O centurião e o escravo
Os sinópticos Mateus e Lucas contém um episódio sobre um centurião que se dirige a Jesus rogando-lhe que salve um seu escravo estimado que estava doente e Jesus cura o escravo sem se deslocar à presença deste (Mateus 8:5-13; Lucas 7:1-10).
Em João uma situação idêntica é descrita com um oficial do rei (presumivelmente o rei é Herodes Antipas) relativamente ao seu filho (João 4:46-54).
Mateus 8:5-13 e Lucas 7:1-10 | João 4:46-54 | |
Local | Cafarnaum | Caná |
Homem que roga a Jesus | Centurião | Oficial do rei |
Doente não presente | O escravo | O filho |
Cura | Jesus cura o doente à distância | Jesus cura o doente à distância |
Dois episódios diferentes? Ou duas tradições da mesma história?
Marta e Maria... e Lázaro?
Existe também indício de influência específica de Lucas: as irmãs Marta e Maria que foram introduzidas neste evangelho, reaparecem em João, mas agora com um irmão chamado Lázaro (Lucas 10:38-42; João 11:1-12:19).
É estranho “Lucas” ter descrito um episódio com Marta e Maria mas “esquecer-se” completamente de Lázaro o qual, segundo João, foi objeto do maior dos milagres realizados por Jesus - ressuscitar um homem sepultado há quatro dias. Este milagre é contado em João como um evento espetacular, presenciado por uma multidão:
João 11:14-46 ... Chegando pois Jesus, encontrou-o já com quatro dias de sepultura. ... E muitos dos judeus tinham vindo visitar Marta e Maria, para as consolar acerca de seu irmão. ... Então os judeus que estavam com Maria em casa e a consolavam, vendo-a levantar-se apressadamente e sair, seguiram-na, pensando que ia ao sepulcro para chorar ali. ... Disse Jesus: Tirai a pedra. ... Tiraram então a pedra. E Jesus, levantando os olhos ao céu, disse: Pai, graças te dou, porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves; mas por causa da multidão que está em redor é que assim falei, para que eles creiam que tu me enviaste. E, tendo dito isso, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! Saiu o que estivera morto, ligados os pés e as mãos com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, e que tinham visto o que Jesus fizera, creram nele. Mas alguns deles foram ter com os fariseus e disseram-lhes o que Jesus tinha feito.
Resumindo esta questão:
- Marcos e Mateus não referem Marta, Maria nem Lázaro
- Lucas narra um episódio com Marta e Maria, mas nada sobre Lázaro
- João reformula o episódio com Marta e Maria e ainda narra um episódio onde Jesus ressuscita Lázaro, o irmão destas
Mas no evangelho de Lucas existe uma personagem chamada Lázaro, só que é referida numa parábola contada por Jesus!
Marta e Maria - Baralhar e dar de novo
Uma passagem relatada em João, ainda sobre Marta e Maria, demonstra o quão baralhado e reformulado foi este livro. Esta passagem contém uma fusão de três histórias encontradas nos sinópticos:
João 12:1-8 Veio, pois, Jesus seis dias antes da páscoa, a Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe ali uma ceia; Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus, e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair disse: Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres? Ora, ele disse isto, não porque tivesse cuidado dos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, subtraía o que nela se lançava. Respondeu, pois Jesus: Deixa-a; para o dia da minha preparação para a sepultura o guardou; porque os pobres sempre os tendes convosco; mas a mim nem sempre me tendes.
Vejamos os pontos principais desta passagem:
João 12:1-6 | |
Local: | Betânia |
Casa: | Marta, Maria e Lázaro |
Mulher: | Maria |
O que fez a mulher: | Deitou óleo dispendioso nos pés de Jesus e limpou com os cabelos |
Reclamação: | Judas queixa-se que é um desperdício de dinheiro que poderia ser utilizado para caridade. |
O que faz Jesus: | Explica que aquele gesto prenuncia o seu enterro. |
Vamos comparar os pontos principais desta história com textos dos outros evangelhos, nomeadamente uma passagem de Marcos (que também encontramos em Mateus 26:6-13) e duas de Lucas:
Marcos 14:3-9 (o prenúncio de enterro) | Lucas 7:36-50 (sensualidade) | Lucas 10:38-42 (tarefas domésticas) | |
Local: | (*) Betânia | - | Certa aldeia |
Casa: | De Simão, o leproso | De um fariseu chamado Simão | (*) De Marta e Maria |
Mulher: | Uma desconhecida | Uma “pecadora” | (*) Maria |
O que fez a mulher: | Deitou óleo dispendioso na cabeça de Jesus | (*) Verteu lágrimas nos pés de Jesus, limpou com os cabelos, deitou óleo nos pés | Maria ficou aos pés de Jesus a escutá-lo |
Reclamação: | (*) Alguns discípulos queixam-se que é um desperdício de dinheiro que poderia ser utilizado para caridade. | O fariseu critica Jesus por tocar numa “pecadora”. | Marta reclama que Maria não a ajuda nas tarefas domésticas. |
O que fez Jesus: | (*) Explica que aquele gesto prenuncia o seu enterro. | Perdoa a “pecadora” | Desculpa Maria, pois ela “escolheu a boa parte” |
As partes assinaladas com um asterisco (*) são aquelas que fazem parte da história contada em João. Parece claro, que “João” fez uma mistura de três histórias de características semelhantes, embora com personagens e cenários diferentes, para criar uma nova.
