quinta-feira, 5 de março de 2026

Quem eram os filisteus e de onde vieram?

 

Navios de guerra. Este desenho de um relevo em Medinet Habu mostra uma batalha naval entre os egípcios e os povos das "ilhas", que invadiram o Egito no século XII a.C.

Quem eram os filisteus e de onde vieram? Cerâmica de Ascalão apresenta decorações filisteias.

Cerâmica filisteia. Estas peças de cerâmica de Ashkelon exibem decorações filisteias primitivas. Foto: © Expedição Leon Levy a Ashkelon.

Os filisteus são mais conhecidos na Bíblia como inimigos dos israelitas, mas eram muito mais do que isso. Descobertas arqueológicas recentes ajudam a aprimorar nossa compreensão de sua cultura, economia e até mesmo de suas origens. 

Quem eram os filisteus?

Na Bíblia, os filisteus são lembrados como um povo incircunciso com tecnologia avançada e um exército formidável (Juízes 14:3; 1 Samuel 13:19-20; Êxodo 13:17). Os filisteus frequentemente invadiam o território israelita, o que levou a algumas batalhas, incluindo o famoso confronto entre Davi, o israelita, e Golias, o filisteu (1 Samuel 17). Eles foram condenados por serem idólatras (1 Samuel 5:1-5) e adivinhos (Isaías 2:6). Em resumo, os filisteus são retratados de forma bastante negativa na Bíblia.

Eles viviam nas cidades de Asdode, Ascalom, Ecrom, Gate e Gaza — o coração da antiga Filístia, na costa sudeste do Mar Mediterrâneo. AsdodeAscalomEcrom e Gate foram escavadas nas últimas décadas. Os achados nessas cidades mostram que os filisteus possuíam cerâmica, armas, ferramentas e casas distintas. Eles também consumiam carne de porco e tinham vastas redes comerciais.

A cultura filisteia floresceu durante a Idade do Ferro (do século XII ao VI a.C.). Semelhante aos reinos de Israel e Judá, os filisteus perderam sua autonomia no final da Idade do Ferro. Tornaram-se subservientes e pagaram tributo aos assírios, egípcios e, posteriormente, aos babilônios, as grandes superpotências da região, que puniam severamente a rebelião. Por exemplo, o rei babilônico Nabucodonosor destruiu as cidades de Ascalão e Ecrom, consideradas desleais, e levou muitos filisteus para o exílio.

De onde vieram os filisteus?

Em seu artigo, Daniel Master examina as evidências arqueológicas e bíblicas sobre as origens dos filisteus. Ele considera os relatos do templo mortuário de Ramsés III em Medinet Habu. No século XII a.C., durante o reinado de Ramsés III, uma confederação de tribos das “ilhas” dos “países do norte” atacou o Egito diversas vezes, tanto por mar quanto por terra. Os peleset, que os estudiosos associam aos filisteus, foram citados como uma dessas tribos.

A caminho do Egito, a confederação atravessou o Mediterrâneo oriental e destruiu inúmeras cidades, incluindo Ugarit, na costa síria. Ammurapi, o último rei de Ugarit, escreveu aos reinos vizinhos pedindo ajuda quando os “sete navios do inimigo” chegaram para saquear seu reino. Quando o socorro finalmente chegou, porém, já era tarde demais: Ugarit estava em ruínas.

O Egito derrotou a confederação, como está registrado em uma das paredes do templo de Medinet Habu. Um relevo desse templo também retrata uma batalha naval entre as tribos das ilhas e os egípcios. Nele, os ilhéus usam cocares distintos, que os diferenciam claramente dos egípcios. Após serem derrotados, alguns desses povos se estabeleceram na costa sul de Canaã — no que viria a ser a terra dos filisteus. As fontes egípcias, portanto, parecem registrar uma migração de pessoas das “ilhas” para a Filístia.

Quem eram os filisteus e de onde vieram? Relevos de Medinet Habu retratam uma grande batalha naval.

Retrato filisteu? Uma confederação de tribos insulares, incluindo os peleset (filisteus), atacou o Egito no século XII a.C. Este relevo de Medinet Habu registra uma batalha naval entre as duas forças. Foto: Olaf Tausch , CC BY 3.0 , via Wikimedia Commons.

Master também examina as evidências bíblicas da origem filisteia. Os autores bíblicos se lembram dos filisteus como vindos de uma terra estrangeira, de “Caftor” (Gênesis 10:14; Deuteronômio 2:23; 1 Crônicas 1:12; Amós 9:7; Jeremias 47:4). Os estudiosos há muito estabelecem uma conexão entre Caftor e Creta. Essa conexão se baseia principalmente em inscrições egípcias e pinturas de “Keftio” dos séculos XV e XIV a.C., nas quais os Keftiu são associados à civilização minoica, que tinha Creta como centro.

Mapa de Migração. Quem eram os filisteus e de onde vieram? Novas evidências arqueológicas sugerem que muitos filisteus eram originários de Creta, chamada de "Caftor" na Bíblia. Mapa: © Sociedade de Arqueologia Bíblica.

Escavações revelaram que os filisteus possuíam um conjunto distinto de artefatos. Master observa paralelos entre alguns objetos filisteus antigos, especialmente dos séculos XII e XI a.C., e artefatos egeus e cipriotas. Elementos da cultura material filisteia, portanto, também sugerem uma origem egeia ou mediterrânea para os filisteus.

Novas evidências de Ashkelon reforçam essa conexão. A Expedição Leon Levy realizou escavações em Ashkelon de 1985 a 2016, sob a direção do falecido Lawrence Stager, da Universidade de Harvard; na última década, Daniel Master codirigiu as escavações. Eles encontraram alguns sepultamentos de bebês do século XII a.C., bem como um cemitério filisteu com sepultamentos que datam dos séculos XI ao VIII a.C. Em parceria com cientistas do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, eles conseguiram analisar o DNA de sete desses indivíduos. Ao examinarem o DNA dos bebês do século XII, descobriram que eles possuíam alguma ancestralidade europeia. Creta se mostrou uma das melhores correspondências para a herança genética dos bebês — considerando todo o seu material genético. No entanto, outros locais no Mediterrâneo Ocidental, como a Península Ibérica, também apresentaram boas correspondências.

Curiosamente, nos indivíduos mais recentes do cemitério de Ascalão, essa ancestralidade europeia havia sido tão diluída que mal se fazia notar. Master explica que, no século X a.C., já havia ocorrido tantos casamentos mistos entre os filisteus e a população levantina local que os filisteus se pareciam muito com seus vizinhos:

Embora houvesse alguma evidência da mesma contribuição genética dos caçadores-coletores da Europa Ocidental, para todos os efeitos estatísticos, não foi possível identificá-la com certeza. Os melhores modelos mostraram que essas pessoas [os indivíduos dos séculos X e IX enterrados no cemitério de Ashkelon] eram descendentes tanto dos habitantes do século XII quanto dos habitantes da Idade do Bronze. A partir desses resultados, parece que houve tantos casamentos mistos entre os imigrantes originais e as pessoas ao seu redor que a composição genética dos habitantes de Ashkelon perdeu suas características distintivas de imigrantes.

No entanto, Master esclarece que, nesse ponto da história, os filisteus ainda se consideravam distintos, como fica evidente em uma inscrição do século VII da cidade filisteia de Ecrom. A inscrição nomeia o rei de Ecrom como Ikausu, que significa “aqueu” ou “grego”. O nome Ikausu (ou Aquis) também aparece em 1 Samuel 21:10 como rei de Gate.

Os filisteus se lembravam de suas origens estrangeiras.

Master conclui que as novas evidências de DNA , juntamente com os testemunhos bíblicos e arqueológicos, sugerem que os filisteus se originaram em Creta. Isso não significa que os filisteus eram um grupo homogêneo, todos vindos do mundo egeu, mas parece que muitos filisteus de fato migraram de lá, trazendo consigo vestígios da cultura minoica. 


As Descobertas intrigantes de Kuntillet 'Ajrud




 A inscrição “Yahweh e sua Asherah” está na parte superior deste desenho do século VIII a.C. em um pithos de cerâmica, ou jarro de armazenamento, de Kuntillet 'Ajrud, no leste do Sinai. Alguns estudiosos teorizaram que essas figuras, que lembram o deus egípcio Bes (à esquerda na foto acima), são, na verdade, um desenho de Deus e sua consorte. Outros, no entanto, interpretaram ambas as figuras como masculinas. O relatório de escavação de Kuntillet 'Ajrud, publicado recentemente, lança alguma luz sobre esse fragmento enigmático, mas muitas perguntas permanecem sem resposta. Foto cedida pelo Dr. Ze'ev Meshel e Avraham Hai/Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv.

Tudo relacionado a isso tem sido difícil. Localizada no deserto do Sinai, a cerca de 16 quilômetros a oeste da antiga Estrada de Gaza (Darb Ghazza, em árabe), que atravessa o território beduíno separando o Negev do Egito, Kuntillet 'Ajrud é remota e isolada de qualquer outro assentamento. Em 1975, o arqueólogo Ze'ev Meshel, da Universidade de Tel Aviv, e um grupo de nove voluntários, a maioria de kibutzim e alguns colegas como equipe, decidiram realizar escavações no local.

As descobertas de Kuntillet 'Ajrud foram fantásticas. O destaque eram dois grandes pithoi, ou jarros de armazenamento, que pesavam cerca de 13,6 kg cada. Os pithoi, agora reconstruídos, são pintados com divindades, figuras humanas, animais e símbolos, e apresentam diversas inscrições, incluindo três que se referem a Javé e sua asherah, ou Asherah, dependendo da interpretação. Asherah é uma deusa pagã. Seria ela a esposa de Deus?

Abaixo de uma inscrição em um dos pithoi (referindo-se a Javé e sua asherah ) encontram-se desenhos de duas figuras facilmente identificáveis ​​como o deus egípcio Bes, na verdade um nome coletivo para um grupo de divindades anãs. Seria este um desenho de Deus (isto é, Javé) com sua consorte Asherah? A estudiosa que publicou o capítulo sobre os desenhos não acredita nisso. Ela interpreta como duas divindades masculinas — provavelmente apenas o deus egípcio Bes — e não como um desenho de Deus e sua esposa, a deusa. Outros estudiosos discordam, mas uma coisa é certa: o desenho foi adicionado ao pithos depois da inscrição, portanto, os dois podem não ter nenhuma relação.

Por que foram necessárias quase quatro décadas para publicar este relatório final? Uma das razões é que tudo sobre Kuntillet 'Ajrud e suas descobertas é extremamente difícil de interpretar — ou mesmo de ver. O relatório recém-publicado é um volume magnífico, e a discussão e a interpretação certamente continuarão muito além de suas páginas.

O festim divino de El – um poema do ugarítico



 Ugarit foi uma cidade portuária do Oriente Próximo localizada nos arredores de onde hoje se situa Ras Shamra, no norte da Síria, perto do monte Hérmon e da ilha de Chipre. Ela foi destruída por volta do final da Era do Bronze e, num dos grandes achados arqueológicos do século XX (ainda mais impressionante pelo fato de ter ocorrido por completo acidente), só veio a ser redescoberta em 1928. Situada numa posição excelente para o comércio, num ponto de encontro entre quase todos os povos da região, Ugarit floresceu cultural e financeiramente, tornando-se um dos grandes centros cosmopolitas do mundo antigo.

A cidade tinha o seu próprio idioma, o ugarítico, uma língua semítica cananeia, parente do fenício, do aramaico e do hebraico. Diferente dessas línguas, porém, o ugarítico não utilizava um sistema de escrita derivado do fenício. O hebraico, por exemplo, utilizava um abjad (esse tipo de alfabeto comum no Oriente Próximo e Médio que, diferente dos alfabetos completos, não marca as vogais ou as marca só com diacríticos) descendente do fenício, o chamado alfabeto paleo-hebraico, até cerca do século V a.C., quando foi substituído por um alfabeto diferente derivado do aramaico – só os samaritanos, porém, que são um outro povo semítico que disputa com os judeus o título de herdeiros da tradição israelita e que hoje são uma minoria, mantiveram o paleo-hebraico. Já o ugarítico desenvolveu o seu próprio sistema de escrita com base no cuneiforme. O cuneiforme, como se sabe, é o sistema que utiliza uma cunha para traçar os caracteres numa tabuleta de argila e que, até onde se tem registro, foi inventado e utilizado pelos sumérios desde pelo menos por volta do terceiro milênio antes de Cristo. Nos diz a assirióloga Marie-Louise Thomsen, em seu The Sumerian Language: an Introduction, que a escrita do sumério se desenvolveu não como uma forma de representação da fala, mas como um auxílio mnemônico, o que é um motivo pelo qual as tabuletas sumérias mais antigas são de uma extrema dificuldade para serem decifradas (não por acaso, os textos que formam corpus que a autora usa para tratar da gramática da língua datam de entre 2600 e 900 a.C.). Com o tempo, a escrita foi se tornando mais complexa e passou a representar, mais ou menos, frases inteiras, o que se tornou muito importante para a sobrevivência da língua por escrito do período neossumério (2200 a 2000 a.C.) em diante, em que ela deixou de ser falada na mesopotâmia, mas continuou a ser utilizada em textos de natureza burocrática, literária e religiosa.

chuvaA unidade do cuneiforme sumério era um grafema chamado de logograma: AN, por exemplo, era o símbolo para “deus”, “acima” ou “céu”. Combinado com A (“água”… mas também “sêmen”), forma a palavra “chuva” (na imagem ao lado), A.AN, transliterada “šeĝ” (“sheg”, mas a pronúncia exata é desconhecida e incognoscível). É bem complicado e não convém agora entrar nos pormenores, que envolvem ainda questões de homofonia e variações e tudo o mais, mas é interessante apontar que esse sistema foi repassado aos acádios, um povo semita como os ugaríticos (diferente dos sumérios, que não eram semitas e cuja língua é considerada uma língua isolada), e sua cultura e língua se desenvolveram lado a lado com a suméria – diz-se dos dois que linguisticamente formam um Sprachbund, de modo que é difícil dizer quais palavras e construções (incluindo a ordem das palavras na frase) do sumério são originalmente sumérias e quais são empréstimos do acádio, e vice-versa. Uma narrativa como o Épico de Gilgamesh, tal como o reconhecemos hoje, parte de fontes acádias, mas a mitologia em torno da figura de Gilgameš, rei de Uruk, tem origem numa tradição anterior de tabuletas sumérias.

Acontece, porém, que, por conta de questões fonológicas, essa forma de escrita não era bem adequada ao acádio (e isso talvez tenha pesado na hora de manter o sumério como língua burocrática, mesmo após o acádio se tornar a língua oficial das sucessões de impérios babilônicos). Os escribas de Ugarit, então, resolveram o problema desenvolvendo o seu próximo alfabeto: a escrita do ugarítico é cuneiforme, visto que também se faz com uma cunha sobre uma tabuleta de argila, mas, diferente da do sumério e do acádio, ela consiste num abjad com uma letra para cada consoante (com algumas duplicadas, como ocorre também com o hebraico). Esse sistema também foi utilizado para escrever textos em acádio, tal como atestam alguns documentos escavados em Ugarit.

tabuleta-em-ugarítico

Ugarit tinha ainda sua própria religião e mitologia, e a sua descoberta serviu para iluminar algumas questões importantes para os estudos bíblicos. A religião ugarítica, ainda que tenha alguns deuses menores, se concentra basicamente sobre o casal principal de divindades, El, pai dos deuses, e sua esposa Asherah, a Rainha dos Céus. O casal tem três filhos, Hadad (também chamado Baal, “Senhor”), Yamm e Mot. Hadad, deus das tempestades, governa sobre os céus, Yamm, sobre os mares, e Mot, sobre o mundo dos mortos, numa relação que parece muito próxima da espelhada pelos deuses gregos Zeus, Posêidon e Hades, respectivamente (já Crono, pai de Zeus, não seria um bom equivalente para El, e o paralelo meio que termina aí). El, que é o nome próprio da divindade, mas também um termo genérico para “deus”, provavelmente deriva de Ilu, termo acádio para “deus” que traduz o An ou Anu sumério, e o nome, como se sabe, é usado com frequência na Bíblia para se referir a YHWH, o deus dos israelitas, presente tanto em construções como “El Shaddai” (“Deus Poderoso”) quanto em palavras como “Israel” (“o que lutou com Deus”). De fato, nas últimas décadas, diversos autores, como Raphael Patai e Frank Moore Cross, têm traçado paralelos entre El e YHWH, e é muito provável que os dois fossem adorados como a mesma divindade na região, com frequência junto de Asherah, que, se a hipótese de Patai estiver correta, acabou eliminada da Bíblia e dos cultos após o Primeiro Templo ser derrubado e a elite religiosa israelita fechar o cerco contra o politeísmo. Há cartas em aramaico da região, datando de pelo menos 500 a.C., em que os autores usam certas expressões equivalentes a um “deus te abençoe” que indicam o culto a YHWH lado a lado com outros deuses, como Ptah, Khnum e Asherah (mais sobre isso no livro Ancient Aramaic and Hebrew Letters, editado por James M. Lindenberger & Kent Harold Richards). Há outros resquícios de referências a deuses pagãos ainda no hebraico que podem ser encontrados inclusive no texto biblico: Shamash/Utu era o deus acádio/sumério do sol, e “shemesh” (שמש) é “sol” em hebraico. Mot (m.t.), o deus do submundo, lembra “mawet” (מות), nome utilizado para personificação da morte no texto bíblico, ao passo que “met” (מת), sem o vav no meio (o caractere hebraico para o som de “v”, que é uma mater lectionis e também funciona para marcar as vogais “o” e “u”), significa “morto”. E assim por diante.

Muitos textos oficiais (a principal função da escrita, em sua origem, era provavelmente burocrática) e alguns literários foram recuperados em Ugarit. Os mais longos de que se tem notícia foram analisados e traduzidos no volume Ugaritic Narrative Poetry, organizado por Simon B. Parker (tradutores: Mark S. Smith, Simon B. Parker, Edward L. Greenstein, Theodore J. Lewis e David Marcus), que são os épicos Kirta, Aqhat e Baal. O volume, de que me vali para fazer este post, também acompanha 10 outros poemas mais curtos, dos quais um eu selecionei para traduzir para o português a partir da tradução inglesa de Theodore J. Lewis.

“O festim divino de El” (tabuleta 19.CAT1.114) é um poema bastante curioso, porque, apesar da linguagem cujas fórmulas e epítetos remetem à épica e à poesia mais solene, retrata o venerável pai dos deuses numa situação, digamos, comprometedora (ainda mais se pensarmos na relação El-YHWH): El prepara um banquete (um churrasco, a bem dizer, cena comum da épica da região), se farta de carne (servida por Yarikh, deus da lua e aparentemente um bom churrasqueiro) e vinho e talvez sexo (ah, essas lacunas do texto), depois volta cambaleante para casa, escorado por divindades menores, desmaia e dorme sobre os próprios excrementos. Athtartu (Asherah) e Anat, uma deusa adolescente que aparece também no ciclo de Baal, então vão buscar uma cura para a sua ressaca, que envolve uma planta desconhecida chamada de pqq (lembrando que o ugarítico, como o hebraico, só marca as consoantes, então, ppq poderia ser paqaqa, paqaqe, paqeqe, etc, etc), que teria essas capacidades milagrosas. Infelizmente, apesar de termos ainda uma quantidade substancial de texto, a tabuleta está danificada e com lacunas, atiçando eternamente a nossa curiosidade sobre o que mais teria nesse poema, que já é por si só lacônico e parece deixar o melhor para a imaginação. Obviamente, eu o selecionei para postar aqui hoje não só por causa do clima generalizado de ressaca de fim de ano (apesar de que isso influenciou também, é claro), mas por este ser um desses raros poemas de escopo menor – se haveria uma tradição de poesia mítica cômica na região, desconhecemos – em que a representação dos deuses é muito próxima, desbragadamente próxima, do humano, e, por isso, dotada talvez de maior curiosidade e interesse imediato para nós do que as narrativas sobre grandes reis e suas linhagens.

deus-El-pedra

 O festim divino de El

El abate a caça em sua morada,
Mata as bestas em seu palácio,
Aponta aos deuses os cortes da carne

Os deuses comem e bebem

Bebem do vinho até que baste,
Da vindima até que fiquem bêbados.

Yarikh grelha o lombo como um [   ].
Agarra a sobrecoxa sob as mesas.

Para o deus que conhece,
Grelha um banquete para que se farte;
Para os deuses que desconhece,
Dá pauladas sob a mesa.

Ele se aproxima de Athtartu e Anat,
Athtartu lhe grelha um filé,
Anat assa uma costela.

O porteiro da morada de El o censura,
Que não grelhe filé para um cão,
Que não asse costela para um viralata.
Ele censura a El, seu pai, também.

El se senta…
El se assenta ao bacanal.

El bebe do vinho até que baste,
Da vindima até que fique bêbado.

El vai cambaleante até sua morada,
Tropeçando adentra seu pátio.

Thukamuna e Shunama o carregam,
Habayu então esbraveja com ele,
O dos dois chifres e um rabo.

Ele escorrega em seu esterco e urina,

El cai como um morto
El como os que descem à Terra.

Athtartu e Anat seguem para uma caçada

Athtartu e Anat…
E com elas trouxeram…
Como se sara quando se rejuvenesce.

Sobre seu cenho se deve pousar:
– pelos de cão
– a copa da planta pqq e sua haste
Misturar com o sumo de azeite virgem.

 El’s divine feast

El slaughers game in his house,
Butchers beasts in his palace,
Bids gods to the cuts of beef.

The gods eat and drink,
Drink wine till sated,
Vintage till inebriated.

Yarikh grills the haunch like a [    ].
Grabs the hind-quarter beneath the tables.

As for the god whom he knows,
He grills fare for him to feast;
As for the god he does not know,
He strikes with sticks beneath the table.

He nears Athtartu and Anat,
Athtartu grills a steak for him,
Anat roasts a rack of ribs.

The porter of El’s house chides them,
Not to grill a steak for a dog,
Not to roast a rib for a cur.
He chides El, his father, too.

El sits…
El settles into his bacchanal.

El drinks wine till sated,
Vintage till inebriated.

El staggers into his house,
Stumbles in to his court.

Thukamuna and Shumana carry him.
Habayu then berates him,
He of two horns and a tail.

He slips into his dung and urine,
El collapses like one dead
El like those who descend to Earth.

Athtartu and Anat march off to hunt

Athtartu and Anat…

And with them they brought back…
As when one heals to return to youth.

On his brow one should put:
– hairs of a dog
– the top of a pqq-plant and its stem
Mix it with the juice of virgin oil.

(poema ugarítico anônimo, tradução inglesa de Theodore J. Lewis)

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Morton Smith, a Carta de Mar Saba e o Evangelho Secreto de Marcos

 


Morton Smith, a Carta de Mar Saba e o Evangelho Secreto de Marcos

Morton Smith descobriu versos "secretos" do Evangelho de Marcos, com possíveis interpretações homoeróticas. Ele falsificou as evidências? O que aconteceu com o documento?

Em 1958, enquanto catalogava a biblioteca do Mosteiro de Mar Saba em Israel, Morton Smith (1915-1991) descobriu uma escrita nas páginas em branco no final de um livro antigo. Parecia ser uma cópia manuscrita do século XVIII de uma carta de Clemente de Alexandria (c. 150-215 d.C.) para alguém chamado Teodoro. No entanto, não só era diferente de qualquer carta conhecida de Clemente, mas também discutia uma versão do Evangelho de Marcos desconhecida pelos estudiosos. Nela, Jesus ressuscita um jovem dos mortos, lembrando a história de Lázaro, embora canonicamente esse episódio só esteja no Evangelho de João.

Clemente nega qualquer significado sexual a esse evangelho "oculto", mas cita uma passagem com conotações homoeróticas suficientes para levantar sobrancelhas modernas. Parece até ter levantado algumas em sua época, pois a carta foi escrita especificamente para tranquilizar Teodoro sobre a "interpretação real" do segredo. Infelizmente, a cópia termina logo antes que essa explicação perfeitamente inocente comece.

Smith tirou fotos em preto e branco da carta antes de deixar a biblioteca, mas ao anunciar sua existência, foi a única pessoa conhecida a tê-la visto. No entanto, ele publicou suas descobertas em 1973, juntamente com uma teoria incomum de que o homoerotismo era de fato intencional, e que Jesus usava rituais sexuais secretos para iniciar seus seguidores. É claro que isso foi recebido com indignação e descrença por parte do establishment religioso, e ceticismo até mesmo de alguns estudiosos não religiosos.

Smith foi acusado de perpetrar uma farsa, com oponentes citando uma série de pontos como evidência:

Morton Smith era ele mesmo (rumorado ser) gay, um (suposto) ateu, e supostamente em maus termos com muitos estudiosos do Novo Testamento. Ele tinha um senso de humor irreverente e, eles alegavam, uma ideia inflada de sua própria inteligência. Presumivelmente, ele teria gostado de enganar os especialistas, especialmente de uma forma que faz o próprio Jesus parecer homossexual. O fato de Smith ter sido o único a ter visto a carta, e não ter conseguido produzir o original, também parecia ruim.

Um dos parágrafos "secretos" é suposto aparecer entre os versículos 10:34 e 10:35 no livro canônico de Marcos, o outro dentro de Marcos 10:46. O posicionamento aparentemente resolve um mistério textual bem conhecido, pois os estudiosos há muito notavam uma aparente descontinuidade nesses lugares. Isso poderia, é claro, ser evidência de que o Evangelho Secreto é genuíno, mas, por outro lado, pode ser interpretado como "um pouco conveniente demais". Como estudioso do Novo Testamento, Smith certamente teria conhecimento de como esses versículos parecem incompletos, e talvez quisesse preencher as lacunas sozinho.

Por outro lado, embora Smith tivesse estudado estilos de escrita históricos, teria sido muito difícil falsificar a caligrafia de forma tão convincente. Análises da frequência de palavras na carta parecem corresponder a outros escritos de Clemente. Além disso, a tese que Smith desenvolveu posteriormente, de Jesus como um mágico, era apenas tenuamente apoiada pelo Evangelho Secreto; se ele o tivesse forjado, seria de esperar que ele contivesse mais e mais fortes indicações nessa direção. O mais vindicativo para seu caso, o livro foi localizado novamente, e agora existem fotos coloridas de alta qualidade. No entanto, a Igreja Ortodoxa Grega removeu as páginas originais para Jerusalém para segurança, e elas não foram vistas desde então. Há rumores de que elas podem ter sido convenientemente "perdidas" ou destruídas para enterrar a controvérsia.

Atualmente, a carta é aceita como genuína entre muitos estudiosos do Novo Testamento, e foi incluída em coleções impressas de obras de Clemente. No entanto, ainda há muitos céticos, especialmente entre os cristãos conservadores, e perguntas suficientes sem resposta para fazer a cabeça de qualquer um girar.

Pessoalmente, eu tendo a acreditar em Smith e acho que ele encontrou um documento genuíno do século XVIII. Embora eu reserve meu julgamento sobre se os escritos citados realmente vieram de Marcos, eu sinto que provavelmente preserva uma carta perdida real de Clemente. Se eu pensar em algum ponto específico por muito tempo, no entanto, começo a ver como ele poderia indicar a conclusão exatamente oposta. Muitas das evidências são tão exasperantemente ambíguas que não tenho certeza se saberemos a verdade!

Outras evidências contra Smith:

  • A história toda tem uma semelhança estranha com um romance cristão de 1940, The Mystery of Mar Saba, com o qual Morton Smith definitivamente estava familiarizado. O romance trata de um acadêmico forjando um evangelho falso que é muito prejudicial ao cristianismo. A falsificação é descoberta e acreditada como real por um acadêmico que cataloga documentos em Mar Saba. Há muitas outras coisas que combinam.

  • Jacob Neusner, que foi protegido de Morton Smith, sempre insistiu que era uma falsificação e que Morton Smith lhe disse que a forjou. Embora Smith e Neusner tenham brigado, Neusner chamar de falsificação foi a razão pela qual eles brigaram, não algo que ele disse posteriormente (como Scott G. Brown afirma)

  • The Gospel Hoax: Morton Smith's Invention of Secret Mark de Stephen Carlson detalha um caso passo a passo contra Smith e cita muitas pessoas que conheciam Smith bem. Talvez o mais condenatório seja o conhecimento de que várias pessoas revisaram os documentos que Morton Smith estava catalogando e não viram nenhum "Evangelho secreto" até depois que Smith passou por lá. O Vaticano, que busca documentar todos os apócrifos bíblicos, não se interessou pelo "evangelho secreto" e, ao lê-lo, seus estudiosos "caíram na gargalhada", o que, considerando o quão protetora a Igreja pode ser dessas coisas (como você provavelmente descobriu ao pesquisar Apócrifos), é bastante conclusivo. Carlson também apresenta um caso convincente de que não corresponde à linguagem da época em que deveria ser.

  • Embora Smith tenha se afastado dessas teorias, na época de sua "descoberta", Smith afirmava que Cristo usava favores sexuais para controlar seus seguidores e sugeria que documentos seriam encontrados que o apoiassem - e, vejam só, ele magicamente os encontrou...

Tudo indica que os "rituais sexuais secretos" realizados por Morton Smith durante a sua vida encontraram respaldo no 'suposto Evangelho Secreto de Marcos' usado para justificar a sua bissexualidade. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Os Apócrifos da Bíblia






Por «apócrifos» entendem-se escritos antigos, redigidos em estilo muito semelhante ao da Sagrada Escritura e atribuídos a Patriarcas, Profetas ou Apóstolos… Apesar da sua aparente afinidade com a Bíblia, não foram, pela Tradição cristã, reconhecidos como obras de autoridade divina ou Escrituras inspiradas; em consequência, foram definitivamente banidos da leitura pública, podendo ficar reservados para o uso particular dos cristãos (caso não estivessem contaminados por erros doutrinários). É o que explica o seu título de apócrifos (em grego, livros ocultos ou livros dos quais não se faz uso nas públicas assembleias de culto).

Origem dos apócrifos

As Escrituras Sagradas são relativamente sóbrias nas suas narrativas do passado e nas suas predições do futuro. Compreende-se, pois, que essa sobriedade tenha excitado a curiosidade e a fantasia dos leitores antigos, os quais desejaram, nos últimos tempos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era cristã, suprir as lacunas deixadas por essa parcimônia. Em consequência, forjaram-se artificialmente escritos dotados de títulos e vocabulário característicos dos tradicionais livros bíblicos: em parte, referiam dados históricos ou reais que os autores sagrados não haviam consignado na Bíblia; em grande parte, porém, exprimiam a imaginação popular e até mesmo ideias heréticas. Depois de haver sido objeto de controvérsia, foram definitivamente rejeitados do catálogo bíblico, tomando então o nome de «apócrifos» (como acima foi dito).

Os apócrifos distribuem-se naturalmente em dois grandes blocos: os do Antigo e os do Novo Testamento.

a) Apócrifos do Antigo Testamento

São geralmente de origem judaica; não poucos, porém, sofreram interpolações por parte de mãos cristãs. Devem-se ao desejo de exaltar as glórias do povo de Deus ou exprimem o sofrimento e a esperança dos israelitas oprimidos pelo jugo estrangeiro nas imediações da era cristã, assumindo assim a feição de profecias ou apocalipses (= revelações).

Eis a lista dos apócrifos do Antigo Testamento classificados segundo o seu tema predominante:

Apócrifos narrativos: Livros dos Jubileus, 3o de Esdras, 3o dos Macabeus, Vida de Adão e Eva, Testamento de Adão, Escritos armênios de Adão, Apocalipse de Moisés, Ascensão de Isaias, História dos Recabitas, Paralipômenos (ou Restantes escritos) de Jeremias, Oração de Aseneth, Testamento de Jó, Testamento de Salomão.

Apócrifos morais ou didáticos: Testamentos dos XII Patriarcas, Salmo idiográfico de Davi, Salmos de Salomão, Odes de Salomão, Oração de Manassés, 4o dos Macabeus.

Apócrifos proféticos e apocalípticos: Livro de Henoque (etíope, hebraico e eslavo), Assunção de Moisés, 4o de Esdras, Apocalipse de Baruque (sírio e grego), Apocalipse de Abraão, Apocalipse de Elias e Sofonias, Apocalipse de Ezequiel, Oráculos Sibilinos.

Esses escritos, em geral, apresentam exíguo valor doutrinário; contêm, porém, páginas de bela poesia e férvido ânimo religioso.

b) Apócrifos do Novo Testamento

São todos de origem cristã. Manifestam o desejo de completar as poucas noticias transmitidas pela Bíblia Sagrada a respeito da vida de Jesus, de Maria e dos Apóstolos; por isto os seus temas preferidos são a infância do Senhor, a história de sua Mãe Ssma. e os feitos missionários dos Apóstolos; descrevem também quadros proféticos e apocalípticos de índole assaz fantasista. Como dissemos, uma atitude de piedade misturada à curiosidade e à veneração para com os personagens sagrados inspirou essa literatura, que tem caráter eminentemente popular.

Assim Tertuliano (aproximadamente no ano de 200) refere que, havia trinta anos, começara a circular na província da Ásia Menor uma narrativa dita «Atos de Paulo»; nesse escrito o Apóstolo dos Gentios aparecia em companhia de uma jovem, Tecla, que ele convertera do paganismo e que logo, com eloquência admirável, se pusera a pregar o Evangelho. Tal opúsculo, porém, fôra tido como não histórico ou, ao menos, como suspeito aos olhos dos cristãos; puseram-se então ao encalço do seu autor, averiguando finalmente ter sido um sacerdote da Ásia… Este, interrogado sobre os motivos por que forjara tal obra, confessou que o fizera por admiração e devotamento a São Paulo,… cheio portanto de boas intenções, mas destituído de prudência. As autoridades eclesiásticas então o removeram de suas funções (o que é sinal do apreço com que a Igreja sempre cuidou da transmissão incorrupta do depósito revelado). Cf. Tertuliano, De batismo 17.

Segundo o respectivo gênero literário, os apócrifos do Novo Testamento podem-se classificar do seguinte modo:

Evangelhos apócrifos: Evangelho dos Hebreus, E. dos Egípcios, E. dos Ebionitas, E. dos Doze Apóstolos, E. de Pedro, Proto-evangelho de Tiago, E. de Tomé, E. da Infância do Salvador (em árabe), E. do Pseudo-Mateus, História de José o Carpinteiro, E. de Nicodemos (consta dos Atos de Pilatos e da Descida de Jesus ao limbo), Trânsito de Maria, E. de Bartolomeu, E. de Filipe.

Atos apócrifos: Atos de Pedro, Pregação de Pedro, Atos de Paulo, Atos de Pedro e Paulo, Atos de João, Atos de André, Atos de Tomé, Atos de Filipe, Atos de Mateus, Atos de Barnabé.

Cartas apócrifas: Cartas de Jesus e Abgar rei de Edessa, Carta dos Apóstolos, Cartas de Paulo aos Laodicenses, aos Alexandrinos, aos Coríntios, Cartas de Paulo a Sêneca e de Sêneca a Paulo, a epístola do Pseudo-Barnabé.

Apocalipses apócrifos: Apocalipse de Pedro, A. de Paulo, A. de Tomé, A. de Estêvão, A. de João, A. da Virgem Maria, A. de Bartolomeu, A. de Zacarias, o Pastor de Hermas.

Não poucos desses escritos nos são conhecidos apenas pelo título ou por fragmentos ou por traduções, tendo-se perdido a íntegra do texto original. Nos últimos tempos, partes dos mesmos vêm sendo descobertas em papiros e bibliotecas de antigos mosteiros orientais; julga-se que ainda há, ocultos e dispersos, muitos documentos desse gênero.

É para os apócrifos do Novo Testamento que abaixo nos voltaremos com especial atenção. Os mais antigos datam do séc. II; contudo, por vezes referem tradições orais ainda anteriores, provenientes talvez de Cristo ou das testemunhas oculares da vida de Cristo; o número de apócrifos se foi aumentando pelo decorrer dos séculos III, IV e V (período de sua maior eflorescência) até o séc. X aproximadamente.

Alguns escritores antigos se deixaram iludir pela literatura apócrifa, atribuindo a um ou outro desses opúsculos (ao «Pastor» de Hermas, por exemplo, ou à epístola do Ps.-Barnabé) autoridade canônica ou bíblica. — Como se terá feito o discernimento entre os escritos bíblicos autênticos e os espúrios ou apócrifos?

— Não de maneira artificial, por decretos bruscos ou inovadores, mas pela própria vida da Igreja. Esta, aos poucos, em virtude de embates e choques doutrinários, foi refletindo sobre o depósito que Cristo lhe confiou, e viu-se obrigada a delimitá-lo ou defini-lo com precisão crescente, levando em. conta principalmente os pontos sujeitos a controvérsia. Ora entre estes estava justamente o catálogo das Escrituras Sagradas.

Com efeito, desde o século II, ao lado dos autores cristãos que de boa fé aceitavam um ou outro dos apócrifos, ouviam-se aqueles que os rejeitavam, admoestando os fiéis contra os perigos de acreditarem com demasiada facilidade em narrativas tão marcadas pelo «maravilhoso» e «fabuloso» (tais eram, por exemplo, São Justino, +165 aproximadamente, Sto. Ireneu, +202 aproximadamente, Tertuliano, + depois de 220). As autoridades da Igreja vigiavam assiduamente a fim de que a Palavra de Deus não sofresse contaminação por parte de curiosos levianos ou de astutos hereges.

A primeira tentativa de definir o cânon ou o catálogo das Escrituras Sagradas do Novo Testamento da qual tenhamos conhecimento é representada pelo «Cânon ou Fragmento de Muratori», documento que deve datar do ano de 200 aproximadamente e que foi publicado em 1740 pelo estudioso do mesmo nome, bibliotecário em Milão; contém a mesma lista até hoje assinalada (com exceção das epistolas de São Pedro e São Tiago), rejeitando explicitamente o «Pastor» de Hermas; os apócrifos ai são comparados ao fel que não se deve misturar com o mel («fel enim cum melle miscere non congruit»). Semelhantes catálogos se multiplicaram nos tempos seguintes; no decorrer do séc. IV, concílios reunidos na África, na Ásia menor, no Egito e em Roma os promulgaram, até que em 393 o concilio regional de Hipona (África setentrional) estabeleceu a lista definitiva dos livros sagrados tal como ela devia permanecer em uso na Igreja até hoje (confirmada, aliás, pelos concílios de Florença, 1439, Trento, 1543, e do Vaticano I, 1870). Ao lado de tal catálogo, encontra-se, também na antiguidade, um «índice» de livros apócrifos atribuído ao Papa Gelásio (491-496), Índice que acentua a distinção entre os livros bíblicos e os espúrios (ou apócrifos). — Assim se vê que não foram critérios de estilo, vocabulário, tema, autor, piedade que nortearam a definição do catálogo sagrado, mas foi algo de mais profundo: foi, sim, a própria vida da Igreja manifestada pelo seu magistério oficial, ao qual Cristo prometeu assistência infalível (cf. Mt 28,20).

Entre parênteses diga-se: ainda em nossos tempos, todas as vezes que em antigas bibliotecas do Oriente se descobre um documento cujo estilo, vocabulário e tema se assemelham aos da Bíblia Sagrada, põe-se a questão: será ou não um livro inspirado por Deus, pertencente à coleção dos escritos bíblicos?

Os críticos ponderam então a forma literária, a data e o lugar de origem da obra…, esperando por essa via dirimir a questão. — Tal trabalho, porém, não pode levar a resposta cabal; sempre deixa margem a hesitação e dúvida. O único critério que se deve auscultar em tais casos, é a consciência viva da Igreja manifestada pelo seu magistério oficial; somente um pronunciamento da Igreja pode dar ao cristão a certeza de que tal ou tal livro recém-descoberto é canônico (inspirado por Deus) ou apócrifo. Enquanto a Igreja não se pronuncia a respeito, não há critério capaz de induzir o fiel católico a reconhecer tal obra como bíblica ou canônica; cf. «P. R.» 5/1958, qu. 4.

A título de complemento, pode-se aqui notar que, no vocabulário protestante, o termo «apócrifo» não designa a mesma coisa que na nomenclatura católica: «apócrifos» vêm a ser, para os protestantes, os escritos que na antiga Igreja estiveram sujeitos a controvérsia e só aos poucos foram unanimemente reconhecidos peia Tradição cristã; tais seriam os livros de Tobias, Judite, Baruque, da Sabedoria, do Eclesiástico e 1/2 dos Macabeus; os protestantes não os reconhecem como livros bíblicos, ao passo que os católicos os têm como escritos canônicos (também ditos «deuterocanônicos», para se distinguirem dos escritos que nunca estiveram sujeitos a controvérsia, ou escritos «protocanônicos»). Quanto aos apócrifos dos católicos (livros que nunca entraram no cânon oficial da Igreja), os protestantes os chamam pseudo-epígrafos {«falsamente intitulados»). Donde decorre a tabela seguinte:

Nomenclatura católica —Nomenclatura protestante

livros canônicos protocanônicos — livros canônicos

livros canônicos deuterocanônicos — livros apócrifos

livros apócrifos —livros pseudo-epígrafos

Faz-se mister agora analisar

Tendências e traços característicos dos apócrifos do Novo Testamento

Os livros apócrifos apresentam suas notas marcantes, que se podem assim discriminar:

Alguns foram redigidos em círculos heréticos e, por conseguinte, contêm erros doutrinários, ora mais, ora menos acentuados. Ê esta, aliás, a nota que (nem sempre com real fundamento) costuma vir à mente do público quando se mencionam «apócrifos».

Tenha-se em vista, por exemplo, o caso do Ps.-Evangelho de Pedro, um dos apócrifos mais antigos (redigido por volta de 120/130): Além de referir erros de história (apresenta Jesus condenado à morte por Herodes), ressente-se de docetismo, isto é, da doutrina que negava a autêntica Encarnação, atribuindo ao Senhor um corpo aparente apenas (pregado à cruz, o Jesus do Ps.-Evangelho de Pedro parece não padecer, IV 10; ressuscitado, tem aspecto fantástico, X 40). Serapião, bispo de Antioquia (Síria) por volta do ano 200, desaconselhava aos seus fiéis a leitura dessa obra.

O Evangelho dos Egípcios, oriundo no Egito em meados do séc. II, é arauto de ideias encratistas, isto é, de um pessimismo que condena a matéria e particularmente o corpo humano como entidades más, preconizando por conseguinte a continência (enkratéia, em grego) ou a abstenção de vida matrimonial.

O Evangelho dos Hebreus afirma que Jesus foi levado ao Tabor por sua Mãe, que era o Espírito Santo (ruach, espírito, é substantivo feminino em hebraico).

Os Evangelhos de Tomé e de Filipe compartilham ideias gnósticas, concebendo Jesus como um “eón”, ou substância emanada da Divindade e intermediária entre o céu e a terra

Outros apócrifos não professam propriamente heresias, mas são fruto da curiosidade popular ou infantil dos antigos cristãos, que queriam reconstituir com o maior número possível de minúcias os acontecimentos da vida de Jesus. Sem dúvida, os relatos bíblicos deixavam margem a que a imaginação dos leitores elaborasse variadas suposições no tocante à infância de Jesus, à sua vida entre os doze e trinta anos de idade, aos seus parentes ou «irmãos», etc.

As explicações fornecidas pelos apócrifos trazem geralmente o cunho do «fabuloso». Os críticos, porém, admitem que certo número das mais sóbrias correspondam a acontecimentos reais que jamais foram consignados nos escritos canônicos, mas iam sendo transmitidos por via oral, de geração a geração. Dado o exíguo senso crítico dos antigos, tais «histórias» eram bem aceitas e amplamente propagadas, com grande deleite para o povo.

Assim pode-se avaliar o prazer com que os fiéis da Ásia menor ouviam, por exemplo, um negociante recém-vindo do Egito a narrar com minúcias como naquele país ainda se mostrava a casa em que José e Maria haviam recolhido o Menino Jesus por ocasião da fuga para o Egito,… como se mostravam estátuas de ídolos as quais (segundo narra o Evangelho do Ps.-Mateus c. 22) haviam caído quando Jesus passara por elas,… como se mostrava a árvore que (conforme o mesmo Ps.-Mateus) havia milagrosamente alimentado o Menino…

Uma terceira corrente de apócrifos (já mais teológica) tende a apresentar os episódios da vida do Salvador de modo bem acomodado aos textos e vaticínios do Antigo Testamento (principalmente à tradução grega desses textos, dita «dos LXX Intérpretes») .

Levem-se em conta os seguintes exemplos:

No texto dos LXX lê-se: «Ele habitará a gruta cavada na rocha» (Is 33,16). Em consequência, a literatura apócrifa (Proto-Evangelho de Tiago c. 18) apresentou a natividade de Jesus como se tivesse tido lugar em uma gruta (traço este que ainda hoje caracteriza as nossas representações do presépio).

A cena da anunciação do anjo a Maria é, pelo Proto-Evangelho de Tiago c. 11, colocada junto a uma fonte de água… Por que? — Provavelmente a fim de evocar a cena do Antigo Testamento em que o servo de Abraão, enviado por seu amo à procura de esposa para Isaque, encontrou Rebeca junto a uma fonte (cf. Gên 24, 10-27).

Ainda o Evangelho do Ps.-Mateus c. 14 menciona dois animais (o boi e o asno) junto ao presépio do Senhor, muito possivelmente para fazer eco ao texto do profeta Isaias: «O boi reconhece o seu dono, e o asno o presépio do seu senhor» (1,3), assim como às palavras de Habacuque: «Manifestar-te-ás em meio a dois animais» (3,2, texto dos LXX).

A estada de Maria no Templo, em seus anos de infância, parece descrita nos apócrifos por sugestão do texto de Eclo 24,14, em que a Sabedoria personificada afirma: «Servi na presença do Senhor, em seu santuário». Cf. Proto-Evangelho de Tiago c. 7.

A titulo de ilustração, transcrevemos aqui um dos mais vivos episódios dos apócrifos:

José e Maria, levando o Menino Jesus em fuga, «alegres e exultantes, chegaram ao território de Hermópolis e penetraram em uma das cidades do Egito chamada Sotinen. Visto que lá não conheciam morador algum em cuja casa se pudessem hospedar, entraram em um templo tido como o Capitólio do Egito. Nesse templo achavam-se 365 ídolos, aos quais diariamente eram prestadas honras divinas em cerimônias sacrílegas.

Ora aconteceu que, quando a bem-aventurada Virgem Maria penetrou no templo com o Menino Jesus, todos os ídolos foram derrubados, desfazendo-se em frangalhos, com o semblante partido; assim se comprovou que nada eram. Destarte também se cumpriu o que fôra dito pelo profeta Isaias: ‘Eis que o Senhor vem sobre uma nuvem tênue e entra no Egito, e todas as obras fabricadas pelas mãos dos egípcios estremecerão perante a sua face’ (Is 19,1).

Então Afrodísio, governador da cidade, tendo tomado conhecimento do fato, foi ao templo com toda a sua milícia. Os pontífices do templo, tendo-o visto chegar com os milicianos, julgavam que estava para se vingar daqueles que haviam causado a queda dos deuses. Entrando, porém, no templo, e vendo todos os ídolos por terra, aproximou-se de Maria e adorou o Menino que ela trazia nos braços. E, tendo-o adorado, disse a toda a sua milícia e aos seus amigos… : «Se esse não fosse o Deus dos nossos deuses, nossos deuses não se teriam prostrado diante dele; caindo, reconheceram tacitamente que ele é o senhor de todos. Quanto a nós, se não procedermos prudentemente como os nossos deuses, corremos o risco de provocar a sua ira e de perecer todos como aconteceu ao Faraó, rei dos egípcios, o qual, não tendo dado fé a tão grandes prodígios, foi tragado pelo mar com todo o seu exército. Então o povo inteiro da cidade acreditou no Senhor Deus por Jesus Cristo» (Ev. do Ps. Mateus cc. 22s).

Além dos traços particulares das correntes de apócrifos assinaladas, nota-se em todos esses escritos um traço comum, já mencionado neste artigo: o gosto do maravilhoso, que se pode exprimir tanto em cenas graciosas e delicadas como em episódios grotescos ou mesmo ridículos.

Graciosa (embora fantástica) é, por exemplo, a narrativa segundo a qual o Menino Jesus modelava passarinhos de barro, os quais, uma vez terminados, logo esvoaçavam, vivos, das suas mãos divinas.

Podem-se referir sob a mesma rubrica ainda os seguintes traços:

«Maria permanecia no Templo do Senhor, semelhante a uma pomba, e a mão de um anjo a alimentava» (Proto-Evangelho de Tiago c. 8).

As núpcias de Maria são assim preparadas e realizadas: quando a donzela no Templo atingiu a idade de doze anos, os sacerdotes se reuniram para deliberar a respeito do seu futuro; um deles, a seguir, orou, merecendo ser visitado por um anjo, que lhe mandou providenciasse um esposo para Maria mediante o seguinte recurso: devia convocar todos os varões do povo que não tivessem esposa; cada um haveria de levar um cajado; ora aquele em cujo cajado se desse um prodígio, seria o esposo de Maria designado pelo Senhor Deus. — A convocação então foi feita; José acorreu junto com outros filhos de Israel, cada qual portador de seu bastão; o Sumo Sacerdote tomou os diversos cajados, entrou no Templo, orou; a seguir, saiu e pôs-se a devolver os bastões, sem que milagre algum se verificasse; José devia ser o último a receber o bastão; quando lhe chegou a vez, uma pomba saiu da sua haste e pousou sobre a sua cabeça; então disse-lhe o Sumo Sacerdote : «É a ti que toca tomar sob a tua proteção a Virgem do Senhor».

José, porém, formulou sua hesitação : «Sou ancião e já tenho filhos, ao passo que ela é jovem; é preciso que eu não caia em ridículo perante os filhos de Israel», visto, porém, que o Sumo Sacerdote insistia, o santo varão acabou aquiescendo; tomou Maria sob a sua tutela e lhe disse; «Eis que te recebi do Templo do Senhor; agora deixo-te em minha casa, e vou-me construir casas alhures; mais tarde voltarei para junto de ti. O Senhor te guardará» (Proto-Evangelho de Tiago cc. 8s).

Não deixa de ter sua beleza majestosa o episódio da natividade do Senhor: todas as criaturas ou a natureza inteira se terão detido de repente ,diz o Proto-Evangelho de Tiago, como que estarrecidas diante desse acontecimento inédito:

«Eu, José, levantei os olhos e percebi que a atmosfera estava como que cheia de estupor. Levantei-os para o mais alto dos céus, e vi-o imóvel, e os pássaros detidos em pleno voo. Baixei o olhar para a terra; vi um depósito de farinha e trabalhadores inclinados, com as mãos dentro do depósito; aqueles que nessa posição amassavam o pão, haviam deixado de o amassar; e aqueles que faziam fermentar a massa, haviam deixado de a fazer fermentar; aqueles que a levavam à boca, haviam deixado de a levar; todos tinham o olhar erguido para o alto. E eis que carneiros, postos em marcha, haviam deixado de caminhar; o pastor que levantara a mão para os percutir com o báculo, ficou com a mão suspensa no ar. Olhando para o rio, vi cabritos que estavam a beber e cuja boca ficava aberta, embora tivessem deixado de beber. A seguir, num instante tudo retomou seu curso normal» (c. 18).

Grotescos, porém, e pouco dignos são outros traços:

No Evangelho do Ps.-Mateus, Jesus, ao brincar com amiguinhos, vinga-se de um ou outro deles, fazendo-os morrer ou transformando-os em bodes, porque implicavam com Jesus… O Senhor fez secar a mão do professor na escola, porque este tentou aplicar-lhe a palmatória… Uma parteira foi assistir a Maria quando estava para dar à luz; quis então verificar experimentalmente o milagre do nascimento virginal de Jesus, tocando o seio de Maria; em consequência, teve a mão imediatamente ressequida…

São por vezes tão despropositadas as narrativas dos apócrifos que o racionalista Renan observava : «Faria injúria à literatura cristã quem pusesse no mesmo plano essas toscas histórias e as obras-primas de Marcos, Lucas, Mateus… Quanto aos pormenores, é impossível conceber algo de mais vazio e desprezível. Tem-se a impressão de ouvir a tagarelice cansativa de uma velha comadre ou o tom abusivamente familiar de uma literatura de ama de leite ou de ama seca».

Tais palavras de Renan podem ser tidas como um tanto exageradas; em seu teor geral, porém, não deixam de corresponder à realidade.

Esta verificação encaminha naturalmente para o terceiro parágrafo do presente estudo.

Significado o importância dos apócrifos

Se os traços marcantes dos apócrifos são os que acabamos de apontar, pergunta-se : que interesse pode haver em ler esses escritos?

Paira uma aura de mistério e de atração em torno dos apócrifos, precisamente por causa da marca de «maravilhoso» que tanto os caracteriza. Pensadores ecléticos e sistemas esotéricos muito os têm explorado, como se fossem expressão de sabedoria antiquíssima.

Um autor inglês, conceituado em seu tempo, E. Bunsen, chegou a asseverar que os apócrifos referem doutrinas provenientes do paraíso terrestre pela Pérsia ou a Bactriana, recolhidas pelos judeus durante o exílio na Babilônia e finalmente transmitidas a Cristo e aos Apóstolos (cf. «The hidden Wisdom of Christ and the key of knowledge, or History of the Apocrypha» London 1876).

Hoje em dia tal asserção só provocaria sorrisos de desdém.

O motivo pelo qual muitos apócrifos gozam de prestígio nos tempos atuais, é, em grande parte, o simples fato de terem ficado ocultos ou desconhecidos durante séculos. Novos e novos manuscritos de apócrifos vão sendo descobertos; em consequência, os estudiosos se veem obrigados a lhes dar atenção especial.

A consideração de tais documentos não carece de interesse e vantagem, porque, apesar dos seus muitos aspectos negativos, os apócrifos têm certamente valor positivo; refletem, sim, algo do que se dava na Igreja antiquíssima: por eles se percebem as ideias que mais estavam em curso, os embates em torno delas travados e o fervor da alma popular; além disto, bem se pode crer que, entre as suas narrativas, haja não somente lendas, mas também elementos históricos e doutrinários correspondentes à verdade, elementos que os autores bíblicos não consignaram nos Evangelhos e nas epístolas e que ficaram na Tradição oral dos cristãos.

Certos dados, referidos pelos apócrifos, até hoje são afirmados pelo povo cristão,… em alguns casos com o consentimento tácito das autoridades da Igreja, em outros casos com o apoio ora mais, ora menos explícito das mesmas. Ê o que vamos ver de mais perto:

a) Passaram para a piedade popular, a Liturgia e a arte sacra alguns traços que os Evangelhos não consignam, mas que a literatura apócrifa menciona:

Tais seriam, por exemplo os nomes dos genitores de Maria Santíssima : Joaquim e Ana, celebrados pela Liturgia respectivamente aos 16 de agosto e 26 de julho;
os nomes dos magos adoradores: Gaspar, Melquior, Baltasar, e a sua qualidade de reis (coisas das quais S. Mateus c. 2 nada refere);
a apresentação de Maria no Templo, celebrada pela Liturgia aos 21 de novembro;
o boi e o asno junto ao presépio, o qual, por sua vez, costuma ser colocado dentro de uma gruta (aliás, observam os estudiosos que cerca de doze elementos que acompanham o presépio na iconografia cristã, são consignados pelos apócrifos);
textos do Oficio e da Missa de Sto. André Apóstolo (30 de novembro) ; narram como o santo aceitou a cruz com a máxima alegria e nela ficou pendente, de cabeça para baixo, durante dois dias, ensinando e exortando o povo;
algumas estações da Via Sacra; em particular, o encontro de Jesus com Verônica, em cujo véu o Senhor terá gravado a sua santa efígie.

Também entre os cristãos do Egito, da Etiópia e do Oriente muitos elementos dos apócrifos são comumente afirmados pela piedade popular.

Note-se bem que a Igreja, ao permitir ou mesmo, de certo modo, fomentar tais afirmações (mediante inclusão no calendário litúrgico) de maneira nenhuma entende defini-las como proposições dogmáticas. Enquanto não há argumentos contra a historicidade de tais dados e enquanto a piedade dos fiéis se beneficia ao contemplá-los, a Igreja não condena tais afirmações; antes, favorece o que nelas diz respeito à devoção do povo de Deus.

b) Há mesmo casos em que verdades da fé cristã se encontram explicitamente atestadas pelos apócrifos, ao passo que os livros canônicos simplesmente as silenciam (o que não quer dizer que lhes contradigam).

Isto está longe de significar que o magistério da Igreja tenha tirado dos apócrifos as suas doutrinas dogmáticas. A Igreja contudo admite (por indicação da S. Escritura mesma; cf. 2 Tim 2,ls; 1,12-14; 2 Tes 2,15; 1 Cor 11,2; Hebr 2,3) que genuínos ensinamentos de Cristo e dos Apóstolos hajam ficado na Tradição meramente oral, sem entrar nas Escrituras canônicas. Sendo assim, pode-se crer que um ou outro dos autores de apócrifos se tenha feito porta-voz desses ensinamentos, tomando, porém, a liberdade de os enquadrar dentro de narrativas imaginárias ou de os ornamentar com traços de ficção. Em tais casos, embora a ambientação e a ornamentação não mereçam crédito, o cerne dos episódios conserva genuíno valor, podendo muitas vezes ser autêntica mensagem comunicada por Cristo ou pelos Apóstolos. Caso isto se dê, as narrativas dos apócrifos “não são as fontes da doutrina, mas apenas testemunhos que fazem eco a testemunhos anteriores.E como se pode verificar se realmente esses testemunhos se reduzem à palavra de Cristo e dos Apóstolos?
Não há outro critério senão a própria Tradição autêntica e contínua da Igreja, Tradição que o magistério oficial da Esposa de Cristo está encarregado por Cristo de exprimir infalivelmente (cf. Mt 28, 20); é, em última análise, em função do magistério vivo da Igreja que o leitor tem que julgar os apócrifos (e não vice-versa :… em função dos apócrifos julgar o magistério da Igreja). Tal é a conclusão que decorre logicamente do fato de que o ensinamento meramente oral é anterior ao ensinamento escrito e mais amplo do que este, no Cristianismo.

Pergunta-se então: quais seriam as verdades da fé explicitamente transmitidas pela Tradição meramente oral e os apócrifos? — Ei-las:a perpétua virgindade de Maria (antes do parto, no parto e após o parto); mais de uma passagem dessa literatura a inculca categoricamente. Tenham-se em vista o Proto-Evangeiho de Tiago cc. 19s; o Evangelho do Ps.-Mateus c. 13, assim como a referência feita a esses escritos em «P. R.» 6/1958, qu. 8;
a assunção corporal de Maria aos céus, a respeito da qual se encontra amplo artigo em «P. R.» 35/1960, qu. 2 (aliás, pode-se observar o seguinte: a Bula pontifícia de Pio XII que, a 1 de novembro de 1950, definiu a Assunção de Maria, não alude aos apócrifos; apoia-se sobre a Tradição da Igreja expressa pela Liturgia, pelos Padres e Doutores antigos, pelos teólogos e pela sentença comum dos bispos e dos fiéis);
a estada de Jesus Cristo no limbo dos Pais durante o tríduo de sua morte. Esta proposição, ligeiramente insinuada por São Pedro em sua 1a epistola (3,19; 4,6), foi longamente exposta pelo «Evangelho de Nicodemos», o «Evangelho de Pedro» e as «Odes de Salomão». Veja-se o texto do Evangelho de Pedro em «P. R.» 54/1962, qu. 4 (os pormenores são evidentemente imaginários; não resta, porém, dúvida de que é autêntica a mensagem assim transmitida).

Estas considerações dão suficientemente a ver em que medida se pode tomar útil o estudo dos apócrifos para o conhecimento da história do Cristianismo, contanto que tais documentos sejam analisados dentro do seu quadro autêntico, isto é, à luz da corrente doutrinária que os antecedeu e que hoje se manifesta.