sábado, 11 de julho de 2026

O rei Salomão e a magia

 


Poucos nomes são tão famosos nas tradições mágicas do mundo ocidental e Oriente Próximo quanto o do rei Salomão. No texto de hoje eu gostaria de traçar um breve panorama histórico da figura, desde a sua presença no material bíblico até o folclore posterior, a fim de poder oferecer um retrato de quem foi Salomão e o porquê de sua importância para a cultura esotérica.

Salomão é um aportuguesamento a partir das transliterações para grego e latim Solomón e Salomon, como consta na Septuaginta e Vulgata. Seu nome em hebraico se diz Shlomo, da mesma raiz shin-lamed-mem que dá a palavra shalom, “paz” – cognato de shalamu em babilônico e salaam em árabe, daí que nesse idioma ele seja conhecido como Sulayman. E, segundo a arqueologia, se existiu mesmo um rei Salomão (o que é bem possível, na verdade), ele foi o governante de um feudo minúsculo no Levante do começo da Idade de Ferro. Com o colapso da Idade de Bronze, os grandes impérios mesopotâmicos, hititas e egípcios se desmantelaram, e nesse vácuo foram surgindo diversos estados menores na região, um deles sendo Israel, um reino muito pouco expressivo no século X a.C. A Salomão são atribuídos os créditos de ter construído o Primeiro Templo em Jerusalém… mas quanto à realidade dessa atribuição os arqueólogos ainda estão em dúvida, dada a proibição das escavações no Monte do Templo e as interpretações conflitantes dos artefatos recuperados.

Quanto ao Templo em si, o que se pode saber é que, em termos de teologia, ainda não havia surgido o monoteísmo estrito pelo qual a tradição abraâmica é conhecida, que acontece no retorno do Exílio da Babilônia (já falamos disso num outro texto aqui). Um termo que os pesquisadores costumam usar para se referir às práticas religiosas do período é monolatria: o louvor a um único deus, o compósito de YHWH/El venerado no antigo Israel, mas sem negar a divindade de outros deuses, cujo culto também seria praticado nesse mesmo espaço. Voltaremos a isso daqui a pouquinho.

A aparição de Salomão na Bíblia como personagem é, na verdade, também muito breve. No final do livro de Samuel nós acompanhamos como o seu pai, o rei David, se engraça com a mulher de um de seus oficiais, chamada Bath-Sheba (ou Bate-Seba), e por talaricar o amigo é castigado com a morte do seu primogênito (Deus não brinca em serviço com os castigos do Antigo Testamento, como bem se sabe). Após esse luto arrasador (e a descrição na Bíblia é, de fato, profundamente dolorosa), David tem um segundo filho: “Então consolou David a Bate-Seba, sua mulher, e entrou a ela, e se deitou com ela, e ela deu à luz um filho, e deu-lhe o nome de Salomão; e o Senhor o amou” (2 Samuel 12:24). Na sequência, no livro de Reis, nós acompanhamos a morte de David e a ascensão de Salomão ao trono.

O primeiro episódio marcante que se vê no livro de Reis, em 1 Reis 3, para ser mais exato, é quando Deus fala com Salomão num sonho durante a noite e lhe diz para fazer um pedido. Salomão, então, pede para que Deus ponha em seu coração discernimento (shomeah, em hebraico, da raiz shin-mem-ayin, com o sentido de “escutar, ouvir”, como em shemah) para julgar o seu povo com justiça. E Deus fica muito feliz por Salomão ter lhe pedido sabedoria e não riqueza e honra, por isso ele ganha não só a sabedoria que pediu, como também riqueza e honra, de bônus. E, de fato, segundo as descrições posteriores, o reino de Salomão era riquíssimo e o texto oferece várias descrições de seu luxo e pompa. Na sequência, acontece a cena mais famosa da mitologia salomônica em que ele julga o caso do bebê das duas prostitutas que disputam a maternidade da criança, demonstrando a sagacidade do segundo monarca de Israel.

Em 1 Reis 5, Salomão manda construir o Templo com base na lógica de que, agora que o povo deixou de ser nômade e ele mesmo está estabelecido num palácio, sem inimigos, faz sentido que Deus tenha um lugar só para sua adoração, e o texto bíblico faz uma longa descrição do espaço, como fez quando Moisés manda construir o Tabernáculo (o templo portátil) no livro do Êxodo. Esse é o templo que é destruído no dia 9 do mês Av, após a invasão dos babilônios sob Nabucodonosor II, que leva ao período do Exílio.

Agora, o ponto em que Salomão cai em desgraça é em 1 Reis 11, onde consta que, por conta de seu amor por mulheres estrangeiras, Salomão comete idolatria e se curva diante de ídolos… o que, como vocês vão reparar, é um pouco fora do personagem para uma figura famosa por sua sabedoria. O livro de Reis ainda não trata desses ídolos em termos de demônios, nem estabelece que Salomão teria o poder de comandar espíritos impuros, mas essa leitura vai se insinuar com o tempo na tradição salomônica, aos poucos criando a cena insólita em que o rei se curva diante dos demônios que obedecem a ninguém menos que o próprio Salomão. Mas aqui estou me adiantando, já que ainda não tem nada disso no texto bíblico, apenas a acusação de idolatria, de veneração de um “falso deus” (especificamente, essas divindades seriam Ashtoreth, deusa dos sidônios, Moloch e Chemosh). Por esse motivo, seu reino termina dividido. O que isso significa?

Como expliquei no primeiro texto da série “Lendo a Bíblia”, o antigo Israel na verdade era dois reinos: o reino de Israel propriamente era o reino do norte, com capital em Samaria, ao passo que Judá era o reino do sul, com capital em Jerusalém. É muito provável que historicamente essa união nunca tenha acontecido, mas a versão do texto bíblico é que houve um tempo em que o esse reino foi unificado, tendo sido fundado por David, com a capital em Jerusalém, mas, graças ao pecado de Salomão, com a ascensão do seu herdeiro Rehoboão, Deus repartiu o território em dois. Como alguns estudiosos entendem, é possível que seja o caso clássico de o texto bíblico expor certas tensões ideológicas, servindo como um tipo de propaganda contra o povo do norte. Temos essa ideia de que a monolatria era a norma no Primeiro Templo, por isso é perfeitamente possível que, sob um olhar posterior, pós-exílico e mais rígido, essa tolerância religiosa anterior fosse entendida como idolatria. E, se entrarmos ainda mais fundo, existe ainda a hipótese de que o Salomão bíblico não teria sido baseado em nenhum monarca local, que certamente jamais poderia exibir toda essa magnificência e opulência descritas na Bíblia, haja vista o fato de que Jerusalém era, como dito, um feudo insignificante na época. Segundo Russell Gmirkin, num capítulo de um livro de 2020 publicado na série Library of Hebrew Bible/Old Testament Studies (comentado aqui), o verdadeiro rei Salomão seria o rei assírio Shumanu-asharedu do séc. IX a.C., mais conhecido como Salmanaser III. Não é possível falar com qualquer grau de certeza quando estamos tratando de um assunto tão delicado e elusivo, mas não é uma hipótese implausível.

Em todo caso, Salomão pode representar tanto a apropriação de uma narrativa assíria quanto um tipo de propaganda anti-monarquista, que pinta o povo do norte como um bando de idólatras (afinal, se nem mesmo o mais sábio dentre eles não conseguiu evitar cair em idolatria, que esperança resta para o povo comum?). No entanto, não demora muito para que comece a ocorrer a reabilitação da figura de Salomão ainda no período de redação e compilação do texto bíblico. Há três livros dentro do Antigo Testamento cuja autoria é atribuída ao velho rei. São eles Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos.

O livro dos Provérbios é, assim como os Salmos e Jó, parte dos chamados textos poéticos nas divisões judaicas do Antigo Testamento, representando um exemplo israelita de uma tradição mais antiga da literatura do Antigo Oriente Próximo, a literatura sapiencial. O próprio texto se apresenta como “Os provérbios de Salomão, filho de David, rei de Israel”, apesar de a provável data de composição ser muito posterior, remetendo ao período persa ou helenístico. No entanto, são marcantes os paralelos com o material que se encontra no Egito e na Mesopotâmia. E aí temos o Eclesiastes… o nome do livro em português (não confundir com Eclesiástico, que é um outro livro que não faz parte do cânone judaico) vem do grego Ekklesiastes, de ekklesia, que significa “assembleia” (que é a etimologia também de “igreja”), traduzindo o nome em hebraico original, Qohelet, literalmente “aquele que reúne” ou “pregador”. Nesse caso, temos mais uma obra de literatura sapiencial, agora possivelmente influenciada não apenas pela tradição do Antigo Oriente Próximo como também por algo do pensamento grego (embora aí a uma questão seja um pouco mais polêmica). A identificação de Salomão aqui deriva do versículo que afirma que o autor do livro, que permanece anônimo, foi “rei de Israel em Jerusalém”… o que significa que só poderia ser Salomão, porque o próximo rei de Israel governaria a partir de Samaria, não Jerusalém, capital de Judá. Para quem tiver interesse em literatura sapiencial, os textos do volume Wisdom Literature in Mesopotamia and Israel, editado por Richard Clifford, são um bom lugar para começar a estudar o assunto.

Já o Cântico dos Cânticos é um poema erótico, um tipo de epitalâmio em forma dramática, celebrando a chegada de uma nova esposa ao harém de Salomão (que contava com o número absurdo de 700 esposas e 300 concubinas). Por conta do teor desses versos, sua interpretação religiosa mais comum é que se trata de uma expressão do amor (não carnal) entre o deus de Israel e o povo, uma metáfora já bem atestada na literatura bíblica (vide os livros de Oseias e Ezequiel, por exemplo). Dados alguns poemas sumérios que sobreviveram, inclusive com diálogos eróticos entre Inana e Dumuzid, é muito possível que seja mais um caso de uma continuidade entre as tradições israelita e mesopotâmica. Em termos de datas, porém, aqui temos um caso mais marcadamente tardio, por conta da presença de elementos linguísticos como a palavra pardes, “pomar, jardim, paraíso”, cognata do grego paradeiso, de origem indo-europeia, o que aponta para o contato com persas ou gregos.

Aqui observamos o começo da transformação da figura de Salomão ainda dentro do cânone bíblico (apesar que esses três livros escaparam por muito pouco de não serem canonizados, curiosamente, sendo salvos por conta de sua atribuição de autoria). Quem acompanha a trajetória de como o antigo rei era visto pelos próprios israelitas é o autor Pablo Torijano, em seu Solomon the Esoteric King: from King to Magus, the Development of a Tradition. Como Torijano comenta, o detalhe vergonhoso do pecado de Salomão aos poucos fica em segundo plano e vai sendo enfatizada sua sabedoria, em vez disso, que passa a abranger todos os aspectos da palavra, desde o domínio de saberes práticos e orientações gerais sobre como viver até os mais esotéricos. O livro deuterocanônico conhecido como Sabedoria de Salomão, escrito por um autor de origem judaica, porém no idioma grego, no século I a.C., representa um exemplo dessa caracterização. Nele se lê:

“Que Deus me permita falar como eu quisera, e ter pensamentos dignos dos dons que recebi, porque é ele mesmo quem guia a sabedoria e emenda os sábios, porque nós estamos nas suas mãos, nós e nossos discursos, toda a nossa inteligência e nossa habilidade; foi ele quem me deu a verdadeira ciência de todas as coisas, quem me fez conhecer a constituição do mundo e as virtudes dos elementos, o começo, o fim e o meio dos tempos, a sucessão dos solstícios e as mutações das estações, os ciclos do ano e as posições dos astros, a natureza dos animais e os instintos dos brutos, os poderes dos espíritos e os pensamentos dos homens, a variedade das plantas e as propriedades das raízes. Tudo que está escondido e tudo que está aparente eu conheço: porque foi a sabedoria, criadora de todas as coisas, que mo ensinou” (Sabedoria de Salomão, 7:15-21)

Aqui já estamos além dos limites da sabedoria prática do dia a dia, adentrando o domínio do hermetismo (de fato, Torijano aqui usa o termo “sábio hermético” para caracterizá-lo). Os poderes dos espíritos, as posições dos astros e as propriedades de plantas e raízes… tudo isso se encaixa perfeitamente com a literatura hermética que começa a surgir do período helenístico em diante e representa uma nova camada no imaginário em torno dessa figura bíblica.

Ao mesmo tempo, também começava a emergir a ideia consoante de que Salomão seria, além de tudo, um poderoso exorcista. Quando se fala em exorcismo, geralmente as pessoas pensam no rito romano da Igreja Católica… no entanto, mais uma vez, trata-se de uma prática com um longo histórico no Antigo Oriente Próximo, onde se entendia que diversos tipos de doenças e transtornos físicos e mentais eram causados por espíritos malignos. No próprio texto bíblico mesmo, há um episódio em que Deus manda um espírito ruim para atormentar Saul… e quem acaba expulsando-o é ninguém menos que David, por meio de sua música. Aparentemente, Salomão herda do seu pai esse talento para o exorcismo, pois, como consta na obra do historiador Flávio Josefo:

“Deus também lhe permitiu aprender a habilidade de expulsar demônios, que é uma ciência útil e sanatória para os homens. Ele compôs encantamentos tais por meio dos quais é possível aliviar os destemperos. E nos legou o modo de fazer uso dos exorcismos, por meio dos quais eles afastam demônios, que nunca retornam; e esse método de cura é de grande força até hoje, pois já vi um certo homem em minha própria terra, cujo nome era Eleazar, libertar as pessoas que estavam possuídas na presença de Vespasiano e seus filhos, capitães e toda a multidão de seus soldados. O modo da cura era o seguinte: Ele levou um anel contendo uma raiz de um daqueles tipos mencionados por Salomão até as narinas do possuído, puxando o demônio por meio das suas narinas, e quando o homem caiu imediatamente ele o abjurou para que não lhe retornasse mais, fazendo menção a Salomão e recitando o encantamento que ele compôs.” (Antiguidades dos Judeus, livro 8, seção 42).

A obra de Josefo talvez não seja exatamente representantiva do pensamento judaico de modo geral, pois Josefo foi um autor judeu que escreveu para um público grego e romano e, por isso, muitas vezes oferece uma caracterização da história judaica que apela para o gosto do seu público. No entanto, essa visão de Salomão como exorcista encontra uma outra confirmação nos famosos Manuscritos do Mar Morto, mais especificamente o rolo 11QPsApª. Todo mundo já ouviu a SenseMárcia mandar usar o salmo 66 para “expulsar os capetas de casa”, mas historicamente, na verdade, o salmo de exorcismo por excelência é o 91, como consta nesse manuscrito. E, junto com o salmo, temos nesse rolo bastante fragmentado uma menção clara a Salomão e ao modo como ele “invoca o nome de YHWH com o propósito de livramento contra qualquer peste dos espíritos e demônios e liliths, corujas e chacais”.

Por fim, para encerrarmos esta parte do texto, é interessante apontar que a presença de Salomão não está restrita apenas ao material judaico, mas consta também em alguns pontos dos Papiros Mágicos Gregos – o que não deve ser grande surpresa, considerando o caráter sincrético desse material. Nas linhas 850-929 do 4º livro dos PGM, consta um “Encantamento de Salomão que produz um transe” e num outro ritual posterior (PGM XCII. 1-16), consta a seguinte fórmula, em que o conjurador se volta aos poderes divinos a fim de pedir e atrair certas qualidades para si: “Todos temem teu grande poder. Concede-me coisas boas: a força de AKRYSKYLOS, a fala de EUŌNOS, a visão de Salomão, a voz de ABRASAX, a graça de ADŌNIOS, o deus.”

Não deixa de ser interessante podermos observar como a caracterização de Salomão foi evoluindo ao longo dos séculos. Assim, quando chegamos no comecinho da era cristã, parece estar bem consolidada a sua imagem não apenas como o monarca de um reino riquíssimo, mas também sábio, mago e exorcista, de modo que os desenvolvimentos posteriores a partir daí parecem naturais.

Com a ascensão do judaísmo rabínico, após a queda do Segundo Templo em 70 d.C. (que se dá na mesma data do calendário judaico que a queda do Primeiro, o dia 9 de Av), começa o período de redação e compilação do material que virá a ser conhecido como o Talmude, e aí constam mais algumas histórias e detalhes interessantes. Algumas das histórias mais famosas dizem respeito às interações entre Salomão e o demônio Asmodeus, como se lê no tratado Gittin 68a. A narrativa pode ser lida em inglês no site Sefaria e é um pouco tortuosa, mas o resumo é o seguinte: como consta na Bíblia, o Templo precisará ser construído sem o uso de ferramentas de ferro, nem machados, nem martelos… o que vocês devem imaginar que é um pouquinho difícil, considerando que é preciso quebrar pedras para isso.

A solução é apresentada na forma de uma criatura chamada shamir, um vermezinho capaz de partir pedras (feito um Pokémon). Para encontrar o shamir, Salomão tortura um casal de demônios (o termo em hebraico/aramaico é sheid, cognato dos shedu babilônicos), que afirmam que quem deve saber isso é Asmodeus ou Ashmedai, que pode ter suas origens numa entidade de origem persa, um espírito de fúria chamado Aeshma Deva, o antagonista de outro livro deuterocanônico, o livro de Tobias/Tobit. O casal então explica como chegar até ele e, após uma série de artimanhas meio Looney Toones, Salomão basicamente embebeda Asmodeus com vinho e utiliza uma corrente com o nome de Deus para prendê-lo. E com a colaboração (forçada) de Asmodeus, Salomão descobre como fazer para encontrar o shamir, mas mantém a companhia do demônio até completar a construção do Templo.

Um outro elemento aí, em consonância com a narrativa de Josefo, é um anel mágico contendo uma gravação do nome de Deus, que serve para proteger Salomão e comandar a obediência dos demônios. Como consta na Jewish Encyclopedia, quem elaborou melhor o conceito posteriormente foram os autores árabes, que popularizaram o conceito do selo de Salomão (Khatam Sulayman), um anel de sinete com o símbolo do hexagrama (mais conhecido, mais tarde, como Estrela de David ou Magen David, escudo de David). Os chamados sete símbolos, que já vimos num texto anterior aqui sobre talismãs, também aparecem associados ao nome de Salomão.

Na segunda metade dessa história, Asmodeus passa a perna em Salomão para que ele entregue o seu anel mágico a fim de demonstrar o poder dos demônios. Indefeso, Salomão é arremessado a uma distância de 400 parasangas (mais ou menos 2400 km) e precisa seguir o caminho de volta para Jerusalém como um andarilho. Ao voltar para casa, ele descobre que o demônio está se passando por ele. O povo a princípio duvida de Salomão, mas o comportamento do rei de fato andava muito estranho: não era possível ver seu pé, pois ele sempre usava meias (demônios teriam pés de galo, o que permitiria identificá-lo); e ele insistia em transar com as suas mulheres apenas quando estivessem menstruadas – e, pior ainda, ele exige transar até mesmo com a própria mãe, Bate-Seba. Nada como uma sugestão de incesto para dar uma apimentada numa narrativa.

No fim, Salomão consegue recuperar suas ferramentas mágicas e o trono, expulsando Asmodeus (na versão árabe, o anel é reencontrado antes de seu retorno, dentro da barriga de um peixe, depois de Asmodeus cuspi-lo no mar). Trata-se de uma história das mais interessantes, ainda que a narrativa talmúdica seja um pouco esquisita para quem não está acostumado com o seu estilo. Um artigo de Reuven Kiperwasser, numa edição de 2021 da Jewish Quarterly Review (explicado neste texto), comenta que isso pode ser pelo fato de que se trata de três narrativas diferentes costuradas numa só – cada uma com uma visão cultural específica de como são os demônios. Na cultura persa, demônios podem ser perigosos, mas também úteis e amigáveis (assim como os djinn dos árabes), ao passo que, para a cultura cristã bizantina, demônios são sempre agressivos e perversos. As duas perspectivas aparecem nesse conto: primeiro Asmodeus é caracterizado como um espírito que, todos os dias, sobe aos céus para estudar no salão de estudos celestial e depois desce à terra para estudar no salão de estudos terreno – sim, até os demônios estudam a Torá, nessa visão. Depois, na segunda metade, ele é uma figura agressiva e sexualmente perversa. E a história do verme shamir permite conciliar essa presença demoníaca na construção do Templo (que já devia fazer parte do folclore) sem que os demônios estivessem envolvidos de fato no processo – Asmodeus apenas indica como achar o shamir, em vez de botar a mão na massa de fato.

A versão segundo a qual o Primeiro Templo é construído diretamente por mãos demoníacas – inclusive detalhando as funções de cada espírito maligno nesse trabalho, entre quebrar pedras, cavar a terra e buscar água – consta num texto apócrifo do começo da era cristã chamado de Testamento de Salomão. Já fizemos uma breve menção a esse material num momento anterior aqui d’O Zigurate: trata-se de uma narrativa simples, segundo a qual Salomão captura um demônio chamado Ornias, que atormentava um dos construtores do Templo. Demônios são não seres lá muito unidos, pelo visto, por isso Ornias, na sequência, vai entregando seus colegas infernais um por um, e eles vão se apresentando a Salomão, explicando sua origem (alguns, como Belzebu, são anjos caídos, mas a maioria são apenas os filhos de anjos caídos), sua moradia, os males que eles causam e o anjo ou fórmula mágica capaz de expulsá-los. O que tem de fascinante no Testamento de Salomão é sua tripla função, como narrativa parabíblica, catálogo demoníaco e manual mágico, que praticamente inaugura o que viria a ser a tradição salomônica. Para saber mais sobre esse livro, eu recomendo demais o vídeo do Dr. Justin Sledge no seu canal Esoterica).

Nas tradições mágicas judaicas, é curioso que Salomão não tem a mesma presença que ele viria a ter no mundo cristão. Como já vimos, o Livro do Anjo Raziel se apresenta como tendo sido entregue a Adão e Eva; o Livro dos Mistérios a Noé; e a Espada de Moisés, outro manual de magia judaica do começo da era cristã, é atribuído a Moisés, obviamente. A tarefa de rastrear o caminho que levou à formação da tradição salomônica é árdua, no entanto, e entre essas raízes bem documentadas e os grimórios famosos do princípio da era moderna, como o Lemegeton, observa-se um grande apagão. Além do Testamento, outra obra importante é a Hygromanteia, da qual já tratamos aqui, onde também aparecem os lugares-comuns de como Salomão dominava demônios, com o auxílio de anjos e toda uma parafernália mágica, mas o bônus de um elemento de magia astrológica. Só que esse grimório também tem uma história tortuosa e uma ampla gama de manuscritos com muita variação entre si.

Para um autor como Jake Stratton Kent, as raízes dessa tradição seriam na verdade algum tipo de prática semelhante ao xamanismo no mundo greco-egípcio – a palavra goetia, afinal, vem do grego goes, que significa feiticeiro, mas também um tipo de cantor fúnebre, ligado ao verbo goao, “gemer, lamentar” – por meio da qual era estabelecido contato com entidades ctônicas. Num breve episódio do podcast Glitch Bottle, Alexander Eth comenta, inclusive, que um tipo de entidade descrita pelo filósofo neoplatônico Jâmblico exibe características muito semelhantes com os demônios da tradição salomônica. No entanto, dentro de um contexto cristão, essas entidades ctônicas – compreendidas num material como os PGM como seres potencialmente perigosos, mas não necessariamente malignos – passaram a ser compreendidas como seres infernais e anjos caídos, obedientes a Lúcifer, que é a perspectiva cristã (e não judaica) sobre essas figuras que se convencionou chamar de demônios, readaptando o termo grego daimon, mais vago. Nesse contexto, é muito possível que a capacidade lendária de Salomão em dominar demônios (ainda que nem os demônios da tradição judaica, nem os djinns da tradição árabe tenham essa conotação infernal) e colocá-los para trabalhar em coisas mais produtivas tenha sido bem útil para servir de fio condutor. E não se deve excluir ainda a influência da literatura esotérica árabe, que foi chegando à Europa no final do medievo. Um exemplo dessa influência se observa nos reis demoníacos das quatro direções: na tradição dos grimórios europeus, Maymon ou Amaymon é o rei da direção sul, que não é ninguém menos que o djinn Maymun, rei de Saturno.

(Para quem tem interesse no desenvolvimento da tradição salomônica, obras como a Geosophia, de Kent, e praticamente toda a bibliografia do Dr. Stephen Skinner são leitura obrigatória, claro)

Por fim, eu não poderia escrever um texto sobre o rei Salomão sem mencionar o grimório mais famoso do mundo que é a Chave de Salomão. Na verdade, os “livros” conhecidos por esse nome são “dois”, por assim dizer (muitas aspas, porque há uma variedade de manuscritos, o que gera alguma confusão). O primeiro é um grimório chamado Clavicula Salomonis, que foi traduzido para o inglês por Mathers em 1888 sob o título The Key of Solomon the King (tendo como referência os manuscritos Add. MSS., 10862; Sloane MSS., 1307 & 3091; Harleian MSS., 3981; King’s MSS., 288; Lansdowne MSS., 1202 & 1203), uma obra razoavelmente benigna que ensina uma série de conjurações e técnicas de purificação e construção de ferramentas mágicas, incluindo os famosos pantáculos dos 7 planetas. Apesar de evidentemente cristão, uma versão italiana desse grimório serviu de base para uma tradução hebraica sob o título Sefer Mafteah Shlomo no século XVII/XVIII – um exemplo marcante do efeito pizza no mundo esotérico.

O outro grimório, com maior apelo sensacionalista, é que em inglês chamam de Lesser Key of Solomon, Clavicula Salomonis Regis ou Lemegeton, um voluminho do século XVII composto por 5 livros menores, a saber, a Ars Goetia, Ars Theurgia-Goetia, Ars Paulina, Ars Almadel e Ars Notoria (o Dr. Justin Sledge já tratou também de alguns desses livros em seu canal Esoterica, como se pode ver nos links). Dentre eles, a Ars Goetia é o que trata do trabalho com os famosos 72 demônios, contendo o catálogo com os poderes, descrições e o sigilo usado para conjurar cada um deles, bem como as instruções a serem seguidas, com as fórmulas a serem recitadas e a construção das ferramentas, incluindo um vaso de bronze para aprisionar os espíritos. Uma tradução para o inglês, de autoria da dupla dinâmica Crowley-Mathers, saiu em 1904 sob o título The Book of the Goetia of Solomon the King. Apesar de sua popularidade, o livro faz uma grande mistura e sua metodologia inclui inovações como o uso de rituais como o Bornless Ritual e fórmulas em enoquiano (um outro sistema mágico à parte), por isso não é preferido pelos praticantes mais puristas. As edições de Joseph Peterson e, de novo, Stephen Skinner, são preferíveis nesse sentido.

Eu não vou tratar da imensa bagunça que é o histórico textual da Ars Goetia. Há uma imensa variedade de manuscritos que servem de referência, incluindo o Heptameron, atribuído a Pietro d’Abano, e a Pseudomonarchia Daemonum, incluído no apêndice da reedição de 1563 de De Praestigis Daemonum, de Johann Weyer, onde consta uma lista desses 72 demônios que é quase idêntica à da Goetia (além de muitos outros livros à parte que partilham de material em comum, pelo menos em parte). A Pseudomonarchia Daemonum é traduzida do latim para o inglês por Reginald Scot em The Discoverie of Witchcraft… um livro de 1584 que, ironicamente, tinha como propósito expor a magia como charlatanismo e a caça às bruxas como uma coisa irracional. Como comenta Peterson na sua introdução, “A Goetia parece, na verdade, ser dependente de Scot, fielmente copiando seus frequentes erros de tradução, elaborações e omissões”.

Por fim, vale apontar para uma questão que diversos comentadores tendem a deixar de lado que é um elemento de antissemitismo presente nesse material. Um jovem chamado Ezra Rose recentemente publicou um e-zine intitulado A Lesser Key to the Appropriation of Jewish Magic & Mysticism, que dedica um breve capítulo à magia salomônica. Como Rose aponta, citando Trachtenberg e Owen Davies, a ascensão desses grimórios coincide com um novo ânimo na demonização dos judeus da Europa. Como se sabe, mesmo os europeus mais bem-intencionados do começo da idade moderna (em oposição ao pessoal que mandou milhares de judeus para a fogueira durante o medievo) pretendiam dominar as práticas do misticismo judaico a fim de vencer os judeus em seu próprio jogo, recorrendo à Cabala para “provar” a realidade de Jesus como o Messias. E embora ninguém que tenha um mínimo de noção hoje possa sequer pensar que um livro como a Ars Goetia teria sido escrito por um judeu, durante muito tempo essa ilusão se manteve. Diferente do que aconteceu no mundo islâmico medieval, igualmente fascinado pela figura de Salomão, mas disposto a defendê-lo até mesmo das acusações de feitiçaria e idolatria, os europeus associaram Salomão à necromancia e magia maléfica – uma associação que se estende, por consequência, a todos os judeus. Como comenta Rose, “a disseminação de literatura mágica antissemita teve um efeito destrutivo sobre os livros judaicos reais. Exemplares do Talmude e outros textos sagrados foram queimados aos milhares durante a Inquisição, para evitar que os conversos praticassem o judaísmo em segredo, mas também por conta do que era visto como seu perigo mágico”.

Eu pessoalmente (e enquanto descendente de judeus, ainda que não seja um judeu de verdade) não sei muito bem o que fazer com isso, porque há muitas variáveis envolvidas. Por um lado, não se pode dizer que não existe mais antissemitismo na cena esotérica de hoje – vide o tanto de nazista e consparacionista do Q-Anon que emerge nos esgotos das redes sociais – e certamente há quem associe o rei Salomão e os judeus no geral à magia demoníaca. Por outro lado, até onde eu lembro (e, bem, posso estar enganado), nenhum desses textos é explicitamente antissemita, apesar de surgirem e contribuírem para contextos de antissemitismo. Ao mesmo tempo, a história desses textos é tão bizarra, conturbada e cheia de erros que é um milagre que um sistema construído a partir disso funcione – ainda que seja um sistema famosamente perigoso. Para a Josephine McCarthy (que comenta a prática na lição 2, “Demonic Beings in Magical Work”, do Módulo 6 para Iniciados da Quareia), o perigo desse sistema deriva do fato de que nenhuma dessas entidades é um demônio real, mas sim meros parasitas… o que faz sentido, ao mesmo tempo em que eu acho difícil descartar a experiência real de pessoas que se engajaram com isso e tiraram disso algo muito mais produtivo do que um trabalho com um carrapatão espiritual. No mais, e é possível ainda trabalhar com esses mesmos espíritos a partir de outras perspectivas, como demonstra Jason Miller em seu Consorting with Spirits, onde apresenta como seriam as conjurações goéticas quando se toma como ponto de partida o luciferianismo e o trabalho com a deusa Hécate, o que dispensa o cosplay de judeu e o uso de fórmulas em hebraico macarrônico. O assunto é complicado e eu não acredito que seja possível chegar a uma resposta simples – nem é esse o objetivo deste texto.

Em todo caso, para encerrar eu reitero o quanto eu acho fascinante observar a transformação de uma figura como o rei Salomão. Rei, sábio, idólatra, mulherengo, mago, exorcista e domador de demônios – ao contrário do que se pode imaginar, ele não surgiu desde o princípio com todas essas características, mas foi acumulando camadas de caracterização ao longo dos séculos, num jogo constante de condenação (por ter cometido idolatria) e reabilitação (por sua sabedoria e conhecimento) jogado entre as culturas judaica, islâmica e cristã.



Elfos, fadas, raptos e mortos-vivos

As pessoas da Idade Média tinham fama de supersticiosas – e muitos dos fenômenos sobrenaturais encontrados nas páginas de crônicas medievais, histórias de milagres e romances ainda estão presentes na cultura moderna. Pense em fantasmas, lobisomens, demônios, vampiros, fadas e bruxas. Mas, enquanto (quase todas) as pessoas hoje consideram esses seres como pura ficção, muitos medievais acreditavam neles.

Os teólogos cristãos aceitavam a existência do sobrenatural, categorizando esses seres de forma geral como "anjos caídos" que viam a humanidade como um campo de batalha em seu conflito contínuo com Deus. Seu enorme poder significava que eles podiam até mesmo aparecer como divindades, incluindo os deuses e deusas pagãos – eles assumiam uma aparência monstruosa principalmente quando reivindicavam as almas dos condenados ou quando eram derrotados por um líder cristão.

As criaturas sobrenaturais menores e menos poderosas, conhecidas no inglês antigo e médio como "elfos", no entanto, apresentavam explicações menos diretas.

Elfos, fadas e sereias

Os elfos medievais geralmente não eram tão poderosos quanto os seres glamorosos imaginados séculos depois por J.R.R. Tolkien. Em alguns relatos, eles se fundiam com demônios e, em outros, com fadas.

Para o sacerdote inglês Layamon, do século XIII , foram os elfos (alven) que deram presentes mágicos ao Rei Arthur e que, na forma de belas mulheres, o levaram para a ilha mítica de Avalun para curá-lo. No entanto, Layamon fez questão de ressaltar que essa era a crença dos "bretões" (povo celta), que ele estava simplesmente registrando.

As fadas surgiram pela primeira vez em relatos em língua francesa e rapidamente se misturaram a outras categorias de seres sobrenaturais. Aparentemente, elas tinham uma aparência mais humana do que os elfos, embora asas tenham sido adicionadas posteriormente.

Elas formavam uma categoria dentro do vasto grupo de criaturas femininas sedutoras e sobrenaturais que atraíam homens humanos para relacionamentos perigosos. Talvez a mais famosa seja a fada Melusina, fortemente associada à água.

Melusina era meio humana, meio serpente, bela e poderosa. Ela trouxe prosperidade e numerosos filhos ao seu marido humano, mas o proibiu de vê-la em um horário específico (aos sábados). Quando ele quebrou sua promessa, a verdadeira forma de Melusina foi revelada e ela partiu para sempre.

Não está claro se os cronistas e leitores que apreciavam essas histórias realmente acreditavam nelas. Mas parece provável que as fadas fossem consideradas mais reais na Idade Média do que são hoje.

Raptos e milagres na Idade Média

Para os medievais, elfos, fadas e sereias habitavam o território ambíguo entre a realidade e a ficção. O mesmo se pode dizer de seres misteriosos que raptavam humanos desavisados, frequentemente mulheres, e os levavam para regiões estranhas e assustadoras. Aqueles que alegadamente relatavam essas experiências acreditavam que elas eram reais, embora fossem condenadas como ilusões demoníacas pelos moralistas.

Ser levado para além da Terra é um tema recorrente na literatura medieval, incluindo contos de bruxas que voavam deliberadamente nas costas de animais. Essas histórias de abdução podem ser comparadas aos relatos modernos de abduções extraterrestres.

Embora os relatos de rapto por fadas fossem por vezes descartados como delírios, as histórias de milagres de santos e maravilhas naturais eram geralmente aceitas como verdadeiras. Pode ser tentador comparar os poderes dos santos que realizavam milagres com os dos super-heróis modernos – mas os milagres eram considerados demonstrações explícitas do poder de Deus, enquanto os super-heróis tendem a resultar de avanços científicos ou tecnológicos extremos.

Um exemplo particularmente sensacional foi registrado na Vida de Santa Modwenna (uma antiga princesa e abadessa irlandesa), escrita pelo abade Geoffrey de Burton por volta de 1120-1150. Em seu relato, dois arrendatários da Abadia de Burton instigaram uma violenta rixa entre o abade e o Conde Roger de Poitevin. Os agitadores morreram repentinamente e foram enterrados às pressas, mas aparentemente reapareceram ao pôr do sol carregando seus próprios caixões, antes de se transformarem em animais aterrorizantes.

Esses espíritos ou cadáveres animados teriam trazido a morte à aldeia – apenas três pessoas sobreviveram. Quando as sepulturas dos fugitivos foram abertas, encontraram-nas manchadas de sangue, mas intactas. Um pedido formal de desculpas à abadia e ao santo foi seguido pelo desmembramento ritual desses cadáveres e pela queima de seus corações. Isso aparentemente levou à expulsão de um espírito maligno e ao resgate dos camponeses sobreviventes.
Maravilhas da Natureza

As "maravilhas naturais" eram fenômenos medievais aceitos como parte da criação de Deus, mas que não podiam ser explicados cientificamente. Muitas das criaturas encontradas em bestiários (enciclopédias medievais de animais reais e mitológicos) pertenciam a essa categoria, como dragões, unicórnios e basiliscos.

Dragões e unicórnios continuam sendo personagens populares do universo da fantasia até hoje, mas os basiliscos são menos conhecidos – embora um gigante tenha se provado um adversário formidável para Harry Potter. Dizia-se que os basiliscos eram tão venenosos que seu cheiro, seu hálito de fogo e até mesmo seu olhar podiam matar. Sua existência foi atestada não apenas por bestiários, mas também pelo filósofo e botânico romano Plínio, em sua obra História Natural (por volta de 77 d.C.). Acredita-se que eles habitavam a província de Cirene, na atual Líbia.

Da mesma forma, diferentes regiões da Terra eram caracterizadas por maravilhas naturais registradas em obras como o livro do sacerdote e historiador Gerald de Gales, A História e Topografia da Irlanda (1185-88).

Gerald observou que alguns leitores achariam suas histórias "impossíveis ou ridículas", mas atestou sua veracidade. Elas incluíam ilhas estranhas onde nenhuma criatura feminina conseguia sobreviver e ninguém conseguia morrer de morte natural, bem como criaturas estranhas e humanos forçados a se transformar periodicamente em lobos pelo poder de São Natalis (um monge e santo irlandês).

Na Idade Média, as pessoas acreditavam em uma grande variedade de seres sobrenaturais. Embora hoje os vejamos principalmente como figuras de ficção assustadora, nosso entusiasmo por essa diversidade não diminuiu – basta observar a variedade de fantasias sobrenaturais que vemos em todo Halloween.



A Ascensão do Monoteísmo no Antigo Oriente Próximo

 

Uma representação de Marduk. (Osama Shuukir Muhammed

Durante séculos, nossos ancestrais distantes acreditaram em uma infinidade de deuses e deusas, mantendo uma relação íntima com a natureza ao seu redor e personificando diversos fenômenos naturais. Mas algumas civilizações transcenderam essa crença politeísta. Elas acreditavam na existência de um único Deus – uma divindade singular acima de todas as outras. Isso ficou conhecido como monoteísmo , e o Oriente Próximo é um de seus berços mais remotos. Então, o que levou essas culturas antigas a se distanciarem dos povos politeístas que as cercavam? Como elas estruturaram suas vidas para se centrarem na crença, com suas nuances, de que existe uma única divindade?

Oriente Próximo, o Berço da Mudança

O antigo Oriente Próximo, frequentemente considerado o berço da civilização, testemunhou o desenvolvimento de alguns dos sistemas religiosos mais influentes e duradouros da história da humanidade. Foi ali que floresceram os primeiros exemplos conhecidos de culto politeísta – sociedades que acreditavam e veneravam múltiplos deuses. Contudo, em meio a esses complexos sistemas de crenças, emergiu uma ideia revolucionária: o monoteísmo , a crença em uma única divindade onipotente. Essa transição do politeísmo para o monoteísmo não ocorreu isoladamente. Em vez disso, foi produto de mudanças culturais, políticas e teológicas ao longo de milênios. A ascensão do monoteísmo, particularmente por meio da fé dos israelitas e posteriormente reforçada pelo zoroastrismo e pelo cristianismo primitivo, alterou o panorama religioso do Oriente Próximo e preparou o terreno para as religiões abraâmicas que dominam o mundo atualmente.

Naturalmente, compreender a ascensão do monoteísmo exige uma exploração das estruturas sociopolíticas do antigo Oriente Próximo, da evolução do pensamento religioso em comunidades específicas e das interações regionais mais amplas que ajudaram a moldar essas crenças. Desde os primeiros indícios de conceitos monoteístas na teologia da antiga Mesopotâmia e do Egito até o desenvolvimento do monoteísmo ético no antigo Israel, a jornada foi complexa, multifacetada e repleta tanto de continuidade quanto de transformação.





Diabo, Satanás e o Inferno

 



Quando as pessoas imaginam Satanás, muitas vezes visualizam uma figura de pele vermelha com chifres, um tridente e uma presença sinistra destinada a levar as pessoas ao pecado. No entanto, de acordo com o teólogo Jared Brock, autor do novo livro "Um Diabo Chamado Lúcifer", essas representações são totalmente imprecisas e não se baseiam nas Escrituras. Na realidade, a verdade sobre Satanás é muito mais perturbadora do que os estereótipos culturais ou as representações cinematográficas sugerem.

"Acho que a cultura ficou obcecada com a ideia de um diabinho vermelho no seu ombro, te assombrando o tempo todo", explicou Jared Brock em uma entrevista sobre seu livro que será lançado em breve.

Em vez de uma figura monstruosa ou uma criatura puramente física, diz Brock, o diabo é um ser espiritual, capaz de aparecer em formas atraentes para seduzir em vez de assustar. Em vez de uma imagem tirada de filmes de terror, as Escrituras sugerem que Satanás se apresenta de uma maneira que faz com que suas tentações pareçam desejáveis. Brock também esclarece que existem duas palavras bíblicas usadas para o diabo: uma que significa "acusador" e outra que significa "adversário", o que esclarece como ele manifestará sua presença.

Mas seus poderes estão longe de ser ilimitados. Não há evidências bíblicas de que Satanás possa estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Diferentemente de Deus, ele não é onipresente e não possui a capacidade divina de estar em vários lugares simultaneamente.

A realidade do inferno e o papel de Satanás

Muitos acreditam que Satanás reina sobre o Inferno e atormenta as almas perdidas cuspindo fogo, mas Brock enfatiza que isso é outro equívoco. O livro do Apocalipse afirma que Satanás, na verdade, cospe água, não fogo.

"A serpente derramou da sua boca água como um rio, atrás da mulher, para a arrastar com uma torrente", diz Apocalipse 12:15.

O próprio inferno é um tema de debate nas Escrituras. Brock destaca que existem cinco ou seis referências diferentes ao submundo da vida após a morte, o que gera incerteza sobre sua verdadeira natureza.

"São experiências físicas? São espirituais? São para sempre? São por um período limitado de tempo? E a resposta para tudo isso é que simplesmente não sabemos", disse ele.

A doutrina cristã ensina que Satanás já foi um poderoso anjo que caiu do céu devido ao seu orgulho e ambição. Apocalipse 12:7-9 narra a batalha celestial que levou a esse resultado devastador:

"E houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos lutaram contra o dragão; e o dragão e os seus anjos lutaram, mas não prevaleceram, nem mais se achou lugar para eles no céu. E foi precipitado fora o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele."

O que significa que Satanás está presente na Terra há muito tempo, período durante o qual, sem dúvida, se fez conhecer através de suas obras (um tema abordado no livro de Jared Brock).

Mais mitos e equívocos

Outro mal-entendido comum é o nome "Lúcifer". Muitos presumem que seja o verdadeiro nome de Satanás, mas Brock observa que ele aparece apenas uma vez nas Escrituras.

Isaías 14:12 declara: "Como caíste do céu, ó Lúcifer, filho da manhã! Como foste lançado por terra, tu que subjugasvas as nações!" O versículo é frequentemente associado à queda de Satanás, mas nem todas as traduções incluem o nome "Lúcifer", algumas usando "estrela da manhã". Embora nada possa ser determinado com certeza, parece possível que Lúcifer se refira, na verdade, a um meteoro ou asteroide que atingiu a Terra em algum momento do passado remoto, causando uma enorme destruição que ainda era lembrada nas mitologias antigas.

Da mesma forma, o número " 666 " é frequentemente associado ao diabo, mas Brock argumenta que seu significado é mais complexo.

Apocalipse 13:18 diz: "Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, porque é o número de um homem; e o seu número é seiscentos e sessenta e seis." Segundo Brock, esse número pode se referir a figuras como Golias, que tinha seis peças de armadura, uma altura específica e uma lança pesada, ou pode simbolizar o rei Nabucodonosor ou o imperador Nero por meio de um código numérico.

Outra ideia equivocada é que Satanás comanda legiões de demônios. Embora alguns acreditem que ele lidera vastos exércitos, Brock destaca que as Escrituras mencionam apenas um pequeno número de demônios. A Bíblia, no entanto, afirma que Satanás levou consigo um terço dos anjos quando foi expulso do Céu, conforme descrito em Apocalipse 12:4.

Reconhecendo a verdadeira face do diabo

O objetivo de Jared Brock não é simplesmente dissipar todas as ideias tradicionais sobre Satanás, como um desmistificador de lendas e mitos. Ele acredita que o Diabo está entre nós e que é importante saber quem ele é e quem ele não é, para nos protegermos e protegermos nossos entes queridos de suas depredações.

"É vital que saibamos qual é a verdadeira aparência do diabo — tanto no sentido material quanto espiritual — para que possamos identificá-lo mais facilmente em ação no mundo ao nosso redor", disse ele. Ele explica que Satanás raramente assume a forma de uma criatura monstruosa que cospe fogo, porque o medo é menos eficaz do que a sedução.

Brock conversou com inúmeras pessoas que afirmam ter tido experiências espirituais demoníacas. Ele acredita que forças espirituais atuam no mundo, sendo uma delas "Mamom", um termo aramaico usado por Jesus para descrever o dinheiro. No entanto, ele também enfatiza a responsabilidade pessoal em questões de maldade.

"Todos nós já ouvimos a frase 'O diabo te obrigou a fazer isso'. O diabo nunca obrigou ninguém a fazer nada. O diabo não pode obrigar você a puxar o gatilho e atirar em alguém", disse ele.

Mas em um mundo repleto de perigos e ameaças, aprender a reconhecer quem o Diabo realmente é e como ele realmente age também é uma questão de responsabilidade pessoal, e é por isso que Brock escolheu este momento da nossa história para contribuir com a discussão mais ampla sobre a verdadeira natureza do bem e do mal.


Moisés realmente abriu o Mar Vermelho?

 



Um dos momentos mais emblemáticos tanto do cristianismo quanto do judaísmo envolve a milagrosa abertura do Mar Vermelho, que permitiu a Moisés e aos israelitas escaparem do Egito há 3.500 anos. Embora a descrição desse milagre seja frequentemente considerada mitológica, cientistas afirmam que tal evento realmente pode ter ocorrido, sem a necessidade de intervenção divina. Pesquisas mostram que uma combinação de condições climáticas extremas e a geologia adequada poderia explicar todos os detalhes do relato bíblico, o que significa que as águas podem muito bem ter se aberto no momento exato para tornar possível a travessia milagrosa.

A história, famosa por ter sido retratada em filmes como Os Dez Mandamentos e O Príncipe do Egito , descreve Moisés erguendo a mão enquanto as águas do Mar Vermelho se dividiam, formando paredes em ambos os lados e criando um caminho seco. Simulações computacionais recentes indicam que um vento constante soprando a 100 km/h (62 mph) na direção correta poderia ter empurrado a água para trás, expondo um corredor de terra seca com quase cinco quilômetros (três milhas) de largura. Com a diminuição do vento, as águas teriam retornado rapidamente, engolindo as forças egípcias em uma onda semelhante a um tsunami.

"A travessia do Mar Vermelho é um fenômeno sobrenatural que incorpora um componente natural – o milagre está no momento certo", disse Carl Drews, oceanógrafo do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, em entrevista ao MailOnline.

Por onde Moisés atravessou o Mar Vermelho?

Segundo a narrativa bíblica, após sofrerem as sete pragas do Egito, os israelitas fugiram para o deserto, mas logo se viram encurralados entre o exército do faraó e o Mar Vermelho. Nesse momento, Deus interveio e criou uma ponte de terra temporária, secando o fundo lamacento do mar o suficiente para tornar possível a travessia do leito do Mar Vermelho.

A crença tradicional é que essa travessia ocorreu no Golfo de Aqaba, uma das partes mais profundas e extensas do Mar Vermelho. No entanto, essa teoria é questionável, já que o Golfo de Aqaba tem até 25 km de largura, com profundidades que chegam a 1.850 metros, o que o torna impraticável para uma travessia em massa.

Um local mais plausível para a travessia é o Golfo de Suez, um braço mais raso e estreito do Mar Vermelho. Essa massa de água separa o Egito continental da Península do Sinai e tem uma profundidade média de 20 a 30 metros, com um fundo marinho relativamente plano.

Relatos históricos sugerem até que tal travessia era possível. Em 1789, Napoleão Bonaparte e suas tropas atravessaram um trecho do Golfo de Suez a cavalo durante a maré baixa; eles quase foram arrastados pela correnteza quando as águas subiram, mas conseguiram completar a jornada.

O Dr. Bruce Parker, ex-cientista-chefe da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), sugeriu em 2014 que Moisés poderia ter tido conhecimento dessas mudanças nas marés e as ter usado a seu favor.

"Moisés viveu na região selvagem próxima durante seus primeiros anos e sabia por onde as caravanas cruzavam o Mar Vermelho na maré baixa", disse ele ao Wall Street Journal. "Ele conhecia o céu noturno e os métodos antigos de previsão da maré, baseados na posição da lua e em seu grau de plenitude."

Os egípcios, acostumados com o Nilo sem marés, desconheciam esses ritmos naturais, o que os deixava vulneráveis ​​quando as águas, em recuo, subitamente retornavam com força.

A resposta está soprando ao vento.

Embora os padrões das marés ofereçam uma possível explicação, outro detalhe importante da Bíblia sugere um fenômeno natural diferente. A passagem bíblica afirma: "O Senhor fez o mar se mover por meio de um forte vento oriental durante toda aquela noite, e o mar secou, ​​e as águas se dividiram."

Essa referência a ventos fortes é convincente. Assim como soprar na superfície de um copo d'água empurra o líquido para um lado, ventos fortes podem mover grandes massas de água, possivelmente de forma significativa.

O professor Nathan Paldor, oceanógrafo da Universidade Hebraica de Jerusalém, sugere que um vento soprando a 65 a 70 km/h vindo do noroeste poderia ter forçado as águas, mesmo de um mar profundo, a recuar, expondo um caminho para os israelitas atravessarem. Seus cálculos indicam que tal vento, sustentado por várias horas, poderia baixar o nível do mar em cerca de 3 metros, revelando uma crista subaquática que permitiria uma passagem segura.

Um dos principais desafios a essa teoria baseada no vento é que a Bíblia menciona especificamente um vento leste, enquanto os cálculos sugerem um vento noroeste. No entanto, a análise linguística do texto hebraico original revela que a expressão "Rauch kadim" pode significar tanto ventos nordeste quanto sudeste, oferecendo alguma flexibilidade na interpretação.
Era o Mar Vermelho ou o Mar dos Juncos?

Uma teoria intrigante sugere que a travessia propriamente dita não ocorreu no Mar Vermelho, mas sim em um corpo d'água conhecido como Lago de Tannis, localizado próximo ao atual Lago Manzala, no Delta do Nilo. Essa teoria é corroborada pela tradução correta do termo hebraico yam suf , tradicionalmente traduzido como "Mar Vermelho", mas mais precisamente como "Mar de Juncos". Esse nome provavelmente se refere aos densos juncos que crescem nas águas rasas e salobras do delta.

A pesquisa de Carl Drews sugere que o Lago de Tannis pode ter sido afetado pelo processo mencionado pelo Professor Paldor, chamado de "deslizamento de água pelo vento". Isso ocorre quando ventos fortes e constantes empurram a água em uma direção, expondo temporariamente terra seca. De acordo com o Sr. Drews, registros históricos e modelagem computacional mostram que um vendaval soprando a 100 km/h (62 mph) durante oito horas poderia ter forçado a água a subir o braço pelusíaco do Nilo, criando uma ponte de terra temporária de cinco quilômetros (três milhas) de largura.

Drews explica que esse fenômeno corresponderia à descrição bíblica das águas formando uma "parede" em ambos os lados. Com a diminuição do vento, a água teria retornado com uma força dramática, submergindo qualquer um que estivesse em seu caminho. Suas simulações sugerem que os israelitas teriam uma janela de cerca de quatro horas para completar a travessia de 3 a 4 km (1,8 a 2,5 milhas) da Península de Sethrum, no Egito, até uma área conhecida como Kedua.

Embora Drews reconheça que suportar ventos com força de furacão por quatro horas teria sido um desafio imenso, ele afirma que foi possível com muita motivação e esforço determinado.

Uma explicação alternativa?

Uma hipótese comum é que as águas do Mar Vermelho se separaram no momento exato graças ao impacto de um tsunami.

Quando um terremoto desencadeia um tsunami, a enorme onda que se aproxima arrasta a água para longe da costa, fazendo com que a maré recue muito mais do que o normal. Em teoria, um tsunami no Mar Vermelho poderia criar um breve período de seca no caminho percorrido por Moisés e seu povo, após o qual a água teria retornado para afogar as tropas do faraó antes que pudessem atravessá-lo.

Mas Carl Drews afirma que essa explicação não se encaixa no relato bíblico.

“Relatórios modernos sobre tsunamis indicam que o período de subida e descida da onda é inferior a uma hora”, observou ele. “Esse período de onda não corresponde à narrativa de Êxodo 14, que indica que Moisés e os israelitas tiveram várias horas para completar a travessia.”

Além disso, um tsunami não criaria um canal no mar com água em ambos os lados, que é o que a Bíblia diz que aconteceu.

A melhor explicação, segundo o Sr. Drews, é que Moisés conduziu os israelitas através do Delta do Nilo por uma ponte terrestre criada por ventos fortes – cuja chegada teria representado um verdadeiro milagre, dadas as circunstâncias terríveis que os antigos israelitas enfrentavam.

“ De acordo com Êxodo 14, Moisés recebeu um aviso prévio de Deus para ficar em um determinado lugar em um determinado momento, estender a mão e esperar pela libertação no momento exato”, lembrou o Sr. Drews. “É apropriado e adequado que um cientista estude os componentes naturais dessa narrativa.”


Éfeso: elemento central no início do cristianismo

 


Poucos, ou talvez ninguém, compreendem a verdadeira razão pela qual Éfeso se tornou um elemento tão central no início do cristianismo. Por que Paulo escolheu visitar e finalmente se estabelecer lá por três anos inteiros, em vez de outros locais muito mais cosmopolitas? Por que o apóstolo João, considerado "o filho do trovão" por Cristo, escolheu se estabelecer e morrer lá? Por que o livro do Apocalipse, o último livro da Bíblia, foi escrito enquanto ele estava exilado na ilha vizinha de Patmos? E por que Éfeso se tornou o foco da narrativa (aceita pela Igreja Católica) de que Maria, a mãe de Jesus, após a crucificação de Cristo, foi para Éfeso com João, e que morreu e foi sepultada lá, contrariando afirmações anteriores de que ela teria morrido e sido sepultada em Jerusalém?

Para surpresa de muitos, explorar a mitologia relacionada ao nascimento da deusa Ártemis fornecerá respostas para perguntas antigas e ajudará a explicar por que os primeiros defensores do cristianismo se concentraram em Éfeso.

Embora nenhum texto antigo sobrevivente nos forneça diretamente uma data para o nascimento de Ártemis, é possível, assim como no caso de Afrodite, determinar uma data precisa, data essa apoiada não apenas pela mitologia, mas também por registros históricos antigos, bem como por pesquisas modernas em paleoclimatologia e arqueoastronomia.

Infelizmente, a narrativa sobre o nascimento de Ártemis, embora clara, tem sido sistematicamente ignorada pelos pesquisadores modernos. Ela envolve, fundamentalmente, uma explosão aérea, um tsunami e uma erupção vulcânica; portanto, por exemplo, até onde o autor tem conhecimento, não existem estudos sobre tsunamis na região do Egeu que tenham explorado o tsunami central para o nascimento de Ártemis, datado de cerca de 1327 a.C.

O que há em um nome?

Céos e Febe

Leto é comumente chamada de filha dos titãs Céos e Febe. Uma análise dos nomes mostra que eles são metáforas para um evento celestial.

O nome Coeus é geralmente interpretado como significando inteligente, o que, no contexto atual, tem pouco fundamento. No entanto, a palavra poderia igualmente derivar de coein, que significa inchar, crescer. Já o nome Phoebe deriva de phoibos, que significa puro, brilhante ou radiante. Assim, 'a luz brilhante crescendo'.

Leto /Lato/Latona

Não existe consenso moderno quanto ao significado do nome Leto. O filósofo neoplatônico Proclo (que defendia a veracidade da narrativa da Atlântida), em seu Comentário ao Timeu de Platão (3.109c), associou o nome Leto à palavra Lete, ocultação. Segundo ele, Leto simbolizava o processo pelo qual o divino se oculta temporariamente antes de se revelar. Embora essa interpretação possa se encaixar na filosofia neoplatônica, ela também funciona perfeitamente como uma metáfora para descrever a aparição de um cometa.






Culto astral no Império Assírio?

 


Perto de uma movimentada oficina de cerâmica nos arredores da antiga Yavne, em algum momento do século VII a.C., um artesão extraviou um pequeno selo de calcário esculpido com uma cena de culto – um homem barbudo erguendo a mão em direção à lua e a uma estrela. Redescoberto pela Autoridade de Antiguidades de Israel quase 2.700 anos depois, o objeto oferece uma ligação rara e íntima entre um canto industrial de uma cidade levantina e os cultos astrais que os próprios escritores da Bíblia condenaram nominalmente. Christoph Uehlinger, de Zurique, juntamente com os arqueólogos da Autoridade de Antiguidades de Israel Pablo Betzer, Revital Golding-Meir e Daniel Varga, e Gunnar Lehman, da Universidade Ben-Gurion do Negev, documentaram o selo em sua descrição do sítio arqueológico na revista Tel Aviv.

A descoberta feita em um antigo bairro de oleiro

O selo foi encontrado na Área U das escavações de Yavne Leste, parte de um extenso complexo de produção cerâmica da Idade do Ferro nos arredores da cidade. A zona industrial abrigava nove fornos, várias rodas de oleiro e múltiplas superfícies de trabalho. As bancadas de trabalho eram equipadas com potes de armazenamento, um pilão e pesos para tear, a cerca de três metros de uma roda de oleiro e a cerca de vinte metros dos fornos. O complexo fazia parte de um local de trabalho, e não de um templo ou santuário.

Intacto e pequeno o suficiente para caber na palma da mão, o selo mede 14,6 milímetros de comprimento, 13,2 milímetros de largura e 8 milímetros de altura. Esculpido em calcário cristalino avermelhado e perfurado longitudinalmente, sugere que quase certamente era usado como pingente ou talvez como adorno pessoal, e não apenas para selagem administrativa.
Uma pequena foca com uma história incomum

Sua presença se destaca justamente por parecer deslocada. Os pesquisadores a descrevem como o único elemento claramente estrangeiro encontrado nas imediações da oficina. Cerca de 160 metros ao norte, na Área H, os arqueólogos descobriram diversos túmulos com características da tradição funerária assíria, incluindo dois sepultamentos cobertos por grandes vasos de cerâmica invertidos e uma cripta construída com tijolos de barro. Havia também um tipo de túmulo desconhecido na região durante esse período. Em conjunto, o selo e os túmulos apontam para uma população não local com presença em Yavne, e não para uma influência imperial temporária.
Decifrando os Símbolos do Culto Astral

A base gravada do selo retrata uma figura masculina barbada, vestida com uma longa túnica de duas peças que chega aos tornozelos, de pé com o lado esquerdo voltado para três elementos simbólicos, um braço estendido para a frente com a palma da mão. Os pesquisadores interpretaram o gesto como um sinal de adoração ou saudação ritual. Dispostos verticalmente à sua frente, encontram-se um suporte ou pedestal para oferendas na base, uma lua crescente acima e, ainda mais acima, uma estrela de oito pontas. A lua crescente e a estrela estão ligadas ao deus lunar mesopotâmico Sin e à deusa associada a Vênus, refletindo divindades astrais proeminentes no panteão assírio-babilônico. À direita do adorador, há uma árvore semelhante a um cipreste, indicando um ambiente ritual ao ar livre, e não uma cerimônia em um templo.

Religião Astral Durante o Século VII

Pesquisadores documentaram selos semelhantes em Akko, Tell Jemmeh, Jerusalém, Megido e Shiqmona, cada um apresentando a mesma cena central: um adorador, um suporte para oferendas, uma lua crescente, uma estrela e uma árvore, dispostos de maneira diferente. A descoberta em Yavne indica uma mudança regional na iconografia, da iconografia solar no século VIII a.C. para símbolos planetários e lunares durante o século VII a.C., refletindo a evolução das práticas religiosas no sul do Levante.

Os autores relacionam uma mudança deliberada nos símbolos com a expansão para o oeste do Império Assírio e com as mudanças na política religiosa imperial ao longo dos reinados dos reis assírios, de Tiglate-Pileser a Assurbanípal. Os pesquisadores identificaram esse período como o século assírio, que vai de 730 a.C. a 630 a.C. Em termos puramente de história religiosa, os selos também contribuem para o crescente número de escaravelhos produzidos e amplamente distribuídos por todo o Levante, que se alinham com adaptações regionais por meio de rituais e cultos astrais.

O Oleiro de Yavne e a Economia Assíria

O complexo de cerâmica onde os selos foram encontrados possui sua própria relevância econômica. Cerca de 20 quilômetros ao sul de Yavne, a cidade de Ecrom abrigou um importante centro de produção de azeite sob o domínio assírio. Essa indústria exigia grandes quantidades de recipientes de cerâmica para armazenamento. No entanto, nenhuma oficina de cerâmica foi identificada em Ecrom. Yavne, por outro lado, possuía uma importante unidade de produção de cerâmica capaz de fabricar recipientes para azeite. Embora nenhuma evidência direta de produção de azeite ou vinho tenha sido encontrada em Yavne, os pesquisadores ainda consideram possível que o sítio arqueológico tenha fornecido cerâmica para Ecrom e outros centros dentro da ampla rede econômica assíria.

Conclusão

Os túmulos de estilo assírio descobertos nas proximidades, com seus sepultamentos em vasos duplos invertidos e criptas de tijolos de barro, podem pertencer a deportados reassentados da Mesopotâmia, uma prática documentada no território de Ashdod e em Tel Hadid, ou a indivíduos ligados ao governo assírio. A descoberta desses selos também corrobora a hipótese de que as influências assírias no Levante não se limitaram ao domínio militar ou administrativo, mas também deram origem a complexas tradições culturais. As populações locais adotaram, reinterpretaram e até adaptaram elementos da cultura assíria, como evidenciado pela presença desta pequena pedra em uma oficina de cerâmica na antiga Yavne.


Em nome de quem?

 


Recentemente, um convidado do programa Tanak Talk  onde o apresentador — que havia deixado o cristianismo para se converter ao judaísmo — fez uma pergunta que considerei perspicaz. Ele apontou uma aparente tensão entre dois textos: Isaías 45:23, no qual Javé declara: “Diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua jurará fidelidade”, e Filipenses 2:10-11, onde Paulo escreve: “ao nome de Jesus se dobre todo joelho… e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor”. Sua pergunta, incisiva e direta, foi a seguinte: como Paulo pode pegar um versículo tão claramente sobre Javé e aplicá-lo a Jesus?

Infelizmente, em meio à paixão e ao ritmo da conversa, não foi dado espaço para articular completamente a resposta. Portanto, ofereço esta reflexão escrita — não em protesto, mas em gratidão. Pois tais perguntas merecem a cortesia de respostas cuidadosas.

O nome que pertence a Jesus

Comecemos pela expressão “em nome de Jesus”. Muitos presumem que isso significa que a mera pronúncia das sílabas “Jesus” provocará uma genuflexão cósmica. Mas o grego conta uma história mais rica. A formulação de Paulo — ἐν τῷ ὀνόματι Ἰησοῦ — carrega o sentido de “em conexão com” ou “em virtude de” o nome de Jesus. E, mais especificamente, a gramática implica posse: “o nome que pertence a Jesus”.

Por que isso importa? Logo antes, em Filipenses 2:9, Paulo nos diz que Deus “o exaltou soberanamente e lhe deu o nome que está acima de todo nome”. E não pode ser “Jesus”, pois esse era o nome que Ele recebeu desde o nascimento (Mateus 1:21). O nome que Lhe foi dado — o título culminante — é “Senhor” (κύριος), uma designação carregada de significado teológico. Na tradução grega das Escrituras Hebraicas conhecida como Septuaginta (LXX) — elaborada por estudiosos judeus cerca de dois séculos antes de Cristo — κύριος figura como a tradução usual do nome divino, YHWH.

Portanto, Paulo não está sugerindo nenhuma fórmula mágica; ele está identificando Jesus com o Senhor de Israel. Quando dizemos “Jesus é o Senhor”, não estamos meramente fazendo uma declaração religiosa. Estamos confessando que o homem de Nazaré carrega o nome e a autoridade do Deus vivo.
Um hino cantado pela Igreja primitiva

Filipenses 2:6-11, onde tudo isso se desenrola, é amplamente compreendido como um hino cristão primitivo — um credo não apenas argumentado, mas cantado. Sua cadência poética, sua estrutura equilibrada e sua progressão da glória celestial à humildade humana e vice-versa, o caracterizam tanto como doxologia quanto como doutrina. O hino se divide claramente em duas estrofes:Descida (vv. 6-8): Embora existindo na forma de Deus, Cristo não se apegou ao seu status, mas se esvaziou — assumindo a forma de servo, entrando na carne humana e descendo até a morte.
Ascensão (vv. 9-11): Portanto, Deus o exaltou, dando-lhe o nome que está acima de todo nome. E em resposta, todo joelho se dobrará, e toda língua confessará: Jesus Cristo é o Senhor.

A Igreja não apenas acreditava que Jesus era o Senhor; ela cantava isso. E fazia isso em continuidade com a adoração a Javé, agora revelado em Jesus.
Isaías Cumprido, Não Reescrito

Agora, respondendo à pergunta do apresentador: Paulo "reescreveu" Isaías?

Dificilmente. Ele cumpriu a promessa.

Isaías 45:23 é uma declaração solene de Yahweh: “Diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua jurará fidelidade”. É uma declaração intransigente de monoteísmo — Yahweh está sozinho, inigualável, inigualável.

E em Filipenses 2:10-11, Paulo intencionalmente ecoa esse texto, agora em referência a Jesus. E, ao fazê-lo, ele realiza uma mudança teológica impressionante. Ele não está substituindo Javé por Jesus; ele está proclamando que Jesus é Javé — agora encarnado, crucificado, ressuscitado e exaltado. A homenagem universal outrora prometida em Isaías encontra agora seu devido cumprimento no Filho encarnado, Cristo Jesus.

Contudo — e aqui reside a genialidade — Paulo não fragmenta o monoteísmo nesse processo. A confissão “Jesus Cristo é o Senhor” não compete com o Pai. Ela é oferecida “para a glória de Deus Pai” (Filipenses 2:11). O Filho não é uma divindade rival, mas a expressão radiante do único Deus verdadeiro. Este é o monoteísmo cumprido, não abandonado.
Uma das afirmações mais ousadas do Novo Testamento

Assim, em apenas seis versículos, Paulo oferece uma das declarações mais claras e profundas da divindade de Jesus encontradas em toda a Escritura. Ele não está inovando, nem se apropriando de ideias pagãs. Ele está lendo Isaías sob a perspectiva da Ressurreição. E sob essa luz, ele vê claramente: o Jesus crucificado é o Senhor exaltado — aquele a quem todo joelho se dobrará.

É por isso, então, que nos curvamos diante de Jesus. Não apenas por causa de seus ensinamentos morais ou de sua morte sacrificial, mas porque Ele agora carrega o Nome — o Nome divino — acima de todo nome. A homenagem devida a Javé em Isaías não é redirecionada para outro lugar; ela é revelada, encarnada e cumprida em Cristo.

Decência Humana

 


O autor Christopher Hitchens era brilhante na arte de se expressar. Nesse sentido, muitas vezes o considero o C.S. Lewis do antiteísmo: charmoso, inteligente, culto e britânico. Ele tinha uma maneira de formular seus argumentos de forma que seu ponto de vista parecia a única posição lógica possível sobre o assunto. Mas, ao analisá-lo mais de perto, percebi que seu pensamento sobre religião era tão carregado de pressuposições, preconceitos pessoais e emoções que suas conclusões eram frequentemente errôneas; às vezes, até mesmo absurdas. Em vez de ponderados e equilibrados, os comentários de Hitchens muitas vezes soam como as objeções viscerais de um homem que foi pessoalmente ofendido por Deus, especialmente quando o ouvimos falar.

Em seu livro Deus Não É Grande , Christopher Hitchens escreveu esta citação que se tornou famosa:

“A decência humana não deriva da religião. Ela a precede.”
—Christopher Hitchens

A declaração soa tão concisa e inteligente que sua conclusão parece inescapável. Mas comecei a me perguntar o que ela realmente significa. Qual é o ponto que Hitchens está tentando defender e será que ele se sustenta? Acontece que essa declaração está, na verdade, de acordo com os ensinamentos do cristianismo, o que obviamente não era o que Hitchens pretendia expressar ao escrevê-la! Portanto, quero ter cuidado para captar com precisão o que ele quis dizer e não colocar palavras em sua boca ou criar um argumento falacioso para mim mesmo. Clareza exige termos bem definidos e, neste caso, os termos específicos que precisam ser definidos são decência e religião.

Quando Hitchens usa a expressão "decência humana", ele está obviamente se referindo ao comportamento moral segundo a primeira definição acima. Ele está dizendo que a capacidade de um ser humano de se comportar moralmente e distinguir o certo do errado não deriva da religião. Em vez disso, a capacidade de ser uma pessoa decente precede a exposição ao ensino religioso.

Sabemos, por seus volumosos escritos sobre o tema, que Hitchens acreditava que toda religião era criação humana. Portanto, sempre que ele usa o termo "religião", é razoável concluir que está se referindo a um sistema de fé e culto criado pelo homem. Usando essas definições, vemos que a declaração de Hitchens pode ser interpretada de duas maneiras. Ele poderia estar comentando sobre o desenvolvimento da moralidade na vida de um indivíduo ou sobre o desenvolvimento da moralidade na humanidade como espécie de mamíferos. Portanto, sua declaração poderia ser resumida de uma das seguintes maneiras: À medida que um bebê cresce e se desenvolve até se tornar um ser humano pensante, ele aprende a distinguir o certo do errado antes mesmo de ser ensinado sobre religião. Não precisamos de religião para nos ensinar a nos comportar decentemente. —OU—
A humanidade não derivou seu senso de dever moral da crença em um poder controlador sobre-humano. Em vez disso, a moralidade que vemos na espécie humana precedeu a invenção da religião pelo ser humano.

Acredito que a declaração de Hitchens pode ser interpretada de ambas as maneiras, mantendo a integridade de sua mensagem. E, como se vê, independentemente do significado que se atribua a ela, o que ele afirma tem fundamento bíblico.

Se considerarmos isso como um comentário sobre o desenvolvimento da moralidade individual, ele está ecoando os ensinamentos da Bíblia. As Escrituras nos dizem em diversas passagens que Deus escreveu Sua lei nos corações dos homens (Jeremias 31:33, Romanos 2:15, Hebreus 10:16). Em outras palavras, sabemos inerentemente o que é certo e o que é errado porque o conhecimento moral está "inerente" à nossa própria natureza como seres humanos. Um ser humano não precisa conhecer a Deus ou mesmo acreditar em Sua existência para perceber a diferença entre o certo e o errado. Portanto, o cristão pode concordar com Hitchens que nossa capacidade individual de agir de maneira moral precede nossa exposição cognitiva aos ensinamentos religiosos e, consequentemente, não deriva dela.

Por outro lado, se considerarmos a citação de Hitchens como um comentário histórico sobre a humanidade como espécie, ela ainda está de acordo com a Bíblia. Adão e Eva sabiam distinguir o certo do errado, conheciam a Deus e tinham um relacionamento com Ele muito antes de qualquer sistema de crenças criado pelo homem ser desenvolvido (Gênesis 2). Portanto, aqui também o cristão pode concordar com Hitchens que a moralidade precedeu a religião e não foi derivada dela.

A razão pela qual a declaração de Hitchens não atinge o que ele pretendia é que ele confundiu religião com Deus (uma tendência comum dele). Embora os dois estejam intimamente relacionados, não são a mesma coisa; um pode existir sem o outro. A religião sem Deus existe de muitas formas, incluindo o budismo, o ateísmo, o materialismo e o cientificismo. Todos esses são sistemas de fé que não reconhecem a existência de Deus. Por outro lado, Deus sem religião seria (literalmente) o Céu — uma relação pura e adoração a Deus, sem nenhum dogma criado pelo homem para maculá-la.

Descobriu-se, portanto, que os cristãos e Hitchens compartilham a crença de que a decência humana é inerente aos seres humanos e não requer instrução religiosa prévia. Em outras palavras, a moralidade objetiva existe. E, como já escrevi em diversos artigos anteriores, a moralidade objetiva é uma forte evidência da existência de Deus.


Hitchens está certo ao afirmar que a religião é uma criação humana, mas isso não significa que Deus também seja. Matemática, ciência e filosofia também são domínios criados pelo homem. Mas isso não significa que os números, o universo físico e as ideias não existam.

Não deveria ser surpresa que nossa religião (assim como nossa matemática, ciência e filosofia) possa, às vezes, ser falha, enganosa ou patentemente falsa.

Errar nos cálculos matemáticos nos levará a respostas erradas, mas isso não significa que toda matemática seja uma fraude ou que não exista uma resposta correta. Da mesma forma, errar na religião nos leva a respostas erradas. Isso não significa que toda religião seja uma fraude ou que não exista uma resposta correta. Em ambos os casos, podemos ter acertado em muitas coisas ao longo do caminho, mas quando há um erro em nosso raciocínio, isso pode nos desviar do rumo. Às vezes erramos, às vezes acertamos. Muitas vezes, é um pouco de cada. É por isso que, para a pessoa intelectualmente honesta, o processo de busca pela verdade é um processo constante de correção de rumo. E nesse espírito, permitam-me sugerir a seguinte versão menos concisa, porém mais precisa, da citação de Hitchens:

“A decência humana não deriva da religião, mas sim de Deus. E embora a decência humana preceda a religião, ela não precede Deus.”