segunda-feira, 13 de julho de 2026

Arqueologia bíblica: limites e descobertas

 

Matthieu Richelle é pós-doutor em Filologia Bíblica pela Universidade de Strasbourg, doutor em Ciências Históricas e Filológicas pela EPHE-Sorbonne e ex-aluno da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de vários artigos em jornais acadêmicos importantes e de livros, entre eles A Bíblia e a arqueologia. Atua como professor associado (Chargé de conférences) de Epigrafia Semítica na EPHE-Sorbonne e como professor titular de Antigo Testamento na Faculdade Livre de Teologia Evangélica (Vaux-sur-Seine).

Matthieu, em primeiro lugar, parabéns por seu livro A Bíblia e a Arqueologia (La Bible et l’archéologie), que apresenta uma excelente introdução à arqueologia do mundo bíblico. Ele é claro, objetivo e também revela as limitações da pesquisa arqueológica. Agradecemos sua coragem em questionar alguns pressupostos considerados “básicos” pela academia simplesmente porque são defendidos por alguns nomes importantes nos campos da arqueologia e estudos semíticos.

1. Inicialmente, pedimos a você que nos diga a respeito de seu interesse em estudar a epigrafia e a história do mundo antigo. Como um professor de matemática decide deixar sua carreira no campo das ciências exatas e começar a estudar as fontes literárias e arqueológicas do Oriente Próximo e Israel, tornando-se um pesquisador de ponta neste campo?

Em alguns níveis, a matemática funciona como uma linguagem, então eu acho que há alguma conexão entre o fascínio que eu tinha por fórmulas algébricas e meu interesse por manuscritos e línguas antigas. Mas o que realmente me interessou na história do antigo Oriente Próximo é a presença dos oráculos e narrativas sobre a antiga Mesopotâmia na Bíblia. Estudar o Antigo Testamento naturalmente te leva a olhar para a história dos povos vizinhos de Israel. Em última análise, essas civilizações são fascinantes em si mesmas. Quando comecei a ensinar matemática, também comecei a estudar teologia em um seminário durante meu tempo de folga, e logo descobri, em Paris, uma escola de línguas do Oriente Próximo. Então me encontrei ensinando geometria para adolescentes, fazendo cursos em Teologia Sistemática e aprendendo Ugarítico, entre outras coisas…

2. No capítulo de abertura de seu livro, você menciona alguns aspectos das cidades e da vida na sociedade do antigo Israel que são “descobertos” e esclarecidos pela arqueologia. Você poderia citar e ilustrar alguns deles?

Seria um erro acreditar que a arqueologia se limita a descobrir tesouros, como nos filmes de Indiana Jones. No primeiro capítulo, eu tento mostrar que a arqueologia nos fornece uma vasta gama de informações sobre a vida nos tempos antigos. Por exemplo, temos uma ideia da composição da sociedade de Israel durante o período real graças às explorações de superfície conduzidas por Adam Zertal no território de Manassés, no coração do reino do norte. Quase metade dos sítios eram pequenas fazendas de cerca de meio hectare, compostas por uma casa e um local para confinamento do gado. Um terço dos locais eram aldeias (200-250 habitantes), enquanto as cidades com mais de 2 hectares representavam menos que 20%. Esses dados indicam que a estrutura básica da sociedade deve ter sido composta por pequenos agricultores, possivelmente independentes.

Tomando outro exemplo, sabemos pelo menos parcialmente o que as pessoas comiam. Análise de ossos de animais encontrados em Tel Rehov, próximo ao mar da Galileia, mostram que nos séculos X e IX a.C. essa cidade abrigava (ao menos em parte) uma população “rica”, uma vez que consumiam carne de boa qualidade. Além disso, muitas colmeias foram encontradas no mesmo local. Elas permitiram a produção de mel em uma escala quase industrial.

3. Um importante aspecto revelado pela arqueologia e que você menciona no primeiro capítulo do seu livro são as “práticas religiosas”. Uma vez que a arqueologia mostra a propagação dos cultos pagãos no antigo Israel, o livro declara que “os achados demonstram que as práticas religiosas da população frequentemente permaneciam aquém das prescrições da aliança Mosaica”. No entanto, autores como Mark Smith (ex.: “O memorial de Deus”) têm usado tais práticas religiosas como uma justificativa para identificar um processo evolucionário na religião do Antigo Testamento, que começa com o politeísmo (de quatro hierarquias de deuses) até o monoteísmo iconoclasta (dos tempos de Josias, por exemplo). Você concorda com a tese de Mark Smith? Como se deve responder a uma ideia que parece ser tomada como certa por grande parte da academia?

Qualquer descrição de crenças religiosas na população do antigo Israel e de seu desenvolvimento envolve dois parâmetros que não são, na maioria das vezes, distinguidas na discussão. E ainda a sua natureza intrincada complica a situação. Por um lado, existe o grau de consenso e de dissensão, ou seja, o grau de diversidade dentro da população em questões religiosas em um dado período. A própria Bíblia nos encoraja a crer que durante a monarquia tardia apenas um pequeno grupo estava exclusivamente ligado a Yahweh, enquanto a maioria da população tinha um sistema de crenças politeístas ou sincretistas envolvendo Baal, Asherah e assim por diante. Os profetas constantemente reclamavam, acima de tudo, que a maioria das pessoas adorava outros deuses ao invés de Yahweh. Por outro lado, há a dimensão diacrônica, em outras palavras, a evolução das crenças e práticas através dos tempos. Aqui a Bíblia afirma que a exclusiva veneração de Yahweh é uma crença antiga, mais antiga do que a maioria dos estudiosos consideraria possível. Mas é notável que o Antigo Testamento não retrate constante e uniformemente os israelitas como um povo monoteísta.

Em relação a este contexto o que a arqueologia pode revelar? Sua principal contribuição é dar ilustrações concretas das crenças politeístas e talvez sincretistas. Isso não é tão surpreendente quanto os textos bíblicos já sugerem retratar. Mas seria muito mais difícil para as escavações sugerirem a presença de crenças monoteístas. Assim, no que diz respeito ao parâmetro da “diversidade de crenças”, a arqueologia pode lançar luz principalmente sobre o politeísmo (que, de fato, provavelmente corresponde à “visão majoritária” na população a maior parte do tempo). Essa não parece ser capaz de apreender a diversidade dentro da população e não devemos esperar o contrário – embora não devamos excluir a possibilidade de futuras descobertas mudarem isso. Em relação ao parâmetro diacrônico, a arqueologia pode nos oferecer alguns insights interessantes, ainda que limitados. Portanto, a iconografia dos selos pode refletir algum impacto da reforma de Josias, uma vez que os temas astrais e antropomórficos, possivelmente relacionados a vários cultos pagãos, desaparecem em grande parte dos selos entre o final do século VII e início do século VI a.C.

Em suma, a arqueologia não parece ser capaz de “detectar” o monoteísmo e muito menos medir a extensão de seu sucesso na população. Os arqueólogos também não podem datar o surgimento do monoteísmo. Como resultado, a reconstrução da história das crenças religiosas depende grandemente de pontos de vistas exegéticos sobre as datas de alguns textos bíblicos e de se consideramos que as narrativas que eles contêm são históricas ou (mais ou menos) ficcionais.

4. Nos capítulos 3 e 4 você aponta certas limitações da arqueologia (tais como a dificuldade em datar certos estratos e ruínas que se amontoam uns sobre os outros) e propõe uma abordagem equilibrada. Por um lado, deve-se evitar o extremo ilusório de “pensar que alguém pode ‘provar que a Bíblia está certa’ através das descobertas nas escavações”, porque “a Bíblia não necessita que sua veracidade seja estabelecida por meio de testemunhas materiais para que ela seja crível: os fiéis que confiam de modo firme na Bíblia não irão esperar que que cada detalhe seja provado”. Por outro lado, devemos evitar a postura altamente crítica daqueles que não admitem que a Bíblia é uma fonte histórica ou daqueles que usam a arqueologia como um “juiz” da historicidade da Bíblia, sendo tão ingênuos para pensar que a inscrição de uma estela ou dos anais de um rei, que é altamente tendencioso, seria mais confiável do que as Escrituras. Na sua opinião, qual seria uma abordagem equilibrada para a reconstrução de dados históricos que usam a arqueologia e a Bíblia adequadamente?

A arqueologia e a Bíblia são duas fontes distintas de informações que possuem seus próprios limites (a Bíblia não é um manual de história antiga!). Elas precisam ser cuidadosamente estudadas com os métodos que lhes são peculiares. É arriscado fazer escavações com “a Bíblia em uma das mãos”, principalmente porque podem levar alguns estudiosos a interpretar de modo errado os resultados devido ao seu desejo de encontrar algo relacionado ao texto. Também é um exercício precário julgar a historicidade das narrativas bíblicas por meio da arqueologia. A exegese é uma atividade falível e a arqueologia envolve muita interpretação também. No fim, talvez a postura mais prudente seja investigar a Bíblia e a arqueologia separadamente e tentar combinar os resultados de ambas as áreas apenas em um segundo estágio, para a reconstrução histórica. No entanto, deve-se reconhecer que o modo como se usa a Bíblia para a reconstrução histórica repousa, em grande parte, sobre pressupostos hermenêuticos. Assim, dois estudiosos de convicções diferentes a respeito disso provavelmente irão propor duas reconstruções diferentes da história de Israel. Infelizmente, muita subjetividade está envolvida aqui. Mesmo dois estudiosos que trabalhem com o mesmo conjunto de pressupostos podem chegar a conclusões diferentes, porque um pode ser mais inclinado a aceitar a plausibilidade de uma narrativa antiga, enquanto o outro é naturalmente mais cético. Eu gostaria de encorajar a todos a serem mais claros sobre quais são os seus pressupostos, a tentarem ser honestos com os fatos e a distinguirem entre o que é factual e o que é apenas hipotético.

5. Israel Finkelstein é um arqueólogo brilhante que esteve aqui no Brasil em 2015, dando palestras na Universidade Metodista de São Paulo. As ideias dele parecem ser adotadas mais facilmente por eruditos na área de estudos da Bíblia Hebraica do que por arqueólogos profissionais. Dois arqueólogos importantes, Amihai Mazar e William Dever, têm questionado e rejeitado grande parte da teoria de Finkelstein de que Judá era um reino insignificante no século X a.C. e de que antes do século VIII a.C. não se tornou verdadeiramente um estado. Em uma resenha do último livro de Finkelstein, The Forgotten Kingdom (O reino esquecido), na Biblical Archaelogy Review (BAR), W. Dever é irônico: “Em seu livro, Finkelstein, não ‘descobriu um reino perdido’; ele o inventou. Contudo, um leitor cuidadoso obterá alguns insights sobre Israel – isto é, sobre Israel Finkelstein”. No capítulo 5 de A Bíblia e Arqueologia e no seu artigo “Elusive Scrolls” (Vetus Testamentum), você apresenta críticas cautelosas contra a teoria de Finkelstein e mostra que os pontos de vista de Finkelstein permanecem isolados em várias questões importantes (“Elusive Scrolls”, 29). Quais seriam os aspectos mais problemáticos na proposta de Finkelstein que foram rejeitados pela maioria dos estudiosos? Por quê?

Israel Finkelstein é um estudioso brilhante e muito produtivo que escreveu a respeito de uma considerável variedade de assuntos. Eu pessoalmente admiro-o. A maior parte de sua obra certamente passará pelo teste do tempo, mas há uma área específica onde ele apresentou uma hipótese tanto inovadora quanto controversa que de fato não é aceita pela maioria dos arqueólogos: a cronologia da idade do ferro. Colocando de modo simples, ele notou que vários prédios importantes em Meggido, Hazor e Gezer, os quais costumam ser datados no tempo de Salomão (século X a.C.), poderiam ser datados teoricamente no século IX a.C., uma vez que a cerâmica, principal ferramenta para datação em arqueologia, não desenvolveu-se significativamente entre os séculos X e IX a.C. Ele estava certo em apontar esta ambiguidade na cerâmica, mas haviam outros aspectos (ex: a densidade do estrato) que levaram a maioria dos arqueólogos a rejeitar a sua proposta. Isto não prova que ele está errado, mas acho vergonhoso que ele algumas vezes afirme que a sua visão esteja claramente estabelecida, quando continua a ser uma visão minoritária. A ironia é que Finkelstein tem sido tão talentoso em explicar as suas ideias em livros populares que a maioria das pessoas acredita que elas representam as opiniões mais recentes e normativas na arqueologia. Até mesmo estudiosos bíblicos frequentemente aceitam acriticamente as opiniões dele, citando os seus livros populares ao invés de realmente olharem para as revistas acadêmicas a fim de compreenderem o debate científico.

Assim, a recepção da visão de Finkelstein sobre a cronologia entre leitores comuns e os exegetas é oposta à sua recepção entre os arqueólogos. No entanto, o seu trabalho resultou em um aperfeiçoamento na cronologia da idade do ferro e Amihai Mazar sugeriu uma “cronologia convencional revisada” que integra algumas ideias de Finkelstein. Deve-se acrescentar que a Bíblia não nos diz exatamente o que Salomão construiu ou reconstruiu em Meggido, Hazor e Gezer, então as apostas provavelmente não são tão altas como algumas pessoas acreditam.

Em relação à crítica de William Dever, ela trata da reconstrução histórica do reino do norte nos séculos X e IX a.C. Muitos estudiosos não acreditam que uma monarquia unificada liderada por Davi e Salomão tenha existido, mas eles não propõem um cenário alternativo quanto ao surgimento dos dois reinos hebreus, Israel no norte e Judá no sul. Provavelmente Finkelstein é o primeiro a articular uma visão alternativa e detalhada em relação à narrativa bíblica. Eu não vejo nenhuma razão para negar que isto é intelectualmente brilhante, muito embora eu discorde das premissas de Finkelstein e de seu cenário altamente hipotético. Deve-se notar que um historiador tão excelente como André Lemaire ainda acredita que uma monarquia unificada existiu no século X a.C. Estritamente falando, isso não pode ser provado (nem refutado), mas esse ainda é um cenário plausível. (Aqueles que leem francês e estejam interessados, podem ler a minha resenha de The Forgotten Kingdom no jornal Transeuphratène 48 [2016], disponível em academia.edu).

6. Como epigrafista, você é um perito em documentos e inscrições do mundo antigo e aborda estas questões no final de seu livro. Há uma teoria, adotada por estudiosos como Finkelstein e Schniedewind (autor de How the Bible Became a Book), ou seja, que Israel não poderia ter produzido textos antes do século VIII a.C. Por que esta teoria está equivocada? Qual é a grande dificuldade da arqueologia em relação aos papiros e rolos?

Muitos estudiosos afirmam que Judá e Israel não foram capazes de produzir obras literárias extensas antes do século VIII a.C., geralmente por duas razões. Primeiro, um número muito limitado de inscrições dos séculos X e IX a.C. foi descoberto em territórios relevantes e elas eram muito curtas, enquanto temos mais textos epigráficos do século VIII a.C., alguns deles contendo várias sentenças. No entanto, esse argumento não é convincente. O problema é que textos extensos foram escritos em papiro, que é perecível no clima de Israel, então “a ausência de evidência não é evidência de ausência”. Em segundo lugar, muitas pessoas acreditam que é necessário algum grau de “desenvolvimento socioeconômico” para um país produzir literatura, e Finkelstein acha que Judá, em particular, não era “desenvolvida” o suficiente até o século VIII a.C. Contudo, a primeira afirmação está errada (existem contraexemplos) e a segunda é muito contestada.

Na verdade, a afirmação de que nenhuma literatura poderia ter sido produzida pelos israelitas antes do século VIII a.C. é popular entre os estudiosos bíblicos, mas é considerada um mito por epigrafistas, incluindo Alan Millard, André Lemaire, Christopher Rollston e por mim. Eu publiquei um artigo extenso em Vetus Testamentum no ano passado sobre esse assunto e o último capítulo do meu livro sobre arqueologia é, de certo sentido, uma versão popular do mesmo. No mesmo ano, e de forma independente, um volume foi publicado com um artigo de C. Rollston, um epigrafista de ponta, que conclui que “é absolutamente certo que qualquer um que argumente que não houve capacidade de produção de textos históricos e literários no antigo Israel ou Judá antes do século VIII a.C. não está au courant (bem informado) com os dados epigráficos. Esse argumento é moribundo”. (C. Rollson, “Inscriptional Evidence for the Writing of the Earliest Texts of the Bible”, em J.C. Gertz, B.M. Levinson, S. Rom-Shalit and J. Schmid [eds.], The Formation of the Pentateuch, Tübingen, Mohr Siebeck, 2016, p. 15-45, esp. 45).

Finalmente, o próprio Finkelstein mudou de opinião sobre esse assunto. Ele publicou um artigo junto com o seu colega Benjamin Sass (um grande epigrafista e amigo meu) onde ele reconhece agora que foi possível existir literatura no século IX a.C., em vista das inscrições recentemente descobertas que mostram que o cursivo (um tipo de escrita usada para escrita rápida em papiro) já estava em uso. (B. Sass e I. Finkelstein, “The Swan-Song of Proto-Canaanite in the Ninth Century BCE in Light of an Alphabetic Inscription from Megiddo”, Semitica et Classica 9 [2016], p. 19-42).

7. Para encerrar, ainda relacionado com textos antigos, pedimos que você comente a respeito de duas descobertas recentes: o papiro do século VII a.C. que menciona a cidade de Jerusalém1 e o suposto texto massorético de Levítico 1 e 2 encontrado em En-Gedi. Qual é a importância dessas duas descobertas para o estudo da Bíblia e da arqueologia?2

A descoberta de um papiro do período real, escrito em paleo-hebraico (a escrita hebraica usada em Israel e Judá durante a monarquia), seria realmente uma notícia maravilhosa! Apenas um papiro assim (datado de cerca do século VII a.C.) foi encontrado na caverna de Murabba‘at, próximo do mar morto. Infelizmente, existem boas razões para suspeitar que o texto recentemente publicado mencionando Jerusalém é uma falsificação moderna. Entre outras coisas, a forma como as letras são escritas (o “ductus”) é muito estranha e parece trair a mão moderna. Christopher Rollston já escreveu sobre isso em seu blog (rollstonepigraphy.com). Estou planejando escrever um artigo sobre esse assunto junto com André Lemaire.

Quanto ao rolo de Levítico encontrado em En-Gedi, ele é uma adição bem-vinda à coleção de manuscritos antigos da Bíblia. Existe algum debate sobre a sua datação, visto que as medições de radiocarbono indicam os séculos III e IV d.C., ou, possivelmente, mas menos provável, o século II d.C.; enquanto que a paleografia (o estudo da evolução da escrita) favorece uma datação no século I d.C. ou início do século II d.C. De modo geral, o rolo parece ser mais recente do que os anteriores manuscritos do mar morto, o que é interessante porque lança alguma luz sobre um período do qual nós temos apenas uns poucos manuscritos do Antigo Testamento. Baseado em duas colunas contendo o texto de Levítico 1:1-9 e 2:1-11, a publicação preliminar conclui que “o texto preservado de Levítico 1-2 corresponde exatamente ao texto consonantal do medieval TM [= Texto Massorético] e não encontramos uma única variante vis-à-vis (contrária) ao TM” (M. Segal et al., “An Early Leviticus Scroll from En-Gedi: Preliminary Publication”, Textus 26 [2016], p. 10). Isso não é surpreendente, já que o Texto Massorético já predominava nos rolos do Mar Morto – embora isso não signifique que ele deve ser considerado como um Texto Recebido (ou Textus Receptus), mas isto é outra história!

Talvez a coisa mais impressionante a dizer sobre esse rolo é que ele está em um estado de conservação tão ruim que é impossível desenrolá-lo. No entanto, graças aos “escaneamentos transversais de alta resolução” dos rolos, os estudiosos foram capazes de “desenrolá-lo virtualmente” e ler algumas colunas! Isso seria impossível a algumas décadas ou mesmo alguns anos atrás. Isso ilustra a importância das novas tecnologias para a arqueologia e nos dá esperança de novos progressos no futuro.

a Hipótese Documentária em xeque

 

Introdução

O presente artigo, tem como propósito mostrar as fraquezas e falácias da Hipótese Documentária (Wellhausiana), escrita pelo primeiro erudito do AT, que contribuiu para uma enorme influência sobre mim, nesse campo. Gleason Archer Jr, apesar de já ter falecido, foi um dos principais estudiosos do AT no século XX, e trouxe enorme influência principalmente no campo das línguas semíticas, em seu livro (A Survey Old Testament Introduction), título em português (Panorama do Antigo Testamento). No contexto brasileiro, sabemos que temos poucas introduções ao Antigo Testamento, e existe uma dúzia de obras sobre a História de Israel, trabalhando através da (perspectiva crítica) que são publicadas, resenhas em blog e editadas por editoras seculares. Portanto, aqui há uma análise crítica das teorias documentárias, em resposta a algumas novas tendências do estudo do pentateuco no Brasil, que já foram refutadas há mais de 50 anos.

Fraquezas e Falácias na HP

1. A Teoria Documental tem sido caracterizada por uma espécie sutil de raciocínio em círculos; tende a postular sua conclusão (“a Bíblia não é uma revelação sobrenatural”) como sua premissa básica (“não pode existir algo chamado revelação sobrenatural”). Aquela premissa, é claro, era um artigo de fé para toda a liderança intelectual ocidental na época do Iluminismo (l’Éclaircissement na França, die Aufklãrung na Alemanha) do século dezoito; estava implícito n a filosofia prevalescente do deísmo. Infelizmente, porém, tornou impossível qualquer consideração justa das evidências apresentadas pelas Escrituras da revelação sobrenatural. Além disto, tomou-se absolutamente obrigatório descobrir explicações racionalísticas e humanísticas para cada aspecto ou episódio no texto das Escrituras que tem algo de milagroso ou que testifica a manifestação de Deus. Mas esta tentativa de tratar objetivamente com dados literários do ponto de vista de preconceito antisobrenaturalista se destinava ao fracasso desde o início. É como a tentativa do daltônico de julgar as grandes obras-primas da pintura. A primeira falácia, portanto, era petitio principii (tomar a questão como provada).

2. Alegava-se que a teoria de Wellhausen se baseava na evidência do próprio texto, mas a evidência do texto é consistentemente evadida quando vai claramente contra as teorias. Por exemplo, os documentaristas insistiam, “Os livros históricos do Antigo Testamento não demonstram que reconhecem a existência da legislação P ou do código mosaico escrito antes do fim do Exílio”. Quando veio a resposta a esta declaração, demonstrando que numerosas referências à Lei Mosaica e às instruções P foram descobertas nos livros históricos, veio da parte deles a réplica: “Ah, bem, estas referências são interpolações posteriores feitas por escribas sacerdotais que reeditaram estes livros depois do Exílio”. Isto quer dizer que o mesmo corpo de evidência ao qual se apela para comprovar a teoria, se rejeita quando entra em conflito com a teoria. Ou, em outras palavras, cada vez que a teoria é desafiada pelos próprios dados que ela alega explicar, então o time capacitado para eliminar dificuldades, Redator e Interpolador Ltda., recebe a chamada de socorro. Táticas ilusórias como estas dificilmente poderiam justificar a confiança e integridade dos resultados.

3. Os documentaristas pressupõem que os autores hebraicos são diferentes de quaisquer escritores conhecidos em toda a história da literatura pelo fato de só eles não possuírem a capacidade de empregar mais do que um nome para Deus; mais do que um só estilo de escrita, seja qual for a diferença no assunto tratado; mais do que um entre vários sinônimos da mesma idéia; mais do que um tema típico ou círculo de interesse. Segundo estas teorias, um autor único como (citando um exemplo brasileiro) Rui Barbosa não poderia ter escrito pesquisas literárias, como Ensaio sobre Swift, reportagens vivas e cintilantes da atualidade da época, como em Cartas da Inglaterra, e ainda a grande obra de polêmica religiosa, que é sua versão de “O Papa e o Concilio”. Se tivesse sido um hebreu antigo, decerto suas obras já teriam sido mutiladas, dentro da hipótese das fontes múltiplas, A, B e C! A estrutura inteira da divisão das fontes foi construída sobre pressuposições exclusivistas que não são demonstradas na literatura de nenhum a outra nação e de nenhum outro período.

4. Preconceitos subjetivos se revelaram no tratamento das Escrituras hebraicas como evidência arqueológica. Por demais freqüentemente a tendência tem sido considerar qualquer declaração bíblica como sendo suspeita e indigna de confiança, embora que a própria antiguidade do Antigo Testamento (mesmo pelas datas atribuídas pelos críticos) deveria recomendá-lo para ser considerado como documento arqueológico. No caso de qualquer discrepância, na comparação com uma fonte pagã, mesmo sendo de data posterior, automaticamente a informação pagã tem a preferência como testem unha histórica. Quando não há outras evidências disponíveis de fontes não israelitas ou de algum tipo de descoberta arqueológica, então a declaração bíblica não é levada a sério a não ser que possa ser encaixada com a teoria. Não faz diferença para eles o grande número de informações bíblicas que, rejeitadas como não históricas pelos peritos do século dezenove, têm sido confirmadas pela evidência arqueológica posterior (como a historicidade de Belsazar, os Heteus e os Horeus), a mesma atitude de preconceito prejudicial contra a Bíblia tem persistido, sem a mínima justificativa. (Seria uma ingenuidade supor que os relatórios pagãos do Egito, da Babilônia e da Assíria — em contraste com as Escrituras hebraicas com seus elevadíssimos padrões morais — eram livres de tendências propagandistas ou preconceitos partidários) . W. F. Albright tem o crédito de ter dirigido uma boa parte dos seus esforços eruditos no sentido de reabilitar a reputação do Antigo Testamento como registro do passado no qual se pode confiar. Em numerosos livros e artigos, demonstrou, repetidas vezes, que a narrativa Bíblica tem sido vindicada contra seus crí­ticos, pela descoberta arqueológica recente.

5. A escola de Wellhausen começou com a mera suposição (a prova da qual não tem sido alvo c\e muitos esforços da parte deles) que a religião de Israel era de origem meramente humana como qualquer outra, e que precisava ser explicada como mero produto da evolução. Não fazia diferença para eles que nenhum a outra religião conhecida (a não ser aquelas que surgiram da fé dos hebreus) tem chegado ao monoteísmo genuíno; os israelitas também devem ter começado com animismo e politeísmo cru, exatamente como as demais culturas antigas. A evidência esmagadora em contrário, desde Gênesis até Malaquias, que a religião israelita era monoteísta desde o começo até ao fim tem sido evadida nos interesses dum dogma preconcebido: que não pode existir aquilo que se chama religião sobrenaturalmente revelada. Por este motivo, todas as narrativas simples e diretas em Gênesis e no restante da Torá que descrevem as experiências de Abraão, Isaque, Jacó e Moisés têm sido sujeitadas a um a reanálise cínica, procurando demonstrar que um retoque monoteístico foi aplicado àqueles antigos dignitários politeístas pelos assim-chamados “Deuteronomistas” ou a escola Sacerdotal de épocas posteriores.

6. Quando, por meio de manipulação engenhosa do texto, se produz uma “discrepância” ao interpretar um a passagem fora do contexto, não se aceita nenhum a explicação que reconciliaria a dificuldade, mas, pelo contrário, a suposta discrepância precisa ser explorada para “comprovar” diversidade de fontes. (Cf. a discrepância que Pfeiffer imaginava ver (IOT 328) entre duas narrativas do assassínio de Sísera. Segundo ele, Juizes 5:25-27 diz que Jael o matou com seu martelo e estaca de tenda enquanto bebia leite; Juizes 4:21 diz que o fez enquanto Sísera dormia. Na realidade, 5:25-27 não, declara que estava bebendo no momento do impacto, mas seria inútil dizer isto a Pfeiffer, pois já dividiu as “narrativas discrepantes” entre J e E).

7. Embora as literaturas semíticas antigas demonstrem numerosas instâncias de repetição e de duplicação pelo mesmo autor na sua técnica de narrativa, é somente a literatura hebraica que não tem licença de empregar tais repetições ou reduplicações sem trair um a autoria diversa.

É instrutivo estudar a literatura sectária das cavernas de Cunrã, para perceber até que época os israelitas continuavam a empregar a repetição com o propósito de enfatizar. Por exemplo, compara-se placa I com placa IV do Manual de Disciplina onde os requisitos para se entrar na comunidade monástica são esclarecidos de tal m aneira que convidaria os serviços peritos do divisor de fontes documentárias.

8. Com auto-confiança altamente questionável, a escola de Wellhausen presumiu que críticos europeus modernos, que não têm em mãos nenhum a outra literatura antiga hebraica com a qual possam fazer comparações (pelo menos, quanto ao período bíblico), podem fixar a data da composição de cada documento, com exatidão científica. Supõem também que podem ter a liberdade de emendar o texto ao substituir palavras mais comuns pelas palavras raras ou incomuns preservadas no texto massorético, que eles não entendem, ou que não acham cabíveis no contexto. Como estrangeiros, vivendo num a época e num a cultura totalmente diferentes, se sentiam competentes para lançar no descarte ou reembaralhar frases ou até versículos inteiros quando seus conceitos ocidentais de consistência ou de estilo foram ofendidos.

9. Supuseram, além disto, que estudiosos vivendo 3.400 anos após o evento pudessem (mormente na base de teorias filosóficas) reconstruir com mais segurança a ordem dos acontecimentos da época do que os próprios autores antigos (que viviam dentro de 600 ou 1.000 anos daqueles eventos, mesmo pelas datas avançadas que os próprios críticos dão).

Em resumo, é muito duvidoso se a hipótese de Wellhausen mereça a posição de respeitabilidade científica. Há tantas alegações forçadas para pleitear a causa, tantos argumentos em círculo, tantas deduções questionáveis tiradas de premissas não substanciadas, que é absolutamente certo que sua metodologia nunca subsistiria num foro jurídico. Quase nenhum a das leis de evidência que se respeitam em procedimentos legais se obedece entre os arquitetos da Teoria Documental. Qualquer advogado que procurasse interpretar um testamento ou estatuto ou escritura de transferência de propriedade pela maneira estranha e irresponsável destes crí­ticos das fontes do Pentateuco, teria curto prazo para ver sua causa rejeitada pela corte. Compare-se, por exemplo, esta declaração pelo Juiz William Dixon, de Passadena, Califórnia, no caso duma constituição proposta para um a união entre igrejas (“Pilgrim Frontier”, Junho 1960, p. 4): “É fato elementar que na interpretação dum contrato escrito, todas as partes escritas devem ser lidas em conjunto, e cada parte interpretada com referência à totalidade, de maneira a tornar eficaz em prol do propósito geral, cada provisão ali contida”.[5]“Decerto, este princípio é relevante até para as porções não-legais das obras de Moisés. Se tivesse sido obedecido na aná­lise do Pentateuco, a Hipótese JEDP teria sido uma impossibilidade.

Conclusão

Deve ser notado que o processo do aumento no estudo do Pentateuco no Brasil tem crescido nos últimos anos. O Brasil de fato, possui uma filiação das teorias alemães de Julius Wellhausen, isto é notável pelos conteúdo distribuído nas de Escolas de Teologia, que oferecem cursos de Introdução ao AT, exatamente com obras escritos do ponto vista racionalista alemão. 

domingo, 12 de julho de 2026

Flavio Josefo: fome e miséria durante o sítio de Jerusalém

 

Que disse, pois, o historiador judeu? Depois de contar sobre o incêndio do templo e todas aquelas calamidades nunca ouvidas, prossegue:

"Tal foi a sorte do templo. Quanto aos que morriam de fome pela cidade, a multidão dos que caíam era infinita e não é possível narrar os sofrimentos que teve lugar. E é assim que em qualquer casa em que se vislumbrasse uma sombra de comida, dava-se uma verdadeira batalha, até os amigos mais íntimos cerravam os punhos, arrebatando os míseros viáticos de vida. Nem os mortos se acreditava que estivessem desprovidos de comida, mas os bandidos revistavam os que tinham acabado de expirar, para verificar se algum estivesse se fingindo de morto e escondendo comida sob o peito. 

Outros, com a boca aberta pela necessidade, como cães raivosos, iam dando solavancos e perdiam a razão, tropeçando nas portas como bêbados e, desatinados, assaltavam as mesmas casas duas ou três vezes em uma hora. A necessidade forçava a levar qualquer coisa à boca e o que não se dá aos mais sujos animais, se recolhia e se comia sem escrúpulos. No final não foram perdoados nem cintos nem sapatos e se esfolava o couro dos escudos para se mascar. Também se fez alimento dos fiapos de feno velho, pois alguns recolhendo as palhas, vendiam a menor quantidade por quatro peças áticas. 

Mas para que me deter sobre o impudor da fome que penetra o inanimado? Vou agora contar uma façanha sua, como não se encontra nem nas histórias dos gregos nem dos bárbaros, feito horripilante de contar e incrível de se ouvir. De minha parte, teria passado por alto este espantoso caso, para não dar a impressão aos homens que hão de vir de que busco o monstruoso, por não ter testemunhos incontáveis do feito entre os de minha geração. Além do mais, pareceria indiferente a minha pátria se eu dissimulasse em minhas palavras o que ela sofreu nestes feitos. 

Houve, pois, uma mulher, procedente da Transjordânia, chamada Maria, filha de Eliazar e natural da aldeia de Betezo, palavra esta que significa "casa do hissopo". Ilustre por sua linhagem e riqueza, refugiou-se com a multidão em Jerusalém e ali sofria o cerco comum da guerra. Os tiranos a haviam despojado de toda a riqueza que havia conseguido reunir e transportar de Perea a Jerusalém; quanto às relíquias de outros bens, dia a dia os guardas as iam saqueando, apenas farejavam alguma comida. 

Terrível foi a indignação que se apoderou da mulher e muitas vezes, a força de injúrias e maldições, tratou de atiçar contra si mesma os saqueadores. Mas uma vez que nem por indignação nem por lástima se decidissem a matá-la, cansada já de buscar comida para os demais (coisa difícil de se achar em qualquer parte), como a fome lhe penetrava as entranhas e a medula e, ainda mais que a fome, incendiava-lhe a cólera, tomando por conselheira a sua fúria e sua necessidade, voltou-se contra a sua própria natureza, e arrebatando o seu próprio filho (que tinha junto ao peito):

- "Filho meu", disse,

"desgraçado pela guerra, pela fome e pela revolta, para quem te estou guardando? Com os romanos, se sob seu jugo vivemos, nos espera a escravidão; à escravidão a fome toma a dianteira e pior que a escravidão e a fome são os revoltosos. Pois, serve a mim de comida, de fúria infernal aos revoltosos e de fábula à vida, a única que faltava às calamidades dos judeus.

E dizendo e fazendo, mata seu próprio filho, e em seguida o assa, come a metade e guarda escondido o restante. Apresentaram-se imediatamente os revoltosos pelo odor daquele abominável sacrifício e a ameaçaram que se não lhes mostrassem a comida que havia preparado, a esfaqueariam imediatamente. Respondeu a mulher que lhes havia guardado uma boa parte e lhes mostrou os restos de seu próprio filho. Tomados por um calafrio de horror ficaram fora de si, petrificados ante aquele espetáculo. Mas ela:

"Este", disse-lhes,

"é meu filho legítimo e obra que me pertence. Comei, posto que também eu comi. Não pretendais mostrar-vos nem mais brandos que uma mulher nem mais compassivos que uma mãe. Mas se quereis passar por pios e rechaçais meu sacrifício, eu comi a metade e para mim seja também o que sobra.

Depois destas palavras, os soldados saíram estremecidos. Só para esta façanha se sentiram covardes. Só esta comida reservaram para a mãe. A cidade inteira se encheu imediatamente daquela abominação e, apresentando-se cada um ante os olhos a tragédia, todos estremeciam de terror, como se cada um tivesse cometido aquele crime. Os que sofriam fome tinham pressa em morrer e se considerava felizes os que se lhes haviam adiantado, antes de ouvir e contemplar desgraças semelhantes. A tragédia correu também muito rapidamente pelo acampamento dos romanos. Uns se negavam a acreditar; outros se lastimavam; à maior parte, sem duvida, não fez senão inflamar mais o ódio contra nossa nação" (Flavio Josefo, Bell. Iud. VI, 3, p.285).

Paulo e a morte de Estevão

 


Gálatas - 1,22 - "De acordo que, pessoalmente, eu era desconhecido às igrejas da Judéia que estão em Cristo"

Atos - 7,58 - "Lançaram Estevão fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram os seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo (Paulo).

Em Gálatas Paulo afirma nunca ter estado em Jerusalém e em Atos, Lucas afirma que ele estava no apedrejamento de Estevão e que devastava a igreja em Jerusalém. Como resolver tal antinomia?

Para que possamos tentar elucidar um pouco deste problema, devemos deixar claro alguns pontos centrais — Lucas não conheceu Jesus. Isso é um fato. Nenhum evangelista o conheceu - outro fato. Todos evangelistas se utilizaram de fontes escritas e orais baseadas nas tradições acerca de Jesus. Da mesma forma, por incrível que isso possa parecer, o autor do evangelho segundo Lucas e dos Atos dos Apóstolos provavelmente não conheceu Paulo. Se o conheceu, seu contato foi insuficiente para dele ter sido um seguidor, companheiro ou discípulo de longa data.

As contradições entre os relatos dos Atos e as Cartas de Paulo, bem como as diferenças entre “teologia paulina” apresentada por Lucas e a teologia das cartas autênticas de Paulo são várias e extrapolam o escopo deste tópico. Neste sentido, como pontua Kümmel, “É fora de dúvida, pois, que nos três pontos básicos supracitados, a respeito da atividade de Paulo, o autor de Atos tem um conhecimento de tal forma deturpado a respeito dos fatos históricos, que dificilmente poderia ter sido companheiro de Paulo nas viagens missionárias deste.” KUMMEL, Introdução ao Novo Testamento, 1982, p.230)

Não só o autor de Lucas possui um conhecimento secundário acerca da trajetória de Paulo, como também toda a obra dos Atos dos Apóstolos de forma alguma pode ser considerada como um texto com pretensões historiográficas. Como pontua Helmut Koester, “É muito difícil encontrar no Livro dos Atos informações históricas úteis. Como o autor não escreve uma história, mas uma epopéia, ele não submeteu nenhum material tradicional ao escrutínio crítico do historiador.” KOESTER, Introdução ao Novo Testamento, vol. 2, 2005, p.339-40)

Neste sentido, o material lucano deve ser encarado prioritariamente a partir de seu propósito apologético, qual seja – o de transmitir a um público gentio a trajetória de uma Igreja unificada, evitando-se e minimizando a idéia de conflitos de tal Igreja para com o Império Romano. É possível encontrar ecos de eventos e tradições antigas ligadas aos autores dos discursos encontrados em Lucas. Por outro lado, tais discursos só podem ser devidamente interpretados a partir da proposta apologética editorial do autor lucano.

Como mencionam Cláudio Moreschini e Enrico Norelli em seu História da Literatura Cristã Antiga grega e Latina: “Os discursos dos Atos são importantes para o estudo do pensamento do autor; as convenções historiográficas antigas permitiam por na boca dos personagens históricos discursos que eles não tinha realmente pronunciado, mas que serviam para iluminar o significado da situação.” [1995, p.98] Koester [p.340] concorda com Moreschini e Norelli quanto à inserção de discursos compostos pelo autor na boca de personagens históricos retratados como sendo uma técnica da historiografia antiga. No entanto, ressalta, que a mesma técnica era usada por autores de romances e epopéias, de tal forma a destacar o significado de eventos importantes.

Com relação à antinomia em questão, pontuamos a seguinte visão dos autores:

“A presença de Paulo na morte de Estevão (At 7,58) é excluída por Gl 1,22. Atos 8,3 não é histórico pela mesma razão, e consequentemente também Atos 26,10-11. É impensável que Paulo, de posse de cartas do sumo sacerdote, pudesse ter levado cristãos de fora da Palestina para Jerusalém para serem punidos. Nem o sumo sacerdote e nem o sinédrio judaico em Jerusalém jamais tiveram esses poderes de jurisdição.” [KOESTER, p.115]

“Por outro lado, é pouco provável que tenha recebido uma formação rabínica em Jerusalém junto ao grande Gamaliel (At 5,34; 22,3) [...] Que, no entanto, o centro de sua atividade de perseguidor fosse Jerusalém (At 9, 1-2), a ponto de assistir ao apedrejamento de Estevão (At 7,58; 8,1; 22,20), parece contradito por Gl 1,22, segundo a qual ele era pessoalmente desconhecido nas igrejas da Judéia.” [MORESCHINI e NORELLI, p.35-6]

Concluindo, então:

1 - Os relatos acerca de Paulo, sob a perspectiva lucana, devem ser avaliados sempre com reservas e cotejados com a informação das epístolas de Paulo, as quais possuem sempre uma primazia enquanto fonte histórica.

2 – O texto de Lucas não se conforma como um trabalho com pretensões historiográficas. O mesmo deve ser visto sob a ótica literária de uma epopéia e a partir do propósito apologético específico do autor.

3 – Os relatos sobre a atividade de Paulo na Judéia apresentam antinomias. Neste sentido, tendo, pois a concordar com as supracitadas posições de Koester, Moreschini e Norelli.

Demônio Geraseno

 


"Ao chegar ao outro lado, ao país dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoniados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que puseram-se a gritar: 'Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?' Ora, a certa distância deles, havia uma manada de porcos que pastavam. Os demônios lhe imploravam, dizendo: 'Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos' Jesus lhes disse: 'Ide'. Eles, saindo, foram para os porcos e logo toda a manada se precipitou no mar, do alto de um precipício, e pereceu nas águas."[Mateus 8:28-32]

"Navegaram em direção à região dos gerasenos, que está do lado contrário da Galiléia. Ao pisarem terra firme, veio ao seu encontro um homem da cidade, possesso de demônios. Havia muito que andava sem roupas e não habitava em casa alguma, mas em sepulturas. Logo que viu a Jesus começou a gritar, caiu-lhe aos pés e disse em alta voz: 'Que queres de mim, Jesus filho do Deus altíssimo? Peço-te que não me atormentes' Jesus com efeito, ordenava ao espírito impuro que saísse do homem, pois se apossava dele com frequência. Para guardá-lo, prendiam-no com grilhões e algemas, mas ele arrebentava as correntes e era impelido pelo demônio para os lugares desertos. Jesus perguntou-lhe: 'Qual é o teu nome?' - 'Legião', respondeu, porque muitos demônios haviam entrado nele. E rogavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo. Ora, havia ali, pastando na montanha, numerosa manada de porcos. Os demônios rogavam que Jesus lhes permitisse entrar nos porcos. E ele o permitiu. Os demônios então saíram do homem, entraram nos porcos e a manada se arrojou pelo precipício, dentro do lago, e se afogou."[Lucas 8:26-33]

"Chegaram do outro lado do mar, à região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro: habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o tinham prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo. E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante dele, clamando em alta voz: 'Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!' Com efeito, Jesus lhe disse: 'Sai deste homem, espírito impuro!' E perguntou-lhe: 'Qual é o seu nome?' Respondeu: 'Legião é meu nome, porque somos muitos'. E rogava-lhe insistentemente que não os mandasse para fora daquela região. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. Rogavam-lhe, então, os espíritos impuros dizendo: 'Manda-nos para os porcos, para que entremos neles.' Ele o permitiu. E os espíritos saíram, entraram nos porcos e a manada - cerca de dois mil - se arrojou no precipício abaixo, e se afogavam no mar."[Marcos 5:1-13]

Comentário da Bíblia de Jerusalém sobre o relato de Marcos: "A aldeia de Gerasa, a atual Djerash, está situada a mais de 50 km do lago de Tiberíades, o que torna impossível o episódio dos porcos. É possível que Mc misture dois episódios distintos. Conforme o primeiro, Jesus teria realizado simples exorcismo, na região de Gerasa (vv. 1-8.18-20). Conforme o segundo (cf. Mt 8,28-34), Jesus manda os demônios para os porcos que se precipitam no lago." [Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2008, p.1765]

A interpretação típica desta passagem é a literal. Jesus encontra um possesso na região da Decápolis e pratica ali um exorcismo. Aquilo, no entanto, que parece ser mais um dos vários exorcismos praticados por Jesus pode, na verdade, ser outra coisa bem diversa daquilo que aparenta.

Essa passagem está cheia de possíveis complicadores, dado que não era de se supor a presença de uma criação de suinos entre judeus. De qualquer forma, para que possamos compreender a questão dos porcos, deve-se pontuar que a região de Gerasa (vista em Marcos) ou Gadara (vista em Mateus) fica na região da Decápolis (atual Jordânia), fora da Judéia. Logo, a presença de uma criação de porcos nessa região não é improvável, dado que era habitada por uma cultura não-judaica em sua maioria. Um outro dado relevante é a distância destas cidades até o mar. Gerasa fica a 48 km do Lago [mar] da Galiléia. Fica também a uma distância semelhante do Mar Morto.Já Gadara fica a 9,6 km. Confira aqui o mapa da região. Seria realmente um evento grotesco a imagem de 2 mil porcos percorrendo uma verdadeira maratona para se suicidarem.

Mateus nos fala sobre dois endemoniados. Essa parece ser, na verdade, uma opção redacional peculiar do evangelista. Da mesma forma encontramos dois cegos em Jericó (Mt 20,30) e dois cegos em Betsaida (9,29). Tais "duplos" parecem ser um recuro estilístico mateano.

Por outro lado, tal episódio é apenas a imagem de algo bem diverso daquilo que uma interpratação literal possa transparecer. Ela se refere ao império romano. Podemos encontrar referências no Talmud e em outros textos judaicos nos quais os gentios são associados chamados de porcos, cães ou bestas. Em uma destas passagens, encontramos: "As almas de não-judeus vem de espíritos impuros e são chamadas porcos" Talmud (Jalkut Rubeni gadol 12b). 

Na verdade, o próprio Jesus se referiu a eles nestas palavras [caso da mulher cananéia]. O nome do demônio que possuía o corpo daquele indivíduo (Mateus fala de dois endemoniados) nos dá a pista central - trata-se de uma legião. Não é atoa que se contava na casa dos milhares o seu número. Provavelmente o autor original de tal passagem se referia à X legião Fretensis.

Este texto não trata da expulsão física de demônios, mas é, na verdade, mapa cifrado da expulsão do império e da instauração do Reino de Deus, por Jesus. A saída do demônio é a libertação da opressão imposta pelo domínio romano.

Mas como poderíamos demonstrar tal hipótese?

Para tal, vamos observar alguns dados sobre a marcha das tropas romanas quando da guerra contra os judeus entre 66-73 d.C. Percebam como foi a política de destruição e terra arrasada imposta pelos Romanos à Gerasa e Gadara [segundo Flávio Josefo em seu Guerras Judaicas] :

Gerasa

"Ânio [o oficial comandante] tomou a cidade de assalto, matou mil jovens — todos aqueles que não tinham escapado —, aprisionou mulheres e crianças e permitiu que seus soldados saqueassem os bens. Finalmente incendiou as casas e marchou contra as aldeias circunvizinhas. Os que podiam, fugiram, os inválidos pereceram e tudo o que restou foi destruído pelas chamas" (G.J. 4.488-89) citado por HORSLEY, Richard & HANSON, John. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995, p.190.

Gadara

A cidade de Gadara foi tomada pelos romanos sem muito esforço, dado que a elite da cidade secretamente fez um acordo com os romanos para protegerem seus bens. Porém... Os rebeldes fugiram da cidade... O que lhes foi feito?

"Vespasiano mandou Plácido com 500 homens de cavalaria e 3000 de infantaria perseguir aqueles que haviam fugido de Gadara... Quando os fugitivos subitamente viram a cavalaria em sua perseguição, invadiram uma aldeia chamada Betenabris antes de iniciar qualquer batalha. Plácido ordenou um ataque e após uma renhida batalha, que se estendeu até a noite, capturou as muralhas e toda a aldeia. Os não-combatentes foram mortos em massa, enquanto os fisicamente mais capazes fugiram. Os soldados saquearam as casas e depois incendiaram a aldeia. Entrementes, aqueles que tinham fugido agitaram a zona rural."

Acabaram pois se refugiando em Jericó:

"Plácido, baseando-se na sua cavalaria e animado por seus sucessos anteriores, perseguiu-os até o Jordão, matando a todos os que podiam capturar... Seu caminho até a região era um longo rastro de carnificina, e o Jordão... e o mar Morto ficaram cheios de cadáveres..." [G J, citado por HORSLEY, p.190-1]

Moeda romana - X Legião Fretensis

Sentiram alguma semelhança com uma grande trajetória percorrida pela legião perseguidora romana e pelos rebeldes perseguidos israelitas [De Gadara até ................................ os corpos serem jogados no mar] - boiando?

Nunca houve um tal milagre de Jesus expulsando um demônio chamado Legião de um possuído na região da Decápolis. E nem muito menos tais demônios entraram dentro de porcos que saíram percorrendo distâncias de 50 km até se jogarem ao mar. Nada disso aconteceu. Seria de fato a coisa mais maluca ver a enorme maratona dos milhares de porcos se jogando ao mar, praticamente enfartados de tanto correrem.




O relato dos evangelistas em nada tem a ver com um exorcismo praticado por Jesus pessoalmente. O que está contido nessa passagem é uma mensagem sutil de combate ao império romano. A região da Palestina está possuída. E este demônio é Roma. Gerasa e Gadara simbolizam o mal perpetrado pelo domínio.

O evento histórico da chacina e destruição em massa perpetrada pelas tropas e legiões de Vespasiano estão bem nítidos na pele do evangelista que está escrevendo pouco após tais chacinas. A perseguição e morte dos rebeldes israelitas por vários e vários Km até chegarem ao mar morto e ao Jordão são invertidos pela narrativa do evangelista.

A implantação do Reino de Deus significa a expulsão do demônio [Roma] - a Legião expulsa [os porcos gentios] se precipita ao mar. O evento histórico é revertido na ótica do evangelista. Na implantação do Reino de Deus, são os romanos [a legião de demônios] que serão expulsos e destruídos.




Josué circuncida Israel

 

Cena da circuncisão no antigo Egito. Reino Antigo, 6ª Dinastia, reinado do rei Teti, ca. 2345-2333 AC. Tumba de Ankhmahor, necrópole de Saqqara. Flickr, kairoinfo4u.

Antes de a circuncisão ser uma  mitsvá , era um marcador cultural: Assim, Josué introduz a circuncisão em Israel em Gilgal (Josué 5:2-9), os filhos de Jacó insistem que os siquemitas se circuncidam antes de Siquém se casar com sua irmã (Gênesis 34), e os israelitas desprezam os filisteus por serem incircuncisos (Juízes 14:3).

Após conduzir os israelitas à terra prometida, Josué os circuncida por ordem de Deus:

יהושע ה:ג וַיַּעַשׂ לוֹ יְהוֹשֻׁעַ חַרְבוֹת צֻרִים וַיָּמָל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶל גִּבְעַת הָעֲרָלוֹת.
Josué 5:3 Então Josué fez facas de sílex e circuncisou os israelitas no monte dos prepúcios.

Após explicar por que os israelitas não haviam sido circuncidados (vv. 4-7), a narrativa continua:

יהושע ה:ט וַיֹּאמֶר יְ-הוָה אֶל יְהוֹשֻׁעַ הַיּוֹם גַּלּוֹתִי אֶת חֶרְפַּת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיכֶם וַיִּקְרָא שֵׁם הַמָּקוֹם הַהוּא גִּלְגָּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה.
Josué 5:9 Então o Senhor disse a Josué: “Hoje tirei de você a vergonha [Heb. galoti ] do Egito”. E chamou aquele lugar de Gilgal, nome que permanece até hoje.

Que “vergonha para o Egito” é essa?

Desgraça da Errante (Abarbanel)

Dom Isaac Abarbanel (1437-1508) relaciona essa desgraça à história dos batedores em Números 13-14:

ואחשוב אני בזה שלפי שהלכו ישראל במדבר ארבעים שנה היו המק אומרים “מבלתי יכולת ה' להביאם אל הארץ אשר נשבע להם וישחטם במדבר” (במ'יד, טז). ועתה כאשר העבירם האל ית' אל הארץ והיו ישראל בגלגל אמר, “היום גלותי את חרפת מצרים מעליכם” כי יאמרו שכבר באתם אל הארץ.
Minha opinião sobre este assunto é que, como os israelitas vagaram pelo deserto durante quarenta anos, os egípcios disseram: “Por causa da incapacidade do Senhor de os conduzir à terra que lhes prometeu sob juramento, ele os massacra no deserto” (Números 14:16). Ora, quando Deus os conduziu à terra e os israelitas estavam presentes em Gilgal, Deus disse: “Hoje removi de vocês a afronta do Egito”, pois eles agora dirão (admitirão) que vocês já entraram na terra.

Segundo Abarbanel, a presença de Israel no deserto durante quarenta anos foi uma humilhação nacional que finalmente chegou ao fim com a entrada dos israelitas na terra em Gilgal. Mas esta interpretação é problemática por várias razões:

A vergonha de Deus – A vergonha referida em Números 14, a “incapacidade do Senhor de os levar para a terra”, refere-se a Deus, enquanto em Josué a vergonha é do povo. 

Sem relação com a circuncisão – Mais importante ainda, o contexto narrativo em Josué parece indicar que existe uma relação entre a remoção da desonra e a remoção do prepúcio; Números sequer menciona circuncisão ou prepúcios.

Qual a relação entre a “vergonha do Egito” e a circuncisão dos israelitas em Gilgal?

A desgraça da escravidão (Kaufmann)

O grande ideólogo e historiador israelense, Yehezkel Kaufmann (1889-1963), ofereceu uma explicação “sionista” para o motivo pelo qual os israelitas não circuncidaram seus filhos no deserto, em seu comentário sobre Josué, no versículo 9:

הפסוק מתבאר רק מתוך ההשערה ששיערנו, שישראל נדרו שלא ימולו את בניהם עד שיבואו לארצם. זאת אומרת, שעד אז לא היתה גאולתם שלמה וכאילו נמשכה עוד יציאת מצרים וחרפת שעבודם לא נגולה מעליהם. חרפת מצרים היא איפוא הערלה כזכר לעבדות.
O versículo só pode ser explicado com base em nossas sugestões de que os israelitas fizeram um voto de não circuncidar seus filhos até entrarem em sua terra. Significando que, até então, sua redenção estava incompleta, e era como se o êxodo do Egito continuasse e a desgraça de sua escravidão não tivesse sido removida deles. “A desgraça do Egito” é, portanto, o prepúcio como lembrança da escravidão. 

Kaufmann inventa aqui um voto que não tem qualquer vestígio na Bíblia e não está de todo implícito neste texto. A natureza fantasiosa desta conjectura é evidente.

Vergonha de não circuncidar no deserto (Blum)

O estudioso bíblico alemão Erhard Blum sugere que a desgraça é a própria falha da geração do êxodo em circuncidar seus filhos no deserto, como deveriam ter feito. Essa falha pecaminosa é parte integrante do decreto de que a geração do êxodo deve morrer no deserto.

A implicação disso tudo é que o êxodo do Egito não foi verdadeiramente alcançado com a mera chegada à terra prometida. A falha na circuncisão precisava ser corrigida para que o êxodo pudesse ser de fato concretizado. Assim como na sugestão de Kaufmann, considero essa abordagem artificial; não há indicação em nenhum outro texto bíblico de que os israelitas do período no deserto tenham pecado por não se circuncidarem.

A vergonha de ser como os egípcios (Radak)

Radak (R. David Kimchi, c. 1160-1235) sugeriu que a circuncisão dos israelitas em Gilgal removia o prepúcio, considerado vergonhoso, que caracterizava os egípcios. Ele explica as palavras חרפת מצרים com o seguinte comentário:

לפי שיצאו האבות ממצרים, והיו הבנים ערלים כמו המצרים, והערלה חרפה כמו שאמר “כי חרפה היא לנו” (בר' לד, יד).
Visto que os pais saíram do Egito e os filhos eram incircuncisos como os egípcios. E o prepúcio é uma vergonha, como está escrito: “pois é uma vergonha para nós” (Gênesis 34:14).

Isso teria feito todo o sentido para seus leitores, mas as informações que temos agora sobre o antigo Egito sugerem que é problemático.

Egípcios circuncidados

Os antigos egípcios praticavam a circuncisão. Nas palavras do historiador grego Heródoto, do século V a.C. , eles “praticavam a circuncisão por questões de higiene, considerando melhor ser limpo do que bonito”. De fato, a antiga “Estela de Uha” egípcia (cerca de 2100 a.C.) refere-se à circuncisão deste oficial em um rito comunitário juntamente com outros cento e vinte homens. 

Mesmo que a circuncisão não fosse considerada um requisito absoluto para todos os egípcios em todos os períodos, ainda é estranho referir-se à incircuncisão como uma característica especificamente egípcia quando tantos egípcios a praticavam. 

Desgraça segundo os egípcios

Sofonias 2:8 sugere que essa interpretação envolve uma tradução errônea:

צפניה ב:ח שָׁמַעְתִּי חֶרְפַּת מוֹאָב וְגִדּוּפֵי בְּנֵי עַמּוֹן אֲשֶׁר חֵרְפוּ אֶת עַמִּי…
Sofonias 2:8 Ouvi as afrontas de Moabe e os insultos do povo de Amom, com que afrontaram o meu povo…

Se חרפת מואב se refere à afronta ou aos insultos vindos de Moabe e dirigidos aos israelitas , parece razoável supor que o mesmo se aplique a חרפת מצרים. Essa expressão deveria se referir a uma desgraça associada a Israel e expressa com escárnio pelos egípcios, e não a uma desgraça associada ao Egito.

Desprezado pelos egípcios (Keunen)

Assim, a interpretação mais convincente é que a declaração dramática de Deus a Josué no versículo 9, "Hoje tirei de vocês a vergonha do Egito", implica que os israelitas no Egito eram desprezados por seus superiores egípcios por serem incircuncisos.

Esta leitura foi sugerida há muito tempo por Abraham Keunen (1828-1891),  seguido por George A. Cooke (1865-1939)  e Carl Steuernagel (1869-1958), e foi recentemente revivida pelo estudioso ítalo-israelense Alexander Rofé. Seguindo esta abordagem, Josué introduz a circuncisão em Israel “hoje”, em Gilgal, pela primeira vez, uma vez que eles não eram circuncidados antes disso.

A circuncisão como mandamento é sacerdotal tardia

Esta interpretação, que pressupõe que Josué 5:9 introduz a circuncisão como um rito, está em clara tensão com Gênesis 17 e textos semelhantes, que falam da circuncisão como um sinal central da aliança com Deus desde a época de Abraão. No entanto, é provável que Gênesis 17, parte da fonte sacerdotal ou estrato da Torá, seja muito tardio (exílico? pós-exílico?), assim como grande parte de P, e não reflita necessariamente a prática pré-exílica.

A Ausência da Mitzvá da Circuncisão nos Textos Bíblicos

O Decálogo (Êxodo 20, Deuteronômio 5), a Coleção da Aliança (Êxodo 21-23), o Decálogo Cultual (Êxodo 34), a Coleção da Santidade (Levítico 17-26), o livro de Números e a Coleção da Lei Deuteronômica (Deuteronômio 12-26) nunca mencionam a “aliança da circuncisão”.

Na verdade, além da breve menção à circuncisão de Isaque em Gênesis 21:4 (também de origem sacerdotal), não encontramos menção a nenhum personagem bíblico realizando ou se submetendo a esse rito supostamente central da aliança de Abraão. A circuncisão de seu filho por Zípora em Êxodo 4:24-26, de uma fonte não sacerdotal, é realizada para salvar seu marido com o uso do sangue, e não para introduzir a criança na aliança de Abraão. De fato, a narrativa não usa a palavra "aliança".

A circuncisão como marcador cultural

O caráter não religioso e não vinculante da circuncisão se reflete na história não sacerdotal do estupro de Diná em Gênesis 34, que usa o mesmo termo “desgraça” (חרפה) que Josué 5:9:

בראשית לד:יד וַיֹּאמְרוּ אֲלֵיהֶם לֹא נוּכַל לַעֲשׂוֹת הַדָּבָר הַזֶּה לָתֵת אֶת אֲחֹתֵנוּ לְאִישׁ אֲשֶׁר לוֹ עָרְלָה כִּי חֶרְפָּה הִוא לָנוּ .
Gênesis 34:14 E eles disseram-lhes: “Não podemos fazer isso, dar nossa irmã a um homem incircunciso, porque isso é uma vergonha entre nós .

A base do pedido dos irmãos, implicitamente aprovado por Jacó, para que o povo de Siquém se submetesse à circuncisão, reside no fato de que a ausência de circuncisão em um homem é considerada uma desgraça entre os israelitas. O texto não menciona Javé, Abraão ou aliança. Os siquemitas não são solicitados a reconhecer o Deus de Israel, mas sim a, literalmente, remover uma barreira étnica que dividia os grupos.

Da mesma forma, a referência depreciativa aos filisteus em diversas passagens relativamente antigas, não sacerdotais (Juízes 14:3; 15:18; 1 Samuel 17:26, 36), como sendo “incircuncisos” (ערלים), não faz sentido se a circuncisão era considerada o sinal único da aliança entre Deus e Israel. Afinal, os filisteus não eram israelitas. Por que algum israelita esperaria que eles fossem circuncidados?!

Em resumo, nos textos pré-sacerdotais que discutem a circuncisão, ela não é uma mitsvá de YHWH, mas um marcador cultural. Agora que estavam em sua própria terra, Josué introduz a circuncisão aos israelitas como um sinal de que eles não deveriam mais se sentir "desonrados" aos olhos dos egípcios. Em vez disso, como os egípcios, eles também passaram a ser circuncidados. Nessa tradição, Josué — e não Abraão — é o pai da circuncisão israelita.

A desculpa da natureza selvagem

Os versículos que precedem Josué 5:9, no entanto, contradizem essa interpretação. Eles explicam por que os israelitas não haviam sido circuncidados até então (vv. 4-7), insistindo que os israelitas que saíram do Egito foram circuncidados e que somente a geração seguinte, nascida durante a viagem, foi circuncidada por Josué:

יהושע ה:ה כִּי מֻלִים הָיוּ כָּל הָעָם הַיֹּצְאִים וְכָל הָעָם הַיִּלֹּדִים בַּמִּדְבָּר בַּדֶּרֶךְ בְּצֵאתָם מִמִּצְרַיִם לֹא מָלוּ.
Josué 5:5 Ora, enquanto todos os que saíram do Egito eram circuncidados, nenhum dos que nasceram depois do êxodo, durante a peregrinação no deserto, havia sido circuncidado.

Esta interpretação faz parte de um excurso (vv. 4-7 ) que constitui uma “correção” tardia do texto original. O redator corrigiu a afirmação problemática sobre os israelitas não serem circuncidados até então, insistindo que os israelitas que saíram do Egito eram circuncidados e que Josué estava apenas restabelecendo uma prática anterior.

Ideia de Josué – Não de YHWH

Uma análise atenta do versículo 9 corrobora a suposição de que a circuncisão é entendida aqui como uma prática cultural, e não como um mandamento de Deus:

יהושע ה:ט וַיֹּאמֶר יְ-הוָה אֶל יְהוֹשֻׁעַ הַיּוֹם גַּלּוֹתִי אֶת חֶרְפַּת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיכֶם וַיִּקְרָא שֵׁם הַמָּקוֹם הַהוּא גִּלְגָּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה.
Josué 5: 9 Então o Senhor disse a Josué: "Hoje tirei de você a vergonha do Egito". E chamou aquele lugar de Gilgal, nome que permanece até hoje.

Há duas peculiaridades aqui:

YHWH Nomeando o Lugar – Esse tipo de “etiologia do nome do lugar” é quase sempre pronunciado por um personagem humano ou pelo narrador anônimo da história, não por Deus.

YHWH dirigindo-se ao povo – No versículo, YHWH está aparentemente se dirigindo a Josué quando, na verdade, as palavras são dirigidas ao povo de Israel.

Ambos os problemas podem ser resolvidos se assumirmos que as palavras “YHWH para” foram adicionadas ao versículo (veja o itálico na citação acima) e que, no versículo original, era Josué quem estava falando. Isso parece muito mais natural, visto que é Josué quem circuncida o povo e remove a “vergonha do Egito” deles. Seguindo essa interpretação, Josué, e não Deus, nomeou o local de Gilgal.

Mandamento de Deus para a Circuncisão

Assim como colocar o discurso sobre a “vergonha do Egito” na boca de Deus é artificial, o mesmo ocorre com a ordem de circuncidar. Aliás, uma análise mais atenta do versículo inicial, onde Deus dá essa ordem, mostra que ele também é redacional:

יהושע ה:ב בָּעֵת הַהִיא אָמַר יְ-הוָה אֶל יְהוֹשֻׁעַ עֲשֵׂה לְךָ חַרְבוֹת צֻרִים וְשׁוּב מֹל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל שֵׁנִית.
Josué 5:2 Naquele tempo, o Senhor disse a Josué: "Faça facas de sílex e circuncide os israelitas pela segunda vez."

De acordo com este versículo, Josué circuncida os israelitas por ordem de YHWH, fazendo-o “novamente… uma segunda vez”. Isto implica que os israelitas foram circuncidados no passado e contradiz a leitura simples do v. 9, em que esta é a primeira vez que os israelitas foram circuncidados. 

A frase “naquele tempo YHWH disse” (בעת ההיא אמר ה') é claramente deuteronomística. Observe como isso se assemelha ao estilo de Dt 10:1, em que Moisés diz: “naquele tempo, YHWH me disse” (בעת ההיא אמר ה' אלי). A expressão “naquele tempo” (בעת ההיא) é usada repetidamente em Deuteronômio e na literatura deuteronomista (Dt 1:9, 16, 18; 2:34; 3:4, 8, 12, 18, 21, 23; 4:14; 5:5; 9:20; 10:1, 8. Cf. Jos 6:26; 11:10, 21; etc.).

Além disso, a ideia de que a circuncisão fazia parte do mandamento de Deus — e certamente as referências no Texto Massorético a esta ser uma segunda circuncisão — está de acordo com o conceito bíblico posterior de que a circuncisão é uma característica da religião israelita, e não meramente um marcador étnico. Assim, eu argumentaria que todo o versículo é uma inserção redacional, juntamente com os versículos 5:4-8a e as palavras adicionadas no versículo 9.

Ideia de Joshua

Após removermos os suplementos e as omissões, ficamos com um breve relato:

יהושע ה:ג וַיַּעַשׂ לוֹ יְהוֹשֻׁעַ חַרְבוֹת צֻרִים וַיָּמָל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶל גִּבְעַת הָעֲרָלוֹת. // ה:ח …וַיֵּשְׁבוּ תַחְתָּם בַּמַּחֲנֶה עַד חֲיוֹתָם. ה:ט וַיֹּאמֶר // יְהוֹשֻׁעַ הַיּוֹם גַּלּוֹתִי אֶת חֶרְפַּת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיכֶם וַיִּקְרָא שֵׁם הַמָּקוֹם הַהוּא גִּלְגָּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה
Josué 5:3 Então Josué fez facas de sílex e circuncisou os israelitas no monte dos prepúcios. // Josué 5:8 …e eles permaneceram onde estavam, no acampamento, até se recuperarem. 5: 9 Então // Josué disse: “Hoje tirei de vocês a vergonha do Egito”. E chamou aquele lugar de Gilgal, nome que permanece até hoje .

A falta de envolvimento de Deus aqui é apoiada pela formulação ויעש לו יהושע חרבות צורים, “e Josué fez para si facas de pedra”, o que implica que a circuncisão dos israelitas foi iniciativa de Josué.

Incluindo Deus no cenário

O editor transformou a decisão de Josué de realizar uma circuncisão em massa dos homens israelitas em Gilgal em uma ordem divina para conferir-lhe significado religioso. A circuncisão é realizada em conformidade com a vontade divina e não meramente para parecer menos "primitiva" segundo os padrões da cultura egípcia.

Este ajuste editorial remove a problemática apresentação de Josué como um líder que inicia atividades cerimoniais por sua própria autoridade humana. Josué não inventa nem institui atos rituais, uma tarefa que pertence estritamente a Deus. Mas na concepção original desta breve história, a circuncisão não era um ritual ou uma mitsvá , mas um marcador cultural, instituído por Josué para que os israelitas pudessem agora ser circuncidados como os egípcios e não mais sentir a dor da desonra.