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terça-feira, 8 de setembro de 2026

A Bíblia e a Mesopotâmia Antiga

 


A antiga Mesopotâmia na Bíblia

Os primeiros 11 capítulos de Gênesis se passam, em grande parte, na Mesopotâmia. Éden é uma palavra suméria que significa "estepe" e era um distrito da Suméria. A Torre de Babel ficava na Babilônia. Os Jardins Suspensos podem ter inspirado a história do Jardim do Éden. De acordo com Gênesis, Abraão, Caim, Abel e inúmeras outras figuras bíblicas nasceram na Mesopotâmia, e as primeiras cidades fundadas após o dilúvio foram Babel (Babilônia), Ereque (Uruk) e Acádia (Akkad).

Tabuletas cuneiformes encontradas em Ebla mencionam as cidades de Sodoma e Gomorra e contêm o nome de Davi. Elas também mencionam Ab-ra-mu (Abraão), E-sa-um (Esaú) e Sa-u-lum (Saul), bem como um cavaleiro chamado Ebrium, que governou por volta de 2300 a.C. e apresenta uma semelhança impressionante com Éber, do livro de Gênesis, que era tetraneto de Noé e tetravô de Abraão. Alguns estudiosos sugerem que as referências bíblicas são exageradas, pois o nome divino Javé (Jeová) não é mencionado nenhuma vez nas tabuletas.

Os babilônios também possuíam mitos que apresentavam semelhanças impressionantes com a criação de Eva a partir da costela de Adão e com a história da Arca de Noé (ver Literatura). Alguns afirmam que "Éden" era uma palavra suméria. "Edin" é uma palavra suméria, mas se refere à estepe entre os dois rios, onde os animais pastam.

Abraão nasceu com o nome de Abrão na cidade suméria de Ur, na Mesopotâmia (atual Iraque). De acordo com Gênesis, Abraão era o tataraneto de Noé e era casado com Sara. Gênesis 11:17-28 diz: “Terá gerou Abrão, Naor e Harã; e Harã gerou Ló. E Harã morreu na época de Terá, seu pai, na terra de seu nascimento, Ur dos Caldeus.

Fontes babilônicas e a Bíblia

Aaron Skaist escreveu na Enciclopédia Judaica: Grande parte das informações históricas sobre o Oriente Próximo durante o período de 626 a 594 a.C. provém de um conjunto de tabuletas conhecido como Crônica Babilônica. De valor imediato são os dados cronológicos fornecidos por essas tabuletas. De acordo com a crônica, a batalha de Carquemis, mencionada em Jeremias 46 como tendo ocorrido no 5º ano do reinado de Jeoaquim de Judá, foi travada na primavera de 605 a.C. O mês de Elul, no mesmo ano, marca a ascensão de Nabucodonosor ao trono da Babilônia.

De acordo com o método babilônico de contagem dos anos de reinado, o primeiro ano de Nabucodonosor começou em abril de 604 a.C. Também se sabe, por meio dessas tábuas, que no segundo dia de Adar, no sétimo ano do reinado de Nabucodonosor, o que corresponde a 15/16 de março de 597 a.C. segundo o calendário gregoriano, o rei Joaquim de Judá rendeu a cidade de Jerusalém aos babilônios, após governar por apenas três meses (II Reis 24:8-20). Essas datas servem como pontos de referência para os estudiosos que desejam calcular a cronologia dos últimos anos do Reino de Judá.

Entre outros aspectos de interesse para os estudiosos da Bíblia encontrados na Crônica Babilônica, está a tábua que abrange os eventos dos anos 616 a 608 a.C., período durante o qual a capital assíria, Nínive, caiu sob o domínio dos medos e babilônios, fornecendo, assim, informações contextuais para o livro profético de Naum. Outro aspecto de interesse é a descrição da derrota e fuga do exército egípcio após a batalha de Carquemis, que é notavelmente semelhante à descrição do mesmo evento em Jeremias 46. Não se deve presumir que uma referência em fontes cuneiformes a uma pessoa ou evento registrado na Bíblia irá automaticamente ampliar ou esclarecer a informação bíblica. É perfeitamente possível que tal evidência apenas complique um problema já complexo. Contudo, qualquer discussão sobre um problema específico deve levar em consideração todas as evidências disponíveis em fontes mesopotâmicas.

Um grande esforço foi despendido para estabelecer a cronologia do período monárquico intermediário em Israel. Acabe, rei de Israel, é o personagem bíblico mais antigo mencionado em fontes históricas cuneiformes. De acordo com uma estela de Salmanasar III, rei da Assíria, Acabe estava vivo no ano de 853 a.C. Ele foi, de fato, um dos principais participantes da batalha de Karkar, travada naquele ano. Essa batalha, que conteve temporariamente a invasão assíria da Síria, curiosamente, não é mencionada na Bíblia (ver Karkar). Uma importante coincidência entre a Assíria e Israel pode ser encontrada na estela de Nergal-ereš

De acordo com esta estela, Joás, rei de Israel, estava no trono de Israel no ano de 802 a.C. Segundo o Texto Massorético da Bíblia, transcorreram 57 anos desde a morte de Acabe até a ascensão de Joás ao trono. As evidências assírias apontam para um período de 51 anos entre os dois reis. Para solucionar esse problema, alguns estudiosos recorreram a diversas versões gregas e às fontes assírias. Uma situação semelhante envolve o evento cuja sombra paira sobre a literatura profética do último século da existência do reino de Judá, a saber, a derrota de Senaqueribe diante dos portões de Jerusalém em 701 a.C. O relato bíblico desse evento encontra-se em 2 Reis 18-19, bem como em Isaías 36-37. O próprio relato de Senaqueribe sobre o evento também está disponível. O relato bíblico do cerco parece ser inconsistente. De acordo com II Reis 18:13-16, Ezequias, rei de Judá, rendeu-se a Senaqueribe e pagou-lhe tributo. O relato assírio concorda em grande parte com essa versão, embora divirja quanto ao valor do tributo pago por Ezequias.

Amoritas

Os amorreus são um povo mencionado repetidamente no Antigo Testamento, juntamente com os cananeus e os hititas. O termo amorreus é usado na Bíblia para se referir a certos montanheses que habitavam a terra de Canaã, descritos em Gênesis 10:16 como descendentes de Canaã, filho de Cam. Eles são descritos como um povo poderoso, de grande estatura, "como a altura dos cedros" (Amós 2:9), que ocupava as terras a leste e a oeste do Jordão. A altura e a força mencionadas em Amós 2:9 levaram alguns estudiosos cristãos, incluindo Orville J. Nave, autor da clássica Bíblia Temática de Nave, a se referirem aos amorreus como "gigantes".

Os amoritas foram um antigo povo de língua semítica que dominou a história da Mesopotâmia, Síria e Palestina de cerca de 2000 a 1600 a.C. Nas fontes cuneiformes mais antigas (c. 2400–c. 2000 a.C.), os amoritas foram equiparados ao Ocidente, embora seu verdadeiro local de origem fosse provavelmente a Arábia, e não a Síria. Eram nômades problemáticos e acredita-se que tenham sido uma das causas da queda da 3ª dinastia de Ur (c. 2112–c. 2004 a.C.).

Segundo a Enciclopédia Britânica: “Durante o segundo milênio a.C., o termo acádio Amurru referia-se não apenas a um grupo étnico, mas também a uma língua e a uma unidade geográfica e política na Síria e Palestina. No início do milênio, uma migração em larga escala de grandes federações tribais da Arábia resultou na ocupação da Babilônia propriamente dita, da região do médio Eufrates e da Síria-Palestina. Eles estabeleceram um mosaico de pequenos reinos e assimilaram rapidamente a cultura sumério-acadiana. É possível que esse grupo estivesse ligado aos amoritas mencionados em fontes anteriores; alguns estudiosos, no entanto, preferem chamar esse segundo grupo de cananeus orientais, ou cananeus.”

Ugarit e o Antigo Testamento

Os ugaritas são outro povo mencionado na Bíblia. De acordo com a Escola de Teologia de Quartz Hill: “A antiga cidade-estado cananeia de Ugarit é de suma importância para aqueles que estudam o Antigo Testamento. A literatura da cidade e a teologia nela contida contribuem significativamente para a compreensão do significado de várias passagens bíblicas, bem como para a decifração de palavras hebraicas complexas. Ugarit atingiu seu auge político, religioso e econômico por volta do século XII a.C., e, portanto, seu período de grandeza coincide com a entrada de Israel em Canaã.”

Por que as pessoas interessadas no Antigo Testamento deveriam querer saber sobre esta cidade e seus habitantes? Simplesmente porque, ao ouvirmos suas vozes, ouvimos ecos do próprio Antigo Testamento. Vários Salmos foram adaptados de fontes ugaríticas; a história do dilúvio tem uma imagem quase espelhada na literatura ugarítica; e a linguagem da Bíblia é grandemente iluminada pela língua de Ugarit. Por exemplo, veja o brilhante comentário de M. Dahood sobre os Salmos na série Anchor Bible para a necessidade do ugarítico para uma exegese bíblica precisa. Em resumo, quando se domina a literatura e a teologia de Ugarit, está-se no caminho certo para compreender algumas das ideias mais importantes contidas no Antigo Testamento. Por essa razão, vale a pena explorarmos este tema.

“Desde a descoberta dos textos ugaríticos, o estudo do Antigo Testamento nunca mais foi o mesmo. Agora temos uma visão muito mais clara da religião cananeia do que jamais tivemos antes. Também compreendemos muito melhor a própria literatura bíblica, pois agora somos capazes de esclarecer palavras difíceis graças aos seus cognatos ugaríticos.”

Deuses Ugaríticos

Os textos de Ugarit fazem referência a divindades como El, Asherah, Baak e Dagan, anteriormente conhecidas apenas pela Bíblia e por alguns outros textos. A literatura de Ugarit é repleta de histórias épicas sobre deuses e deusas. Essa forma de religião foi revivida pelos primeiros profetas hebreus. Uma estatueta de prata e ouro de um deus, com cerca de 28 centímetros de altura e datada de aproximadamente 1900 a.C., foi desenterrada em Ugarit.

De acordo com a Escola de Teologia de Quartz Hill: “Os profetas do Antigo Testamento criticam Baal, Aserá e vários outros deuses em praticamente todas as páginas. A razão para isso é simples de entender: o povo de Israel adorava esses deuses juntamente com, e às vezes em vez de, Javé, o Deus de Israel. Essa denúncia bíblica desses deuses cananeus ganhou um novo significado quando os textos ugaríticos foram descobertos, pois em Ugarit esses eram os próprios deuses que eram adorados.”

“El era o deus principal em Ugarit. No entanto, El também é o nome de Deus usado em muitos dos Salmos para Javé; ou pelo menos essa tem sido a suposição entre os cristãos piedosos. Contudo, ao ler esses Salmos e os textos ugaríticos, percebe-se que os mesmos atributos pelos quais Javé é aclamado são os mesmos pelos quais El é aclamado. De fato, esses Salmos provavelmente eram originalmente hinos ugaríticos ou cananeus a El, que foram simplesmente adotados por Israel, assim como o Hino Nacional Americano foi musicado por Francis Scott Key com uma melodia popular. El é chamado de pai dos homens, criador e criador da criação. Esses atributos também são concedidos a Javé no Antigo Testamento. Em 1 Reis 22:19-22, lemos sobre Javé reunindo-se com seu conselho celestial. Essa é a própria descrição do céu que encontramos nos textos ugaríticos. Pois nesses textos, os filhos de Deus são os filhos de El.”

“Outras divindades adoradas em Ugarit eram El Shaddai, El Elyon e El Berith. Todos esses nomes são aplicados a Javé pelos escritores do Antigo Testamento. Isso significa que os teólogos hebreus adotaram os títulos dos deuses cananeus e os atribuíram a Javé, numa tentativa de eliminá-los. Se Javé é tudo isso, não há necessidade de os deuses cananeus existirem!

Hititas bíblicos

Hititas é o termo convencional em inglês para um povo antigo que falava uma língua indo-europeia e estabeleceu um reino centrado em Hattusa, perto da atual vila de Bogazköy, no centro-norte da Turquia, durante a maior parte do segundo milênio a.C. O reino hitita, que em seu auge controlava a Anatólia central, o noroeste da Síria até Ugarit e a Mesopotâmia até a Babilônia, durou aproximadamente de 1680 a.C. a cerca de 1180 a.C. Após 1180 a.C., a entidade política hitita se desintegrou em várias cidades-estado independentes, algumas das quais sobreviveram até por volta de 700 a.C.

Segundo o Crystal Links: “Hititas, ou mais recentemente, heteus, é também o nome comum em inglês para um povo bíblico chamado Filhos de Hete. Esse povo é mencionado diversas vezes no Antigo Testamento, desde a época dos Patriarcas até o retorno de Esdras do cativeiro babilônico. Os arqueólogos que descobriram os hititas da Anatólia no século XIX inicialmente acreditaram que os dois povos eram o mesmo, mas essa identificação permanece controversa. Os hititas também eram famosos por sua habilidade na construção e no uso de carros de guerra. Alguns consideram os hititas a primeira civilização a descobrir como trabalhar o ferro e, portanto, a primeira a entrar na Idade do Ferro.” 

Os hititas são mencionados mais de 50 vezes na Bíblia Hebraica sob os nomes "filhos de Hete" e "nativos de Hete") como habitantes de Canaã ou de suas proximidades, desde a época de Abraão (estimada entre 2000 a.C. e 1500 a.C.) até a época de Esdras, após o retorno do exílio babilônico (por volta de 450 a.C.). Seu ancestral Hete é descrito em Gênesis como filho de Canaã, filho de Cam, filho de Noé. 

Referências bíblicas aos hititas: Gênesis 10:1, Gênesis 23:2, Gênesis 15:18 sobre a aliança de Abraão (expressa de forma semelhante em Neemias 9:8). Em Gênesis 23:2, perto do fim da vida de Abraão, ele estava em Hebrom, em terras pertencentes aos "filhos de Hete", e deles obteve um terreno com uma caverna para sepultar sua esposa Sara. Um deles (Efrom) é chamado de "hitita" diversas vezes. Esse acordo é mencionado mais três vezes (com palavras quase idênticas), após as mortes de Abraão, Jacó e José. Décadas depois, em Gênesis 26:34, é dito que o neto de Abraão, Esaú, tomou duas esposas hititas e uma heveia. Essa afirmação é repetida, com nomes um pouco diferentes, em Gênesis 36:2. Em Gênesis 27:46, Rebeca teme que Jacó faça o mesmo; Gênesis 25:8 Então Abraão expirou e morreu em boa velhice, velho e farto de dias; e foi reunido ao seu povo. 9 Seus filhos Isaque e Ismael o sepultaram na caverna de Macpela, no campo de Efrom, filho de Zoar, o heteu, que fica defronte de Manre; 10 o campo que Abraão comprara dos filhos de Hete; ali foram sepultados Abraão e Sara, sua mulher.

Pedra Moabita - Estela de Mesa - 930 a.C.

Os moabitas foram um dos povos mencionados repetidamente no Antigo Testamento, juntamente com os hititas e os amorreus, para os quais existem evidências arqueológicas de sua existência. A Pedra Moabita — ou Estela de Mesa — datada de 930 a.C., diz: “Eu sou Mesa, filho de Quemos-Meleque, rei de Moabe, o dibonita. Meu pai foi rei de Moabe por trinta anos, e eu me tornei rei depois dele. E construí este altar para Quemos em Qarhar... por causa da libertação de Mesa, porque ele me salvou de todos os reis e porque me fez ver [o meu desejo] sobre todos os que me odiavam. Onri, rei de Israel, oprimiu Moabe por muitos dias, porque Quemos estava irado com a sua terra. E seu filho o sucedeu, e também disse: 'Oprimirei Moabe'. Em meus dias, ele falou conforme esta palavra, mas eu vi o meu desejo sobre ele e sobre a sua casa, e Israel pereceu completamente para sempre.”

Ora, Onri havia possuído toda a terra de Medeba e habitado nela seus dias e metade dos dias de seu filho, quarenta anos, mas Quemos a restaurou em meus dias. E eu reconstruí Baal-Meom, e fiz nela o reservatório, e reconstruí Quiriataim. E os homens de Gade habitaram na terra de Atarote desde a antiguidade, e o rei de Israel reconstruiu para si Atarote. E lutei contra a cidade e a tomei, e matei todos os seus habitantes, uma visão agradável a Quemos e a Moabe. E trouxe de lá o altar-forte de Duda e o arrastei diante de Quemos em Quiriote. E fiz habitar nele os homens de Sarom e os homens de Mearote.

“E Quemos me disse: 'Vai, toma Nebo contra Israel'; e eu fui de noite e lutei contra ela desde o romper da aurora até o meio-dia, e a tomei e matei todos, sete mil homens, meninos, mulheres e meninas, pois eu a havia consagrado a Astar-Quemos. E tomei de lá os altares sagrados do Senhor, e os arrastei diante de Quemos. E o rei de Israel edificou Jabaz e habitou nela enquanto lutava comigo, e Quemos o expulsou de diante de mim. E tomei de Moabe duzentos homens, todos os seus chefes, e os conduzi contra Jaaz e a tomei para anexar a Dibom. E edifiquei Qarhar, o muro da floresta e o muro da colina; e edifiquei seus portões e suas torres, e edifiquei a casa do rei, e fiz as comportas para o reservatório de água no meio da cidade.”

“E não havia cisterna no meio da cidade de Qarhar; e eu disse a todo o povo: 'Façam cada um de vocês uma cisterna em sua casa'; e cortei as árvores para Qarhar com a ajuda dos prisioneiros de Israel. Construí Aroer e fiz a estrada junto ao Arnon. E reconstruí Bete-Bamote, porque havia sido destruída. E reconstruí Bezer, porque estava em ruínas... (Qui) de Dibom eram cinquenta, porque toda Dibom era obediente. E eu governei. E governei cem... nas cidades que acrescentei à terra. E reconstruí Medeba e Bete-Diblatã. E quanto a Bete-Baal-Meom, ali coloquei pastores... ovelhas da terra... E quanto a Horonaim, ali habitaram... e... Quemos me disse: 'Desça, lute contra Horonaim', e eu desci e... Quemos em meu dia, e dali... e EU......."

Referências bíblicas aos babilônios

A Babilônia, um dos grandes impérios da Mesopotâmia, e os neobabilônios, têm um papel de destaque no Antigo Testamento. Segundo a Enciclopédia Católica: “(1) A primeira passagem referente à Babilônia é Gênesis 10:8-10: “Chus gerou Nemrode, e o princípio do seu reino foi Babilônia, Arac, Acade e Calane, na terra de Senaar.” O grande valor histórico dessas genealogias em Gênesis tem sido reconhecido por estudiosos de todas as escolas; essas genealogias, no entanto, não são de pessoas, mas de tribos, o que fica óbvio a partir de uma metáfora tão ousada como: “Canaã gerou Sidom, seu primogênito” (v. 15). Mas, em muitos casos, os nomes são de pessoas reais cujos nomes pessoais se tornaram designações das tribos, assim como em casos conhecidos de clãs escoceses e irlandeses ou tribos árabes. Cus gerou Nemrode. Cus não era semita, de acordo com o relato bíblico, e é notável que descobertas recentes pareçam apontar para o fato de que a civilização original da Babilônia não era semita e o elemento semita apenas gradualmente substituiu o aborígenes e adotou sua cultura. Deve-se notar, também, que no versículo 22 Assur é descrito como filho de Sem, embora no versículo 11 Assur venha da terra de Senaar.

“Isso representa exatamente o fato de que a Assíria era puramente semita, enquanto a Babilônia não o era. Alguns veem em Chus uma designação da cidade de Kish, mencionada acima entre as cidades da antiga Babilônia, e certamente uma de suas cidades mais antigas. Nemrod, nessa suposição, seria ninguém menos que Nin-marad, ou Senhor de Marad, que era uma cidade-filha de Kish. Gilgamesh, que a mitologia transformou em um Hércules babilônico, cujas fortunas são descritas na Epopeia de Gilgamesh, seria então a pessoa designada pelo Nemrod bíblico. Outros veem em Nemrod uma corrupção intencional de Amarudu, o acádio para Marduk, a quem os babilônios adoravam como o grande Deus, e que, talvez, fosse o ancestral deificado de sua cidade. Essa corrupção seria paralela a Nisroch (IV Reis, 19, 37) para Assuraku, e Nibhaz (IV Reis, 17, 31) para Abahazu, ou Abed Nego para Abdnebo.” A descrição de "caçador robusto" ou herói-capturador se encaixaria bem com o papel atribuído ao deus Marduk, que aprisionou o monstro Tiamtu em sua rede. No entanto, ambas as passagens bíblicas, IV Reis 17:31 e 19:37, são muito duvidosas, e Nisroque encontrou recentemente uma explicação mais provável.

“(2) “O início do seu reino foi Babilônia, Arac, Acad e Calane”. Essas cidades do norte da Babilônia provavelmente estão enumeradas em ordem inversa à sua antiguidade; de ​​modo que Nippur (Calanne) é a mais antiga e Babilônia a mais moderna. Escavações recentes mostraram que Nippur data de muito antes da era Sargônida (3800 a.C.) e Nippur é mencionada na quinta tábua da história da Criação babilônica. 

“(4) A seguir, menciona-se o relato da batalha dos quatro reis contra cinco perto do Mar Morto (Gênesis, xiv). Senaar, mencionado no v. 1, é o Sumério das inscrições babilônicas, e Anrafel é identificado pela maioria dos estudiosos com o grande Hamurabi, o sexto rei da Babilônia. Como a gutural inicial do nome do rei é suave, e os babilônios tinham o hábito de omitir o 'h', o nome aparece nas inscrições cuneiformes como Ammurapi. A ausência do 'l' final decorre do fato de o sinal 'pi' ter sido lido erroneamente como 'bil' ou talvez 'ilu', o sinal de deificação, ou complemento do nome, ter sido omitido. Não há dificuldade filológica nessa identificação, mas a dificuldade cronológica (ou seja, Hamurabi ser vassalo de Quedorlaomer) levou outros a identificar Anrafel com o pai de Hamurabi, Sin-muballit, cujo nome é escrito ideograficamente como Amar-Pal. Arioque, Rei do Ponto (Ponto) 

A infeliz suposição de São Jerônimo para identificar Elazar é que ele não é outro senão Rim-Sin, Rei de Larsa (Ellazar da versão Almeida Corrigida Fiel), cujo nome era Eri-Aku, e que foi derrotado e destronado pelo Rei da Babilônia, seja Hamurabi ou Sin-muballit; e se for o primeiro, então isso ocorreu no trigésimo primeiro ano de seu reinado, o ano da terra de Emutbalu, sendo Eri-Aku detentor do título de Rei de Larsa e Pai de Emutbalu. O nome Chedorlahomer aparentemente, embora não com certeza absoluta, foi encontrado em duas tabuletas junto com os nomes Eriaku e Tudhula, sendo este último evidentemente "Thadal, rei das nações". 

A palavra hebraica goyim, "nações", é um erro clerical para Gutium ou Guti, um estado vizinho que desempenha um papel importante ao longo da história babilônica. De Kudur-lahgumal, Rei da Terra de Elam, diz-se que ele "desceu sobre" e "exerceu soberania na Babilônia". cidade de Kar-Duniash". Temos evidências documentais de que o pai de Eriaku, Kudurmabug, rei de Elam, e depois dele Hamurabi da Babilônia, reivindicaram autoridade sobre a Palestina, a terra de Martu. Esta passagem bíblica, portanto, que outrora foi descrita como repleta de impossibilidades, até agora só recebeu confirmação de documentos babilônicos.

“(5) De acordo com Gênesis 11:28 e 31, Abraão era um babilônico da cidade de Ur. É notável que o nome Abu Ramu (Pai Honrado) apareça nas listas de epônimos de 677 a.C., e Abe Ramu, um nome semelhante, em uma tábua de contrato do reinado de Apil-Sin, mostrando assim que Abrão era um nome babilônico em uso muito antes e depois da data do Patriarca. Seu pai se mudou de Ur para Harran, do antigo centro do culto à Lua para o novo. A tradição talmúdica considera Terá um idólatra, e sua religião pode ter tido relação com sua emigração. 

Nenhuma escavação foi realizada até o momento em Harran, e a ancestralidade de Abraão permanece obscura. Aberamu, do reinado de Apil-Sin, teve um filho chamado Sha-Amurri, fato que demonstra o intercâmbio inicial entre a Babilônia e a terra amorita, ou Palestina. Em Chanaan, Abraão permaneceu dentro da esfera da língua e influência babilônicas, ou talvez até mesmo da autoridade. Vários Séculos mais tarde, quando a Palestina já não fazia parte do Império Babilônico, Abd-Hiba, o Rei de Jerusalém, em sua comunicação com seu suserano no Egito, não escreveu nem em sua própria língua nem na do Faraó, mas em babilônico, a língua universal da época. Mesmo ao entrar no Egito, Abraão permaneceu sob o domínio semita, pois os hicsos reinavam lá.

“(6) Considerando que o progenitor da raça hebraica era um babilônio, e que a cultura babilônica permaneceu preponderante na Ásia Ocidental por mais de 1000 anos, a característica mais surpreendente das Escrituras Hebraicas é a quase completa ausência de ideias religiosas babilônicas, ainda mais porque a religião babilônica, embora politeísta oriental, possuía um refinamento, uma nobreza de pensamento e uma piedade que são frequentemente admiráveis.

Babilônia, Criação, Jardim do Éden e o Grande Dilúvio

Segundo a Enciclopédia Católica: “O relato babilônico da criação, embora frequentemente comparado ao bíblico, difere deste em pontos principais e essenciais, pois não contém uma declaração direta da Criação do mundo: Tiamu e Apsu, o deserto aquoso e o abismo unidos, geram o universo; Marduk, o conquistador do caos, molda e ordena todas as coisas; mas esta é a roupagem mitológica da evolução, em oposição à criação. Não faz da Divindade a primeira e única causa da existência de todas as coisas; os próprios deuses são apenas o resultado de forças preexistentes, aparentemente eternas; eles não são causa, mas efeito. 

Faz do mundo atual o resultado de uma grande guerra; é a história da Resistência e da Luta, que é exatamente o oposto do relato bíblico. Não organiza as coisas criadas em grupos ou classes, o que é uma das principais características da história em Gênesis. A obra da criação não é dividida em um número de dias — a principal característica literária do relato bíblico.”

A mitologia babilônica possui algo análogo ao Jardim do Éden bíblico. Mas, embora aparentemente possuíssem a palavra Edina, não apenas como significado de "a planície", mas também como um nome geográfico, seu jardim de delícias está situado em Eridu, onde "uma videira escura crescia; foi feito um lugar glorioso, plantado junto ao abismo. Na casa gloriosa, que é como uma floresta, sua sombra se estende; nenhum homem entra em seu meio. Em seu interior está o deus-sol Tamuz." Entre as desembocaduras dos rios, que estão em ambos os lados." Esta passagem apresenta uma notável analogia com Gênesis 2:8-17. Os babilônios, no entanto, parecem não ter tido nenhum relato da Queda. Parece provável que o nome de Ea, ou Ya, ou Aa, o deus mais antigo do panteão babilônico, esteja ligado ao nome Javé, Jahu ou Ja do Antigo Testamento. O professor Delitzsch afirmou recentemente ter encontrado o nome Javé-ilu em uma tabuleta babilônica, mas essa leitura foi fortemente contestada por outros estudiosos.

“A maior semelhança entre os registros hebraicos e babilônicos reside em seus relatos do Dilúvio. Pir-napisto, o Noé babilônico, sob o comando de Ea, constrói um navio e transporta para lá sua família, os animais do campo e os filhos dos artífices, fechando a porta em seguida. Durante seis dias e seis noites, o vento soprou e o dilúvio inundou a terra. No sétimo dia, a tempestade cessou; acalmou-se, o mar recuou; toda a humanidade havia se corrompido. O navio parou na terra de Nisir. Pir-napisto envia primeiro uma pomba, que retorna; depois uma andorinha, que também retorna; depois um corvo, que não retorna. Ele deixa o navio, derrama uma libação e faz uma oferenda no cume da montanha. 'Os deuses sentiram um aroma agradável, os deuses sentiram um aroma doce, os deuses se reuniram como moscas sobre o sacrificador.' Ninguém que leia o relato babilônico do Dilúvio pode negar sua íntima conexão com a narrativa do Gênesis, embora o primeiro seja tão semelhante.” intimamente ligada à mitologia babilônica, de modo que o caráter inspirado do relato hebraico é melhor apreciado pelo contraste.”

Isaías sobre Judá e os assírios

A Assíria, outro grande império da Mesopotâmia, também tem um papel de destaque no Antigo Testamento. Gerald A. Larue escreveu em “Vida e Literatura do Antigo Testamento”: “Os oráculos de Isaías estão tão intrinsecamente relacionados aos acontecimentos de sua época que a história do período precisa ser compreendida. O esboço a seguir foi elaborado a partir de relatos em II Reis, complementados por informações de Crônicas e registros dos reis assírios. 

“Como não havia nenhuma potência externa forte ou interessada o suficiente para representar uma ameaça real, Israel e Judá prosperaram no século VIII. O rei Adad-nirari III da Assíria, em 805, cobrou tributo de Damasco, mas Israel, a poucos quilômetros ao sul da capital arameia, não foi afetado. Uma sucessão de governantes fracos reduziu a ameaça assíria. Jeroboão II (786-746) expandiu seu reino para a região da Transjordânia e trabalhou em harmonia econômica com as cidades fenícias. A prosperidade e as desigualdades sociais, vividamente retratadas por Amós, trouxeram dificuldades e sofrimento para os menos favorecidos. 

Um crescimento econômico paralelo ocorreu em Judá na época de Uzias (783-742). Edom foi reconquistada; o comércio com a Arábia se desenvolveu através do Mar Vermelho; duas cidades da Filístia, Gate e Asdode, tornaram-se vassalas (II Crônicas 26:6 e seguintes), e apesar da ausência de um registro profético comparável ao anterior, Judá prosperou.” O livro de Amós, onde Isaías descreve as condições condenadas quando inicia sua obra profética após a morte do rei, sugere que a situação em Judá e Israel era semelhante.

746. Jeroboão II morreu e um período de declínio começou em Israel. A falta de estabilidade na liderança israelita, resultando no assassinato de quatro reis em vinte anos, produziu uma política nacional que oscilava entre alianças pró-egípcias e pró-assírias. Uma sensação de falta de rumo ou direção, claramente refletida em Oséias, tornou Israel um alvo fácil quando as forças assírias começaram a avançar para oeste e para sul.

745. Tiglate-Pileser III (chamado "Pul" em II Reis 15:19, em referência a "Pulu", nome sob o qual controlava a Babilônia) tornou-se governante da Assíria e iniciou um programa expansionista. Até então, a Assíria havia realizado incursões periódicas no norte da Síria em busca de recursos e para manter canais abertos para a exploração de minerais, madeira e comércio. O novo programa assírio incluía conquista e domínio. Além de subjugar os vizinhos mesopotâmicos nas imediações da Assíria, Tiglate-Pileser começou a subjugação do oeste, a partir de 743. Uma coalizão de pequenas nações, liderada por Azriau de Judá, sem dúvida Uzias (Azarias) de Judá, opôs-se a ele. O relato assírio, extraído de placas encontradas em Calá, apresenta muitas lacunas, mas é evidente que Tiglate-Pileser subjugou sua oposição. Os registros listam tributos recebidos de governantes amedrontados de reinos menores, incluindo Rezim de Damasco e Menaém de Samaria.9

“742. Uzias morreu e Jotão tornou-se rei. Devido à longa doença de seu pai, Jotão tinha experiência administrativa como regente de Judá e foi capaz de dar a Judá uma estabilidade governamental que contrastava completamente com a situação em Israel. O programa militar de Uzias foi continuado e o Cronista relata uma vitória judaica sobre os amonitas, que pagaram tributo por três anos.”

Ataques da Assíria contra Judá

O império assírio, revivido, conquistou o norte de Israel em 722 a.C. Após a profecia de Oséias, que dizia: "O bezerro de Samaria será despedaçado; porque semearam o vento e colherão a tempestade", o rei assírio Tiglate-Pilesé III saqueou Damasco e invadiu o norte de Israel. Em 722 a.C., o norte de Israel foi conquistado por Salmanassés V, sucessor de Tiglate-Pilesé III. Sargão registrou: "Sitiarei a cidade de Samaria. Tomei-a. Levei cativos 27.290 dos seus habitantes."

2 Reis, capítulos 15 a 17, descreve a destruição de Israel pelas mãos dos assírios liderados por Tiglete-Pileser, também chamado de "Pul". Essa invasão ocorreu em 722 a.C. e, na época, teria sido tradicionalmente associada ao profeta Isaías. De acordo com a Sociedade Bíblica Internacional: “Do capítulo 15: No trigésimo nono ano de Azarias, rei de Judá, Menaém, filho de Gadi, tornou-se rei de Israel e reinou em Samaria por dez anos. Ele fez o que era mau aos olhos do Senhor. Durante todo o seu reinado, não se desviou dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que ele havia levado Israel a cometer. 

Então Pul, rei da Assíria, invadiu a terra, e Menaém lhe deu mil talentos de prata para obter seu apoio e fortalecer seu próprio domínio sobre o reino. Menaém exigiu esse dinheiro de Israel. Cada homem rico teve que contribuir com cinquenta siclos [3] de prata para serem entregues ao rei da Assíria. Assim, o rei da Assíria retirou-se e não permaneceu mais na terra. Quanto aos demais eventos do reinado de Menaém e tudo o que ele fez, não estão escritos no livro dos anais?” Dos reis de Israel? Menaém descansou com seus pais. E Pecaías, seu filho, sucedeu-o como rei. 

“Do capítulo 16: Então Rezim, rei da Síria, e Peca, filho de Remalias, rei de Israel, marcharam para lutar contra Jerusalém e sitiaram Acaz, mas não conseguiram derrotá-lo. Naquele tempo, Rezim, rei da Síria, recuperou Elate para a Síria, expulsando os homens de Judá. Os edomitas então se mudaram para Elate e vivem lá até hoje. Acaz enviou mensageiros para dizer a Tiglate-Pileser, rei da Assíria: 'Sou teu servo e vassalo. Sobe e livra-me das mãos do rei da Síria e do rei de Israel, que estão me atacando.' E Acaz tomou a prata e o ouro encontrados no templo do Senhor e nos tesouros do palácio real e os enviou como presente ao rei da Assíria. O rei da Assíria atendeu ao pedido, atacando Damasco e conquistando-a. Ele deportou seus habitantes para Quir e matou Rezim.

Mesopotâmios e hebreus

Morris Jastrow disse: “A menção aos profetas e salmistas hebreus sugere uma questão final para a qual uma breve resposta pode ser apresentada em um panorama geral de alguns dos elementos mais marcantes da religião da Babilônia e da Assíria. Em que medida esses elementos se relacionam com a religião dos hebreus? Quais são as influências, se houver, das crenças e práticas babilônicas e assírias sobre aquelas desenvolvidas na Palestina durante os séculos de supremacia hebraica? 

"Uma vigorosa corrente de pensamento surgiu recentemente na Alemanha, a qual sustenta que a civilização do Vale do Eufrates influenciou as crenças e práticas de toda a antiguidade — incluindo aquelas que costumamos considerar como contribuições distintamente hebraicas para a vida intelectual e espiritual do mundo. Há uma tendência a atribuir a maioria das tradições hebraicas a fontes babilônico-assírias, a enxergar nos mitos do Gênesis, nas lendas dos patriarcas e até mesmo nos relatos de personagens históricos do Antigo Testamento, reflexos de uma mitologia astral e uma teologia astral que foram desenvolvidas nas escolas sacerdotais do Vale do Eufrates."

“A tese sugerida por um exame mais crítico do abundante material agora disponível é que as semelhanças em mitos e tradições são frequentemente tão enganosas quanto as semelhanças nas palavras de diferentes línguas. A menos que tenhamos uma cadeia razoavelmente completa de evidências de um empréstimo direto e possamos também demonstrar que ele ocorreu segundo certos princípios, existe, pelo menos, uma probabilidade igual da existência de uma fonte comum, da qual as tradições podem ter se espalhado em várias direções — uma suposição que tem a vantagem, além disso, de explicar satisfatoriamente as diferenças entre as tradições, bem como suas semelhanças.”

“É evidente que existe um conjunto de tradições comuns tanto aos hebreus quanto aos babilônios-assírios. As semelhanças, por exemplo, entre os relatos bíblicos da Criação e do Dilúvio, por um lado, e os mitos babilônios-assírios, por outro, são demasiado próximas para serem acidentais; e, da mesma forma, nas crenças e práticas dos antigos hebreus, existem muitas analogias com as da Babilônia e da Assíria. Algumas delas já tivemos a oportunidade de destacar, e podem ser melhor explicadas pela suposição de um ponto de partida comum, enquanto em outros casos, certamente, as analogias apontam claramente para uma assimilação direta por parte dos hebreus. 

Contudo, os contrastes entre as duas linhas de desenvolvimento religioso, revelados pelas formas assumidas por essas tradições, crenças e práticas, não são menos marcantes. Mesmo nas histórias bíblicas da Criação e do Dilúvio, a característica significativa é a minimização do elemento mítico, enquanto nas da Babilônia e da Assíria o mito está sempre em primeiro plano.”

“Em vez de um conflito entre o caos primordial e os deuses, representantes da lei e da ordem, temos em Gênesis o espírito de Elohim soprando sobre as águas. Em vez de um deus-sol da primavera triunfando sobre as tempestades do inverno, temos a concepção de um Poder misterioso por trás e acima da criação, trazendo o mundo e todos os fenômenos da natureza à existência pela majestade de sua palavra. O fiat divino, “Haja luz”, eleva o antigo mito da esfera em que surgiu à dignidade de um sublime hino em louvor a um Criador supramundano. 

A linguagem ainda é antropomórfica, mas o pensamento ascende às alturas espirituais alcançadas pelos melhores profetas hebreus e evocou o elogio até mesmo do crítico latino Longino. “Não menos impressionante na forma assumida pelas tradições bíblicas é a corrente ética que se difunde por elas, como o sal se difunde nas águas do mar. Nesse aspecto, igualmente, elas apresentam um contraste notável com os mitos e lendas da Babilônia e da Assíria.” Ut-Napishtim é salvo da destruição geral simplesmente por ser um dos favoritos de Ea. Noé é escolhido por seus méritos superiores. 

O dilúvio babilônico permanece no nível do fundamento original do mito — é simplesmente mais um aspecto da mudança das estações, do verão seco para o inverno tempestuoso e chuvoso; na história bíblica, o cenário é o mesmo, mas o tom é completamente alterado pelo fato de a tempestade que assola a humanidade ser enviada como punição pelo pecado e pela corrupção generalizada. Da mesma forma, nas histórias dos patriarcas — uma mistura de lenda e mito — foi infundido um espírito ético que se manifesta com mais força nos profetas e nos melhores salmos.

“Da mesma forma, toda a história da nação é contada a partir da perspectiva desse monoteísmo ético que representa a mais sublime conquista da aspiração hebraica. Os códigos antigos e posteriores, combinando as práticas legais e religiosas de vários períodos, são fundidos em uma unidade fictícia pela concepção de que, por trás das leis, está um Legislador divino, governando o universo por padrões de justiça auto impostos, harmoniosamente combinados com a misericórdia divina e a compaixão pela fraqueza da natureza humana. 

O cerne e o verdadeiro significado da concepção monoteísta do universo, conforme revelada pelos profetas, se perdem em qualquer tentativa de colocar essa concepção no mesmo nível da vertente monoteísta que está vagamente, mas inquestionavelmente, presente nas especulações dos sacerdotes babilônicos-assírios. O monoteísmo, em si, não é especificamente religioso, mas sim o resultado do pensamento filosófico — não necessariamente de um pensamento de alto nível, pois mesmo entre pessoas de nível comparativamente inferior, encontramos tênues indícios dessa visão do governo do universo. O monoteísmo torna-se religioso apenas por meio da infusão do espírito ético. 

Pela primeira vez, nessa combinação, surge na história hebraica durante os séculos que produziram um Amós, um Oséias, um Miquéias, um Isaías e um Jeremias — cujos ensinamentos podem ser resumidos na afirmação de que o governo do universo é uma expressão da soberania da ética. A questão de saber se a afirmação é verdadeira ou não é irrelevante, mas, como está, apresenta a linha divisória que separa a forma posterior assumida pela religião dos hebreus de outras formas mais antigas.

“O elevado nível alcançado pelos profetas nem sempre foi mantido, mesmo pelos judeus, pois o judaísmo talmúdico, que começa a assumir forma definida no século anterior ao surgimento do grande sucessor dos antigos profetas, representa uma reação, reinstaurando e perpetuando muitos costumes e ritos religiosos que são meras sobrevivências de concepções mais rudimentares — em sua maioria, na verdade, antigas práticas semíticas que nem sequer são especificamente hebraicas ou judaicas. 

O cristianismo também contaminou a atmosfera pura em que Jesus se movia, com extravagâncias degradantes que nele entraram por diversas vias, mas, não obstante, o novo fator introduzido na história religiosa da humanidade pelos profetas hebreus nunca foi totalmente perdido de vista; e não é difícil rastrear em alguns dos movimentos religiosos de nossos dias a influência contínua desse fator.”

sexta-feira, 4 de março de 2011

Gênesis - a Criação, o Paraíso, o Dilúvio, Caim e Abel, e a Torre de BabeI, e os seus antecedentes literários na Mesopotâmia

Civilização é uma palavra esplêndida sob muitos aspectos: para uns quer dizer grandes cidades e progresso tecnológico, enquanto para outros significa elevação moral, idéias éticas e primorosas criações artísticas. Por qualquer desses critérios a Mesopotâmia foi o berço da civilização, pois foi o primeiro lugar da terra onde o homem criou e manteve por mais de 3.000 anos uma sociedade urbana, letrada, tecnologicamente bem desenvolvida, na qual todo o povo aceitava os mesmos valores e linha a mesma concepção sobre a origem e a ordenação do mundo.

A Mesopotâmia, entre todas as outras regiões, veio a representar papel decisivo na ascensão do homem que emergia do barbarismo - não é coisa para se apreender com facilidade. Não era, certamente, uma terra de promissão para os começos da vida civilizada. Quente, requeimada e varrida pelos ventos, sem madeira, pedra ou minérios, não parecia destinada a guiar e a influenciar o mundo. O que transformou a Mesopotâmia num paraíso fecundo e fez dela uma força criadora foram os dons intelectuais e a índole do seu povo. Observador, ponderado e pragmático, tinha inclinação para apreender o que era fundamental e explorar o que era possível.

Ao contrário de quase todos os outros povos antigos, os mesopotâmicos estabeleceram um sistema de vida orientado por um senso de moderação e de equilíbrio. Em termos materiais e espirituais - em religião e em ética, em política e economia - adotavam um meio-termo viável entre a razão e a fantasia, a liberdade e a autoridade, o conhecido e o transcendental. A Mesopotâmia também era uma sociedade aberta. Embora seus habitantes se considerassem um "povo eleito", não eram em nada provincianos. Davam-se conta de que havia muitos outros povos no mundo e não se trancavam evitando contatos com o exterior. Assim, enquanto menosprezavam aqueles vizinhos que eram seus inimigos, olhavam com simpatia para outros povos, como o Egito no oeste e como a gente do vale do Indo, no leste. A Mesopotâmia, de fato, pode ter mesmo representado um importante papel no crescimento dessas duas civilizações.

No caso do Egito, a influência mesopotâmica patenteia-se no uso de selos cilíndricos e em certos motivos da arte. É evidente na arquitetura egípcia, notando-se que algumas de suas obras são construídas de tijolos com o tamanho e a forma peculiares da primeira fase mesopotâmica e são ornamentadas com pilastras de reforço semelhantes às da Suméria. O Egito pode também ter adquirido do seu vizinho oriental a idéia da escrita, embora os hieróglifos de um e os pictógrafos do outro sejam inteiramente diversos.

Mais ao leste, a cultura do vale do Indo, parece ter tido fortes laços comerciais com a Suméria - numerosos selos típicos do Indo foram encontrados nas ruínas mesopotâmicas. O povo do Indo habitava uma área maior que a Mesopotâmia e o Egito combinados, e floresceu mais ou menos entre 2.500 e 1.500 a.C. A sua cultura era também urbana. Passando da lavoura à criação de gado, esse povo formou artífices e artesãos, comerciantes e administradores. Suas casas eram construídas com tijolos de fino acabamento, cujas dimensões uniformes atestam uma padronização de pesos e medidas.

Fato mais importante: os mesopotâmicos tinham uma linguagem escrita, um sistema pictográfico que abrangia cerca de 400 caracteres. Como as duas culturas são similares nesses aspectos e se conheciam, parece lógico supor que a cultura mais velha da Suméria influenciou a mais jovem do Indo. Entre a Índia e a Mesopotâmia situa-se outra região cujo débito à cultura mesopotâmica é mais fácil de traçar. O Irã, ou Pérsia, fazia fronteira se com a Mesopotâmia e naturalmente estava em íntimo contato com ela. De acordo com uma narrativa sumeriana, a cidade-estado iraniana de Aratta teve organização política e crenças religiosas quase idênticas às da Suméria. De igual modo, o antigo reino iraniano de Elam, a despeito de constantes e renhidas lutas armadas com a Suméria, foi ainda assim profundamente influenciado por esta. A arte e a arquitetura dos elamitas, como também as suas leis, a sua literatura e religião, eram mesopotâmicas em muitos aspectos - uma das principais deidades do Elam tinha mesmo um nome sumeriano. Os elamitas também adotaram a escrita cuneiforme da Mesopotâmia, como ainda o seu sistema de educação e muito do seu currículo educacional.

Mas a influência da Mesopotâmia sobre os seus contemporâneos no Egito, Irã e Índia, embora tenha sido inspiradora, foi de pouca duração. Coisa curiosa, foi no Ocidente, e não na terra dos povos vizinhos, que mais se enraizou a sua semente. A visão racional, positiva, pragmática, do homem ocidental tem similitude com a concepção mesopotâmica do mundo. Transfigurados pelos hebreus monoteístas, transmudados pelos filósofos gregos, os conceitos mesopotâmicos impregnaram a consciência ocidental e são responsáveis, em muito, pela agitada história de tensão vivida pelo homem do ocidente, entre razão e fé, esperança e desespero, liberdade e autoritarismo, progresso e derrota.

O impacto da Mesopotâmia sobre os hebreus foi tanto direto como indireto. Se, como pensam alguns estudiosos, a narrativa bíblica contém um pouco de verdade, e se o patriarca hebreu vivia em Ur no tempo de Hamurábi, nesse caso ele e sua família podem ter assimilado a cultura sumeriana muito antes de os judeus se constituírem numa nação. Parece claro que os ancestrais dos hebreus viveram na Mesopotâmia desde tempos bem recuados no tempo.

Documentos cuneiformes, cujas datas vão desde 1700 a 1300 a.C., mencionam com freqüência um povo chamado Habiru, nome com afinidade bem próxima com a palavra bíblica "hebreus". Segundo tais textos, os hebreus eram erradios, nômades, mesmo salteadores e proscritos, que vendiam seus serviços como mercenários aos babilônios e assírios, hititas e hurrianos. Já em 1500 a.C. esses ancestrais do Judeu Errante encetavam a conquista da Palestina. Entraram em contato com os cananeus, um povo que assimilou muito da Mesopotâmia. Os cananeus tinham uma escrita cuneiforme, suas escolas adotavam o currículo mesopotâmicos e a sua cultura estava profundamente imbuída das idéias e da fé criadas na "terra entre os rios".

O contato mais importante dos hebreus com a cultura mesopotâmica principiou no ano 586 a.C. quando o rei Nebuchadrezzar destruiu Jerusalém e levou o seu povo para o cativeiro em Babilônia. A instrução e os grandes conhecimentos dos babilônios impregnaram a mente e o pensamento dos hebreus. Quando, depois, os exilados voltaram à sua terra para formar o estado judaico, trouxeram consigo muitas das práticas litúrgicas, educacionais e legais da Mesopotâmia. Algumas delas foram introduzidas no cristianismo e, por intermédio da tradição judaico-cristã, penetraram na civilização ocidental.

O segundo povo que absorveu a cultura mesopotâmica e a canalizou para o Ocidente foram os gregos. Ao contrário dos hebreus, não tiveram eles contato direto com a Mesopotâmia, mas, durante a idade micênica da Grécia, desde cerca de 1600 a 1100 a.C., mantiveram íntimos laços políticos e comerciais com os vizinhos da Mesopotâmia, os hititas e os cananeus. Por todas as cidades litorâneas da Anatólia meridional e Canaã, Chipre e Creta, circulavam não só mercadorias mas também pensamentos e idéias - que indubitavelmente mergulharam raízes na terra grega. O fato de se haver descoberto, na cidade grega de Tebas, ainda recentemente, um depósito secreto de selos babilônicos, não chegou a causar muita surpresa aos arqueólogos e sem dúvida o futuro revelará no solo helênico muitos outros achados de tal espécie. Este primeiro contato com o Oriente Próximo encerrou-se quando entrou em colapso a cultura micênica. E só no século VIII a.C., quando os gregos começaram a emergir do seu tempo obscuro" é que voltaram eles a receber estímulo e inspiração dos seus vizinhos orientais. Durante esse último período os fenícios de Cananéia deram aos gregos o alfabeto que posteriormente se tornou o de todo o mundo ocidental. No curso dessa fase, também, os filósofos gregos pré-socráticos na Anatólia descobriram as obras dos astrólogos babilônicos e deram início aos grandes estudos filosóficos de Atenas. Quando, no século V a.C ., a Grécia entrou em sua Idade de Ouro, diversas das suas criações na arte, na arquitetura, na filosofia e nas letras apresentaram vestígios de origem mesopotâmica.

Avançando para o Ocidente, pelos canais do helenismo, do judaísmo e do cristianismo, o legado da Mesopotâmia à humanidade atingiu finalmente o mundo moderno. Em tecnologia, esse legado inclui milagres prosaicos tais como o veículo de rodas e o arado. Na ciência, incluiu as primeiras noções de astronomia e o sistema numérico baseado em 60 - sistema ainda em uso atualmente, dividindo o círculo em graus e a hora em minutos e segundos.

As observações astronômicas da Mesopotâmia permitiram que fossem afinal descobertos os equinócios das estações e a regularidade das fases da Lua; o complemento pseudocientífico da astronomia, a astrologia, revelou através das suas interpretações do "escrito no céu" as relações fixas das estrelas. Foi a Mesopotâmia. que criou as designações pelas quais até hoje são conhecidos os signos do zodíaco Touro, Gêmeos, Leão, Escorpião c outros.

A Mesopotâmia também deu à civilização ocidental duas das suas mais importantes instituições políticas - a cidade-estado e o conceito de uma realeza por direito divino. A cidade-estado espaIhou-se por grande parte do mundo mediterrâneo e a realeza - a noção de que a autoridade real fora concedida pelos deuses e só a eles o seu detentor devia prestar conta - infiltrou-se profundamente na sociedade ocidental. Não é só por mera coincidência que os monarcas britânicos de hoje são consagrados em cerimônias de coroação que lembram as da Mesopotâmia. Nem pode ser obra do acaso a semelhança entre as atividades que exercem habitualmente os chefes de Estado do nosso tempo e as que são registradas nos mais velhos arquivos dos reis mesopotâmicos. Por meio de burocratas altamente eficazes, que empregavam bem desenvolvidos sistemas de escrituração e contabilidade, os governantes da Mesopotâmia administravam a construção e a conservação de estradas, a edificação de hospedarias para os viajantes, a navegação mercante dos mares, o arbitramento das disputas políticas e a assinatura de tratados internacionais.

Um dos mais preciosos legados políticos da Mesopotâmia foi a lei escrita. Tendo origem numa tomada de consciência dos direitos individuais ~ estimulada por uma propensão à controvérsia e à demanda – a lei mesopotâmica veio a ser idealizada, sendo concebida como obra de inspiração divina para benefício de toda a sociedade. Palavras provenientes de tradições legais babilônicas e sumerianas aparecem em todo o vasto e heterogêneo corpo de comentários sobre alei hebraica conhecido como o Talmude babilônico. " Até nossos dias", escreveu o estudioso E.A. Speiser, uma das maiores autoridades nos sistemas legais do mundo antigo " o judeu ortodoxo usa um termo sumeriano quando fala de divórcio. E quando lê a lição da Tora na sinagoga ele ainda roça o lugar pertinente ao pergaminho com a fímbria do seu xale de oração, sem nem de longe imaginar que está assim reproduzindo acena na qual o antigo mesopotâmio imprimia a orla da sua veste numa placa de argila, como testemunho da sua obediência aos comandos do texto legal." Provavelmente não será exagero dizer-se que alei mesopotâmica irradiou a sua luz sobre grande parte do mundo civilizado. A Grécia e Roma sofreram a sua influência através de seus contatos com o Oriente Próximo e o Islã só adquiriu um código formal de leis depois de haver conquistado a região que é o Iraque, a terra da antiga Mesopotâmia. Exatamente quantas das leis modernas têm origem que remontam à Mesopotâmia é assunto que ainda não foi determinado, mas o historiador britânico H.W.F. Saggs, no seu livro A Grandeza Que Foi Babilônia, observa que "é quase certo ter a lei sobre hipotecas a sua fonte remota no antigo Oriente Próximo".

Da mesma forma, um opulento conjunto de rituais e de mitos mesopotâmicos, instituídos por um notável grupo de teólogos que viveram 3.000 anos antes do nascimento de Cristo, influenciou profundamente as religiões ocidentais, sobretudo o judaísmo e o cristianismo. A idéia mesopotâmica de que da água nasceram todas as coisas, por exemplo, infiltrou-se na narrativa do Gênesis sobre a criação do mundo, e a noção bíblica de que o homem foi feito de barro e recebeu o "sopro de vida" brotou de raízes mesopotâmicas. Assim também o conceito bíblico de que o homem foi criado primordialmente para servir a Deus e o de que o poder criador da divindade está no Seu Verbo. A idéia de que as catástrofes são castigos celestes por más ações, como a de que a dor e a adversidade devem ser suportadas com paciência, também encontram analogia na Mesopotâmia. Até mesmo a região dos mortos, imaginada pelos mesopotâmios, a sua escura e lúgubre "terra de onde não se volta", tem a sua contrapartida no Sheol dos hebreus e no Hades dos gregos.

Até na atualidade a liturgia judaica está repleta de contribuições babilônicas. O Kol Nidre, o canto judaico recitado nas vésperas do Dia da Inspiração, em penitência pela quebra dos votos, é semelhante às preces que figuravam nas cerimônias mesopotâmicas do Ano Novo. O mesmo quanto à solene descrição do destino humano que é declamada no próprio Dia da Inspiração. Durante o seu exílio em Babilônia os hebreus também adquiriram a crença nos demônios e seu exorcismo, o que sem dúvida explica diversas passagens do Novo Testamento concernentes à expulsão dos espíritos malignos.

Desde os dias do cativeiro em Babilônia, e daí em diante, o judaísmo apresenta um enxame de místicos religiosos com visões apocalípticas sobre o futuro do homem. Por meio desses visionários, diz o eminente orientalista w. F. Albright, "elementos inumeráveis da fantasia pagã e até mitos inteiros entraram na literatura do judaísmo e do cristianismo". Por exemplo, o rito do batismo - diz ele remonta às religiões da Mesopotâmia, como também muitos dos elementos na história da vida de Cristo. Entre estes o Dr. Albright inclui a sua concepção por uma virgem, o seu nascimento relacionado com os astros, e os temas da prisão, da morte, descida aos infernos, o desaparecimento por três dias e posterior ascensão aos céus.

A religião mesopotâmica era, sem dúvida, pagã e politeísta, e portanto um profundo abismo espiritual a separa do monoteísmo judaico e cristão. Além disso, tanto o Velho como o Novo Testamento se impregnam de uma sensibilidade ética e de um fervor moral que não encontram correspondência nos textos mesopotàmicos. Nem a Suméria, nem Babilônia, nem a Assíria jamais chegaram à elevada crença de que o "coração puro" e "mãos limpas" tinham mais valor espiritual do que sacrifícios e rituais esmerados. O vínculo de amor entre Deus e o homem, embora não de todo alheio ao pensamento religioso da Mesopotâmia, decerto é nele de significação muito menor do que no judaísmo e no cristianismo. Todavia, os primitivos mesopotâmios cultivaram o conceito de um deus pessoal e familiar que teve o seu eco na Bíblia com o "deus de Abraão, Isaac e Jacó" - e entre essa divindade protetora e o seu devoto adorador há uma relação íntima, de ternura e confiança, em alguns aspectos, comparável, com a que existiu entre Jeová e os patriarcas.

A literatura da Mesopotâmia, assim como a sua religião e o seu direito, contaminaram também todo o mundo ocidental. Temas que figuram nos capítulos iniciais do Gênesis - a Criação, o Paraíso, o Dilúvio, a rivalidade de Cain e Abel, e a Torre de BabeI - todos têm antecedentes literários na Mesopotâmia. No Livro dos Salmos, muitos dentre eles lembram hinos do culto mesopotâmio, e o Livro das Lamentações copia um dos motes literários mais cultivados pelos escritores mesopotâmicos - na Suméria era comum se comporem lamentações formais sobre a destruição de uma cidade. Nas coleções sumerianas de brocardos, máximas e adágios, há também antecedentes estilísticos para o Livro dos Provérbios. Mesmo ao Cântico dos Cânticos, de Salomão, o livro diferente de quaisquer outros do Velho Testamento pode ser atribuído um precedente da Mesopotâmia, com os cantos de amor do culto sumeriano.

A literatura grega mostra igualmente inumeráveis indícios da influência mesopotâmica. A história mesopotâmica do dilúvio, por exemplo, corresponde na mitologia grega à história de Deucalião, que constrói um barco e nele sobrevive a uma inundação que destrui o resto da humanidade. O tema do combata ao dragão nos mitos mesopotâmicos encontra equivalência em algumas ficções. como as de Jasão e Héracles. os quais mataram diversos monstros.

Pragas lançadas como punição pelos deuses também figuram na mitologia da Grécia e na da Mesopotâmia. E há acentuada semelhança entre o inferno grego; o mesopotâmio, sendo ambos lugares tenebrosos. Separados do reino dos vivos por um rio sinistro que os mortos atravessavam de barca. Da mesma forma elegia para o morto. parece ter o seu prenúncio em duas composições sumerianas. Recentemente traduzidas de uma inscrição no Museu Pushkin de Moscou; nelas, um poeta mesopotâmio pranteia em Linguagem hiperbólica a morte do pai e da esposa. Até a forma da epopéia grega que conduziu à criação da Ilíada e da Odisséia, tem analogia com o estilo dos poemas épicos da Mesopotâmia.

Na área da literatura grega de cunho instrutivo e edificante os estudiosos também descobriram ultimamente uma série de equivalência mesopotâmicas.

Diversas fábulas de Esopo têm similitude com histórias anteriores da Suméria. e as instruções no almanaque do fazendeiro sumeriano. Segundo uma versão do século XVIII a.C.. parecem-se singularmente com as de Trabalhos e Dias, um manual do lavrador composto. cerca de mil anos depois. pelo poeta grego Hesíodo. Diversos diálogos sumerianos estão sendo agora reconstituídos e decifrados, e também estes poderão revelar-se como precursores estilísticos de obras-primas como os Diálogos, de Platão.

Em outro plano. o da música e da teoria musical, a contribuição mesopotâmica é descobrimento ainda bem recente. No entanto, já desde muitos anos os arqueólogos sabiam que a Mesopotâmia tivera instrumentos musicais, particularmente harpas e liras.

Por exemplo. Sir Leonard Woolley, nas suas escavações em Ur. desenterrou os remanescentes de nove liras e duas harpas. E um hino dedicado ao rei Shulgi, de Ur. proclama que o governante sabia tocar a harpa "a doce lira de três cravelhas, (um) instrumento de três cordas que desafoga o coração", e mais uns dez outros instrumentos musicais não identificados. Os músicos cursavam escolas de preparação e constituíam importante classe profissional na Mesopotâmia. tornando-se alguns altos funcionários da corte. Entretanto nada se conhecia sobre a música propriamente dita até há pouco tempo, quando Anne Darffkorn Kilner. da Universidade da Califórnia. uma cuneiformista, e Madame Duchesne-Guillemin. da Universidade de Liege, na Bélgica. uma musicóloga. se reuniram para interpretar o contexto de uma inscrição cuneiforme que por 70 anos havia desafiado os estudiosos.

A chave principal para o texto da inscrição era uma série de números que pareciam referir-se às cordas de um instrumento de nove cordas. Estabelecido este ponto, descobriu-se que os números eram dispostos numa progressão que sugeria a afinação desse instrumento, e também se apurou que outras notações indicavam o que parecia serem os intervalos de uma escala musical. As inscrições nessa placa de argila, que provavelmente data de 1500 a.C. mais ou menos, fazem a história da música e da teoria musical remontar há mais de um milênio antes das primeiras notações musicais da Grécia que se conhecem. É, de fato, o primeiro registro na história de uma escala musical e de um sistema musical coerente.

O muito que já se apurou da contribuição mesopotâmica para a civilização em todos os aspectos ainda constitui ínfima fração da sua totalidade; é como a parte visível de um iceberg. Não se torna fácil pesquisar idéias e técnicas, temas e motivos, através dos tempos, a fim de se chegar ao seu local de origem. Os fios de transmissão, tênues como os de.. uma teia de aranha, muitas vezes escapam ao olhar e ao espírito que os procuram. Sem dúvida novas descobertas virão enriquecer o quadro e trarão certamente muitas surpresas. Mas o futuro poderá tão-só confirmar o que já se patenteia isto é, que a Mesopotâmia, com sua conjugação singularmente feliz de fatores geográficos e gênio humano, criou uma cultura sem precedente. A terra entre o Tigre e o Eufrates será sempre considerada o Berço da Civilização.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Zecharia Sitchin e os deuses Sumérios

Uma das leituras que mais fascina é sobre história antiga. E por ‘antiga’ entenda-se de quatro mil anos para trás. Impossível ler sobre civilizações que surgiram, cresceram e desapareceram sem denotar um mínimo de entusiasmo. Quem foram aquelas pessoas? Como era seu cotidiano? Claro que essas perguntas encontram respostas nos livros de história e nos achados arqueológicos – estelas de argila, inscrições, pergaminhos e papiros, que permitem traçar um esboço desses povos. Assim, temos noção de formas de governo, costumes, religião, comércio, leis e todos os elementos que compunham aquela sociedade.

E a civilização Suméria foi, sem dúvida, a mãe das civilizações da antiguidade e grande influenciadora da evolução do mundo como o conhecemos. A Suméria (Sinar na Bíblia, Sangar no Egito e KI-EN-GIR na língua nativa), que significa “Lugar dos Senhores Civilizados”, é considerada a civilização mais antiga da humanidade, localizava-se na parte sul da Mesopotâmia, posicionada em terrenos conhecidos por sua fertilidade, entre os rios Tigre e Eufrates. Evidências arqueológicas datam o início da civilização suméria em meados do quarto milênio a.C. Entre 3500 e 3000 a.C. houve um florescimento cultural e a Suméria exerceu influência sobre as áreas circunvizinhas, culminando na dinastia de Ágade, fundada em aproximadamente 2340 a.C. por Sargão I, sendo que este, ao que tudo indica, seria de etnia e língua semitas. Depois de 2000 a.C. a Suméria entrou em declínio, sendo absorvida pela Babilônia e pela Assíria.

Duas importantes criações atribuídas aos sumérios são a escrita cuneiforme, que antecede todas as outras formas de escrita, tendo sido originalmente usada por volta de 3500 a.C.; e as cidades-estado – a mais conhecida delas sendo a cidade de Ur, construída por Ur-Nammu, o fundador da terceira dinastia Ur, por volta de 2000 a.C.

Comecei a pesquisa em incontáveis páginas da web e culminei na bibliografia de Zecharia Sitchin, de quem já li uns cinco livros até agora. Zecharia Sitchin nasceu em Baku, Azerbaijão, foi criado na Palestina e adquiriu conhecimentos do hebraico antigo e moderno e outras línguas europeias e semíticas, do Velho Testamento e da história e arqueologia do Oriente e, chamou minha atenção por tocar num outro assunto de meu interesse: a etimologia.

Traduzindo as milenares escritas cuneiformes sumérias, ele defende a tese de que há 400 mil anos os deuses da antiguidade foram astronautas que vieram de outro planeta, chamado Nibiru. Ele chegou a essa conclusão ao traduzir escritas sumérias que diziam ser as primeiras dinastias na Terra constituídas pelos ‘deuses’, ou os AN.UNNA.KI, cuja tradução é “Aqueles Que Do Céu à Terra Vieram”. E a partir daí surge uma profusão de nomes, lugares e acontecimentos que se mesclam e se confundem. Em muitos momentos as deduções encontram um paralelo hollywoodiano, como o fato dos alienígenas virem à Terra para extrair ouro, transformá-lo em pó e pulverizar a atmosfera de Nibiru, que estava se desfazendo.

Sitchin reconstrói uma época pré-diluviana onde deuses realmente andaram entre os homens. Quanto mais eu lia os livros, mais certeza tinha de que esses deuses foram reais. Fica nítido que os grandes ANU, ENKI, ENLIN, NINHURSAG, MARDUK, NABU, INANNA e dezenas de outras ‘divindades’ foram pessoas reais. Homens e mulheres de profundo conhecimento e sabedoria, que ditaram regras para criar uma poderosa civilização. Os atributos metafísicos ou alienígenas ficam por conta da imaginação de Sitchin, que é veementemente rebatido por Michael Heiser, Ph.D. em estudos semíticos e hebreus da Universidade de Wisconsin-Madison.

É nítida a influência dos ‘deuses’ sumérios na Babilônia, Egito, Pérsia, Grécia, etc. Eram seres com amores e desafetos, constituíam família, iravam-se, riam, guerreavam, presenteavam, tinham relações incestuosas e davam pouca atenção aos ‘mortais’. Exatamente como os deuses gregos e egípcios. Daí conclui-se que a similaridade dos deuses antigos entre culturas diferentes é um reflexo ou cópia do panteão sumério. Por exemplo, a história de Inanna (Ishtar, na Babilônia) e sua insaciável libido remete à Afrodite/Vênus. Anu, o deus mais distante e que comandava os outros, é Zeus/Odin. Os irmãos Enki e Enlil são contrapartes egípcias de Ptah e Tot, respectivamente. Marduk é Rá no Egito, mas seu nome babilônico nas escrituras bíblicas é Merodaque.

Os nomes de notórios monarcas da antiguidade também estão intimamente ligados aos nomes dos ‘deuses’ aos quais eles eram devotos. No princípio, dizem os textos sumérios, os reis eram sacerdotes e serviam de interlocutores com a população. Com o tempo, os ‘deuses’ foram ampliando os poderes desses sacerdotes para que pudessem ter autonomia de governo, dando origem às monarquias. Esses reis mantinham em seus nomes o nome da divindade favorita, como no caso dos reis babilônicos Nabupolasar e seu filho Nabucodonosor – ambos com o nome do ‘deus’ NABU nas iniciais, afirmando uma linhagem divina. Essa mesma formação de epítetos ocorre no Egito, no nome do faraó Ramsés (RA-MOSES ou Ra-Ms-S), que significa “Filho do Deus Rá”.

Pela visão dos sumérios, entende-se a criação do horóscopo e notamos que as adivinhações publicadas nos jornais não são nem a sombra da ciência de observação astronômica da antiguidade. Para os sumérios (ou os Anunnaki), havia diferença entre Destino e Sorte. O Destino era tudo o que se podia prever – como a movimentação dos corpos celestes, o dia depois da noite, as estações do ano e tudo o que mantinha um movimento constante. A Sorte eram os acontecimentos que estavam além da capacidade de previsão dos próprios ‘deuses’ – os imprevistos. Assim, os sumérios sabiam que em determinada época do ano uma constelação seria vista no céu; mas não podiam dizer se alguém morreria nesse período. Parece idiota aos olhos do século XXI, mas pense nisso há seis ou sete mil anos atrás.

Surpreendeu-me, também, descobrir que ainda hoje temos influência suméria em nosso vocabulário. Por exemplo, a palavra suméria E.DIN é traduzida como a “Morada dos Justos” (de onde pode ter derivado a palavra bíblica Éden). A região de E.DIN ficava entre os rios Tigre e Eufrates, local que viria a ser conhecido depois como Mesopotâmia. É lá que se encontram os picos gêmeos do monte Arrata (Ararat). Foi em E.DIN que a primeira cidade, E.RI.DU (“Lar na Lonjura”), estabeleceu-se. O nome ‘Eridu’ foi traduzido para muitos idiomas do mundo, incluindo alemão (Erde), inglês médio (Erthe), curdo (Ertz) e hebreu (Eretz). A palavra acabou por se tornar o que em inglês atual conhecemos como Earth (Terra).

Como E.RI.DU era o nome de uma cidade-estado, os sumérios tinham outra palavra para designar o planeta Terra, que era Ki (o mesmo significado do ‘ki’ de An.unna.ki). Em acadiano, Ki tornou-se Gi (ou Ge) – de onde saiu a palavra Geo (de geografia, geologia, etc.). Mais tarde, os indo-europeus acrescentaram a palavra ‘Aia’, que significa “avó”, e daí surgiu a palavra Gaia, a “Avó-Terra”, mas que alguns antropologistas preferiram traduzir como “Mãe-Terra”.

Outra palavra suméria que usamos até hoje e que sofreu pouca alteração ao longo dos milênios é “mãe” ou “mamãe”, que deriva das palavras Mamma, Mammi ou Mami, as quais, por sua vez, são outros nomes utilizados para se referir à ‘deusa-mãe’ Ninhursag (“Senhora da Montanha”), associada à fertilidade.

Em seu livro Encontros Divinos, Sitchin faz uma descrição de inúmeros relatos registrando o encontro entre homens e ‘deuses’. Ele começa traçando um perfil de como eram esses encontros e como eles interferiam no cotidiano das pessoas, sempre pendendo para a teoria extraterrestre. Porém, Sitchin começa a enveredar por outros caminhos no último capítulo e decide traçar um paralelo entre todos os deuses sumérios e o Deus dos hebreus, no Velho Testamento. O propósito é identificar qual dos deuses sumérios seria o Deus descrito na Bíblia, então ele compara um a um buscando similaridades na personalidade, nos diálogos, nos feitos e nos milagres.

E só então um novo elemento nos é apresentado. Os poderosos ‘deuses’ da Suméria, quando viam seus planos frustrados ou quando enfrentavam algum imprevisto, reconheciam suas limitações e atribuíam esses acontecimentos a quem chamavam de “O Criador de Todas as Coisas” (cujo poder controlava tanto a Sorte quanto o Destino). Ou seja, os ‘deuses’ possuíam um Deus. Não encontrando paralelo no panteão sumério, Sitchin admite que o Deus bíblico é, de fato, o Criador de Todas as Coisas.

Essa informação é esclarecedora para os primeiros capítulos do Velho Testamento, ao visualizarmos a dificuldade e resistência que Abraão, Moisés e os outros patriarcas enfrentaram ao tentar difundir a Palavra de um Deus invisível para povos acostumados a ‘deuses’ que viviam entre eles, tinham esposas e filhos – algumas daquelas pessoas podiam até mesmo ser descendentes desses ‘deuses’.