domingo, 1 de novembro de 2026

Cursos • Narrativas míticas comparadas: de Jesus a Deus • Como ler o Novo Testamento • Jesus Histórico • Império Romano



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andrechevitarese
Chevitarese | Historiador

Professor Titular do Instituto de História da UFRJ
Pense fora da caixinha religiosa

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• Narrativas míticas comparadas: de Jesus a Deus
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Jesus no Cinema - André Leonardo Chevitarese

 

Jesus no Cinema

R$ 47,50 Preço normal

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No primeiro volume da trilogia Jesus no Cinema, o historiador André Leonardo Chevitarese vai mostrar que os primeiros trinta anos do cinema são responsáveis por fazer de Jesus um popstar. E mais, apesar do enorme sucesso de público, não é possível ver nestas narrativas fílmicas sobre o Nazareno algo que possa se chamar de narrativa histórica.

 

Livro CRISTIANISMOS NO IMPÉRIO ROMANO

R$ 165,00 Preço normal
R$ 150,00Preço promocional

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Organizadores: André Leonardo Chevitarese e Gilvan Ventura da Silva.


Este livro nasceu inicialmente de uma necessidade urgente, qual seja: a ausência de formação entre aquelas pessoas que se interessam pelo campo dos paleocristianismos (séculos I-IV). Elas são capazes de falar sobre os antigos textos cristãos, sem nunca os contextualizarem, sem nunca os relacionarem com aquela realidade histórica que os havia produzido, isto é, o Império Romano.

O livro, que traz uma apresentação do Professor Pedro Paulo Abreu Funari, está organizado em quatro grandes partes, com cada uma delas subdivididas em diferentes capítulos:

I. O Império Romano descobre o Cristianismo.

1.1. Percepções não-Cristãs acerca do Cristianismo no século I: Flavio Josefo.

André Leonardo Chevitarese

1.2. Percepções não-Cristãs acerca do Cristianismo no século II: Plínio, o Jovem, Tácito e Suetônio.

André Leonardo Chevitarese e Daniel Brasil Justi

1.3. Percepções não-Cristãs acerca do Cristianismo nos séculos III e IV.

Belchior Monteiro Lima Neto

II. Política e Religião no Império Romano.

2.1. As Múltiplas Expressões do Culto Imperial no Período Júlio-Claudiano. Formas de Disseminação e Resistência.

Thiago Eustáquio Araújo Mota

2.2. O Cristianismo e o Culto Imperial (séculos I-III).

Hariadne da Penha Soares

2.3. O Cristianismo vai ao Paraíso. A Atuação Pró-Cristã de Constantino, Teodósio e Sucessores (séculos IV-V).

João Carlos Furlani

III. O que Ensinam os Mapas sobre o Império Romano.

3.1. O Império Romano, um Império de Cidades.

Esdra Erlacher

3.2. O Sistema Administrativo Provincial sob o Principado.

Guilherme de Aquino Silva e Edjalma Nepomoceno Pina

3.3. O que a Geografia é Capaz de nos Dizer sobre a Difusão do Cristianismo no Império Romano (séculos I-IV)?

Larissa Rodrigues Sathler

IV. Experiências Cotidianas no Império Romano.

4.1. De Re Militare: a Infantaria, a Cavalaria, a Marinha e as Tropas Auxiliares Romanas (século I a.C.-V d.C.).

Érica Cristhyane Morais da Silva

4.2. Da Igualdade Sonhada à Desigualdade Vivida: Diversidade Social, Patronato e Poder nos Primeiros Tempos do Cristianismo.

Gilvan Ventura da Silva
Postagem nos Correios até 5 dias úteis. Os Correios levam em média 10 dias para entregar o livro até você, mas costumam ser inconsistentes nos prazos — o atraso pode chegar a três dias além do previsto.​​​​​​​​​​​​​​​​

Público alvo:

Professores e Estudantes de História, Teologia, Ciências da Religião e Filosofia, bem como uma extensa gama de pessoas interessadas em ler e se aprofundar na estreita relação entre as antigas experiências cristãs e o Império Romano.

O que interessa e une os organizadores deste livro é a disseminação do conhecimento científico, não apenas para aqueles que frequentam o ambiente acadêmico, como também para aqueles que estão muito além dos muros das universidades.

Jesus de Nazaré. O que a História tem a dizer sobre ele. Autor: André Leonardo Chevitarese


Jesus de Nazaré. O que a História tem a dizer sobre ele.

R$ 119,00 Preço normal
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ou 5x de R$19.04 sem juros


Seu livro será postado e após, o envio pelos Correios costuma levar até 7 dias úteis. Acompanhe pelo código de rastreamento — atrasos podem acontecer, mas geralmente é só uma questão de dias.

Autor: André Leonardo Chevitarese

Este é um daqueles casos raros de um trabalho sobre Jesus que não foi escrito por um religioso, muito menos teve a intenção de ser confessional. Este livro também não foi pensado como uma biografia de Jesus de Nazaré, na medida em que, devido à natureza da documentação, teria sido impossível escrevê-la.

Ele é um livro de História, escrito por um historiador que pesquisa os paleocristianismos há mais de duas décadas, e que se interessa por pensar um diálogo transdisciplinar com Arqueologia, Antropologia e Sociologia.

O livro se assenta em cinco grandes eixos:

(i) que retrato de Nazaré do século I emerge dos atuais dados arqueológicos;

(ii) como entender as relações entre João Batista e Jesus de Nazaré e os seus desdobramentos ao longo do século I;

(iii) o que viria a ser o reino de Deus que Jesus creu ter instaurado;

(iv) o que poderia ter vindo de Jesus de Nazaré ou o que Jesus disse;

e (v) como um homem bom (Jesus) conheceu a morte de um homem mau, ou como se deu a construção da teologia da cruz.

Apesar de ser um livro acadêmico, alguns cuidados foram tomados: a linguagem do livro é direta, de fácil compreensão; evitou-se notas de rodapé; no corpo do texto são citadas apenas as referências dos documentos; encontra-se no final do livro uma excelente bibliografia, de modo que o leitor possa, caso queira, aprofundar seus conhecimentos.

Homens e animais possuem espíritos iguais?

 

A discussão sobre a alma vem ganhando maior atenção nos últimos anos. Principalmente depois que o aniquilacionismo foi adotado como doutrina oficial de alguns grupos cristãos, entre eles, os adventistas.

Nesta discussão, o livro de Eclesiastes se torna uma importante ferramenta para aniquilacionistas defenderem a doutrina do sono da alma. Um dos motivos, é o versículo 3:19 deste livro:

Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. (Ec 3:19)

Por que este versículo é tão importante? Samuelle Bacchiocchi, teólogo adventista, explica isto:

É evidente de textos como estes que possuir o fôlego ou o espírito de vida não significa ter uma alma imortal. O fôlego de vida é simplesmente o dom de vida dado aos seres humanos e animais pela duração de sua existência terrena. O espírito ou fôlego de vida que retorna para Deus por ocasião da morte é simplesmente o princípio de vida concedido por Deus tanto para os seres humanos quanto para os animais. Este ponto é claramente exposto em Eclesiastes 3:19: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, sucede aos animais; o mesmo lhes sucede; como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida [ruach], e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais”. Os que alegam que os animais não possuem o espírito [ruach] de vida, mas somente o fôlego [neshamah] de vida ignoram o que tanto Eclesiastes 3:21 quanto Gênesis 7:15, 22 claramente expressam que os animais possuem o mesmo espírito-ruach de vida concedido aos seres humanos.
“Imortalidade ou Ressurreição? – Samuele Bacchiocchi”

Assim, o fato de Salomão ter colocado o espírito humano e animal no mesmo patamar, indicaria que este se trata apenas do “dom da vida”. Mas é verdade que este fôlego é colocado no mesmo patamar? Para responder esta pergunta, vamos analisar o livro e o contexto do versículo.

A visão materialista de Eclesiastes

A temática de Eclesiastes é a vaidade das coisas terrenas e a inutilidade dos esforços humanos, conforme encontramos nos primeiros versos do livro:

Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? (Ec 1:2-3)

Muitos entendem que a temática do livro está focada nas coisas terrenas, pelo amplo uso da expressão “debaixo do sol”, como foi feito nos versículos acima, como mencionado no comentário Jamieson, Fausset e Brown: “debaixo do sol: ou seja, nesta vida, em oposição à vida futura. A frase sempre ocorre, mas somente em Eclesiastes”. O comentário Keil e Delitzsch diz: “‘Debaixo do Sol’ é a designação da terra peculiar a este livro, – o mundo do homem, que estamos acostumados a chamar de mundo sublunar”. Se não houvesse o emprego da expressão, poder-se-ia entender que “tudo é vaidade” aplica-se também às coisas celestiais, o que seria inconsistente com o próprio sentimento que o autor demonstra depois, em respeito a Deus (Ec 2:6, Ec 3:13, Ec 5:1-7, Ec 5:19,20, Ec 12:13).

Tudo é vaidade, e Salomão usa isto para defender que a vida terrena não traz verdadeira alegria, se não temos em vista Deus e suas obras. Salomão conclui depois de sua análise da vida debaixo do sol:

De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem. (Ec 12:13)

É o temor a Deus que Salomão enfatiza, e para isto ele demonstra como são vãs as obras terrenas dos homens. “Vaidades” é usada 37 vezes neste livro, para expressar esta ideia. Devemos, portanto, ter em mente que muito do que é dito em Eclesiastes está limitado ao materialismo, para que a mensagem do autor tenha um significado válido. Com isto em mente, vamos analisar o capítulo 3 de Eclesiastes.

A ignorância humana

O capítulo 3 de Eclesiastes é iniciado com uma discussão sobre o tempo. Salomão arrazoa que há tempo para tudo: tempo de nascer, morrer, plantar, colher… Salomão em sua descrição do tempo, sempre coloca um exemplo juntamente com seu oposto, para mostrar que realmente tudo tem seu tempo.

Salomão então interrompe sua descrição do tempo. É neste momento que Salomão declara a ignorância humana, ao dizer:

(Ec 3:11 – Almeida Corrigida Fiel) Tudo fez formoso em seu tempo; também pós o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim.

(Ec 3:11 – Almeida Atualizada) Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs na mente do homem a ideia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim.

Apesar das traduções serem diferentes quanto ao sentido da palavra ‘olâm neste versículo, em uma coisa eles concordam: o homem desconhece as obras de Deus. Esta não será a única vez que Salomão declarará que o homem desconhece algo (Ec 7:14, Ec 8:17, Ec 9:1, Ec 11:5).

Mas qual a relação do desconhecimento com as declarações sobre o tempo que iniciaram o capítulo? É neste momento que Salomão estabelece esta ligação.

Ele primeiro declara que só tem visto injustiça e iniquidade no mundo. Não havia paz, não havia amor… Para Salomão, estava claro que estamos vivendo, desde os tempos dele e tempos anteriores, do tempo da iniquidade. E como no início do capítulo, Salomão diz que há tempo para tudo. Se agora é tempo de iniquidade, então é de se esperar que haja um tempo de justiça. Então, Salomão conclui:

(Ec 3:17) Eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio; porque há um tempo para todo o propósito e para toda a obra.

Sim, haverá um julgamento. E é exatamente por que o homem ignora isto, é existe esta iniquidade também. O homem poderia usar suas vãs obras para fazerem o bem. Se o homem conhecesse as obras de Deus, ele certamente faria o bem. Mas ele desconhece. E é por isto que Salomão diz que Deus o prova. A palavra para provar é bârar, que indica uma separação, uma manifestação. Deus vai manifestar “quanto à condição dos filhos dos homens”, o que eles são. E o que eles seriam? Não é por acaso que Salomão diz que Deus vai mostrar que eles são como animais. A Bíblia faz comparações entre os seres humanos e animais, e ressaltando nestas comparações, a ignorância:

(Sl 32:9) Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio para que não se cheguem a ti.

(Sl 49:12) Todavia o homem que está em honra não permanece; antes é como os animais, que perecem….

(Sl 49:20) O homem que está em honra, e não tem entendimento, é semelhante aos animais, que perecem.

(2Pe 2:12) Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção,

(Jd 1:10) Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem.

Quão oportuno mais esta comparação aqui. Salomão falando sobre a ignorância humana, mais uma vez retoma uma figura de linguagem comum na época. Agora que está demonstrado o quê Deus quer mostrar para o homem, deve-se aqui identificar, como Ele faz isto.

Nota-se que é a igualdade com os animais que faria esta ignorância humana ficar clara. Todos morrem, todos tem o mesmo espírito. Esta demonstração de Deus, portanto, não será uma demonstração futura. A igualdade existe hoje, portanto esta demonstração deve existir hoje também.

E como aconteceria esta demonstração? Vimos que é a ignorância humana que o faz não se preocupar com o julgamento. À medida que se torna mais ignorante sobre este assunto, ele passa a adotar para si, as mesmas condições que ele adotaria para um animal. Tanto ele como o animal não serão julgados, esta é a visão dele.

Da mesma forma, a morte passa a ser para ele, algo que o iguala ao animal. Pois o que ele vê é que da mesma forma que ele morre, o animal morre. Para ele não há diferenças. Para aquele que não entende as obras de Deus, sua morte é igual à morte do animal. Ele conclui que não possui nenhuma vantagem sobre os animais, como Salomão mesmo diz. E é através desta igualdade vista pelo homem sem entendimento, que Deus demonstra para ele que ele não sabe nada das obras de Deus.

E é por isto que Salomão pergunta depois de tudo:

(Ec 3:21) Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?

Ninguém sabe disto. É por isto mesmo que se encaram como animais, e em consequência disto, fica claro para eles que eles não possuem entendimento sobre as coisas celestiais. O que eles entendem está restrito apenas aos fatos que acontecem debaixo do sol.

E nesta visão de incredulidade, é que Salomão termina o capítulo, dizendo:

(Ec 3:22) Assim que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?

Como disse Paulo, se Cristo não ressuscitou, comamos e bebamos que amanhã morreremos. A máxima do epicurismo se torna realidade aqui.

O problema aniquilacionista

Qual o problema da visão aniquilacionista, quando entendemos o que está sendo dito por Salomão? A questão é clara: o aniquilacionista declara como válida e verdadeira, a visão do homem que não entende as obras de Deus. O aniquilacionista abraça a falta de entendimento, e a comemora como algo válido. Ironicamente, o aniquilacionista se declara como o animal, e acaba sendo provado por Deus que ele não tem entendimento.

A própria pergunta de Eclesiastes 3:21 já deveria mostrar para o leitor da Bíblia que existe uma diferença entre o ser humano e o animal. Não só isto: o próprio julgamento mostrado por Salomão deveria mostrar isto. Mas vamos observar de novo o versículo 21:

(Ec 3:21) Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra?

A própria diferenciação que Salomão faz dos destinos de animal e homem já mostra uma diferença. O fôlego do homem vai para cima, e o dos animais vai para baixo da terra. Já mencionei esta diferenciação para aniquilacionistas, e fui criticado, inclusive ridicularizado por isto. No entanto, gostaria de mostrar a opinião de alguns estudiosos da Bíblia sobre o assunto, estudiosos respeitados.

A versão King James deste verso é a única que traduz, como agora apontado, conforme permite o texto hebraico. Está de acordo com os melhores intérpretes judeus e modernos. Uma pequena diferença de pontuação seria requerida para traduzir, “Quem sabe se o espírito dos filhos do homem vai para cima, e, se o espírito do animal vai para baixo?” etc., o qual não parece nem necessário nem apropriado, é sancionado pela Septuaginta e outras versões e por alguns intérpretes modernos.

Quem sabe – Esta expressão (usada também em Ec 2:19; Ec 6:12) não implica necessariamente em completa e absoluta ignorância. Em Sl 90:11, ela é aplicada para o que é parcialmente entendido: compare formas similares da expressão em Pv 31:10; Sl 94:16; Is 53:1. Além disto, é evidente de referências marginais que Salomão não duvidava da futura existência e destino da alma. Este verso só pode ser construído como uma confissão da grande ignorância no assunto.
“Albert Barnes”

A palavra רוח ruach, que é usada neste e no décimo nono versículo, tem duas significações, fôlego e espírito. Ela significa espírito, ou substância incorpórea, em distinção à carne, ou à uma substância corpórea, 1 Re 22:21, 1Re 22:22 e Is 31:3. E ela significa o espírito ou alma do homem, Sl 31:6; Is 57:16, e neste livro, Ec 12:7, e em muitos outros lugares. Neste livro é usado também para significar fôlego, espírito, ou alma de um animal. Enquanto se diz no versículo 19, que eles todos possuem um mesmo fôlego, ou seja, o homem e o animal vivem o mesmo tipo de vida animal; neste verso, uma apropriada distinção é feita entre o רוח ruach, ou alma humana, e o רוח ou alma animal: o primeiro vai para cima, o outro vai para baixo. A tradução literal destas importantes palavras é esta: “Quem considera que o רוח ruach, o espírito imortal dos filhos de Adão, que sobe? Ele é de cima (היא למעלה hi lemalah); e o espírito ou fôlego do animal que desce? Ele é de debaixo da terra”, isto é, ele tende para a terra somente. Este verso não dá suporte para a materialidade da alma; e ainda é o mais forte ponto que os frios e infrutíferos materialistas podem se refugiar.

Salomão mais evidentemente faz uma essencial diferença entre a alma humana e a animal. Ambos possuem almas, mas de diferentes naturezas: a alma do homem foi feita por Deus, e para Deus ela deve retornar: Deus é sua porção, e quando uma alma santa deixa o corpo, ela vai para o paraíso. A alma do animal foi feita para derivar sua felicidade de seu mundo inferior. Brutos deveriam ter uma ressurreição, e viver em uma alegria sem fim em uma nova terra. O corpo do homem deveria levantar, e juntar à sua alma que já está no alto; e ambas gozariam das bênçãos finais nas realizações de Deus. Que Salomão não acreditava no mesmo tipo de espírito, e na mesma sorte, como alguns materialistas e infiéis dizem, é evidente baseado em Ec 12:7: “O espírito deve retornar para Deus que o deu.”
“Adam Clarke”

Ec 3:21 – Quem conhece o espírito do homem que vai para cima?… Há realmente uma diferença entre um homem e um animal; apesar deles terem um fôlego, eles não tem um espírito ou alma; homem tem uma alma racional e imortal, a qual, quando morre, vai para cima para Deus que a deu; para ser julgada por Ele, e desfazer-se dele, em seus próprios aposentos, até o dia da ressurreição do corpo; e o espírito dos animais que vão para baixo da terra? Quando o animal morre, seu espírito vai para baixo da terra, de onde ele veio, e é transformada nela, e não mais existe. Mas quem é que vê isto, ou pode ver e saber com os olhos deste corpo, a diferença destes dois espíritos, ou a subida de um, e a descida de outro? Ou quem sabe pela força da razão, pela força de seu próprio entendimento, sem a divina revelação, que o homem tem uma alma imortal que vai para cima na morte, enquanto que a do animal vai para baixo? Nenhum homem, claramente e totalmente, como parece das dúvidas e meia fé do mais sábio Gentio sobre isto: ou preferivelmente quem sabe e considera esta diferença entre o espírito do homem e o espírito do animal, e pensa sobre si mesmo sobre a preciosa alma imortal que ele tem, e está preocupado com a salvação dela? Muito poucos; e portanto é como vivem e morrem como animais, da forma que fazem. A Midrash interpreta isto da alma dos justos que vão para o céu, e a alma dos injustos que vão para o inferno.
“John Gill”

Vv. 16-22: Sem o temor ao Senhor, o homem não é coisa alguma, senão vaidade; se ele for deixado de lado, os juízes não usarão o seu poder adequadamente. Há outro Juiz que está à porta. Com Deus há tempo para que as aflições sejam tiradas, embora em muitas ocasiões não o vejamos. Salomão deseja que os homens se deem conta de que, ao escolherem este mundo como sua porção, colocam-se no mesmo nível dos animais; os homens não estão livres das aflições presentes e da futura prestação de conta, e retornarão ao pó do qual foi tomado. Pouca razão há de nos ensorbecer por causa de nosso corpo ou dos nossos dotes físicos! Porém, como ninguém pode compreender perfeitamente, poucos são os que consideram a diferença entre a alma racional do homem, e o fôlego ou a vida do animal. O espírito do homem ascende para ser julgado e logo é colocado em um estado imutável de felicidade ou miséria. Tão certo quanto a alma do animal desce à terra, perecendo na morte. É certamente lamentável o caso dos que têm como suas esperanças e maiores desejos, morrer como os animais. Que a nossa pergunta seja: Como pode uma eternidade de existência ser para nós uma eternidade de prazer? Responder isto é o grande desígnio da revelação. Jesus é revelado como o Filho de Deus e esperança dos pecadores.
“Matthew Henry – comentário conciso”

Quem sabe – Nenhuma dúvida sobre o destino do espírito do homem (Ec 12:7); mas “como poucos, pela razão da moralidade exterior na qual o homem é tão responsável quanto o animal e na qual é a base da argumentação cética, compreende a grande diferença entre homem e o animal” (Is 53:1). O hebraico expressa a diferença fortemente, “O espírito do homem que ascende, pertence ao alto; mas o espírito dos animais desce, pertence para baixo, mesmo da terra.” Seus destinos e próprios elementos diferem completamente [Weiss].
“Jamieson, Fausset e Brown”

Ecc 3:21 –

“Quem sabe a respeito do espírito dos filhos dos homens, se eles vão para cima; e a respeito do espírito de um animal, se ele vai para baixo da terra?”. O sentido interrogativo de העלה e הירדת é reconhecido por todos os antigos tradutores: LXX, Targ., Siríaca, Jerônimo, Venet., Lutero. Entre os modernos, Heyder (vid. Psychol. P. 410), Hengst., Hahn, Dale, e Bullock tomam o h em ambos os casos como o artigo: “Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens, os quais vão para cima…?” Mas (1) apresentada deste modo a questão não concorda com a conexão, que requer uma pergunta cética; (2) seguindo “quem sabe” após Ecl 2:19; 6:12 e Jos 2:14, uma continuação interrogativa da sentença seria esperada; e (3) em ambos os casos היא permanece como designação do sujeito somente para o propósito de marcar a cláusula interrogativa (cf. Jer 2:14), e de ressaltar que ha’olah e hayorěděth não são apostos pertencentes como objetos a רוח e ורוח. È questionável, de fato, se a pontuação dessas palavras, העלה e היּרדת , como elas se nos apresentam, procedem de uma passagem interrogativa. Saadia em Emunoth c. vi, e Judá Halevi em Kuzri ii.80, negam isso; o que fazem também Aben Ezra e Kimchi. E eles podem estar certos. Isso porque ao invés de העלה , a pontuação deveria ter sido העלה (cf. העלה, Jô 13:25) quando usada como interrogativo um ascendente; mesmo antes de א o comprimento compensatório do interrogativo há não é encontrado certamente em nenhum lugar.

(Note: ה deve ser lido com um Pattach em Juízes 6:31; 12:5; Ne 6:11; conforme Gn 19:9, 27:21. Em Números 16:22 o ה de האישׁ é o artigo, e a questão não está formalmente designada.

Em vez da reduplicação virtual; e portanto também o paralelo היּר não é para ser julgado após היּי, Lev_10:19, הדּ, Eze_18:29, – nós devemos permitir o que a pontuação busca, através da remoção dos dois interrogativos ha (ה), para colocar o que aqui é dito de acordo com Ec 12:7. Mas não há necessidade disso. Porque יודע מי realmente não cai naquilo que Lucretius diz (Lib. I):

“Ignoratur enim quae sit natura animai,

Nata sit an contra nascentibus insinuetur?

An simul intereat nobiscum morte diremta?”

Isto pode certamente ser dito de mi yode’a, assim como de ignoratur, o que não exclui todos os tipos de conhecimento, mas somente um conhecimento seguro e certo sobre áreas suficientes; interire e ירד לם são também raramente diferentes, porque nenhuma das duas palavras necessariamente significam aniquilação, mas ambas representam a descontinuação de uma existência individual independente. Entretanto, a colocação dessa questão pelo Koheleth (O Pregador) é diferente, porque revela mais definidamente do que o que Lucretius disse, a possibilidade de um fim diferente para o espírito de um homem em relação àquilo que espera o espírito do animal, e, portanto, de uma distinção específica entre esses dois princípios de vida. 

Na própria formação do dilema temos: se para cima ou para baixo, aqui reside um conhecimento inquisitivo; e não pode nos surpreender se Koheleth finalmente decide que o caminho do espírito de um homem é para cima, muito embora não seja dito que ele afirmou isso no campo da certeza demonstrativa. É suficiente que, com a necessidade moral de um julgamento final além da esfera da vida presente, ao mesmo tempo também a existência continuada do espírito do homem se apresenta a ele como um postulado de fé.

Alguém pode concluir do desiderium aeternitatis (Ec 3:11) implantado no homem pelo Criador, que, como os instintos implantados nos animais, isso será considerado não para decepção, mas para satisfação; e de למעלה, Pro 15:24 – i.e., o caminho de um homem sábio se movendo para cima das coisas temporárias, comuns, terrenais, – que a morte não porá um fim a este caminho, mas o ajudará a atingir o seu alvo. Entretanto, esta é uma prova indireta, a qual, entretanto, é sempre inferido à direta em força de argumento. Ele pressupõe que a Onipotência e Sabedoria que formaram o mundo são, ao mesmo tempo, Amor. Portanto, ainda que finalmente, é a fé que resolve o dilema, e nós vemos de Ecl 12:7, que é a fé que exerce influência sobre Koheleth. No Livro de Siraque, também, a velha concepção do Hades se mostra ainda dominante; mas após o ουκ ατηάνατος υιὸς αντηρώπου, 17:25, nós lemos até o final, onde ele fala de Elias: καὶ τὰρ ημεις ζωη ζησόμεθα, 48:11.

Nesta passagem que está diante de nós, Koheleth permanece em dúvida, sem ultrapassar isso pela mão da fé. Numa certa referência a questão que ele propõe aqui permanece sem resposta até o presente dia; para a alma, ou, mais corretamente, de acordo com o modo bíblico de concepção do espírito do qual a vida-alma de todos os seres corporais procedem, é uma “monas”, e como tal é indestrutível. No futuro, a alma dos animais e a alma dos homens permanecerão em uma relação mútua e solidária, uma em relação à outra? De fato, a vida futura nos apresenta mistérios cuja solução se encontra além do poder do pensamento humano, e nós não precisamos imaginar que Koheleth, esse homem inteligente de mente sóbria, que era inacessível a uma fantástica auto decepção, chega, pela linha de pensamento começada em Ecl 3:16, uma vez mais ao ultimato.

Um incrível relato: O estranho e maravilhoso mundo dos judeus e da magia

 

Era o outono de 1995 e Jerusalém iniciava uma celebração de 15 meses para marcar os 3.000 anos desde que o Rei Davi conquistou a cidade e a proclamou capital do povo judeu. Faixas coloridas com o número “3000” estampado pendiam dos postes de luz por toda a cidade, e o clima era festivo. Junto com inúmeras outras pessoas, assisti à cerimônia de abertura em frente ao Knesset e ouvi, fascinado, o Primeiro-Ministro Yitzhak Rabin falar sobre sua liderança do Exército israelense na Cidade Velha de Jerusalém durante a Guerra de 1967 e, em seguida, sobre como a verdadeira mensagem dos últimos 3.000 anos era a necessidade de tolerância entre as religiões e amor entre os povos. Ao final do discurso, um israelense se virou para mim e disse que, pela primeira vez, acreditava que Israel conheceria a paz durante sua vida.

Seis semanas depois, Rabin foi assassinado a tiros. Da noite para o dia, Jerusalém se transformou. Imagens em preto e branco do primeiro-ministro morto substituíram as faixas comemorativas, e uma atmosfera sombria tomou conta do local. Logo surgiram rumores desenfreados, com um em particular ganhando força. Ouvi repetidas vezes que uma maldição mágica teria provocado o assassinato.

Numa época em que o impossível havia acontecido, isso parecia plausível para muitos. A história que se espalhava rapidamente afirmava que, 32 dias antes do assassinato, em 3 de outubro de 1995, um pequeno grupo de cerca de dez ativistas nacional-religiosos radicais, revoltados com a intenção de Rabin de trocar terras por paz, se reuniram em frente à casa do primeiro-ministro em Jerusalém. Era véspera do Yom Kippur — considerada a noite mais sagrada de todo o ano judaico — e os rabinos, que haviam jejuado por dois dias em preparação, formaram um círculo ao redor de dois rolos da Torá, tocaram uma trombeta de chifre de carneiro e entoaram: “Sobre ele, Yitzhak, filho de Rosa, conhecido como Rabin… temos permissão… para exigir dos anjos da destruição que peguem em espada este homem perverso… para matá-lo… por entregar a Terra de Israel aos nossos inimigos, os filhos de Ismael.” Conhecido como Pulsa de Nura (“Chicotes de Fogo”), este antigo ritual aramaico foi mencionado pela primeira vez no Talmude e depois descrito com mais detalhes em antigos manuais hebraicos de magia. Quando realizado corretamente, acreditava-se que a maldição infligia a ira divina às suas vítimas dentro de um ano.

Após o assassinato de Rabin, "Pulsa de Nura" rapidamente se tornou uma expressão popular. Permanece um elemento canônico em qualquer relato do assassinato de Rabin; até mesmo a biografia oficial do governo israelense sobre Rabin menciona a maldição pelo nome.

Intrigado por essa história, comecei a estudar o uso da magia no judaísmo. Como muitos outros, eu não sabia que o judaísmo tinha uma rica tradição de magia que remontava à Bíblia Hebraica. Muitos judeus modernos simplesmente ignoram o assunto por completo, porque acreditam que os judeus evoluíram além desse aspecto de sua religião. Eles o descartam como "folclore irracional", diz Yuval Harari, autor de Magia Judaica Antes da Ascensão da Cabala. A magia é um "elemento estranho que penetrou" o judaísmo "de fora e o manchou", argumentaram os influentes estudiosos israelenses de meados do século XX, Saul Lieberman e Ephraim Urbach. 

Essa visão prevaleceu até que Moshe Idel, o preeminente estudioso do misticismo judaico, apresentou um panorama no qual a magia era um aspecto central do judaísmo. A magia, escreve ele no prefácio da edição de 2004 de " Magia e Superstição Judaicas: Um Estudo sobre Religião Popular", de Joshua Trachtenberg, "é uma forma vital de espiritualidade judaica. [O judaísmo é] profundamente influenciado por modos de pensar e agir que são concebidos como eficazes e lícitos."

Ao investigar a magia na Bíblia, encontrei muitas mensagens contraditórias. Em Êxodo, somos instruídos: “Não permitam que uma feiticeira viva”. Em Deuteronômio, os judeus são proibidos de serem “adivinhos, áugures, feiticeiros, encantadores, médiuns, magos ou necromantes”. Parece, a partir desses textos, que a Bíblia considera a magia um fenômeno real, embora um do qual os israelitas não devessem participar. No entanto, as figuras mais reverenciadas da Bíblia se envolvem em atos mágicos. Seguindo uma ordem de Deus, Arão lança sua vara diante do Faraó e ela se transforma em uma serpente. Os egípcios fazem o mesmo e, usando suas “artes secretas”, realizam o mesmo ato. Mas a prova da superioridade de Arão vem quando sua serpente engole as serpentes egípcias.

A Torá, é claro, está repleta de atos sobrenaturais — maná caindo do céu, mulheres estéreis dando à luz, animais falando — mas todos esses eventos são atribuídos a Deus. Assim, os acontecimentos sobrenaturais dos israelitas — cuja fonte de poder é Deus — são exaltados. Da mesma forma, quando Deus abre o Mar Vermelho enquanto os israelitas fogem do Egito, isso é considerado um milagre. Quando perguntei a Dan Ben-Amos, folclorista da Universidade da Pensilvânia, sobre isso, ele explicou: “Resumindo, Deus faz milagres e as pessoas realizam atos mágicos”.

O Talmud também está repleto de conhecimento mágico e parece igualmente contraditório em relação ao sobrenatural. Rabinos do período talmúdico (70-640 d.C.) proíbem algumas práticas mágicas por serem "costumes dos amorreus", o povo que habitava a Palestina antes dos israelitas, mas descrevem outros atos mágicos com admiração e até orgulho. Em uma história, o sábio Rabino Eliezer ganha prestígio quando seu profundo conhecimento da Torá lhe confere poderes sobrenaturais que lhe permitem impedir o desabamento de uma casa. Em uma das minhas histórias favoritas, dois rabinos do século III são celebrados por usarem um feitiço para criar vacas em uma tarde de sexta-feira, bem a tempo para um suntuoso jantar de bife de Shabat. Mas quando outro rabino usa as mesmas palavras para fabricar um golem humanoide, seu colega rabino o reduz a pó porque ele não pode falar e, portanto, deve ser "uma criatura [perigosa] dos magos".

Em geral, os rabinos talmúdicos não se preocupam com as ações mágicas em si, mas sim com o caráter e as intenções da pessoa que as pratica. Assim como na Torá, se um evento incomum é um milagre (e, portanto, louvável) ou magia (e, portanto, deplorável) depende de quem o pratica e com que propósito.

Parte da confusão reside na definição dos termos: qual a diferença entre religião e magia? Como podemos distinguir uma oração de um feitiço, ou superstição de um ritual religioso? Carlo Ginzburg, professor de história da UCLA e autor do livro seminal de 1976 sobre religião popular e magia, " O Queijo e os Vermes ", atribui isso ao ponto de vista. "Magia", diz ele, "geralmente é usada para descrever as práticas religiosas e rituais de pessoas que o falante desaprova". Ele acrescenta que, historicamente, existe a ideia de que "o que eu faço é ritual, mas o que outras pessoas fazem é magia ou idolatria". O folclorista Ben-Amos concorda que a perspectiva é fundamental. "Termos como superstição e magia geralmente são usados ​​para descrever as crenças ou práticas religiosas de outras pessoas", diz ele. "As crenças dos judeus, por exemplo, eram consideradas supersticiosas pela Europa cristã." Em última análise, é difícil saber exatamente o que é magia. "Na vida real", afirma ele, "religião e magia muitas vezes convergem".

Yuval Harari concorda. “Desde os tempos bíblicos até os nossos dias”, afirma ele, “existe uma fronteira imprecisa e tênue entre o profeta ou o rabino, o hassídico ou o feiticeiro, o milagre ou a magia e a oração ou o encantamento”. Ele argumenta que “não devemos traçar uma linha rígida entre magia e ritual judaico ou halachá, porque a magia não é essencialmente diferente da visão religiosa judaica 'normal' que atribui poder real ao sacrifício, à oração, ao ritual e à observância da lei”. A magia, que invoca forças invisíveis, também não difere das visões judaicas comuns sobre o envolvimento de Deus — e de anjos e demônios — na vida cotidiana.

Magia e Superstição Judaicas, Trachtenberg escreve que “a invocação de nomes [bíblicos] era a característica mais comum da magia judaica medieval. Os encantamentos geralmente consistiam em um nome, ou uma série de nomes, com ou sem uma ação acompanhante”.

Esse aspecto da magia judaica chamou a atenção de não judeus desde cedo. Orígenes Adamâncio, teólogo do século III e o primeiro cristão conhecido por estudar hebraico, comentou sobre o poder mágico da invocação de nomes bíblicos. Em sua Hexapla, a primeira edição crítica da Bíblia Hebraica, ele escreveu sobre nomes bíblicos que “são tão poderosos que, quando ligados ao nome de Deus, a fórmula 'Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó'... exorciza demônios, e [é] usada não apenas por membros da nação judaica, mas também por quase todos aqueles que lidam com magia e feitiços”. Adamâncio compreendeu corretamente que os judeus usavam exatamente as mesmas palavras e formulações litúrgicas tanto em contextos “normais” quanto mágicos.

Desde os tempos bíblicos até os nossos dias, existe uma fronteira tênue entre o profeta ou o rabino, o hassídico ou o feiticeiro, o milagre ou a magia e a oração ou o encantamento

Manuais populares de magia judaica antiga, reimpressos no final da Idade Média, como o Sefer ha-Razim (O Livro dos Mistérios) e o Harba de-Moshe (A Espada de Moisés), contêm feitiços e fórmulas mágicas que supostamente permitiam prever o futuro, falar com a lua e as estrelas ou ver o sol durante a noite. Os livros afirmam que esses poderes, e muitos outros, poderiam ser alcançados através da adaptação de rituais judaicos comuns para fins mágicos, e oferecem instruções para manipular objetos e preparar poções. Para esse tipo de magia popular, os judeus utilizavam muitos dos mesmos materiais empregados por magos não judeus — sangue, saliva, fezes, cabelo, ervas, pedras preciosas e sal. Os rabinos faziam vista grossa para grande parte dessa prática, embora se sentissem mais à vontade com os encantamentos mais "elitistas" que utilizavam a língua hebraica e nomes judaicos. A magia negra — práticas que invocavam intencionalmente espíritos malignos para prejudicar outras pessoas — era a única forma de magia absolutamente proibida.

Em um tom mais fantasioso, poções e amuletos do amor eram extremamente populares em muitas épocas. "Amor", no entanto, não tinha necessariamente muito a ver com as noções modernas de romance. Yuval Harari explica que, na literatura mágica judaica, a palavra "amor" se refere a um amplo espectro de relacionamentos — desde o casamento e fortes laços emocionais até relações sexuais e até mesmo abuso sexual. Um feitiço de amor típico inscrito em um amuleto descoberto na Genizá do Cairo diz: "Vocês, todos os nós sagrados e todas as letras louváveis, acendam e queimem o coração de Tarshekhin, filho de Amat-Allah, em seu anseio por Gadb, filha de Tuffaha." Havia também feitiços detalhados, como um descrito em uma receita encontrada na Genizá do Cairo: “Para o amor. Testado e comprovado. Pegue um ovo e retire o seu conteúdo através de um pequeno furo. 

Quando o ovo estiver vazio, pegue o sangue de um homem e o de uma mulher, preencha o ovo completamente e sele o furo com cera. Escreva no ovo, com a mistura de sangues, os nomes do homem e da mulher e enterre-o no chão. Imediatamente haverá um grande amor entre eles, e eles não conseguirão se separar.” Outros feitiços de “amor” eram mais perturbadores, incluindo feitiços para um homem forçar uma mulher a seguir suas ordens “mesmo que isso vá contra a vontade dela” e encantamentos para um homem se livrar de uma mulher por quem ele não sentia mais atração sexual.

Hoje em dia, existem novas maneiras de apresentar e comercializar a magia judaica no que diz respeito ao romance. Por uma pequena doação ao seu site, o grupo rabínico ortodoxo americano Vaad HaRabbonim entoa encantamentos e reza para que os doadores encontrem seus pares românticos à meia-noite do sétimo dia de Pessach — aparentemente, o horário exato da abertura do Mar Vermelho. O grupo se vangloria de que 90% dos nomes em sua lista de orações resultaram em noivados. Há também organizações israelenses que anunciam segulot (encantamentos) especiais realizados no feriado de Lag Ba'Omer, também em troca de uma doação, que supostamente curam a "paixão amorosa severa".

Ao longo das gerações, as mulheres judias não eram apenas objetos de feitiços masculinos, mas também participantes ativas nas artes mágicas, atuando como curandeiras, adivinhas, intérpretes de sonhos e médiuns. Judeus e não judeus acreditavam que as mulheres tinham maior probabilidade do que os homens de possuir dons sobrenaturais, como a clarividência. As mulheres praticavam principalmente magia popular, geralmente para fins domésticos — especialmente tudo o que se relacionava à fertilidade, controle de natalidade ou gravidez. 

De acordo com Rebecca Macy Lesses, autora do livro de 1998 "Ritual Practices to Gain Power: Angels, Incantations, and Revelation in Early Jewish Mysticism" (Práticas Rituais para Obter Poder: Anjos, Encantamentos e Revelação no Misticismo Judaico Primitivo), a expertise das mulheres em magia popular era tamanha que "enquanto os rabinos culpavam as mulheres por se envolverem em feitiçaria, ao mesmo tempo estavam dispostos a aprender com elas sobre cura e o uso de amuletos e encantamentos". Há até mesmo um caso de uma mulher e um rabino realizando feitiços juntos para livrar uma casa de demônios. No início do século XVII, já havia casos de rabinos que consultavam médiuns para entrar em contato com os mortos — o que nos leva às bruxas.

Uma imagem sombria e ameaçadora de mulheres judias como bruxas emergiu durante a Idade Média. Na época, tanto na sociedade cristã quanto na judaica, havia um grande temor da suposta prevalência de bruxas com características vampíricas. Essas mulheres eram acusadas de beber sangue e comer crianças. Acreditava-se que, mesmo após a morte, elas encontravam maneiras de devorar os vivos. O Sefer Hasidim (O Livro dos Pietistas), a obra mais importante do movimento místico dos séculos XII e XIII, oferece conselhos sobre como lidar com essas mulheres. O livro recomenda que, no momento que antecede uma execução sumária (o livro esclarece que isso, obviamente, jamais seria feito pelos próprios pietistas), essas bruxas canibais recebam a absolvição em troca de informações sobre como neutralizá-las em seus túmulos. 

O livro relata que uma "bruxa" sugeriu ser morta com uma estaca cravada em sua boca, atravessando seu corpo até o chão, enquanto outra propôs encher a boca de seus companheiros mortos com cascalho. E embora os judeus não tenham participado ativamente da caça às bruxas na Europa do início da era moderna, que resultou na morte de dezenas de milhares de mulheres, figuras proeminentes do judaísmo a apoiaram. Menasseh ben Israel, o rabino do século XVII famoso por ser o mestre de Spinoza, justificou as execuções como uma resposta “necessária” à “ameaça insuperável da matilha demoníaca de bruxas”.

Um novo tipo de invasor corporal indesejado entrou para o léxico judaico durante o século XVI: o dybbuk. Um espírito ou fantasma malévolo, o dybbuk era conhecido por possuir geralmente membros de baixa posição social, mais comumente mulheres e crianças. Espíritos de mau comportamento, os dybbukim eram famosos por acusar membros respeitados da comunidade judaica de atos sexuais vergonhosos. Normalmente, um espírito masculino possuía um corpo feminino. Em um caso famoso, alegou-se que um dybbuk possuía Eidel, a amada filha do líder hassídico do século XIX, o rabino Sholom Rokeach de Belz. 

Após a morte dele, a voz do rabino Sholom emergiu de Eidel, acusando diferentes homens proeminentes da comunidade de má conduta sexual. Eventualmente, um dybbuk foi identificado pelo irmão de Eidel e exorcizado. O exorcismo em si provavelmente envolveu a queima de ervas e incenso e, em seguida, a imersão de Eidel em água. Após o exorcismo, Eidel entrou em colapso e nunca se recuperou completamente, sofrendo, segundo relatos, de depressão grave pelo resto da vida. Kate Miriam Loewenthal, professora de psicologia da Royal Holloway, Universidade de Londres, levanta a hipótese de que membros da sociedade sem voz podem ter alegado estar possuídos para terem uma forma de expressar suas opiniões, ou que aqueles que foram considerados possuídos na verdade sofriam de problemas de saúde mental.

Para minha surpresa, também houve casos em que judeus desejavam ativamente ser possuídos por espíritos benevolentes. Isaac Luria, o mais importante místico judeu do século XVI, e seus seguidores realizavam regularmente rituais à beira de túmulos com o intuito de atrair espíritos amigáveis ​​para possuírem suas almas. Eles acreditavam que a possessão aumentaria sua capacidade de conhecer e compreender o mundo invisível.

Durante o início da era moderna, aproximadamente entre os séculos XV e XVIII, o estudo da magia e do misticismo ocasionalmente levou a um contato pessoal próximo e à colaboração intelectual entre judeus e cristãos. A Cabala, equiparada à magia por muitos, chamou a atenção de estudiosos cristãos como o padre católico Marsilio Ficino (1433-1499) e o filósofo Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494). Ambos desejavam descobrir a antiga sabedoria secreta que acreditavam existir na literatura mística judaica medieval. O "tutor" de Pico em Cabala judaica e língua hebraica foi o rabino Johannan Alemanno, um famoso humanista judeu italiano que também ensinava outros cristãos. Alemanno argumentava que o estudo da magia deveria ser considerado o estágio final e mais importante da educação intelectual e espiritual de um homem.

Esse tipo de colaboração, no entanto, era incomum. Mais frequentemente, o interesse cristão pela magia judaica causava problemas para os judeus e contribuía para o antissemitismo. Os cristãos da Idade Média e do início da Idade Moderna viam o judeu como o mago por excelência. Os cristãos acreditavam que Satanás era a fonte suprema de toda a magia. Como resultado, a habilidade dos judeus com a magia era interpretada como prova de sua lealdade a Satanás e de sua natureza demoníaca como povo. Devido a essa crença, os cristãos perseguiram os judeus repetidas vezes. Os episódios mais graves foram ataques e massacres em massa, como o que começou na coroação do Rei Ricardo Coração de Leão em Londres, em 3 de setembro de 1189. Temendo que causassem tumulto, judeus e mulheres foram proibidos de participar da cerimônia. 

Apesar da proibição, uma delegação judaica compareceu, levando presentes e juramentos de fidelidade. Acusados ​​de terem vindo para lançar feitiços malignos sobre o rei recém-coroado, foram despidos, açoitados e banidos da corte. A violência aumentou e levou a um pogrom em larga escala em Londres, que acabou se espalhando para outras cidades da Inglaterra. Milhares de judeus morreram antes que a brutalidade terminasse, mais de seis meses depois. Da mesma forma, um número incontável de judeus foi acusado de magia negra e morto durante os cerca de 600 anos (1231-1826) da Inquisição Católica Romana. Esses preconceitos acompanharam os judeus até o mundo moderno, e as acusações de magia negra persistem como uma fonte de antissemitismo.

A magia é uma parte importante da minha herança judaica. Vivemos tempos conturbados. A antiga sabedoria da magia judaica me ajuda a trazer ordem ao caos

Por vezes, os judeus viam a magia como uma ferramenta para combater os seus inimigos. Ao longo da sua história, os judeus criaram e compilaram práticas mágicas, feitiços e receitas com o intuito de prejudicar aqueles que os ameaçavam. Um exemplo disso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. À medida que a notícia do extermínio dos judeus pelos nazis se espalhava pela Europa, havia judeus na Palestina que, apesar das objeções de alguns rabinos, começaram a praticar magia numa tentativa de salvar os judeus europeus. O rabino Yehuda Fetaya (1859-1942) liderou um grupo de 60 pessoas até ao Túmulo de Raquel, perto de Belém, um local há muito utilizado pelos judeus para rituais mágicos. Lá, o grupo colocou sacos cheios de cinzas na cabeça e entoou encantamentos durante 24 horas. À noite, tocaram dezenas de shofarot e invocaram a misericórdia de Deus para com o povo judeu. 

Depois, o grupo encheu taças com lágrimas e marchou em redor do túmulo sete vezes, gritando em uníssono sete vezes para que Deus impedisse Hitler de entrar em Jerusalém. Peregrinações semelhantes foram feitas à Caverna dos Patriarcas em Hebron. E, para proteger a própria Palestina dos nazistas, dizia-se que cabalistas viajaram de avião para espalhar sangue de galo nas fronteiras da região. Uma versão alternativa dessa história afirmava que oficiais britânicos pediram aos cabalistas que voassem em um avião militar para espalhar o sangue protetor sobre a Palestina e o Egito. Também é possível que cabalistas de Jerusalém tenham criado três amuletos mágicos com a intenção de matar Adolf Hitler. Esses rumores são encontrados em cartas e relatos da época e, embora as evidências de que esses eventos realmente ocorreram sejam escassas e controversas, a prevalência dessas histórias demonstra a importância contínua da magia no mundo judaico moderno.

O que nos leva aos dias de hoje. A magia judaica não só está viva e bem, como também se tornou uma tendência. Nos Estados Unidos, bruxas judias, ou "Jewitches", trazem uma perspectiva judaica para práticas da Nova Era, como astrologia, rituais lunares e culto à deusa. As Jewitches com quem conversei explicaram que usam rituais e amuletos mágicos judaicos para lidar com questões contemporâneas, como discriminação no ambiente de trabalho e desigualdade salarial. Gilah Levin, uma Jewitch que vive na região da Baía de São Francisco, diz: "A magia é uma parte importante da minha herança judaica. Vivemos tempos difíceis. A sabedoria ancestral da magia judaica me ajuda a trazer ordem ao caos."

E talvez faça ainda mais. Há algumas semanas, almocei com minha amiga de infância, Rachel, e sua filha recém-nascida. Rachel passou quase 15 anos tentando engravidar. Ela tentou todos os medicamentos para fertilidade conhecidos e tratamentos de fertilização in vitro diversas vezes, sem sucesso. Rezava diariamente para engravidar. Finalmente, no início de setembro passado, pagou a um rabino ortodoxo em Israel para realizar uma segulá (feitiço) que, segundo ele, curaria sua infertilidade. Seguindo seu conselho, em cada dia de Sucot, na esperança de já estar grávida, Rachel mordia e mastigava o pitom, ou caule, de um etrog para garantir um parto seguro. No final de outubro, descobriu que estava grávida e, em junho deste ano, aos 49 anos, deu à luz um bebê saudável. Não há como saber como ou por que Rachel finalmente engravidou. Mas, olhando para o rosto radiante dela e o de sua linda filha, percebi que a causa em si não importava. Para mim, foi mágica.