domingo, 25 de outubro de 2026

Moisés

 

Moisés (cerca de 1400 a.C.) é considerado um dos líderes religiosos mais importantes da história mundial. É reivindicado pelas religiões do judaísmo, cristianismo, islão e baha'í como um importante profeta de Deus e o fundador da crença monoteísta.

A história de Moisés é contada nos livros bíblicos do Êxodo, Levítico, Deuteronômio e Números, mas ele continua a ser referenciado em toda a Bíblia e é o profeta mais vezes citado no Novo Testamento.

No Alcorão (Corão), ele também desempenha um papel importante e, uma vez mais, é a figura religiosa mais citada, sendo mencionado 115 vezes, ao contrário de Maomé, que é referido pelo nome apenas quatro vezes no texto. Tal como na Bíblia, no Alcorão, Moisés é uma figura que representa alternadamente a compreensão divina ou humana.

Moisés é mais conhecido pela narrativa no livro bíblico do Êxodo e no Alcorão como o legislador que se encontrou com Deus face a face no Monte Sinai para receber os Dez Mandamentos, após conduzir o seu povo, os hebreus, para fora da escravidão no Egito e em direção à "terra prometida" de Canaã. A história do Êxodo hebraico do Egito encontra-se apenas no Pentateuco — os primeiros cinco livros da Bíblia — e no Alcorão, que foi escrito posteriormente. Nenhumas outras fontes antigas corroboram a história e não existem evidências arqueológicas que a sustentem. Isto levou muitos estudiosos a concluir que Moisés foi uma figura lendária e que a história do Êxodo é um mito cultural.

O historiador egípcio Manetão (século III a.C.), contudo, conta a história de um sacerdote egípcio chamado Osarsiph, que liderou um grupo de leprosos numa rebelião contra os desejos do rei, que pretendia bani-los. Osarsiph, afirma Manetão, rejeitou o politeísmo da religião egípcia em favor de uma compreensão monoteísta e mudou o seu nome para Moisés, que significa "filho de..." e que era habitualmente utilizado em conjunto com o nome de um deus (Ramessés seria Ra-Moisés, filho de Ra, por exemplo). Ao que parece, Osarsiph não teria acrescentado o nome de nenhum deus ao seu próprio, uma vez que se acreditava filho de um deus vivo que não possuía um nome que os seres humanos pudessem — ou devessem — pronunciar.

A história de Manetão sobre Osarsiph/Moisés é relatada pelo historiador Flávio Josefo (c. 37-100 d.C.), que citou a história de Manetão extensamente na sua própria obra. O historiador romano Tácito (c. 56-117 d.C.) conta uma história semelhante sobre um homem chamado Moisés, que se torna o líder de uma colónia de leprosos egípcios.

Isto levou vários autores e estudiosos (entre os quais Sigmund Freud e Joseph Campbell) a afirmar que o Moisés da Bíblia não era um hebreu criado num palácio egípcio, mas sim um sacerdote egípcio que liderou uma revolução religiosa para estabelecer o monoteísmo. Esta teoria liga estreitamente Moisés ao faraó Akhenaten (1353-1336 a.C.), que estabeleceu a sua própria crença monoteísta no deus Aten — diferente de qualquer outro deus e mais poderoso do que todos — no quinto ano do seu reinado.

O monoteísmo de Akhenaten poderá ter nascido de um impulso religioso genuíno ou poderá ter sido uma reação contra os sacerdotes do deus Amon, que se tinham tornado quase tão ricos e poderosos como o trono. Ao estabelecer o monoteísmo e ao banir todos os antigos deuses do Egito, Akhenaten eliminou eficazmente qualquer ameaça à coroa por parte do clero.

A teoria defendida por Campbell e outros (seguindo nisto a obra Moisés e o Monoteísmo de Sigmund Freud) é a de que Moisés era um sacerdote de Akhenaten que, após a morte deste, liderou seguidores com ideais semelhantes para fora do Egito, quando o seu filho, Tutankhamon (c. 1336-1327 a.C.), restaurou os antigos deuses e práticas. Outros estudiosos ainda equiparam Moisés ao próprio Akhenaten e veem a história do Êxodo como uma interpretação mitológica da tentativa honesta de reforma religiosa de Akhenaten.

Moisés é mencionado por vários autores clássicos, todos baseando-se nas histórias conhecidas da Bíblia ou em escritores anteriores. Ele tanto poderia ter sido uma personagem mitológica que ganhou vida própria à medida que a sua história era sucessivamente contada, como poderia ter sido uma pessoa real a quem foram atribuídos eventos mágicos ou sobrenaturais, ou ainda, poderia ter sido precisamente como é retratado nos primeiros livros da Bíblia e no Alcorão.

Datação da vida de Moisés e a data precisa do Êxodo é difícil e baseia-se sempre em interpretações do Livro do Êxodo em conjunção com outros livros da Bíblia, sendo, por isso, sempre especulativa. É inteiramente possível que a história do Êxodo tenha sido escrita por um escriba hebreu residente em Canaã, que desejava estabelecer uma distinção clara entre o seu povo e os povoamentos mais antigos dos amorreus na região. A história do Povo Eleito de Deus, conduzido pelo seu servo Moisés para uma terra que o seu Deus lhes tinha prometido, teria servido perfeitamente esse propósito.

Moisés na Bíblia

O Livro do Êxodo (escrito c. 600 a.C.) retoma a narrativa do Livro do Génesis (capítulos 37-50) sobre José, filho de Jacob, que foi vendido como escravo pelos seus meios-irmãos invejosos e alcançou proeminência no Egito. José era perito na interpretação de sonhos e interpretou o sonho do rei com precisão, prevendo uma fome iminente. Foi encarregado de preparar o Egito para a fome, teve um sucesso brilhante e trouxe a sua família para o Egito. O Livro do Êxodo abre com os descendentes hebreus de José a tornarem-se mais numerosos na terra do Egito, de tal modo que o faraó, temendo que eles pudessem tomar o poder, os escraviza.

Moisés entra na história no segundo capítulo do livro, após o faraó — cujo nome não é mencionado — ainda preocupado com a crescente população dos israelitas, decretar que todas as crianças do sexo masculino devem ser mortas. A mãe de Moisés esconde-o durante três meses mas, depois, receando que ele seja descoberto e morto, coloca-o num cesto de papiro, calafetado com betume e pez, e, com a irmã a vigiá-lo, coloca-o entre os juncos à beira do Nilo.

O cesto flutua rio abaixo até ao local onde a filha do faraó e as suas servas se estão a banhar e é descoberto. A criança é retirada do rio pela princesa, que lhe chama "Moisés", alegando que escolheu o nome porque o "tirou das águas" (Êxodo 2:10), o que constitui a afirmação de que "Moisés" significa "tirar de" ou "extraído". Esta etimologia do nome tem sido contestada visto que, como referido, "Moisés" em egípcio significava "filho de". A irmã de Moisés, que ainda o vigiava, aparece e sugere trazer uma mulher hebreia para amamentar o bebé, trazendo assim a sua mãe que, pelo menos inicialmente, se reencontra com o seu filho.

Moisés cresce no palácio egípcio até que, um dia, vê um egípcio a espancar um escravo hebreu e mata-o, enterrando o seu corpo na areia. No dia seguinte, quando está novamente entre o povo, vê dois hebreus a lutar e tenta separá-los, perguntando qual é o problema. Um deles responde perguntando se ele planeia matá-los como fez ao egípcio. Moisés percebe então que o seu crime se tornou conhecido e foge do Egito para Madian.

Na terra de Madian, ele resgata as filhas de um sumo sacerdote (chamado Reuel em Êxodo 2 e Jetro posteriormente), que lhe dá a sua filha Séfora como esposa. Moisés vive em Madian como pastor até que, um dia, encontra uma sarça que arde em fogo mas não se consome. O fogo é o anjo de Deus que traz a Moisés uma mensagem: ele deve regressar ao Egito para libertar o seu povo. Moisés não está interessado e diz rudemente a Deus: "Peço-te que envies outro" (Êxodo 4:13).

Deus não está de humor para que a sua escolha seja questionada e deixa claro que Moisés irá regressar ao Egito. Ele assegura-lhe de que tudo correrá bem e de que terá o seu irmão, Aarão, para o ajudar a falar, bem como poderes sobrenaturais que lhe permitirão convencer o faraó de que fala em nome de Deus. Diz também a Moisés, numa passagem que há muito perturba os intérpretes do livro, que irá "endurecer o coração do faraó" contra a recessão da mensagem e a libertação do povo, ao mesmo tempo que deseja que o faraó aceite a mensagem e liberte o seu povo.

Moisés regressa ao Egito e, como Deus tinha prometido, o coração do faraó endurece-se contra ele. Moisés e Aarão competem com os sacerdotes egípcios num esforço para mostrar qual o deus que é maior, mas o faraó não se deixa impressionar. Após uma série de dez pragas destruir a terra, matando finalmente os primogénitos dos egípcios, os hebreus recebem permissão para partir e, conforme Deus instruíra, levam consigo uma vasta quantidade de tesouros do Egito.

O faraó muda de ideias após a partida deles, no entanto, e envia o seu exército de carros de combate em sua perseguição. Numa das passagens mais conhecidas da Bíblia, Moisés divide o Mar Vermelho para que o seu povo possa atravessar e, depois, fecha as águas sobre o exército egípcio que os perseguia, afogando-os. Ele conduz o seu povo, seguindo dois sinais que Deus providencia: uma coluna de nuvem de dia e uma coluna de fogo de noite. No Monte Sinai, Moisés deixa o seu povo em baixo para subir e encontrar-se com Deus face a face; aqui, ele recebe os Dez Mandamentos, as leis de Deus para o seu povo.

No monte, Moisés recebe a lei e também instruções para a arca da aliança e para o tabernáculo, que servirá de morada à presença de Deus entre o povo. Cá em baixo, os seus seguidores começaram a temer que ele estivesse morto e, sentindo-se desesperançados, pedem a Aarão que lhes faça um ídolo que possam adorar e a quem possam pedir ajuda. Aarão derrete num fogo os tesouros que levaram do Egito para criar um bezerro de ouro. No monte, Deus vê o que os hebreus estão a fazer e ordena a Moisés que regresse e se encarregue do seu povo.

Quando ele desce o monte e vê o seu povo a adorar o ídolo, enfurece-se e destrói as tábuas dos Dez Mandamentos. Convoca para o seu lado todos os que permaneceram fiéis a Deus, incluindo Aarão, e ordena que matem os seus vizinhos, amigos e irmãos que forçaram Aarão a fazer o ídolo para eles. Êxodo 32:27-28 descreve a cena e afirma que "cerca de três mil pessoas" foram mortas pelos levitas de Moisés. Depois, Deus diz a Moisés que já não acompanhará o povo, porque são um "povo de cerviz dura" e, caso continuasse a viajar com eles, acabaria por matá-los por frustração.

Assim, Moisés e os anciãos celebram uma aliança com Deus, pela qual Ele será o seu único Deus e eles serão o Seu povo eleito. Ele viajará com eles pessoalmente, como uma presença divina, para os orientar e confortar. Deus escreve os Dez Mandamentos em novas tábuas que Moisés talha para Ele; estas são colocadas na arca da aliança e a arca é instalada no tabernáculo, uma tenda elaborada.

Deus ordena ainda que um candelabro de ouro puro e uma mesa de madeira de acácia sejam feitos e colocados perante a Sua presença no tabernáculo para receber as ofertas; especifica que seja criado um pátio para o tabernáculo e descreve as ofertas aceitáveis e os vários pecados que se devem evitar e pelos quais se deve fazer expiação. O povo já não terá de questionar a Sua existência ou de se perguntar o que Ele deseja pois, entre os Dez Mandamentos e as restantes instruções, tudo é bastante claro e, além disso, saberão que Ele está entre eles no tabernáculo.

Mesmo com Deus no meio deles, no entanto, o povo continua a duvidar, a temer e a questionar, pelo que é decretado que esta geração vagueará no deserto até morrer; a geração seguinte será aquela que verá a terra prometida. Moisés conduz então o seu povo pelo deserto durante quarenta anos até que isto se cumpra e a geração mais jovem chegue à terra prometida de Canaã. O próprio Moisés não tem permissão para entrar, apenas para a contemplar do outro lado do rio Jordão. Ele morre e é sepultado numa sepultura sem identificação no Monte Nebo, e a liderança é assumida pelo seu segundo em comando, Josué, filho de Nun.

As provações e os desafios de Moisés na mediação entre o seu povo e Deus, bem como as suas leis, são apresentados nos livros de Números, Levítico e Deuteronômio que, juntamente com o Génesis e o Êxodo, constituem os primeiros cinco livros da Bíblia, os quais, tradicionalmente, são atribuídos ao próprio Moisés como autor.

A História do Herói

A investigação bíblica, no entanto, descarta a autoria de Moisés e defende que os primeiros cinco livros foram escritos por diferentes escribas em diferentes períodos de tempo. A história de Moisés, tal como relatada no Êxodo, é a história do herói, conforme elaborada por Joseph Campbell em obras como O Herói de Mil Faces (tít. original: The Hero with a Thousand Faces) ou Transformations of Myth Through Time (As Transformações dos Mito ao Longo dos Tempos).

Embora Moisés nasça hebreu, é separado do seu povo pouco depois do nascimento sendo-lhe negada a sua herança cultural. Ao descobrir quem é, tem de abandonar a vida de conforto a que se habituara e embarca numa jornada que o leva ao reconhecimento do seu propósito de vida. Ele tem medo de aceitar o que sabe que deve fazer, mas fá-lo de qualquer modo e triunfa. A história do Êxodo ressoa da forma que ressoa porque aborda temas e símbolos universais relativos à identidade pessoal, ao propósito de vida e ao envolvimento do divino nos assuntos humanos.

A entrada de Moisés na história utiliza propositadamente o motivo do recém-nascido, filho de pais humildes, que se torna (ou é, sem o saber) um príncipe. À data da escrita do Êxodo, esta história já era conhecida no Médio e Próximo Oriente há quase 2000 anos, através da Lenda de Sargão de Acádia. Sargão (2334-2279 a.C.) foi o fundador do império acádio, o primeiro império multinacional do mundo.

A sua famosa lenda, da qual ele fez grande uso durante a sua vida para atingir os seus objetivos, relata como a sua mãe era uma sacerdotisa que "Ela colocou-me numa cesta de junco e selou com / betume / a tampa. / Ela atirou-me ao rio, que não me cobriu, / O rio carregou-me e levou-me até Akki, o / carregador de água. / Akki, o carregador de água, tirou-me de lá enquanto / (...) / Akki, o carregador de água, [me tomou] como seu filho /(e) criou-me. /Akki, o carregador de água, nomeou-me seu jardineiro" (Pritchard, págs. 85-86). Sargão cresce até derrubar o rei e unir a região da Mesopotâmia sob o seu domínio.

O académico Paul Kriwaczek, ao escrever sobre a história de Sargão, menciona o Festival Internacional de Babilónia de 1990, no qual Saddam Hussein celebrou o seu aniversário. Kriwaczek escreve:

"As festividades atingiram o clímax quando uma cabana de madeira foi trazida e grandes multidões vestidas com trajes antigos sumérios, acádios, babilónicos e assírios se prostraram diante dela. As portas abriram-se para revelar uma palmeira de onde cinquenta e três pombas brancas voaram para o céu. Abaixo delas, um bebé Saddam, repousando num cesto, desceu flutuando por um riacho ladeado de pântanos. O repórter da revista Time ficou particularmente impressionado com o tema do "bebé no cesto", descrevendo-o como "Moisés redux". Mas porque raio haveria Saddam Hussein de querer comparar-se a um líder dos judeus? O jornalista não estava a perceber o ponto principal. O motivo foi uma invenção mesopotâmica muito antes dos hebreus o terem adotado e aplicado a Moisés. O ditador iraquiano estava a aludir a um precedente muito mais antigo e, para ele, muito mais glorioso. Ele estava a associar-se a Sargão. (pág. 112)

O autor do Êxodo também queria que o seu herói fosse associado a Sargão: um verdadeiro herói que surgiria de origens pouco promissoras para alcançar a grandeza. Aqueles que acreditam que a história do Êxodo é um mito cultural apontam para as origens de Moisés, juntamente com muitas outras facetas da história, para provar a sua tese. Outros académicos, como Rosalie David ou Susan Wise Bauer, aceitam a história do Êxodo como história autêntica e atribuem às personagens da narrativa um conhecimento da lenda de Sargão, que o autor do Êxodo registou fielmente. Bauer escreve:

"A história do nascimento de Sargão serviu como um selo de eleição, uma prova da sua divindade. Certamente que a mãe do bebé hebreu a conhecia, e fez uso dela numa tentativa desesperada (e bem-sucedida) de colocar o seu próprio bebé na linhagem dos eleitos divinos. (págs. 235-236)

Para estes académicos, o facto de não existirem registos do Êxodo nem evidências arqueológicas que o sustentem pode ser explicado pelo embaraço que a partida dos israelitas teria causado ao faraó do Egito. Bauer escreve:

"O êxodo dos hebreus foi um gesto de desafio dirigido não apenas ao poder do faraó e da sua corte, mas ao próprio poder dos deuses egípcios. As pragas foram concebidas para demonstrar de forma inequívoca a impotência do panteão egípcio. O Nilo, a corrente sanguínea de Osíris e o sangue vital do Egito, foi transformado em sangue e tornou-se fétido e venenoso; as rãs, sagradas para Osíris, apareceram em números tão elevados que se transformaram numa pestilência; o disco solar foi obscurecido pelas trevas. Ra e Aten foram ambos reduzidos à impotência. Estes não são o tipo de eventos que aparecem nas inscrições celebrativas de qualquer faraó. (pág. 236)

A Teoria do Êxodo como História

Uma explicação mais simples, no entanto, é que os eventos descritos no Livro do Êxodo não ocorreram — ou, pelo menos, não da forma descrita — e, por isso, não foram feitas inscrições relacionadas com os mesmos. Os egípcios são famosos pelo seu registo de informações e, contudo, não foram encontrados registos que façam a mínima referência à partida de um segmento da população do país que, de acordo com o Livro do Êxodo, totalizava «seiscentos mil homens a pé, sem contar mulheres e crianças» (12:37) ou, conforme indicado em Êxodo 38:26, «todos os que passaram pelo recenseamento, de vinte anos para cima, num total de 603 550 homens», novamente sem contar mulheres ou crianças.

Mesmo que os egípcios tivessem decidido que o embaraço dos seus deuses e do seu rei era uma vergonha demasiado grande para ser registada, existiria algum registo de um movimento tão grande de uma população tão vasta, nem que esse registo fosse apenas uma mudança dramática nas evidências físicas da região. Existem acampamentos sazonais do Paleolítico na Escócia e noutras áreas que datam de cerca de 12 000 a.C. (como Howburn Farm) e esses locais não estiveram em uso durante nada que se aproxime do tempo dos quarenta anos de acampamentos que os hebreus teriam utilizado na sua viagem para a terra prometida.

Argumentos de egiptólogos como David Rohl, de que existem evidências do Êxodo, não são amplamente aceites pelos académicos, historiadores ou outros egiptólogos. A alegação de Rohl é que não se encontram evidências físicas ou literárias do Êxodo apenas porque se está a procurar na era errada. O Êxodo tem sido tradicionalmente situado no reinado de Ramsés II (1279-1213 a.C.), mas Rohl afirma que os eventos ocorreram, na verdade, muito antes, no reinado do rei Dudimose I (cerca de 1650 a.C.). Se se examinarem as evidências dessa época, afirma Rohl, a narrativa bíblica coincide com a história egípcia.

Os problemas com a teoria de Rohl residem no facto de as evidências do período do Império Médio (2040-1782 a.C.) e do Segundo Período Intermédio (cerca de 1782 - cerca de 1570 a.C.) não fundamentarem, na verdade, a história do Êxodo. O Papiro de Ipuwer, que Rohl alega ser um relato egípcio das Dez Pragas, data do Império Médio, muito antes do reinado de Dudimose I e, além disso, é claramente literatura egípcia de um género conhecido, e não história.

Os semitas que Rohl afirma terem vivido em grande número em Ávaris não podem ser identificados como os israelitas. Em todos os casos em que Rohl apresenta as suas alegações relacionando o Livro do Êxodo com a história egípcia, ou ignora detalhes que provam que está errado ou distorce as evidências para se ajustarem à sua teoria. Apesar das alegações de Rohl, e das de outros que se apoderaram delas, não existem evidências arqueológicas ou literárias de Moisés a liderar e salvar os israelitas da escravidão no Egito. A única fonte para a história é a narrativa bíblica.

A Teoria do Sacerdote Egípcio

Ainda assim, existe um registo egípcio de um evento que, segundo alguns afirmam, inspirou a história do Êxodo no relato de Manetão sobre o sacerdote egípcio Osarsif e a sua liderança da comunidade de leprosos. O relato de Manetão perdeu-se, mas é citado extensamente por Josefo e, mais tarde, pelo historiador romano Tácito. De acordo com Josefo, o rei Amenófis do Egito (que é equiparado a Amenhotep III, cerca de 1386-1353 a.C.) desejava "ver os deuses", mas foi informado por um oráculo de que não o poderia fazer — a menos que purificasse o Egito dos leprosos.

Desta forma, baniu os leprosos para a cidade de Ávaris, onde se uniram sob a liderança de um sacerdote monoteísta chamado Osarsif. Osarsif rebelou-se contra o domínio de Amenófis, instituiu o monoteísmo e convidou os Hicsos a regressar ao Egipto. Na versão de Tácito, o rei egípcio chama-se Boccoris (o nome grego para o rei Bakenranef, cerca de 725-720 a.C.) e este exila no deserto um segmento da sua população atingido pela lepra.

Os exilados permanecem no deserto "num estupor de dor" até que um deles, Moisés, se restabelece e os conduz para outra terra. Tácito prossegue afirmando que Moisés ensinou então ao povo uma nova crença num único deus supremo e "deu-lhes uma forma de culto inédita, oposta a tudo o que é praticado pelos outros homens" (pág. 1).

Tal como acontece com a história do Êxodo, não existem registos que corroborem esta versão dos acontecimentos, e o reinado de Amenhotep III não foi marcado por quaisquer rebeliões de leprosos ou de quem quer que fosse. O relato de Tácito sobre a ascensão de Moisés ao poder durante o reinado de Bakenranef é igualmente carente de fundamentação. Além disso, o relato de Manetão afirma explicitamente que Osarsif "convidou os Hicsos a regressar ao Egito", onde governaram durante treze anos; contudo, os Hicsos foram expulsos do Egipto por volta de 1570 a.C. por Ahmose I de Tebas e não registo de que alguma vez tenham regressado.

O historiador Marc van de Mieroop comenta este facto, escrevendo: "Os académicos têm diferentes opiniões sobre quais os eventos históricos exatos que o relato de Josefo recorda, mas muitos veem no conto uma memória persistente de Akhenaton e do seu reinado impopular" (pág. 210). Akhenaton introduziu, como é sabido, o monoteísmo no Egito através do culto de um único deus, Aten, e proibiu o culto de todos os outros deuses. De acordo com a teoria exposta de forma mais célebre por Freud, a história de Osarsif é, na verdade, um relato do reinado de Akhenaton e de um dos seus sacerdotes, Moisés, que deu continuidade à sua reforma.

Freud mostra-se abertamente perplexo pelo facto de ninguém parecer ter notado que este alegado líder hebreu do Êxodo do Egito tinha um nome egípcio, escrevendo: "Seria de esperar que um dos muitos autores que reconheceram que Moisés é um nome egípcio tivesse tirado a conclusão, ou pelo menos considerado a possibilidade, de que o portador de um nome egípcio fosse ele próprio um egípcio" (págs. 5-6). Freud afirma ainda:

"Atrevo-me agora a tirar a seguinte conclusão: se Moisés era egípcio e se transmitiu aos judeus a sua própria religião, então essa era a de Ikhnaton [Akhenaton], a religião de Aten. (pág. 27)

De acordo com Freud, Moisés foi assassinado pelo seu povo e a memória deste ato criou uma culpa comunitária que infundiu a religião do judaísmo e o caracteriza esse sistema de crenças, bem como as fés monoteístas que lhe sucederam. Por mais interessante que a teoria possa ser, tal como muitas das teorias de Freud, ela baseia-se numa premissa que Freud nunca prova, mas sobre a qual continua, ainda assim, a construir uma argumentação. Susan Wise Bauer escreve:

"Durante pelo menos um século, advoga-se a teoria de que Akhenaton treinou Moisés no monoteísmo e depois o deixou 'à solta' no deserto; ainda surge ocasionalmente em especiais do Canal História e em angariações de fundos da PBS. Isto não tem absolutamente nenhuma base histórica e, de facto, é incrivelmente difícil de conciliar com qualquer uma das datas mais respeitáveis do Êxodo. Parece ter tido origem em Freud, que certamente não era um académico imparcial no seu desejo de explicar as origens do monoteísmo, negando ao judaísmo o máximo de singularidade possível. (pág. 237)

Embora o seu nome sugira certamente uma origem egípcia, o primeiro texto que introduz a personagem de Moisés indica claramente que ele era filho de pais hebreus. Quer se aceite o Livro do Êxodo como um relato fiável ou como um mito cultural, não se pode alterar o texto para o ajustar a teorias pessoais — que é, basicamente, o que Freud faz.

Ao mesmo tempo, não se pode reivindicar uma "data respeitável" para o Êxodo quando não existe nenhum registo histórico do evento fora do manuscrito do Livro do Êxodo. Os eventos do Êxodo são tradicionalmente atribuídos ao reinado de Ramsés II com base na passagem de Êxodo 1:11, onde se afirma que os escravos hebreus trabalharam nas cidades de Pitóm e Ramsés, duas cidades que se sabe terem sido encomendadas por Ramsés II.

Bauer, no entanto, escreve que uma "data respeitável" para o Êxodo é 1446 a.C., baseando-se numa "leitura direta de I Reis 6:1, que afirma que passaram 480 anos entre o Êxodo e a construção do templo de Salomão" (pág. 236). A complicar ainda mais a datação do evento está o facto de Êxodo 7:7 afirmar que Moisés tinha 80 anos quando se reuniu pela primeira vez com o faraó; contudo, a data de nascimento de Moisés é indicada pelo judaísmo rabínico como sendo em 1391 a.C., o que torna a data de 1446 a.C. impossível, existindo também inúmeras outras sugestões para possíveis anos de nascimento que tornam, igualmente, a data de 1446 a.C. para o Êxodo insustentável.

O Êxodo como Literatura Naru

O problema de todas estas especulações advém da tentativa de ler a Bíblia como história pura, em vez daquilo que ela é: literatura e, especificamente, escritura. Os escritores antigos não estavam tão preocupados com factos como o público moderno está, mas estavam certamente interessados na verdade. Isto é exemplificado pelo antigo género conhecido como Literatura Naru Mesopotâmica, no qual uma figura, geralmente alguém famoso, desempenha um papel importante numa história na qual não participou realmente.

Os melhores exemplos de Literatura Naru dizem respeito a Sargão de Acádia e ao seu neto Naram-Sin (2262-2224 a.C.). Na famosa história A Maldição de Ágade, Naram-Sin é retratado a destruir o templo do deus Enlil quando não recebe resposta às suas preces. Não existe registo de Naram-Sin ter feito tal coisa, enquanto existe uma grande quantidade de evidências de que ele foi um rei piedoso que honrou Enlil e os outros deuses. Neste caso, Naram-Sin teria sido escolhido como personagem principal devido ao seu nome famoso e utilizado para transmitir uma verdade sobre a relação da humanidade com os deuses e, especialmente, sobre a atitude correta de um rei perante o divino.

Da mesma forma, o Livro do Êxodo e as outras narrativas relativas a Moisés contam uma história de libertação física e espiritual utilizando a personagem central de Moisés — uma figura anteriormente desconhecida na literatura — que representa a relação do homem com Deus. Os escritores das narrativas bíblicas esforçam-se por fundamentar as suas histórias na história, para mostrar Deus a atuar através de eventos reais, da mesma forma que os autores da Literatura Naru Mesopotâmica escolheram figuras históricas para transmitir a sua mensagem.

A literatura, a escritura, não precisa de ser historicamente precisa para expressar uma verdade. A insistência em histórias como o Livro do Êxodo enquanto factos históricos nega ao leitor uma experiência mais ampla do texto. Afirmar que o livro deve ser historicamente verdadeiro para ter significado nega o poder da história para transmitir a sua mensagem.

Moisés é uma figura simbólica na história, ao mesmo tempo que permanece um indivíduo completamente autónomo com uma personalidade distinta. Ao longo da narrativa, Moisés faz a mediação entre Deus e o povo, mas não é totalmente sagrado nem secular. Ele aceita o seu mandato de Deus com relutância, pergunta constantemente a Deus por que razão foi escolhido e o que é suposto estar a fazer, e, no entanto, tenta consistentemente cumprir a vontade de Deus até ao momento em que golpeia a rocha para produzir água, em vez de falar com ela, conforme Deus o havia instruído (Números 20:1-12).

Deus tinha dito anteriormente a Moisés para golpear uma rocha para obter água (Êxodo 17:6), mas desta vez disse-lhe para falar com a rocha. As ações de Moisés aqui, ao ignorar a instrução de Deus, impedem-no de entrar na terra prometida de Canaã. Ele tem permissão para ver a terra a partir do Monte Nebo, mas não pode liderar o seu povo após ter comprometido a sua relação com Deus.

Tal como acontece com o resto da narrativa relativa a Moisés, este episódio com a rocha teria transmitido (e ainda transmite) uma mensagem importante sobre a relação de um crente com Deus: a de que se deve confiar no divino, apesar do conhecimento que se julga ter ou da confiança em precedentes e na experiência. No final, não importa se um indivíduo histórico chamado Moisés golpeou ou falou com uma rocha que depois deu água; o que importa é a verdade da relação do indivíduo com Deus que a história transmite e como cada um pode compreender melhor o seu próprio lugar num plano divino.

Moisés no Alcorão

Isto é também visível no Alcorão, onde Moisés é conhecido como Musa. Musa é mencionado inúmeras vezes ao longo do Alcorão como um homem justo, um profeta e um sábio. Na história do Êxodo no Alcorão, Musa é sempre visto como um servo devoto de Alá, que confia na sabedoria divina. Na Sura 18:60-82, no entanto, é relatada uma história que mostra como mesmo um homem grande e justo ainda tem muito a aprender com Deus.

Um dia, após Musa ter proferido um sermão particularmente brilhante, um membro da audiência pergunta-lhe se existe alguém na terra tão instruído nos caminhos de Deus como ele, e Musa responde que não. Deus (Alá) informa-o de que haverá sempre quem saiba mais do que nós em qualquer assunto, especialmente no que diz respeito ao divino. Musa pergunta a Alá onde poderá encontrar tal homem, e Alá dá-lhe instruções sobre como proceder.

Seguindo a orientação de Alá, Musa encontra Al-Khidr (um representante do divino) e pergunta se o poderá seguir e aprender todo o conhecimento que ele possui de Deus. Al-Khidr responde que Musa não compreenderia nada do que ele dissesse ou fizesse e que não teria paciência; em seguida, dispensa-o. Musa suplica-lhe e Al-Khidr diz: «Se me queres seguir, não me perguntes sobre nada até que eu próprio o mencione», e Musa concorda.

À medida que viajam juntos, Al-Khidr depara-se com um barco junto à margem e abre um buraco no fundo do mesmo. Musa opõe-se, clamando que os proprietários do barco não conseguirão agora ganhar o seu sustento. Al-Khidr recorda-lhe como lhe tinha dito que ele não conseguiria ser paciente e dispensa-o, mas Musa pede perdão e promete que não julgará nem falará sobre mais nada.

Pouco depois do incidente do barco, porém, encontram um jovem na estrada e Al-Khidr mata-o. Musa opõe-se veementemente, perguntando por que razão um jovem tão belo deveria ser morto, e Al-Khidr recorda-lhe novamente o que dissera antes e ordena-lhe que se vá embora imediatamente. Musa pede novamente desculpa e é perdoado, e os dois seguem viagem juntos.

Eles chegam a uma cidade onde pedem esmolas, mas estas são-lhes recusadas. Ao saírem da cidade, passam por um muro de pedra que está a cair e Al-Khidr para e repara-o. Musa fica novamente confuso e queixa-se ao seu companheiro que, pelo menos, ele poderia ter pedido um salário pela reparação do muro, para que pudessem ter algo para comer.

Perante isto, Al-Khidr diz a Musa que este violou o contrato deles pela última vez e que agora devem seguir caminhos separados. Primeiro, porém, ele explica: ele afundou o barco porque havia um rei no mar a apoderar-se pela força de todos os barcos que saíam e a escravizar a tripulação. Se as boas pessoas que eram proprietárias do barco tivessem saído, teriam tido um mau fim. Ele matou o jovem porque este era mau e iria trazer grande dor aos seus pais e à comunidade. Alá já tinha providenciado para que outro filho nascesse aos pais, o qual traria alegria a eles e a outros, em vez de dor. Ele reconstruiu o muro porque havia um tesouro escondido debaixo dele que dois órfãos deveriam herdar e, se o muro tivesse desmoronado mais, o tesouro teria sido revelado àqueles que o levariam. Al-Khidr termina dizendo: «Essa é a interpretação daquelas coisas sobre as quais não mostraste paciência», e Musa compreende a lição.

Tal como acontece com o Moisés bíblico, o Musa do Alcorão é uma personagem completamente desenvolvida, com todas as forças e fraquezas de qualquer pessoa. Na Bíblia, a humildade de Moisés é enfatizada, mas ele ainda possui orgulho suficiente para confiar no seu próprio julgamento ao golpear a rocha, em vez de escutar Deus. No Alcorão, a sua fé em si próprio e nas suas próprias percepções e julgamentos é posta em causa através da sua incapacidade de confiar no mensageiro de Deus. A história da Sura 18 ensina que Deus tem um propósito que os seres humanos, mesmo alguém tão devoto e instruído como Musa, não conseguem compreender.

Conclusão

Ao longo do Novo Testamento cristão, Moisés é citado mais do que qualquer outro profeta ou figura do Antigo Testamento. Moisés é visto, nos escritos cristãos, como o Legislador que exemplifica um homem de Deus. Para citar apenas um exemplo, Moisés aparece com destaque na famosa história que Jesus conta sobre Lázaro e o Rico em Lucas 16:19-31.

Nesta história, um homem pobre, mas piedoso, chamado Lázaro, e um homem rico (cujo nome não é mencionado) vivem na mesma cidade. Lázaro sofre diariamente, enquanto o homem rico tem tudo o que poderia desejar. Ambos morrem no mesmo dia e o homem rico acorda no submundo e vê Lázaro com o Pai Abraão no paraíso. Ele implora ao Pai Abraão que o ajude, mas é recordado de que, na terra, viveu uma vida de facilidades enquanto Lázaro sofreu, e agora é apenas justo que os papéis se invertam.

O homem rico pede então ao Pai Abraão que envie alguém para avisar a sua família, visto que ainda tem cinco irmãos vivos, e lhes diga como deveriam viver melhor para evitarem o seu destino. Abraão responde: "Eles têm Moisés e os profetas; que os ouçam." O homem rico protesta, dizendo que, se alguém ressuscitasse dos mortos para avisar a sua família, eles certamente ouviriam, mas Abraão diz: "Se não ouvem Moisés e os profetas, tampouco ouvirão, ainda que alguém ressuscite dos mortos."

Nesta história, Moisés é apresentado como o paradigma da verdade de Deus. Se as pessoas dessem ouvidos ao exemplo e às palavras de Moisés, poderiam evitar a separação de Deus na vida após a morte. A história enfatiza como os ensinamentos de Moisés fornecem tudo o que alguém precisa de saber sobre como viver uma vida boa e decente e desfrutar de uma vida eterna com Deus e como, se alguém vai ignorar Moisés e os profetas e justificar as suas escolhas de vida, com a mesma facilidade descartaria alguém que regressasse dos mortos; ambos são igualmente evidentes quanto aos desejos de Deus para a piedade e o comportamento humano.

Moisés aparece também na transfiguração de Jesus em Mateus 17:1-3, Marcos 9:2-4 e Lucas 9:28-30, juntamente com Elias, quando Deus anuncia que Jesus é o Seu filho, em quem Se compraz. Nestas passagens e noutras do Novo Testamento, Moisés é apresentado como um modelo e representante da vontade de Deus.

Desconhece-se se existiu na história um líder religioso chamado Moisés que tenha conduzido o seu povo e iniciado uma compreensão monoteísta do divino. As crenças individuais ditarão — mais do que qualquer evidência histórica ou a falta dela — se se aceita a historicidade de Moisés ou se o considera uma figura mítica. De qualquer modo, a figura de Moisés lançou uma longa sombra sobre a história do mundo.

O monoteísmo que lhe é creditado ter introduzido foi mais tarde desenvolvido pelos mestres da fé judaica, o que influenciou o ambiente no qual o cristianismo foi capaz de prosperar, o que, por sua vez, levou à ascensão do Islão. Todas as três principais religiões monoteístas no mundo atual reivindicam Moisés como seu, e ele continua a servir de modelo para a relação da humanidade com o divino para pessoas de muitas fés em todo o mundo.

A Religião no Mundo Antigo

 

Religião (do latim Religio, que significa 'restrição', ou Relegere, de acordo com Cícero, que significa 'repetir, releitura' ou, muito provavelmente, Religionem, 'mostrar respeito pelo que é sagrado') é um sistema organizado de crenças e práticas que giram em torno, ou conduzem, a uma experiência espiritual transcendente. Não há cultura na história da humanidade que não tenha praticado alguma forma de religião.

Nos tempos antigos, a religião não se diferenciava do que hoje conhecemos como 'mitologia' e consistia em rituais regulares baseados na crença de entidades sobrenaturais superiores que criaram e continuavam a manter o mundo e o cosmos circundante. Essas entidades eram antropomórficas e se comportavam de modo que espelhavam de perto os valores da cultura (como no Egito), ou às vezes se envolviam em atos contraditórios a esses valores (como é visto com os deuses da Grécia).

A religião, daquela época e de agora, preocupa-se com o aspecto espiritual da condição humana, deuses e deusas (ou um único deus ou deusa pessoal), a criação do mundo, o lugar de um ser humano no mundo, a vida após a morte, a eternidade e como escapar do sofrimento neste mundo ou no próximo; e cada nação criou o seu próprio deus à sua própria imagem e semelhança. O filósofo grego Xenófanes de Cólofon (c. 570-478 a.C.) escreve:

"Os mortais supõem que os deuses nascem e têm roupas, vozes e formas como as suas. Mas se bois, cavalos e leões tivessem mãos ou pudessem pintar com as mãos e realizar trabalhos como os homens, os cavalos pintariam imagens de deuses semelhantes a cavalos, e bois pintariam deuses semelhantes a bois, e cada um moldaria os corpos parecidos aos seus próprios. Os etíopes acreditam em deuses pretos e de narizes achatados; os trácios, em deuses de olhos azuis e cabelos ruivos. (Diógenes Laércio, Vidas)

Xenófanes acreditava que havia "entre os deuses e os homens, um deus, o maior, nada parecido com os mortais no corpo ou na mente", mas ele era a minoria. O monoteísmo não fazia sentido para os povos antigos, exceto para os visionários e profetas do Judaísmo. A maioria das pessoas, pelo menos até onde se pode discernir a partir do registro escrito e arqueológico, acreditava em muitos deuses, cada um dos quais tinha uma esfera especial de influência. Na vida de um indivíduo, não existe um outro indivíduo dedicado a apenas atender as necessidades do primeiro; este interage com muitos tipos diferentes de pessoas, a fim de alcançar a plenitude e ganhar a vida.

Atualmente, durante sua vida, um indivíduo irá interagir com os pais de outro indivíduo, seus irmãos, professores, amigos, amantes, empregadores, médicos, frentistas de posto de gasolina, encanadores, políticos, veterinários, e assim por diante. Nenhuma pessoa pode preencher todos esses papéis ou suprir todas as necessidades de um indivíduo – assim como era nos tempos antigos.

Da mesma forma, os povos antigos acreditavam de que nenhum deus poderia cuidar de todas as necessidades de um indivíduo. Assim como alguém com um cão doente não procuraria um encanador, da mesma forma, alguém com um problema amoroso não procuraria um deus da guerra. Se alguém estivesse sofrendo com um coração partido, procuraria a deusa do amor; se quisesse vencer um combate, só então consultaria o deus da guerra.

Os muitos deuses das religiões do mundo antigo realizaram esta função como especialistas nas suas respectivas áreas. Em algumas culturas, um certo deus ou deusa se tornaria tão popular que transcenderia a compreensão cultural da multiplicidade e assumiria uma posição tão poderosa e abrangente que quase transformaria uma cultura politeísta em henoteísta.

Enquanto politeísmo significa a adoração de muitos deuses, henoteísmo significa a adoração de um deus em muitas formas. Essa mudança de entendimento foi extremamente rara no mundo antigo, e a deusa Ísis e o deus Amon do Egito são provavelmente os melhores exemplos da ascensão completa de uma divindade comum para o (a) criador (a) supremo (a) e sustentador (a) do universo reconhecido (a) em diferentes formas.

Como observado, toda cultura antiga praticava algum tipo de religião, mas não se pode identificar com certeza onde a religião começou. A controvérsia sobre se a religião mesopotâmica inspirou a dos egípcios já dura mais de um século e não está mais perto de ser resolvida do que quando começou. É muito provável que cada cultura tenha desenvolvido a sua própria crença em entidades sobrenaturais para explicar os fenômenos naturais (dia e noite, as estações do ano) ou para ajudar a dar sentido às suas vidas e às incertezas que os seres humanos se deparam diariamente.

Embora tentar traçar as origens da religião possa ser um interessante exercício de intercâmbio cultural, não parece ser um uso muito proveitoso do tempo, quando parece bem claro que o impulso religioso é simplesmente uma parte da condição humana e que diferentes culturas em diferentes partes do mundo poderiam ter chegado às mesmas conclusões sobre o significado da vida independentemente.

Religião na antiga Mesopotâmia

Como acontece com muitas invenções e avanços culturais, o 'berço da civilização' Mesopotâmia tem sido citado como o berço da religião. Não se sabe quando a religião se desenvolveu na Mesopotâmia, mas os primeiros registros escritos da prática religiosa datam de c. 3500 a.C. da Suméria. As crenças religiosas da Mesopotâmia sustentavam que os seres humanos eram cooperadores dos deuses, trabalhavam com eles e para que eles retivessem as forças do caos que haviam sido controladas pelas divindades supremas no início dos tempos. A ordem foi criada a partir do caos pelos deuses, e um dos mitos mais populares que ilustram este princípio fala do grande deus Marduk, que derrotou Tiamat e as forças do caos para criar o mundo. O historiador D. Brendan Nagle escreve:

"Apesar da aparente vitória dos deuses, não havia garantia de que as forças do caos não recuperassem seus poderes e derrubassem a criação organizada dos deuses. Deuses e humanos estavam envolvidos na luta perpétua para conter os poderes do caos, e cada um deles tinha seu próprio papel a desempenhar nesta batalha dramática. A responsabilidade dos habitantes das cidades mesopotâmicas era fornecer aos deuses tudo o que precisavam para governar o mundo.

Os seres humanos foram criados, de fato, com este objetivo: trabalhar junto com os deuses e para os deuses com um propósito benéfico em comum. A afirmação de alguns historiadores de que os mesopotâmicos eram escravos dos seus deuses é insustentável, porque é bem claro que o povo compreendia a sua posição como cooperadores. Os deuses recompensavam os seres humanos pelo seu serviço, cuidando das suas necessidades diárias na vida (como fornecer-lhes cerveja, a bebida dos deuses) e mantendo o mundo em que viviam. Esses deuses conheciam intimamente as necessidades do povo porque não eram entidades distantes que viviam nos céus, mas habitavam em casas na terra construídas para eles por seu povo; essas casas eram os templos que foram erguidos em cada cidade da Mesopotâmia.

Os complexos de templos, dominados pelo imponente zigurate, eram literalmente consideradas as casas dos deuses e suas estátuas eram alimentadas, lavadas e vestidas diariamente, enquanto os sacerdotes e sacerdotisas cuidavam deles como se fossem reis ou rainhas. No caso de Marduk, por exemplo, sua estátua foi carregada para fora de seu templo durante o festival em homenagem a ele e através da cidade de Babilônia para que ele pudesse apreciar sua beleza enquanto desfrutava do sol e ar fresco.

Inana era outra divindade poderosa que era muito reverenciada como a deusa do amor, sexo e guerra, e cujos sacerdotes e sacerdotisas cuidavam fielmente de sua estátua e templo. Inana é considerada um dos primeiros exemplos da figura de deus que morre e ressuscita, que desce ao submundo e retorna à vida, trazendo fertilidade e abundância à terra. Ela era tão popular que seu culto se espalhou da região sul da Suméria para toda a Mesopotâmia. Ela se tornou Ishtar dos acadianos (e mais tarde os assírios), Astarte dos fenícios, Sauska dos Hurritas-hititas, e foi associada a Afrodite dos gregos, Ísis dos egípcios e Vênus dos romanos.

Os templos foram o centro da vida da cidade ao longo da história da Mesopotâmia, desde o Império Acadiano (c. 2334-2150 a.C.) até o Assírio (c. 1900-612 a.C.) e dali em diante. O templo servia em múltiplas funções: o clero distribuía cereais e bens excedentes aos pobres, aconselhava os necessitados, prestava serviços médicos e patrocinava as grandes festas que honravam os deuses. Embora os deuses cuidassem bem dos humanos enquanto viviam, a vida após a morte da Mesopotâmia era um submundo sombrio, localizado sob as montanhas distantes, onde as almas bebiam água estragada das poças e comiam poeira por toda a eternidade na 'terra sem volta'. Essa visão sombria de sua morada eterna era notadamente diferente da dos egípcios, bem como de seus vizinhos, os persas.

Antiga Religião Persa

A religião primitiva dos persas chegou ao Planalto Iraniano com as migrações dos arianos (devidamente entendidos como Indo-Iranianos) algum tempo antes do terceiro milênio a.C. A fé primitiva era politeísta com um deus supremo, Ahura Mazda, presidindo divindades menores. Entre os mais populares deles estava Atar (Deus do fogo), Mitra (Deus do sol nascente e das Alianças), Hvar Khshsata (Deus do sol pleno) e Anahita (deusa da fertilidade, água, saúde, cura e sabedoria). Esses deuses representavam as forças da bondade e da ordem contra os espíritos malignos da desordem e do caos.

Em algum ponto entre 1500-1000 a.C., O Profeta e visionário Zoroastro (ou Zaratustra) reivindicou uma revelação de Ahura Mazda através da qual ele entendeu que este deus era o único ser supremo, criador do universo e sustentador da ordem, que não precisava de outros deuses além dele. A visão de Zoroastro se tornaria a religião do Zoroastrismo – uma das mais antigas do mundo ainda praticadas nos dias atuais.

De acordo com esta crença, o propósito da vida humana é escolher entre seguir Ahura Mazda e o caminho da verdade e da ordem (Asha) ou seguir seu eterno adversário, Angra Mainyu (ou Ahriman) e o caminho das mentiras e do caos (Druj). Os seres humanos eram considerados inerentemente bons e possuindo livre arbítrio para escolher entre esses dois caminhos; dependendo da escolha que a pessoa fizesse, isso moldaria sua vida e indicaria seu destino após a morte. Quando uma pessoa morria, atravessava a Ponte Chinvat, onde era julgada.

Aqueles que viviam uma vida boa de acordo com os preceitos de Ahura Mazda eram recompensados com vida contínua no paraíso da Casa da Canção, enquanto aqueles que se deixavam enganar por Angra Mainyu eram jogados no inferno da Casa das Mentiras (druj-demana) onde eram torturados implacavelmente e, embora cercados por outras almas sofredoras, sentiriam-se eternamente sozinhos.

Embora os estudiosos frequentemente caracterizem o Zoroastrismo como uma religião dualista, parece claro que Zoroastro fundou uma fé monoteísta focada em uma única deidade todo-poderosa. Os aspectos dualistas da religião apareceram mais tarde na chamada heresia do Zorvanismo que fez Ahura Mazda e Angra Mainyu irmãos, filhos de Zorvan (tempo) e o próprio tempo tornou-se o poder supremo através do qual todas as coisas surgiram e faleceram.

O Zoroastrismo também sustentava que um Messias viria em alguma data futura (conhecido como Saoshyant - Aquele Que Traz Benefício) para redimir a humanidade em um evento conhecido como Frashokereti que foi o fim dos tempos e trouxe união com Ahura Mazda. Esses conceitos influenciariam as religiões posteriores do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. A crença em um único deus, diferente dos seres humanos e todo-poderoso, também pode ter influenciado a religião egípcia durante o Período de Amarna, no qual o Faraó Akhenaton (R. 1353-1336 a.C.) aboliu os rituais e práticas tradicionais egípcias e os substituiu por um sistema monoteísta focado no único deus, Áton.

Religião no Egito

A religião egípcia era semelhante à crença mesopotâmica no sentido de que os seres humanos colaboravam com os deuses para manter a ordem. O princípio da harmonia (conhecido pelos egípcios como ma'at) era muito importante na vida egípcia (e na vida após a morte), e sua religião estava totalmente integrada em todos os aspectos da existência. A religião egípcia era uma combinação de magia, mitologia, ciência, medicina, psiquiatria, espiritualismo, herbologia, bem como a compreensão moderna de 'religião' como crença em um poder superior e uma vida após a morte. Os deuses eram amigos dos seres humanos e buscavam apenas o melhor para eles, fornecendo-lhes a mais perfeita de todas as terras para viver e um lar eterno para desfrutar quando suas vidas na terra terminassem.

Esse sistema de crenças continuaria, com vários desenvolvimentos, através da longa história do Egito, apenas interrompido pelas reformas religiosas de Akhenaton durante seu reinado. Após sua morte, a antiga religião foi restaurada por seu filho e sucessor Tutancâmon (r.C. 1336 a c. 1327 a.C.), que reabriu os templos e reacendeu os antigos rituais e costumes.

Os primeiros registros escritos da prática religiosa egípcia datam de cerca de 3400 a.C. no período pré-dinástico no Egito (c. 6000 a.C. 3150 a.C.). Divindades como Ísis, Osíris, Ptah, Hathor, Atum, Set, Néftis e Hórus já estavam estabelecidas como forças poderosas a serem reconhecidas bem cedo. O mito da criação egípcia é semelhante ao início da história da Mesopotâmia, em que originalmente havia apenas águas caóticas e lentas. Tal oceano estava sem limitações, era raso e silencioso até que, sobre a sua superfície, se ergueu uma colina de terra (conhecida como ben-ben, o monte primordial que, imagina-se, as pirâmides simbolizam) e o grande deus Atum (o sol) estava sobre o ben-ben e falou, dando à luz o deus Shu (do ar), a deusa Tefnut (da umidade), o deus Geb (da terra) e a deusa Nut (do céu). Ao lado de Atum estava Heka, a personificação da magia, e a magia (heka) deu origem ao universo.

Atum tinha a intenção de que Nut fosse sua noiva, mas ela se apaixonou por Geb. Zangado com os amantes, Atum os separou esticando Nut pelo céu, longe de Geb, na terra. Embora os amantes ficassem separados durante o dia, eles se reuniam à noite e Nut teve três filhos, Osíris, Set e Hórus, e duas filhas, Ísis e Néftis.

Osíris, como mais velho, foi anunciado como 'Senhor de toda a Terra' quando nasceu e recebeu sua irmã, Ísis, como esposa. Set, consumido pelo ciúme, odiava seu irmão e o matou para assumir o trono. Ísis então embalsamou o corpo de seu marido e, com poderes encantados, ressuscitou Osíris, que voltou dos mortos para trazer vida ao povo do Egito. Mais tarde, Osíris serviu como juiz supremo das almas dos mortos no Palácio da Verdade e, julgando o coração das almas, decidia a quem seria concedida a vida eterna.

A vida após a morte para os egípcios era conhecida como o Campo dos Juncos e era um espelho da vida na terra, desde a árvore, o riacho e até o cão favoritos. Os entes-queridos falecidos estariam esperando pela pessoa quando ela chegasse ou então seguiriam caminho. Os egípcios viam a existência terrena como simplesmente uma parte de uma jornada eterna e estavam tão preocupados em passar facilmente para a próxima fase que criaram seus túmulos sofisticados (as pirâmides), templos e inscrições funerárias (o Textos das Pirâmides, Textos do Esquife, e O Livro Egípcio dos Mortos) para ajudar a passagem da alma deste mundo para o outro.

Os deuses cuidavam da pessoa após a morte, assim como na vida desde o início dos tempos. A deusa Qebhet trazia água para as almas sedentas na terra dos mortos e outras deusas, como Serket e Néftis, cuidavam e protegiam as almas enquanto estas viajavam para o campo de juncos. Um egípcio da antiguidade compreendia que, desde o nascimento até a morte (e mesmo depois da morte), o universo tinha sido ordenado pelos deuses e todos tinham um lugar nessa ordem.

Religião na China e na Índia

Este princípio de ordem também é fundamental na religião mais antiga do mundo ainda praticada hoje: o Hinduísmo (conhecido pelos adeptos como Sanatan Dharma, 'Ordem Eterna', que parece ter sido fundada já em 5500 a.C., mas certamente por c. 2300 a.C.). Embora muitas vezes visto como uma fé politeísta, o hinduísmo é, na verdade, henoteísta. Há apenas um deus supremo no Hinduísmo, Brahma, e todas as outras divindades são seus aspectos e reflexões. Como Brahma é um conceito amplo demais para ser compreendido pela mente humana, ele se apresenta em muitas versões que as pessoas reconhecem como as divindades Vishnu, Shiva e muitas outras. O sistema de crenças hindu inclui 330 milhões de deuses que vão desde aqueles conhecidos nacionalmente (como Krishna), até divindades locais menos conhecidas.

O principal entendimento do Hinduísmo é que existe uma ordem para o universo e cada indivíduo tem um lugar específico nessa ordem. Cada pessoa no planeta tem um dever (dharma) que só ela pode realizar. Se agirmos corretamente (karma) no cumprimento desse dever, a pessoa é recompensada aproximando-se do Ser Supremo e, eventualmente, tornando-se uma com deus; se não o fizer, ela reencarna quantas vezes forem necessárias para finalmente entender como viver e aproximar-se da união com a alma suprema.

Essa crença foi herdada por Sidarta Gautama quando ele se tornou o Buda e fundou a religião conhecida como Budismo. No Budismo, no entanto, não se busca a união com um deus, mas com a própria natureza superior, pois se deixa para trás as ilusões do mundo que geram sofrimento e obscurecem a mente com o medo da perda e da morte. O Budismo tornou-se tão popular que viajou da Índia para a China, onde teve igual sucesso.

Na China antiga, acredita-se que a religião tenha se desenvolvido já em c. 4500 a.C., como evidenciado por desenhos em cerâmica encontrados no Sítio Neolítico da Aldeia de Banpo. Essa estrutura inicial de crenças pode ter sido uma mistura de animismo e mitologia, pois essas imagens incluem animais reconhecíveis e dragões-porcos, precursores do famoso dragão chinês.

Na época da Dinastia Xia (2070-1600 a.C.), havia muitos deuses antropomórficos adorados com um deus principal, Shangti, presidindo a todos. Essa crença continuou, com modificações, durante o período da Dinastia Shang (1600-1046 a.C.), que desenvolveu a prática do culto aos antepassados.

As pessoas acreditavam que Shangti tinha tantas responsabilidades que ele ficou ocupado demais para lidar com as necessidades de seus adoradores. Pensava-se que, quando uma pessoa morria, ia viver com os deuses e tornava-se intermediária entre o povo e esses deuses. O culto aos antepassados influenciou os dois grandes sistemas de crenças chineses: o Confucionismo e o Taoísmo, ambos os quais fizeram deste culto o princípio fundamental de suas práticas. Com o tempo, Shangti foi substituído pelo conceito de Tian (céu), um paraíso onde os mortos residiriam eternamente em paz.

Para passar da vida terrena para o céu, era preciso atravessar a ponte do esquecimento sobre um abismo e, depois de olhar para trás pela última vez, beber de um cálice que purificava toda a memória. Na ponte, se a pessoa era considerado digna do céu, ela passava; se fosse considerada indigna, ela escorregava da ponte caindo no abismo, para ser engolida pelo inferno. Outras versões deste mesmo cenário afirmam que a alma reencarnava depois de beber do cálice. De qualquer forma, esperava-se que os vivos se lembrassem dos mortos que haviam passado pela ponte para o outro lado e honrassem a memória deles.

Religião na Mesoamérica

A memória dos mortos e o papel que eles ainda desempenhavam na vida daqueles na terra era um componente importante de todas as religiões antigas, incluindo o sistema de crenças dos maias. Os deuses estavam envolvidos em todos os aspectos da vida dos maias. Assim como acontece com outras culturas, havia muitas divindades diferentes (mais de 250), todas com sua própria esfera especial de influência. Eles controlavam o tempo, a colheita, ditavam o cônjuge, guiavam cada nascimento e estavam presentes na morte.

A vida após a morte para os maias era semelhante à mesopotâmica, pois era um lugar escuro e sombrio, mas os maias imaginavam um destino ainda pior, onde se estava constantemente sob ameaça de ataque ou engano pelos senhores demônios que habitavam o submundo (conhecido como Xibalba ou Metnal). O pavor da viagem através de Xibalba era uma força cultural tão potente que os maias são a única cultura antiga conhecida por honrar uma deusa do suicídio (Ixtab), porque se pensava que os suicídios contornavam Xibalba e iam direto para o paraíso (assim como aqueles que morreram no parto ou em batalha). Os maias acreditavam na natureza cíclica da vida, que todas as coisas que parecem morrer são simplesmente transformadas, e consideravam a vida humana apenas mais uma parte do tipo de padrão que viam ao seu redor na natureza. Eles constataram que a morte era uma evolução natural após a vida e temiam a possibilidade muito antinatural de que os mortos pudessem voltar para assombrar os vivos.

Era possível que uma pessoa se mantivesse viva por uma série de razões (a principal era o sepultamento impróprio), e assim eram realizadas cerimônias para lembrar dos mortos e honrar seu espírito. Além dos Maias, esta crença foi mantida também por culturas mesoamericanas como os Astecas e os Tarascanos. Com o tempo, tornou-se o feriado conhecido hoje como o Dia dos Mortos (El Dia de Los Muertos), em que as pessoas celebram a vida daqueles que faleceram e recordam os seus nomes.

No entanto, não eram apenas as pessoas que deveriam ser lembradas e honradas, mas também uma divindade muito importante que os estudiosos chamam de Deus do Milho. O Deus do milho é uma imagem de Deus que morre e ressuscita na forma de Hun Hunahpu que foi morto pelos senhores de Xibalba, trazido de volta à vida por seus filhos, Os Gêmeos Heróis, e emergiu do submundo como milho. O Deus do Milho 'tonsurado' ou o Deus do Milho 'folheado' são imagens comuns encontradas na iconografia maia. Ele sempre é retratado como eternamente jovem e bonito, com uma cabeça alongada semelhante a uma espiga de milho, cabelos longos e esvoaçantes como seda de milho, e ornamentados com jade para simbolizar o caule de milho. Ele era considerado tão importante pelos maias, que as mães amarravam a cabeça de seus filhos pequenos para achatar a testa e alongar a cabeça, com o intuito de se assemelhar a ele.

O Deus do Milho continuou sendo uma divindade importante para os maias, mesmo quando ofuscado pelo maior e mais popular dos deuses, Gucumatz (também conhecido como Kukulcan e Quetzalcoatl), cuja grande pirâmide em Chichén Itzá atualmente ainda é visitada por milhões de pessoas todos os anos. Nos equinócios duplos de cada ano, o sol lança uma sombra sobre as escadas da estrutura da pirâmide, que assemelha-se a uma grande serpente descendo escada abaixo; pensa-se que este seja o grande Kukulkan que regressa dos céus à terra para dar as suas bênçãos. Ainda hoje as pessoas se reúnem em Chichén Itzá para testemunhar este evento nos equinócios, lembrando o passado e esperando pelo futuro.

Religião Grega e Romana

A importância da lembrar dos mortos, como parte da adoração religiosa, integrava as crenças dos gregos também. Lembrar dos mortos fazia com que os vivos mantivessem viva a alma do falecido na vida após a morte. Os gregos, assim como as outras culturas mencionadas, acreditavam em vários deuses que cuidavam de suas incumbências humanas mas, com a mesma frequência, buscavam seu próprio prazer.

A natureza instável dos deuses pode ter contribuído para o desenvolvimento da filosofia na Grécia, uma vez que a filosofia só pode desenvolver-se numa cultura em que a religião não satisfaz as necessidades espirituais das pessoas. Platão criticava constantemente o conceito grego dos deuses e Critias afirmou que eles apenas foram criados pelos homens para controlar outros homens. Xenófanes, como mencionado acima, afirmava que a visão grega era completamente errada e que Deus era inimaginável.

Ainda assim, para a maioria dos gregos – e de maneira geral para o funcionamento da sociedade – os deuses deveriam ser honrados, assim como aqueles que haviam passado para o seu domínio. O fato de uma pessoa não estar mais viva na Terra não significava que ela deveria ser esquecida, assim como ninguém se esqueceria de honrar os deuses invisíveis. Assim como acontecia com outras culturas antigas, a religião na Grécia estava totalmente inserida na vida diária e na rotina.

Os gregos consultavam os deuses em assuntos que iam desde assuntos de Estado até decisões pessoais amorosas, casamento ou trabalho. Uma história antiga conta como o escritor Xenofonte (430 a.C. 354 a.C.) foi a Sócrates perguntando se o filósofo achava que ele deveria se juntar ao exército de Ciro, o Jovem, em campanha para a Pérsia. Sócrates enviou-o para fazer a pergunta ao deus em Delfos. Em vez de fazer sua pergunta original, Xenofonte perguntou ao deus de Delfos qual dos muitos deuses era melhor cortejar favores, a fim de garantir um empreendimento bem-sucedido e um retorno seguro. Ele parece ter obtido a resposta correta, já que sobreviveu à desastrosa campanha de Ciro e, não só retornou a Atenas, mas salvou a maior parte do exército.

A religião de Roma seguiu o mesmo padrão da Grécia. A religião romana provavelmente começou como uma espécie de animismo e se desenvolveu à medida que entrava em contato com outras culturas. Os gregos impactaram significativamente a religião romana, e muitos dos deuses romanos são, simplesmente, divindades gregas com nomes romanos e características ligeiramente alteradas.

Em Roma, a adoração aos deuses estava intimamente ligada a assuntos de Estado, e acreditava-se que a estabilidade da sociedade dependia do grau de reverência que o povo tinha pelos deuses e da participação em rituais que os honravam. As Virgens Vestais são um exemplo famoso desta crença, em que contava-se com estas mulheres para manter os votos que tinham feito e desempenhar as suas funções de forma responsável, a fim de honrar continuamente Vesta e tudo o que ela dava ao povo.

Embora os romanos tivessem importado seus principais deuses da Grécia, uma vez que a religião romana estava estabelecida e ligada ao bem-estar do Estado, nenhum deus estrangeiro era bem-vindo. Quando a adoração da popular deusa egípcia Ísis foi trazida para Roma, o imperador Augusto proibiu a construção de templos em sua homenagem, além de rituais públicos observados em sua adoração, porque ele achava que tal atenção dada a uma divindade estrangeira minaria a autoridade do governo e estabeleceria crenças religiosas. Para os romanos, os deuses tinham criado tudo de acordo com a sua vontade e mantido o universo da melhor maneira possível e o ser humano era obrigado a mostrar-lhes honra pelas suas bênçãos.

Isso era verdade não apenas para os 'principais' deuses do panteão romano, mas também para os espíritos do lar. O penates eram espíritos terrenos da despensa que mantinham a casa segura e harmoniosa. Esperava-se que as pessoas fossem gratas por seus esforços e se lembrassem deles ao entrar ou sair de casa. As estátuas dos penates eram retiradas do armário e colocadas sobre a mesa para serem honrados durante as refeições, e sacrifícios eram deixados junto à lareira para seu deleite. Se alguém fosse diligente em apreciar seus esforços, seria recompensado com saúde e felicidade constantes mas, se os esquecesse, sofreria por tal ingratidão. Embora as religiões de outras culturas não tivessem precisamente esses mesmos tipos de espíritos, a identificação dos espíritos locais – e especialmente os do lar – era comum.

Temas frequentes na religião antiga e sua continuidade

Embora as culturas possam nunca ter tido contato entre si, as religiões do mundo antigo compartilhavam muitos dos mesmos padrões umas com as outras. A iconografia espiritual das pirâmides maias e egípcias foi identificada desde que os maias foram trazidos pela primeira vez à atenção do mundo por John Lloyd Stephens e Frederick Catherwood no século XIX, mas a verdadeira estrutura das crenças, histórias e imagens mais significativas na mitologia antiga são consideravelmente semelhantes de cultura para cultura.

Em todas as culturas, encontram-se padrões iguais ou muito semelhantes, que as pessoas acharam importantes e que deram vitalidade às suas crenças. Esses padrões incluem a existência de muitos deuses que se interessam pessoalmente pela vida das pessoas; criação por uma entidade sobrenatural que fala, modela ou ordena a existência; outros seres sobrenaturais que emanam do primeiro e maior; uma explicação sobrenatural para a criação da terra e dos seres humanos; uma relação entre os humanos criados e seu deus criador exigindo adoração e sacrifício.

Existe ainda a repetição da imagem conhecida como deus que morre e ressuscita, muitas vezes uma entidade poderosa que é morta, ou morre, e volta à vida para o bem do seu povo: Osíris no Egito, Krishna na Índia, o deus do milho na Mesoamérica, Baco em Roma, Átis na Grécia, Tamuz na Mesopotâmia. Muitas vezes há uma vida após a morte semelhante a uma existência terrena (Egito e Grécia), contrária à vida na terra (Mesoamérica e Mesopotâmia), ou uma combinação de ambos (China e Índia).

A importante mensagem espiritual dessas diferentes religiões é repetida em textos da Fenícia (2700 a.C.), à Suméria (2100 a.C.), à Palestina (1440 a.C.), à Grécia (800 a.C.), à Roma (c. 100 d.C.) e passou a influenciar as crenças daqueles que vieram depois. Este tema é até abordado no judaísmo na figura de José (Gênesis 37, 39-45), que é vendido por seus irmãos como escravo no Egito, vai para a prisão após as acusações da esposa de Potifar e, mais tarde, é libertado e restaurado. Embora não morra literalmente, salva o país da fome após a sua simbólica 'ressurreição', sustentando o povo da mesma forma que outras figuras regenerativas.

O conto Fenício do grande deus Baal que morre e retorna à vida para combater o caos do deus Yamm já era antigo em 2750 a.C., quando a cidade de Tiro foi fundada (de acordo com Heródoto) e a história grega do deus que morre e ressuscita, Adonis (c. 600 a.C.), era derivada de contos fenícios anteriores baseados em Tamuz, que foi emprestado pelos sumérios (e mais tarde pelos persas) no famoso mito Descida de Inanna.

Este tema da vida após a morte e da vida proveniente da morte e, claro, do julgamento após a morte, ganhou grande fama através dos esforços evangelizadores do Apóstolo Paulo, que espalhou a palavra de Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou, por toda a antiga Palestina, Ásia Menor, Grécia e Roma (c. 42-62). A visão de Paulo sobre a figura de Jesus, o filho ungido de Deus que morre para redimir a humanidade, foi inspirada nos sistemas de crenças anteriores e influenciou a compreensão dos escribas que escreveriam os livros que compõem a Bíblia.

A religião do Cristianismo padronizou a crença na vida após a morte e estabeleceu um conjunto organizado de rituais, pelos quais um adepto poderia ganhar a vida eterna. Ao fazer isso, os primeiros cristãos estavam simplesmente seguindo os passos dos sumérios, dos egípcios, dos fenícios, dos gregos e dos romanos, sendo que todos tinham seus próprios rituais moldados para a adoração de seus deuses.

Depois dos cristãos, os estudiosos muçulmanos do Alcorão instituíram seus próprios rituais para compreender a divindade suprema que, embora muito diferente em forma dos do cristianismo, judaísmo ou qualquer uma das religiões 'pagãs' mais antigas, serviam ao mesmo propósito que os rituais outrora praticados na adoração do panteão egípcio, há mais de 5.000 anos: proporcionar aos seres humanos a compreensão de que não estão sozinhos em suas lutas, sofrimentos e triunfos, que podem controlar seus impulsos mais primitivos e que a morte não é o fim da existência. As religiões do mundo antigo forneciam respostas às perguntas das pessoas sobre a vida e a morte e, nesse aspecto, não são diferentes das religiões praticadas no mundo atual.

sábado, 24 de outubro de 2026

Popol Vuh

 

O Popol Vuh é a história da criação conforme os maias quiché da região conhecida hoje como Guatemala. Traduzido como “O Livro do Conselho”, “O Livro do Povo” ou, literalmente, “O Livro da Esteira”, a obra costuma ser mencionada como “A Bíblia Maia”, ainda que se trate de uma comparação imprecisa. O Popol Vuh não é considerado pelos maias como a “palavra de Deus” nem uma escritura sagrada, mas sim um relato do “mundo antigo” e do entendimento dos quiché sobre a cosmologia e criação antes da chegada do cristianismo. Os quiché referiam-se ao livro como um Ilb'al – um instrumento de visão – e ficou conhecido como “O Livro da Esteira” por causa das esteiras tecidas nas quais o povo se sentava para ouvir a recitação da obra na casa do conselho. Um edifício deste tipo, em Copán, apresenta linteis de pedra “tecidos” para se assemelhar a material de revestimento.

No início do Livro I, o autor desconhecido declara:

"Este é o início do mundo antigo, aqui neste local chamado Quiché. Aqui devemos inscrever, devemos implantar o Mundo Antigo, o potencial e fonte de tudo feito na cidadela de Quiché, na nação do povo quiché […] Devemos escrever sobre isso em meio às pregações de Deus, na Cristandade de agora. Devemos divulgar isso porque não há mais um lugar para vê-lo, o Livro do Conselho, um lugar para ver “A Luz que veio além do Mar”, o relato de “Nosso Lugar nas Sombras”, um lugar para ver “O Nascimento da Vida”, como é chamado.

Com respeito a estas frases descrevendo o Popol Vuh, o maianista Dennis Tedlock afirma:

"Porque eles obtiveram o livro (ou alguma parte dele) numa peregrinação que os levou das terras altas à costa do Atlântico, o chamaram de "A Luz que veio além do Mar"; porque a obra contava eventos que aconteceram antes do primeiro amanhecer verdadeiro, num tempo em que seus ancestrais escondiam-se e as pedras que continham os espíritos familiares de seus deuses nas florestas, a chamaram também de "Nosso Lugar nas Sombras". E porque contava a ascensão da estrela da manhã, do sol e da lua e previa o surgimento e esplendor radiante dos senhores quiché, o chamaram "O Amanhecer da Vida".

A obra reconta a Criação, as explorações dos heróis gêmeos Hunahpu e Xbalanque no submundo e seu triunfo sobre os Senhores da Morte, a criação dos humanos e a história inicial da migração quiché e de seus assentamentos até a Conquista Espanhola, no século XVI. O bispo espanhol Diego de Landa queimou todos os livros dos maias de Yucatán que pôde encontrar em 12 de julho de 1562, na cidade de Mani mas, como não tinha jurisdição sobre a região meridional dos quiché, o Popol Vuh acabou sendo poupado. Ainda assim, a obra parece indicar que as práticas da religião indígena foram reprimidas na terra Quiché, como nos demais lugares, e que o autor anônimo sentiu a necessidade de colocar por escrito os mitos de seu povo antes que fossem perdidos.

Origem e História

O Popol Vuh foi provavelmente escrito por volta de 1554-1558, num período em que se tornou bastante claro que as práticas e crenças antigas dos maias não seriam mais toleradas pelos conquistadores cristãos. Dennis Tedlock estabeleceu esta data baseado na evidência textual encontrada no final da obra, na qual o autor detalha migrações, genealogias e assentamentos. Chamou a atenção de um padre espanhol logo no início do século XVIII. Tedlock escreve:

"Entre 1701 e 1703, um frade chamado Francisco Ximenez deu uma olhada no manuscrito enquanto servia como padre da paróquia. Ele fez a única cópia sobrevivente do texto quiché do Popol Vuh e adicionou uma tradução em espanhol. Seu trabalho permaneceu em posse da ordem Dominicana até a Independência da Guatemala mas, quando reformas liberais levaram ao fechamento de todos os mosteiros, em 1830, foi adquirido pela biblioteca da Universidade de San Carlos, na Cidade da Guatemala. Carl Scherzer, um físico austríaco, deparou-se com o texto na instituição em 1854, e Charles Etienne Brasseur de Bourbourg, um padre francês, teve a mesma sorte poucos meses depois. Em 1857, Scherzer publicou a tradução espanhola de Ximenez em Viena, sob o patrocínio dos Habsburgos, membros da mesma linhagem real que havia governado a Espanha na época da conquista do reino Quiché. Em 1861, Brasseur publicou o texto quiché e uma tradução francesa em Paris. O próprio manuscrito, que Brasseur levou clandestinamente para fora da Guatemala, eventualmente encontrou seu rumo de volta através do Atlântico, proveniente de Paris, passando a fazer parte da Biblioteca Newberry em 1911 (27).

O manuscrito, atualmente dividido em quatro livros, originalmente não continha divisões, numa narrativa contínua registrada a partir da tradição oral. A própria obra, porém, menciona um “livro original e escritos antigos”, sugerindo que o autor do Popol Vuh trabalhou a partir de uma fonte escrita anterior. O autor também declara que estes trabalhos anteriores estão em posse de alguém que “tem uma identidade oculta”, indicando que as obras religiosas dos maias precisavam ser escondidas dos cristãos que poderiam destruí-las, assim como fez de Landa em Mani, em 1562. De Landa registrou a queima de mais de quarenta livros e escreveu: “Encontramos um grande número de livros e, como não continham nada além de superstições e mentiras do demônio, nós os queimamos, o que [os maias] lamentaram de forma impressionante, causando-lhes grande aflição” (Christenson, 11). Os maias tinham confiado em de Landa, mostrando-lhe voluntariamente seus livros; uma honra não concedida a todos os missionários cristãos. Ele queimou mais de quarenta obras maias e milhares de estátuas e pinturas numa única noite. Somente quatro obras dos maias yucatán sobrevivem nos dias atuais (os códices de Dresden, Madri e Paris, assim chamados por causa das cidades para onde foram levados, e o Chilam Balam) e somente um dos quiché: o Popol Vuh.

A Estrutura do Popol Vuh

A obra se divide num breve preâmbulo e quatro livros. O preâmbulo declara a intenção do autor de escrever a obra, estabelece sua época como pós-conquista e insiste que a obra original "leva um longo desempenho e relato para completar a luz de todo o céu da terra" (63). Isso sugeriu a alguns estudiosos que a obra original seria muito mais longa que o atual Popol Vuh mas, para outros, simplesmente significa que deveria levar tempo para ouvi-la e apreciá-la devidamente. O manuscrito existente não parece conter lacunas na narrativa mas, desde que não há registro da obra anterior - e nenhuma evidência além da linha do preâmbulo aludindo a ela, além de outra no final - não há meio de saber o que o autor pode ter deixado de fora ou se realmente isso ocorreu. O maianista Allen J. Christenson, que traduziu o livro, o considera completo e o último remanescente das obras do povo pré-colombiano maia quiché.

Christenson cita Bartolomeu de Las Casas, missionário espanhol do século XVI que fazia parte da minoria de religiosos solidários que lamentava a destruição dos livros maias. Las Casas viu várias obras dos quiché maias em 1540. Christenson escreve:

"Ele relatou que elas continham a história das origens e crenças religiosas do povo, escritas com “figuras e caracteres os quais podiam significar tudo o que desejavam; e que estes grandes livros são de tal sagacidade e técnicas sutis que diríamos que nossa escrita não oferece muita vantagem”. Las Casas ficou particularmente impressionado pelo fato de que os maias tinham condições de redigir “tudo o que desejavam”. De fato, os maias eram o único povo no Novo Mundo que dispunha de um sistema de escrita com esta capacidade na época da Conquista Espanhola.

Todos estes livros que, na época de Las Casas, foram cuidadosamente escondidos dos missionários cristãos e suas fogueiras, acabaram eventualmente descobertos e destruídos por eles. Se algum deles ainda existe, está por ser descoberto.

A obra consistia originalmente num poema único e longo. Sua divisão em capítulos separados ocorreu após a tradução para os idiomas europeus. A intenção do autor original parece ter sido preservar a experiência de ouvir a recitação do poema e, através das artes mágicas do contador de histórias, dar vida aos eventos pessoalmente, à medida que o relato se desenrola. Esta prática está de acordo com as tradições orais de outras culturas antigas, tais como as da Grécia e Mesopotâmia, entre outras. Christenson observa:

"O Popol Vuh está escrito no presente contínuo, sugerindo que o narrador vê diante de si o que escreve. Isso é consistente com a maneira pela qual as histórias são contadas em domicílios quiché contemporâneos. O contador de histórias convida o ouvinte a imaginar o ambiente do conto, e quase sempre relata a história como se estivesse acontecendo diante deles, mesmo se tivesse ocorrido no passado distante ou mítico.

Os quatro livros contam a história da criação da vida, as tentativas dos deuses de criar os seres humanos, o triunfo sobre a morte dos heróis gêmeos celestiais, o sucesso na criação dos humanos pelos deuses e as genealogias do povo de Quiché. Robert J. Sharer, da Universidade da Pensilvânia, afirma que “O mundo dos antigos maias era governado por uma ordem cosmológica que transcendia nossa distinção entre os reinos natural e sobrenatural. Todas as coisas, animadas ou inanimadas, estavam imbuídas de um poder invisível” (Stuart, 47) e o Popol Vuh desenvolve completamente esta visão.

Livro I

O primeiro livro começa:

"Este é o Relato, aqui está: Tudo ainda em suspenso, ainda silente. Tudo sereno, ainda em sossego. Tudo em silêncio, vazio também o ventre do céu. [...] Ainda não existia nenhum homem, bicho, pássaro, peixe, caranguejo, árvore, pedra, gruta, desfiladeiro, prado ou floresta. Só existia o céu; a face da terra não se manifestara ainda. Sob todo o céu, só havia o mar liso - não havia nada reunido.

Deste espaço vazio e silencioso, os deuses criaram o mundo e todas as coisas vivas, com exceção dos humanos. Os animais não podiam falar ou venerar seus deuses, porém, e então os deuses declararam: “precisamos fazer um provedor e nutridor. Como poderemos ser invocados e lembrados na face da terra?” Eles tentaram criar seres humanos, mas falharam, pois as criaturas “não tinham coração” e não se lembravam de seus criadores. Eles tentaram novamente, desta vez fazendo pessoas de madeira, mas isso também falhou e as criaturas foram destruídas por um grande dilúvio. Aquelas que se salvaram da enchente acabaram sendo atacadas por seus cães, pelas suas panelas de cozinha e pedras de moer tortilhas, por todas as coisas da terra que haviam maltratado e abusado. Os deuses, finalmente, são deixados sozinhos para glorificar a si mesmos; isso leva à ascensão da divindade Sete Arara, que se considera importante demais.

Livro II

Na abertura do segundo livro, dois garotos celestiais, chamados Hunahpu e Xbalanque (os Heróis Gêmeos) planejam a destruição de Sete Arara e seus dois filhos, Zipacna e Cabracan. Ainda não há humanos na terra e os os garotos estão descontentes que Sete Arara possa governar sobre tudo, sem ninguém para desafiá-lo ou apontar suas falhas. Parece que, sem seres humanos para dar aos deuses a importância devida, qualquer deus podia alegar a importância que preferisse. Sete Arara recusava-se a reconhecer os outros deuses ou suas obras e assim, através de uma série de truques e artimanhas inteligentes, os Heróis Gêmeos o matam, assim como seus filhos, desta forma restaurando a ordem e o equilíbrio do mundo.

Livro III

O terceiro livro narra as aventuras do pai e do tio dos Heróis Gêmeos, Hun-Hunahpu e Vucub Hunahpu, filhos de Xpiyacoc e Xmucane, os primeiros adivinhadores que tentaram criar humanos. Eles são, portanto, relacionados à criação e adivinhação. Enganados pelos Senhores da Morte para aceitar um convite para um jogo de bola em Xibalba, os dois são assassinados e a cabeça de Huh-Hunahpu é colocada numa cabaceira no submundo. A princesa virgem Xquiq (também conhecida como Deusa da Lua Sangrenta) fica atraída pela cabeça, mesmo que tenha sido advertida para não se aproximar dela. Quando ela chega perto da árvore, a cabeça cuspe na mão da moça, engravidando-a. A princesa então deixa o submundo e vai para o reino superior da terra, para viver com sua nova sogra, Xumucane. Por causa da tragédia que sobreveio aos filhos, Xumucane desconfia de Xquiq e cria várias tarefas para que prove seu valor. Quando os gêmeos nascem, ela também desconfia deles, que precisam mostrar que são valorosos. Xumucane esconde todos os equipamentos do jogo de bola dos filhos, porque não quer que seus netos saibam o que aconteceu com seu pai e tio e tentem vingá-los. Os gêmeos encontram os equipamentos, porém, e desafiam os Senhores da Morte para uma nova partida. Após numerosas aventuras no submundo, nas quais eles enganam os Senhores de Xibalba repetidamente, os Heróis Gêmeos os destroem e sobem pela Árvore do Mundo para o céu, onde se tornam o céu e a lua.

Livro IV

No Livro IV os seres humanos são criados com sucesso a partir do milho. Inicialmente, os deuses fazem quatro homens que:

[...] eram boas pessoas, bonitas, com aparência de seres do gênero masculino. Pensamentos passaram a existir e eles olharam; sua visão veio toda de uma vez. Perfeitamente eles viram, perfeitamente eles sabiam tudo abaixo do céu, em torno do céu, na terra, tudo podia ser visto sem obstruções [...] À medida que eles observavam, seu conhecimento tornou-se cada vez mais intenso. Seu olhar passou através de árvores, rochas, lagos, mares, montanhas, planícies.

Isso perturbou os deuses, que compreenderam que os humanos não deveriam ter os mesmos dons que seus criadores. Eles conferenciaram entre si, dizendo “Não são eles meramente ‘obras’ ou ‘projetos’ em seus próprios nomes? Ainda assim eles se tornarão tão grandes quando os deuses a não ser que procriem, proliferem na semeadura, no amanhecer, a não ser que seu número aumente. Que seja desta forma: agora nós os rebaixaremos apenas um pouco.” Os deuses introduzem a mortalidade para a humanidade e:

[...] mudaram a natureza de suas obras, seus projetos, foi suficiente que os olhos fossem borrados. Foram cegados como a face de um espelho quando se respira sobre ela. Sua visão vacilava. Agora apenas de muito perto eles podiam ver o que havia ao redor com qualquer tipo de clareza. E assim perderam-se os meios de compreensão, junto com os meios de se conhecer tudo ao seu redor.

Os deuses então forneceram aos homens as esposas e "imediatamente eles estavam felizes em seus corações novamente, por causa de suas esposas", e eles esqueceram que já tinham conhecido tudo ao seu redor e assemelhavam-se aos deuses. Os homens e mulheres contentaram-se em ter filhos e cultivar a terra, apreciando os dons que os deuses haviam lhes concedido. O livro conclui com a história da migração dos quiché e sua genealogia. Incluída nesta seção está a introdução do deus Gucumatz, a serpente emplumada, conhecido pelos maias do Yucatán como Kukulcan e pelos astecas como Quetzalcoatl. O livro IV termina com as linhas seguintes:

"Aqui está, pois, a essência dos quiché, porque já não há onde vê-la. Há o livro original e os escritos antigos pertencentes aos senhores, agora perdidos, mas, mesmo assim, tudo se completou com referência a Quiché, que agora se chama Santa Cruz.