391-395) são os últimos de seu período de formação. As primeiras obras que datam do período de seu episcopado mostram-nos o teólogo plenamente desenvolvido, cujo ensinamento especial nos vem à mente quando falamos de agostinianismo. Há pouco de notável externamente nesses quatro anos. Ele retomou suas atividades profissionais somente na Páscoa de 391, quando o encontramos pregando aos candidatos ao batismo. Os planos para uma comunidade monástica que o haviam levado a Hipona finalmente se concretizaram. Em um jardim cedido para esse fim pelo bispo Valério, ele fundou seu mosteiro, que parece ter sido o primeiro na África, e é de especial importância por manter uma escola clerical, estabelecendo assim uma ligação entre os monges e o clero secular. 

Outros detalhes desse período incluem seu apelo a Aurélio, bispo de Cartago, para suprimir o costume de realizar banquetes e festas nas igrejas, e em 395 ele havia conseguido, por meio de sua corajosa eloquência, abolindo-a em Hipona; que em 392 ocorreu uma disputa pública entre ele e um presbítero maniqueísta de Hipona, Fortunato; que seu tratado De fide et symbols foi preparado para ser lido perante o concílio realizado em Hipona em 8 de outubro de 393; e que depois disso ele esteve em Cartago por um tempo, talvez em conexão com o sínodo realizado lá em 394.”

Os últimos anos de Agostinho

Agostinho passou os últimos 35 anos de sua vida em Hipona (mais tarde Bone, atual Annaba, Argélia), onde viveu asceticamente, escreveu extensivamente e incentivou seus seguidores a estabelecerem comunidades religiosas. Ele fundou uma comunidade de mulheres, liderada por sua irmã. Morreu em Hipona em 430 d.C., enquanto a cidade era sitiada pelos vândalos.

Segundo a Enciclopédia de Filosofia da Internet: “Os interesses intelectuais destes quatro anos são mais facilmente determinados, estando principalmente relacionados com a controvérsia maniqueísta, e produzindo os tratados De utilitate credendi (391), De duabus animabus contra Manichaos (primeira metade de 392) e Contra Adimantum (394 ou 395). Sua atividade contra os donatistas também começa neste período, mas ele está ainda mais ocupado com os maniqueus, tanto pelas lembranças de seu próprio passado quanto por seu crescente conhecimento das Escrituras, que aparece, juntamente com uma compreensão mais sólida dos ensinamentos da Igreja, nas obras já mencionadas, e ainda mais em outras deste período, como suas exposições do Sermão da Montanha e das Epístolas aos Romanos e aos Gálatas.”

Embora os escritos desta época estejam repletos de frases e termos bíblicos — graça e lei, predestinação, vocação, justificação, regeneração —, um leitor familiarizado com o neoplatonismo perceberá, em diversos trechos, o fervoroso apreço de Agostinho por essa doutrina, disfarçada de cristianismo. Ele aprofundou-se tanto nos ensinamentos de São Paulo que a humanidade como um todo lhe parece uma massa peccati ou peccatorum, que, se entregue a si mesma, ou seja, sem a graça de Deus, inevitavelmente perecerá. 

Por mais que aqui nos lembremos do Agostinho da fase final da vida, fica claro que ele ainda acreditava que o livre-arbítrio do homem poderia determinar seu próprio destino. Ele conhecia alguns que viam em Romanos 9 uma predestinação incondicional que anulava o livre-arbítrio; mas ele ainda estava convencido de que esse não era o ensinamento da Igreja. Sua opinião sobre esse ponto só mudou depois de se tornar bispo. 

Quanto mais conhecido se tornava Agostinho, mais Valério, bispo de Hipona, temia perdê-lo na primeira vaga em alguma sé vizinha, e desejava fixá-lo permanentemente em Hipona, nomeando-o bispo coadjutor – um desejo com o qual o povo concordava ardentemente. Agostinho opôs-se fortemente ao projeto, embora possivelmente nem ele nem Valério soubessem que isso poderia ser considerado uma violação do oitavo cânone de Niema, que proibia em sua última cláusula "dois bispos em uma mesma cidade"; e o primaz da Numídia, Megalius de Calama, parece ter levantado dificuldades que surgiram, pelo menos em parte, de uma falta de confiança pessoal. Mas Valério levou seu plano adiante e, pouco antes do Natal de 395, Agostinho foi consagrado por Megalius. Não se sabe quando Valério morreu; mas isso faz pouca diferença, já que pelo resto de sua vida ele deixou a administração cada vez mais nas mãos de seu assistente. 

O espaço impede qualquer tentativa de traçar os eventos de sua vida posterior; e em que Ainda há muito a ser dito, e o interesse biográfico deve ser, em grande parte, nosso guia. Sabemos de um número considerável de eventos na vida episcopal de Agostinho que podem ser situados com segurança: os chamados terceiro e oitavo sínodos de Cartago, em 397 e 403, nos quais, assim como nos que ainda serão mencionados, ele certamente esteve presente; a disputa com o maniqueísta Félix em Hipona, em 404; o décimo primeiro sínodo de Cartago, em 407; a conferência com os donatistas em Cartago, em 411; o sínodo de Mileva, em 416; o concílio geral africano em Cartago, em 418; a viagem a Cesareia, na Mauritânia, e a disputa com o bispo donatista lá, em 418; outro concílio geral em Cartago, em 419; e, finalmente, a consagração de Heráclio como seu assistente em 426.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Emmanuel Levinas sobre: À intolerância ao Talmud e a literatura rabínica


O judaísmo frente à intolerância: reflexões teóricas sobre a resistência na história

Tão antigo quanto a humanidade, o fenômeno da intolerância construiu inúmeras representações. Da literatura às manifestações artísticas, da propaganda política ao controle da memória social, dos mitos à religião, veremos ao longo da História, grupos sociais e minorias étnicas sendo submetidos, manipulados, segregados e exterminados a partir da proposital difusão de discursos de poder.

Podemos ainda considerar que a intolerância ao judaísmo e aos judeus, manifestada na formação de pensamentos depreciativos e atitudes sectárias e destrutivas sobre esse povo, representa um dos processos mais longos e ininterruptos da história da marginalidade social.

Com base em tal premissa, o objetivo deste ensaio é refletir acerca dos aspectos ideacionais e práticos da intolerância aos judeus, construídos com base no pensamento religioso de natureza teológica/eclesiástica. Da Idade Média à Modernidade, a intolerância religiosa será apresentada a partir das dimensões concretas que assumiu na História Mediterrânea, tomada em sua essência e perversidade, articulando processos de exclusão e eliminação do ser judaico.

Essas questões evidenciam que todo discurso intolerante possui um projeto de dominação que não indicaria, necessariamente, um golpe político, ou usurpações de poder. Tal artifício de legitimidade do pensamento intolerante baseia-se numa espécie de raciocínio de projeção. Projetam-se sobre os alvos sociais do discurso e práticas intolerantes os males construídos pela própria sociedade ou grupo dominante. No imaginário da intolerância, o oprimido torna-se sempre um opressor, que deve ser combatido.

Tanto em Estado como em sociedade, atitudes concretas são tomadas para comprovar “a razão” ou o “sentido” das violências instituídas: No mundo antigo, temos os estigmas da rebeldia judaica contra o Império Romano, que redundaram em milhares de crucificações por todo o território.

Na Idade Média, o mito do judeu deicida e errante, através da difusão de uma lógica punitiva eterna ao povo do “Antigo Israel”, acusados de haverem supostamente tramado, renegado e traído o Deus que a eles foi revelado. Segundo o pensamento eclesiástico, a verdade e a salvação universais deixaram de estar ao lado do povo judeu quando estes pecaram contra Deus.

Para Paulo de Tarso (Epístola aos Romanos), um novo Israel (Israel Espiritual) e um Novo Testamento surgiam através do cristianismo, sobrepondo-se e anulando a existência do que chamou de “antigo Israel e seu Antigo Testamento” (Israel Carnal). A expressão paulina Verus Israel – O verdadeiro Israel, em configuração cristã, ilustra a gênese do distanciamento histórico que passou a demarcar as tensas relações entre Cristianismo e Judaísmo, até os dias atuais.

Na realidade, em alguns textos dos Pais da Igreja (Patrística), localizamos a idéia de anterioridade do cristianismo em relação ao judaísmo, e de sobreposição religiosa. Em História Eclesiástica, datada de inícios do século IV d.C, o bispo Eusébio de Cesaréia reportara-se aos "testemunhos do Antigo Testamento" para que, em sua hermenêutica, ficasse comprovada a relação mística e religiosa entre Moisés e Jesus.

No livro I De História Eclesiástica, Eusébio discorre sobre a cristianização de Moisés, definindo o judaísmo como obsoleto já desde tempos bíblicos. Defendia que Abraão, Isaac e Jacob já seriam cristãos em seus atos e identidades, e Moisés, um líder que teria se colocado contra costumes a posteriori praticados pelo Judaísmo, como o descanso aos sábados (Shabat), as regras alimentares judaicas (Kashrut) e a circuncisão (Brit-Milá). Segundo Eusébio:

(...) É agora o momento adequado de mostrar que o próprio nome Jesus, como também o de Cristo, foram honrados pelos profetas consagrados de outrora. Primeiro, o próprio Moisés reconheceu como é supremamente augusto e ilustre o nome de Cristo quando transmitiu a tradição dos tipos e símbolos místicos de acordo com o oráculo (...). Assim, evidentemente, ele compreendeu que Cristo era um ser divino. O mesmo Moisés, sob o Espírito divino, antevendo também o título Jesus, igualmente dignifica com certo privilégio de distinção.(...) Mas eles obviamente conheciam o Cristo de Deus, conforme apareceu a Abraão, comungou com Isaac, falou com Jacó e conversou com Moisés e os profetas após ele, conforme já foi demonstrado. (EUSEBIUS, 1992, I; III e IV)

Além dos patriarcas e profetas bíblicos perderem sua definição hebraica, Jesus é entendido como um não judeu. Seria angustiante aos principais líderes eclesiásticos da Idade Média pensar que um Deus adorado pela cristandade pudesse ter sido guiado por princípios judaicos, em suas ações e pretensões com o próximo. O Deus cristão não poderia ser um judeu. Os Pais da Igreja erigiram uma literatura repleta de alegorias interpretativas não apenas de oposição, mas de anulação da cultura judaica, e das heranças judaicas inerentes à formação do Cristianismo.

Lembremos que o cristianismo surge historicamente como uma seita judaica, propagada no interior de sinagogas da Judéia romana. Entre aqueles que viam Jesus como Messias, não havia qualquer intenção de serem abolidos práticas e costumes judaicos cotidianos. Em sua imensa maioria, os cristãos dos primeiros séculos na Judéia eram, assim como Jesus (Yeshua ben Yossef), judeus praticantes das leis mosaicas e devotos à Tora.

Tertuliano, João Crisóstomo, Jerônimo, Eusébio de Cesaréia, Agostinho de Hipona, Gregório Magno, Ambrósio de Milão, intelectuais e autoridades eclesiásticas dos séculos III, IV e V, aprofundaram a lógica de substituição histórica das alianças divinas. Aos judeus, lhes foi rompida a aliança com Deus, uma vez merecedores de um trágico destino diaspórico, por suas crueldades. Para Agostinho de Hipona, o Israel Carnal, representado pelo povo judeu, seria historicamente substituído por um Israel Espiritual, cristão, sem máculas ou posturas traiçoeiras em relação ao próximo, e a Deus.

É importante ressaltar que as leituras alegóricas sobre a Bíblia Hebraica e os Evangelhos não se restringiram a uma doutrina anti-judaica de caráter discursivo. Constata-se que, no âmago do pensamento intolerante de setores do episcopado mediterrâneo, o discurso anti-judaico amadureceu rumo a uma práxis anti-semita, pontualmente localizada quando, em nome da “salvação das almas”, previu-se a destruição dos judeus, de suas práticas, produções textuais, e instituições.

A literatura episcopal fundamentada na Patrística clássica esteve metodologicamente ancorada em interpretações alegóricas e concepções soteriológicas sobre o homem e sua relação com o trascendental. Representou esta literatura, em nosso entendimento, um rearranjo circunstancial entre as novas significações atribuídas às múltiplas realidades mediterrâneas, e o forte legado agostiniano especialmente referente às ilações sobre os judeus e o Judaísmo.

Lembremos que com Agostinho, os judeus já desempenhavam função quase determinante no jogo mitológico-existencial da cristandade, ao terem suas existências pré-condicionadas por questões como o deicídio, a culpabilidade perene, as inextinguíveis condições carnal, errante e diaspórica, e a aproximação com a identidade herética. Agostinho apresentava ainda a necessidade de opressão, perseguição ou conversão obrigatória dos elementos sociais desviantes, práticas interpretadas como provas de um amor divino incondicional e piedoso às criaturas historicamente condenadas.

Seguindo a lógica de teóricos como Raoul Girardet, Maria Luiza Tucci Carneiro sustenta que o mito encontra-se na base das retóricas intolerantes

como a representação deturpada de fatos ou personagens reais que, repetida constantemente, induz o indivíduo a elaborar uma interpretação falsa de um momento histórico ou de um grupo. O mito induz a acreditar numa realidade que não é verdadeira e, desta situação, se valem os teóricos (...) a que interpretam os fatos reais de forma distorcida de acordo com os interesses do grupo a que servem. Tais idéias, no entanto, para se transformarem em práxis, necessitam de ter a sua disposição meios adequados de circulação: é quando a doutrina se manifesta como discurso.

Afirmamos assim que o discurso episcopal exacerbou tais pragmatismos agostinianos, repensando a questão judaica com base na mescla entre velhas e novas dicotomias, ambivalências e rótulos. Tais concepções sobre o real (Cristo-AntiCristo; bem-mal; céu-inferno; pureza-pecado; mundo sublime -mundo vil, saúde-doença, etc.) tornariam imóveis os papéis sociais então distribuídos, principalmente em relação ao problemas das conversões obrigatórias e suas prováveis resistências.

Nesse sentido, nos deparamos com um conjunto denso e complexo de alegorias, metáforas e falsos conceitos, que reforçam a hipótese do uso da linguagem como duplo instrumento de opressão, atuando em nível real e simbólico. Esse discurso de poder tornava o outro impotente perante as imagens construídas, pérfido em suas “invenções”, perdendo quaisquer possibilidades de aceitação ou de existência social / espiritual.

Sucessivos desterros, conversões forçadas, confisco de bens, punições físicas e assassinatos em massa; Aos cristãos/Cristandade, representados pelas Igrejas e Monarquias Européias, a teologia patrística articulada dos séculos IV ao VII legou a responsabilidade de expandir a verdade universal, salvando a humanidade de um mal supostamente presente e sempre ameaçador.

Nas epístolas de Agostinho redigidas aos heréticos do Norte da África (Donatistas, Pagãos e Judeus), os poderes benignos da Igreja, aliados às forças das leis imperiais, preocupados com o destino da humanidade, poderiam fazer uso da perseguição, textualmente definida como “prova de amor”.

No anseio de concretização do chamado “cristianismo militante”, converter ou exilar os elementos propagadores do mal seriam algumas das soluções vislumbradas. “Os filhos pagando eternamente pelos crimes de seus pais”: com esta expressão de Agostinho, a Igreja medieval encontrava legitimidade suficiente para desestruturar a existência judaica no mundo mediterrâneo.

Jean Delumeau, em seus estudos sobre o fenômeno do medo no Ocidente medieval, analisa também algumas das principais fontes do ódio ou da intolerância ao elemento judaico. Ao enfocarmos especificamente o mundo mediterrâneo da Alta Idade Média, esse ódio, que para o autor, seria um desdobramento do medo perante o desconhecido, manifestou-se, historicamente, em importantes componentes comportamentais.

Percebe-se a hostilidade da coletividade cristã – ou parte dela – frente a uma minoria tida como empreendedora, e considerada, acima de tudo, inassimilável. Conforme já destacara Carlo Ginzburg em alguns de seus trabalhos, o hibridismo e a diferença inerentes ao que denominamos como ethos judaico ultrapassariam, em nosso entendimento, aos limiares toleráveis de convivência cultural em sociedade.

As hostilidades supracitadas poderiam ser expressas, a exemplo, nas atitudes tomadas pelas instâncias formais e doutrinárias de poder. O medo aqui se manifestaria pela projeção da imagem do mal absoluto em sociedade sobre a figura do judeu empreendedor, resistente, e disseminador, via proselitismo, de uma fé já historicamente condenada. Esse mal, como será estudado a seguir, só poderia ser de fato extirpado caso frontalmente combatido.

Na literatura episcopal de origem hispano-visigoda, por exemplo, os recursos da invenção, da projeção e da generalização são amplamente utilizados para definir a marginalidade judaica do converso. Inseridos nas categorias de “povo deicida”, de “perfídia” e “mal absoluto”, os judeus batizados peninsulares – De Discretione Iudaeorum - tornavam-se efetivamente, uma questão a ser resolvida.

Lugares da resistência à intolerância: o Talmud e a literatura rabínica

Segundo Marc-Alain Ouaknin, “la question centrale du judaïsme est celle delínterpretation et le Talmud est le lieu du conflit des interpretation". Para todos os discursos intolerantes, encontramos expressões que se contrapõem aos esquemas de dominação instituídos. Assim, em meio aos aparentes silêncios dos sujeitos alvos da intolerância, é imperativo ao historiador contemporâneo conceder lugar para os chamados “discursos da resistência”.

A intolerância ao elemento judaico pode ser explicada, em muitos casos, como a não compreensão e oposição às visões de mundo produzidas pelo Judaísmo Rabínico (IV ao XVI), em sua expressão literária mais conhecida e difundida pelas comunidades judaicas em todo o mundo: o Talmud.

A historiografia medievalista até hoje permaneceu silenciosa quanto às inflexões da cultura rabínico-talmúdica sobre o universo social do judeus e dos conversos de origem judaica. Chegam sequer a apontar o Talmud como possibilidade para o estudo do anti-semitimo, latente entre os séculos VI e VII, ou antes, como fundamento filosófico e exegético da resistência dos judeus batizados.

Para Jacob Neusner, o Talmud marca a inserção de uma historicidade ocidental ao Judaísmo mishnaico, mais restrito ao mundo oriental da Palestina, sendo peça indispensável na análise da História do próprio Ocidente Medieval.

De difícil tipificação literária, o Talmud reúne 25 mil páginas de pensamento rabínico divididas entre 63 volumes temáticos, produzidos nos séculos IV e V d.C, por academias ao norte da Judéia e Babilônia. O Talmud pode ser compreendido como conjunto hermenêutico (Guemará), dialógico-reflexivo (Haggadah) e normativo (Halachá) de discussões sobre o real, o trascendental e o homem, enquanto código de éticas e lições de condutas judaicas em sociedade.

Sua polêmica heteroglossia, oposta a uma visão estritamente teológica de mundo, abriu espaço para uma subversão de ordens estabelecidas. Com seu teor interpretativo, podemos considerar que o Talmud ordenou e dinamizou simbolicamente as existências judaicas no medievo e na modernidade.

Podemos inclusive associar tais espaços de subversão, abertos pela literatura rabínica, à condição judaica de pária social, conforme propôs Anita Novinsky em ensaio sobre a censura e as minorias:

Durante milênios os judeus foram párias, animados por um sentimento do indeterminado, do heterodoxo. Eles formam um grupo que em potencial tinha todas as condições para se opor a uma ordem preestabelecida. Hannah Arendt reconheceu no judeu pária essa capacidade para recusar o mundo. Privados de seus direitos políticos, muitos judeus conseguiram libertar-se, mas apenas individualmente, como homens. Excluídos de toda participação política imediata, realizam essa integração por meio da arte e de sua própria criatividade, como artistas ou intelectuais rebeldes. O que é fundamental nessa tradição clandestina do judeu, sempre um ‘excluído’, é a força de sua posição crítica.” (NOVINSKY, 2002, p. 32)

A polissemia e a heteroglossia, adjetivações adequadas ao entendimento dos significados culturais do Talmud, também foram discutidas, em profundidade filosófica, por Emmanuel Levinas. O autor, em diversas leituras e interpretações de tratados do Talmud da Babilônia, buscou transmitir aos seus leitores que, longe do consenso esperado de textos ditos “moralizantes” ou “edificantes”, o Talmud constitui-se como conflito de interpretações sobre o real humano e a incomensurabilidade do transcendental, do divino.

O poder simbólico e heterodoxo inscrito nos comentários talmúdicos evidencia um sentido de “contra-revelação” ao propósito da teologia cristã, em textos que apresentavam diversas escolas filosóficas de pensamento, representadas pelos Rabis, dialogando sobre problemas de ordem ontológica, espiritual ou exegética, sem que necessariamente se alcançasse um resultado normativo.

No Talmud, como em toda a literatura rabínica circundante (Midrashim), o ato de discutir, manifestar o intelecto, suplantavam integralmente a tendência ao autoritarismo ideológico ou teológico. Esta dinâmica talmúdica veio então reforçar a autoridade dos Rabinos na diáspora judaica. As discussões enunciavam sempre a manutenção do locus central de irradiação do imaginário rabínico – a sinagoga. Contra essa instituição e suas práticas congregacionais, versaram algumas das principais homilias do bispo de Antioquia João Crisóstomo que, em 387 d.C, relacionou a Sinagoga à condição pecaminosa de promiscuidade sexual, corrupção e lascívia, estigmas sempre recorrentes no imaginário anti-semita europeu:

Muitos, eu sei, respeitam os judeus e pensam que seu atual modo de vida é digno de louvor. É por isso que desejo por ao chão tal opinião mortal. Eu disse que a sinagoga não era melhor do que um teatro (...); Lupanar e teatro, a sinagoga é também antro de salteadores e covil de bestas. (...) Vivendo para o ventre, a boca sempre escancarada, os judeus não se conduzem melhor que os porcos e os bodes, na sua lúbrica grosseria e no excesso de sua glutoneria. Só sabem fazer uma coisa: empanturrar-se e embriagar-se. (...) Porém, sob inúmeras circunstâncias, os judeus dizem que eles, da mesma maneira, respeitam a Deus. Deus proiba-me de dizer isso, nenhum judeu adora a Deus ! Quem o afirmou? O filho de Deus o afirmou! Por ter dito: ‘Se vocês quisessem conhecer meu Pai, deveriam conhecer a mim. Mas vocês não conhecem nem a mim, nem a meu Pai.’ Poderia eu citar um testemunho mais verídico do que o Filho de Deus? (MIGNE,1857, V. 48 E 49)

Emmanuel Levinas encontrou diversas alusões ao ímpeto libertário judaico tão temido por eclesiásticos medievais como João Crisóstomo. O Talmud alerta que o poder rabínico, como quaisquer outras formas de poder (políticos ou não) criadas pelos homens, poderia ser questionado, enfrentado, ou mesmo negado pela própria comunidade.

Importante textos talmúdicos abordam, em parábolas, a questão das relações sociais de produção à luz de princípios éticos que deveriam ordenar uma espécie de “convivência conciliatória” entre trabalhadores e senhores, estando esses últimos obrigados a reconhecer os direitos e a insubmissão do outro à lógica do mesmo. Em audaciosas passagens, Rabinos aconselham suas comunidades a nutrirem ódio e cautela pelo poder em sua natureza, e não se aproximarem jamais das autoridades políticas, consideradas evasivas e indiferentes aos problemas reais da população. Nos tratados Avot, Shabat e Pessachim, encontramos ainda a obrigatoriedade de contestação às ordenações de governos que por ventura, obrigassem seus súditos a cometer atos ilícitos, criminosos.

Nesse sentido, o Talmud referenda simbolicamente a possibilidade de um descontentamento social sobre uma ordem política considerada maléfica. Abre-se a possibilidade, no judaísmo rabínico, da recusa dessa ordem, ou antes, a recusa do poder do homem sobre o homem. Para o Talmud, aí residiria a raiz de todo o mal. Caso caracterizadas como opressoras ou corruptas, as autoridades poderiam ser renegadas, contestadas, ou mesmo substituídas por outras mais benéficas para a comunidade. Para a lógica talmúdica, se um líder fosse autoritariamente imposto, sem considerar o consenso da coletividade, estaria fadado ao fracasso.

O historiador Yehuda Bauer, em artigo intitulado “Anti-Semitism as an European and World Problem” entende que a consciência crítica de liberdade religiosa e política defendida pelos judeus da diáspora com base na literatura rabínica foi alvo, por séculos, de reações de incompreensão e rechaço. Para Bauer, a cultura judaica medieval erigiu três pilares éticos de base democrática, incompatíveis com as lógicas de poderes teocráticos, fundamentalistas, ou totalitários. Seriam eles:1) todos os homens são livres; 2) todos os homens são iguais, e as mesmas leis devem servir a todos; 3) todos os homens têm direito de reivindicar poder e criticar o soberano.

Para a relação entre Talmud, revolução e liberdade, Levinas, na mesma ótica de Bauer, afirma que a literatura rabínica, entre parábolas e alegorias, mostra-se intransigente em relação ao ócio e à paralisia social, tanto para aqueles que não saberiam recusar uma ordem política, ou mesmo sequer “questionar o ordem do Rei”.

Nesse sentido, por diversas vezes na História, o Talmud, foi considerado como literatura anti-cristã e diabólica. Sua leitura foi proibida, seus leitores banidos, e suas edições queimadas em praça pública, por imperadores, papas, monarcas europeus (medievais e modernos) e governos totalitários contemporâneos.

Sobre os judeus e o Talmud afirma Napoleão Bonaparte:

Os judeus são um povo vilão, poltrão e cruel. São lagartas, gafanhotos que devastam os campos. (...) O mal provém principalmente dessa compilação indigesta chamada Talmud, onde se encontra, ao lado de suas verdadeiras tradições bíblicas, a moral mais corrompida, a partir do momento em que se trata de suas relações com os cristãos. (...) Não pretendo subtrair à maldição com que foi fulminada essa raça que parece ter sido a única a ser excetuada da redenção, mas gostaria de deixá-la sem condições para propagar o mal (...). o bem é feito lentamente, e uma massa de sangue viciado só melhora com o tempo. (...) Quando entre cada três casamentos, houver um entre judeu e francês, o sangue dos judeus deixará de ter um caráter particular (...). (POLIAKOV, 1974, p. 196)

Sobre a censura à produção intelectual judaica, mesmo que religiosa, a reflexão da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro fornece alguns esclarecimentos:

a repressão às idéias e aos intelectuais integrou projetos políticos articulados em diferentes momentos da nossa história. (...) o intelectual ativo - aquele que escrevia e divulgava suas idéias ‘revolucionárias’ – sempre foi tratado pelas instituições vigilantes como um ‘herege’, um ‘homem maldito’, um ‘bandido’. Por ultrapassar os limites do permitido, foi repreendido, julgado e punido. Os livros apreendidos como ‘armas do crime’, transformaram-se em prova material da trama articulada contra o regime e que, segundo os homens do poder, poderiam desequilibrar a ordem imposta. (CARNEIRO, 2002, p. 20-21)

A título de conclusão parcial ao tema, entendemos que a violência, originária de sectarismos religiosos, seria o similar a um estado de ódio socialmente instituído e quase incontrolável. Para pensadores como o escritor e acadêmico argelino Mohammed Arkoun, quando a intolerância é substituída pelo ódio não haveria mais volta, exatamente porque os discursos passariam a adotar três critérios que, somados, seriam fatais para o diálogo entre os homens: violência, sagrado e verdade.

Esse tripé elaborado pelo sectarismo religioso, faz a intolerância assumir o poder de um mito, e como todo mito, adquire feições perenes e deixa as sociedades que a construíram marcadas para sempre. É um quadro desalentador para todos nós, porque corrobora a hipótese de ser o anti-semitismo, um fenômeno historicamente renitente. Fenômeno que parece adquirir sempre novas roupagens, parece supostamente justificar-se com “novas causas”, mas na realidade, reacende velhos estigmas profundamente arraigados ao imaginário social, sem perspectivas de extinção.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Enoch o guardador de segredos: Qumran e os fragmentos do “Livro dos Gigantes".

Nefilin:
Bene ha’ Elohim e a geração dos Nefilin:

Os Filhos de Deus (em hebraico bene ha’ Elohim) — entre os quais figuram Satã/Samael e Lilith — são conhecidos de vários textos da Bíblia Hebraica. Como já vimos, em Jó 1:6 e 2:1 os Filhos de Deus se apresentam a Iahweh na divina assembléia celestial; mais adiante, em Jó 38:7, vemos que os Filhos de Deus estiveram ao lado de Iahweh na criação do mundo: quando vêem a obra de Deus “rejubilavam os filhos de Deus”.

Uma cena semelhante ocorre no Salmo 29:1, onde os Filhos de Deus (bene ’elim) tributam glória ao senhor.[1]

Talvez a mais curiosa referência aos Filhos de Deus seja a do famoso Cântico de Moisés, no Deuteronômio 32, justamente antes dele subir ao monte Nebo, para morrer sem ter entrado na Terra Prometida. O Deuteronômio 32,8 contém o que aparentemente é uma velha referência mitológica à primitiva história da humanidade. – Descobriu-se que um texto fragmentário entre os Manuscritos do Mar Morto continha o Deuteronômio 32:8. composto em escrita do final do período herodiano (fim do século I a.C. ao início do século 1 d.C.). Esse fragmento é hoje o mais antigo texto hebraico do Deuteronômio 32:8 conhecido. Nesse fragmento, as últimas palavras do versículo são claramente bene ha’ Elohim (Filhos de Elohin). Essa redação foi preservada na Septuaginta Grega, que traduziu como “aggelon theou[2]:

“Quando o Altíssimo repartia as nações,
quando espalhava os filhos de Adão
ele fixou fronteiras para os povos,
conforme o número dos filhos de Deus”
(Deuteronômio 32,8)

Aqui são os anjos que guardam ou governam as nações. Porém Deus reservou cuidar pessoalmente de Israel, seu povo eleito: “Mas a parte de Iahweh foi o seu povo, o lote da sua herança foi Jacó”. (Deuteronômio 32,9). Foi uma sábia decisão, já que outros textos indicam que os anjos não fizeram exatamente o que deveriam, ou melhor, fizeram coisas além do que deveriam. Como, por exemplo, ensinar aos homens ciências divinas, casar-se e ter filhos.

O livro da Gênese assinala a união fecunda dos Benei-ha-Elohim com as filhas dos homens. Misterioso casamento do qual nasceu a grande raça dos gibborim, ou dos nephilim:

«Quando os homens começaram a se multiplicar sobre a face da terra e lhes nasceram filhas, os bene ha’ Elohim viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulher todas as que lhes agradaram. E então disse o Senhor: “Meu espírito não terá força (yadon) indefinidamente sobre o homem, pois este na verdade é só carne. E os seus dias serão cento e vinte anos”.[3] Ora, naqueles tempos, os Nefilim habitavam sobre a terra, e também depois, quando os bene ha’ Elohim se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos: estes foram os heróis dos tempos antigos, os homens de renome.» (Gênesis 6:1-4)

O episódio dos “filhos de Deus”, que se casaram com as “filhas dos homens”, é de tradição javista. O capítulo 6 é provavelmente um fragmento de uma antiga versão hebraica do Livro de Enoch que se adicionou ao Gênesis para fornecer uma motivação moral à história do dilúvio, derivada de versões mesopotâmicas, como a epopéia de Gilgamesh, nas quais essa motivação inexiste.

O termo Nefilin significa literalmente “os caídos”, sendo um eufemismo comum para “os mortos”, (por exemplo, Jeremias 6:15 diz: “eles cairão entre os que caem [em hebraico nopelim]”). Em Ezequiel 32:27, temos os Nefilim como guerreiros que caíram:

«Eles jazem com os guerreiros,
Os nefilin dos tempos antigos,
Que desceram ao Xeol [sepulcro]
com suas armas de guerra.» (Ezequiel 32:27)

Muitos textos sugerem que o dilúvio teria como função acabar com os Nefelin, entretanto, a presença de textos narrando a aparição de nefelins após esta data sugere que pelo menos alguns sobreviveram (ou ouve uma Segunda queda dos anjos após aquela data…)

O livro de Números fala da presença de Nefelins em Canaã — em época bem posterior ao dilúvio. No relato, depois de vagar 40 anos no deserto os Israelitas fizeram uma breve parada em Cades, o principal oásis do norte do Sinai, 75 km a sudoeste de Bersabéia. Então Moisés enviou um príncipe de cada tribo presente ao deserto de Farã para explorar a terra prometida: “Subi ao Negueb, e em seguida escalai a montanha. Vede como é a terra; como é o povo que a habita (…) Sede corajosos. Trazei produtos da terra.” (Números 13:17-20) Então eles subiram desde o deserto de Sin até Roob, a Entrada de Emat no extremo norte da terra prometida. Subiram pelo Negueb e chegaram a Hebrom, onde se achavam Aimã, Sesai e Tolmai, os enacim; e chegaram ao vale de Escol. Lá cortaram um ramo de videiras com um cacho de uvas que levaram sobre uma vara, transportada por dois homens; levaram também romãs e figos. (Números 13:21-24) Após 40 dias voltaram da exploração do lugar trazendo os produtos da terra e relatando o seguinte: “Fomos à terra à qual nos enviaste. Na verdade é terra onde mana leite e mel; eis os seus produtos. Contudo, o povo que a habita é poderoso; as cidades são fortificadas, muito grandes; também vimos ali os filhos de Enac. Os amalecitas ocupam a região do Negueb; os heteus, os amorreus e os jebuseus, a montanha; os caneneus, a orla marítima e ao longo do Jordão.” (Números 13:25-29) Então Caleb, príncipe da tribo de Judá, animou-se e disse ao povo reunido diante de Moisés: “Devemos marchar e conquistar essa terra: realmente podemos fazer isso.” Mas os outros príncipes que o haviam acompanhado se opuseram: “Não podemos marchar contra esse povo, visto que é mais forte do que nós (…) A terra que fomos explorar é terra que devora os seus habitantes. Todos aqueles que lá vimos são homens de grande estatura. Lá também vimos Nefelins –os filhos de Enac são descendência de Nefilim –. Tínhamos a impressão de sermos gafanhotos diante deles e assim também lhes parecíamos.” (Números 13:31-33) Mas os príncipes Josué e Caleb reanimaram a comunidade: “Não tenhais medo do povo daquela terra, pois os devoraremos como um bocado de pão. A sua sombra protetora[4] lhes foi retirada, ao passo que Iahweh está conosco” (Números 14:9)

No Deuteronômio 2:11, os gigantes enacim – descendentes dos nefilim – também são chamados de rafaim, um termo mais geral para os habitantes de Canãa, citados em Números:

«Cruzamos o território de nossos irmãos, os filhos de Esaú que habitam em Seir (Édom), e passamos pelo caminho da Arabá, de Elat e de Asiongaber. Depois viramo-nos, tomando o caminho do deserto de Moab. Disse-me então Iahweh: “Não ataques Moab e não o provoques à luta, pois nada te darei da sua região. Eu dei Ar como propriedade aos filhos de Ló. – Outrora os emim aí habitavam; eram considerados como rafaim, assim como os enacim; os moabitas, porém, chamam-nos de emim. Em Seir habitavam outrora os horreus; os filhos de Esaú, porém, os desalojados e exterminaram, habitação no seu lugar, assim como Israel fez para se apossar da terra que Iahweh lhe dera. – E agora, levantai acampamento e atravessai o ribeiro de Zared!”» (Deuteronômio 2:8-13)

Mais adiante, a narração continua: «Ouve, ó Israel: hoje estás atravessando o Jordão para ires conquistar nações mais numerosas e poderosas do que tu, cidades grandes e fortificadas até o céu. Os enacim são um povo grande e de alta estatura. Tu os conheces, pois ouviste dizer: “Quem poderia resistir aos filhos de Enac?” Portanto, saberás hoje que Iahweh teu Deus vai atravessar à tua frente, como um fogo devorador; é ele quem os exterminará e é ele quem os submeterá a ti. Tu, então, os desalojarás e, rapidamente, os farás perecer (…) é por causa da perversidade dessas nações que Iahweh irá expulsa-las da tua frente (…) e também para cumprir a palavra que ele jurou a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó.» (Deuteronômio 9:1-5)

Dois dos mais conhecidos entre os rafaim são o rei Og, de Basã, e o gigante Golias, descrito como descendente de Rafá em Gate (2 Samuel 21,19ss[5]. Segundo o Deuteronômio, o imenso leito de ferro de Og ainda podia ser visto em Rabá: «Pois somente Og, rei de Basã, sobreviverá dos remanescentes dos rafaim; seu leito é o leito de ferro que está em Rabá dos filhos de Amon: tem nove côvados de comprimento e quatro côvados de largura, em côvado comum.» (Deuteronômio 3:11[6] Note que os gigantescos habitantes nativos de Édom-Seir, Amon e Gaza também são totalmente aniquilados em geral por Iahweh (ver Deuteronômio 20:2-3):

«Mas eu destruírei diante deles o amorreu,
cuja altura era como a altura dos cedros,
e que era forte como os carvalhos!
Destruí seu fruto por cima,
E suas raízes por baixo!» (Amós 2-3)

Os nefilin, portanto, parecem ter sido uma raça de heróis que viveu antes do Dilúvio e também em Canãa, quando os israelitas ainda não haviam conquistado a Terra Prometida. Por esse tempo, os nefilim acabam, como o nome sugere, como “os mortos”. Diz-se que os refaim e enacim foram exterminados por Josué (Josué 11:21-22), Moisés (Josué 12,4-6) e Caleb (Josué 15:14; Juizes 1:20), embora restassem alguns desgarrados, que seriam mortos por Davi e seus homens (2 Samuel 21, 18-22; 1 Crônicas 20:4-8). Josué 11,22 nos diz que: “Nenhum dos enacim sobreviveu na terra de Israel, somente em Gaza, em Gate e em Asdode alguns sobreviveram”.

Segundo Ronal S. Hendel, «a função dos nefilim-rafaim-enacim, (…) é constante em todas essas tradições. Eles existem para serem aniquilados: pelo Dilúvio, por Moisés, por Davi e outros. Na tradição israelita, os nefilim tem uma função: morrer.[7] Contudo, sempre acaba sobrando algum para ter filhos e continuar a histórias…

A Queda dos Anjos:

Os nefilins foram considerados nos livros apócrifos da época do Segundo Templo. Entre os achados arqueológicos mais importantes nesta área, encontra-se um texto em aramaico, descoberto no inverno de 1896-97 numa genizah de uma comunidade hebraica do Cairo e publicada, pela primeira vez, sob o título de Documento de Damasco, em 1910. Diz o seguinte:

«III – E, agora, ouvi-me, meus filhos, que eu descerrarei os vossos olhos para que possais escolher aquilo que Ele ama e desprezar tudo aquilo que odeia, para poderdes caminhar perfeitamente em todos os Seus caminhos e não errardes seguindo impulsos culposos ou deitando olhares de fornicação. Porque muitos foram os que se desviaram e homens fortes e valorosos aí escorregaram, tanto outrora como hoje. Caminhando com a rebelião nos corações, caíram os próprios guardas dos céus, a tal chegados porque não observavam os mandamentos de Deus, tendo caído também os seus filhos, cuja estatura atingia também a altura dos cedros e cujos corpos se assemelhavam a montanhas. Todo o ser vivo que se encontrava em terra firme, caiu, sim, e morreu, e foram como se não tivessem sido, porque procediam conforme a sua vontade e não observavam os mandamentos do seu Criador, de maneira que a cólera de Deus se inflamou contra eles.»[8]

Vários fragmentos do Livro de Enoch, escritos em aramaico, foram descobertos nas célebres grutas de Qumra[9], no Mar Morto. Contudo, mesmo depois dos textos terem sido comparados e executado um árduo trabalho de reconstituição, ainda faltaram diversas lacunas. Tentei amenizar este problema tapando os buracos com passagens de uma tradução livre para o etíope quase idêntica ao original aramaico, encontrada na Abissínia (conhecida como Enoch Etíope ou I Enoch)[10]:

VI – 1 «Sucedeu que quando se multiplicaram naqueles dias os filhos dos homens, nasceram-lhe filhas formosas e belas. Os Vigilantes, filhos do céu, viram-nas, desejaram-nas e disseram uns aos outros: Vamos e escolhamos mulheres dentre as filhas dos homens e engendremos filhos. Porém Semihaza, que era o seu chefe, lhes disse: Temo que não queiras realizar esta obra, e seja eu sozinho culpável de um grande pecado. Responderam e lhe disseram todos:[11] «Juremo-nos todos e comprometamo-nos todos sob anátema. Uns com os outros, a não voltarmos atrás neste projeto até que tenhamos realizado esta obra. Então se juramentaram todos em uníssono e se comprometeram uns com os outros. Eram duzentos todos os que desceram no tempo de Jared sobre o cimo do monte Hermon. Chamaram o monte “Hermon”, porque juram e se comprometeram sob anátema uns com os outros nele. Estes são os nomes de seus chefes: Semihazah, que era seu chefe; ’Ar‘teqof, o segundo com relação a ele; Ramt’el, o terceiro com relação a ele; Kokab’el, o quarto com relação a ele; ???’el, o quinto com relação a ele; Ra’ma’el, sexto com relação a ele; Dani’el, sétimo com relação a ele; Zeq’el, oitavo com relação a ele; Baraq’el, nono com relação a ele; ‘Asa’el, décimo com relação a ele; Hermoni, undécimo com relação a ele; Matar’el, duodécimo com relação a ele; ’Anan’el, décimo terceiro com relação a ele; Sato’el, décimo quarto com relação a ele; Shamsi’el, décimo quinto com relação a ele; Sahari’el, décimo sexto com relação a ele; Tumi’el, décimo sétimo com relação a ele; Turi’el, décimo oitavo com relação a ele; Yomi’el décimo nono com relação a ele; Yehadi’el, vigésimo com relação a ele. Estes são os chefes dos chefes de dezena.»[12]

VI – 1 «Eles e seus chefes, todos tomaram para si mulheres, escolhendo entre todas, e começaram a ir a elas e a contaminar-se com elas, a ensinar-lhes bruxarias, encantos e o corte de raízes, e a revelar-lhes as plantas. Elas ficaram grávidas deles e pariram gigantes, altos uns três mil côvados, que nasceram sobre a terra conforme a sua infância, e cresceram de acordo com seu crescimento, e que devoravam o trabalho de todos os filhos dos homens, sem que os homens pudessem abastecê-los. Os gigantes conspiravam para matar os homens e para devora-los. Começaram a pecar [...] contra todos os pássaros e animais da terra e contra os répteis que se movem sobre a terra e nas águas e no céu, e os peixes do mar, e a devorar uns a carne dos outros, e bebiam o sangue. Então a terra acusou os ímpios por tudo o que se havia feito nela.»[13]

«‘Asa’el ensinou os homens a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre e lhes mostrou o que se escava e como poderiam trabalhar o ouro para deixa-lo preparado; e quanto à prata, a lavrá-la para braceletes e outros adornos para as mulheres. Às mulheres revelou acerca do antimônio e acerca do sombreado dos olhos e de todas as pedras preciosas e sobre as tinturas [E assim grassava uma grande impiedade; eles promoviam a prostituição, conduziam aos excessos e eram corruptos em todos os sentidos.][14] «Semihazah ensinou encantamentos e a cortar raízes; Hermoni ensinou a desencantar, a bruxaria, a magia e habilidades; Baraq’el ensinou os sinais dos raios; Kokab’el ensinou os sinais das estrelas; Zeq’el ensinou os sinais dos relâmpagos; ???’el ensinou os sinais de [...]; ’Ar‘teqof ensinou os sinais da terra; Shamsi’el ensinou os sinais do sol; Sahari’el ensinou os sinais da lua. E todos começaram a descobrir segredos à suas mulheres.»[15] «Como estava perecendo uma parte dos homens da terra, seu grito subia até o céu.»[16]

IX -1 «Então Miguel, Sariel, Rafael, e Gabriel olharam para a terra do santuário dos céus e viram muito sangue derramado sobre a terra; e toda a terra estava cheia da maldade e da violência que se pecava sobre ela. Ouvindo isto, os quatro foram e disseram que o grito e o lamento pela destruição dos filhos da terra subia até as portas do céu. E disseram aos santos do céu: É agora a vós, santos do céu, a quem suplicam as almas dos filhos dos homens dizendo: “Levai nosso caso diante do Altíssimo e nossa destruição diante da majestade!” Foram Rafael, Miguel, Sariel e Gabriel, e disseram diante do Senhor do mundo: “Tu és nosso grande Senhor, tu és o Senhor do mundo; Tu és o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores e o Rei dos reis. Os céus são o trono de tua glória por todas as gerações que existem desde sempre, e toda a terra é o escabelo ante ti por toda a eternidade, e teu nome é grande e santo e bendito para sempre. [Tudo foi por Ti criado e conservas o domínio sobre todas as coisas. Tudo é claro e manifestado diante dos teus olhos. Tu vês tudo e nada pode ocultar-se na tua presença. Tu vês o que foi perpetrado por Azazel, como ele ensinou sobre a terra toda espécie de transgreções.]»[17] «pois (eles) ensinaram os mistérios eternos que há no céu para que os praticassem os conhecedores dentre os homens. E (olha) Shemihaza, a quem deste autoridade para reinar sobre todos os seus companheiros. Foram às filhas dos homens da terra e dormiram com aquelas mulheres, contaminando-se com elas [e familiarizaram-nas com toda sorte de pecados. As mulheres pariram gigantes e, em conseqüência, toda a terra encheu-se de sangue e de calamidades. 6. Agora clamam as almas dos que morreram, e o seu lamento chega às portas do céu. Os seus clamores se levantam ao alto, e em face de toda a impiedade que se espalhou sobre a terra não podem cessar os seus queixumes. 7. E Tu sabes de tudo, antes mesmo que aconteça. Tu vês tudo isso e consentes. Não nos dizes o que devemos fazer.]”»[18]

X – 1 «[Então o Altíssimo, o Santo, o Grande, tomou a palavra e enviou Uriel (= Sariel) ao filho de Lamech (Noé), com a ordem seguinte: “Diz-lhe, em meu nome: ‘Esconde-te’, e anuncia-lhe o fim próximo! Pois o mundo inteiro será destruído; um dilúvio cobrirá toda a terra e aniquilará tudo o que sobre ela existe.] Ensina ao justo o que deve fazer, e ao filho de Lamec a preservar sua alma para a vida e a escapar para sempre. E por ele será plantada uma planta e serão estabelecidas todas as gerações do mundo.»[19] «[O Senhor] disse a Rafael: “Vai, pois, Rafael, e ata Azael de pés e mãos e arremessa-o nas trevas! [Cava um buraco no deserto de Dudael e atira-o ao fundo! Deposita pedras ásperas e pontiagudas por baixo dele e cobre-o de escuridão! Deixa-o permanecer lá para sempre e veda-lhe o rosto, para que não veja a luz! 4. No dia do grande Juízo ele deverá ser arremessado ao tremendal de fogo! Purifica a terra, corrompida pelos Anjos, e anuncia-lhe a Salvação, para que terminem seus sofrimentos e não se percam todos os filhos dos homens, em virtude das coisas secretas que os Guardiões revelaram e ensinaram aos seus filhos! Toda a terra está corrompida por causa das obras transmitidas por Azazel. A ele atribui todos os pecados!”]»[20]; «E a Gabriel disse o Senhor: “Vai aos bastardos e aos filhos da fornicação e destrói os filhos dos Vigilantes dentre os filhos dos homens; mete-os em uma guerra de destruição, pois não haverá para eles longos dias. Nenhuma petição a seu favor será concedida a seus pais; pois esperam viver uma vida eterna, ou que cada um deles viverá quinhentos anos”. E a Miguel disse o Senhor: “Vai, Miguel, e anuncia a Shemihaza e a todos os seus amigos que se uniram com mulheres para contaminar-se com elas em sua impureza, que seus filhos perecerão e eles verão a destruição de seus queridos; acorrenta-os durante setenta gerações nos vales da terra até o dia grande de seu juízo. [Nesse dia, eles serão]»[21] (condenados a) «tortura e ao fechamento na prisão eterna. Tudo o que seja condenado estará perdido desde agora; será acorrentado com eles até a destruição de sua geração. E no tempo do juízo com que eu julgarei, perecerão por todas as gerações. Destrói todos os espíritos dos bastardos e dos filhos dos Vigilantes, porque fizeram operar o mal aos homens. Destrói a iniqüidade da face da terra, faz perecer toda obra de impiedade e faz que apareça a planta da justiça; ela será uma bênção e as obras dos justos serão plantadas no gozo para sempre. Naquele tempo todos os justos escaparão e viverão até que engendrem milhares. Todos os dias de vossa juventude e de vossa velhice se completarão em paz.”»[22]

VII – 1. [Enoch havia desaparecido, e nenhum dos filhos dos homens sabia onde ele se encontrava, onde se ocultava e o que era feito dele. O que ocorrera é que ele havia estado junto dos Guardiões e transcorreu os seus dias na companhia dos Santos. 2. Eu, Enoch, ergui-me e louvei o Senhor da Majestade e Rei do mundo. Então os Guardiões (santos) me chamaram, a mim Enoch, o Escriba, e disseram-me: “Enoch, tu, o Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos, que se corromperam com mulheres à moda dos homens, que se casaram com elas, produzindo assim grande desgraça sobre a terra; anuncia-lhes: ‘Não encontrareis nem paz nem perdão’. Da mesma forma como se alegram com seus filhos, presenciarão também o massacre dos seus queridos, e suspirarão com a desgraça. Eles suplicarão sem cessar, mas não obterão nem clemência nem paz!”]

XIII – 1. [Então Enoch encaminhou-se até eles e assim falou a Azazel: “Tu não terás a paz. Uma sentença severa recaiu sobre ti: deverás ser acorrentado. Não alcançarás indulgência nem será aceita a intercessão, por causa dos atos violadores que ensinaste a praticar, e por causa de todas as obras blasfemas, da violência e dos pecados que mostraste aos homens.” Então eu redigi a palavra a todos eles. Todos encheram-se de grande medo e foram tomados de pavor e tremor. Suplicaram-me que lhes escrevesse um rogo intercessório, para que pudessem obter o perdão, e que eu lesse o seu pedido na presença do Senhor dos céus. Pois a partir de então não lhes era mais permitido falar com ele nem levantar seus olhos para o céu, de vergonha pelos seus delitos, pelos quais foram castigados. Assim eu redigi o seu rogo] «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade. Fui e me sentei junto às águas de Dã, na terra de Dã, que está ao sul do Hermonim, ao seu lado oeste, e estive lendo o livro de anotações de suas petições até que dormi. Eis que me vieram sonhos e caíram sobre mim visões até que levantei minhas pálpebras às portas do palácio do céu [...] E vi uma visão do rigor do castigo. E uma voz veio e me disse: Fala aos filhos do céu para repreendê-los. Quando despertei, fui a eles. Todos eles estavam reunidos juntos e sentados e chorando em Abel-Maya (a Fonte do Pranto) que está entre o Líbano e Senir, com os rostos cobertos.»[23]; «Eu contei diante deles todas as visões que havia visto em sonhos e comecei a falar com palavras de justiça e de visão e a repreender os Vigilantes celestes.»[24]

XIV 1. [Este é o] «livro das palavras da verdade e da repreensão dos Vigilantes que eram desde sempre, segundo o que ordenou o Grande Santo no sono que sonhei. Nesta visão eu vi em meu sonho o que agora digo com a língua carnal, com o alento de minha boca, que o Grande deu aos filhos dos homens para que falem com ela e para que compreendam no coração. Assim como Deus destinou e criou os filhos dos homens para que compreendam as palavras do conhecimento, assim me destinou e fez e criou a mim para que repreenda os Vigilantes, os filhos do céu. Eu escrevi vossa petição, Vigilantes, e numa visão me foi revelado que vossa petição não vos será concedida por todos os dias da eternidade, e que haverá juízo por decisão e por decreto contra vós; que a partir de agora não voltareis ao céu e não subireis por todas as idades; e que foi decretada a sentença para acorrentar-vos nas prisões da terra por todos os dias da eternidade; porém que antes vereis que todos os vossos queridos irão à destruição com todos os seus filhos; e as propriedades de vossos queridos e de seus filhos não as desfrutareis; cairão ante vós pela espada de destruição, pois vossa petição por eles não vos será concedida, como não vos é concedida por vós mesmos. Vós continuareis pedindo e suplicando. [...] Não pronunciareis nem uma palavra do escrito que eu escrevi.»[25]

Esses Vigilantes que “mudaram suas obras” e resolveram ensinar aos humanos ciências divinas foram responsabilizados não só pelas guerras (que naquele tempo nem sempre eram vistas como algo ruim) mas também por terem iniciado ou aperfeiçoado a própria civilização: Semihazah ensinou “bruxarias, encantos e o corte de raízes, e a revelar-lhes as plantas”. Nisso se incluía a antiga homeopatia (fabricação de remédios naturais), já conhecida e rigorosamente aperfeiçoada pelos egípcios desde tempos remotos; E também a fabricação de venenos – retirados das plantas – que era uma especialidade daquele período, herdada da dominação romana.

Menos eficazes, mas nem por isso menos populares, deveriam ser as “bruxarias” e “encantos”, aos quais alegava-se que serviam para praticamente tudo que se pudesse desejar, principalmente ganhar fama, fortuna e atrair o sexo oposto. Geralmente nessas práticas se ensina que quando o feitiço da errado é 1) porque o praticante não executou como devia ou 2) porque seu inimigo fez um contra feitiço anulando o primeiro. Assim Hermoni (et. Armaros) “ensinou a desencantar, a bruxaria, a magia e habilidades”… Uma segunda versão em etíope fala sobre outros Vigilantes que, juntamente com Semihazah, teriam ensinado magia: Kasdeja “ensinou aos filhos dos homens toda espécie de sortilégios dos espíritos e dos demônios, bem como os malefícios contra o fruto do ventre materno, para sua expulsão, e os contra a alma, feitiços contra a picada de cobra, contra a insolação e contra o filho da serpente, chamado Tabaet. – E esta foi a tarefa de Kasbeel, que desvelara aos Santos o Juramento supremo, quando habitava no alto da Glória e se chamava Bika. Este pedira a Michael para transmitir-lhe o Nome secreto, a fim de que pudesse ser conhecido e empregado nos juramentos, conquanto aqueles que ensinaram as coisas ocultas aos filhos dos homens tremessem em face desse Nome e desse Juramento.” (I Enoch LXIX)

Sobre culinária, alfabetização e leis, é dito que Penemue “ensinou aos filhos dos homens o doce e o amargo, bem como todos os segredos da sua sabedoria. Ele também instruiu os homens na escrita com tinta e sobre papel, e com isso muitos se corromperam, desde os tempos antigos por todas as épocas, até os dias de hoje. Pois os homens não foram criados para fortalecer sua honestidade dessa maneira, por meio de pena e tinta”. (I Enoxh LXIX)

Kokab’el “ensinou os sinais das estrelas. (et. Ciência das constelações)”. Isso sem dúvida é antiga Astrologia, que incorporava elementos da astronomia. Esta “ciência” era muito valorizada pois, na antigüidade, eram os astrólogos que ficavam encarregados de informar sobre a mudança das estações, da configuração de calendários e outras coisas de grande utilidade para a vida rural e economia dos reinos. Ainda no campo da astrologia, parece que Zeq’el, que “ensinou os sinais dos relâmpagos (Et. Observação das nuvens)” e Baraq’el que “ensinou os sinais dos raios” ficaram responsáveis pala previsão do tempo… Para completar o quadro astronômico/astrológico, Shamsi’el “ensinou os sinais do sol” e Sahari’el “ensinou os sinais da lua. (et. Fazes da lua)”.

Em auxílio da agricultura, ’Ar‘teqof “ensinou os sinais da terra”, se era boa ou ruim para o plantio, etc. Tudo isso gerava grandes facilidades na vida humana que, tendo menos trabalho e mais tempo livre podia se dedicar a cuidados pessoais, iniciar uma vida urbana e até mesmo pensar numa expansão através da guerra. É aqui que entra aquele que apesar de não ser o líder parece ter provocado o maior dano de todos: ‘Asa’el (hebr. et. e árabe Azazel) “Ensinou os homens a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre e lhes mostrou o que se escava e como poderiam trabalhar o ouro para deixa-lo preparado; e quanto à prata, a lavrá-la para braceletes e outros adornos para as mulheres. Às mulheres revelou acerca do antimônio e acerca do sombreado dos olhos (Kohol) e de todas as pedras preciosas e sobre as tinturas”.

Aparentemente, se não fosse pelos insaciáveis filhos vampiros, parece que os ensinamentos dos Vigilantes não seriam tão condenáveis assim, já que trouxeram para a humanidade mais bem do que mal… Tanto que um dos chefes de dezena, Dani’el (et. Danjal) foi adotado posteriormente como anjo da misericórdia pela tradição cristã, ficando mundialmente conhecido. Outro mencionado em versões posteriores, Uzza, tornou-se anjo benéfico para os árabes.

De fato, «o livro apocalíptico dos Jubileus afirma que os Sentinelas (= Vigilantes) vieram para a Terra e depois pecaram, mas que seu príncipe, Samael, teria tido a permissão de Yaveh para atormentar a humanidade».[26]

Entretanto, o judaísmo posterior e quase todos os primeiros escritores eclesiásticos viram nesses “filhos de Deus” anjos culpados.

Sobre a posterior condenação, a Segunda versão de I Enoch limita-se a dizer que «em conseqüência desse Julgamento, eles serão submetidos à angústia e ao estremecimento por terem desvelado aquelas coisas aos habitantes da terra.» (I Enoch LXIX).

Na verdade nenhuma das sete cópias fragmentadas do Livro de Enoch (nem das cinco do Livro dos Gigantes) encontrados nas cavernas de Qumran continha menção ao “abismo de fogo” descrito no Enoch Etíope, o que é significativo pois se trata de textos particularmente grandes.
É possível que estes textos sejam acréscimos posteriores de escribas ou tradutores Coptas – mesmo porque eles se assemelham mais à doutrina cristã dos primeiros séculos d.C. do que à mitologia judaica/essênia da época em que foram escritos os Manuscritos do Mar Morto. Uma descrição mais detalhada deste local de condenação aparece no Livro das “Similitudes de Enoch” (II Enoch). [Diz o texto: «VII – E aqueles homens (dois anjos) me tomaram e me conduziram ao segundo céu, e me mostraram as trevas, mais escuras que as da terra, e eu vi prisioneiros atados, vigiados, que aguardavam o grande e infinito julgamento, e esses anjos eram escuros, mais escuros que a escuridão da terra, e os faziam chorar incessantemente, o tempo todo. – E eu disse aos homens que estavam comigo: “Por que motivo estão eles sendo torturados sem parar?” Eles me responderam: “Estes são os infiéis a Deus, que não obedeceram aos mandamentos de Deus, mas que se aconselharam segundo sua própria vontade, e se foram com seu príncipe que também está acorrentado no quinto céu”». ‡ «VVIII – Os homens levaram-me ao quinto céu e lá me puseram, e vi muitos e incontáveis soldados, chamados Grigori, de aparência humana, e eram maiores que os maiores gigantes e suas faces eram sem viço e o silêncio de suas bocas, perpétuo, e não havia qualquer serviço no quinto céu, e eu disse aos homens que estavam comigo: “Por que eles são tão sem viço e suas faces melancólicas, suas bocas silenciosas, e por que não há serviço neste céu?” Eles me disseram: “Estes são os Grigori, que com seu príncipe Satanail rejeitaram o Senhor da Luz, e atrás deles estão os que são mantidos nas grandes trevas do segundo céu, e três deles foram para a terra vindos do trono do Senhor, para o Ermon, e quebraram seus votos nas encostas da colina do Ermon e viram como eram bonitas as filhas dos homens e tomaram-nas por esposas e sujaram o mundo com suas obras, e durante todo o tempo de sua estada cometeram ilegalidade e promiscuidade, e nasceram gigantes e impressionantes homens grandes e grandes inimizades. E por isso Deus jogou-os com um grande julgamento, e eles choraram por seus irmãos e serão punidos no grande dia do Senhor.” – E eu disse aos Grigori: “Eu vi vossos irmãos e suas obras e seus grandes tormentos, e rezei por eles, mas o Senhor condenou-os a estar embaixo da terra até o céu e a terra se acabarem”. E eu disse: “Por que razão esperais, irmãos, e não servis diante da face do Senhor e por que não pusestes vossos serviços diante da face do Senhor, para que o Senhor não se enraivecesse tanto?” E eles ouviram minhas admoestações e falaram para as quatro ordens do céu, e vede: Enquanto eu estava com esses dois homens, quatro trombetas soaram juntas bem alto, e os Grigori irromperam em um cântico uníssono, e suas vozes foram até o Senhor cheias de piedade e afeição.»] Esta versão, descoberta na Rússia em um texto eslavo, foi provavelmente escrita no Egito no princípio da era cristã e fala da viagem de Enoch através das diferentes coortes do Paraíso.

O Livro dos Gigantes:

Entre os pergaminhos de Qumran foram encontrados fragmentos de uma obra conhecida como “Livro dos Gigantes”, que seria uma espécie de comentário ou complemento ao Livro de Henoc[27]. O Livro dos Gigantes conta que Semihazah, o líder dos Vigilantes, teve dois filhos de sua esposa humana chamados ’Ohyah e Hahyah. Também Baraq’el, o nono vigilante chefe de dezena, foi pai de Mahawai. — Além destes, entre os nomes de gigantes citados entre os fragmentos do mar morto constam os “amigos” «Hobabes e ADK»[28]

A Segunda versão Etíope narra que Asbeel «deu um conselho aos filhos dos Anjos, fazendo com que corrompessem os seus corpos com as filhas dos homens.» (I Enoch LXIX). Assim, seguindo o exemplo dos pais, também “se contaminaram, os Gigantes e os Nefilim”, tomando esposas para “engendraram filhos” mas logo não havia alimento suficiente para todos, o que causou um grande problema entre seus súditos: «Os gigantes (diziam) que não lhes bastava a eles e a seus filhos (o alimento oferecido) [...] e pediam muito para comer»[29]

«Hobabes e ADK (perguntavam…): Que me dará para matar?»[30]

Por fim, desesperados de fome, e não podendo ser satisfeitos com o trabalho humano, os Gigantes começaram a destruir praticamente tudo que encontraram pela frente: «A impiedade foi grande, e eles erravam em todos os seus caminhos.»[31] Um curioso fragmento, menciona esta passagem do ponto de vista do próprio ’Ohyah: «E com o vigor de meu braço e com a força de meu poder [...] (abati) toda carne, e fiz guerra com eles. Porem não [...] encontrei apoio para fortalecer-me, pois meus acusadores [...] habitam nos céus e vivem com os santos, e não (posso
vencê-los) [...] pois eles são mais poderosos que eu.»[32]. — Mais tarde, ’Ohyah e Hahyah tiveram pesadelos, “e o sonho fugiu de seus olhos”: «Chegou o frêmito das feras selvagens, e gritaram um bramido selvagem [...] Assim lhe falou ’Ohyah: “Meu sonho me abateu. [...] fugiu o sonho de meus olhos ao ver a visão”»[33]. Os irmãos levantaram-se e foram a Shemihaza, seu pai, e lhe contaram seus sonhos. Hahyah relatou:

«Vi em meu sonho desta noite [...] jardineiros; estavam regando (uma árvore…) numerosas raízes saíam de seu tronco [...] olhei até que se fecharam as fontes (… e esgotaram-se) todas as águas e o fogo ardeu em todo (o tronco…) Aqui se acaba o sonho.»; «Então ’Ohyah, seu irmão, reconheceu e disse ante os gigantes: Também eu vi em meu sonho esta noite algo extraordinário: O Poder dos céus descia à terra [...] aqui acaba o sonho. Então se assustaram todos os Gigantes, e os Nefilim e chamaram Mahawai e ele veio a eles.»

Os gigantes buscavam quem lhes explicasse o sonho. Por isso suplicaram a Mahawai e lhe enviaram até Henoc, o escriba distinto, e lhe disseram: “Escuta sua voz e diz-lhe que te explique e interprete o sonho”[34] Entretanto, a explicação de Henoc anunciava-lhes punição e morte pela “violência feita aos homens”: «Então castigou e não a nós, (os justos), mas a Azazel», e também aprisionou e capturou «aos filhos dos Vigilantes, os Gigantes; e não serão perdoados nenhum de seus queridos.»[35] Então eles «se prostraram e choraram ante Henoc»[36] — Procurando manter a calma, ’Ohyah disse a Mahawai: «E não trema. Quem te mostrou tudo?»; Disse Mahawai: «Baraq’el, meu pai, estava comigo.»; «Apenas havia acabado Mahawai de contar o que (… Henoc) lhe disse: “Eu ouvi maravilhas. Se uma estéril pode dar à luz (ainda havia uma chance deles serem perdoados)…”»[37] Mahawai deixou «a terra e cruzou a Desolação, o grande deserto», Então viu Henoc, chamou-o e lhe disse: «“Pela Segunda vez eu te peço um oráculo [...] a tuas palavras, junto com todos os Nefilim da terra”»; «“Que saibamos de ti sua explicação”.» — Henoc, o escriba distinto, fez cópias em duas pequenas tábuas das epístulas escrevendo «em uma o testemunho dos gigantes (a Semihaza e a todos os seus companheiros) e na outra [o testemunho dos santos]». Então levou as tábuas «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade.» [38] Mas o perdão lhes foi negado. Disse Henoc:

«Sabei que não (serão perdoadas …) vossas obras e as de vossas mulheres»; «(Serão castigadas) elas e seus filhos e as mulheres de seus filhos (…) por vossa prostituição na terra.»; «E vos acusa a vós, pelas obras de vossos filhos (…) a corrupção com a qual tendes corrompido (…) até a vinda de Rafael. Eis que haverá destruição (…) Agora, pois, desligai vossas correntes (…) e rezai.»[39] «Que não haja paz para voz.»

Depois de repreender os Vigilantes e seus filhos, Henoc falou aos justos: «Palavras de bênção com as quais abençoou Henoc, varão justo a quem foi revelada uma visão do Santo e do céu, pronunciou seus oráculos dizendo: A visão do Santo do céu me foi revelada e ouvi todas as palavras dos Vigilantes e dos Santos e, porque o escutei deles, eu soube e compreendi tudo. Não falarei para esta geração mas para uma geração futura. Agora falo acerca dos eleitos, sobre eles pronuncio meu oráculo dizendo: Sairá o grande Santo de sua morada, e o Deus eterno descerá sobre a terra e irá ao monte Sinai e aparecerá com seu grande exército, e surgirá na força de seu poder do alto dos céus. Todos os Vigilantes tremerão e serão castigados em lugares secretos em todas as extremidades da terra; todas as extremidades da terra se fenderão e eles serão possuídos de tremor e medo até os confins da terra. Fender-se-ão e cairão e se dissolverão os altos e as altas montanhas serão rebaixadas…»[40]

A queda dos anjos vista pelos cristãos:

A tradição da queda dos anjos estava espalhada e existia na época do nascimento do cristianismo no Egito. Ainda hoje persiste na Síria, no Egito e na Etiópia, onde existem igrejas cristãs muito diferentes das nossas. Atualmente, a Igreja Cristã da Etiópia, ou Igreja Copta, mantém o Livro de Enoque em sua Bíblia, como documento oficial. Entre demais cristãos atuais é considerado apócrifo, o que não é de estranhar. Os primeiros padres da Igreja, e os principais pensadores cristãos dos três primeiros séculos conheciam Enoch. Também a Bíblia não era a que conhecemos.

De acordo com Luther Link, «até o século IV, Enoch fazia parte do ainda mal definido cânone[41]»; «Familiar para os judeus e primeiros cristãos, Enoch foi um texto sagrado autêntico para Judas, Clemente, Barnabé, Tertuliano e outros primeiros padres (embora Jerônimo e Orígenes fizessem ressalvas). A influência desse livro foi tamanha que ele chegou citado até mesmo por críticos pagãos, como Celso, que estudou as Escrituras. Muitos conceitos cristãos tem sua primeira ocorrência em Enoch.»[42]; «Essa interpretação influente apresentada por muitos dos primeiros padres da Igreja é uma razão para Enoch ter sido excluído do cânone. Eis o que os primeiros padres escreveram: Justino, martirizado em Roma em 165 d.C., explicou que alguns anjos violaram a ordem apropriada das coisas, cederam a impulsos sexuais e tiveram relações com mulheres, cujos filhos agora chamamos de demônios (Justino, Apologia, II, 2-6).

Esses demônios são a causa de assassinatos, adultérios e todos os outros males. Atenágoras, outro apologista cristão grego, escreveu (em 177) que o Diabo foi criado por Deus exatamente como Ele criara os demais anjos. O homem possui o livre-arbítrio para escolher entre bem e mal, e o mesmo vale para os anjos. O homem possui o livre-arbítrio para escolher entre bem e mal, e o mesmo vale para os anjos. Mas no passado alguns anjos sentiram desejo por virgens, tornaram-se escravos da carne, tiveram relações sexuais com elas e nasceram-lhes filhos que eram gigantes. Junto com as almas desses gigantes, os anjos que caíram do Céu assombram o ar e a terra; são os demônios que vagam pelo mundo (Antenágoras. Plea, 24).

Clemente de Alexandria, outro apologista importante, foi um pensador flexível e sutil na virada do século II. Condenado no século IX como herege pelo patriarca ilegalmente consagrado Fócio, Clemente foi eliminado do martirológio romano. Ele supôs que as verdades da filosofia grega haviam sido roubadas pelos gregos dos hebreus. Tanto os textos gregos como os hebreus misturam verdade e erro, sendo o Diabo a origem da confusão (Clemente. Stromateis, V, I, 10, 1-3).

Em última análise, argumentou Clemente, todas as verdades da filosofia provêm dos anjos caídos; essa idéia deriva de Enoch.»; «Tertuliano[43], como Clemente, acreditava que os anjos celestes que tinham mantido relações sexuais com as filhas dos homens, tal como descrito em Enoch, revelaram muitas artes secretas, inclusive o mistério do kohl. Em prosa evocativa, Tertuliano serve-se de uma sentença de Enoch (cap. e a expande para explicar que os anjos caídos ensinaram às mulheres:

«A radiância de pedras preciosas que com que se ornam colares em cores várias, os braceletes de ouro que envolvem seus braços, as preparações coloridas que se usam para tingir lã, e o pó negro [...] para realçar a beleza de seus olhos.» (Tertuliano. The apparel of women, 2,1.)

Tertuliano fez inúmeras referências a Enoque. Em sua célebre Apologia, por exemplo, ele interpreta o Gênesis à luz de Enoch quando escreve que as Escrituras nos dizem que “alguns anjos perverteram-se e originaram uma raça ainda mais corrompida de Diabos”. Ele e outros primeiros padres aceitaram a idéia dos anjos pervertidos porque interpretaram o capítulo 6 do Gênesis à luz de Enoch.»[44]

Entretanto, nem todos estavam satisfeitos com isso: «Anjos, “os Filhos de Deus”, mantendo relações sexuais com mulheres, as filhas dos homens, era algo que requeria comentário. Os autores judeus interpretaram “filhos de Deus” como filhos de príncipes e nobres. Alguns cristãos, entre eles santo Agostinho, julgaram que a expressão significava homens piedosos que são espiritualmente os filhos de Deus. Tanto os autores judeus como os cristãos evitaram o significado óbvio: que alguma barreira entre os filhos de Deus e os filhos dos homens foi rompida, não por vontade divina mas por desejo sexual.»[45]

Nessa época, até mesmo aqueles anjos que não “caíram” estavam causando prejuízos para a igreja cristã… Santo Agostinho, em seu tempo de pregação, enfrentou um problema causado pela grande popularidade dos anjos: As pessoas estavam fazendo-lhes sacrifícios, orando, etc. e isto estava meio que fora de controle. Por isso ele tentou reduzir os anjos à forma mais abstrata possível e pregava ao público: «Sejam quais forem, por conseguinte, os bem aventurados imortais habitantes das mansões celestes, se não tem amor por nós, se não desejam nossa felicidade, não merecem nossa homenagem. Se nos amam, se querem nossa felicidade, querem sem dúvida que a recebamos da mesma fonte que eles»; «Legítimos habitantes das moradas celestes, os espíritos imortais, felizes pela posse do Criador, eternos por sua eternidade, fortes de sua verdade e santos por sua graça, tocados de compulsivo amor por nós, infelizes e mortais, e desejosos de partilhar conosco sua imortalidade e beatitude, não, querem que sacrifiquemos a eles, mas Àquele que sabem ser, como nós, o sacrifício [ou seja, Jesus Cristo]. Porque somos com eles uma só Cidade de Deus.»; «Quanto aos milagres, sejam quais forem, operados pelos anjos ou por qualquer outro modo, se se destinam a glorificar o culto da religião do verdadeiro Deus, princípio único da vida bem aventurada, devem ser atribuídos aos espíritos que nos amam com verdadeira, é preciso acreditar ser o próprio Deus quem neles e por eles opera.»; «… Aquele cuja palavra é espírito, inteligência, eternidade, palavra sem começo e sem fim, palavra ouvida em toda a pureza, não pelos ouvidos do corpo, mas do espírito, por intermédio de seus ministros, enviados que gozam de sua verdade imutável, no seio de eterna beatitude, palavra que lhes comunica de maneira inefável as ordens que devem transmitir à ordem aparente e sensível, ordens que executam sem demora e facilmente.»; «Assim, mostram-nos os anjos fiéis com que sincero amor nos amam; com efeito, não é à sua própria dominação que querem submeter-nos, mas ao poderio daquele que são felizes de contemplar, soberana beatitude a que desejam cheguemos também e de que não se apartam.» (De civitate Dei, X).

Os anjos eram tão populares que, apesar das Escrituras não darem uma descrição precisa a respeito da “hierarquia celeste”, estudiosos cristãos esforçaram-se para descrever um quadro bem definido. (Podemos ver que estas descrições de autores cristãos foram bastante influenciadas pela filosofia platônica, aristotélica e textos gregos em geral, se afastando em muito do sentido original dos “bene ha’ Elohim”, principalmente nos comentários referentes aos demônios). A fonte mais abalizada para a obtenção de uma angelologia cristã é Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Seus tratados Gerarchia celeste, Gererchia ecclesiastica, Nomi divini e suas Epistole formaram um corpo que granjeou a estima de muitos, inclusive Gregório Magno, são Tomé, a Escolástica, Dante, Meister Eckhart e são João da Cruz. Seu texto Gerarchia celeste é o mais conhecido e apreciado da angelologia cristã. Dionísio estabeleceu que existem nove ordens celestes, subdividas em três ordens principais: A primeira é aquela que está sempre na presença de Deus e inclui os Tronos e suas legiões ‘com muitos olhos e muitas asas’ (os Querubins e os Serafins) A Segunda ordem inclui os Poderes, as Dominações e as Virtudes; a terceira os Anjos, os Arcanjos e as Potestades. Foi só com Dionísio e Tomás de Aquino que o número das hierarquias foi estabelecido e tornou-se praticamente definitiva nas obras posteriores de autores cristãos. — Seguindo a linha de Dionísio, Tomás de Aquino faz uma longa descrição das hierarquias celestes na Suma contra os gêntios[46]:

«Como as coisas corporais estão governadas pelas espirituais, segundo consta, e entre as corporais existe uma certa ordem, é mister que os corpos superiores sejam governados pelas substâncias intelectuais superiores, e os inferiores pelas inferiores. Além disso, porque quanto mais superior é uma substância, tanto mais universal é sua virtude. Logo, a virtude da substância intelectual é mais universal que a virtude corpórea; e por conseguinte, as substâncias intelectuais superiores possuem virtudes que não podem ser desempenhadas por virtude corporal alguma, e por isso não estão unidas a corpos; já que as inferiores possuem virtudes parciais e que podem ser desempenhadas por alguns instrumentos corporais, dessa forma, é preciso que estejam unidas aos corpos.

E como as substâncias intelectuais superiores tem uma virtude mais universal, por isso também estão mais perfeitamente dispostas por Deus, de maneira que conhecem com detalhe a finalidade da ordem que Deus lhes comunica. E esta manifestação da ordenação divida, realizada por Deus, chega inclusive às substâncias intelectuais mais inferiores, como confirma [a palavra] de Jó: “Inumeráveis são Seus servidores, e sobre qual deles não resplandece Sua luz?” (Jó 25:3). Não obstante, as inteligências inferiores não a recebem de maneira tão perfeita que possam conhecer com detalhe quanto hão de executar em vista do ordenado pela providência, mas somente em geral; pois, quanto mais inferiores são, menos conhecimento detalhado da ordem divina recebem ao serem iluminadas pela primeira vez; entretanto, o entendimento humano, que possui o último grau do conhecimento natural, só tem notícia de algumas coisas universalíssimas.

Assim, pois, as substâncias intelectuais superiores recebem imediatamente de Deus um conhecimento perfeito da ordem divina e, em conseqüência, o hão de comunicar às inferiores, tal como, segundo dissemos, o conhecimento universal do discípulo é aperfeiçoado pelo mestre, que conhece com detalhe. Por isso, Dionísio, falando das supremas substâncias intelectuais, que chama primeiras hierarquias, em outras palavras, sagrados principados, disse que não são santificadas por outras, mas que alcançam imediatamente e plenamente de Deus a santidade, e, enquanto cabe, são transportadas à contemplação da beleza imaterial e invisível e ao conhecimento dos motivos das obras divinas; e disse que por elas são doutrinadas as ordens subalternas de espíritos celestes. Segundo ele, as inteligências mais elevadas recebem do princípio mais alto a perfeição de seu conhecimento. [...]»

«Assim, pois, aquelas inteligências que percebem imediatamente em Deus o conhecimento perfeito da ordem da divina providência estão dispostas numa certa hierarquia, porque os superiores e primeiros vêem a razão da ordem da providência — em si mesma – o último fim, que é a bondade divina; porém uns com maior clareza que outros. E estes se chamam Seraphim, i. e., ardentes ou incandescentes, porque o incêndio designa a intensidade do amor ou do desejo, que são duas tendências em relação ao fim. Por isso disse Dionísio que com este nome se designa sua rapidez ou eterno movimento em torno da divindade, fervente e flexível, e sua capacidade de influenciar os seres inferiores excitando-os a um sublime fervor à divindade[47].

Os segundos conhecem perfeitamente a razão da ordem da providência na imagem mesma de Deus. E se chamam Cherubim, que quer dizer plenitude da ciência, já que a ciência se aperfeiçoa pela forma cognoscível. Por isso disse Dionísio, que tal nome significa que são contempladores da primeira virtude operante da divina beleza[48].

Dessa forma, os terceiros contemplam a disposição das ordens divinas nelas mesmas. E se chamam Throni, porque trono significa o poder de julgar, segundo o dito: “Te sentas no trono e distribui justiça” (Salmos 9:5). Conforme isso, disse Dionísio que com este nome se declara que são portadores divinos e tomam parte familiarmente em todas as determinações divinas[49]. [...]

Por outra parte, entre os espíritos inferiores que para executar a ordem divina recebem das superiores um conhecimento perfeito é preciso estabelecer uma ordem. Pois os mais altos deles tem uma virtude mais universal do conhecimento; por isso conhecem a ordem da providência nos princípios e causas mais universais enquanto os inferiores o obtêm em causas mais particulares. [...]

Também estas substâncias intelectuais (i. e. os anjos da Segunda hierarquia) hão de ter certa ordem. Porque, efetivamente a disposição universal da providência se distribui, em primeiro lugar, entre muitos executores. E isso se realiza pela ordem das Dominationum, pois é próprio dos senhores mandar o que hão de executar os outros. Por isso disse Dionísio que este nome (de) dominação designa certo senhorio que rejeita toda servidão e que é superior a toda submissão.

Em segundo lugar, a providência é distribuída e aplicada a vários efeitos pelo que age e executa. E isso se faz mediante a ordem das Virtutum [virtudes], cujo nome, segundo Dionísio, significa certo augusto poder aplicado à todas as obras divinas, que não abandona a nenhum movimento a sua própria debilidade. E isso demonstra que o princípio universal da atividade pertence à esta ordem. Segundo isso, parece que movimento dos corpos celestes, dos quais procedem, como de certas causas universais, os efeitos particulares da natureza, pertence à esta ordem. Por este motivo se chamam virtudes celestes no cap. 21 de S. Lucas, onde diz: “Se moveram as virtudes celestes”. Parece também que a execução das obras divinas que se realizam à margem da ordem natural pertence à esta classe de espíritos, porque tais obras são o que há de mais sublime nos mistérios divinos. Por esta razão diz S. Gregório que “se chamam virtudes aqueles espíritos que freqüentemente fazem coisas milagrosas” (Homil. 34). Por fim, se no cumprimento das ordens divinas há algo principal e universal, é conveniente que pertença à esta ordem.

Em terceiro lugar, a ordem universal da providência, estabelecida já nos efeitos, é preservada de toda confusão pela coerção exercida sobre aquilo que poderia perturbá-la. Coisa que corresponde à ordem das Potestatum [potestades]. Por isso disse Dionísio que o nome de potestade implica certa ordenação, bem disposta e sem confusão alguma acerca do estabelecimento por Deus. E por isso disse S. Gregório que corresponde a esta ordem o conter das forças opostas.

As últimas das substâncias intelectuais superiores são aquelas que conhecem divinamente a ordem da providência através das causas particulares, e são as imediatamente superiores às coisas humanas. Sobre elas Dionísio disse que esta terceira ordem de espíritos manda, por conseguinte, nas hierarquias humanas. E por coisas humanas se há de entender todas as naturezas inferiores e causas particulares que estão ordenadas ao homem e sujeitas a seu serviço.

Aqui também existe uma ordem. Pois nas coisas humanas existe certo bem comum, que é o bem da cidade ou dos cidadãos, e que, ao parecer, pertence a ordem dos Principatuum [principados]. Por isso, disse Dionísio que o nome de principados significa certa categoria de caráter sagrado. Conforme isso, Daniel fez menção de Miguel, príncipe dos judeus e príncipe dos persas e gregos (Dan. 10, 13-20). Segundo isso, a disposição dos reinos, a transmissão de poder de um povo a outro, deve pertencer ao ministério desta ordem. Inclusive a inspiração daqueles que são príncipes entre os homens com respeito a como hão de administrar seu governo, parece que corresponde à esta ordem.

Há, porém, outro bem humano que não é comum, mas individual, ainda que não se utilize em benefício próprio, mas em benefício de muitos: Como as coisas de fé, que todos e cada um hão de crer e observar; o culto divino, etc. E isto corresponde aos Archangelos [arcanjos], de quem disse S. Gregório que anunciam o maior; razão porque chamamos arcanjo a Gabriel, que anunciou a encarnação do Verbo à Virgem.

Há, também, certo bem humano que pertence a cada um em particular. E os bens desta classe correspondem à ordem dos Angelorum [anjos], que, segundo S. Gregório, anunciam as coisas pequenas; e por isso se chamam custódios dos homens, segundo o dizer do salmo: “Te encomendará a seus anjos para que te guardem em teus caminhos” (Sl. 90;11). Por isso, disse Dionísio que os arcanjos são intermediários entre os principados e os anjos, e tem como ambos algo em comum; dessa forma, com os principados, enquanto que são chefes dos anjos inferiores, (…) e com os anjos, porque anunciam aos anjos e, mediante estes — cujo ofício é manifestarem-se aos homens —, a nós o que lhes corresponde segundo a categoria. Por este motivo a última ordem se apropria do nome comum como especialmente seu, porque desempenha o ofício de anunciar aos homens sem intermediários. Daí que os arcanjos tem um nome composto pelos dois, pois se chamam arcanjos, i. e., príncipe dos anjos. (…)

Por último, em todas as virtudes ordenadas é comum que todas as inferiores obrem em virtude da superior. Segundo isso, o que dissemos que pertence à ordem dos serafins o executam as inferiores na virtude dos mesmos. E isso se aplica também às ordens seguintes.»

São Tomás de Aquino fala sobre os anjos em outras partes de sua vasta obra, como por exemplo, nos seguintes trechos da Suma Teológica: «Nos anjos (lat. angelis) não pode haver outra virtude senão a intelectiva e a vontade, conseqüente ao intelecto, porque nisso consiste toda a virtude do mesmo. A alma [humana], porém, tem muitas outras potências; assim, as sensitivas e as nutritivas. E portanto, não há símile.»; «o intelecto angélico está sempre em ato em relação aos seus inteligíveis, por causa da proximidade com o intelecto primeiro, que é ato puro como antes se disse.»; «Há, porém, outra virtude cognoscitiva que nem é ato de órgão corpóreo, nem está, de qualquer modo, conjunta com a matéria corpórea, como o intelecto dos anjos. Por onde, o objeto desta virtude é a forma subsistente sem a matéria. Pois, embora conheçam os anjos as coisas materiais, só as vêem no imaterial a saber, em si mesmos ou em Deus»; «inversamente [aos homens], os anjos conhecem as coisas materiais pelos seres imateriais»; etc.

Com isso, misturando um bom bocado de filosofia grega nos farrapos que restavam da tradição judaica dentro do cristianismo, negou-se que os anjos tivessem corpos e, portanto, não poderiam ter tido relações sexuais com ninguém. — Luther Link continua: «No século V santo Agostinho afirmou, confiante: “Não há dúvida quanto ao fato de esses ‘anjos’ serem homens, e não, como crêem alguns, criaturas diferentes de homens”. Em nossa época, assim como na de santo Agostinho, quando as pessoas dizem “não há dúvida”, geralmente há… Santo Agostinho argumenta que os “filhos de Deus” eram anjos apenas no espírito, por isso se permitiram a perda da graça. Antes da queda, essas pessoas potencialmente superiores tiveram filhos não em conseqüência de seu arrebatamento sexual, mas com o intuito de “povoar de cidadãos a cidade de Deus”:

«Seja como for, eu nem sonharia em crer que foram os santos anjos de Deus a sofrer tal queda no presente caso [...] e não é preciso apelar para os textos que se apresentam sob o nome de Henoch e contêm as fábulas sobre gigantes [nem] a alguns textos sob os nomes de vários profetas e apóstolos que são divulgados por hereges.»

Enoch tornou-se um instrumento de hereges. Mas o que santo Agostinho não nos diz – e que de fato apenas estudos recentes revelaram – é que algumas seções desse livro, nos quais se mencionam gigantes, haviam sido “apropriadas” ou “tomadas antecipadamente” pelos mesmos maniqueístas que haviam ensinado santo Agostinho e a quem este depois repudiou. Bastou que santo Agostinho estigmatizasse esse livro como herético para que ele ficasse eficazmente enterrado por um milênio.»[50] — Essa tática de substituição de uma mitologia por outra foi tão bem sucedida que até no princípio do século XX havia quem se escandalizasse com aqueles que defendiam as idéias do livro de Enoch:

«Mas e estes “filhos de Deus”? Dando crédito aos exegetas autorizados da Bíblia, os anjos teriam descido do céu de Deus para fazer amor as mulheres e engravida-las! Uns soldados salafrários, estes anjos! Honestamente, não podemos, a não ser que pensemos que o céu é um covil de bandidos, aceitar esta explicação sacrílega, visto que é difícil conceber anjos não apenas “levados pelo namoro”, mas capazes de fisicamente satisfazerem os seus desejos. Seriam os anjos seres materiais? Sexuados como nós, mais do que nós, invadidos pelo demônio da concupiscência?»[51]

Mas nem assim o problema estava inteiramente resolvido. Havia ainda um fragmento da queda dos anjos no Gênese que desde então passou a ser considerado pelos exegetas, como de difícil compreenção. — Evidentemente, dizer que os “filhos de Deus” não fizeram o que diz em Enoch seria também negar o próprio livro da Gênese, que conta resumidamente a mesma história… O remédio seria então mudar a identidade dos “filhos de Deus”. (Que grandes atrativos poderia ter o serviço divino se um expressivo grupo de 200 anjos preferiu deixa-lo – conscientes de que sofreriam uma horrível punição futura – só para fazer sexo com fêmeas humanas?) Era necessário dar uma explicação simples e compreensível, adequada ao povo. Por isso, a partir do século IV, em função de uma noção mais abstrata da natureza angélica, a literatura patrística começou a ver os “filhos de Deus” como a linhagem piedosa de Set, (que são espiritualmente os filhos de Deus) e as “filhas dos homens” como a descendência depravada de Caim.

Livros apócrifos, como o Combate de Adão e Eva, traduzido do etíope, insurgiram-se contra a natureza divina dos pais dos Nenfelin:

«E os antigos sábios escreveram sobre eles, dizendo que os anjos desceram dos céus e se ligaram com as filhas de Caim e que delas nasceram gigantes.

Mas enganam-se quanto a isto; não é verdade que os anjos, que são espíritos, se misturem pecando com os homens… Mas, de acordo com a sua essência e natureza, eles não são nem macho nem fêmea, mas puros espíritos, os quais, a partir da sua queda, se tornaram negros.»[52]

Apesar de tudo, talvez a associação da descendência de Caim com Semijazah e seus anjos tenha sido uma boa escolha pois, como já vimos, Caim e seus descendentes também foram “responsabilizados” pela construção das primeiras cidades: Assim como os anjos, eles teríam criado a vida urbana, a civilização e a guerra. Tubalcaim foi “o pai de todos os laminadores”; Outros formaram as castas dos criadores de gado, dos músicos, dos ferreiros, das meretrizes, etc. O próprio nome “Caim” vem de uma raiz que significa “produzir; adquirir; comprar”. Eles estavam destinados ao comércio. — No entanto, a parte mais lembrada da história de Caim era sem dúvida o episódio do assassinato de Abel.

Na verdade, se levarmos em conta o fato da tradição nomear personagens bíblicos de acordo com a personalidade dos mesmos, parece que para os primeiros judeus, Abel não foi uma vítima tão desmerecida quanto pretende o texto da “Sabedoria de Salomão” e o “Novo Testamento” cristão, pois a exegese e a etimologia das palavras revelam um Abel muito diferente do que costumamos ter em mente: Abel (Hêbel, em Hebraico) significa vapor ou vaidade. Hêbel (Abel) é uma palavra que expressa em hebreu tudo aquilo que é fugaz, passageiro, rápido. A imagem do vento é usada para retratar a ilusão, a frustração, o sonho, o nada, o vazio. Segundo o Dicionário Thesarus, de Genesius — Abel (Hêbel) é um nome baseado em diversos sons: Hab-Hav-Av-Bal-Habál. Estes sons formam uma série de conceitos, inspirados na imagem do vento e do sopro. O plural hebráico de Hêbel é Habelím. Os profetas israelitas chamam os ídolos pagãos de Habelím, nome depreciativo e irônico que quer dizer: os ídolos são vento, sopro, fumaça, futilidade, ilusão, estupidez, inutilidade, nada. Hêbl significa também luto. Não qualquer luto, mas as dramáticas demonstrações de pesar e dor próprias dos orientais, luto cheio de gritos e lamentos. José fez luto por seu pai Jacó durante setenta dias, chorando com todo o Egito. O último Cap. do Gênesis descreve o episódio. Foi tão impressionante que os povos cananeus deram ao lugar o nome de Êbel Mitsráim, ou seja, o luto dos egípcios.

O Eclesiastes, nos fornece mais detalhes sobre a significação de Hêbel. Querendo sintetizar todas as suas frustrações, o rei exclamou: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” Em hebreu, a frase soa assim: Habél Habalim Ha.Kol Habel. As traduções dizem: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, mas podemos multiplicar as variantes: ilusão das ilusões, fumaça e mais fumaça, nada sobre nada, mentira e mais mentiras, vento e apenas vento, frustração em cima de frustração, sopro que some no ar, luto e nada mais que luto, aborto de ilusões. Todas essas idéias estão contidas no texto e no contexto do Eclesiastes, além de muitas outras, sugeridas pela etimologia de Hêbel, ou seja, pela imagem do sopro e do vento. Repare que Salomão repete três vezes a palavra: Habél – Habalim – Habel. O grito de Salomão no Eclesiástes, é o grito da tragédia humana, sintetizando toda a dor do homem em todos os tempos. O nome de Abel (Hêbel) como sinônimo de frustração e desgraça, aparece ainda em diversos outros lugares da Bíblia. Para ninguém por em dúvida o sentido da palavra, ela vem acompanhada de vários sinônimos paralelos:

TÔHU : deserto, vazio, nada, devastação, ruínas. “Por nada e por vento consumi minhas forças.” (Isaías 49, 4) “Le.thôhu ve.hêbel kohí kilêti.”

SHAV : caos, nada, vazio, ruínas, deserto, inutilidade, desagraça, tempestade, calamidade, mal, tragédia, fraude, engano, mentira, falsidade. “Odeio os que cultuam ídolos falsos.” (Salmo 31,7) “Çanêti ha.shomrím habelêi shav.”

RE’ÚT : tentativa, busca, esforço inútil, frustração. “Frustração e esforço inútil do espírito.” (Ecl 4,4) “Hêbel u.re’út rúah.”

‘INIÂN : preocupação, cuidado, esforço sem resultados, frustração. “Ilusão e preocupações aflitivas.” (Ecl 4,8) “Hêbel ve.’iniân rá’ hu.”

RA’ÓN : plano fracassado, sonho, expectativa inútil. “Decepção e expectativa inútil do espírito.” (Ecl 4, 16) “Hêbel ve.ra’ôn rúah.”

DEBARÍM MARBÍM : palavrório, tagaralice, palavras e mais palavras. “Palavreado inútil” (Ecl 6, 11) “Debarín marbím Hêbel.”

O termo “hebêl”, na Bíblia, está sempre em “má companhia”. Jeremias, os Salmos e principalmente o Eclesiástes, como também Jó e Isaías, dão-nos o pior dos retratos de seu significado… E é esse o Abel que Caim eliminou da face da terra: O símbolo das frustrações e desilusões da humanidade.

Possivelmente, na mais antiga tradição, o irmão de Caim devia ser visto como uma espécie de idólatra. Podemos dizer que ele era uma espécie de mestre das mentiras e dissimulações. Em conseqüência, Caim pode ter agido como uma espécie de go∙’él had-dám (hebr. Vingador de sangue)[53]. Entretanto, bem antes do conjunto das escrituras ficar estabelecido, o ato de Caim já era visto como homicídio culposo: «[Da sabedoria] se afastou, em sua cólera, um injusto [Caim], arruinou-se em sua senha fraticiada. Por sua culpa a terra foi submersa, e outra vez a Sabedoria a salvou, pilotando o justo [Noé] numa frágil embarcação.» (Sabedoria 10:1-4)

De qualquer forma, o papel de construtor, inventor, gerreiro e comerciante de Caim e seus filhos foi preservado. O pesquisador francês Alberto Cousté fez um levantamento de antigas lendas sobre os descendentes de Caim até o tempo do Rei Salomão e descobriu que o então “herdeiro” da maldição seria o arquiteto Hiram Abi.[54]
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NOTAS:
[1] Como acontece com muitos outros elementos das tradições religiosas de Israel, a origem do conceito dos bene ha’ Elohim pode ser buscada nas tradições canaanitas do século XIV a.C., que ficou gravada em placas de argila em escrita cuneiforme. Nos escritos, epopéias e textos rituais da antiga cidade de Ugarit, no litoral sírio, a expressão banu ili ou banu ili-mi ocorre com freqüência. No panteão caanita, o deus principal é El, cujo nome significa literalmente “Deus”. Ele e sua esposa Acherá são o pai e a mãe dos deuses. A expressão banu ili-mi pode ser traduzida literalmente como “Os Filhos – ou descendentes – de El”. (Além dos textos de Ugarit, já foram encontradas inscrições fenícias dos séculos VIII e VII a.C. mencionando os Filhos de Deus e uma inscrição amonita do século IX a.C. descoberta em Amã, Jordânia; O que prova que o conceito de Filhos de Deus esteve presente nas tradições canaanitas durante um tempo bastante extenso).
[2] Aqui o texto massorético (texto hebraico aceito), substituiu a expressão original “filhos de Elohin” por “Filhos de Israel”. Em muitos pontos, a versão grega das escrituras, conhecida como Septuaginta, traduziu a expressão hebraica “bene ha’ Elohim” por “aggelon theu”, o que acabou por dar no latim “Angelorum”. A palavra grega “ággelos” significa mensageiro, por isso a palavra “Anjo” passou do latim para as línguas deste derivadas trazendo muito mais acentuada a idéia de mensageiro do que qualquer outro aspecto da personalidade ‘angélica’. De fato, há referência de anjos que executaram o papel de mensageiros (hebr. “Malachim”) tanto nas escrituras hebraicas e árabes quanto nas cristãs; mas a atividade dos ‘anjos’ nunca se resumiu apenas a isso. Nos antigos escritos hebraicos, midraxes, etc. haviam “bene ha’ Elohim” para tudo. Por exemplo, haviam anjos para dirigir nações, cuidar do movimento dos astros, transmitir conhecimento aos profetas, guiar os estudantes da Mercabá através dos sete Hehalot, testar os homens através do ciúme, enviar pragas e morte aos infiéis, etc. Por isso, ao invés de interpletar bene ha’ Elohim como “mensageiro de Deus”, seria muito mais apropriado traduzir a expressão em sua forma literal: “Filhos de Elohim”.
[3] Duração máxima a que Deus reduziu a vida humana, segundo esta fonte javista.
[4] Designação das divindades às quais é contraposto o ardor temível do sol. — Em lugar de “sombra protetora”, o grego tem “época (favorável)”.
[5] Em 2 Samuel 21, é um guerreiro de nome Elanã que derrota Golias. Essa história nos soa mais familiar em 1 Samuel 17, onde Davi luta contra Golias. Segundo Ronald S. Hendel (Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto), esse é um exemplo de história que na tradição oral “deriva” de um herói menor para um maior.
[6] Uma nota de pé de página da Bíblia de Jerusalém acrescenta que «Este “leito de ferro” (ou de basalto ferruginoso) era talvez um dos dólmens que se podem ver na região de Amã. — Nove côvados eqüivalem a cerca de 4m.»
[7] Hershel Shanks (org). Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto. Imago.
[8] O texto completo, em português, aparece no apêndice de “Os Documentos do Mar Morto”, de Burrows.
[9] Os rolos e fragmentos do Mar Morto constituem uma coleção de manuscritos, descobertos em 1947, e formam uma valiosa biblioteca conservada da comunidade dos Essênios, em Qumran. Eles estavam escondidos, por segurança, em cavernas próximas, quando o povoado de Qumran foi destruído pelos romanos em 70 d.C., já no fim da revolta judaica contra o domínio romano na Palestina. Os textos foram preservados pelo clima seco da região, e alguns deles remontam ao século II a.C. Muitas das obras encontradas, escritos sectários, eram antes desconhecidas. Todos os livros do Tanach, exceto o de Ester, foram representados no todo ou em parte, nos Manuscritos do Mar morto, sendo que encontram quatro rolos completos de Isaías[9][9]. Parece que a popularidade de Isaías era grande em Qumran, assim como outras obras de natureza apocalíptica sobre o Fim dos Dias.
[10] O estudo filológico mostrou que os originais deste foram escritos por volta do ano 400 d.C. em grego, e a passagem do aramaico para grego e posteriormente para etíope sacrificou primeiro o antigo estilo hebreu detalhista para uma forma abreviada grega e depois o nome dos anjos que ninguém mais sabia direito como pronunciar. Mas quase tudo pode ser corrigido com os dados dos textos de Qumran. ‡ O Enoque Etíope é conhecido de forma completa na Europa desde 1773, quando o explorador inglês James Bruce trouxe três cópias, que foram rapidamente difundidas; mas a primeira publicação de excertos do texto etíope de Enoque, o qual, é o único integral remanescente, só ocorreu em 1800. A primeira tradução completa foi publicada por Richard Laurence em Oxford no ano de 1821, gerando novos debates em torno da velha questão: Se os “filhos de Deus” que tiveram relações sexual com mulheres eram de fato anjos.
[11] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. II (= 1 Henoc 5,9-6,4 + 6,7-8,1)]
[12] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. III (= 1 Henoc 6,4-8,1)]
[13] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. III (= 1 Henoc 6,4-8,1)]
[14] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. II (= 1 Henoc 5,9-6,4 + 6,7-8,1)]
[15] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[16] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[17] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[18] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. IV (= 1 Henoc 8,3-9,3.6-8)]
[19] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. V (= 1 Henoc 10,3-4)]
[20] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. V (= 1 Henoc 10,3-4)]
[21] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. IV (= 1 Henoc 10,8-12)] ‡ O Texto etíope apresenta a versão: “Nesse dia, eles serão atirados ao abismo de fogo, na reclusão e no tormento, onde ficarão encerrados para todo o sempre. E todo aquele que for sentenciado à condenação eterna seja juntado a eles, e seja com eles mantido em correntes, até o fim de todas as gerações. Extermina os espíritos de todos os monstros, juntamente com todos os filhos dos Guardiões, porque eles maltrataram os homens! Purga a terra de todo ato de violência! Toda obra má deve ser eliminada!”
[22] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. V (= 1 Henoc 10,13-19 + 12,3)]
[23] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[24] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[25] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[26] Joan O’ Grady. Satã o Príncipe das Trevas. Editora Mercuryo Ltda. 1991.
[27] Todas as cópias conhecidas desse texto estão muito fragmentadas sendo impossível reconstitui-lo integralmente. Entretanto, tentei pelo menos reunir o pouco que sobrou da história emendando passagens importantes com fragmentos de Enoch para preencher parte das lacunas mais importantes.
[28] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag. 3
[29] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.1
[30] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag. 3
[31] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[32] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.2
[33] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.2
[34] 4QGigantes b (4Q530 [4QGiants b.]) - Col. II
[35] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag.7 col. I
[36] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag.4
[37] 6QGigantes (6Q8 [6QGiants])
[38] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[39] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.8
[40] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. I (= 1 Henoc 1,1-6)]
[41] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. (Cf. Charlesworth, J.H. (org.). The Old Testament pseudepigrapha: Enoch. Trad. E. Isaac. Nova York, 1983; The apocripha and pseudepigrapha of the Old Testament in english. Trad. R.H. Charles. Oxford 1913, vol. II.)
[42] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[43] Um dos mais extraordinários apologistas cristãos foi o grande polemista Tertuliano (155-220 d.C.) Como a maioria dos criativos primeiros padres, Tertuliano converteu-se na meia-idade. “Pode alguém ser mais douto, mais perspicaz do que Tertuliano?”, perguntou Jerônimo. Muitos termos “técnicos” cristãos usados hoje em latim foram cunhados por Tertuliano; pecado original, vitium originis, é um exemplo. Esse vigoroso líder da Igreja norte-africana juntou-se aos montanistas, um rígido grupo de ascetas que acreditava na revelação progressiva, ensinamento condenado pela Igreja.
[44] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[45] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[46] As anotações entre parênteses e colchetes são minhas.
[47] Serafim (Lat. Seraphim) significa “o abrasador” (de Saraf). Isaías é o primeiro a mencionar anjos com este nome: «Acima dele, em pé, estavam serafins, cada um com seis asas: Com duas cobriam a face (para não verem Deus diretamente), com duas cobriam os pés e com duas voavam. Estes clamavam uns para os outros e diziam: “Santo, santo, santo é Jeová dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra...” Nisto, um dos serafins voou para junto de mim, trazendo na mão uma brasa que havia tirado, com uma tenaz, do altar. Com ela tocou-meos lábios, e disse: “Vê, isto tocou os teus lábios, a tua iniqüidade está removida, o teu pecado está perdoado”» (Isa. 6, 2-3; 6-8) — Dionísio, o Areopagita, forneceu essa significação de serafim: "A santa designação de serafins significa para quem sabe hebraico "os que queimam", quer dizer, os que se inflamam... O movimento perpétuo em torno dos segredos divinos, o calor, a profundidade, o ardor fervilhante de uma revolução constante que não conhece descanso ou declínio, o poder de elevar eficazmente à sua semelhança os seus inferiores, animando-os com o mesmo ardor, o mesmo fogo e o mesmo calor, o poder de purificar pelo raio e pelo fogo, a evidente e indestrutível aptidão para conservar idênticas tanto a sua própria luz quanto o seu poder de iluminação, a faculdade de rejeitar e abolir toda treva obscurecedora, tais são as propriedades dos serafins, dedutíveis do seu próprio nome" (PSEO, 206-207).
[48] O nome hebraico de querubim (kerubi) corresponde ao babilônico Karibu (seres de aparência híbrida humanos-animais destinados a velar à porta dos templos e dos palácios, como guardiães de tesouros)... No momento da construção da Arca da aliança, Jeová prescreveu a Moisés: «Farás dois querubins de ouro, de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório; faz-me um dos querubins numa extremidade e o outro na outra: Farás os querubins formando um só corpo com o propiciatório, nas duas extremidades. Os querubins terão as asas estendidas para cima e protegerão o propiciatório com suas asas, um voltado para o outro. As faces dos querubins estarão voltadas para o propiciatório. Porás o propiciatória em cima da arca; e dentro dela porás o Testemunho que te darei» (Êxodo 25, 18-21); No Templo de Salomão, querubins rodeiam a arca, em Ezequiel, eles puxam o carro de Deus; e são a montaria de Deus no Salmo 18: «Cavalgou um querubim e voou, planando sobre as asas do vento».
[49] Os tronos (lat. Throni) são o nome dado aos anjos da primeira hierarquia por Dionísio o Aeropagita: «Os nomes atribuídos às inteligências celestes significam suas respectivas aptidões de conceber a forma divina... Quanto ao nome de tronos muito sublimes e muito luminosos, este indica a ausência total neles de qualquer concessão aos bens inferiores, essa tendência contínua em direção às alturas que indica claramente que eles não são daqui de baixo, a sua indefectível aversão a toda baixeza, a tensão de todas as suas forças para se manterem com firmeza a constância junto Àquele que é, verdadeiramente, o Altíssimo, a sua capacidade de receber com total impassibilidade, longe de qualquer mácula material, todas as visitações da Tearquia, o privilégio que tem de servir de assento a Deus e o seu zelo vigilante em se abrirem aos dons divinos.» (207-208)
[50] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[51] Robert Charroux. O Livro dos Segredos Traídos. Livraria Bertrand.
[52] Robert Charroux. O Livro dos Segredos Traídos. Livraria Bertrand.
[53] A palavra hebraica go∙’él, que tem sido aplicada ao vingador de sangue, é um particípio de ga∙’ál, que significa, “reivindicar”, “recuperar”, etc. Na lei dos hebreus, o termo aplicava-se ao parente masculino mais próximo, que tinha a obrigação de vingar o sangue daquele que fora morto. (Núm 35:19) O termo go∙’él designava também um parente com o direito de comprar de volta (ou remir). Vingar o sangue tinha por base o mandado a respeito da santidade do sangue e da vida humana, declarado a Noé, em que Deus disse: “Exigirei de volta vosso sangue das vossas almas... da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue.” (Gên 9:5) O homicida deliberado devia ser morto pelo “vingador do sangue”, e não se devia aceitar nenhum resgate por tal assassinato (Núm 35:19-21, 31). É claro que falta aqui um dado importante: Abel apenas ofereceu uma ovelha como sacrifício, entretanto ele foi punido pelo irmão como se houvesse matado um humano, a não ser que “ovelha” seja uma metáfora indicando seu filho primogênito, como aparece no Êxodo: «19. Todo o que nascer macho que sair por primeiro do seio materno é meu: todo macho, todo primogênito das tuas ovelhas e do teu gado. 20. O jumento, porém, que sair por primeiro do seio materno, tu o resgatarás como um cordeiro; se não o resgatares, quebrar-lhe-ás a nuca. Resgatarás todos os primogênitos dos teus filhos. Não comparecerás diante de mim de mãos vazias.» (Êxodo 34: 19-20)
[54] Alberto Cousté. Biografia do Diabo. Editora Rosa dos Tempos