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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quem foi o verdadeiro Pôncio Pilatos?

 

O prefeito romano, conhecido pelos cristãos como o responsável pela morte de Jesus, é uma das poucas figuras do Novo Testamento a aparecer no registro arqueológico.

Ele é o único oficial romano e pessoa não cristã mencionado nos credos cristãos: todas as semanas, em igrejas ao redor do mundo, milhões recitam que Jesus “sofreu sob o poder de Pôncio Pilatos”. É um detalhe impressionante. Não há reis, imperadores ou apóstolos no Credo Niceno ou no Credo dos Apóstolos, mas há Pilatos.

Que Jesus de Nazaré foi executado sob o comando de Pilatos, o 5º prefeito da província romana da Judeia, está entre os fatos mais seguros do cristianismo primitivo; é atestado não apenas nos Evangelhos, mas também pelo historiador romano Tácito em seus Anais. No entanto, o próprio homem permanece enigmático. Era ele o juiz relutante da imaginação cristã, que foi forçado a executar um inocente e lavou as mãos da responsabilidade? Ou era ele o brutal executor imperial descrito por escritores judeus?

O que as evidências arqueológicas e literárias revelam é um homem que esteve ativamente, ainda que insensivelmente, envolvido na vida administrativa e econômica da Judeia, e cuja subestimação da piedade religiosa judaica levou à sua eventual remoção do poder.

Pilatos, o burocrata "teimoso"

Pôncio Pilatos assumiu o cargo de prefeito por volta de 26 d.C. e permaneceu nessa posição até pouco antes da morte do imperador Tibério, em 37 d.C. Em suas funções oficiais, ele era responsável por manter a lei e a ordem, supervisionar processos judiciais (especialmente os de natureza capital), arrecadar impostos e supervisionar a cunhagem de moedas.

Ao contrário de muitas figuras associadas ao Novo Testamento, a existência real de Pilatos não é posta em dúvida. Em 1961, arqueólogos descobriram uma inscrição em calcário em Cesareia Marítima — um importante porto romano na costa do Mediterrâneo, no que hoje é Israel — nomeando “Pôncio Pilatos” como “prefeito da Judeia”. A pedra fazia originalmente parte de um edifício público dedicado a Tibério. A descoberta fornece evidências do século I para a posição histórica de Pilatos. Além da chamada “pedra de Pilatos”, ele é mencionado em escritos históricos e filosóficos judaicos; em moedas de bronze cunhadas durante seu mandato; e possivelmente em um anel de sinete rudimentar de Heródio, a sudeste de Jerusalém, que traz a inscrição “Pilato”.

Além disso, o retrato literário mais antigo de Pilatos que sobreviveu até nós não provém de fontes cristãs, mas sim do filósofo judeu Filo de Alexandria, do século I d.C. Em " Embaixada a Caio" , uma defesa das práticas religiosas judaicas dirigida ao imperador Calígula (cujo nome formal era Caio Júlio César), Filo descreveu Pilatos como "inflexível, obstinado e cruel". Filo relatou como o governador instalou escudos dourados no palácio de Herodes, em Jerusalém, que foram dedicados ao imperador. 

Embora não houvesse imagens idólatras nos escudos, Filo sugere que a inscrição violava as sensibilidades religiosas judaicas, provavelmente por descrever Tibério como o "filho do divino Augusto" ou como o " pontífice máximo " (sumo sacerdote). Para os judeus da Antiguidade, a presença de imagens religiosas pagãs, efígies ou outras formas percebidas de idolatria em Jerusalém, a cidade santa, constituía uma violação da lei judaica. Segundo Filo, os líderes judeus apelaram diretamente a Tibério, que ordenou a sua remoção.

O historiador judeu Flávio Josefo retrata Pilatos de forma semelhante como religiosamente insensível, particularmente em comparação com outros governadores romanos. Em um episódio, Pilatos permitiu que suas tropas levassem estandartes militares com imagens imperiais para Jerusalém sob a proteção da noite — algo que os prefeitos anteriores haviam evitado completamente para respeitar as sensibilidades religiosas judaicas em relação à idolatria. Josefo explica que a lei judaica “proíbe a confecção de imagens” e que os estandartes militares violavam essa proibição. A medida provocou protestos generalizados, com relatos de manifestantes expondo seus pescoços e proclamando sua disposição de morrer a aceitar a violação. Pilatos acabou cedendo.

Essa retirada pode ser interpretada não como fraqueza, mas como evidência de um administrador pragmático que reconheceu os riscos de derramamento de sangue desnecessário, observa Helen Bond, professora de Origens Cristãs na Universidade de Edimburgo. Como Bond observa em seu livro, Pôncio Pilatos na História e Interpretação, a Judeia havia passado recentemente para o controle romano quando Pilatos assumiu o cargo — e ele era responsável por impor a autoridade romana sobre uma população ainda inquieta. O fato de ele ter permanecido no cargo por 10 anos sugere certo grau de competência administrativa, incluindo a capacidade de negociar e gerenciar tensões locais.

Contudo, após uma década no cargo, Pilatos foi deposto na sequência de um incidente violento no Monte Gerizim, onde reprimiu uma reunião samaritana. Segundo Flávio Josefo, queixas de delegações judaicas e samaritanas levaram Vitélio, governador da Síria, a enviar Pilatos a Roma para prestar contas de sua conduta perante Tibério. Mas, quando o prefeito chegou à capital, o imperador já havia falecido. O que aconteceu a seguir não é claro; sabemos apenas que o governo de Pilatos terminou em desgraça.

O julgamento de Jesus

Nesse contexto se desenrola o julgamento mais famoso da história religiosa. Os quatro Evangelhos narram que Jesus foi levado perante Pilatos durante a Páscoa e acusado de reivindicar a realeza — uma grave acusação política aos olhos romanos. A representação de Pilatos nos Evangelhos varia do pragmático (em Marcos, ele oferece a Jesus a liberdade, mas cede à pressão da multidão) ao levemente simpático (em Lucas, Pilatos afirma a inocência de Jesus antes de entregá-lo a Herodes para julgamento). 

Bond argumenta que essas diferentes representações revelam menos sobre o Pilatos histórico do que sobre as preocupações teológicas e políticas dos autores dos Evangelhos. Legalmente, somente Pilatos tinha autoridade para impor a pena de morte. Historicamente, portanto, deve ter sido Pilatos quem condenou Jesus à morte. Mesmo assim, a decisão de Pilatos de executar Jesus requer pouca explicação histórica — como Bond observa, qualquer figura carismática que atraísse seguidores como o “Rei dos Judeus” (especialmente durante o período politicamente tenso da Páscoa) provavelmente chamaria a atenção do prefeito.

De prefeito a arquivilão

Após ser destituído do cargo pelo governador sírio Vitélio, Pilatos desaparece dos registros históricos. Tradições romanas e cristãs posteriores o retrataram como "aquele que matou Jesus" e descreveram seu suposto castigo por seu papel na morte de Jesus — seja por execução, exílio na Andaluzia ou na Escócia, ou suicídio. (Em um texto conhecido como Mors Pilati, por exemplo, Pilatos é retratado tirando a própria vida; seu corpo é lançado no Tibre, mas tempestades e atividades demoníacas forçam sua remoção do rio e seu novo sepultamento perto do Lago Lucerna, na Suíça.)

Ainda assim, alguns teólogos posteriores tiveram piedade de Pilatos e lhe atribuíram um destino mais feliz, sugerindo que o prefeito se converteu ao cristianismo e alcançou o martírio. Uma versão siríaca dos Atos de Pilatos descreve sua execução em termos que enfatizam o favor divino, enquanto o Martírio de Pilatos , influente nas tradições coptas, árabes e etíopes, o apresenta como um mártir crucificado na mesma cruz que Jesus e sepultado perto do túmulo de Cristo. E em algumas tradições cristãs orientais, tanto Pilatos quanto sua esposa foram venerados como santos durante séculos.

Essas histórias refletem uma suposição comum no pensamento cristão primitivo: a de que qualquer encontro com Jesus seria transformador. Historicamente falando, porém, a interação de Pilatos com Jesus provavelmente foi breve — e, de sua perspectiva, certamente banal. Mas, a partir daquele único julgamento, o lugar do prefeito na história mudou para sempre.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Herodes, o Grande: Sua Ascensão, Governo e Legado Brutal


Poucas figuras da história antiga evocam tanta fascinação e vilania quanto Herodes, o Grande, o "Rei dos Judeus" nomeado pelos romanos. Baseando-se amplamente nas obras do historiador do século I, Flávio Josefo, os historiadores reconstruíram o retrato de Herodes, um homem que era tanto um mestre da política quanto um déspota temido.

Neste artigo, explorarei a vida, o reinado e o legado duradouro de Herodes, o Grande — um governante cuja grandeza não era medida pela virtude, mas pela visão, pelo poder e pelo temor.

Todos esses Herodes!

Embora Herodes, o Grande, tenha um papel pequeno, mas crucial, no Novo Testamento (falaremos mais sobre isso adiante), só temos informações realmente completas sobre ele por meio de uma outra fonte principal: o historiador judeu do século I, Flávio Josefo. Baseando sua história de Herodes na obra histórica de Nicolau de Damasco, secretário pessoal de Herodes — obra da qual só temos fragmentos —, Josefo escreve sobre a vida de Herodes em Antiguidades Judaicas, especificamente nos livros 15, 16 e 17. Ele também aborda brevemente os feitos militares e políticos de Herodes em A Guerra Judaica, livros 1 e 2.

Segundo Flávio Josefo — e estudiosos como Andrew Steinmann, em sua obra Ancient Israel: From Abraham to the Roman Destruction of the Temple, geralmente concordam com ele — Herodes nasceu em 72 a.C. na Idumeia, uma terra ao sul da Judeia que antes era chamada de Edom , e cujo povo era conhecido como edomitas. Em Gênesis 36, os edomitas são descritos como descendentes de Esaú, filho de Isaque e irmão de Jacó. "Idumeia", portanto, era a versão grega do nome Edom, enquanto o povo, incluindo Herodes, era chamado em grego de idumeus.

O pai de Herodes, Antípatro, ocupava algum tipo de cargo oficial de alto status na corte do rei hasmoneu Hircano II. Os hasmoneus eram a dinastia judaica governante da Judeia (embora dentro do Império Selêucida grego) de 141 a.C. a 37 a.C. Portanto, embora Antípatro não fosse, propriamente falando, um hasmoneu, ele tinha ligações estreitas com eles.

A mãe de Herodes, Cipros, era uma princesa do povo nabateu da cidade de Petra (atual Jordânia). Os nabateus eram um antigo povo árabe. Embora Flávio Josefo não nos conte nada significativo sobre a infância de Herodes, podemos inferir que, como filho de uma princesa e de um alto funcionário da corte real, ele viveu uma vida muito privilegiada. Contudo, mesmo que nenhum dos pais de Herodes fosse tecnicamente judeu, sabemos que um líder hasmoneu e sumo sacerdote anterior, João Hircano, havia conquistado a Idumeia e forçado seus cidadãos a se converterem ao judaísmo. Por essa razão, Herodes foi criado como judeu.

Em 63 a.C., o general romano Pompeu conquistou Jerusalém e a transformou em um estado cliente. Ou seja, Roma permitia que governantes judeus locais administrassem os assuntos cotidianos do Estado na Judeia, mas Roma permanecia como a autoridade militar e política dominante. Hircano II, sob o qual o pai de Herodes serviu, foi brevemente o primeiro rei cliente da Judeia em nome de Roma. Portanto, a família de Herodes também tinha ligações com Roma.

Josefo retoma a história da vida de Herodes quando este tinha cerca de 25 anos. De acordo com as Antiguidades Judaicas, o pai de Herodes tinha fortes ligações com o ditador romano Júlio César, que governou de 44 a 49 a.C. Antípatro foi, portanto, encarregado dos assuntos políticos da Judeia por Hircano II. Devido a essa ligação com César, em 47 a.C., o jovem Herodes foi nomeado governador da Galileia, a região mais ao norte da Palestina e a terra natal de Jesus e seus discípulos. Josefo reconhece que Herodes era jovem para o cargo (ele afirma, inclusive, que Herodes tinha apenas 15 anos, mas a maioria dos estudiosos duvida disso).

"Mas sua juventude não lhe representou um impedimento; como era um jovem de grande intelecto, logo teve a oportunidade de demonstrar sua coragem. Ao descobrir que havia um certo Ezequias, capitão de um bando de ladrões que invadia as regiões vizinhas da Síria com um grande grupo de homens, ele o capturou e o matou, assim como muitos outros ladrões que estavam com ele."
(Antiguidades Judaicas, 14.9.2)

Josefo prossegue escrevendo que a derrota desses bandidos tornou Herodes popular, não apenas na região que governava, mas também entre seus senhores romanos. Foi então que Herodes, sempre um grande articulador, desenvolveu um bom relacionamento com o governador da Síria, que o nomeou governador de duas regiões da Síria romana: a Celesíria e a Samaria.

Em 41 a.C., Herodes e seu irmão Fasael foram nomeados tetrarcas, corregentes sob o então rei da Judeia, Hircano II. Contudo, apenas um ano depois, o sobrinho de Hircano, Antígono, deu um golpe de estado e tomou o trono, destituindo não só Hircano II, mas também Herodes e seu irmão. Herodes fugiu para Roma e pediu ajuda romana para reinstalar Hircano II como rei. Entretanto, enquanto estava em Roma, Herodes, que era conhecido por ter servido bem a Roma na Judeia, foi nomeado Rei dos Judeus pelo Senado Romano. Isso praticamente lhe garantiu o apoio romano necessário para depor Antígono e assumir o trono.

Assim começou uma guerra pelo trono da Judeia, que durou vários anos. Durante essa campanha, Herodes, que já era casado e tinha um filho, casou-se com Mariamne, neta de Hircano II. Este foi claramente um casamento político, realizado unicamente para legitimar sua reivindicação ao trono. Com isso, ele mandou banir sua primeira esposa e seu filho.

Josefo escreve que, em 37 a.C., Herodes e o governador da Síria da época reuniram um grande exército, aparentemente a pedido do general e político romano Marco Antônio, e entraram em Jerusalém. Conquistaram a cidade e capturaram Antígono, que foi enviado a Marco Antônio para ser executado.

Este evento marcou uma importante virada na vida de Herodes e na história judaica: o fim da dinastia Hasmoneia e o início da dinastia Herodiana. O rei Herodes, o Grande, governaria a Judeia como rei cliente de Roma por mais de três décadas . Posteriormente, membros de sua família, incluindo seu filho Herodes Antipas e seu neto Herodes Agripa, também governariam em Israel.

Herodes, Rei da Judeia (37 a.C.-4 d.C.)

Por meio de sua nomeação como Rei dos Judeus pelos romanos e sua conquista do usurpador Antígono da dinastia Hasmoneia, Herodes tornou-se o único rei cliente da província da Judeia para Roma. No entanto, como todos os reis, Herodes enfrentou alguns desafios difíceis.

Um dos maiores desafios viria de sua sogra, Alexandra. Sua filha, Mariamne, havia sido dada em casamento a Herodes sob o entendimento de que ele ajudaria a restaurar a dinastia Hasmoneia. Contudo, logo após a conquista de Jerusalém por Herodes, ficou evidente para Alexandra que ele não tinha nenhuma intenção de fazer isso.

Marco Antônio, prestes a se envolver em uma guerra civil pelo domínio do Império Romano após o assassinato de Júlio César, havia se casado recentemente com Cleópatra do Egito para unir forças com ela e se tornar o próximo governante romano. Alexandra, portanto, procurou Cleópatra, pedindo-lhe ajuda para instalar seu filho, Aristóbulo III, irmão de Mariamne, que tinha apenas 17 anos na época, como Sumo Sacerdote em Jerusalém. Embora Sumo Sacerdote fosse obviamente um cargo religioso, também era uma posição de poder que frequentemente levava ao trono. Hircano II, por exemplo, havia sido Sumo Sacerdote antes de se tornar rei.

Cleópatra, por sua vez, disse a Alexandra para levar Aristóbulo a Marco Antônio e pedir sua ajuda diretamente. Herodes, ao saber disso e temendo que Marco Antônio colocasse Aristóbulo no trono da Judeia, começou a enviar espiões para seguir Alexandra e Aristóbulo. Pouco depois, enquanto Aristóbulo se banhava no palácio de Jericó, Herodes o mandou afogar. Mais tarde, ele também mandaria matar sua esposa Mariamne e Alexandra.

Entretanto, a guerra civil romana entre Marco Antônio e Otaviano havia começado, e Herodes teve que escolher um lado. Tendo tido uma ligação anterior com Marco Antônio, ele optou por apoiá-lo, apenas para ver Marco Antônio perder a batalha final em Ácio, em 31 a.C. Herodes havia apostado no cavalo errado.

Otaviano tornou-se então César Augusto, o primeiro verdadeiro imperador romano. Herodes procurou desesperadamente criar laços com ele para manter seu trono. Eventualmente, conseguiu convencer Augusto de que, se lhe fosse permitido permanecer como rei da Judeia, permaneceria leal a Roma. Com a aceitação do acordo por Augusto, Herodes tornou-se um governante (em grande parte) autônomo da Judeia. Contanto que nada acontecesse para desafiar a riqueza ou o poder de Roma, Herodes poderia governar como bem entendesse.

Curiosamente, Flávio Josefo descreve o governo de Herodes como geralmente bom, minimizando as brutalidades que ele infligiu aos seus súditos e até mesmo à sua própria família. No entanto, Cohen observa que, nas Antiguidades Judaicas, Josefo escreve claramente sobre táticas opressivas que muitos hoje acreditam terem caracterizado o reinado de Herodes.

Cohen prossegue escrevendo que Herodes reprimiu agressivamente a dissidência, proibindo protestos e frequentemente matando qualquer um que se opusesse a ele. Em " O Exército de Herodes, o Grande" , Samuel Rocca escreve que Herodes era conhecido por ser extremamente paranoico, chegando a usar 2.000 soldados como seus guarda-costas pessoais. Essa paranoia e crueldade se encaixam bem com a história de Herodes no Novo Testamento, geralmente chamada de Massacre dos Inocentes.

Rei Herodes no Novo Testamento

Em Mateus 2, depois que os magos visitaram sua corte e lhe perguntaram sobre o paradeiro do recém-nascido "Rei dos Judeus" — o mesmo título que Roma lhe dera —, Herodes mentiu para eles, dizendo-lhes para encontrarem a criança e lhe relatarem o ocorrido para que ele também pudesse adorá-la. No entanto, quando os magos não retornaram, Herodes ficou furioso:

"Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e mandou matar todas as crianças de dois anos para baixo que havia em Belém e nos arredores, de acordo com o tempo que havia apurado com os magos."
(Mateus 2:16)

Embora a brutalidade de Herodes torne essa história plausível, estudiosos há muito duvidam de sua veracidade histórica por alguns motivos . Em primeiro lugar, se Herodes tivesse cometido esse ato horrível, por que ninguém mais o teria mencionado? Não apenas os outros Evangelhos não dizem nada sobre esse incidente, como também Flávio Josefo. Uma crueldade tão monumental certamente teria sido registrada por diversas fontes.

Além disso, a história se encaixa perfeitamente com o propósito subjacente à representação de Jesus em Mateus. L. Michael White escreve que, em Mateus, Jesus é retratado como "o novo Moisés, esclarecendo e até mesmo modificando a lei de Moisés". Sabendo disso, a história do Massacre dos Inocentes apresenta uma semelhança notável com a história da infância de Moisés em Êxodo 1, quando o faraó ordena que todos os bebês israelitas do sexo masculino sejam mortos, enquanto Moisés escapa milagrosamente.

Aliás, este é o único exemplo do envolvimento de Herodes, o Grande, na Bíblia. Todas as outras referências a Herodes no Novo Testamento dizem respeito a seu filho, Herodes Antipas, que governou durante a vida de Jesus.

Projetos de construção de Herodes, o Grande

O rei Herodes não recebeu o título de "Herodes, o Grande" por ser amigável. Em vez disso, sua "grandeza" deriva dos projetos de construção monumentais que realizou . Aqui estão alguns deles.

Por volta de 19 a.C., Herodes iniciou uma expansão massiva do Complexo do Templo em Jerusalém, eventualmente dobrando seu tamanho até ocupar cerca de 450 acres. Shaye Cohen destaca que as construções de Herodes, como seu palácio em Cesareia Marítima, foram erguidas com tecnologia impressionante para a época, incluindo o uso de cimento hidráulico e até mesmo construção subaquática.

Herodes também construiu diversas fortalezas impressionantes, incluindo Massada, Heródio, Alexandrium, Hircânia e Maqueronte. Embora fossem locais monumentais, alguns dos quais, como Massada, ainda podem ser vistos hoje, ele os construiu principalmente para si e sua família, em caso de uma insurreição em massa contra ele. Ele chegou a construir uma cidade inteira, Sebaste, projetada especificamente para atrair os pagãos de língua grega da Judeia.

Infelizmente, para cobrir os custos de projetos de construção tão massivos, Herodes tributou impiedosamente o povo da Judeia. No entanto, Henk Jagersma também destaca que, durante uma grave fome em 25 d.C., Herodes usou seus próprios recursos para alimentar seu povo.

Herodes morreu em 4 a.C., por volta da época do nascimento de Jesus, na cidade de Jericó. Ele contraiu algum tipo de doença que, segundo Flávio Josefo, fez seu corpo começar a apodrecer. Não há informações suficientes para que os estudiosos saibam qual foi essa doença, mas Josefo nos conta que, desde então, ela ficou conhecida como "o Mal de Herodes".

Ele também afirma que a dor da doença era tão terrível que Herodes tentou cometer suicídio, mas foi impedido por um parente. Por fim, Josefo diz que Herodes temia que ninguém o lamentasse, uma preocupação válida. Portanto, ele ordenou que seus familiares matassem um grande número de seus súditos mais conhecidos após sua morte, acreditando que o luto generalizado por eles compensaria a falta de pessoas que lamentassem a sua própria morte. Felizmente, sabemos que sua família não fez isso.

Conclusão

Herodes, o Grande, foi um governante influente, ainda que nem sempre benevolente. Nascido no século I a.C. em uma família idumeia de alta posição, tornou-se governador da Galileia ainda na casa dos 20 anos. Através de sua rede de contatos e de uma campanha bem-sucedida contra bandidos, Roma expandiu seus poderes para incluir outros territórios. Posteriormente, tornou-se tetrarca da Judeia, ocupando uma posição hierárquica logo abaixo do rei Hircano II em status e poder.

Após uma série de reviravoltas, Herodes foi nomeado Rei da Judeia por Roma. Depois de conquistar Jerusalém, governou a Judeia por décadas. Seu reinado, porém, foi marcado pela brutal repressão à dissidência e por impressionantes projetos de construção. Ele jamais será esquecido, o que certamente era o objetivo de suas inúmeras obras, mas também jamais saberá o quão terrível é sua imagem perante a história.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

“Mar Vermelho": A travessia que nunca existiu...


A base para sustentar isso é um arquivo em PPS intitulado “A travessia do Mar Vermelho. Vejamos quem é Wyatt, que lhe serve de apoio: Ronald Eldon Wyatt (1933 - 4 de agosto de 1999) foi um arqueólogo amador contestado por suas supostas descobertas arqueológicas à respeito de localidades bíblicas. Contudo, o único objeto arqueológico aceito ter pertencido ao templo de Salomão, o "Pomo de Marfim", foi encontrado por ele. Entretanto, ele afirmava ter encontrado a verdadeira Arca de Noé, a Rota do Êxodo e as cidades de Sodoma e Gomorra.

Pelo que se vê, faltam-lhe credenciais técnicas para se lançar a uma arqueologia séria; como “amador” não possuía know-how para ser levado em conta, o que, provavelmente, foi um dos motivos pelos quais nunca foi reconhecido pelos especialistas da área.

Quem foi Ron Wyatt?

Ron Wyatt faleceu, infelizmente, em 4 de agosto de 1999 num hospital do Memphis (Estados Unidos) depois de batalhar contra o câncer por vários meses. Esteve rodeado por sua família e amigos durante suas horas finais.

Ron Wyatt era Adventista do Sétimo Dia e ficou famoso por seu descobrimento da Arca de Noé, no sítio do navio encontrado na Região do Monte Ararat da Turquia, a muitos pés acima do nível do mar. Através dos anos, Ron continuou escavando distintos sítios arqueológicos, que atestam que as histórias narradas no Antigo e Novo Testamento da Bíblia são verdadeiras.

Entre seus achados figuram o descobrimento dos restos da Sodoma e Gomorra; o lugar do cruzamento dos israelitas pelo Mar Vermelho durante o êxodo, apoiado com um vídeo que mostra partes de carruagens do exército do Faraó sob o mar, e colunas eretas pelo rei Salomão, 400 anos depois, para comemorar o feito. O verdadeiro Monte Sinai, com a rocha que Moisés partiu para que fluísse a água, quando os israelitas estiveram a ponto de morrer de sede, além de outras 19 referências do monte Sinai, que se nomeiam na Bíblia.

Uma de suas últimas escavações levou Ron Wyatt a descobrir a Arca do Concerto, que está relacionada ao verdadeiro lugar da crucificação de Cristo. Este descobrimento incluía a surpreendente descoberta de sangue seco, que quando foi analisado, resultou ser como nenhum outro sangue encontrado jamais nesta terra... O sangue do próprio Filho de Deus!

Caso fossem verdadeiras essas suas descobertas, ele seria, indubitavelmente, mesmo na sua condição de simples amador, um dos mais consagrados arqueólogos do seu século. Seria interessante que colocássemos alguma coisa sobre o que as recentes descobertas da Arqueologia nos têm desvendado:

[...] seus achados revolucionaram o estudo do antigo Israel e jogaram sérias dúvidas sobre as bases históricas de muitas narrativas bíblicas, como as peregrinações dos patriarcas, o êxodo do Egito e a conquista de Canaã, e o glorioso império de Davi e Salomão. [...] agora é evidente que muitos eventos da história bíblica não aconteceram numa determinada era ou da maneira como foram descritos.

Alguns dos eventos famosos da Bíblia jamais aconteceram inteiramente. (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 14-16.

Essas informações temos de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, dois dos principais arqueólogos em atividade. Finkelstein é diretor do Instituto de Arqueologia Sonia e Marco Nadler, da Universidade de Tel Aviv, em Israel e Silberman é diretor de interpretação histórica do Centro Ename de Arqueologia Pública e Apresentação do Legado Histórico, na Bélgica, além de contribuir regularmente como editor para a revista Archaeology, conforme podemos ler na capa do livro A Bíblia não tinha razão.

Vejamos os textos que constam de alguns dos slides sobre a “investigação arqueológica” de Wyatt:

Depois de investigar sobre a rota que os israelitas tinham tomado no Êxodo do Egito, Ron Wyatt encontrou que, a descrição bíblica concorda perfeitamente com um barranco profundo chamado Wadi Watir. O livro de Êxodo explica como Deus conduziu os filhos de Israel, “Deus não os guiou pelo caminho dos filisteus, só porque era perto… Deus fez por isso o povo dar volta pelo caminho do ermo do Mar Vermelho”. (Êxodo 13:17,18).

Aqui encontramos uma área extensa, aberta do deserto. Então em Êxodo 14:1,2 Deus disse que deram a volta afastando-se do caminho, na qual encontrou Ron e lhe conduziu a um barranco conhecido hoje como Wadi Watir. A Bíblia registra a reação de Faraó quando lhe informaram que haviam desviado do caminho, (Êxodo 14:3), ”Estão vagueando em confusão pelo país. O ermo os encerrou”, Wadi Watir é um barranco profundo largo que concorda com esta descrição perfeitamente.

Leiamos a transcrição do texto bíblico, para evitar confusão:

Ex 13,17-18: “Quando o Faraó deixou o povo partir, Deus não o guiou pelo caminho da Palestina, que é o mais curto, porque Deus achou que, diante dos ataques, o povo se arrependeria e voltaria para o Egito. Então Deus fez o povo dar uma volta pelo deserto até o Mar Vermelho. Os filhos de Israel saíram do Egito bem armados”.

O primeiro problema que nos surge, conforme já o dissemos alhures, é saber qual foi o verdadeiro motivo pelo qual os hebreus saíram do Egito:

a) foram expulsos (Ex 12,39);

b) o Faraó os deixou partir (Ex 13,17); ou

c) fugiram do Egito (Ex 14,5)?

Se estivéssemos numa prova, para testar nosso conhecimento, certamente que teríamos mais esta opção: “d) todas as alternativas são verdadeiras”, a que deveria ser marcada como correta.

Considerando que o Faraó saiu ao encalço dos hebreus, o mais provável é que ele os estava perseguindo, por terem fugido, e não que ele tenha se arrependido de tê-los deixado sair, como está narrado num dos textos bíblicos.

Temos que: “Fontes arqueológicas e históricas independentes relatam a imigração de semitas de Canaã para o Egito, e os egípcios expulsando-os com o uso da força” (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 86), entretanto, tratam-se dos hicsos, tendo tal fato acontecido por volta de 1570 a.C.

Em História dos Hebreus, obra do historiador Flávio Josefo, encontramos a informação de que os hicsos saíram do Egito após um acordo com Temosis:

[...] Temosis, filho de Alisfragmoutofis, foi atacá-los com quatrocentos e oitenta mil homens, mas perdendo a esperança de vencê-los, fez com eles um acordo, isto é, que eles saíssem do Egito para se retirarem onde quisessem, sem que se lhes fizesse algum mal; e seu número era de duzentos e quarenta mil; eles partiram com todos os seus bens, para fora do Egito, através do deserto da Síria e temendo os assírios que então dominavam em toda a Ásia eles se dirigiram para um país que hoje é chamado de Judéia, onde construíram uma cidade capaz de conter aquela grande multidão de povo e a chamara de Jerusalém. (JOSEFO, 2003, p. 714).

Os que nasciam na Judéia eram, originalmente, designados de judeus e, posteriormente, após o cativeiro da Babilônia, passaram a ser chamados de hebreus. E Josefo estabelece a relação direta entre os hicsos, povos pastores ou cativos, como sendo os seus antepassados (JOSEFO, 2003, p. 715).

O Êxodo pode ser situado em torno de 1440 a.C. (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 86), o que nos coloca diante desta curiosa situação:

Mas não há pistas, nem mesmo uma única palavra, sobre antigos israelitas no Egito: nem nas inscrições monumentais nas paredes dos templos, nem nas inscrições em túmulos, nem em papiros. Israel inexiste como possível inimigo do Egito, como amigo ou como nação escravizada.

E simplesmente não existem achados arqueológicos no Egito que possam estar associados de forma direta com a noção de um grupo étnico distinto (em oposição a uma concentração de trabalhadores migrantes de muitos lugares), vivendo numa área específica a leste do delta, como subentendido no relato bíblico sobre os filhos de Israel vivendo juntos na terra de Gessen (Gêneses 47,27). (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 90).

Ou seja, temos o registro dos hicsos no Egito, fato que aconteceu antes da escravidão dos hebreus; e desses, como está afirmado, nada foi encontrado. Em Ex 12,40 se afirma que a estada dos filhos de Israel no Egito, na escravidão, durou quatrocentos e trinta anos, tempo muito longo para que não tenham deixado um só registro de sua permanência. Uma coisa é certa para os entendidos:

A conclusão – de que o Êxodo não aconteceu na época e da forma descrita na Bíblia – parece irrefutável quando examinamos a evidência de sítios específicos, onde os filhos de Israel supostamente acamparam por longos períodos, durante sua caminhada pelo deserto (Números 33), e onde alguma indicação arqueológica – se existente –, é quase certo, seria encontrada. (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 94).

E quanto à fuga em si: [...] não é razoável aceitar a idéia de fuga de um grande grupo de escravos do Egito, através de fronteiras vigiadas por guarnições militares, para o deserto e depois para Canaã, numa época com colossal presença egípcia na região. Qualquer grupo escapando do Egito contra vontade do Faraó teria sido rapidamente capturado, não apenas por um exército egípcio que o perseguiria desde o delta, mas também por soldados egípcios dos fortes no norte do Sinai e em Canaã. De fato, a narrativa bíblica sugere o perigo da experiência de fugir pela estrada da costa. Assim, a única alternativa seria através das terras desérticas e desoladas da península do Sinai; mas a possibilidade de um grande grupo de pessoas caminhando por essa península também é contestada pela arqueologia. (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 91-92).

Por outro lado, na maioria das Bíblias consta, na passagem que citamos imediatamente acima, a expressão Mar Vermelho; entretanto, pela explicação dos tradutores da Bíblia de Jerusalém, a coisa não é bem assim:

A designação de “o mar dos Juncos”, em hebraico yam sûf, é acréscimo. O texto primitivo dava apenas uma indicação geral: os israelitas tomaram o caminho do deserto para o leste ou o sudeste. – O sentido desta designação e localização do “mar de Suf” são incertos. Ele não é mencionado na narrativa de Ex 14, que fala apenas em “mar”. O único texto que menciona o “mar de Suf” ou “mar dos Juncos” (segundo o egípcio como cenário do milagre é Ex 15,4, que é poético.

Então, o segundo problema é que o texto primitivo não falava em mar; nele foi acrescentada a expressão hebraica yam sûf, que também significava mar dos Juncos, conforme podemos ver na Bíblia Sagrada publicada pela Editora Vozes, cujos tradutores esclarecem: Mar Vermelho: lit. 'mar dos Juncos'. A expressão designa tanto o atual Mar Vermelho, como também a região pantanosa e de lagunas, atravessada hoje pelo canal de Suez. É o cenário da passagem dos israelitas pelo 'Mar Vermelho' (13,18)”. (p. 91).

Leiamos a passagem bíblica que trata do assunto:

Ex 14,1-31: 1. Javé falou a Moisés: 2. "Diga aos filhos de Israel que voltem e acampem em Piairot, entre Magdol e o mar, diante de Baal Sefon; aí vocês acamparão, junto ao mar. 3. O Faraó irá pensar que os filhos de Israel andam errantes pelo país e que o deserto os bloqueou.... Quando comunicaram ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o Faraó e seus ministros mudaram de opinião sobre o povo e disseram: "O que é que nós fizemos? Deixamos partir nossos escravos israelitas!". O Faraó mandou aprontar seu carro e levou consigo suas tropas: seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito, com oficiais sobre todos eles... . Perseguindo com todos os cavalos e carros do Faraó, os cavaleiros e o exército os alcançaram quando estavam acampados junto ao mar, em Piairot, diante de Baal Sefon. Quando o Faraó se aproximou, os filhos de Israel levantaram os olhos e viram que os egípcios avançavam atrás deles. Cheios de medo, clamaram a Javé,... . Javé disse a Moisés: "Por que você está clamando por mim? Diga aos filhos de Israel que avancem. Quanto a você, erga a vara, estenda a mão sobre o mar e divida-o pelo meio para que os filhos de Israel possam atravessá-lo a pé enxuto... . Moisés estendeu a mão sobre o mar, e Javé fez o mar se retirar com um forte vento oriental, que soprou a noite inteira: o mar ficou seco e as águas se dividiram em duas. . Os filhos de Israel entraram pelo mar a pé enxuto, e as águas formavam duas muralhas, à direita e à esquerda. Na perseguição, os egípcios entraram atrás deles com todos os cavalos do Faraó, seus carros e cavaleiros, e foram até o meio do mar... . Javé disse a Moisés: "Estenda a mão sobre o mar, e as águas se voltarão contra os egípcios, seus carros e cavaleiros". Moisés estendeu a mão sobre o mar. E, de manhã, este voltou para o seu leito. Os egípcios, ao fugir, foram ao encontro do mar, e Javé atirou-os no meio do mar. As águas voltaram, cobrindo os carros e os cavaleiros de todo o exército do Faraó, que os haviam seguido no mar: nem um só deles escapou...

Sobre essa passagem, explicam-nos, os tradutores da Bíblia Edição Vozes: A descrição da passagem pelo Mar Vermelho corresponde a um fenômeno de ordem natural, como o sugere a menção do “vento forte” (v.21) que põe o mar, isto é, uma região pantanosa, em seco. Tal fenômeno foi providencial para salvar os israelitas (v. 24) e fazer perecer os egípcios (v. 27): de madrugada as condições climáticas foram favoráveis à passagem segura dos israelitas; de manhã mudaram bruscamente e os egípcios pereceram. Nisto Israel viu a mão providencial de Deus (v. 31), expressa pela nuvem e pelo fogo (13,21), pelas águas que formam alas para os israelitas passarem (14,22) e pela vara milagrosa de Moisés (v. 16.21.26). [...] (p. 97).

Aqui o fenômeno da passagem é localizado numa região pantanosa e tido como de ordem natural. Quem não conhece o movimento das marés poderá até achar um milagre que a água do mar, em alguns casos, se recue consideravelmente da praia, de forma que onde havia água se possa andar a pé-enxuto.

Outro ponto que julgo importante é que o texto afirma que “nem um só deles escapou”, o que nos coloca diante do fato de que não há nenhum registro histórico que o Faraó, que governava o Egito na época, seja ela qual for, tenha morrido afogado. Quase ao final do slide, foi dito: “A Bíblia registra a reação de (sic) Faraó quando lhe informaram que haviam desviado do caminho, (Êxodo 14:3), 'Estão vagueando em confusão pelo país. O ermo os encerrou'”, entretanto, pelo texto bíblico o que temos é uma parte da fala de Jeová a Moisés: “Faraó certamente dirá então com respeito aos filhos de Israel: 'Estão vagueando em confusão pelo país. O ermo os encerrou'” (Novo Mundo), ou seja, é um fato completamente diferente daquilo que querem passar, pois não é a reação do Faraó, mas, simplesmente, uma presumível reação deste na suposição de Jeová, conforme se vê de Sua fala a Moisés.

Tradicionalmente crê-se que a travessia do Mar Vermelho ocorreu no Golfo de Suez. Não obstante, ali não há montanhas. A área é totalmente plana, e não concorda com a descrição bíblica. O Golfo de Suez converteu-se em um lugar muito popular porque tradicionalmente acredita-se que o Monte Sinai está na península do Sinai. Outra vez a Bíblia nos diz algo diferente, (Gálatas 4:25), “O Monte Sinai, na ARÁBIA". Depois de várias milhas Wadi Watir desemboca em uma área grande de praia, na costa ocidental do Golfo de Aquaba. A única área de praia ao largo do Golfo de Aquaba, devia ter sido suficientemente grande para acomodar aproximadamente a dois milhões de pessoas e a seus rebanhos. Os Israelitas foram prevenidos de viajar ao norte por causa da presença de uma fortaleza militar egípcia. De fato, ao norte onde Wadi Watir desemboca encontramos uma fortaleza antiga, poderia ser este o lugar mencionado na Bíblia como, Migdol, (Êxodo 14:2). Ao sul, as montanhas se estendem para baixo em direção ao mar, prevenindo assim qualquer outro passo a mais. Certamente não podiam voltar e regressar sobre seus passos pois o exército Egípcio os perseguia. Deus os havia levado a uma ponta onde somente Ele podia livrá-los, “Não tenhais medo. Mantende-vos firmes e vede a salvação da parte de Jeová, que ele realizará hoje para vós. Pois os egípcios que hoje deveras vedes, nunca mais vereis, não, nunca mais ... E Jeová começou a fazer o mar retroceder por meio dum forte vento oriental, durante toda a noite, e a converter o leito do mar em solo seco, e as águas foram partidas. Por fim, os filhos de Israel passaram pelo meio do mar em terra seca, enquanto as águas eram para eles como muralha à sua direita e à sua esquerda.” (Êxodo 14:13, 21, 22).

Vejamos como encontramos o passo Gl 4,24-25, na versão de vários tradutores bíblicos:

Pastoral: Simbolicamente isso quer dizer o seguinte: as duas mulheres representam as duas alianças. Uma, a do monte Sinai, gera para a escravidão e é representada por Agar (pois o monte Sinai está na Arábia, que é o país de Agar). E Agar corresponde à Jerusalém atual, que é escrava junto com seus filhos”.

Vozes: “Nestes fatos há uma alegoria. Estas duas mulheres representam as duas alianças: uma, que procede do monte Sinai, gera para a servidão. Esta é Agar. Omonte Sinai se encontra na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, que é escrava com seus filhos”.

Paulus (BJ): “Isto foi dito em alegoria. Elas, com efeito, são as duas alianças; uma, a do monte Sinai, gerando para a escravidão: é Agar (porque o Sinai está na Arábia), e ela corresponde à Jerusalém de agora, que de fato é escrava com seus filhos”.

Mundo Cristão: “Estas cousas são alegóricas: porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Hagar. Ora, Hagar é o monte Sinai na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual que está em escravidão com seus filhos”.

Vida Nova/SBB: “Estas coisas são alegóricas; porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Agar. Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com seus filhos”.

SBB: O que se entende por alegoria: porque estes são os dois concertos: um, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar. Ora, esta Agar é Sinai, um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus filhos”.

SBTB: “ que se entende por alegoria; porque estas são duas alianças; uma do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar. Ora, esta Agar é Sinai, um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus filhos”.

Paulus (BP): Trata-se de uma alegoria que representa duas alianças. Uma procede do monte Sinai e gera escravos: é Agar. Sinai é uma montanha da Arábia que corresponde à Jerusalém atual, que vive com seus filhos em escravidão”.

Ave Maria: Nestes fatos há uma alegoria, visto que aquelas mulheres representam as duas alianças: uma, a do monte Sinai, que gera para a escravidão: é Agar. (O monte Sinai está na Arábia). Corresponde à Jerusalém atual, que é escrava com os seus filhos”.

Paulinas: “Estas coisas foram ditas por alegoria, porque estas (duas mães) são os dois testamentos. Um do monte Sinai, que gera para a escravidão: Agar, porque o Sinai é um monte da Arábia, o qual corresponde à Jerusalém daqui debaixo, a qual é escrava com seus filhos”.

Santuário: “Isto foi dito por alegoria, pois as duas mulheres representam as duas alianças: uma, a do monte Sinai, que gera filhos para a escravidão, é Agar. Ora, o Sinai é um monte da Arábia e corresponde a Jerusalém atual, que é escrava com seus filhos”.

Novo Mundo: “Estas coisas são como que um drama simbólico; pois estas [mulheres]significam dois pactos, um do monte Sinai, que dá à luz filhos para a escravidão e que é Agar. Ora, esta Agar significa o Sinai, um monte na Arábia, e ela corresponde à Jerusalém atual, pois está em escravidão com os seus filhos”.

Barsa: “as quais coisas foram ditas por alegoria. Porque estes são os dois Testamentos. Um certamente no monte Sinai, que gera para servidão; este é figurado em Agar. Porque o Sinai é um monte da Arábia, que representa a Jerusalém, que é cá debaixo, e que é escrava com seus filhos”.

Champlin: “O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são dois pactos; um do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão, e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábia e corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava com seus filhos”.

Observa-se que variadas são as traduções; talvez isso possa ser explicado tomando-se o que Champlin diz sobre as variantes textuais para Gl 4,25. Leiamos: Um bom número de variações assinala o começo deste versículo. As palavras “...Pois esta Hagar é...” aparecem na maioria dos manuscritos posteriores da tradição bizantina, como também podem ser encontradas na tradição siríaca. Já os mss Aleph, CG, as versões latinas e os escritos de Orígenes omitem a palavra “...Hagar...”, embora a palavra “...Ora...” seja ali preservada. Já o antigo MS P(46), como os escritos de Ambrosiaster, pai da igreja, e a tradição saídica, omitem tanto “Ora” quanto “Hagar”, retendo apenas o termo grego “de”, que talvez possa ser melhor traduzida pela cópula “e”.

De acordo com esses manuscritos, pois, a palavra “Hagar” fica subentendida com base no vigésimo quarto versículo, e o trecho diria: “...e (Hagar) é Sinai...” Todavia, o texto mais correto, no original grego, para ser “...to de Agar...' (ou seja, “...e Hagar...”), conforme se vê nos mss ABD e no Si(hmg). Parece que a palavra “Hagar” foi deixada em branco por acidente, ou talvez tenha sido omitida propositadamente, devido à sua presença na sentença anterior (versículo vinte e quatro). É interessante que o ms Aleph acrescenta o vocábulo grego “on” (“o qual”), dando em resultado: “...e esta é Sinai, a qual é um monte da Arábia...” No entanto, a palavra “...Sinai...” é omitida pelo ms latino d; mas, visto que esse manuscrito é o único que faz isso, não representa autoridade alguma. (CHAMPLIN, 2005, p. 493).

Custou, mas parece que conseguimos desenrolar esse novelo. A principal informação que temos para isso foi obtida nesta explicação, em nota de rodapé: “O Sinai na Arábia: os árabes são tidos como descendentes de Agar. Isso sugere que a aliança no Sinai gerava a escravatura”. (Bíblia Sagrada – Ave Maria, p. 1496). Então temos que a coisa é simbólica, ou seja, estava falando dos árabes e não que o monte Sinai é na Arábia, como entendeu Wyatt, e, certamente, muitos tradutores bíblicos, que dessa forma levam ao erro os seus leitores. Observe que algumas das traduções que citamos trazem essa ideia: Mundo Cristão, Vida Nova e SBB e Champlin, cujo texto é: “... Agar é o monte Sinai na Arábia”.

A expressão monte Sinai entra no texto significando a lei de Moisés, o antigo pacto, que escravizava as pessoas e Agar sendo escrava e “mãe” dos árabes passou a representar esse pacto, que é atribuído à cidade de Jerusalém escravizada pelos romanos. Para fugir do que geralmente os fanáticos fazem, é necessário entendermos o texto dentro do seu contexto, pois, à maioria das vezes, o isolamento nos conduz a uma idéia equivocada daquilo que o autor quer dizer. Leiamos, então:

Gl 4,21-31: Dizei-me vós, os que quereis estar sob a lei: acaso, não ouvis a lei? Pois está escrito que Abrão teve dois filhos, um da mulher escrava e outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, mediante a promessa. Estas coisas são alegóricas; porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Agar. Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe; porque está escrito: Alegra-te, ó estéril, que não dás à luz, exulta e clama, tu que não estás de parto; porque são mais numerosos os filhos da abandonada que os da que tem marido. Vós, porém, irmãos, sois filhos da promessa, como Isaque. Como, porém, outrora, o que nascera segundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assim também agora. Contudo, que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava será herdeiro com o filho livre. E, assim, irmãos, somos filhos não da escrava, e sim da livre.

Portanto, no texto, a expressão “monte Sinai” significa mesmo a Lei antiga, a que, segundo o pensamento de Paulo, escravizava. Podemos, para maior esclarecimento, colocar o que encontramos em algumas Bíblias sobre o assunto:

Bíblia Shedd: O quarto argumento, montado sobre uma transposição “alegórica” de textos bíblicos, é quase desconcertante para nós, embora fosse válido para intérpretes da Lei da sua época. Ponto de partida é o relato sobre os filhos de Abraão (segundo Gn 16 e 22). O comentarista explora as oposições e relações. Sara, esposa legítima e livre, estéril, milagrosamente dá à luz um filho livre, Isaac. Agar, concubina escrava, dá à luz um filho escravo, Ismael, que é excluído da herança e expulso. Paulo sobrepõe às figuras femininas de Agar e Sara a personificação clássica de Jerusalém como matriarca e esposa de Deus. Só que distingue uma Jerusalém empírica, submetida à escravidão (ou vassalagem política?) e uma Jerusalém transcendente, celeste, destinatária da promessa de Is 54,1-3. (p. 2798).

Bíblia Vozes: As histórias de Agar e Sara (cf. Gn 16,1-16; 21,8-21) servem para Paulo fazer uma alegoria sobre a Antiga e a Nova Aliança. Os filhos de Abraão nascidos de Agar, “segundo a carne”, são todos escravos e simbolizam os que estão sob a Lei. Os nascidos de Sara, “segundo a promessa”, são filhos livres como os nascidos do Espírito pela fé em Jesus. (p. 1383).

Bíblia Peregrino: Uma alegoria (v. 24) significa mais do que uma ilustração. Como um tipo, refere-se às verdades espirituais escondidas nos acontecimentos e personagens históricos. A velha aliança da lei e a circuncisão não passam de escravidão (tipificada por Agar e Ismael); enquanto a nova aliança da promessa (tipificada por Sara e Isaque) liberta e garante a herança da nova Jerusalém, isto é, o Céu, onde Cristo já reina em poder. (p. 1651).

Visando definir a localização do monte Sinai, irei, novamente, recorrer ao historiador Josefo que afirmou que: “... Moisés tendo subido ao monte Sinai, que está entre o Egito e a Arábia, lá ficou oculto durante quarenta dias e depois de ter descido, deu aos judeus as leis que eles ainda observam” (JOSEFO, 2003, p. 727). Assim, temos que “estar entre o Egito e a Arábia” não é localizar na Arábia o monte Sinai, como quer Wyatt para manter a passagem do Mar Vermelho como fato real. Aliás, existe um adágio popular que diz “quem tem um cobertor curto: se cobre a cabeça, descobre os pés; se cobre os pés, descobre a cabeça”. Essa é a síndrome de Wyatt, que, querendo autenticar o milagre do Mar Vermelho, derruba toda a rota do êxodo até o monte Sinai, que é traçada na própria Bíblia; a conseqüência é que nesse ponto a narrativa deixa de ser verdadeira.

Pela narrativa bíblica temos: Ramsés (Ex 12,37) e Sucot (Ex 13,20), pontos iniciais; Etam, à beira do deserto (Ex 13,20); voltaram a Piairot, entre Magdol e o mar, diante de Baal Sefon (Ex 14,2), local onde o Faraó, com seu exército, alcançou os hebreus (Ex 14,9), que é também o lugar da ocorrência da passagem pelo “Mar Vermelho”, que, na verdade, é mar dos Juncos; deserto de Sur (Ex 15,22); Mara (Ex 15,23); Elim (Ex 15,27); deserto de Sin, entre o Elim e o Sinai (Ex 16,1), até este ponto foram gastos 45 dias de caminhada; Rafidim (Ex 17,1) e Sinai (Ex 19,1), ponto ao qual queremos chegar. Os nomes aqui constantes estão grafados conforme a versão da Bíblia de Jerusalém.

Para sustentar sua tese Wyatt altera a posição de alguns locais como: Migdol, Mara, Elim, Rafidim e o Sinai, fazendo os hebreus assumirem uma rota na qual o percurso é quase todo em região de desertos, ou seja, tira-os de uma rota mais próxima da orla marítima, onde, certamente, seria menos inóspita a caminhada.

Uma outra questão, não levada em conta por Wyatt, foi o tempo que se gastou para que os hebreus chegassem ao Mar Vermelho, considerando-se dois fatores importantíssimos: o primeiro, em relação ao total de pessoas envolvidas na caminhada; pela narrativa bíblica temos 600.000 homens a pé, sem contar as crianças (Ex 12,37); disso estimam que eram por volta de 2.000.000 de pessoas, o que, seguramente, tornava a caminhada bem lenta, facilitando os egípcios alcançá-los logo após a saída do Egito; o segundo é que o Faraó, imediatamente, saiu em perseguição alcançando-os próximo ao Mar Vermelho (Ex 14,9); calculamos algo próximo de uns 100 km do ponto de saída, enquanto que, na teoria de Wyatt, esse percurso chegaria a cerca de 270 km, no qual, estimamos, gastariam uns 45 dias para se percorrer, enquanto, pelo texto bíblico, esse tempo foi gasto para se chegar ao monte Sinai; é longo demais para que não fossem alcançados pelo Faraó e seu exército, levando-se em conta o outro trajeto para se chegar a essa nova localização do Mar Vermelho.

Tudo isso nos leva a crer, caso sejam verdadeiros os fatos constantes da narração bíblica, que a rota é a tradicional mesmo, pois na de Wyatt percebemos que ele força as coisas para se chegar a uma idéia pré-determinada. Para corroborar a minha dedução, trago a opinião de R.N. Champlin, grau B.A. em Literatura Bíblica no Immanuel College, os graus M.A. e Ph.D. em Línguas Clássicas na University of Utah e estudos de especialização (no nível de pós-graduação) no Novo Testamento na University of Chicago e J. M. Bentes, tradutor e autodidata de estudos bíblicos:

As águas do êxodo. A comparação entre Êxodo 14 e 15:22, observando-se o paralelismo poético em 15:4, deixa claro que o “mar” atravessado pelos hebreus em Êxodo 14 era o “mar dos juncos”, que corresponde ao egípcio “alagadiços de papiros”, particularmente no nordeste do delta do Nilo. (CHAMPLIN e BENTES, 1995, p. 116).

Fora essa opinião, vemos que em quase todas as Bíblias seus tradutores comungam com essa idéia desses dois estudiosos.

Ron encontrou uma coluna derrubada sobre a costa. No lado Saudita encontrou outra exatamente igual com uma inscrição em hebraico antigo que diz, "MIZRAIM (Egito), SALOMÃO, EDOM, MORTE, FARAÓ, MOISÉS, YAHWEH." Ele crê que foram erigidas por Salomão para comemorar A travessia do Mar Vermelho. As inscrições sobre a coluna que foi encontrada derrubada na costa haviam sido erosionadas. As autoridades firmaram-nas dentro de concreto. As colunas citadas foram encontradas: a do lado egípcio (Nuweiba) em 1978 e em 1984 a do lado árabe (Midiã).

Mergulhando no fundo do mar, em 1978, Ron Wyatt e seus dois filhos encontraram e fotografaram numerosas peças de carruagens incrustados de coral. Desde então, várias incursões de mergulho tem revelado mais e mais evidência. Um de seus achados incluiu uma roda de carruagem de oito raios, a qual levou Ron ao diretor de antiguidades Egípcias, o Dr. Nassif Mohammed Hassan. Depois de examina-lo imediatamente disse que pertenceu à décima oitava dinastia, datando o êxodo no ano 1446 A.E.C. Quando lhe perguntaram como sabia, o Dr. Hassan explicou que a roda de oito raios foi utilizada unicamente durante este período, a época de Ramses II e Tutmoses (Moisés). Caixas de carruagens, esqueletos humanos, esqueletos de cavalos, rodas com quatro, seis e oito raios, tudo permanece como um testemunho, como um testemunho silencioso ao milagre da divisão do Mar Vermelho.

O texto bíblico narra que o Faraó levou consigo “seiscentos carros escolhidos e todos os carros do Egito, com oficiais sobre todos eles” (Ex 14,7); então o lógico seria de se esperar, caso tenham morrido afogados pela volta das águas ao estado normal, era que achassem boa parte dos carros – observe, caro leitor, que se diz “todos os carros” -, das ossadas dos cavalos que puxavam esses carros, e, obviamente, das de seus condutores para que se possa definitivamente relacioná-los aos egípcios, tomando-se como base critérios estritamente científicos e não religiosos. E apresento uma nova questão: por que não há registro disso na história dos egípcios?

Finkelstein e Silberman, autores já mencionados, nos informam que: […] A identificação de Ramsés II como o Faraó do Êxodo resulta de suposições eruditas modernas, baseadas na identificação do nome do lugar Pi-Ramsés com Ramsés (Êxodo 1,11; 12,37). Mas existem alguns elos indiscutíveis com o século VII a.C. Além da vaga referência ao medo dos israelitas de seguir pela estrada da costa, não há menção dos fortes egípcios ao norte do Sinai ou das suas guarnições em Canaã. A Bíblia pode refletir a realidade do Novo Império, mas também pode refletir as condições posteriores na Idade do Ferro, mais próximas da época em que a narrativa do Êxodo foi escrita. (FINKELSTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 97-98).

A Meu ver, merece mais crédito a opinião desses dois estudiosos que a de Wyatt. Mas quem quiser pensar o contrário, é livre para isso.

Possivelmente o mais assombroso de tudo, é a presença de uma ponte natural abaixo da água. Ao largo do Golfo de Aquaba, as profundidades alcançam cerca de 5.000 pés e a costa Egípcia vai descendo a essa profundidade em um declive de cerca de 45 graus. Se os Israelitas tivessem tentado cruzar em qualquer outro lugar ao largo do Golfo de Aquaba teriam que enfrentar uma ladeira muito inclinada de aproximadamente 5.000 pés. Com todos seus animais e carros, a tarefa seria praticamente impossível. Somente aqui, nas margens de Nuweiba, há um "caminho" descendente em um degrau gradual de 6 graus, a uma profundidade de somente 100 metros. A Bíblia a descreve como, “Aquele que faz um caminho através do próprio mar e uma senda mesmo através de fortes águas." (Isaías 43:16, 17) A distância de Nuweiba a Arábia Saudita é de cerca de oito milhas. E a largura da ponte natural abaixo da água, estima-se que é de 900 metros.

O fato de existir uma “ponte natural debaixo d'água” não quer dizer muita coisa, pois ainda restaria a necessidade de se fazer um milagre para que ela pudesse dar passagem aos hebreus; além disso, há que se ter mais sólidas evidências de que os hebreus passaram mesmo por lá. Apelar para milagres é uma coisa pouco científica; portanto, somente o fato de se crer nele não faz disso uma realidade, muito menos uma prova científica. A descrição de Isaías (43,16-17) se refere a Jeová e não a um caminho, sobre o qual se procurava localizá-lo em alguma região específica.

Aarón Sen mergulhou em numerosas ocasiões neste lugar, e pôde atestar a veracidade do descobrimento. Em março de 1998, fotografou os restos de uma roda de carruagem de quatro raios, e retirou ossos humanos dos quais há "dúzias" dispersadas no leito do mar. Um osso foi levado ao departamento de Osteologia na Universidade de Estocolmo, para ser analisado, demonstrando que se trata de um fêmur direito humano, masculino. Porém não pôde ser datado, evidentemente procede de épocas antigas. A altura do homem se estima que era dentre 1,65 e 1,70cm, e os ossos haviam sido substituídos por minerais.

Pequenas quantidades de coral cresceram sobre eles substituindo ao mineral. Aarón viu a ladeira ao sul da ponte natural abaixo da água. Também viu um caminho que os israelitas haviam limpado para cruzar o Mar Vermelho, conduzindo desde a margem, descendo dentro do mar. Os israelitas tiveram que apartar as pedras e rochas aos lados para permitir o acesso para seus carros. Conforme já citei anteriormente, a quantidade de carros, cavalos e homens que acompanhavam o Faraó, e que presumidamente foram “enterrados” pelas águas do Mar Vermelho, deve ser levada em conta para se ter dados suficientes a fim de se atestar se são mesmo de egípcios. Observe a informação de que não se conseguiu “datar”, em análise laboratorial, um dos ossos encontrados e encaminhado à análise laboratorial.

Para se ter uma boa ideia do fanatismo de Wyatt, vejamos a lista completa do que se diz ter ele descoberto:

· a verdadeira Arca de Noé (o sítio Durupinar, perto, mas não no Monte Ararat);

· âncoras de Pedra (ou saco de pedras?) usadas por Noé na Arca;

· a casa pós-dilúvio e tumbas usadas por Noé e sua esposa;

· a localização de Sodoma e Gomorra;

· a Torre de Babel na Turquia Central;

· bolas de enxofre da queima de Sodoma e Gomorra;

· o lugar da travessia do Mar Vermelho pelos Israelitas (que Wyatt localizou no

Golfo of Aqaba);

· rodas das carruagens e outras relíquias do exército perseguidor do Faraó no

fundo do mar;

· o verdadeiro lugar do Monte Sinai bíblico (localizado por Wyatt na Arabia

Saudita em Jabal al Lawz);

· uma câmara no final de um labirinto de túneis sob Jerusalém contendo

artefatos do Templo de Salomão;

· a Arca da Aliança;

· as pedras originais dos Dez Mandamentos;

· o verdadeiro lugar da Crucificação;

· o sangue de Jesus, respingado sobre o Propiciatório da Arca da Aliança,

diretamente abaixo da Crucificação;

Com uma lista de feitos dessa ordem, como ele não é citado, por exemplo, pelos autores: Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman (A Bíblia não tinha razão); Werner Keller (e a Bíblia tinha razão...) e Robin Lane Fox (Bíblia: verdade e ficção)?

Interessante é que, fora o que citamos logo no início, temos textos sobre assuntos relacionados a essa lista de Wyatt: “A arca de Noé”, “E aconteceu no Sinai”, “Sodoma e Gomorra” e “Torre de Babel: o carro na frente dos bois”.

O que percebemos nisso tudo é apenas um fundamentalismo exacerbado que torna as pessoas cegas para a verdade, preferindo acreditar somente no que está escrito na Bíblia, por mais absurdo que se apresente. Quando uma pessoa chega a esse ponto ela não enxerga o óbvio; seus olhos voltam-se apenas para aquilo em que acredita.

Para corroborar que esses fatos citados na Bíblia podem não ser tão verdadeiros assim, irei encerrar citando mais essas opiniões:

No final do século XX, a arqueologia havia mostrado, de maneira simples, que existiam muitas correspondências materiais entre os achados em Israel e em todo o Oriente Próximo e no mundo descrito na Bíblia, para sugerir que toda essa história seja apenas uma literatura sacerdotal posterior e fantasiosa, escrita sem qualquer base histórica. (FINKESLTEIN e SILBERMAN, 2003, p. 36).

O Êxodo

Não há registro histórico da existência de Moisés ou dos fatos descritos no Êxodo. A libertação dos hebreus, escravizados por um faraó egípcio, foi incluída na Torá provavelmente no século VII a.C., por obra dos escribas do Templo de Jerusalém, em uma reforma social e religiosa. Para combater o politeísmo e o culto de imagens, que cresciam entre os judeus, os rabinos inventaram um novo código de leis e histórias de patriarcas heróicos que recebiam ensinamentos diretamente de Jeová. Tais invenções acabaram batizadas de “ideologia deuteronômica”, porque estão mais evidentes no livro Deuteronômio.

A prova de que esses textos são lendas estaria nas inúmeras incongruências culturais e geográficas entre o texto e a realidade. Muitos reinos e locais citados na jornada de Moisés pelo deserto não existiam no século XIII a.C., quando o Êxodo teria ocorrido. Esses locais só viriam a existir 500 anos depois, justamente no período dos escribas deuteronômicos. Também não havia um local chamado Monte Sinai, onde Moisés teria recebido os Dez Mandamentos. Sua localização atual, no Egito, foi escolhida entre os séculos IV e VI d.C., por monges cristãos bizantinos, porque ele oferecia uma bela vista. […] (ROMANINI, 2002, p. 43).

Sei que estudos como esse, que apresento, causam indignação a certas pessoas; entretanto, pelo fato de estarmos em busca da verdade, pouco me importa se os fundamentalistas ainda insistem em pensar de outra forma.