domingo, 12 de julho de 2026

Flavio Josefo: fome e miséria durante o sítio de Jerusalém

 

Que disse, pois, o historiador judeu? Depois de contar sobre o incêndio do templo e todas aquelas calamidades nunca ouvidas, prossegue:

"Tal foi a sorte do templo. Quanto aos que morriam de fome pela cidade, a multidão dos que caíam era infinita e não é possível narrar os sofrimentos que teve lugar. E é assim que em qualquer casa em que se vislumbrasse uma sombra de comida, dava-se uma verdadeira batalha, até os amigos mais íntimos cerravam os punhos, arrebatando os míseros viáticos de vida. Nem os mortos se acreditava que estivessem desprovidos de comida, mas os bandidos revistavam os que tinham acabado de expirar, para verificar se algum estivesse se fingindo de morto e escondendo comida sob o peito. 

Outros, com a boca aberta pela necessidade, como cães raivosos, iam dando solavancos e perdiam a razão, tropeçando nas portas como bêbados e, desatinados, assaltavam as mesmas casas duas ou três vezes em uma hora. A necessidade forçava a levar qualquer coisa à boca e o que não se dá aos mais sujos animais, se recolhia e se comia sem escrúpulos. No final não foram perdoados nem cintos nem sapatos e se esfolava o couro dos escudos para se mascar. Também se fez alimento dos fiapos de feno velho, pois alguns recolhendo as palhas, vendiam a menor quantidade por quatro peças áticas. 

Mas para que me deter sobre o impudor da fome que penetra o inanimado? Vou agora contar uma façanha sua, como não se encontra nem nas histórias dos gregos nem dos bárbaros, feito horripilante de contar e incrível de se ouvir. De minha parte, teria passado por alto este espantoso caso, para não dar a impressão aos homens que hão de vir de que busco o monstruoso, por não ter testemunhos incontáveis do feito entre os de minha geração. Além do mais, pareceria indiferente a minha pátria se eu dissimulasse em minhas palavras o que ela sofreu nestes feitos. 

Houve, pois, uma mulher, procedente da Transjordânia, chamada Maria, filha de Eliazar e natural da aldeia de Betezo, palavra esta que significa "casa do hissopo". Ilustre por sua linhagem e riqueza, refugiou-se com a multidão em Jerusalém e ali sofria o cerco comum da guerra. Os tiranos a haviam despojado de toda a riqueza que havia conseguido reunir e transportar de Perea a Jerusalém; quanto às relíquias de outros bens, dia a dia os guardas as iam saqueando, apenas farejavam alguma comida. 

Terrível foi a indignação que se apoderou da mulher e muitas vezes, a força de injúrias e maldições, tratou de atiçar contra si mesma os saqueadores. Mas uma vez que nem por indignação nem por lástima se decidissem a matá-la, cansada já de buscar comida para os demais (coisa difícil de se achar em qualquer parte), como a fome lhe penetrava as entranhas e a medula e, ainda mais que a fome, incendiava-lhe a cólera, tomando por conselheira a sua fúria e sua necessidade, voltou-se contra a sua própria natureza, e arrebatando o seu próprio filho (que tinha junto ao peito):

- "Filho meu", disse,

"desgraçado pela guerra, pela fome e pela revolta, para quem te estou guardando? Com os romanos, se sob seu jugo vivemos, nos espera a escravidão; à escravidão a fome toma a dianteira e pior que a escravidão e a fome são os revoltosos. Pois, serve a mim de comida, de fúria infernal aos revoltosos e de fábula à vida, a única que faltava às calamidades dos judeus.

E dizendo e fazendo, mata seu próprio filho, e em seguida o assa, come a metade e guarda escondido o restante. Apresentaram-se imediatamente os revoltosos pelo odor daquele abominável sacrifício e a ameaçaram que se não lhes mostrassem a comida que havia preparado, a esfaqueariam imediatamente. Respondeu a mulher que lhes havia guardado uma boa parte e lhes mostrou os restos de seu próprio filho. Tomados por um calafrio de horror ficaram fora de si, petrificados ante aquele espetáculo. Mas ela:

"Este", disse-lhes,

"é meu filho legítimo e obra que me pertence. Comei, posto que também eu comi. Não pretendais mostrar-vos nem mais brandos que uma mulher nem mais compassivos que uma mãe. Mas se quereis passar por pios e rechaçais meu sacrifício, eu comi a metade e para mim seja também o que sobra.

Depois destas palavras, os soldados saíram estremecidos. Só para esta façanha se sentiram covardes. Só esta comida reservaram para a mãe. A cidade inteira se encheu imediatamente daquela abominação e, apresentando-se cada um ante os olhos a tragédia, todos estremeciam de terror, como se cada um tivesse cometido aquele crime. Os que sofriam fome tinham pressa em morrer e se considerava felizes os que se lhes haviam adiantado, antes de ouvir e contemplar desgraças semelhantes. A tragédia correu também muito rapidamente pelo acampamento dos romanos. Uns se negavam a acreditar; outros se lastimavam; à maior parte, sem duvida, não fez senão inflamar mais o ódio contra nossa nação" (Flavio Josefo, Bell. Iud. VI, 3, p.285).

Paulo e a morte de Estevão

 


Gálatas - 1,22 - "De acordo que, pessoalmente, eu era desconhecido às igrejas da Judéia que estão em Cristo"

Atos - 7,58 - "Lançaram Estevão fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram os seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo (Paulo).

Em Gálatas Paulo afirma nunca ter estado em Jerusalém e em Atos, Lucas afirma que ele estava no apedrejamento de Estevão e que devastava a igreja em Jerusalém. Como resolver tal antinomia?

Para que possamos tentar elucidar um pouco deste problema, devemos deixar claro alguns pontos centrais — Lucas não conheceu Jesus. Isso é um fato. Nenhum evangelista o conheceu - outro fato. Todos evangelistas se utilizaram de fontes escritas e orais baseadas nas tradições acerca de Jesus. Da mesma forma, por incrível que isso possa parecer, o autor do evangelho segundo Lucas e dos Atos dos Apóstolos provavelmente não conheceu Paulo. Se o conheceu, seu contato foi insuficiente para dele ter sido um seguidor, companheiro ou discípulo de longa data.

As contradições entre os relatos dos Atos e as Cartas de Paulo, bem como as diferenças entre “teologia paulina” apresentada por Lucas e a teologia das cartas autênticas de Paulo são várias e extrapolam o escopo deste tópico. Neste sentido, como pontua Kümmel, “É fora de dúvida, pois, que nos três pontos básicos supracitados, a respeito da atividade de Paulo, o autor de Atos tem um conhecimento de tal forma deturpado a respeito dos fatos históricos, que dificilmente poderia ter sido companheiro de Paulo nas viagens missionárias deste.” KUMMEL, Introdução ao Novo Testamento, 1982, p.230)

Não só o autor de Lucas possui um conhecimento secundário acerca da trajetória de Paulo, como também toda a obra dos Atos dos Apóstolos de forma alguma pode ser considerada como um texto com pretensões historiográficas. Como pontua Helmut Koester, “É muito difícil encontrar no Livro dos Atos informações históricas úteis. Como o autor não escreve uma história, mas uma epopéia, ele não submeteu nenhum material tradicional ao escrutínio crítico do historiador.” KOESTER, Introdução ao Novo Testamento, vol. 2, 2005, p.339-40)

Neste sentido, o material lucano deve ser encarado prioritariamente a partir de seu propósito apologético, qual seja – o de transmitir a um público gentio a trajetória de uma Igreja unificada, evitando-se e minimizando a idéia de conflitos de tal Igreja para com o Império Romano. É possível encontrar ecos de eventos e tradições antigas ligadas aos autores dos discursos encontrados em Lucas. Por outro lado, tais discursos só podem ser devidamente interpretados a partir da proposta apologética editorial do autor lucano.

Como mencionam Cláudio Moreschini e Enrico Norelli em seu História da Literatura Cristã Antiga grega e Latina: “Os discursos dos Atos são importantes para o estudo do pensamento do autor; as convenções historiográficas antigas permitiam por na boca dos personagens históricos discursos que eles não tinha realmente pronunciado, mas que serviam para iluminar o significado da situação.” [1995, p.98] Koester [p.340] concorda com Moreschini e Norelli quanto à inserção de discursos compostos pelo autor na boca de personagens históricos retratados como sendo uma técnica da historiografia antiga. No entanto, ressalta, que a mesma técnica era usada por autores de romances e epopéias, de tal forma a destacar o significado de eventos importantes.

Com relação à antinomia em questão, pontuamos a seguinte visão dos autores:

“A presença de Paulo na morte de Estevão (At 7,58) é excluída por Gl 1,22. Atos 8,3 não é histórico pela mesma razão, e consequentemente também Atos 26,10-11. É impensável que Paulo, de posse de cartas do sumo sacerdote, pudesse ter levado cristãos de fora da Palestina para Jerusalém para serem punidos. Nem o sumo sacerdote e nem o sinédrio judaico em Jerusalém jamais tiveram esses poderes de jurisdição.” [KOESTER, p.115]

“Por outro lado, é pouco provável que tenha recebido uma formação rabínica em Jerusalém junto ao grande Gamaliel (At 5,34; 22,3) [...] Que, no entanto, o centro de sua atividade de perseguidor fosse Jerusalém (At 9, 1-2), a ponto de assistir ao apedrejamento de Estevão (At 7,58; 8,1; 22,20), parece contradito por Gl 1,22, segundo a qual ele era pessoalmente desconhecido nas igrejas da Judéia.” [MORESCHINI e NORELLI, p.35-6]

Concluindo, então:

1 - Os relatos acerca de Paulo, sob a perspectiva lucana, devem ser avaliados sempre com reservas e cotejados com a informação das epístolas de Paulo, as quais possuem sempre uma primazia enquanto fonte histórica.

2 – O texto de Lucas não se conforma como um trabalho com pretensões historiográficas. O mesmo deve ser visto sob a ótica literária de uma epopéia e a partir do propósito apologético específico do autor.

3 – Os relatos sobre a atividade de Paulo na Judéia apresentam antinomias. Neste sentido, tendo, pois a concordar com as supracitadas posições de Koester, Moreschini e Norelli.

Demônio Geraseno

 


"Ao chegar ao outro lado, ao país dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoniados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que puseram-se a gritar: 'Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?' Ora, a certa distância deles, havia uma manada de porcos que pastavam. Os demônios lhe imploravam, dizendo: 'Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos' Jesus lhes disse: 'Ide'. Eles, saindo, foram para os porcos e logo toda a manada se precipitou no mar, do alto de um precipício, e pereceu nas águas."[Mateus 8:28-32]

"Navegaram em direção à região dos gerasenos, que está do lado contrário da Galiléia. Ao pisarem terra firme, veio ao seu encontro um homem da cidade, possesso de demônios. Havia muito que andava sem roupas e não habitava em casa alguma, mas em sepulturas. Logo que viu a Jesus começou a gritar, caiu-lhe aos pés e disse em alta voz: 'Que queres de mim, Jesus filho do Deus altíssimo? Peço-te que não me atormentes' Jesus com efeito, ordenava ao espírito impuro que saísse do homem, pois se apossava dele com frequência. Para guardá-lo, prendiam-no com grilhões e algemas, mas ele arrebentava as correntes e era impelido pelo demônio para os lugares desertos. Jesus perguntou-lhe: 'Qual é o teu nome?' - 'Legião', respondeu, porque muitos demônios haviam entrado nele. E rogavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo. Ora, havia ali, pastando na montanha, numerosa manada de porcos. Os demônios rogavam que Jesus lhes permitisse entrar nos porcos. E ele o permitiu. Os demônios então saíram do homem, entraram nos porcos e a manada se arrojou pelo precipício, dentro do lago, e se afogou."[Lucas 8:26-33]

"Chegaram do outro lado do mar, à região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro: habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o tinham prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo. E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante dele, clamando em alta voz: 'Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!' Com efeito, Jesus lhe disse: 'Sai deste homem, espírito impuro!' E perguntou-lhe: 'Qual é o seu nome?' Respondeu: 'Legião é meu nome, porque somos muitos'. E rogava-lhe insistentemente que não os mandasse para fora daquela região. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. Rogavam-lhe, então, os espíritos impuros dizendo: 'Manda-nos para os porcos, para que entremos neles.' Ele o permitiu. E os espíritos saíram, entraram nos porcos e a manada - cerca de dois mil - se arrojou no precipício abaixo, e se afogavam no mar."[Marcos 5:1-13]

Comentário da Bíblia de Jerusalém sobre o relato de Marcos: "A aldeia de Gerasa, a atual Djerash, está situada a mais de 50 km do lago de Tiberíades, o que torna impossível o episódio dos porcos. É possível que Mc misture dois episódios distintos. Conforme o primeiro, Jesus teria realizado simples exorcismo, na região de Gerasa (vv. 1-8.18-20). Conforme o segundo (cf. Mt 8,28-34), Jesus manda os demônios para os porcos que se precipitam no lago." [Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2008, p.1765]

A interpretação típica desta passagem é a literal. Jesus encontra um possesso na região da Decápolis e pratica ali um exorcismo. Aquilo, no entanto, que parece ser mais um dos vários exorcismos praticados por Jesus pode, na verdade, ser outra coisa bem diversa daquilo que aparenta.

Essa passagem está cheia de possíveis complicadores, dado que não era de se supor a presença de uma criação de suinos entre judeus. De qualquer forma, para que possamos compreender a questão dos porcos, deve-se pontuar que a região de Gerasa (vista em Marcos) ou Gadara (vista em Mateus) fica na região da Decápolis (atual Jordânia), fora da Judéia. Logo, a presença de uma criação de porcos nessa região não é improvável, dado que era habitada por uma cultura não-judaica em sua maioria. Um outro dado relevante é a distância destas cidades até o mar. Gerasa fica a 48 km do Lago [mar] da Galiléia. Fica também a uma distância semelhante do Mar Morto.Já Gadara fica a 9,6 km. Confira aqui o mapa da região. Seria realmente um evento grotesco a imagem de 2 mil porcos percorrendo uma verdadeira maratona para se suicidarem.

Mateus nos fala sobre dois endemoniados. Essa parece ser, na verdade, uma opção redacional peculiar do evangelista. Da mesma forma encontramos dois cegos em Jericó (Mt 20,30) e dois cegos em Betsaida (9,29). Tais "duplos" parecem ser um recuro estilístico mateano.

Por outro lado, tal episódio é apenas a imagem de algo bem diverso daquilo que uma interpratação literal possa transparecer. Ela se refere ao império romano. Podemos encontrar referências no Talmud e em outros textos judaicos nos quais os gentios são associados chamados de porcos, cães ou bestas. Em uma destas passagens, encontramos: "As almas de não-judeus vem de espíritos impuros e são chamadas porcos" Talmud (Jalkut Rubeni gadol 12b). 

Na verdade, o próprio Jesus se referiu a eles nestas palavras [caso da mulher cananéia]. O nome do demônio que possuía o corpo daquele indivíduo (Mateus fala de dois endemoniados) nos dá a pista central - trata-se de uma legião. Não é atoa que se contava na casa dos milhares o seu número. Provavelmente o autor original de tal passagem se referia à X legião Fretensis.

Este texto não trata da expulsão física de demônios, mas é, na verdade, mapa cifrado da expulsão do império e da instauração do Reino de Deus, por Jesus. A saída do demônio é a libertação da opressão imposta pelo domínio romano.

Mas como poderíamos demonstrar tal hipótese?

Para tal, vamos observar alguns dados sobre a marcha das tropas romanas quando da guerra contra os judeus entre 66-73 d.C. Percebam como foi a política de destruição e terra arrasada imposta pelos Romanos à Gerasa e Gadara [segundo Flávio Josefo em seu Guerras Judaicas] :

Gerasa

"Ânio [o oficial comandante] tomou a cidade de assalto, matou mil jovens — todos aqueles que não tinham escapado —, aprisionou mulheres e crianças e permitiu que seus soldados saqueassem os bens. Finalmente incendiou as casas e marchou contra as aldeias circunvizinhas. Os que podiam, fugiram, os inválidos pereceram e tudo o que restou foi destruído pelas chamas" (G.J. 4.488-89) citado por HORSLEY, Richard & HANSON, John. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995, p.190.

Gadara

A cidade de Gadara foi tomada pelos romanos sem muito esforço, dado que a elite da cidade secretamente fez um acordo com os romanos para protegerem seus bens. Porém... Os rebeldes fugiram da cidade... O que lhes foi feito?

"Vespasiano mandou Plácido com 500 homens de cavalaria e 3000 de infantaria perseguir aqueles que haviam fugido de Gadara... Quando os fugitivos subitamente viram a cavalaria em sua perseguição, invadiram uma aldeia chamada Betenabris antes de iniciar qualquer batalha. Plácido ordenou um ataque e após uma renhida batalha, que se estendeu até a noite, capturou as muralhas e toda a aldeia. Os não-combatentes foram mortos em massa, enquanto os fisicamente mais capazes fugiram. Os soldados saquearam as casas e depois incendiaram a aldeia. Entrementes, aqueles que tinham fugido agitaram a zona rural."

Acabaram pois se refugiando em Jericó:

"Plácido, baseando-se na sua cavalaria e animado por seus sucessos anteriores, perseguiu-os até o Jordão, matando a todos os que podiam capturar... Seu caminho até a região era um longo rastro de carnificina, e o Jordão... e o mar Morto ficaram cheios de cadáveres..." [G J, citado por HORSLEY, p.190-1]

Moeda romana - X Legião Fretensis

Sentiram alguma semelhança com uma grande trajetória percorrida pela legião perseguidora romana e pelos rebeldes perseguidos israelitas [De Gadara até ................................ os corpos serem jogados no mar] - boiando?

Nunca houve um tal milagre de Jesus expulsando um demônio chamado Legião de um possuído na região da Decápolis. E nem muito menos tais demônios entraram dentro de porcos que saíram percorrendo distâncias de 50 km até se jogarem ao mar. Nada disso aconteceu. Seria de fato a coisa mais maluca ver a enorme maratona dos milhares de porcos se jogando ao mar, praticamente enfartados de tanto correrem.




O relato dos evangelistas em nada tem a ver com um exorcismo praticado por Jesus pessoalmente. O que está contido nessa passagem é uma mensagem sutil de combate ao império romano. A região da Palestina está possuída. E este demônio é Roma. Gerasa e Gadara simbolizam o mal perpetrado pelo domínio.

O evento histórico da chacina e destruição em massa perpetrada pelas tropas e legiões de Vespasiano estão bem nítidos na pele do evangelista que está escrevendo pouco após tais chacinas. A perseguição e morte dos rebeldes israelitas por vários e vários Km até chegarem ao mar morto e ao Jordão são invertidos pela narrativa do evangelista.

A implantação do Reino de Deus significa a expulsão do demônio [Roma] - a Legião expulsa [os porcos gentios] se precipita ao mar. O evento histórico é revertido na ótica do evangelista. Na implantação do Reino de Deus, são os romanos [a legião de demônios] que serão expulsos e destruídos.




Josué circuncida Israel

 

Cena da circuncisão no antigo Egito. Reino Antigo, 6ª Dinastia, reinado do rei Teti, ca. 2345-2333 AC. Tumba de Ankhmahor, necrópole de Saqqara. Flickr, kairoinfo4u.

Antes de a circuncisão ser uma  mitsvá , era um marcador cultural: Assim, Josué introduz a circuncisão em Israel em Gilgal (Josué 5:2-9), os filhos de Jacó insistem que os siquemitas se circuncidam antes de Siquém se casar com sua irmã (Gênesis 34), e os israelitas desprezam os filisteus por serem incircuncisos (Juízes 14:3).

Após conduzir os israelitas à terra prometida, Josué os circuncida por ordem de Deus:

יהושע ה:ג וַיַּעַשׂ לוֹ יְהוֹשֻׁעַ חַרְבוֹת צֻרִים וַיָּמָל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶל גִּבְעַת הָעֲרָלוֹת.
Josué 5:3 Então Josué fez facas de sílex e circuncisou os israelitas no monte dos prepúcios.

Após explicar por que os israelitas não haviam sido circuncidados (vv. 4-7), a narrativa continua:

יהושע ה:ט וַיֹּאמֶר יְ-הוָה אֶל יְהוֹשֻׁעַ הַיּוֹם גַּלּוֹתִי אֶת חֶרְפַּת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיכֶם וַיִּקְרָא שֵׁם הַמָּקוֹם הַהוּא גִּלְגָּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה.
Josué 5:9 Então o Senhor disse a Josué: “Hoje tirei de você a vergonha [Heb. galoti ] do Egito”. E chamou aquele lugar de Gilgal, nome que permanece até hoje.

Que “vergonha para o Egito” é essa?

Desgraça da Errante (Abarbanel)

Dom Isaac Abarbanel (1437-1508) relaciona essa desgraça à história dos batedores em Números 13-14:

ואחשוב אני בזה שלפי שהלכו ישראל במדבר ארבעים שנה היו המק אומרים “מבלתי יכולת ה' להביאם אל הארץ אשר נשבע להם וישחטם במדבר” (במ'יד, טז). ועתה כאשר העבירם האל ית' אל הארץ והיו ישראל בגלגל אמר, “היום גלותי את חרפת מצרים מעליכם” כי יאמרו שכבר באתם אל הארץ.
Minha opinião sobre este assunto é que, como os israelitas vagaram pelo deserto durante quarenta anos, os egípcios disseram: “Por causa da incapacidade do Senhor de os conduzir à terra que lhes prometeu sob juramento, ele os massacra no deserto” (Números 14:16). Ora, quando Deus os conduziu à terra e os israelitas estavam presentes em Gilgal, Deus disse: “Hoje removi de vocês a afronta do Egito”, pois eles agora dirão (admitirão) que vocês já entraram na terra.

Segundo Abarbanel, a presença de Israel no deserto durante quarenta anos foi uma humilhação nacional que finalmente chegou ao fim com a entrada dos israelitas na terra em Gilgal. Mas esta interpretação é problemática por várias razões:

A vergonha de Deus – A vergonha referida em Números 14, a “incapacidade do Senhor de os levar para a terra”, refere-se a Deus, enquanto em Josué a vergonha é do povo. 

Sem relação com a circuncisão – Mais importante ainda, o contexto narrativo em Josué parece indicar que existe uma relação entre a remoção da desonra e a remoção do prepúcio; Números sequer menciona circuncisão ou prepúcios.

Qual a relação entre a “vergonha do Egito” e a circuncisão dos israelitas em Gilgal?

A desgraça da escravidão (Kaufmann)

O grande ideólogo e historiador israelense, Yehezkel Kaufmann (1889-1963), ofereceu uma explicação “sionista” para o motivo pelo qual os israelitas não circuncidaram seus filhos no deserto, em seu comentário sobre Josué, no versículo 9:

הפסוק מתבאר רק מתוך ההשערה ששיערנו, שישראל נדרו שלא ימולו את בניהם עד שיבואו לארצם. זאת אומרת, שעד אז לא היתה גאולתם שלמה וכאילו נמשכה עוד יציאת מצרים וחרפת שעבודם לא נגולה מעליהם. חרפת מצרים היא איפוא הערלה כזכר לעבדות.
O versículo só pode ser explicado com base em nossas sugestões de que os israelitas fizeram um voto de não circuncidar seus filhos até entrarem em sua terra. Significando que, até então, sua redenção estava incompleta, e era como se o êxodo do Egito continuasse e a desgraça de sua escravidão não tivesse sido removida deles. “A desgraça do Egito” é, portanto, o prepúcio como lembrança da escravidão. 

Kaufmann inventa aqui um voto que não tem qualquer vestígio na Bíblia e não está de todo implícito neste texto. A natureza fantasiosa desta conjectura é evidente.

Vergonha de não circuncidar no deserto (Blum)

O estudioso bíblico alemão Erhard Blum sugere que a desgraça é a própria falha da geração do êxodo em circuncidar seus filhos no deserto, como deveriam ter feito. Essa falha pecaminosa é parte integrante do decreto de que a geração do êxodo deve morrer no deserto.

A implicação disso tudo é que o êxodo do Egito não foi verdadeiramente alcançado com a mera chegada à terra prometida. A falha na circuncisão precisava ser corrigida para que o êxodo pudesse ser de fato concretizado. Assim como na sugestão de Kaufmann, considero essa abordagem artificial; não há indicação em nenhum outro texto bíblico de que os israelitas do período no deserto tenham pecado por não se circuncidarem.

A vergonha de ser como os egípcios (Radak)

Radak (R. David Kimchi, c. 1160-1235) sugeriu que a circuncisão dos israelitas em Gilgal removia o prepúcio, considerado vergonhoso, que caracterizava os egípcios. Ele explica as palavras חרפת מצרים com o seguinte comentário:

לפי שיצאו האבות ממצרים, והיו הבנים ערלים כמו המצרים, והערלה חרפה כמו שאמר “כי חרפה היא לנו” (בר' לד, יד).
Visto que os pais saíram do Egito e os filhos eram incircuncisos como os egípcios. E o prepúcio é uma vergonha, como está escrito: “pois é uma vergonha para nós” (Gênesis 34:14).

Isso teria feito todo o sentido para seus leitores, mas as informações que temos agora sobre o antigo Egito sugerem que é problemático.

Egípcios circuncidados

Os antigos egípcios praticavam a circuncisão. Nas palavras do historiador grego Heródoto, do século V a.C. , eles “praticavam a circuncisão por questões de higiene, considerando melhor ser limpo do que bonito”. De fato, a antiga “Estela de Uha” egípcia (cerca de 2100 a.C.) refere-se à circuncisão deste oficial em um rito comunitário juntamente com outros cento e vinte homens. 

Mesmo que a circuncisão não fosse considerada um requisito absoluto para todos os egípcios em todos os períodos, ainda é estranho referir-se à incircuncisão como uma característica especificamente egípcia quando tantos egípcios a praticavam. 

Desgraça segundo os egípcios

Sofonias 2:8 sugere que essa interpretação envolve uma tradução errônea:

צפניה ב:ח שָׁמַעְתִּי חֶרְפַּת מוֹאָב וְגִדּוּפֵי בְּנֵי עַמּוֹן אֲשֶׁר חֵרְפוּ אֶת עַמִּי…
Sofonias 2:8 Ouvi as afrontas de Moabe e os insultos do povo de Amom, com que afrontaram o meu povo…

Se חרפת מואב se refere à afronta ou aos insultos vindos de Moabe e dirigidos aos israelitas , parece razoável supor que o mesmo se aplique a חרפת מצרים. Essa expressão deveria se referir a uma desgraça associada a Israel e expressa com escárnio pelos egípcios, e não a uma desgraça associada ao Egito.

Desprezado pelos egípcios (Keunen)

Assim, a interpretação mais convincente é que a declaração dramática de Deus a Josué no versículo 9, "Hoje tirei de vocês a vergonha do Egito", implica que os israelitas no Egito eram desprezados por seus superiores egípcios por serem incircuncisos.

Esta leitura foi sugerida há muito tempo por Abraham Keunen (1828-1891),  seguido por George A. Cooke (1865-1939)  e Carl Steuernagel (1869-1958), e foi recentemente revivida pelo estudioso ítalo-israelense Alexander Rofé. Seguindo esta abordagem, Josué introduz a circuncisão em Israel “hoje”, em Gilgal, pela primeira vez, uma vez que eles não eram circuncidados antes disso.

A circuncisão como mandamento é sacerdotal tardia

Esta interpretação, que pressupõe que Josué 5:9 introduz a circuncisão como um rito, está em clara tensão com Gênesis 17 e textos semelhantes, que falam da circuncisão como um sinal central da aliança com Deus desde a época de Abraão. No entanto, é provável que Gênesis 17, parte da fonte sacerdotal ou estrato da Torá, seja muito tardio (exílico? pós-exílico?), assim como grande parte de P, e não reflita necessariamente a prática pré-exílica.

A Ausência da Mitzvá da Circuncisão nos Textos Bíblicos

O Decálogo (Êxodo 20, Deuteronômio 5), a Coleção da Aliança (Êxodo 21-23), o Decálogo Cultual (Êxodo 34), a Coleção da Santidade (Levítico 17-26), o livro de Números e a Coleção da Lei Deuteronômica (Deuteronômio 12-26) nunca mencionam a “aliança da circuncisão”.

Na verdade, além da breve menção à circuncisão de Isaque em Gênesis 21:4 (também de origem sacerdotal), não encontramos menção a nenhum personagem bíblico realizando ou se submetendo a esse rito supostamente central da aliança de Abraão. A circuncisão de seu filho por Zípora em Êxodo 4:24-26, de uma fonte não sacerdotal, é realizada para salvar seu marido com o uso do sangue, e não para introduzir a criança na aliança de Abraão. De fato, a narrativa não usa a palavra "aliança".

A circuncisão como marcador cultural

O caráter não religioso e não vinculante da circuncisão se reflete na história não sacerdotal do estupro de Diná em Gênesis 34, que usa o mesmo termo “desgraça” (חרפה) que Josué 5:9:

בראשית לד:יד וַיֹּאמְרוּ אֲלֵיהֶם לֹא נוּכַל לַעֲשׂוֹת הַדָּבָר הַזֶּה לָתֵת אֶת אֲחֹתֵנוּ לְאִישׁ אֲשֶׁר לוֹ עָרְלָה כִּי חֶרְפָּה הִוא לָנוּ .
Gênesis 34:14 E eles disseram-lhes: “Não podemos fazer isso, dar nossa irmã a um homem incircunciso, porque isso é uma vergonha entre nós .

A base do pedido dos irmãos, implicitamente aprovado por Jacó, para que o povo de Siquém se submetesse à circuncisão, reside no fato de que a ausência de circuncisão em um homem é considerada uma desgraça entre os israelitas. O texto não menciona Javé, Abraão ou aliança. Os siquemitas não são solicitados a reconhecer o Deus de Israel, mas sim a, literalmente, remover uma barreira étnica que dividia os grupos.

Da mesma forma, a referência depreciativa aos filisteus em diversas passagens relativamente antigas, não sacerdotais (Juízes 14:3; 15:18; 1 Samuel 17:26, 36), como sendo “incircuncisos” (ערלים), não faz sentido se a circuncisão era considerada o sinal único da aliança entre Deus e Israel. Afinal, os filisteus não eram israelitas. Por que algum israelita esperaria que eles fossem circuncidados?!

Em resumo, nos textos pré-sacerdotais que discutem a circuncisão, ela não é uma mitsvá de YHWH, mas um marcador cultural. Agora que estavam em sua própria terra, Josué introduz a circuncisão aos israelitas como um sinal de que eles não deveriam mais se sentir "desonrados" aos olhos dos egípcios. Em vez disso, como os egípcios, eles também passaram a ser circuncidados. Nessa tradição, Josué — e não Abraão — é o pai da circuncisão israelita.

A desculpa da natureza selvagem

Os versículos que precedem Josué 5:9, no entanto, contradizem essa interpretação. Eles explicam por que os israelitas não haviam sido circuncidados até então (vv. 4-7), insistindo que os israelitas que saíram do Egito foram circuncidados e que somente a geração seguinte, nascida durante a viagem, foi circuncidada por Josué:

יהושע ה:ה כִּי מֻלִים הָיוּ כָּל הָעָם הַיֹּצְאִים וְכָל הָעָם הַיִּלֹּדִים בַּמִּדְבָּר בַּדֶּרֶךְ בְּצֵאתָם מִמִּצְרַיִם לֹא מָלוּ.
Josué 5:5 Ora, enquanto todos os que saíram do Egito eram circuncidados, nenhum dos que nasceram depois do êxodo, durante a peregrinação no deserto, havia sido circuncidado.

Esta interpretação faz parte de um excurso (vv. 4-7 ) que constitui uma “correção” tardia do texto original. O redator corrigiu a afirmação problemática sobre os israelitas não serem circuncidados até então, insistindo que os israelitas que saíram do Egito eram circuncidados e que Josué estava apenas restabelecendo uma prática anterior.

Ideia de Josué – Não de YHWH

Uma análise atenta do versículo 9 corrobora a suposição de que a circuncisão é entendida aqui como uma prática cultural, e não como um mandamento de Deus:

יהושע ה:ט וַיֹּאמֶר יְ-הוָה אֶל יְהוֹשֻׁעַ הַיּוֹם גַּלּוֹתִי אֶת חֶרְפַּת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיכֶם וַיִּקְרָא שֵׁם הַמָּקוֹם הַהוּא גִּלְגָּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה.
Josué 5: 9 Então o Senhor disse a Josué: "Hoje tirei de você a vergonha do Egito". E chamou aquele lugar de Gilgal, nome que permanece até hoje.

Há duas peculiaridades aqui:

YHWH Nomeando o Lugar – Esse tipo de “etiologia do nome do lugar” é quase sempre pronunciado por um personagem humano ou pelo narrador anônimo da história, não por Deus.

YHWH dirigindo-se ao povo – No versículo, YHWH está aparentemente se dirigindo a Josué quando, na verdade, as palavras são dirigidas ao povo de Israel.

Ambos os problemas podem ser resolvidos se assumirmos que as palavras “YHWH para” foram adicionadas ao versículo (veja o itálico na citação acima) e que, no versículo original, era Josué quem estava falando. Isso parece muito mais natural, visto que é Josué quem circuncida o povo e remove a “vergonha do Egito” deles. Seguindo essa interpretação, Josué, e não Deus, nomeou o local de Gilgal.

Mandamento de Deus para a Circuncisão

Assim como colocar o discurso sobre a “vergonha do Egito” na boca de Deus é artificial, o mesmo ocorre com a ordem de circuncidar. Aliás, uma análise mais atenta do versículo inicial, onde Deus dá essa ordem, mostra que ele também é redacional:

יהושע ה:ב בָּעֵת הַהִיא אָמַר יְ-הוָה אֶל יְהוֹשֻׁעַ עֲשֵׂה לְךָ חַרְבוֹת צֻרִים וְשׁוּב מֹל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל שֵׁנִית.
Josué 5:2 Naquele tempo, o Senhor disse a Josué: "Faça facas de sílex e circuncide os israelitas pela segunda vez."

De acordo com este versículo, Josué circuncida os israelitas por ordem de YHWH, fazendo-o “novamente… uma segunda vez”. Isto implica que os israelitas foram circuncidados no passado e contradiz a leitura simples do v. 9, em que esta é a primeira vez que os israelitas foram circuncidados. 

A frase “naquele tempo YHWH disse” (בעת ההיא אמר ה') é claramente deuteronomística. Observe como isso se assemelha ao estilo de Dt 10:1, em que Moisés diz: “naquele tempo, YHWH me disse” (בעת ההיא אמר ה' אלי). A expressão “naquele tempo” (בעת ההיא) é usada repetidamente em Deuteronômio e na literatura deuteronomista (Dt 1:9, 16, 18; 2:34; 3:4, 8, 12, 18, 21, 23; 4:14; 5:5; 9:20; 10:1, 8. Cf. Jos 6:26; 11:10, 21; etc.).

Além disso, a ideia de que a circuncisão fazia parte do mandamento de Deus — e certamente as referências no Texto Massorético a esta ser uma segunda circuncisão — está de acordo com o conceito bíblico posterior de que a circuncisão é uma característica da religião israelita, e não meramente um marcador étnico. Assim, eu argumentaria que todo o versículo é uma inserção redacional, juntamente com os versículos 5:4-8a e as palavras adicionadas no versículo 9.

Ideia de Joshua

Após removermos os suplementos e as omissões, ficamos com um breve relato:

יהושע ה:ג וַיַּעַשׂ לוֹ יְהוֹשֻׁעַ חַרְבוֹת צֻרִים וַיָּמָל אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל אֶל גִּבְעַת הָעֲרָלוֹת. // ה:ח …וַיֵּשְׁבוּ תַחְתָּם בַּמַּחֲנֶה עַד חֲיוֹתָם. ה:ט וַיֹּאמֶר // יְהוֹשֻׁעַ הַיּוֹם גַּלּוֹתִי אֶת חֶרְפַּת מִצְרַיִם מֵעֲלֵיכֶם וַיִּקְרָא שֵׁם הַמָּקוֹם הַהוּא גִּלְגָּל עַד הַיּוֹם הַזֶּה
Josué 5:3 Então Josué fez facas de sílex e circuncisou os israelitas no monte dos prepúcios. // Josué 5:8 …e eles permaneceram onde estavam, no acampamento, até se recuperarem. 5: 9 Então // Josué disse: “Hoje tirei de vocês a vergonha do Egito”. E chamou aquele lugar de Gilgal, nome que permanece até hoje .

A falta de envolvimento de Deus aqui é apoiada pela formulação ויעש לו יהושע חרבות צורים, “e Josué fez para si facas de pedra”, o que implica que a circuncisão dos israelitas foi iniciativa de Josué.

Incluindo Deus no cenário

O editor transformou a decisão de Josué de realizar uma circuncisão em massa dos homens israelitas em Gilgal em uma ordem divina para conferir-lhe significado religioso. A circuncisão é realizada em conformidade com a vontade divina e não meramente para parecer menos "primitiva" segundo os padrões da cultura egípcia.

Este ajuste editorial remove a problemática apresentação de Josué como um líder que inicia atividades cerimoniais por sua própria autoridade humana. Josué não inventa nem institui atos rituais, uma tarefa que pertence estritamente a Deus. Mas na concepção original desta breve história, a circuncisão não era um ritual ou uma mitsvá , mas um marcador cultural, instituído por Josué para que os israelitas pudessem agora ser circuncidados como os egípcios e não mais sentir a dor da desonra.


O dilúvio em seu contexto no antigo Oriente Próximo

 


Geografia bíblica da Mesopotâmia

Amaior parte da história de Noé se passa na Mesopotâmia, “a terra entre os rios” Tigre e Eufrates. Após o dilúvio, que cobre o mundo inteiro, a arca de Noé repousa perto das nascentes de ambos os rios, “nos montes de Urartu” (עַל הָרֵי אֲרָרָט; Gênesis 8:4), no leste da Turquia moderna.

Além disso, as principais cidades de Ninrode incluem Babilônia (Gênesis 10:10), cujo nome recebe uma etimologia popular hebraica ( bavel derivado de balal, “confundido”) no final da história da “Torre de Babel” (Gênesis 11:1–9). Uruk (em hebraico Erech ) e Acádia, duas outras cidades que faziam parte do reino de Ninrode, são bem documentadas em registros da Mesopotâmia, embora a localização precisa de Acádia ainda seja desconhecida. Muitos desses registros estão escritos em uma língua conhecida como “a língua da terra de Acádia” pelos antigos, ou acádio, pelos modernos.

Finalmente, Terá e sua família, incluindo o futuro patriarca Abrão, começam sua jornada em “Ur dos Caldeus”, a antiga cidade de Ur, no atual sul do Iraque, e seguem o Eufrates para o norte até Harã, também no leste da Turquia (Gênesis 11:31).

A ligação da Torá com a Mesopotâmia e sua cultura

Por meio dessas características geográficas, a Torá situa as origens de Israel na Mesopotâmia, assim como os versos iniciais da despedida de Josué ao povo:
יהושע כד:ב ...בְּעֵ֣בֶר הַנָּהָ֗ר יָשְׁב֤וּ אֲבֽוֹתֵיכֶם֙ מֵֽעוֹלָ֔ם תֶּ֛רַח אֲבִ֥י אַבְרָהָ֖ם וַאֲבִ֣י נָח֑וֹר…


Josué 24:2 ...Nos tempos antigos, seus antepassados ​​— Terá, pai de Abraão e pai de Naor — viviam além do rio Eufrates...

Descobertas modernas de vestígios escritos da civilização mesopotâmica reforçam a narrativa bíblica que afirma haver uma conexão com a Mesopotâmia. Elas não fornecem, obviamente, confirmação extrabíblica de que Abrão viveu em Ur ou que a arca de Noé aportou em Urartu. Em vez disso, essas descobertas revelam conexões extensas e profundas entre a Torá e a cultura que dominou o Oriente Próximo durante a maior parte da história inicial de Israel. A história do dilúvio oferece um excelente exemplo desse tipo de conexão e de como atentar para ela é crucial para compreender adequadamente a mensagem da Torá.

A História do Dilúvio em Contexto 1 – Noé e Utnapishtim

Como é sabido, as conexões mesopotâmicas da história do dilúvio vieram à tona pela primeira vez com a decifração, por George Smith, em 1872, de partes da décima primeira tábua da Epopeia Babilônica Padrão de Gilgamesh. Nessa tábua, Utnapishtim, o sobrevivente do dilúvio, conta sua história a Gilgamesh, herói da epopeia. O relato de Utnapishtim não apenas apresenta paralelos com o enredo geral da Bíblia — a sobrevivência das pessoas a um dilúvio divinamente ordenado — mas também com detalhes bíblicos, como a construção de uma embarcação que finalmente chega a uma montanha, o uso de pássaros para determinar o fim do dilúvio e a oferta de sacrifícios após a sobrevivência.

O uso de uma palavra incomum sugere até mesmo que o relato bíblico está familiarizado com o mesopotâmico: para calafetar sua arca, Noé é instruído a usar piche (Gênesis 6:14), o hebraico kofer, cognato do acádio kupru, que é o que Utnapishtim usa. Esta é a única vez que a palavra kofer significa “piche” na Bíblia; a palavra hebraica nativa para “piche” é zefet , que é o que a mãe de Moisés usa para impermeabilizar a embarcação que constrói para seu filho (Êxodo 2:3). A palavra kofer, portanto, é emprestada diretamente do acádio e fornece a evidência mais forte para a origem mesopotâmica de todo o relato bíblico. 

A História do Dilúvio em Contexto 2 – Noé e Atrahasis

Desde as descobertas sensacionais de Smith, os assiriólogos, estudiosos da antiga Mesopotâmia (incluindo a Assíria), aprenderam que a narrativa do dilúvio não é original da Epopeia de Gilgamesh. Histórias sobre Gilgamesh circularam por quase um milênio antes que a história do dilúvio fosse adicionada e a versão "padrão" da epopeia fosse composta. A décima primeira tábua da Epopeia de Gilgamesh, descoberta por Smith, incorpora uma obra literária outrora independente e mais antiga (datada de meados do segundo milênio a.C.), conhecida como a Epopeia de Atrahasis, em homenagem ao sobrevivente do dilúvio nessa obra. Essa história começa "quando os deuses, em vez dos homens, carregaram os fardos" e descreve a criação de deuses menores e, posteriormente, dos humanos para realizar esse trabalho, bem como os problemas enfrentados pelos deuses após a criação dos humanos. O dilúvio é a última tentativa dos deuses de resolver as consequências imprevistas da criação da humanidade.

Para os leitores da história bíblica do dilúvio, a descoberta desse empréstimo e a recuperação do original são importantes porque a história independente proporciona conexões contextuais muito mais profundas com o relato bíblico. Isso ocorre porque, como observa a falecida Tikva Frymer-Kensky, “a Epopeia de Atrahasis apresenta a história do dilúvio em um contexto comparável ao do Gênesis, o de uma História Primordial”. O ciclo de criação, destruição e recriação impulsiona o enredo na Epopeia de Atrahasis, assim como nos relatos da criação e do dilúvio no Gênesis. Em contraste, o relato do dilúvio na Epopeia de Gilgamesh permanece subordinado à narrativa principal e, como resultado, não nos diz muito além da própria história do dilúvio.

Por que um dilúvio? Comparando a história de Atrahasis com a história de Noé

Partindo de sua própria observação contextual, Frymer-Kensky se baseia na Epopeia de Atrahasis para elucidar dois aspectos do relato bíblico: o problema pré-diluviano e a solução pós-diluviana. Ao examinar esses pontos em cada narrativa, Frymer-Kensky revela um profundo contraste entre os valores centrais subjacentes às duas histórias.

Na Epopeia de Atrahasis, os deuses enfrentam o problema da superpopulação humana, expressa em termos poéticos como "o ruído da humanidade" que os impede de dormir. Após o dilúvio, os deuses instituem três medidas para conter a população humana e evitar que o problema se repita. Essa "nova ordem mundial" inclui a infertilidade humana ("mulheres que não podem dar à luz"), a mortalidade infantil (na forma de um demônio raptor de bebês) e instituições sociais que proibiam certas mulheres de se casarem.

O relato bíblico, por outro lado, “não é enfaticamente sobre superpopulação”. Na verdade, a instrução de Deus a Noé e sua família após o dilúvio, “sejam fecundos e multipliquem-se” (Gênesis 9:1), sugere que a Bíblia “rejeitou conscientemente o tema subjacente da Epopeia de Atrahasis”. Em vez disso, o problema é a maldade humana (Gênesis 6:5) ou a anarquia (hamas) que corrompe a terra, que, como resultado, deve ser destruída (Gênesis 6:11–13).

Assim, o recomeço pós-diluviano traz consigo não apenas as promessas de Deus contra outro dilúvio (Gênesis 8:21-22, 9:8-17) e a esperança de Deus na repopulação (Gênesis 9:1), mas também duas proibições: não se pode comer animais vivos e o assassinato é proibido (Gênesis 9:1-7). Ao restringir a violência contra animais e proibir a violência entre humanos, ambas as proibições abordam o problema pré-diluviano da maldade da humanidade. Em outras palavras, para evitar o dilúvio, a lei, aqui representada por essas duas proibições, deve substituir a ilegalidade. Nesse mesmo espírito, a tradição rabínica das “Sete Leis de Noé” atribui as leis básicas de Deus para todos os humanos, judeus e gentios, a esse momento pós-diluviano.

A relação entre o humano e o divino: apreciando a Torá em contexto

Subjacentes a esses contrastes narrativos entre Gênesis 1–9 e a Epopeia de Atrahasis estão concepções fundamentalmente diferentes da relação entre os seres humanos e o reino divino. Na Epopeia de Atrahasis, os humanos são tolerados, mas devem ser estritamente contidos. Na Bíblia, Deus vê a população humana como uma bênção e chega a firmar uma aliança com toda a humanidade. As instruções de Deus após o dilúvio são um sinal adicional dessa visão geralmente positiva: Deus confia que os humanos seguirão as regras.

Essa visão de mundo fundamentalmente diferente — que, na verdade, torna a Bíblia bíblica — emerge somente quando rastreamos as origens da história do dilúvio em Gênesis até a tradição literária mesopotâmica. Fiel às suas raízes reconhecidas “além do Rio”, a Bíblia incorporou essa tradição à sua versão dos primórdios do mundo. Ao mesmo tempo, o relato de Gênesis se posiciona claramente em oposição direta a essa mesma tradição literária. Os seres humanos — apesar de todo o seu ruído e até mesmo de seus “maus planos” (Gênesis 8:21) — são valiosos aos olhos de Deus e podem até mesmo participar de uma aliança com Ele.