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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Estudo do Sagrado

 

A abordagem dos fenômenos religiosos pode seguir caminhos diversos — históricos, simbólicos, metafísicos, estéticos — e cada um desses percursos reflete pressupostos teóricos e filosóficos que contribuem para a compreensão do sagrado. Três pensadores do século XX se destacam por terem proposto modelos distintos, embora complementares, de interpretação das religiões tradicionais: Mircea Eliade, René Guénon e Ananda Coomaraswamy. Suas obras, embora enraizadas em contextos intelectuais distintos, convergem no reconhecimento de uma dimensão que escapa às abordagens reducionistas do senso comum quando o tema é a religião. Este texto propõe uma leitura comparada das metodologias e concepções desses autores, destacando seus méritos e limites, bem como suas implicações para a compreensão contemporânea do fenômeno religioso.

Mircea Eliade (1907–1986), historiador das religiões, romancista e filósofo, desenvolveu uma metodologia histórico-fenomenológica para o estudo das tradições espirituais, buscando compreender os símbolos e mitos sagrados a partir de sua inserção no tempo e no imaginário das culturas. Seu pensamento articula a tensão universal entre o sagrado e o profano como eixo fundamental da experiência religiosa, e sua análise enfatiza tanto a especificidade histórica quanto a universalidade arquetípica das narrativas míticas. Uma de suas contribuições centrais é o conceito de hierofania, entendido como a manifestação do sagrado no mundo profano — uma irrupção que revela a busca humana por sentido e transcendência diante da realidade fragmentária e temporal. Em O Sagrado e o Profano, sua obra mais conhecida, Eliade argumenta que essa tensão está presente em todas as culturas e se manifesta por meio de diferentes símbolos, mitos e rituais. Sua crítica ao racionalismo moderno é igualmente notável: para ele, a mentalidade contemporânea perdeu a capacidade de compreender as verdades paradoxais que eram constitutivas do imaginário mítico das civilizações tradicionais. Nesse aspecto, sua visão aproxima-se da de G.K. Chesterton, especialmente na defesa do paradoxo como forma legítima de verdade.

Ainda assim, sua abordagem está longe de ser consensual. O estudioso Knut A. Jacobsen observa que Eliade tende a interpretar tradições não ocidentais a partir de categorias oriundas do pensamento ocidental, o que introduz um viés antropocêntrico e compromete a fidelidade às especificidades culturais das religiões analisadas. Além disso, autores como Wendy Doniger criticam sua tendência universalizante, que frequentemente atribui significados simbólicos homogêneos a estruturas mitológicas diversas. Tal procedimento, embora útil para identificar padrões transculturais, pode obscurecer diferenças fundamentais entre sistemas religiosos heterogêneos.

René Guénon (1886–1951), metafísico francês e figura central do movimento perennialista, adota uma perspectiva radicalmente distinta. Para ele, as religiões não devem ser compreendidas como fenômenos culturais ou históricos, mas como expressões de verdades eternas, acessíveis apenas por meio da iniciação e do conhecimento esotérico. Rejeitando tanto o historicismo quanto o relativismo cultural, Guénon sustenta que apenas a metafísica tradicional, presente nas grandes religiões da humanidade, oferece uma via legítima para o conhecimento do real. Sua crítica à metodologia moderna é contundente: ele argumenta que, por estar restrito ao domínio do devir, o método histórico é incapaz de acessar o ser — ou seja, a realidade suprafísica das doutrinas tradicionais. Tratar a religião como fenômeno condicionado pelo tempo e pela cultura seria, segundo ele, uma forma de reducionismo que confunde a expressão externa da doutrina com sua essência metafísica. A compreensão profunda da religião exigiria, portanto, uma transmissão iniciática vinculada a uma cadeia espiritual legítima — algo que não pode ser obtido por esforço individual nem por investigação acadêmica.

Essa abordagem também é alvo de críticas consistentes. Koenraad Elst observa que a rejeição dos métodos históricos e filológicos conduz Guénon a interpretações que, embora coerentes internamente, carecem de base empírica verificável. Mark Sedgwick vai além e aponta o risco de um certo elitismo espiritual, no qual a ênfase na iniciação e no esoterismo cria um sistema fechado, hermético e imune à crítica. Tal estrutura pode funcionar como um mecanismo de autovalidação, onde a ausência de verificação externa é apresentada como prova de profundidade. Steven Wasserstrom, por sua vez, questiona a pretensa universalidade das tradições espirituais defendida por Guénon, argumentando que sua metodologia tende a essencializar sistemas complexos, destacando similaridades superficiais e ignorando divergências fundamentais.

Já Ananda Coomaraswamy (1877–1947), historiador da arte, filósofo e estudioso das religiões, propõe uma abordagem estético-simbólica da espiritualidade, conferindo à arte e ao símbolo um papel central na transmissão do conhecimento metafísico. Diferentemente de Eliade e Guénon, Coomaraswamy compreende a religião não apenas como um conjunto de crenças ou doutrinas, mas como expressão da ordem cósmica, acessível por meio da beleza. Sua visão ancora-se na filosofia perene, segundo a qual todas as tradições espirituais autênticas — do hinduísmo à cristandade medieval, do taoismo à arte islâmica — transmitem, por diferentes formas simbólicas, as mesmas verdades metafísicas. Para ele, o estético não é um adorno da religião, mas um caminho direto ao transcendente. Em sua obra, a arquitetura, a música, a poesia e os ritos tradicionais são compreendidos como manifestações de uma ordem arquetípica que conecta o humano ao divino.

Essa sensibilidade simbólica e estética confere à obra de Coomaraswamy um caráter singular. Sua erudição é notável, e sua capacidade de transitar entre tradições orientais e ocidentais sem perder profundidade confere grande valor a sua contribuição. Contudo, sua abordagem também é alvo de objeções. A crítica mais frequente refere-se à tendência de reduzir questões complexas à contemplação estética, o que, por vezes, compromete o rigor filosófico. Kapila Vatsyayan observa que, embora suas interpretações sejam envolventes e belamente articuladas, nem sempre fazem justiça à complexidade interna das tradições religiosas, caindo em certa idealização simbólica.

Esses três autores, embora distintos em estilo, formação e objetivos, partilham o esforço de resgatar uma visão do sagrado que transcenda os limites estreitos da racionalidade moderna. Eliade, ao articular a presença do sagrado no tempo histórico; Guénon, ao insistir na dimensão metafísica e iniciática da tradição; e Coomaraswamy, ao integrar arte, símbolo e verdade espiritual em uma mesma experiência estética, oferecem caminhos diversos para o entendimento da religiosidade humana. Todos, à sua maneira, denunciam a redução da religião a objeto de análise empírica e reivindicam uma forma de saber que seja, ao mesmo tempo, intelectual, contemplativa e transformadora.

Em um tempo marcado pela fragmentação do sentido e pela dissolução das referências tradicionais, revisitar o pensamento desses autores não é apenas um exercício de erudição, mas uma oportunidade de repensar a própria possibilidade do sagrado em nossas formas de vida. Suas divergências não os tornam excludentes, mas complementares — e, justamente por isso, fecundos para qualquer reflexão séria sobre o lugar da transcendência na experiência humana.

O Esquecimento dos Deuses

 

Minha leitura segue um caminho bastante anárquico e indisciplinado. Começo um livro e, pouco tempo depois, já me vejo atraído por outro. Ao mesmo tempo, uma avalanche de associações surge, levando-me a refletir sobre temas diferentes, embora ainda vagamente conectados àquilo que havia despertado meu interesse inicial. Em algum momento, nasce a vontade de escrever um artigo, como uma tentativa de registrar essas conexões e não perder o fio de raciocínio que surgiu desse primeiro movimento.

É nesse turbilhão de pensamentos que acabo assumindo o papel de um espectador passivo: alguém que observa, acompanha e registra aquilo que consegue apreender desse fluxo.

O texto que segue nasce justamente desse exercício ensaístico, uma tentativa de seguir o caminho dessas associações e transformar em palavras aquilo que emerge desse percurso.

Estava eu lendo o livro Mito e Realidade, de Mircea Eliade, autor que dedicou grande parte de sua obra ao estudo de um tema que, com o tempo, tornou-se uma obsessão pessoal: a religião.

Em determinado momento da leitura, deparei-me com sua análise sobre o conceito de “Deus ocioso” (Deus otiosus), uma ideia presente em diversas tradições religiosas de povos primitivos, especialmente entre aqueles que permaneceram em estágios de subsistência baseados na caça e na coleta.

Esse “Deus ocioso” seria um Ente Supremo que, embora esteja acima de todos os outros deuses, desempenha um papel quase inexistente na vida religiosa cotidiana, permanecendo ausente dos cultos, dos rituais e dos mitos. Como esse Deus Supremo se encontra distante da realidade humana, o homem primitivo passa a direcionar sua devoção para forças mais próximas de sua experiência imediata. Entram em cena os deuses da fertilidade, da agricultura, da guerra e os espíritos dos antepassados.

Acredita-se que esse Ente Supremo tenha criado todo o cosmos, incluindo os demais deuses, mas que, logo após a criação, tenha abandonado sua própria obra e se retirado para uma espécie de exílio sagrado. Ele permanece distante, inalcançável, indiferente e, em alguns casos, até mesmo inominável.

Entre os exemplos que ainda podemos nomear, Mircea Eliade cita Ndjambi, o Deus Supremo dos Hererós, povo pastor que habita regiões da Namíbia e de Angola. Há também Dzingbé, cultuado pelos Ewé, grupo étnico presente principalmente no Togo e em Gana. Ambos não possuem templos dedicados a eles nem recebem sacrifícios. Sua função parece estar limitada à própria ideia de ordem cósmica: eles não governam diretamente o mundo, mas representam o princípio que o sustenta.

Outro exemplo é Mulugu, um Deus Supremo que Eliade considera admiravelmente “fossilizado” nos adágios dos Gyriamas, povo da África Oriental.

Existe, no pensamento religioso primitivo, uma separação bastante interessante entre o Criador e o Cosmocrata. Essa é uma ideia que já vinha pairando na minha cabeça há algum tempo a partir das leituras de Eliade. Em outras palavras, aquele que cria o cosmos não é necessariamente aquele que governa o cosmos.

No judaísmo e no cristianismo, que é a minha própria tradição religiosa, Criador e Cosmocrata correspondem exatamente ao mesmo Deus. Para mim, essa associação sempre pareceu automática: Deus é aquele que cria todas as coisas e, ao mesmo tempo, aquele que permanece soberano sobre elas.

Talvez justamente por isso a ideia de um Deus que cria o universo e depois se afasta dele seja tão estranha para a minha própria formação religiosa. É uma concepção que parece separar duas funções que, dentro da minha tradição, sempre foram compreendidas como inseparáveis.

Descubro, através da leitura de Eliade, que para muitos povos o Criador permanece oculto e distante. Normalmente, ele não possui imagens, templos ou sacerdotes dedicados ao seu culto. É uma divindade lembrada apenas em momentos de extrema calamidade, quando as forças divinas mais próximas já não parecem capazes de oferecer respostas ou auxílio.

Ainda assim, muitas vezes nem mesmo diante das maiores catástrofes esses Deuses Supremos são invocados. Ao longo dos milênios, eles parecem ter perdido quase completamente sua presença na atualidade religiosa desses povos. Não existem mais memórias rituais, representações simbólicas ou manifestações concretas que os tragam novamente para o mundo humano.

Foi justamente nesse ponto da leitura que uma obra da cultura pop atravessou meu pensamento: American Gods, de Neil Gaiman, publicado em 2001. De repente, sem que eu estivesse procurando por ela, a obra surgiu como uma associação inevitável, quase como se já estivesse esperando por esse momento.

A história acompanha Shadow Moon, um homem que deixa a prisão e descobre que sua esposa morreu em um acidente de carro. Sem qualquer direção, ele aceita trabalhar como guarda-costas do misterioso Sr. Wednesday, que se revela ser ninguém menos que Odin, o deus nórdico.

Wednesday percorre os Estados Unidos em busca dos Deuses Antigos, divindades trazidas pelos imigrantes ao longo dos séculos, como Anansi, Chernobog e Bilquis. Esquecidos pelas novas gerações, esses deuses perderam gradualmente seu poder à medida que as pessoas deixaram de acreditar neles. O objetivo de Wednesday é reuni-los para uma guerra contra os Novos Deuses, entidades que representam forças da modernidade, como a Mídia, o Garoto Tecnológico e o Sr. World, cujo domínio se estabelece através da internet, da televisão, do consumo e do dinheiro.

Neil Gaiman tenta, ao longo da obra, emoldurar uma espécie de tese narrativa: os deuses existem enquanto os seres humanos lhes dedicam tempo, energia e fé. Sua existência depende da atenção coletiva que recebem. Em outras palavras, eles poderiam ser interpretados como uma espécie de “tulpas” ou egrégoras, formas simbólicas que ganham uma realidade própria a partir do acúmulo de crenças e devoções humanas.

Ao ler Mito e Realidade, entretanto, percebemos que o esquecimento dos deuses é uma constante na história religiosa humana e que, muitas vezes, ele nasce da própria dinâmica interna da religião. Não como uma simples substituição de uma divindade por outra, mas como uma transformação natural da própria experiência do sagrado.

Acho curioso perceber que, mesmo quando esses Entes Supremos são esquecidos e desaparecem dos ritos, dos cultos e da memória coletiva, raramente existe uma noção clara de que eles deixaram completamente de existir dentro do horizonte simbólico e cosmogônico desses povos.

Mesmo quando o Deus Supremo está “esquecido”, sua presença permanece de forma velada, camuflada nas narrativas da primordialidade e nas recitações dos mitos cosmogônicos. Ele continua habitando as lacunas deixadas pela própria tradição, como uma presença ausente que nunca desapareceu completamente.

Sua sobrevivência costuma ser larvar, manifestando-se no nível do inconsciente, das experiências extáticas e das percepções estéticas individuais. É como uma espécie de impressão digital cósmica que permanece além dos mitos e dos ritos: uma lembrança persistente de um pacto rompido, de uma queda primordial, de algo que talvez possamos chamar de uma “nostalgia do infinito”.

Essa é, talvez, a grande sutileza da tese de Mircea Eliade. O esquecimento do Ser Supremo não representa a destruição de seu conceito, mas justamente sua passagem para um estado de latência. Ele abandona a história e o altar, mas permanece costurado ao próprio tecido da realidade por meio da linguagem mítica. Torna-se uma espécie de “fantasma sintático” da cultura: uma presença que já não é percebida diretamente, mas continua estruturando silenciosamente a forma como o mundo é compreendido.

Talvez seja justamente por permanecerem ocultos que esses deuses sobrevivam mais profundamente do que aqueles que continuam visíveis. Diferentemente do que sugere Neil Gaiman em American Gods, talvez a permanência de uma divindade não dependa apenas da quantidade de pessoas que ainda acreditam nela, mas também da capacidade de permanecer como um símbolo subterrâneo, incorporado às estruturas mais profundas da imaginação humana.

No fim, talvez esse próprio texto seja uma demonstração involuntária do modo como minhas leituras costumam acontecer. Começo seguindo uma linha aparentemente definida, encontro uma ideia, ela me conduz a outra, que por sua vez revela uma conexão inesperada com algo que eu já havia lido ou pensado antes. O livro de Eliade me levou aos deuses esquecidos de American Gods, mas, ao retornar a Eliade, percebi que a própria ausência desses deuses talvez seja uma forma mais profunda de permanência.

Talvez seja essa a razão pela qual continuo retornando aos mitos, às religiões e às antigas narrativas humanas. Elas parecem desaparecer, ser substituídas ou relegadas ao passado, mas continuam habitando as camadas mais profundas da nossa imaginação. Assim como o Deus ocioso, certas ideias não precisam estar presentes para continuar existindo. Elas permanecem em silêncio, ocultas sob a superfície, esperando apenas o momento em que uma nova leitura, uma nova associação ou uma nova pergunta as faça novamente emergir.