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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Comunidade cristã primitiva no Império Romano

 


APELO DO CRISTIANISMO

Elizabeth Clark, da Universidade Duke, disse: “O cristianismo provavelmente atraiu as pessoas de várias maneiras. Em primeiro lugar, ele tinha um padrão moral muito elevado que estabelecia... É claro que algumas seitas e grupos filosóficos também propunham modos de vida bastante semelhantes para seus praticantes. O cristianismo tinha uma instituição que proporcionava benefícios materiais, mas também todo um sistema sacramental que oferecia aos seus praticantes, supostamente, arrependimento dos pecados, superação do pecado e da morte. À medida que a igreja se desenvolveu, permitiu diferentes graus de devoção cristã. 

Assim, se você quisesse se entregar a uma vida altamente ascética e renunciar a praticamente tudo, seria muito glorificado por isso, mas também poderia ser casado, ter uma posição na vida mundana, ter uma família, uma carreira e assim por diante, e isso também era aceitável. Portanto, o cristianismo podia se adaptar a diferentes tipos de pessoas, assim como podia se adaptar à classe intelectual mais elevada, mas também às pessoas comuns, sobre as quais os escritores da igreja sempre lembram aos teólogos que Cristo morreu tanto pelos humildes quanto pelos instruídos.”

O professor Wayne A. Meeks disse: “Em última análise, depois de termos respondido a todas as perguntas que o historiador tem ferramentas para responder, ainda restam mistérios fundamentais sobre a mudança religiosa. Por que, dentre todos os movimentos que seguiram profetas em Roma e na Palestina, este sobreviveu? Por que, dentre todas as variedades do judaísmo no primeiro século, apenas duas sobreviveram como religiões mundiais? 

Uma, a religião dos rabinos; a outra, o cristianismo. E, oculto nisso, está algo que, no fim das contas, não temos ferramentas para analisar, e que é o fato de que essa nova mensagem, essa mensagem bastante improvável de que o Filho de Deus veio à Terra, foi crucificado em forma humana e ressuscitou dos mortos... atraiu muitas pessoas perfeitamente comuns, ou assim nos parecem, de tal forma que elas estavam dispostas a mudar suas vidas e a serem iniciadas em um grupo que lhes trouxe apenas hostilidade, afastamento de suas famílias e vizinhos, e a possibilidade de perseguição até a morte.”

“O que havia nesse movimento que conseguia atrair tantas pessoas? Em última análise, acho que não sabemos. Podemos especular, podemos dizer que ele oferece um tipo de comunidade, o que é raro em qualquer sociedade e certamente raro na Antiguidade. Oferece uma proximidade, oferece uma ideologia poderosa que explica o mal no mundo, ou pelo menos fornece símbolos poderosos para a compreensão desse mal, oferece um senso da estrutura moral do universo.

Tem uma ideologia de justiça, que será garantida por Deus, enfim. Oferece uma comunidade que molda as intuições morais básicas de seus membros, que traz esse tipo de admoestação moral que, de outra forma, no mundo romano, encontramos... apenas nas escolas de filósofos, que, afinal, são um fenômeno de elite, limitado a uma camada muito pequena de pessoas altamente instruídas. [O cristianismo] torna essa [moralidade] acessível a pessoas perfeitamente comuns.”

“Então, podemos falar sobre muitos desses fatores, que dizemos que devem ter contribuído para isso, e ainda assim, por trás das dificuldades de nossas fontes, e mais ainda por trás, creio eu, de nossa incapacidade final de penetrar nas estruturas mais profundas da personalidade humana, está o fato de que inúmeras decisões individuais foram tomadas e que culminaram em uma profunda mudança cultural em todo o Império.”

O cristianismo oferece aos fiéis uma nova comunidade

“O que o cristianismo oferecia aos seus fiéis que justificava o isolamento social, a hostilidade dos vizinhos e a possível perseguição? O professor Helmut Koester disse: “Por que a comunidade cristã era algo ao qual as pessoas queriam se juntar? Creio que foi apenas porque pelo menos certas partes da missão cristã primitiva tinham a intenção de criar uma nova comunidade, e somente por essa razão esse movimento foi bem-sucedido. Mas o que significa 'nova comunidade'? Deixe-me abordar isso em dois níveis diferentes. Um deles era certamente a mensagem pregada, que prometia dons, dons espirituais, às pessoas, que iam além da experiência cotidiana e prometiam também a imortalidade, uma vida futura que seria a libertação da doença, da pobreza e do isolamento individual. 

Há um futuro para o indivíduo. E a mensagem da possibilidade de um ser humano se conectar com algo que está além dos poderes deste mundo foi certamente um grande atrativo. Mas isso por si só não teria sido suficiente. Penso que há um fator espiritual-religioso muito importante.” Mas isso não teria sido suficiente, porque, apesar de todas as glórias do Império Romano, as pessoas viviam em um mundo onde havia desigualdade, grande pobreza por um lado e imensa riqueza nas mãos de pouquíssimas pessoas por outro. Havia doenças e enfermidades, não havia serviços públicos de saúde e os médicos eram caros.

“E aqui também surge a questão da desigualdade, que Roma reforçou de fato através do sistema augustano. Roma era um sistema hierárquico muito rígido, no qual o imperador estava no topo, no topo da pirâmide, e todas as bênçãos do mundo que chegavam às pessoas vinham de cima. O imperador era o canal para o mundo divino. E se você estivesse na base dessa pirâmide social, não receberia muitas coisas. A escravidão diminuiu lentamente, mas continuou a existir.”

“Ora, a comunidade cristã, como a encontramos particularmente nas cartas de Paulo, começa com uma fórmula batismal, que diz: em Cristo não há judeu nem grego, homem nem mulher, escravo nem livre. Esta é uma fórmula sociológica que define uma nova comunidade. Eis uma comunidade que te convida, que te torna igual a todos os outros membros dessa comunidade. Que não te impõe desvantagens. Pelo contrário, confere até ao mais humilde escravo dignidade e status pessoal. Além disso, o mandamento do amor é decisivo. Ou seja, o cuidado mútuo torna-se muito importante. As pessoas são retiradas do isolamento. Se têm fome, sabem onde ir. Se estão doentes, há um ancião que lhes impõe as mãos para as curar.”

O cristianismo cria um sentimento de pertencimento

O professor L. Michael White disse: “O que eles estão oferecendo? É muito simples. Com os novos grupos de imigrantes, todos tentando encontrar seu lugar na sociedade romana — para se integrar ao mundo romano, para fazer parte da corrente principal, para subir na escala do sucesso — o sentimento de pertencimento é uma das questões-chave, e o que eu acho que os cristãos oferecem, provavelmente tão bem ou melhor do que qualquer outra pessoa no mundo romano, é um senso de pertencimento. Fazer parte da comunidade cristã... fazer parte da igreja, é pertencer a uma sociedade de amigos, irmãos e irmãs unidos por Cristo, e pode ser algo tão simples quanto isso que explique a base do sucesso do cristianismo no mundo romano.

“O cristianismo começou a crescer substancialmente no final do século II e início do século III precisamente porque respondia a algumas necessidades humanas básicas e profundamente sentidas. Provavelmente, estava começando a responder às perguntas que as pessoas faziam, e podemos ver esse crescimento de várias maneiras. Por um lado, não houve uma perseguição generalizada ao cristianismo em todo o império durante todo o século II e na primeira metade do século III. Era sempre esporádica; eram sempre preocupações locais. A primeira vez que o império como um todo disse "Temos que erradicar o cristianismo" foi somente em 249, 250, durante a perseguição de Décio... mas, a essa altura, os cristãos já eram tão numerosos que era impossível erradicá-los; seu número já havia crescido muito.”

“Então, nesse sentido, a perseguição só se faz sentir quando já é tarde demais. Temos alguns indícios do crescimento básico do cristianismo nessa época, especialmente nas cidades, em termos dos registros da cidade de Roma. No ano de 251, bem na época da perseguição de Décio, temos um registro da igreja em Roma, que indica que havia 46 presbíteros, 56 exorcistas e porteiros, além de várias outras pessoas catalogadas; sete de uma coisa e sete da outra; um número considerável de pessoas nesse catálogo. 

E, no final, consta mais de 1.500 viúvas [e necessitadas] na lista da igreja em Roma; ou seja, pessoas, mulheres, que estavam sendo amparadas pela igreja. A igreja se torna, de muitas maneiras, um novo tipo de agência de assistência social no Império Romano. Os líderes da igreja são os patronos da sociedade. No final do século III, bispos cristãos em muitos lugares já terão assumido o papel dos antigos patronos cívicos que existiam anteriormente.” Lideraram as procissões em Éfeso, Corinto e Roma. Eles se integraram à sociedade.”

Mensagem cristã de amor

O professor Wayne A. Meeks disse: “Uma das palavras-chave que encontramos em muitas das primeiras obras da literatura cristã é a palavra 'amor' e, bem, as pessoas sempre falaram sobre amor, o que não é nenhuma surpresa, mas falam sobre amor de uma maneira muito peculiar. Falam de um Deus que ama, um Deus que ama tanto que enviou seu próprio filho ao mundo — não importa o quão estranha a noção de Deus ter um filho fosse para os judeus, que iniciaram esse movimento, mas é isso aí — e que chama as pessoas a exercerem um tipo semelhante de amor, um amor que se manifesta na morte do Filho de Deus.”

“Uma das coisas mais estranhas sobre o cristianismo, sem dúvida, é que ele começa com a necessidade de explicar um paradoxo. Aquele a quem eles consideram Salvador, aquele a quem logo chamam de Filho de Deus..., é também aquele que foi crucificado sob Pôncio Pilatos. Como conciliar isso? Uma das maneiras que encontram é dizendo: 'Que coisa extraordinária, que o Filho de Deus não veio para conquistar os romanos, nem para estabelecer um estado político em Israel, mas sim para demonstrar o amor que o Criador do universo tem por todas as pessoas?' Assim, esse ato vergonhoso que Pôncio Pilatos usou para tentar exterminar esse pequeno grupo é transformado, na mentalidade cristã... em uma manifestação que demonstra a aproximação de Deus conosco e, portanto, estabelece uma espécie de modelo pelo qual as pessoas devem se relacionar umas com as outras.”

“Uma das coisas que permeia as cartas paulinas é a convicção de que o que ele chama de Palavra da Cruz, ou o raciocínio da Cruz, deve permear toda a vida das congregações que ele fundou. Assim, a maneira como alguém exerce liderança ou autoridade na congregação deve, de alguma forma, estar em consonância com a noção de que o poder de Deus se manifesta nessa inversão das coisas, na qual o poderoso é crucificado da forma mais vergonhosa, e aquele que é igual a Deus renuncia a essa igualdade para assumir a forma de servo. 

Isso se torna o modelo do que é o amor. Ou, na literatura joanina e nas cartas joaninas, encontramos uma linguagem semelhante: 'Nós amamos porque ele nos amou primeiro'. Portanto, o amor está sendo, de certa forma, redefinido como esse ato sacrificial altruísta, [escolhendo] se sacrificar pelo bem do outro, e isso se fundamenta na afirmação sobre a maneira como o poder e a estrutura supremos do universo se manifestam na sociedade humana. Creio que isso deve ter... Um apelo emocional muito poderoso para as pessoas.

O cristianismo se espalha pelas cidades greco-romanas e entra em conflito com o paganismo

O professor Wayne A. Meeks disse: “Esta é obviamente uma interpretação que começa dentro de uma estrutura judaica, baseada nas escrituras judaicas... que são compreendidas dentro das instituições e tradições judaicas. Agora, o que é realmente difícil é explicar esse grande salto que ocorre quando o cristianismo se espalha das aldeias da Palestina para os centros urbanos das províncias do Império Romano do Oriente, e cruza rapidamente a fronteira entre a comunidade judaica local, que não reage muito bem a essa mensagem, e aqueles de fora, os membros comuns dessas cidades greco-romanas multiculturais, que não têm qualquer conceito de Messias, não poderiam estar menos interessados ​​em um Rei dos Judeus, e que consideram a noção de ressurreição dos mortos um conceito, no mínimo, muito estranho. Como eles fizeram essa transição, como transformaram sua mensagem para que fizesse sentido para essas pessoas?

“Uma das características do Império Romano [neste] período, desde o fim da República até o declínio do Império Romano, é que repentinamente houve uma grande liberdade de movimento, maior do que em qualquer período anterior e, de certa forma, maior do que em qualquer período que ocorreria novamente, até a invenção do navio a vapor. Isso significa que em cada cidade dessas províncias romanas orientais haverá uma variedade de pessoas que imigraram de outros lugares, de modo que haverá muitos grupos étnicos que tiveram que se adaptar a uma cultura maior, e eles fazem isso de duas maneiras. Uma delas é assimilando-se a um padrão que lhes foi imposto por influências gregas e romanas – os poderes da cultura e os poderes da política. E a outra maneira é tentando manter sua identidade importando elementos de suas terras natais, e esses elementos que eles importam, que estabelecem a identidade, são, na maioria das vezes, uma religião.”

Difusão do cristianismo nas comunidades de imigrantes greco-romanos

O professor Wayne A. Meeks disse: “Por exemplo, se você for à antiga ilha de Delos e observar os vestígios arqueológicos dos vários grupos de imigrantes, verá aqui um local onde os italianos estabeleceram uma associação, ali encontrará um grande clube, construído pelos imigrantes de Beirute, que ali estabeleceram um centro de culto para seus deuses, aos quais agora chamam Netuno e Poseidon, porque isso é compreendido na cultura dominante. Nas colinas, você encontrará santuários dos deuses egípcios, e assim por diante. Na parte de trás da ilha, encontraremos, a menos de 100 metros um do outro, a localização do grupo samaritano e da sinagoga judaica.”

“Então, como essas pessoas se estabeleceram com uma identidade própria dentro dessa cultura? E a resposta, creio eu, reside, em última análise, nas peculiaridades da família greco-romana, do lar. Repetidamente, vemos grupos que chegam, se estabelecem em determinada área, com pessoas de origens semelhantes, crenças similares e identidade similar. Eles formam uma associação em torno de seus deuses nativos e encontram um patrono, que pode ser um membro do grupo, talvez de fora, mas alguém com recursos suficientes para lhes proporcionar um local de encontro – que os convida para sua casa, pois muitas vezes o patrono é uma mulher... e ali lhes oferece um lugar, alguma segurança e uma espécie de ponte... para a sociedade em geral. Os judeus seguiram o mesmo procedimento.”

“Outro local muito útil para observar isso é uma pequena cidade às margens do rio Eufrates, chamada Dura-Europas, que teve a sorte de ser destruída no ano de 256, uma sorte, do ponto de vista dos arqueólogos, de modo que os vestígios permaneceram intactos até 1935, quando as escavações começaram. E ali, ao longo de uma das paredes dessa rua, enterrado sob a areia, encontramos um local que antes era uma casa, uma residência particular, transformada em santuário do deus Mitra. 

Encontramos outra casa particular convertida em sinagoga, com magníficas pinturas nas paredes, e outra pequena casa convertida em local de encontro cristão, com um batistério, também com pinturas nas paredes. Isso ilustra de forma bastante vívida o processo pelo qual a residência particular pode se tornar uma espécie de ponto de partida para um novo grupo, estabelecendo sua identidade, permitindo-lhe, ao mesmo tempo, integrar-se à sociedade urbana e manter sua própria individualidade. costumes e sua própria identidade especial.”

“Então, entre esses grupos de imigrantes... surge um grupo que se identifica como cristão... mas há algo estranho nisso. Eles não são um grupo de imigrantes. Não vieram de lugar nenhum. Começam, sem dúvida, como um ramo da comunidade judaica local, mas vieram de todos os lugares. Sua composição étnica é variada e, no entanto, eles se comportam como se fossem imigrantes de algum lugar. Eles têm todas as características de um grupo de imigrantes, e isso é uma peculiaridade.

“Como eles se tornaram tão diferentes a ponto de preservar uma certa identidade, por meio de suas práticas e crenças, em contraposição à cultura circundante? E suponho que a resposta seja que eles são o que os sociólogos modernos chamariam de um “grupo de conversão”. Isso significa que, se você pertence a esse grupo, não pertence a nenhum outro. O processo de iniciação, que torna alguém membro desse grupo, ao mesmo tempo o isola dos outros grupos aos quais pertencia antes, talvez até mesmo de sua família, e é esse aspecto que o faz parecer um imigrante. A própria linguagem que usam, chamando uns aos outros de irmãos e irmãs, filhos de Deus e assim por diante, implica esse tipo de ressocialização, na qual se tornaram um tipo diferente de família, um tipo diferente de comunidade.”

Instituições de assistência social cristãs no período romano

O professor Helmut Koester disse: “Na época que antecedeu Constantino, as igrejas cristãs começaram a estabelecer hospitais e algum tipo de serviço de saúde, além de um claro sistema de assistência social – desde cozinhas comunitárias até auxílio financeiro para os pobres. Temos também a importantíssima instituição das viúvas, pois na sociedade romana, uma viúva que havia perdido o marido e não possuía recursos financeiros próprios ocupava a posição mais desfavorável na escala social. Uma das primeiras instituições de assistência social que encontramos na Igreja foi a assistência às viúvas reconhecidas como virgens, consideradas bens preciosos para a Igreja; elas recebiam um pagamento da Igreja e, portanto, eram resgatadas da pobreza extrema na maioria dos casos.”

“O cristianismo realmente estabeleceu uma esfera de apoio social mútuo para os membros que se uniam à igreja. E creio que, a longo prazo, esse foi provavelmente um fator extremamente importante para o sucesso da missão cristã. Foi exatamente por essa razão que Constantino percebeu que a única maneira de salvar o império seria assumir o controle das instituições que os cristãos já haviam construído, [incluindo], naquela época, instituições de ensino de leitura e escrita, pois os cristãos queriam que seus membros fossem instruídos e capazes de ler a Bíblia... Constatamos que, na administração dos últimos imperadores pagãos, antes de Constantino, no final do século III, um grande número de pessoas na administração imperial eram cristãs, porque sabiam ler e escrever. Isso representou um grande problema com a perseguição aos cristãos, pois eles foram os primeiros a serem destituídos de seus cargos quando a perseguição começou, e, de repente, o governo deixou de funcionar.”

“Não se deve avaliar o sucesso do cristianismo apenas pelo seu poder de transmitir uma grande mensagem religiosa; é preciso considerá-lo também pela criação consistente e bem planejada de instituições que atendam às necessidades da comunidade.

Atividades missionárias iniciais no Império Romano

Carl A. Volz escreveu: “A maior parte da expansão inicial do cristianismo dentro do Império Romano no período pós-apostólico deve-se a crentes que permanecerão para sempre anônimos: cristãos judeus que compartilharam sua fé nas comunidades judaicas da diáspora, cristãos gentios que compartilharam sua fé com colegas, amigos e familiares. Em aula, discutimos o testemunho das comunidades cristãs e suas obras de caridade (descritas nas obras dos apologistas); o testemunho dos mártires (mencionamos o exemplo de Santa Perpétua e suas companheiras em Cartago, em 203 d.C.) e, mais tarde, o testemunho de homens e mulheres santos (tomamos como exemplo São Simeão Estilita, que orou no topo de uma coluna por cerca de quarenta anos até sua morte, em 459 d.C.).”

“Entre as figuras de especial interesse para a propagação da fé dentro das fronteiras do Império Romano, destaca-se São Gregório Taumaturo ("o Taumaturgo"), discípulo de Orígenes que, de 243 até sua morte em 272, combateu habilmente o paganismo no Ponto e na Capadócia. Uma figura semelhante do século seguinte é São Martinho de Tours, que, desde sua consagração como Bispo de Tours em 372 até sua morte, um quarto de século depois, desafiou e erradicou o paganismo no norte da Gália. No século seguinte, podemos citar Apa Shenute de Atripe (c. 350-466), que, durante uma vida excepcionalmente longa, cooperou com diversos patriarcas de Alexandria para consolidar a Igreja e derrubar os resquícios do paganismo no Egito.

Atividade missionária inicial na periferia do Império Romano

Carl A. Volz escreveu: “São Gregório, o Iluminador, é lembrado como o apóstolo dos armênios. Ele próprio um nobre armênio, converteu-se ao cristianismo na Capadócia pouco depois da atuação de São Gregório, o Taumaturgo, naquela região, e retornou à Armênia, onde converteu grande parte da nobreza ao cristianismo. Com a conversão do rei Tirídates II (falecido em 330) ao cristianismo, a Armênia tornou-se um reino cristão. A Península Ibérica (atual República da Geórgia) tornou-se um reino cristão pouco tempo depois. Segundo a tradição, a apóstola dos georgianos era uma jovem cristã chamada Nino, que foi feita prisioneira durante um ataque, mas que posteriormente converteu a família real georgiana à fé cristã.

“O cristianismo parece ter se espalhado pela Mesopotâmia já no primeiro século. Segundo a tradição apócrifa, os apóstolos enviaram Addai (ou Tadeu, um dos 70 de Lucas 10:1) a Edessa (capital do estado-tampão de Osroene; hoje a cidade de Urfa, na Turquia) em resposta a um pedido de cura enviado pelo rei Abgar V ("o Negro") ao próprio Jesus Cristo! Parece provável que Edessa, assim como Arbela (hoje Irbil, no Curdistão iraquiano), capital de Adiabene, tenha sido evangelizada por judeus-cristãos dispersos pela repressão da revolta judaica de 67-70 d.C. O cristianismo prosperou na Mesopotâmia e se espalhou para o Oriente: para a Pérsia e além.

“Na extremidade sul do Império Romano ficavam os reinos da Núbia (entre Assuã, no Egito, e Cartum, no Sudão). Por volta do ano 543, o imperador Justiniano (calcedônio!) decidiu enviar uma missão a esses reinos. Isso, no entanto, ocorreu no auge das controvérsias entre calcedônios e não calcedônios. A imperatriz Teodora, esposa não calcedoniana de Justiniano, enviou uma delegação rival, também não calcedoniana! A delegação de Teodora chegou primeiro, e o resultado foi o estabelecimento de reinos cristãos núbios não calcedônios. O cristianismo núbio prosperou por mais de sete séculos (!) antes que a fragilidade política e a chegada de novos povos levassem à islamização da região.

“Voltando ao norte, os primeiros pregadores do cristianismo aos godos provavelmente incluíam clérigos cristãos que haviam sido feitos prisioneiros em incursões em território romano. Mais tarde, Ulfilas foi ordenado bispo (ariano!) dos godos em 341. Uma de suas principais ferramentas de evangelização foi sua tradução gótica da Bíblia. Foi no final do século seguinte (496) que Clóvis, rei dos francos sálios, foi batizado como católico, com o resultado de que os francos se tornaram o primeiro reino católico entre os povos germânicos.

Um século depois, notamos os esforços missionários do Papa Gregório I ("o Grande"), primeiro na Itália, mas depois enviando Agostinho ("de Cantuária") para a Inglaterra anglo-saxônica. Embora isso tenha levado o cristianismo latino a ganhar terreno no sul da Inglaterra, o principal trabalho missionário nas Ilhas Britânicas foi realizado por monges celtas. O primeiro grande missionário para os irlandeses foi Patrício, que chegou à Irlanda como prisioneiro por volta de 405. Com o tempo, a igreja irlandesa desenvolveu um "sabor" único do Mediterrâneo oriental, mas também um fervor missionário que pode ser indicado por alguns nomes famosos: Sansão (c. 490-560), Columba (521-97) e Aidan (falecido em 651) (conhecidos por seu trabalho nas Ilhas Britânicas), e Columbano (c. 550-615) e seus seguidores (que estabeleceram mosteiros em toda a Europa do Norte — Gália, Suíça e até mesmo Lombardia). Com base nesse trabalho, no século VII, monges anglo-saxões (Wilfrid, Willibrord, Wynfrith (Bonifácio) empreendeu trabalho missionário em grande parte do que hoje é a Alemanha e a Holanda. Os saxões foram subjugados e convertidos em uma série de campanhas lideradas por Carlos Magno, cujos métodos evangelísticos podem ser resumidos como "converter-se ou morrer".

O cristianismo se expande no Império Romano

O professor Wayne A. Meeks disse: “Pelo menos no que diz respeito ao cristianismo ocidental, Roma finalmente emerge como o centro das coisas e como a mediadora do poder. De certa forma, é perfeitamente natural. Afinal, estamos falando de um movimento que se desenvolve no Império Romano, e Roma é a capital... Obviamente, esse centro político e cultural se reflete na política e na cultura eclesiástica, à medida que o cristianismo emerge como um grupo, cada vez mais integrado à cultura do Império Romano.”

“A relação entre os grupos cristãos e a sociedade mais ampla ao seu redor, a cultura que os cerca, é ambígua e ambivalente desde o início. Por um lado, uma das fontes de seu poder é o fato de serem diferentes. Eles se comportam como um grupo de imigrantes, embora não o sejam. Eles se distinguem da cultura ao seu redor. São diferentes, são vistos como diferentes, por pessoas de fora e por eles mesmos. Por outro lado, dependem de coisas que são absolutamente comuns nessa cultura. Eles se interpretam com os símbolos, a linguagem e as expectativas que são comuns a muitos grupos, religiosos ou não, nessa cultura. Por um lado, querem se diferenciar. Por outro, querem atrair a todos, e essa ambivalência, esse paradoxo entre o grupo interno e a cultura externa, persiste, creio eu, ao longo de toda a história cristã...”

O professor L. Michael White disse: “Dada a intersecção entre religião e política que encontramos tão caracteristicamente no mundo romano helenístico, e especialmente nessas grandes cidades, parece incongruente que o cristianismo tenha sobrevivido, muito menos se tornado a força proeminente que se tornaria no início do século IV, quando o imperador Constantino o tornou uma das religiões oficiais do império. Mas acho que podemos ver vários fatores que contribuíram para esse crescimento e desenvolvimento.”

"Para começar, o mundo romano não era uniforme em suas crenças religiosas. Havia muitas religiões novas que surgiram entre a época da conquista de Alexandre, o Grande, e o período dos imperadores Trajano e Adriano, quando os cristãos se tornaram uma questão proeminente. Dentro desse período, encontramos novas religiões vindas de todo o Mediterrâneo Oriental. Havia os cultos aos deuses egípcios, Ísis e Serápis. Havia a grande deusa-mãe... do leste da Turquia..."

“Todas essas formas tradicionais de religiões nacionais mediterrâneas também chegam ao mundo romano e conquistam seguidores. Portanto, da perspectiva romana, novos cultos não são necessariamente um problema. Os romanos começam a se preocupar com esses grupos religiosos, no entanto, justamente quando eles parecem se tornar subversivos ou quando se recusam a participar da vida religiosa pública do império. Qualquer coisa que pareça deslealdade ao Estado gera preocupação entre governadores e magistrados como Plínio, o Jovem.”

“De uma perspectiva histórica, o crescimento do cristianismo nos séculos II e III é realmente um fenômeno a ser considerado, tanto social quanto religiosamente. O que o fez crescer? O que o fez ter sucesso de maneiras que nem mesmo outros novos grupos religiosos da época conseguiram é uma questão muito importante. Tradicionalmente, pelo menos, a resposta para essa pergunta sobre por que o cristianismo triunfou no mundo romano era muito simples: foi a vontade de Deus, é claro. Mas acho que provavelmente podemos encontrar outras respostas também.”

“Às vezes, sugere-se que o cristianismo atraía um tipo de moralidade superior, uma forma de religiosidade melhor do que a de seus vizinhos romanos, e que isso era o que levava as pessoas a se converterem ao cristianismo. Não estou realmente convencido disso. O que vemos, de fato, nos séculos II e III, é que o cristianismo define sua identidade precisamente em termos dos valores da sociedade romana em geral. Eles dizem: 'Somos tão éticos quanto vocês, ou até melhores, mas em termos do que vocês, romanos, consideram as virtudes ideais da sociedade. Nós, cristãos, praticamos os valores familiares romanos assim como vocês.' Portanto, eles não se distanciavam da sociedade romana da maneira que poderíamos esperar.”

Mudanças demográficas massivas no Império Romano impulsionaram o crescimento do cristianismo

O professor L. Michael White disse: “Então, por que eles têm sucesso? Por que as pessoas se tornam cristãs? Acho que há algumas observações históricas importantes a serem feitas aqui. Uma delas é que precisamos perceber que o próprio Império Romano estava passando por grandes mudanças demográficas naquela época. Agora, vamos pensar desta forma... as cidades estão crescendo, mas a população em si, pelo menos dentro das cidades, provavelmente não estava crescendo com facilidade. Morrem mais pessoas do que nascem na maioria das grandes cidades. Em outras palavras, a antiga aristocracia pagã está diminuindo, não crescendo. 

De onde vêm essas novas pessoas nas cidades? Provavelmente, estão imigrando do campo ou se mudando de outros países, mas, por outro lado, é exatamente isso que ouvimos sobre os cristãos. Eles estão em movimento. Eles viajam para as cidades. Eles são a nova população, juntamente com muitas outras pessoas, então acho que, de uma perspectiva social, temos que ver o crescimento do cristianismo como um produto da transformação da vida urbana no mundo romano.

“Além de tudo isso, há pestes e fome, e demógrafos têm sugerido que, se uma parte da população tem uma taxa de sobrevivência apenas dez vezes maior do que outra quando ocorre uma mortandade em massa... o resultado será que, ao final desse processo, haverá muito mais membros desse grupo em relação à população total. Em outras palavras, em um período muito curto, um grupo que antes era uma minoria muito pequena pode se tornar, milagrosamente, a maioria, e acho que, em parte, foi isso que aconteceu com os cristãos. Durante esse período turbulento do segundo e terceiro séculos, os cristãos se tornaram uma parcela significativa dos cidadãos mais influentes de algumas das principais cidades do mundo romano.”

Difusão do cristianismo

A professora Paula Fredriksen disse: “Se não fosse pela tradução da Bíblia Hebraica para o grego, e se não fossem pelas comunidades judaicas da Diáspora vivendo em sinagogas, ao longo da costa do Mediterrâneo, o cristianismo não teria se espalhado. Mas o cristianismo é uma interpretação da ideia de Israel. E a maneira como o cristianismo consegue se espalhar é através das sinagogas da Diáspora, que são a base de tudo. A língua do movimento, assim que temos evidências concretas, é o grego. A Bíblia à qual se refere é a Bíblia grega. As comunidades que servem como matriz para a mensagem são as comunidades sinagógicas, e encontramos histórias em Mateus ou em João sobre essa comunidade específica sendo expulsa de outras sinagogas. Então, o que eles fazem? Formam seu próprio grupo. Tudo como antes.”

“Mas eu acho que é realmente porque existe uma população internacional que se identifica com essas grandes ideias religiosas de Deus como o Criador, da justiça que flui como águas, de um Reino de Deus e o que isso significaria em termos da forma como uma comunidade se constitui socialmente... é por causa disso, por causa do Judaísmo da Diáspora, que está extremamente bem estabelecido, que o próprio Cristianismo, como uma forma nova e em constante improvisação do Judaísmo, consegue se espalhar como se espalha por todo o mundo romano.

“Por que as pessoas aderem ao movimento? Os judeus aderiram porque ele representa uma expressão particular da esperança religiosa judaica, vista através da figura de um redentor. Mas certamente está em consonância com o que conhecemos como as diferentes vertentes do judaísmo. O intrigante é: por que os gentios aderiram? E aqui temos, novamente, a evidência das cartas de Paulo em 50. Ele considerou isso um milagre. Esses gentios, que frequentavam a sinagoga voluntariamente, com base na mensagem que recebiam sobre a iminente volta do Filho de Deus, foram repentinamente capacitados — Paulo diz, pelo Espírito Santo — a abandonar a idolatria. Eles se comprometeram com essa comunidade específica.”

“Se você observar a forma como o movimento se espalha sociologicamente, em oposição à teologia, se você observar o que distingue o cristianismo de todas as outras opções religiosas no Mediterrâneo, verá que não o distingue do judaísmo. Ambos os grupos se reúnem pelo menos uma vez por semana. Ambos os grupos têm normas éticas muito bem definidas. Ambos os grupos têm uma enorme ética de caridade comunitária. Ambos os grupos revelaram padrões éticos de comportamento... Nada de promiscuidade. Não matar crianças. Não adorar ídolos. Não frequentar bordéis. Tudo isso serve para construir comunidade e criar uma espécie de sistema de apoio. 

Além disso, há um enorme prestígio religioso, graças à antiguidade da Bíblia Hebraica, que, ao ingressar na igreja, faz com que esses cristãos também ingressem nessa história. Isso é extremamente prestigioso e importante. O próprio judaísmo, apesar de suas peculiaridades, é considerado prestigioso por causa de sua antiguidade. Portanto, há muitas razões, sociológicas e práticas, pelas quais o cristianismo seria atraente.”

A professora Elaine H. Pagels disse: “A maioria das pessoas que estudam as origens do cristianismo tem curiosidade em saber como esse movimento improvável conseguiu um sucesso tão poderoso e dramático. E não é uma pergunta fácil de responder: por que esse movimento teve sucesso quando outros falharam? Uma coisa que sempre me intriga é que os deuses do mundo antigo, se você observar suas imagens, se ler sobre eles na Ilíada e na poesia de Sófocles... os deuses não se pareciam com ninguém mais do que os aristocratas, o imperador e sua corte. 

Eles se pareciam com os cortesãos. Mas aqui está uma religião que afirma que Deus se manifesta em um camponês, provavelmente um homem que não escrevia, um homem do povo, um homem completamente comum em termos mundanos e muito mais parecido com a vasta maioria das pessoas. E nesse lugar surpreendentemente inesperado, esse movimento disse: Deus se revela entre nós. Acho que essa é uma afirmação poderosa por si só.”

“O Evangelho de Marcos é considerado por muitos o mais antigo dos evangelhos do Novo Testamento. E esse livro é extraordinário e estranho... Se você o ler separadamente dos outros, verá que é a história de um professor do interior que surge do nada e recebe um poder incrível, curando pessoas, realizando exorcismos, proferindo coisas estranhas, ousadas e surpreendentes, e deixando todos perplexos. E então, o final da história, a partir do capítulo 9, caminha para sua morte agonizante e humilhante. Há uma sugestão, no final do livro original, de que ele ressuscitará dos mortos, mas na versão original de Marcos, a história da ressurreição não é contada. Portanto, é uma história devastadora de sofrimento humano. E acredito que isso deve ter atraído profundamente muitas pessoas naquela época, assim como atrai agora, por exemplo.”

“Quando eu estava trabalhando no livro “Adão, Eva e a Serpente”, eu pensava muito sobre por que esse movimento teve sucesso, e pensei que isso também poderia ter muito a ver com a história que eles contavam sobre a criação. Porque eles contavam a história de como os seres humanos foram feitos à imagem de Deus... Agora, se você pensar nos deuses do mundo antigo e em como eles eram, eles se pareciam com o imperador e sua corte. 

Então, esses deuses tinham uma aparência muito diferente. Mas essa religião afirma que toda pessoa, homem, mulher, criança, escravo, bárbaro, não importa quem seja, é feita à imagem de Deus e, portanto, tem um valor enorme aos olhos de Deus... Essa é uma mensagem extraordinária. E teria sido uma notícia enorme para muitas pessoas que nunca viram suas vidas terem valor. Acho que esse é um apelo poderoso dessa religião... O movimento cristão pareceu transmitir um senso de valor humano de duas maneiras. Tanto pela história de Jesus e sua simplicidade e humildade em termos de status social, em termos de conquistas, em termos de reconhecimento durante sua vida. E também pela história da criação; Confere status real a cada pessoa...

“Quando pensamos no apelo desse movimento para muitas pessoas, fica claro que algumas foram atraídas pela maneira como essa comunidade cuidava das pessoas. Por exemplo, como outros elementos da comunidade judaica, os seguidores de Jesus tendiam a alimentar os necessitados, cuidar das viúvas para que não se tornassem prostitutas, órfãos e assim por diante. Essa era uma obrigação fundamental da piedade judaica. E os seguidores de Jesus certamente entendiam isso. Sabemos que, quando as pessoas se juntavam às comunidades cristãs em Roma, por exemplo, elas eram sepultadas. Isso não era algo que se pudesse dar como certo no mundo antigo. E essa era uma sociedade em que as pessoas cuidavam umas das outras. Portanto, esse é um elemento enorme do apelo desse movimento.”

Influência romana no cristianismo

O professor L. Michael White disse: “A transformação do cristianismo ao longo dos primeiros 300 anos de sua existência é realmente profunda. O que começou como uma reivindicação messiânica ou um rebelde político, uma vítima da Pax Romana, na época da conversão de Constantino, torna-se a religião oficial do Império Romano. E mesmo assim, essa não é uma transformação simples. Levaria mais cem anos para que a maior parte do mundo romano se convertesse ao cristianismo. 

Mas ainda assim, com a conversão de Constantino, ocorre uma mudança muito significativa, e podemos observar essa mudança em vários estágios. O que originalmente era um movimento oprimido por César por ser um concorrente, eventualmente se torna um culto ao... Senhor Cristo, por volta do final do primeiro e início do segundo século. Com a conversão de Constantino, no entanto, torna-se uma religião imperial. Agora, Jesus havia sido transformado no Senhor Cristo do Céu e Constantino, o imperador, governava em seu nome.

“A imperialização do cristianismo pode ser vista em alguns dos monumentos da própria Roma, onde a ideologia e o simbolismo imperiais, os símbolos da grandeza imperial, são incorporados e sobrepostos à própria tradição cristã. Isso provavelmente se observa, como em nenhum outro lugar, no mosaico da abside da Igreja de Santa Podenziana, em Roma. Ali, temos o que à primeira vista parece ser uma cena muito tradicional dos evangelhos: Jesus está sentado no meio de seus apóstolos, ladeados por ambos os lados. 

Parece muito com uma cena da Última Ceia, e ainda assim, nota-se que há duas mulheres sentadas atrás, e elas parecem ser mulheres romanas muito nobres. Provavelmente são a Virgem Maria e Maria Madalena, também ladeando os apóstolos. Mas, ao observar com mais atenção, percebe-se que este Jesus tem uma aparência diferente daquela que vimos anteriormente na tradição iconográfica, por exemplo, das catacumbas. Jesus está com uma toga muito elaborada e cara, sentado entronizado em uma cadeira imperial.”

“Este Jesus se parece com o próprio imperador, e aqui ele está entronizado diante de uma elaborada paisagem urbana ao fundo. E não é a cidade de Roma, mas sim a nova cidade imperial de Jerusalém. Atrás dele, vemos a Igreja do Santo Sepulcro de Constantino, que havia sido concluída recentemente em Jerusalém, e atrás está o restante da nova cidade de Jerusalém, reconstruída pela primeira vez, significativamente, após ter sido destruída na primeira revolta. 

Assim, o patrocínio imperial de Constantino à igreja se reflete de várias maneiras na reconstrução de Jerusalém, no estabelecimento de monumentos cristãos, no lugar do cristianismo em Roma e, mais uma vez, na apresentação de Jesus em seus discípulos. Agora eles se parecem com a aristocracia romana; fazem parte da corrente principal da sociedade romana. Este é um Jesus imperial.”

O professor Shaye ID Cohen disse: “Há uma frase no evangelho sobre dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Jesus disse isso no contexto de um César pagão. Quando César se torna cristão, as coisas mudam. Embora os bispos sejam figuras religiosas e não haja uma figura como um bispo-rei, como em Platão, digamos, um rei-filósofo ou algo assim, há uma espécie de teologização do poder secular e uma secularização do poder episcopal. Alguém como Agostinho funciona como um magistrado romano, tanto quanto é um teólogo e figura religiosa de destaque.

“Há um belo mosaico em Ravena, uma cidade no norte da Itália, que costumo mostrar às minhas turmas. É a imagem de um homem bonito, muito elegante, musculoso e sem barba. Ele está vestido com o uniforme de um oficial romano. E está pisando na cabeça de um leão, segurando um estandarte. E o estandarte diz em latim: 'Eu sou o caminho, a verdade e a vida.' Geralmente, meus alunos não sabem ler latim e eu pergunto: 'De quem é essa imagem?' E eles chutam: 'Do imperador romano'. Mas não é. É uma imagem de Jesus.”

Visão pagã dos cristãos

O que pensavam os pagãos comuns da época romana sobre o novo culto, esses chamados cristãos? O professor Wayne A. Meeks disse: “No início do século II, parece que os cristãos, por não serem mais vistos como uma seita do judaísmo, passaram a ser considerados por seus vizinhos pagãos como mais um desses cultos estrangeiros que se infiltraram no mundo romano, e, claramente, em alguns casos, isso causou muita preocupação e consternação por parte deles. Eles não sabiam bem o que pensar. Não sabiam exatamente o que ensinavam, o que diziam ou o que faziam, então algumas perguntas começaram a surgir.”

“Tendemos a pensar no cristianismo em oposição ao paganismo no Império Romano, mas precisamos ter um pouco de cautela quanto ao que entendemos por paganismo. Em primeiro lugar, o paganismo em si não é realmente uma religião. Não existe algo como uma doutrina do paganismo. Na verdade, precisamos lembrar que são os cristãos que usam o termo pagão para definir as pessoas que não são cristãs. É um termo cristão para outro grupo ou outras pessoas e, portanto, é realmente uma maneira cristã de pensar...”

Em muitos aspectos, provavelmente temos que presumir que, no geral, os cristãos não pareceriam muito diferentes de seus vizinhos. Em muitos lugares e em muitas ocasiões, eles se integrariam muito bem ao ambiente social mais amplo. Eles simplesmente se misturariam. Com algumas exceções importantes, e é aqui que os cristãos se tornam mais perceptíveis para seus vizinhos pagãos. Eles não frequentavam os templos. Em dias festivos importantes, quando era costume oferecer sacrifícios em prol da saúde do imperador e do Estado, os cristãos provavelmente considerariam essas práticas rituais incompatíveis com sua crença no único Deus verdadeiro. Portanto, nessas ocasiões, os cristãos seriam notáveis ​​por sua ausência.

“Quando os cristãos se tornam realmente mais proeminentes na esfera social das cidades gregas e romanas, os pagãos começam a notar sua ausência em importantes festividades e sua relutância em participar de certos aspectos da vida social... [S]ó quando há uma proporção suficientemente grande de cristãos em todo o império e nas cidades em particular, a ponto de seus vizinhos começarem a notá-los, [é que] as perseguições começam.”

O professor Harold W. Attridge disse: “Há uma frase simples na carta de Paulo aos Coríntios que resume tudo: o que ele pregava era loucura para os gregos. E há um episódio no livro de Atos que exemplifica essa loucura, quando, no monte Areópago, em Atenas, Paulo prega aos filósofos ali reunidos e lhes fala sobre a morte e ressurreição de Cristo. Eles estão todos atentos até ele chegar à ressurreição, e então o rejeitam como uma afirmação bastante absurda. Eles teriam entendido afirmações sobre a imortalidade da alma, mas a noção de que o corpo morto pudesse ressuscitar era vista como ridícula.”

Os ataques de Celso ao cristianismo

Celso foi um escritor grego do século II que criticou o cristianismo como uma ameaça às comunidades estáveis ​​e à visão de mundo que o sistema religioso e social "pagão" buscava sustentar. Sua obra completa se perdeu, mas quando o teólogo Orígenes, do século III, buscou responder às acusações de Celso em uma obra apropriadamente intitulada "Contras Celso", preservou a maior parte das críticas de Celso. As respostas de Orígenes certamente merecem ser lidas por si só, mas os trechos a seguir foram escolhidos para mostrar como um "pagão" ponderado via o cristianismo.

Segundo "Contra Celso", de Orígenes: "[Celso] acusa [Jesus] de ter 'inventado seu nascimento de uma virgem' e o repreende por ter 'nascido em uma certa aldeia judaica, de uma pobre mulher do campo, que ganhava a vida fiando e que foi expulsa de casa pelo marido, um carpinteiro, por ter sido condenada por adultério; que, depois de ser expulsa pelo marido e vagar por algum tempo, ela deu à luz vergonhosamente a Jesus, um filho ilegítimo, que, tendo se empregado como servo no Egito por causa de sua pobreza e adquirido lá alguns poderes miraculosos, dos quais os egípcios se orgulhavam muito, retornou à sua terra natal, muito orgulhoso por causa deles, e por meio deles proclamou-se um Deus."

“Após esses pontos, Celso cita algumas objeções contra a doutrina de Jesus, feitas por um pequeno grupo de indivíduos considerados cristãos, não da classe mais inteligente, como ele supõe, mas da classe mais ignorante, e afirma que “as regras estabelecidas por eles são as seguintes: Que ninguém venha a nós que tenha sido instruído, ou que seja sábio ou prudente (pois tais qualidades são consideradas más por nós); mas se houver pessoas ignorantes, ou pouco inteligentes, ou incultas, ou tolas, que venham com confiança. Com essas palavras, reconhecendo que tais indivíduos são dignos de seu Deus, eles demonstram manifestamente que desejam e são capazes de conquistar apenas os tolos, os mesquinhos e os estúpidos, com mulheres e crianças.”

“Mas como Celso se deleita em acumular calúnias contra nós e, além daquelas que já proferiu, acrescentou outras, examinemos também estas e vejamos se são os cristãos ou Celso que têm motivos para se envergonhar do que foi dito. Ele afirma: 'Vemos, de fato, em casas particulares, trabalhadores da lã e do couro, curtidores e pessoas do caráter mais rústico e inculto, que não se atrevem a proferir uma palavra na presença de seus pais e mestres mais sábios; mas quando se apoderam das crianças em particular, e de certas mulheres tão ignorantes quanto eles próprios, proferem declarações maravilhosas, no sentido de que elas não devem dar ouvidos ao pai e aos professores, mas sim obedecê-los; que os primeiros são tolos e estúpidos, e não sabem nem podem fazer nada que seja realmente bom, estando preocupados com trivialidades vazias; que somente eles sabem como os homens devem viver e que, se as crianças lhes obedecerem, eles próprios serão felizes e farão também a sua casa feliz."

 E enquanto falam assim, se veem um dos instrutores da juventude se aproximando, ou alguém da classe mais inteligente, ou mesmo o próprio pai, os mais tímidos entre eles ficam com medo, enquanto os mais ousados ​​incitam as crianças a se livrarem do jugo, sussurrando que na presença do pai e dos professores eles não querem nem podem lhes explicar nada de bom, visto que se afastam com aversão da tolice e da estupidez de pessoas tão corruptas e avançadas na maldade, que lhes infligem castigo; mas que, se quiserem (valer-se de sua ajuda), devem deixar o pai e os instrutores e ir com as mulheres e seus amiguinhos aos aposentos femininos, ou à loja de couro, ou à oficina do curtidor, para que possam alcançar a perfeição; — e com palavras como essas eles as convencem."

Grafites da Roma Antiga mostram a novidade do cristianismo primitivo

O professor Wayne A. Meeks disse: “Uma das principais implicações que obtemos desse material do início do século II, como as cartas de Plínio descrevendo os cristãos, é que, nessa época, os cristãos ainda eram algo novo, algo inédito na perspectiva dos romanos. Os romanos não sabiam bem o que pensar deles. Eram estranhos. Pareciam um pouco com os judeus. Os cristãos não faziam certas coisas, mas eles realmente não sabiam no que acreditavam, o que defendiam e por que eram diferentes. Eram simplesmente diferentes. Eram estrangeiros.”

“[T]emos um bom exemplo desse tipo de perspectiva pagã sobre os cristãos em um pequeno grafite encontrado em Roma, no Monte Palatino. Ele mostra um homem crucificado e, abaixo dele, uma inscrição rabiscada de forma muito grosseira na parede... É literalmente um grafite no sentido moderno do termo e diz: 'Alexamenos adora seu deus'. Na imagem, vemos Alexamenos curvando-se diante do homem na cruz, mas o incomum é que o homem na cruz tem cabeça de burro. Da perspectiva desses pagãos, havia essa crença incomum associada ao cristianismo. Eles estavam adorando um homem crucificado, o que por si só provavelmente já seria algo que considerariam estranho, e, em segundo lugar, a identidade desse homem crucificado é de alguma forma confundida com divindades animais... algum tipo de ser peculiar, meio animal, meio homem. Os pagãos realmente não sabiam bem o que fazer com tudo isso.”

Mesmo que ouçamos muitos ataques pagãos ao cristianismo, rotulando-o como estúpido ou criminoso, e saibamos que algumas perseguições ocorreram, não devemos presumir que todos os cristãos eram contra o governo romano ou que constituíam uma parcela marginal da sociedade. Em muitos casos, os cristãos participavam de atividades sociais e eram bons cidadãos. Aliás, os cristãos frequentemente afirmavam: "Somos a parte mais ética do seu império. Nos comportamos melhor do que o resto de vocês. Por que vocês nos perseguiriam?"

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Do Modalismo à Trindade

Neste artigo, tento estudar a evolução do dogma da Santíssima Trindade ao longo da História. Pois bem. Poderia estar perguntando o leitor: "os dogmas da Igreja evoluíram?", ao que posso responder que, ainda que não tenham evoluído quanto ao seu conteúdo (a verdade é a mesma ontem, hoje e amanhã), evoluíram quanto à consciência que deles foi adquirindo a Igreja.

Com efeito, o tempo permitiu que a terminologia deste dogma central da fé cristã fosse se enriquecendo, para expressar de uma forma mais precisa aquilo que a Igreja sempre professou. Surge, assim, o termo "Trindade" como uma forma de definir o mistério de que existe um só Deus em três Pessoas distintas, as quais possuem a mesma natureza ou substância.

Porém, este enriquecimento não ocorreu sem custo nem glória; muitas heresias tiveram que ser combatidas e superadas pela Igreja ao longo da História (e muitas dessas heresias ressurgiram novamente nos tempos atuais).

1. HERESIAS CRISTOLÓGICAS E TRINITÁRIAS

Existem numerosas heresias cristológicas e trinitárias, de modo que tratar de todas seria deveras longo. Logo, nos focaremos principalmente nas duas maiores e que ressurgiram hoje sob outros nomes e fachadas.

a) Modalismo
Também conhecida como Monarquianismo, Sabelianismo ou Patripassianismo. Sustentava, nos séculos II e III, que em Deus havia uma só Pessoa e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram formas de se comunicarem com os homens ou de se manifestarem. Era uma tentativa de afirmar a unidade de Deus sem negar a divindade de Cristo nem a do Espírito Santo.

Hoje em dia há uma grande quantidade de denominações protestantes que aderiram a essa heresia. Um exemplo temos na Igreja Pentecostal Unida, a qual professa:

"A doutrina sobre a natureza de Deus se chama 'Unicidade'. Esta palavra significa 'Qualidade do Único'. Esta se encontra claramente nas Escrituras e afirma que existe apenas um só Deus, sem distinção de Pessoas e que em Jesus Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Doutrina da Igreja Pentecostal Unida da Espanha).

b) Arianismo
Uma grande heresia que a Igreja enfrentou e que abalou a Igreja durante o século IV. Da mesma forma que o Modalismo, queria defender a unicidade de Deus, porém o fazia reduzindo Jesus Cristo a um ser criado. Para os arianos, Cristo não era Deus, mas uma criatura subordinada criada por Ele, de modo que houve um tempo em que o Pai existiu e Cristo não. Para eles, Cristo também não tinha a mesma natureza ou substância do Pai. Entre os diferentes expoentes do Arianismo ressurgido hoje, podemos citar os Testemunhas de Jeová; para ilustrar um pouco a sua doutrina, mencionaremos um extrato de uma de suas publicações:

"Somente Deus é o Todo-Poderoso, o Criador, separado e distinto de qualquer outra pessoa. Jesus - e isto se aplica ainda à existência que teve antes de vir a ser homem - é também separado e distinto, um ser criado subordinado a Deus" (Folheto "O que Diz a Bíblia sobre Deus e Jesus?").

2. O TESTEMUNHO DOS ESCRITORES ECLESIÁSTICOS E PADRES DA IGREJA ANTES DO CONCÍLIO DE NICÉIA

Existem fontes protestantes que afirmam que foi graças ao Concílio de Nicéia que foram assentadas as bases para a doutrina da Trindade:

"O Concílio de Nicéia assegurou que Cristo era da mesma substância de Deus, abrindo base para uma posterior teologia trinitária. Porém, não estabeleceu a Trindade, pois naquele Concílio não se disse que o espírito santo era a terceira pessoa de uma Divindade trina e una (...) Por muitos anos houve muita oposição, com base bíblica, ao desenvolvimento da idéia de que Jesus era Deus. Em um esforço para resolver a disputa, o imperador romano Constantino convocou todos os bispos para Nicéia (...) Que papel desempenhou no Concílio de Nicéia aquele imperador não-batizado? A Enciclopédia Britânica relata: 'O próprio Constantino presidiu e dirigiu ativamente as discussões e pessoalmente propôs (...) a fórmula decisiva que expressava a relação de Cristo com Deus no credo que o Concílio publicou, o qual diz que é 'consubstancial com o Pai'. (...) Pressionados pelo imperador, os bispos - com apenas duas exceções - assinaram o credo, ainda que muitos deles não estivessem inclinados a fazê-lo'" (Folheto "Como se Desenvolveu a Doutrina da Trindade?").

Nesse folheto, em resumo, aponta-se que - segundo os Testemunhas de Jeová - a doutrina trinitária seria produto de uma manobra política do imperador Constantino, que acabou obrigando os bispos a reconhecer que Cristo era Deus, quase que contra as suas vontades.

Nada melhor, então, que estudar o testemunho dos Padres anteriores ao Concílio de Nicéia, para que possamos indagar o quanto há de verdadeiro nessas afirmações e qual foi o real desenvolvimento da doutrina trinitária ao longo da História.

A DIDAQUÉ (OU: A DOUTRINA DOS DOZE APÓSTOLOS)

É considerado um dos mais antigos escritos cristãos não-canônicos, datado inclusive de tempo bem anterior a muitos escritos do Novo Testamento. Estudos que assinalam uma data de composição não posterior a 160 d.C. são recentes. É um excelente testemunho do pensamento da Igreja Primitiva e aqui o mencionamos por trazer um testemunho do uso da fórmula batismal trinitária usada pela Igreja Primitiva:

"Quanto ao batismo, procedam assim: depois de ditas todas essas coisas, batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Didaqué 7,1).

O MARTÍRIO DE POLICARPO

É uma carta da Igreja de Esmirna à comunidade de Filomênio em que se narra o martírio de São Policarpo, discípulo direto do Apóstolo São João e bispo de Esmirna. É um escrito apostólico que faz uso de belas doxologias trinitárias, expressando muito bem e claramente o dogma trinitário:

"A Ele [Jesus Cristo] seja dada a glória com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém".

O PASTOR DE HERMAS

Classificado como um dos escritos dos Padres Apostólicos ainda que - como assinala Quasten - pertença ao grupo dos Apocalipses apócrifos. Contém as revelações feitas por duas figuras celestiais a Hermas:

"O Espírito Santo, que é preexistente, que criou todas as coisas, Deus o fez habitar no corpo de carne que Ele quis. Pois bem. Esta carne em que o Espírito Santo habitou serviu bem ao Espírito, caminhando em santidade e pureza, sem macular absolutamente nada o mesmo Espírito. Como [essa carne] tinha, pois, levado uma conduta excelente e pura, e tomado parte em todo trabalho do Espírito e cooperado com Ele em todo negócio, portando-se sempre forte e valorosamente, Deus a tornou partícipe juntamente com o Espírito Santo. Com efeito, a conduta desta carne agradou a Deus, por não ter se maculado sobre a terra enquanto teve consigo o Espírito Santo. Assim, pois, tomou por conselheiro a seu Filho e os anjos gloriosos para que esta carne, que tinha servido sem reprovação ao Espírito, alcançasse também algum lugar de repouso e não parecesse ter perdido a recompensa pelo seu serviço, porque toda a carne em que habitou o Espírito Santo, se encontrada pura e sem mancha, receberá sua recompensa" (5ª Parábola, 6,5-7).

Com base neste texto, Quasten explica:

"Segundo esta passagem, parece que para Hermas a Trindade consiste em Deus Pai, em uma segunda Pessoa divina - o Espírito Santo - que ele identifica com o Filho de Deus e, finalmente, no Salvador, elevado para fazer parte de sua sociedade como prêmio por seus merecimentos. Em outras palavras, Hermas considera o Salvador como Filho adotivo de Deus, razão pela qual se refere à sua natureza humana".

SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA (110 D.C.)

Foi consagrado bispo da Antioquia pelas próprias mãos de São Pedro e São Paulo, segundo afirma São João Crisóstomo (embora as Constituições Apostólicas afirmem que Pedro consagrou Evódio e Paulo a Inácio). Eusébio de Cesaréia afirma (Hist. Ecles. 3,22) que [Inácio] sucedeu a Evódio (primeiro bispo de Antioquia) e em sua "Crônica" aponta o tempo de seu episcopado entre o 1º ano de Vespasiano (70 d.C.) e o 10º de Trajano (107 d.C.).

"Inácio, por sobrenome Téoforo [=portador de Deus], à abençoada em grandeza de Deus com plenitude; à predestinada desde antes dos séculos para servir para sempre, para glória duradoura e imutável, glória unida e eleita pela graça da verdadeira Paixão e por vontade de Deus Pai e de Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja digna de toda bem-aventurança, que está em Éfeso, na Ásia, minha cordialíssima saudação em Jesus Cristo e na alegria imaculada" (Epístola aos Efésios 1).

"Existe um médico, no entanto, que é carnal além de espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, filho de Maria e Filho de Deus, primeiro passível e depois impassível: Jesus Cristo, nosso Senhor" (Epístola aos Efésios 7,2).

"A verdade é que nosso Deus Jesus, o Ungido, foi levado por Maria em seu seio conforme a dispensação de Deus, certamente da descendência de Davi, mas por obra do Espírito Santo. Ele nasceu e foi batizado a fim de purificar a água com a sua Paixão" (Epístola aos Efésios 18,2).

"Inácio, por sobrenome Téoforo [=portador de Deus], à Igreja que alcançou misericórdia na magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu único Filho; à que é amada e é iluminada por vontade Daquele que quis que todas as coisas existissem, segundo a fé e a caridade de Jesus Cristo, nosso Deus" (Epístola aos Romanos 1).

"Permitam que eu seja imitador da Paixão do meu Deus" (Epístola aos Romanos 4,3).

"Eu glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem os tem feito sábios até tal ponto, pois percebi muito bem de quão mergulhados estais da fé imutável, como se estivésseis pregados, em carne e espírito, na cruz de Jesus Cristo" (Epístola aos Esmirniotas 1,1).

Para Santo Inácio, Cristo está acima do tempo e é intemporal, o que é uma forma de dizer que existe desde toda a eternidade:

"Aguardai Aquele que está acima do tempo, o Intemporal; o Invisível, que por nós se tornou visível; o Impalpável, o Impassível, que por nós se fez passível; aquele que, por todos os modos, sofreu por nós" (Carta a Policarpo 3,2).

ARISTIDES (SÉC. II)

Escritor eclesiástico sobre o qual Eusébio da Cesaréia, em sua História Eclesiástica (4,3,3), afirma que era "um varão fiel na profissão da nossa religião". Deixou uma apologia da fé, a qual tinha sido perdido, até que em 1878 os Mequitaristas de São Lázaro de Veneza publicaram um manuscrito do século X, correspondente ao fragmento armênio de uma apologia intitulada "Ao imperador Adriano César da parte do filósofo ateniense Aristides". Posteriormente, em 1889, o sábio norte-americano Rendel Harris descobriu uma tradução completa em siríaco desta apologia. Nesta obra, Aristides emprega a fórmula trinitária, mencionando as três Pessoas divinas:

"Este teve doze discípulos, os quais, após sua ascensão aos céus, percorreram as províncias do Império e ensinaram a grandeza de Cristo, de modo que um deles percorreu aqui mesmo, pregando a doutrina da verdade, pois conhecem o Deus criador e artífice do universo em seu Filho Unigênito e no Espírito Santo, não adorando nenhum outro Deus além deste" (Apologia 15,2).

ATENÁGORAS DE ATENAS (SÉC. II)

Famoso apologeta cristão do século II. Atenágoras, mesmo sem empregar o termo "Trindade" é bastante explícito ao definí-la. Também rejeita o Subordinacionismo e a tendência que posteriormente seria adotado pelo Arianismo ao considerar Cristo como um ser criado, como se deduz do seguinte texto escrito por volta do ano 177 d.C.:

"E se pela eminência da vossa inteligência vos ocorre perguntar o que quer dizer 'Filho', vos direi brevemente: o Filho é o primeiro broto do Pai, não como ato, já que Deus, que é inteligência eterna, desde o princípio tinha em si mesmo o Verbo, sendo eternamente racional, mas procedendo de Deus quando todas as coisas materiais eram natureza sem forma e terra inerte, estando misturadas as mais grosseiras com as mais leves, para ser sobre elas idéia e operação" (Súplica em Favor dos Cristãos 10).

Eis aqui a sua forma de explicar a Trindade:

"Assim, pois, suficientemente resta demonstrado que não somos ateus, pois admitimos um só Deus incriado e eterno, e invisível, impassível, incompreensível e imenso, apenas pela inteligência compreensível à razão... Quem, portanto, não se surpreenderá de ouvir chamar de 'ateus' aqueles que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo, que demonstram seu poder na unidade e sua distinção na ordem?" (Súplica em Favor dos Cristãos 10).

TACIANO, O SÍRIO (SÉC. II)

Taciano foi discípulo de São Justino Mártir; dele conservamos um discurso contra os gregos, em que ataca o Politeísmo. Possuía uma caráter forte, que o levou a abandonar a Igreja e fundar sua própria seita (os Encratitas) - testemunho que nos dá Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica 4,18-19); entre outros - tal como Jerônimo, que o chama de "Patriarca dos Encratitas" (Epist. Ad Titum, prol. [PL 6,356]) - praticavam uma total abstinência de carnes e bebidas alcóolicas, classificavam o matrimônio como pecaminoso e substituíam, na celebração eucarística, o vinho pela água. Chegou até nós o discurso contra os gregos, obra em que [Taciano] ataca o Politeísmo:

"Porque não estamos loucos - ó helenos - nem pregamos loucuras quando anunciamos que Deus apareceu na forma humana. Vós que nos insultais, comparai os vossos mitos com as nossas narrações" (Discurso contra os Gregos 21).

SÃO MELITÃO DE SARDES (SÉC. II)

Bispo de Sardes, na Lídia, proeminente e venerado escritor eclesiástico do século II. Em uma carta ao Papa Vítor (189-199), Polícrates de Éfeso o aponta entre os "grandes luzeiros (ou estrelas)" da Ásia que gozam do descanso eterno. De muitas de suas obras só nos restam fragmentos ou apenas o título, graças a Eusébio de Cesaréia e Anastácio Sinaíta. Após uma descoberta recente, em 1930, foi publicada sua Homilia sobre a Paixão, onde Melitão expõe uma Cristologia bastante lúcida em que o conceito da divindade e preexistência de Cristo dominam toda a sua teologia:

"Porque nascido como Filho, conduzido como cordeiro, sacrificado como ovelha, sepultado como homem, ressuscitou dos mortos como Deus, sendo por natureza Deus e homem. Ele é tudo: quando julga, é Lei; quando ensina, é Verbo; quando salva, é Graça; quando gera, é Pai; quando é gerado, é Filho; quando sofre, é ovelha sacrificial; quando é sepultado, é homem; quando ressucita, é Deus. Este é Jesus Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos" (Homilia sobre a Paixão 8-10).

Afirma também a preexistência de Cristo:

"Este é o primogênito de Deus, que foi gerado antes da estrela da manhã, que fez levantar a luz, que fez brilhar o dia, que separou as trevas, que assentou a primeira base, que suspendeu a terra em seu lugar, que secou os abismos, que estendeu o firmamento, que pôs ordem no mundo" (Homilia sobre a Paixão 82).

Nos fragmentos citados por Anastácio Sinaíta, aponta as duas naturezas de Cristo e de como é, assim, verdadeiro Deus e verdadeiro homem:

"Não é absolutamente necessário, ao tratar com pessoas inteligentes, aduzir que as ações de Cristo, após seu batismo, são provas de que sua alma e corpo e sua natureza humana era iguais às nossas, verdadeiras e não fantasmagóricas. As atividades de Cristo após seu batismo, especialmente os seus milagres, forneceram provas ao mundo da divindade oculta em sua carne. Sendo Deus e também homem perfeito, ele deu indicações positivas de suas duas naturezas: de sua divindade, pelos milagres durante os três anos que seguiram após seu batismo; e de sua humanidade, nos trinta anos anteriores ao seu batismo, durante o qual, em razão da sua condição segundo a carne, ele ocultara as características de sua divindade, ainda que fosse verdadeiro Deus existente antes das idades" (Fragmentos de Melitão em Anastácio Sinaíta; Guia 13).

SANTO IRENEU (140-202 D.C.)

Bispo de Esmirna e mártir, teve contato com a Era Apostólica por ser discípulo de São Policarpo que, por sua vez, tinha sido discípulo do Apóstolo São João. Célebre por seu tratado "Contra as Heresias", em que combate as heresias de seu tempo, especialmente os gnósticos, expressa com clareza, nessa obra, a fé trinitária da Igreja em um só Deus Pai, um só Senhor Jesus Cristo e no Espírito Santo. Para o bispo, Jesus Cristo é para os cristãos "Senhor, Deus, Salvador e Rei". Particularmente importante é seu testemunho sobre como essa doutrina é pregada e professada por todas as Igrejas do orbe, como se tivessem uma só boca e um só coração. Este testemunho é bem anterior ao Concílio de Nicéia:

"A Igreja, estendida pelo orbe do universo até os confins da terra, recebeu dos Apóstolos e de seus discípulos a fé em um só Deus Pai soberano universal 'que fez os céus e a terra e o mar e tudo quanto neles existe'; e em um só Jesus Cristo Filho de Deus, que se encarnou para a nossa salvação; e no Espírito Santo, que pelos profetas proclamou as economias e o advento, a geração por meio da Virgem, a Paixão, a ressurreição dentre os mortos e a ascensão aos céus do amado Jesus Cristo nosso Senhor; e seu [novo] advento dos céus, na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e para ressuscitar toda carne do gênero humano, de forma que diante de Jesus Cristo, nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, segundo o beneplácito do Pai invisível, 'todo joelho se dobre no céu, na terra e nos infernos, e toda língua o confesse'. Ele julgará todos justamente: os 'espíritos do mal', os anjos que caíram, os homens apóstatas, ímpios, injustos e blasfemos, para enviá-los para o fogo eterno; e para dar como prêmio, aos justos e santos que observam os seus mandamentos e perseveram no seu amor, alguns desde o princípio, outros a partir de sua conversão, a vida incorruptível, rodeando-os da luz eterna.

Como dissemos antes, a Igreja recebeu esta pregação e esta fé, e estendida por toda terra, com cuidado a guarda, como se habitasse em uma só família. Conserva uma só fé, como se tivesse uma só alma e um só coração, e a prega, ensina e transmite com a mesma voz, como se não tivesse senão apenas uma só boca. Certamente, são diversas as línguas, segundo as diversas regiões; porém, a força da Tradição é uma e a mesma. As igrejas da Germânia não crêem de maneira diversa, nem transmitem outra doutrina diferenta da que pregam as da Ibéria ou a dos celtas, ou as do Oriente, como as do Egito ou Líbia, assim como, tampouco, das igrejas constituídas no centro do mundo. Assim como o sol, que é uma criatura de Deus, é um e o mesmo em todo o mundo, assim também a luz, que é a pregação da verdade, brilha em todas as partes e ilumina todos os seres humanos que querem conhecer a verdade. E nem aquele que se sobressai por sua eloquência entre os chefes da Igreja prega coisas diferentes destas, pois nenhum discípulo está acima de seu Mestre, nem o mais débil na palavra recorta a Tradição; sendo uma e a mesma fé, nem o muito que pode explicar sobre ela aumenta, nem o menos a diminui" (Contra as Heresias 1,10,1-2).

Ireneu interpreta que quando Deus diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança", está falando ao Filho e ao Espírito Santo. Afirma que Cristo é gerado, porém ninguém conhece os mistérios desta geração, razão pela qual é em vão que os hereges gnósticos tentam explicá-la.

"Assim pois, se alguém nos pergunta: 'Como o Pai emitiu o Filho?', respondemos que esta produção, ou geração, ou pronúncia, ou parto, ou qualquer outro nome que se queira dar a esta origem, é inefável. Não a conhecem nem Valentim, nem Marcião, nem Saturnino, nem Basílides, nem os anjos, nem os poderes, nem as potestades, mas apenas o Pai que O gerou e o Filho que Dele nasceu. Sendo, pois, inefável esta geração, quem quer que se atreva a narrar as gerações e emanações não está em seu são juízo quando promete descrever o indescritível" (Contra as Heresias 2,28,6).

Mais claro ainda encontra-se no livro 3, quando volta a declarar que Cristo é Deus, Senhor, sempre Rei, Unigênito e Verbo encarnado:

"Que ninguém entre todos os filhos de Adão seja chamado Deus por si mesmo ou proclamado Senhor o demonstramos pelas Escrituras. E que apenas Ele [Jesus], entre todos os homens de seu tempo, seja proclamado Deus, Senhor, sempre Rei, Unigênito e Verbo encarnado, por todos os Profetas e Apóstolos e ainda pelo próprio Espírito, é algo que podem constatar todos aqueles que aceitam um mínimo de verdade" (Contra as Heresias 3,19,2).

Ensina que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem:

"As Escrituras não dariam todos estes testemunhos a respeito Dele se fosse apenas um homem semelhante a todos [nós]. Porém, como teve uma geração sobretudo iluminada do Pai Altíssimo e também por ter sido concebido da Virgem, as divinas Escrituras testemunham ambas as coisas sobre Ele: que é homem sem beleza e passível, que se sentou sobre o dorso de uma asna, que ingeriu fel e vinagre, que foi desprezado pelo povo e que desceu até a morte; porém, que é também Senhor Santo e Conselheiro admirável, formoso à vista, Deus forte, que vem sobre as nuvens como Juiz de todos. Isto é o que as Escrituras profetizam acerca Dele.

Enquanto homem, o era para ser tentado; enquanto Verbo, para ser glorificado. O Verbo repousou para que pudesse ser tentado, desonrado, crucificado e morto, habitando naquele Homem que vence e suporta [o sofrimento], que se comporta como homem de bem, ressuscita e é elevado ao céu. Este é o Filho de Deus, Senhor nosso, Verbo existente do Pai e filho do homem porque nasceu da Virgem Maria, que teve sua origem nos homens, pois ela mesma era um ser humano; teve gestação enquanto homem e assim chegou a ser filho do homem" (Contra as Heresias 3,19,2-3).

Opõe-se, com mais de dois séculos de antecedência, à heresia do Arianismo (que afirmava que houve um tempo em que o Filho não esteve com o Pai). Também com antecedência, rejeita o Modalismo, diferenciando as três Pessoas divinas:

"Que o Verbo, ou seja, o Filho, sempre esteve com o Pai, de múltiplas maneiras já o demonstramos; e também que sua Sabedoria, ou seja, o Espírito, estava com Ele antes da Criação" (Contra as Heresias 4,20,3).

No entanto, há autores que opinam que Ireneu não estava totalmente livre do Subordinacionismo, e que poderia ser considerado heterodoxo à luz da teologia posterior:

"Se, por exemplo, alguém procura o motivo pelo qual apenas o Pai conhece o dia e a hora, ainda que comunique tudo ao Filho, o próprio Senhor o disse (e ninguém pode inventar outro [motivo] sem risco [de se equivocar] porque apenas o Senhor é o Mestre da verdade). Ele nos disse que o Pai está sobre todas as coisas, pois declarou: 'O Pai é maior do que Eu' (João 14,28). O Senhor, portanto, apresentou o Pai como superior a todos em relação ao seu conhecimento, a fim de que nós, enquanto caminhamos por este mundo (1Coríntios 7,31), deixemos a Deus o saber mais profundo sobre tais questões; porque se pretendemos investigar a profundidade do Pai (Romanos 11,33), corremos o perigo de perguntar, inclusive, se existe outro Deus acima de Deus" (Contra as Heresias 2,28,8).

"O Pai sustenta ao mesmo tempo toda a sua criação e o seu Verbo; e o Verbo, que o Pai sustenta, concede a todos o Espírito segundo a vontade do Pai: a uns, na própria Criação, lhes dá [o espírito] da criação, que é criado; a outros, o da adoção, isto é, o que provém do Pai, que é obra de sua geração. Assim se revela como único o Deus e Pai que está acima de tudo, através de todas [as coisas] e em todas as coisas. O Pai está sobre todos os seres e é a cabeça de Cristo (1Coríntios 11,3); através de todas as coisas, age o Verbo, que é Cabeça da Igreja; e em todas as coisas porque o Espírito está em nós, o qual é água viva (João 7,38-39) que Deus outorga àqueles que crêem retamente Nele e O amam, sabendo que 'um só é o Pai que está sobre todas, por todas e em todas as coisas'" (Contra as Heresias 5,18,2)

CLEMENTE DE ALEXANDRIA (MEADOS DO SÉC. II - ANTERIOR A 215)

Nasceu por volta do ano 150, provavelmente em Atenas, de pais pagãos. Após se tornar cristão, viajou pelo sul da Itália, Síria e Palestina à procura de mestres cristãos, até que chegou em Alexandria. Os ensinamentos de Panteno (chefe da escola catequética de Alexandria, no Egito) fizeram com que fixasse residência ali. No ano 202, a perseguição de Sétimo Severo o obrigou a abandonar o Egito e a se refugiar na Capadócia, onde faleceu pouco antes de 215. Seu conhecimento dos escritos pagãos e da literatura cristã é notável. Segundo Quasten, em suas obras se encontram cerca de 360 citações dos clássicos, 1500 do Antigo Testamento e 2000 do Novo Testamento. Por isso, é considerado cronologicamente como o primeiro sábio cristão conhecedor profundo não apenas da Sagrada Escritura como também das obras cristãs anteriores a ele e, inclusive, obras da literatura profana. Em sua obra "O Protréptico" ou "Exortação aos Gregos", escreve:

"A Palavra, então, o Cristo, é a causa de nosso antigo princípio - porque Ele estava com Deus - de nosso bem-estar. E agora esta mesma Palavra apareceu como homem. Apenas Ele é Deus e Homem, e fonte de todas as coisas boas. É por Ele que nos ensina a viver bem e, então, somos mandados para a vida eterna (...) Ele é o cântico novo, a manifestação que agora nos foi feita, da Palavra que existiu no princípio e antes do princípio. O Salvador, que existiu antes, apareceu apenas posteriormente. Ele, que apareceu, está Nele que é, pela Palavra que estava com Deus, a Palavra pela qual todas as coisas foram feitas; apareceu como nosso Mestre e Ele, que nos concedeu a vida no princípio quando, como nosso Criador, Ele nos formou; agora que Ele apareceu como nosso Mestre, nos ensinou a viver bem de modo que, logo, como Deus, poderá nos dar abundância na vida eterna" (Exortação aos Gregos 1,7,1).

Mais adiante, na mesma obra, continua aprofundando sua teologia do Logos, afirmando que a Palavra divina é "evidentemente verdadeiro Deus", acrescentando ainda que estava "no mesmo nível" do Pai, o que provaria que não tinha inclinações subordinacionistas:

"Desdenhado na sua aparência, porém, na verdade adorado, o Expiador, o Salvador (...), a Palavra divina, Ele que é absolutamente e evidentemente Deus verdadeiro, Ele que está no mesmo nível do Senhor do universo porque era seu Filho e a Palavra estava com Deus" (Exortação aos Gregos 10,110,1).

Em "O Pedagogo" (uma obra em 3 livros, que é a continuação do "Protréptico"), explica:

"Meus filhos: nosso Instrutor é como seu Deus, o Pai, pois é Filho Dele: livre de pecado, livre de culpa e com a alma livre de Paixão. Deus em forma de homem, inoxidável; o ministro de seu Pai, a Palavra que é Deus; que está no Pai, que é a mão direita do Pai; e, com a forma de Deus, é Deus. Ele é para nós uma imagem irrepreensível..." (O Pedagogo 1,2).
Em seu comentário sobre 1João, escreve:

"O Filho de Deus, sendo, por igualdade de substância, um com o Pai, é eterno e não-criado".

SÃO TEÓFILO DE ANTIOQUIA (SÉC. II)

Sexto bispo de Antioquia, como atesta Eusébio em sua História Eclesiástica 4,20. Se conservam 3 livros de sua autoria, escritos por volta do ano 180 d.C., intitulados "A Autólico". Assim como Tertuliano foi o primeiro a empregar o vocábulo latino "Trinitas", Teófilo foi o primeiro a usar o termo "Τριας" (=Trindade) para expressar a união das três Pessoas divinas em Deus:

"Os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade, de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria" (A Autólico 2,15).
"Tendo, pois, Deus o seu Verbo imanente em suas próprias entranhas, o gerou com sua própria sabedoria, emitindo-o antes de todas as coisas. Ele teve este Verbo por ministro de sua criação e através Dele fez todas as coisas (...) Isto se chama 'princípio', pois é Príncipe e Senhor de todas as coisas por Ele criadas" (A Autólico 2,10).

"Sim, Deus, o Pai do universo, é imenso e não se encontra limitado a um lugar, pois não há lugar para seu descanso. Mas seu Verbo, pelo qual fez todas as coisas, como potência e sabedoria sua que é, tomando a figura do Pai e Senhor do universo, este é que se apresentou no jardim sob a figura de Deus e que conversava com Adão. Com efeito, a própria divina Escritura nos ensina que Adão disse ter ouvido a sua voz; e essa voz que outra coisa seria senão o Verbo de Deus, que é também seu Filho? Filho não do modo como falam os poetas e mitógrafos - que os filhos dos deuses nascem pela união carnal - mas como a verdade explica que o Verbo de Deus está sempre imanente no coração de Deus. Porque antes de criar do nada, a Este tinha por conselheiro, como mente e pensamento Seu que era. E quando Deus quis fazer o que tinha deliberado, gerou a este Verbo proferido (προφορικ?ν) como primogênito de toda criação, não esvaziando-se de seu Verbo, mas gerando o Verbo e conversando sempre com Ele. Por isso, nos ensinam as Sagradas Escrituras e todos os inspirados pelo Espírito, dentre os quais João: 'No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus', dando a entender que no princípio estava apenas Deus e Nele seu Verbo; e logo diz: 'E o Verbo era Deus'" (A Autólico 2,22).

TERTULIANO (160-220 D.C.)

Ainda que Tertuliano não seja considerado um "Padre da Igreja", mas um apologeta, tendo no final de sua vida aderido à heresia Montanista, foi muito lido antes de abandonar a Igreja Católica. Foi o primeiro a aplicar o termo latino "Trinitas" (Trindade) às três Pessoas divinas. Em "De Pudicitia" ("Da Modéstia"), escreve:

"Para a mesma Igreja é, propriamente e principalmente, o próprio Espírito, no qual está a Trindade de uma Divindade: Pai, Filho e Espírito Santo" (Da Modéstia 21).

Em "Adversas Praxean" ("Contra Praxéas"), oferece uma explicação ainda mais completa sobre a doutrina trinitária:

"No entanto, como sempre fizemos (e mais especialmente a partir do momento que fomos melhor instruídos pelo Paráclito, que conduz os homens à verdade), cremos que existe um só Deus, porém, sob a seguinte dispensação, ou ο?κονομ?α, como é denominada: que este único Deus tem também um Filho, sua Palavra, que procede Dele mesmo, por quem todas as coisas foram feitas e sem O qual nada foi feito. Cremos que Ele foi enviado pelo Pai à Virgem e dela nasceu, sendo Deus e homem, filho do homem e Filho de Deus, sendo chamado Jesus Cristo; cremos que Ele sofreu, morreu ferido, conforme as Escrituras, e, posteriormente, foi ressucitado pelo Pai e levado ao céu para sentar-se à direita do Pai; Ele virá para julgar os vivos e os mortos e enviou, também, a partir do céu do Pai, conforme a sua promessa, o Espírito Santo, o Paráclito, o santificador da fé daqueles que crêem no Pai e no Filho e no Espírito Santo. Esta é a regra de fé que chegou até nós desde o início do Evangelho, inclusive antes todas as antigas heresias" (Contra Praxéas 2).

No mesmo capítulo, um pouco mais adiante, escreve:

"A heresia, a qual supõe por si mesma possuir a pura verdade, pensando que não se pode crer que um só Deus de nenhum outro modo a não ser dizendo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são a mesma Pessoa, como se neste modo um também não fosse todos, em que todos são um, por unidade de substância, enquanto o mistério da dispensação é, todavia, guardado, o qual distribui a Unidade na Trindade, colocando em sua ordem as três Pessoas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo; três, mas não em condição e sim em grau, não em substância e sim em forma, não em poder e sim em aspecto" (Contra Praxéas 2).

Este texto é particularmente importante porque explica a concepção que Tertuliano possui da Trindade: 3 Pessoas, porém não 3 Naturezas; não diferentes quanto ao poder, mas quanto ao aspecto. Isto é confirmado também no capítulo 4 da mesma obra, onde volta a afirmar que o Filho é "da substância do Pai": "Filium non aliunde deduco, sed de substantia Patris"; e o Espírito é "do Pai pelo Filho": "Spiritum non aliunde deduco quam a Patre per Filium":

"Se a pluralidade na Trindade te escandaliza, como se não estivesse ligada na simplicidade da união, te pergunto: como é possível que um ser, que é pura e absolutamente um e singular, fale no plural: 'Façamos o homem à nossa imagem e semelhança'? Não deveria, antes, ter dito: 'Eu faço o homem à minha imagem e semelhança', já que é um Ser único e singular? No entanto, na passagem que segue, lemos: 'Eis que o homem foi feito como um de nós'. Ou Deus nos engana ou goza de nós ao falar no plural, já que Ele é único e singular. Ou será que se dirigia aos anjos, como interpretam os judeus, já que não reconhecem o Filho? Ou será que Ele, sendo Pai, Filho e Espírito, falava no plural, considerando-se múltiplo? Certamente, a razão é porque tinha ao seu lado uma segunda Pessoa, seu Filho e Verbo, e uma terceira Pessoa, o Espírito no Verbo. Por isso, empregou deliberadamente o plural: 'Façamos - nossa imagem - um de nós'. Com efeito, com quem criava o homem? À semelhança de quem o criava? Falava, por um lado, com o Filho, que deveria um dia se revestir da carne humana; por outro lado, [falava] com o Espírito, que devia um dia santificar o homem, como se falasse com outros tantos ministros e testemunhas" (Contra Praxéas 12).

Continua, posteriormente, no mesmo capítulo:

"Agora se Ele também é Deus, conforme João, [que diz] 'E a Palavra era Deus', então você tem dois seres: um que ordena que as coisas sejam feitas e outro que executa a ordem e cria. Nesse sentido, no entanto, você deve entender que Ele é outro, como já expliquei, quanto à personalidade, não quanto a substância; nesse modo de distinção, não de divisão. Assim devo manter que há uma só substância em três [Pessoas] coerentes e inseparáveis" (Contra Praxéas 12).

No texto anterior, Tertuliano se serve do termo "Pessoa" para explicar que a Palavra (Logos) é distinta do Pai no "sentido de Pessoa, não de substância; para distinção, não para divisão", o que aplica também para o Espírito Santo, a quem chama "a terceira Pessoa". Porém, ainda que Tertuliano tenha contribuído para a criação de uma terminologia precisa para a doutrina trinitária, não se viu livre totalmente do Subordinacionismo, a ponto que chegou a interpretar que o Filho não era eterno (um dos erros do Arianismo):

"Foi então que o Verbo recebeu sua manifestação e complemento, isto é, o som e a voz, quando Deus disse: 'Faça-se a luz'. Eis aí o nascimento perfeito do Verbo, quando procedeu de Deus. Primeiro foi produzido por Ele no pensamento, sob o nome de Sabedoria: 'Deus me criou no início de seus caminhos' (Provérbios 8,22). Logo, foi gerado com vistas à ação: 'Quando fiz os céus, estava próximo a Ele' (Provérbios 8,27). Por conseqüência, fazendo Pai aquele de quem o Filho procedeu, veio a se tornar primogênito (porque foi gerado antes de todas as coisas) e Filho único (porque só Ele foi gerado por Deus)" (Contra Praxéas 7).

ORÍGENES (185-254 D.C.)

Orígenes foi um proeminente escritor eclesiástico, teólogo e comentarista bíblico. Viveu em Alexandria até o ano 231, passando seus últimos 20 anos de vida em Cesaréia Marítima (Palestina) ou viajando pelo Império Romano. Foi o maior mestre da doutrina cristã de sua época e exerceu uma extraordinária influência como intérprete bíblico. Cabe ressaltar que alguns de seus ensinamentos não foram ortodoxos. Muito interessante para o tema que abordamos foi o debate de Orígenes com Heráclides, descoberto em alguns papiros encontrados em Toura, localidade próxima do Cairo, em 1941. Ali se apresenta um debate completo que teve origem nas opiniões de Heráclides sobre a doutrina trinitária, que preocupavam seus irmãos no episcopado. Estes chamam Orígenes para discutir a questão. Este debate foi realizado na presença do povo e dos bispos por volta do ano 245. A este respeito, comenta Quasten:

"Heráclides não gostava da fórmula de Orígenes 'dois Deuses' (δ?ο θεο?) como a única maneira para se expressar claramente a distinção entre o Pai e o Filho. Implicava em perigo demasiadamente grave de politeísmo. No debate, Orígenes faz esta observação: 'Já que nossos irmãos se escandalizam ao ouvir que existem dois deuses, este assunto merece ser tratado com delicadeza'. Recorre a seguir à Bíblia para demonstrar em qual sentido os dois podem ser um. Adão e Eva eram dois, no entanto, formavam uma só carne (Gênese 2,24). Cita depois São Paulo, o qual, falando da união do homem justo com Deus, diz: 'Aquele que se achega ao Senhor se torna um espírito com Ele' (1Coríntios 6,17). Finalmente, invoca como testemunho o próprio Cristo, porque disse: 'Eu e meu Pai somos um'. No primeiro exemplo, havia unidade de 'carne'; no segundo, 'de espírito'; no terceiro, de 'divindade'. Observa Orígenes: 'Nosso Senhor e Salvador, em sua relação com o Pai e Deus do universo, não é uma só carne, nem apenas um só espírito, mas algo muito mais elevado que a carne e o espírito: um só Deus".

Assim, Orígenes defende que o Pai e o Filho são divinos, contra [as heresias do] Monarquianismo e Modalismo. Termina o interrogatório de Orígenes a Heráclides com o seguinte acordo:

"Orígenes disse: O Pai é Deus?
Respondeu Heráclides: Sim.
Orígenes disse: O Filho é distinto do Pai?
Respondeu Heráclides: Como poderia ser simultaneamente Filho e Pai?
Orígenes disse: O Filho, que é distinto do Pai, é também Deus?
Respondeu Heráclides: Também Ele é Deus.
Orígenes disse: Deste modo, os dois Deuses formam um só?
Respondeu Heráclides: Sim.
Orígenes disse: Por conseguinte, afirmamos que existem dois Deuses?
Respondeu Heráclides: Sim, porém o poder é único (δ?ναμη μ?α εστ?ν)".

Definição esta bem anterior a Nicéia e que, ainda sem precisar a terminologia, serve para expressar o próprio sentir. Assim, com este acordo diante do povo e dos bispos, Cristo foi proclamado como Deus, embora sendo uma Pessoa distinta do Pai. Defendia-se desta forma a individualidade das Pessoas divinas contra o Modalismo e se esclareciam os temores de que, ao se reconhecer Cristo e o Pai como Deus, caía-se no Politeísmo.

Orígenes emprega freqüentemente o termo "Trindade" (In Ioh. 10,39,270; 6,33,166; In Ies. Hom. 1,4,1) e afirma que o Filho procede do Pai. E visto que Deus é eterno, logo este ato de geração também é eterno, de modo que o Filho não teve princípio e não existiu um tempo em que Ele não tenha existido (opõe-se assim, com antecedência, à heresia do Arianismo, que afirmaria algum tempo depois justamente o oposto, isto é, que houve um tempo em que o Filho não existia (De princ. l,2,9s; 2; 4,4,1; In Rom. 1,5)):

"Não se pode conceber luz sem resplendor. E se isto é verdade, nunca houve um tempo em que o Filho não fosse Filho. No entanto, não será - como dissemos sobre a luz eterna - sem nascimento (pareceria que introduzimos dois princípios de luz), mas que é, por assim dizer, resplendor da luz ingênita, tendo esta mesma luz como princípio e fonte, verdadeiramente nascida dela. Não obstante, não houve um tempo em que não foi. A Sabedoria, por proceder de Deus, é gerada também da mesma substância divina. Sob a figura de uma emanação corporal, é chamada assim: 'Emanação pura da glória de Deus onipotente' (Sabedoria 7,25). Estas duas comparações manifestam claramente a comunidade de substâncias entre o Pai e o Filho. Com efeito, toda emanação parece ser 'ομοο?σιος', οu seja, de uma mesma substância com o corpo do qual emana ou procede" (In Hebr. frag. 24,359).

Observe-se que ele emprega a palavra "ομοο?σιος" ("homoousios"), que significa "mesma substância", a qual posteriormente seria amplamente empregada pelo Concílio de Nicéia para definir solenemente como o Pai e o Filho possuem uma mesma natureza. Refere-se a Cristo também a expressão "θε?νθρωπος" (Deus-Homem).

Porém, Orígenes possui alguns textos confusos, a ponto de parecer tender para o Subordinacionismo. Entre os que o acusam de ter professado este erro encontra-se São Jerônimo; mas outros Padres da Igreja, como Santo Atanásio e São Gregório Taumaturgo o negam. Um dos textos em que parece ser subordinacionista é este:

"Nós, que cremos no Salvador quando diz: 'O Pai que me enviou é maior do que eu', e por essa mesma razão não permite que lhe seja aplicado o apelativo de 'bom' em seu sentido pleno, verdadeiro e perfeito, atribuindo-o ao Pai, dando graças e condenando quem glorificasse o Filho em demasia, nós dizemos que o Salvador e o Espírito Santo estão muito acima de todas as coisas criadas, por uma superioridade absoluta, sem comparação possível; porém, dizemos também que o Pai está acima Deles tanto ou até mais do que Eles estão acima das criaturas mais perfeitas (In Ioh. 13,25).

SÃO JUSTINO (165 D.C.)

Mártir da fé cristã por volta do ano 165 (foi decapitado), é considerado o maior apologista do século II. No Diálogo com Trifão, refere-se a Cristo como 'Deus gerado do Pai do universo' e parte de textos da Gênese, onde Deus fala na primeira pessoa do plural, para demonstrar a pluralidade das Pessoas divinas. Descarta aqui que estivesse falando com os anjos, já que seria inconcebível que o homem fosse feito por eles; descarta também que estivesse falando com os elementos terrestres. Conclui que falava com Cristo, o qual estava com o Pai antes de todas as criaturas.
"Disse: 'Irei vos apresentar - caros amigos - outro testemunho das Escrituras sobre o que Deus gerou no princípio, antes de todas as criaturas: [gerou] certa potência racional de Si mesmo, a qual é chamada também pelo Espírito Santo, a glória do Senhor, algumas vezes 'Filho', outras vezes 'Sabedoria'; ora 'Anjo', ora 'Deus'; seja 'Senhor', seja 'Palavra'; e ela própria chama a si mesma de 'capitão geral', quando aparece na forma de homem a Josué, filho de Nave. E é assim que todas essas denominações lhe provêm por estar a serviço da vontade do Pai e por ter sido gerada pelo querer do Pai (...) Mas será a Palavra da Sabedoria que me prestará seu testemunho, por ser ela esse próprio Deus gerado do Pai do universo, que subsiste como Palavra e Sabedoria, como poder e glória Daquele que a gerou (...)

Isso mesmo - amigos - expressou a Palavra de Deus pela boca de Moisés, ao nos indicar que o Deus que nos manifestou falou nesse mesmo sentido na criação do homem, ao dizer estas palavras: 'Façamos o homem à nossa imagem e semelhança' (...) E para não distorcerdes as palavras citadas, dizendo o que dizem os vossos mestres - que Deus se dirigiu a Si mesmo ao dizer 'Façamos', da mesma forma que nós quando vamos fazer algo e dizemos 'Façamos' - vos citarei agora outras palavras do mesmo Moisés, pelas quais, sem discussão alguma, teremos que reconhecer que conversava Deus com alguém que era numericamente distinto e juntamente racional. Ei-las aqui: 'E Deus disse: Eis que Adão se tornou como um de nós para conhecer o bem e o mal'. Portanto, ao dizer: 'como um de nós', indica o número dos que entre si conversavam, sendo assim pelo menos dois. Ora, não posso ter por verdadeiro a heresia que se dogmatiza entre vós, nem os mestres delas são capazes de demonstrar que Deus está falando com os anjos ou que o corpo humano foi criado pelos anjos. A menos que tenha brotado, sido emitido realmente a partir do Pai, Ele estava com o Pai antes de todas as criaturas e conversava com o Pai, como nos manifestou a Palavra pela boca de Salomão, ao dizer que antes de todas as criaturas Ele foi gerado por Deus ,como princípio e progênie, sendo chamado 'Sabedoria' por Salomão" (Diálogo com Trifão 61-62).

Mais adiante, refere-se a Cristo como Senhor e Deus:

"Longamente demonstrei que Cristo, que é Senhor e Deus, Filho de Deus, apareceu antes, prodigiosamente, como homem e como anjo, e também na glória do fogo, como na visão da sarça e no juízo contra Sodoma" (Diálogo com Trifão 128).

Em sua 1ª Apologia, distingue clara e ordenadamente as Três Pessoas divinas. Isto descarta que Justino tivesse alguma tendência modalista:

"E logo demonstraremos que com razão honramos também a Jesus Cristo, que foi nosso mestre nestas coisas e que para isso nasceu e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, o procurador da Judéia no tempo de Tibério César. Aprendemos que Ele é Filho do mesmo Deus verdadeiro e o temos em segundo lugar, assim como o Espírito profético está em terceiro" (1ª Apologia 13,3).

Distingue ainda, mais claramente, a pessoa do Pai da do Filho, no capítulo 63, reconhecendo que os profetas falaram de Cristo, proclamando-o como "o Deus de Abraão, Isaac e Jacó":

"Aqueles que dizem que o Filho é o Pai dão prova de que não sabem quem é o Pai, nem perceberam que o Pai do universo tem um Filho e que, sendo Verbo e Primogênito de Deus, é Deus também. Este foi quem primeiramente apareceu a Moisés e aos outros profetas na forma de fogo ou por imagem incorpórea, e que agora, nos tempos do vosso império (...) nasceu homem de uma virgem (...) Agora, aquilo que falou a Moisés a partir da sarça: 'Eu sou aquele que é, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó', significa que, mesmo depois de mortos, esses homens continuavam pertencendo ao próprio Cristo" (1ª Apologia 63,15).

SÃO GREGÓRIO TAUMATURGO (SÉC. III)

Nascido por volta do ano 213, foi bispo de sua cidade natal, Neocesaréia. Compôs um breve símbolo de fé, sobre o qual Quasten comenta: "embora se limite ao dogma da Trindade, é notável por sua exatidão de conceitos e afirma que nenhuma das Pessoas divinas nunca ficaram uma sem as outras e que existiram sempre sem mudanças".

"Há um só Deus, Pai do Verbo vivente, da Sabedoria subsistente, do Poder e da Imagem eterna; gerador perfeito do gerado perfeito, Pai do Filho Unigênito. Há um só Senhor, Único do Único, Deus de Deus, Figura e Imagem da Divindade, Verbo Eficiente, Sabedoria que abraça todo o universo e Poder que cria o mundo inteiro, Filho verdadeiro do Pai verdadeiro, Invisível do Invisível, Incorruptível do Incorruptível, Imortal do Imortal, Eterno do Eterno. E há um só Espírito Santo, que tem sua subsistência de Deus e foi manifestado aos homens pelo Filho: Imagem do Filho, Imagem Perfeita do Perfeito, Vida, Causa dos viventes, Manancial Sagrado, Santidade que comunica a santificação, em quem se manifestam Deus Pai - que está acima de todos e em todos - e Deus Filho - que é através de todos. Há uma Trindade perfeita, em glória, em eternidade e em majestade, que não está dividida nem separada. Não há, conseqüentemente, nada criado nem escravo da Trindade, nem tampouco nada sobre-acrescentado, como se não tivesse existido em algum tempo anterior e fosse introduzido depois. E, assim, nem nunca o Filho falou ao Pai, nem o Espírito Santo ao Filho; ao contrário, sem variação ou mudança, a mesma Trindade sempre existiu" (Exposição da Fé).

NOVACIANO (SÉC. III)

Sacerdote romano. Conforme Eusébio de Cesaréia, se serviu de uma artimanha para ser ordenado bispo de Roma, obrigando que alguns bispos o consagrassem. Causou, assim, um cisma que durou vários séculos. O seu escrito, "Sobre a Trindade" (De Trinitate), porém, foi redigido muitos anos antes de 250 d.C.:

"O Filho, por ser gerado pelo Pai, está sempre no Pai. Quando digo 'sempre', não quero dizer que é ingênito. Afirmo, ao contrário, que nasceu. Porém, nasceu antes de todo o tempo; deve-se dizer que existiu sempre no Pai, visto não ser possível fixar data ao que é anterior a todo o tempo. Ele está eternamente no Pai, pois de outra maneira o Pai não seria sempre Pai. Por outro lado, o Pai é anterior a Ele, pois o Pai deve ser necessariamente anterior ao Filho, já que é Pai; visto que Ele não conhece origem, deve existir anteriormente ao que teve uma origem. O Filho, portanto, é necessariamente posterior ao Pai, pois Ele mesmo reconhece que existe no Pai; teve uma origem, visto que nasceu, e a partir do Pai, de uma maneira misteriosa; contudo, apesar de ter nascido e ter, assim, origem, é em tudo semelhante ao Pai, precisamente em razão de seu nascimento, já que nasceu do Pai, o qual é o único que carece de origem. Ele, portanto, quando o Pai quis, procedeu do Pai; Ele estava no Pai, porque procedia do Pai, não sendo outra coisa senão a Substância divina. Seu nome é Verbo, pelo qual todas as coisas foram feitas e sem o qual nada foi feito. Porque todas as coisas são posteriores a Ele, pois procedem Dele e, conseqüentemente, Ele é anterior a todas as coisas (embora após o Pai), pois todas as coisas foram feitas por Ele. Procedeu do Pai, por cuja vontade todas as coisas foram feitas. Deus, certamente, procedente de Deus, constituindo a segunda Pessoa depois do Pai, por ser Filho, sem que por isso retire do Pai a unidade da divindade" (Sobre a Trindade 31).

Porém, Novaciano professou um Subordinacionismo pois, apesar de possuir a mesma substância, o Espírito Santo era inferior a Cristo e Cristo, por sua vez, inferior ao Pai; por isso, diz que aparece "como o único Deus verdadeiro e eterno; Ele é a única fonte deste poder da divindade, Ainda que seja transmitida ao Filho e concentrada Nele, retorna novamente ao Pai através de sua comunidade de substância":

"O Paráclito recebeu sua mensagem de Cristo. Mas se recebeu de Cristo, Cristo é superior ao Paráclito, pois o Paráclito não teria recebido de Cristo se não fosse inferior a Cristo. Esta inferioridade do Paráclito prova que Cristo, de quem recebeu sua mensagem, é Deus. Aqui tempos, portanto, um poderoso testemunho da divindade de Cristo. Vemos, com efeito, que o Paráclito é inferior a Ele e recebe Dele a mensagem que entrega ao mundo".

SÃO CIPRIANO DE CARTAGO (SÉC. III)

São Cipriano nasceu por volta do ano 200, provavelmente em Cartago, de família rica e culta. Dedicou sua juventude à retórica. O desgosto que sentia diante da imoralidade dos ambientes pagãos, contrastado com a pureza de costumes dos cristãos, lhe induziu a abraçar o Cristianismo por volta do ano 246. Pouco depois, em 248, foi eleito bispo de Cartago. Ao estourar a perseguição de Décio, em 250, julgou melhor se retirar para um lugar afastado, para continuar se ocupando de seu rebanho. Declara a divindade de Cristo numerosas vezes e afirma que quem nega que Cristo seja Deus não pode ser templo de Deus:

"Cristo Jesus, nosso Senhor e Deus, é propriamente o sumo-sacerdote de Deus Pai" (Epístola 63,14).

"Se alguém pudesse ser batizado pelos hereges, poderia certamente receber também o perdão de seus pecados. Se recebesse o perdão dos pecados, poderia ser santificado. Se fosse santificado, poderia se tornar um templo de Deus. Se fosse um templo de Deus, então eu te pergunto: De qual Deus? Do Criador? Porém, isso não é possível, porque ele não crê Nele. De Cristo? Quem nega que Cristo seja Deus não pode se transformar em Seu templo. Do Espírito Santo? A partir do momento em que os Três são Um, como seria possível ao Espírito Santo ser reconciliado com aquele que é um inimigo do Filho ou do Pai?" (Epístola 73,12).

"Após a ressurreição, quando o Senhor enviou os Apóstolos às nações, Ele lhes ordenou a batizar aos gentios em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (...) O próprio Cristo ordenou que as nações sejam batizadas na Trindade plena e unida" (Carta 73,18).

SÃO DIONÍSIO DE ROMA (SÉC. III)

Papa entre os anos de 259 e 268. Combateu o Modalismo e o Subordinacionismo. Quando foi apresentada a Dionísio de Roma uma acusação de que o bispo Dionísio de Alexandria se expressava incorretamente sobre a Trindade, originou-se uma controvérsia que ficou conhecida como "a controvérsia dos dois Dionísios". O Papa convocou um sínodo para o ano de 260 visando solucionar a questão. Em seu nome e em nome do sínodo escreveu uma carta na qual condenava a doutrina modalista de Sabélio e também as opiniões marcionitas que dividiam a monarquia divina em três hipóstases distintas e ainda aqueles que representavam o Filho de Deus como criatura. Na carta a Dionísio de Alexandria, o Papa classifica de blasfema a opinião de que o Filho era o Pai (modalismo) e censura, ainda, a doutrina apoiada pelos catequistas de Dionísio de Alexandria, que afirmavam que cada Pessoa divina tinha uma natureza diferente da outra:

"Ouví dizer que alguns dos teus catequistas e mestres da palavra divina encabeçam este princípio [herético que divide as naturezas das Pessoas divinas]. Eles ensinam de maneira diametralmente oposta à opinião [herética] de Sabélio. Para ele, em sua blasfêmia, diz que o Filho é o Pai e vice-versa; para os teus, que existe de alguma forma três Deuses, pois dividem a Sagrada Unidade em três substâncias diferentes entre si e completamente separadas" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 1).

Também declara que o Arianismo é uma blasfêmia pois afirma que Cristo é um ser criado e que, por ser Cristo a Palavra, Sabedoria e poder de Deus, pode ter havido um tempo em que o Pai existisse sem Ele:

"É blasfêmia, portanto, e até pior, dizer que o Senhor foi de alguma forma criado. Porém, se veio a ser Filho, então Ele não foi [criado], como Ele diz de si mesmo; Ele está no Pai e se você conhece a Divina Escritura, ela diz que Cristo é a Palavra, a Sabedoria e o Poder; e esses atributos são poderes de Deus. Então Ele sempre existiu. Ora, se Ele veio a ser [criado], houve uma época em que esses atributos não existiam e, conseqüentemente, nesse tempo Deus estava sem eles; isso é um completo absurdo" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 1).

"É necessário, no entanto, que a Palavra divina [Jesus Cristo] esteja unida ao Deus do universo; e o Espírito Santo deve respeitar e habitar em Deus. Portanto, a Trindade Divina deve ser reunida em Uma, como se fosse um ápice, quero dizer, o Deus onipotente do universo" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 2).

"Não podemos então dividir em três cabeças divinas a maravilhosa e divina monarquia, nem chamar 'obra', desacreditando a dignidade e excelente majestade de nosso Senhor. Devemos, porém, crer em Deus, o Pai todopoderoso; e em Jesus, seu Filho; e no Espírito Santo. Sustentemos, enfim, que a Palavra está unida ao Deus do universo" (Carta de Dionísio de Roma a Dionísio de Alexandria 3).

CONCLUSÃO:
Depois de termos estudado o testemunho dos Padres pré-nicenos, não é difícil concluir que a doutrina trinitária não é nenhuma novidade e, muito menos, um produto das manobras políticas do imperador Constantino. A Igreja foi fiel em reconhecer que existe um só Deus, sendo Ele Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, e esta verdade era compreendida e ensinada com maior ou menor clareza na era pós-apóstolica e pré-nicena. É claro, ainda, que a maioria dos Padres rejeitavam abertamente tanto o Arianismo (que afirmava que Jesus era um deus menor, criado e subordinado ao Pai, em algum momento não existente) e o Modalismo (que afirmava que existia uma só Pessoa Divina em Deus, sendo o Filho o próprio Pai e vice-versa, embora manifestados de modos diferentes). É certo que alguns Padres não compreenderam cabalmente o mistério trinitário e chegaram a tender para um Subordinacionismo em maior ou menor grau, coisa totalmente compreensível em assunto de tão grande complexidade. Foram, precisamente, conflitos tão graves como o Arianismo e outras heresias, que deram oportunidade à Igreja a se aprofundar nestas verdades de fé.