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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quem foi Constantino?

 


Conta-se que, em outubro de 312 d.C., nos arredores de Roma, um momento de transformação interior remodelou o curso da história ocidental: Constantino, às vésperas da batalha pelo trono imperial, converteu-se ao cristianismo. Diz-se que Constantino teve uma visão estranha, porém poderosa: uma cruz de luz brilhando no céu, acompanhada das palavras gregas "Com este sinal vencerás", mais conhecidas em latim como " In hoc signo vinces", ou "Com este sinal vencerás". Quando saiu vitorioso da Batalha da Ponte Mílvia contra seu rival Maxêncio pelo trono do Império Romano, interpretou sua visão como uma intervenção divina. Os cristãos no Império Romano eram uma minoria perseguida, restrita a se reunir em segredo. Poucas décadas após a conversão do imperador, o Império Romano estaria repleto de igrejas imponentes, enquanto alguns dos templos mais emblemáticos da antiguidade haviam sido abandonados.

A luta pelo poder

Constantino nasceu na classe governante militar do final do século III, filho do oficial do exército Flávio Valério Constâncio "Cloro" e de sua concubina Helena. O início do século IV foi um período turbulento para o Império Romano. Após décadas de guerras civis e invasões estrangeiras, o imperador Diocleciano (r. 284–305) tentou restaurar a estabilidade introduzindo um sistema de governo conhecido como Tetrarquia em 293. Cada metade do império, Oriente e Ocidente, era governada por um imperador sênior (Augusto) e um imperador júnior (César). Diocleciano governava o Oriente com Galério como seu César, enquanto Maximiano governava o Ocidente com Constâncio Cloro — pai de Constantino — como seu júnior.

Quando Constâncio foi enviado para servir como César sob o imperador Maximiano, apaixonou-se pela enteada deste, Teodora. Abandonou Helena para casar-se com Teodora, com quem teve mais seis filhos. Enquanto isso, Constantino foi enviado para viver na corte do também imperador Diocleciano em Nicomédia (atual Izmit, Turquia). Constantino foi levado para a corte de Diocleciano como estratégia política — para mantê-lo sob vigilância e garantir a lealdade de seu pai, Constâncio Cloro. Em Nicomédia, Constantino aproveitou a oportunidade para provar seu valor no campo de batalha, servindo sob o comando do César Galério em campanhas contra os persas e sármatas. Essas vitórias impulsionaram sua reputação e mantiveram viva sua ambição pelo poder político.

Em 305, após a abdicação de Diocleciano e Maximiano, o pai de Constantino, Constâncio Cloro, tornou-se Augusto no Ocidente, ao lado de Galério no Oriente, mas Constantino não foi promovido a César. Um ano depois, quando Constâncio Cloro adoeceu e morreu lutando contra os pictos na Escócia, seu exército proclamou Constantino como Augusto, em detrimento de Severo II, o imperador mais jovem. Galério, contudo, desejando afirmar seu domínio sobre o império, concordou apenas que Constantino alcançasse o título de César.

Nos anos que se seguiram, Constantino aliou-se a Galério contra um inimigo comum: Maxêncio, filho de Augusto Maximiano. Esperava-se que Maxêncio sucedesse ao pai, mas também foi marginalizado pelo sistema de sucessão planejado pelos tetrarcas, com o trono sendo transferido para outros imperadores. Sem o apoio formal dos tetrarcas, ele ascendeu ao poder em Roma pela força, sob o título de príncipe. Galério considerava Maxêncio um impostor e sitiou Roma numa tentativa de capturá-lo. Enquanto isso, Constantino continuou liderando as campanhas de Roma contra as tribos germânicas ao longo da fronteira do Reno. Após a morte de Galério, Constantino cruzou os Alpes rumo à Itália em 312 com o objetivo de pôr fim à rebelião de Maxêncio e assumir o controle de Roma.

Combates no Tibre

Como era costume antes de qualquer grande batalha, ambos os líderes buscaram orientação dos deuses. Maxêncio pediu a seus adivinhos que consultassem os livros sibilinos, uma antiga coleção de oráculos. Encorajado por presságios favoráveis, Maxêncio decidiu confrontar Constantino fora da segurança das muralhas de Roma, na Via Flamínia, na Ponte Mílvia, onde a estrada cruzava o Tibre em direção ao flanco norte da península. Constantino, por sua vez, olhou para os céus em busca de um presságio. E encontrou um.

Uma última resistência fatal na Ponte Mílvia

Diante da iminente aproximação de seu rival Constantino, Maxêncio ordenou a demolição de todas as pontes sobre o rio Tibre, em Roma. A manobra calculada forçaria Constantino a sitiar a capital, e Maxêncio estava confiante de que poderia resistir por mais tempo na defensiva. Mas então, o arúspice (adivinho) de Maxêncio relatou uma profecia dos Livros Sibilinos de que "o inimigo de Roma" pereceria naquele dia. Convencido de que o oráculo se referia a Constantino, Maxêncio viu nisso uma garantia de vitória. Em vez de esperar atrás das muralhas, ele liderou suas tropas para confrontar Constantino em campo aberto. 

Uma ponte de barcas foi construída às pressas ao lado da extinta Ponte Mílvia, permitindo que seu exército cruzasse o rio para a parte norte da cidade, onde as duas forças se enfrentaram. Mas Maxêncio interpretou mal os sinais. Seu exército desmoronou sob o ataque de Constantino. No caos da retirada, muitos se afogaram no Tibre — incluindo o próprio Maxêncio. Sua cabeça decepada foi posteriormente exibida em desfile pelas ruas de Roma em comemoração.

O símbolo em forma de cruz que Constantino acreditava ter visto era o Chi-Rho, um monograma formado pelas duas primeiras letras do nome de Cristo em grego, (chi) e (rho). Naquela mesma noite, Constantino teve um sonho em que Cristo lhe ordenou que usasse esse símbolo nas batalhas contra seus inimigos. 

Constantino rapidamente mandou estampar o símbolo Chi-Rho nos escudos e capacetes de seu exército, bem como no lábaro (estandarte imperial), onde substituiu a águia tradicional. Em seguida, marchou contra as tropas de Maxêncio, que estavam espalhadas pelas margens do Tibre, perto da destruída Ponte Mílvia, que bloqueava a travessia crucial em direção a Roma. Constantino aniquilou seus rivais. Enquanto Maxêncio e seu exército fugiam, sua ponte de barcas desabou, matando Maxêncio e levando Constantino à vitória, que ele prontamente atribuiu ao Deus cristão.

Da visão à conversão

Eusébio (c. 260-339 d.C.), bispo de Cesareia, registrou a conversão de Constantino em sua biografia, baseada no próprio relato de Constantino. Sua História Eclesiástica oferece o relato mais detalhado da conversão de Constantino em 312. Certa noite, Constantino “viu com seus próprios olhos o troféu de uma cruz de luz nos céus, acima do sol, com a inscrição: COM ISTO VENCERÁS”. Maravilhado, ele não sabia como interpretar a visão. Naquela noite, Jesus Cristo lhe apareceu em um sonho, ordenando-lhe que criasse uma cópia do sinal e a usasse em todas as batalhas contra seus inimigos. 

Na manhã seguinte, Constantino descreveu cuidadosamente sua visão a artesãos habilidosos e ordenou-lhes que moldassem o símbolo exatamente como ele o vira, convocando também estudiosos cristãos para explicar seu significado. Eles confirmaram que Jesus era o Filho unigênito de Deus e que o sinal simbolizava a imortalidade e a vitória sobre a morte, que Cristo alcançou na Terra. Eles também explicaram os motivos da vinda de Cristo e a verdadeira história de sua encarnação. Convencido de que Deus era o salvador universal e Cristo seu campeão, Constantino colocou o símbolo Chi-Rho no lábaro (estandarte militar) à frente de suas tropas enquanto avançavam contra Maxêncio.

Há muito se debate se a conversão de Constantino realmente ocorreu de forma tão repentina quanto sugerem seus contemporâneos. Antes de sua conversão, Constantino, assim como seu pai, cultuava Sol Invictus, uma combinação de várias divindades solares, cujo culto havia sido elevado à condição de religião oficial e passara a simbolizar a vitória real sob o imperador Aureliano (r. 270–275). Constantino provavelmente também teve contato com cristãos enquanto vivia em Nicomédia, na corte de Diocleciano. No final do século III, o cristianismo havia se fortalecido especialmente nas províncias orientais do império, onde se espalhou rapidamente por meio de uma rede de rotas comerciais e densos centros urbanos, com algumas regiões adotando-o como religião oficial muito antes de receber o reconhecimento oficial do império Romano.

Uma figura isolada

Logo após a batalha, no final de 312, Constantino entrou triunfalmente em Roma, onde foi aclamado pelo Senado. Ele estava firmemente comprometido com a promoção do cristianismo, mas a grande maioria da população romana ainda cultuava os deuses pagãos, então Constantino foi cauteloso ao declarar publicamente sua nova fé. Talvez como reflexo desse desejo por estabilidade política, o arco triunfal erguido perto do Coliseu em homenagem à sua vitória apresenta imagens pagãs e não ostenta símbolos cristãos, com a inscrição ambígua * instinctu divinitatis* , “por inspiração divina”. 

Um ano depois, Constantino se encontrou com Licínio em Milão, então Augusto do Império Romano do Oriente. Por iniciativa de Constantino, os dois governantes emitiram uma proclamação de tolerância religiosa que ficou conhecida como o Édito de Milão. Ela garantia a liberdade de culto em todo o Império Romano, reconhecia os direitos legais dos cristãos e ordenava a restituição de suas propriedades confiscadas.

O crescente controle de Constantino sobre o império deu-lhe espaço para começar a apoiar abertamente o cristianismo por meio do mecenato imperial. Em Roma, Constantino encomendou a construção da Basílica de São João de Latrão, que se tornaria a catedral do papa. Além dos muros da cidade, a onda de construções imperiais continuou: a grandiosa Basílica de São Pedro ergueu-se no Monte Vaticano, exatamente no local onde se acredita que o apóstolo esteja sepultado. Ao longo da Via Ostiense, a Basílica de São Paulo tomou forma, homenageando outro pilar da igreja primitiva. Para os cristãos de Roma, esses gestos monumentais eram mais do que arquitetura — eram um poderoso sinal de que, finalmente, o imperador estava ao lado deles.

Vingança no Palácio Imperial

Um capítulo arrepiante do reinado de Constantino ocorreu quando ele executou sua esposa, Fausta, e seu primogênito, Crispo, de um casamento anterior. Fausta, na esperança de prejudicar Crispo aos olhos do pai, o acusou de estupro, sem prever a brutal reação do imperador. Enfurecido com a acusação, Constantino ordenou a decapitação imediata de Crispo e, pouco depois, o assassinato de Fausta em um banho quente. Escritores pagãos posteriormente usaram o episódio para afirmar que Constantino havia se convertido ao cristianismo menos por fé genuína do que por culpa, já que era a única religião que oferecia perdão para tais crimes.

Constantino assumiu o controle absoluto do Império Romano em 324, após derrotar Licínio na Batalha de Crisópolis (atual Üsküdar, Turquia). Para selar seu triunfo, decidiu transformar a antiga cidade de Bizâncio (atual Istambul) em uma esplêndida capital imperial, batizada com seu próprio nome: Constantinopla. Como não se sentia à vontade em Roma, com sua elite conservadora, Constantino desejava fundar uma “segunda Roma” nesse enclave estratégico na entrada do Mar Negro, entre a Europa e a Ásia. Em 8 de novembro de 324, poucos meses após a Batalha de Crisópolis, ele demarcou fisicamente o perímetro da nova cidade, marchando ao redor dela com uma lança em punho. Seis anos depois, Constantinopla foi oficialmente inaugurada.

Assim como Roma, a nova cidade foi construída sobre sete colinas e ostentava diversos fóruns, uma cúria (casa do Senado) e palácios imperiais semelhantes aos que existiam no Monte Palatino. As Termas de Zeuxipo, os pórticos da principal avenida da cidade, conhecida como Mese, e outros locais importantes ao redor da cidade foram adornados com obras de arte saqueadas de santuários pagãos. No centro de um novo fórum com pórticos, foi erguida uma grande coluna de pórfiro, encimada por uma estátua de Constantino à semelhança do deus sol Apolo. O que Constantino mais desejava, porém, era uma cidade onde pudesse demonstrar sua fé no Deus cristão.

A capital cristã

Os elementos pagãos da cidade de Constantinopla foram logo ofuscados pelos impressionantes edifícios cristãos encomendados por Constantino. Sua Igreja dos Santos Apóstolos, concebida como um mausoléu imperial, dominava Constantinopla do alto de uma das colinas mais altas da cidade.

Além de expandir a capital de seu império cristão unificado, Constantino buscou fortalecer o papel da Igreja e torná-la o alicerce de todo o império. Ele presidiu o Concílio de Niceia em 325, cuja função era resolver as disputas teológicas sobre a verdadeira natureza de Jesus Cristo. Lá, Constantino entrou em conflito com o bispo Ário e seus seguidores, que argumentavam que Cristo era um ser criado por Deus, mas não eterno. Sua doutrina ficou conhecida como heresia ariana; enquanto a visão de Constantino, de que o Filho de Deus compartilhava a mesma essência divina do Pai, prevaleceu e foi sintetizada no Credo Niceno, a base da Igreja Católica até os dias atuais. 

Constantino também honrou os locais sagrados do cristianismo. Em Belém, ele ordenou a construção da Basílica da Natividade no suposto local do nascimento de Jesus. E na colina conhecida como Calvário ou Gólgota, em Jerusalém, local onde se acredita que Jesus foi crucificado, ele mandou demolir um templo de Vênus e substituí-lo pela Igreja do Santo Sepulcro, também conhecida como Igreja da Ressurreição. A mãe de Constantino, Helena, que se converteu ao cristianismo sob a influência do filho, fez uma peregrinação à Terra Santa, durante a qual supervisionou esse ambicioso programa de construção, bem como inúmeras outras obras piedosas.

O último apóstolo

Nos últimos anos de sua vida, Constantino passou longos períodos em Constantinopla, preparando uma campanha religiosa contra o Império Sassânida, mas morreu pouco depois da Páscoa de 337. Como era prática comum entre os primeiros cristãos, ele foi batizado já em estado terminal para não anular o efeito purificador do sacramento com novos pecados.

Em consonância com a tradição imperial, o Senado de Roma decretou que Constantino fosse deificado como Divus Constâncio e recebesse as honras correspondentes. Em Constantinopla, entretanto, os funerais cristãos eram realizados na Igreja dos Santos Apóstolos, onde o corpo de Constantino foi reverentemente depositado no mausoléu imperial e designado como o “Décimo Terceiro Apóstolo”. A morte de Constantino marcou o fim de uma era, mas seu legado de unir império e fé moldaria o curso tanto de Roma quanto do cristianismo pelos séculos vindouros.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Constantino, um Imperador a serviço do deus Sol

Constantino e o Império Romano no 4º século
Uma descrição do mundo romano após a Tetrarquia.


Depois da morte de Galério em 311, quatro imperadores disputam o poder: Constantino, Maximino Daia, Maxêncio e Licínio. A guerra entre eles torna-se inevitável. Licínio e Maximino se enfrentavam no Oriente, enquanto Constantino e Maxêncio, no Ocidente. Em um primeiro momento, Licínio e Maximino fizeram um acordo. Em 313, Licínio casa-se com a meia-irmã de Constantino, Flávia Júlia Constantina, com quem teve um filho, Licínio II. Por razões políticas, volta-se contra Maximino Daia, derrotando-o no mesmo ano. Maximino foi condenado à morte. Desse modo, o Oriente voltou a ter um único senhor.

Com a derrota e morte de Maxêncio em 312, na ponte Mílvia, uma nova aliança é estabelecida entre Constantino e Licínio. Após alguns enfrentamentos iniciais, firmaram a paz em Sérdica, no ano de 317. Durante esse período, ambos nomearam novos césares, segundo as suas conveniências, membros da sua família, independentemente da idade.

O próprio Senado Romano, por causa do aumento dos impostos, pediu a Constantino que invadisse Roma, expulsando Maxêncio. Essa passagem foi ricamente descrita por Eusébio de Cesareia e Lactâncio. Na realidade, o exército de Constantino era bem inferior ao de Maxêncio, mas, como comandante militar, Constantino era superior ao rival. Napoleão Bonaparte, imperador francês, já dizia no século XIX: “é melhor um exército de coelhos comandados por um leão, do que um exército de leões comandados por um coelho”. Em 313, já como senhor do Ocidente, Constantino assina o Edito de Milão, com Licínio, senhor do Oriente.

Reunidos em Milão, em 313, Constantino e Licínio assinam o Edito de Milão. Em resumo, o documento declarava que o Império Romano seria neutro em relação ao credo religioso, acabando oficialmente com toda perseguição sancionada oficialmente, especialmente ao Cristianismo. A aplicação do Edito fez devolver os lugares de culto e as propriedades que tinham sido confiscadas dos cristãos e vendidas em praça pública. O Edito deu ao Cristianismo (e a todas as outras religiões) o estatuto de legitimidade, comparável com o paganismo e, com efeito, desestabeleceu o paganismo como a religião oficial do Império Romano e dos seus exércitos.

Na tentativa de consolidar a totalidade do Império Romano sob o seu domínio, Licínio em breve armou seu exército contra Constantino I. Como parte do seu esforço de ganhar a lealdade dos seus soldados, Licínio dispensou o exército e o serviço civil da política de tolerância do Edito de Milão, permitindo-lhes a expulsão dos cristãos. Em resumo, Licínio torna-se um perseguidor. Depois de novos enfrentamentos, em 324, Constantino reunifica o império.

Constantino, além de mandar executar Licínio, seu cunhado, e o filho dele, Licínio II, em 325, depois de prometer publicamente não fazê-lo (Eusébio de Cesareia cita em seus escritos que Licínio estava à frente de uma série de intrigas), meses depois mandou executar Crispo, seu filho mais velho (seu César e vencedor de Licínio na batalha naval de Crisópolis, em 324), o que lhe permitiu o acesso ao Bósforo e às províncias orientais de Licínio.

As razões dessa execução ainda são um tanto obscuras. Alguns historiadores como Zósimo, no século V, e João Zonaras, no século XII, relatam um envolvimento amoroso entre a madrasta, Fausta (293-326), filha de Maximiano, também condenada à morte, por adultério, e Crispo (305-326).

Outras teorias acrescentam que Fausta estava com medo de que o filho do primeiro casamento fosse o sucessor de Constantino; e Crispo, filho de Constantino com Minervina (pouco sabemos dessa união), educado por Lactâncio, já havia demonstrado sua competência como militar e administrador sendo considerado como o neto favorito de Helena (mãe de Constantino). Influenciado pela mãe e atormentado após descobrir a inocência do filho (causa principal da condenação de Fausta), Constantino teria aceito o batismo, que segundo Eusébio de Cesareia, perdoaria seus pecados. O compositor italiano Donizetti, em 1831, escreveu a ópera Fausta, que narra boa parte dos acontecimentos.

Durante todo o seu reinado, dedicou-se a reformar profundamente o Império. Modificou a composição do Senado, cujo conselho estava composto por 600 membros, aumentando para 2.000 magistrados. Outra inovação foi a reforma da prefeitura do pretório: os comandantes da guarda imperial se converteram em altos funcionários provinciais, dotados de amplos poderes civis, responsáveis por manter a ordem pública e as finanças.

Apesar de não retornar à antiga forma de governo de que seu pai fez parte, Constantino limitou-se, dois anos antes de sua morte, a dividir o governo dos territórios em cinco partes: três partes, as maiores, seriam entregues a seus três filhos; as outras duas, a três de seus sobrinhos. Ou seja: coube ao filho mais velho, Constantino II, a Bretanha, a Gália e a Espanha; Constâncio II ficou com a rica parte oriental do Império, que desde 333 governava como César em Antioquia; o mais jovem, Constante, ficou com a Itália, a África e a Panônia. Os primos Flávio Júlio, Dalmácio e Anibaliano ficaram, respectivamente, com os Bálcãs e a Ásia Menor.

A ascensão de Constantino esteve ligada à transformação do Cristianismo. Os relatos de Eusébio de Cesareia, seu biógrafo, retratam o sonho de Constantino, à tarde, antes da batalha da ponte Mílvia. Ordenou pintar nos escudos de suas tropas o monograma cristão (☧). Assim venceu o usurpador Maxêncio. Essa passagem é citada por Lactâncio e Eusébio de Cesareia, este último a cita duas vezes: na História Eclesiástica e De Vita Constantini. A tradição cristã diz que pouco antes de entrar em combate contra Maxêncio, o imperador “rezava e fazia frequentes súplicas”, segundo o seu amigo e biógrafo Eusébio de Cesareia, quando surgiu um sinal divino no céu: as iniciais da palavra Cristo em grego (ΧΡ), acompanhada da inscrição in hoc signus vinces (com esse sinal vencerás). Constantino teria mandado pintar o sinal nos escudos dos soldados, vencendo, assim, a batalha. Segundo o retórico cristão Lactâncio, contemporâneo de Eusébio de Cesareia, a visão de Constantino ocorreu durante o sono, pouco antes do combate. Lembramos, ainda, que Eusébio escreveu a sua obra em grego, e Lactâncio, em latim.

O símbolo (☧), ΧΡ, as iniciais da palavra Cristo em grego, pode ser encontrado na bandeira do Estado do Vaticano, na estola dos bispos católicos e na sacristia das igrejas, entre outros lugares. A data do Natal, 25 de dezembro, foi oficializada por Constantino. Era o dia do culto ao Deus Sol, Apolo. Antes disso, o Natal era comemorado no dia 6 de janeiro (hoje dia de Reis). Na época, para popularizar a religião, trocavam as datas festivas.

Constantino tinha inicialmente uma religião solar, de tendência monoteísta, culto ao Sol ou sol invictus. Ele se considerava inspirado por um Deus Único, mas mal definido, e mantinha as funções de pontifex maximus (Sumo Pontífice, sacerdote do Colégio dos Pontífices, mais alto cargo religioso em Roma, desde o século VII a.C.) e mestre do paganismo.

O historiador paulista Pedro Paulo Funari define essa suposta conversão de Constantino como um jogo político. Segundo o autor:

Assim o imperador Constantino concedeu aos cristãos, por meio do chamado Edito de Milão, em 313, liberdade de culto. Em seguida, esse mesmo imperador procurou tirar vantagem e interveio nas questões internas que dividiam os próprios cristãos e convocou um concílio, uma assembléia da qual participavam os principais padres cristãos. Nos Concílios foram discutidas as diretrizes básicas da doutrina cristã. Depois, Constantino cuidou pessoalmente para que as determinações do concílio fossem respeitadas, ou seja, passou a ter um controle muito maior dos cristãos e suas idéias. Antes de morrer, o imperador resolveu batizar-se também (FUNARI, 2002, p. 143).

No campo econômico, com o intuito de controlar a inflação, Constantino criou uma nova moeda de ouro, o solidus, diminuindo o peso do aureus (antiga moeda de ouro). Essa moeda teve a primeira cunhagem em 310 e conseguiu estabilizar rapidamente o sistema monetário. O solidus circulava só entre a elite político-econômica, e não entre as classes mais baixas, que continuavam utilizando moedas de bronze, cobre ou prata, que eventualmente sofriam as devidas desvalorizações.

Em 324, é cunhado o miliarense, moeda de prata que poderia chegar ao valor de 1/12 do solidus aureus. Quanto à massa em circulação, era constituída por espécies de cobre e bronze, de peso variável.

Constantino apoderou-se dos tesouros do antigo rival Licínio, mas dois anos mais tarde, a maior parte das casas monetárias, fundadas por Diocleciano, era fechada. Em 332, graças ao confisco dos bens dos templos pagãos, foi possível reabri-las.

Na administração, ocorreram alterações significativas nas funções. O ministro do tesouro real, o rationalis, cedeu lugar ao conde das liberalidades sagradas; e o procurator rei privatae passou a ser chamado conde dos bens privados, na organização dos bens e da fortuna do príncipe para que revertessem as rendas do ager publicus, dos domínios confiscados, das terras municipais e os recursos dos templos.

De fato, a política constantiniana de grandes despesas não conseguiu deter a inflação. Um fato importante que gerava o aumento dos preços era a prática do fornecimento de pão, que a princípio era gratuito, passando, em seguida, a um preço reduzido, bem como as distribuições de azeite e de carne de porco, que aumentaram à medida que eram ampliadas as fronteiras imperiais.

Com a morte de Constantino em 337, teve início um período de lutas internas pelo poder. Os numerosos meios-irmãos e sobrinhos de Constantino foram assassinados por políticos poderosos. Constâncio II defendia uma sucessão dinástica ordenada, livre da disputa entre os diversos ramos da família. Essa idéia, assassinato dos membros da família, foi defendida por Helena (futura Santa Helena), mãe de Constantino, sendo provável que Constâncio II, o homem-forte do novo regime, tenha ordenado o massacre. Deixou vivos, por razões sucessórias (também como refém) os jovens primos Constâncio Galo e Juliano. Mais tarde, ambos assumiram a função de César, primeiro Galo, depois Juliano.

Depois da morte de Constantino em 337, o massacre de seus familiares, a morte de Constantino II (317-340) e Constante (320-350), o Império retorna às mãos de um único senhor, Constâncio II (317-361), responsável pelo reinado mais longo do século IV, após a morte do pai.

Os problemas administrativos e a questão sucessória levam Constâncio a nomear seu primo, Constâncio Galo como César. As intrigas palacianas e a instabilidade de Galo levam-no a ser executado sob a acusação de traição. Seu irmão Juliano é chamado à presença de Constâncio em Mediolanum (Milão). Em 355, foi nomeado César da parte ocidental do Império e casou com a irmã do imperador. Nos anos seguintes, lutou contra as tribos germânicas que tentavam entrar em território do Império. Nesta luta, distinguiu-se como estrategista, administrador e legislador. Recuperou Colônia Agripina (Colônia, Alemanha) em 356, derrotando os alamanos (em Argentoratum, na Batalha de Estrasburgo, França / Alemanha) assegurando a fronteira do Reno por outros cinquenta anos.

Em 360, Constâncio lhe ordenou transferir suas tropas da Gália, comandadas por Juliano, para o exército do leste. Tanto Juliano quanto seus soldados não gostaram da atitude de Constâncio, o que provocou uma insurreição que fez com que as tropas da Gália proclamassem Juliano, Augustus e novo imperador. Não houve uma luta propriamente dita entre Constâncio e Juliano. Constâncio II morreu de peste (peste bubônica, muito comum na época) quando se deslocava para a Gália. As próprias legiões de Constâncio reconheceram Juliano como único imperador.

Como profundo conhecedor da lei, Juliano elaborou um corpo legislativo e restabeleceu a posição dos senadores municipais e recuperou o estado lastimável em que se encontravam as cúrias. É bom lembrar que a aplicação de suas leis ocorreu em todo o território romano, ocidental e oriental. Influenciado pelos fundamentos aristotélicos sobre a lei, tentou associar essa teoria com a sua prática legislativa.

Durante a luta contra os persas sassânidas, Juliano sofreu um ferimento mortal por uma flecha ou lança. Libânio, filósofo e amigo pessoal do imperador, escreveu que Juliano foi assassinado por um soldado cristão de seu próprio exército, embora essa acusação não fosse corroborada por Amiano Marcelino nem por nenhum outro historiador contemporâneo. Joviano, seu sucessor, governou apenas oito meses.

Valentiniano e Teodósio: uma nova dinastia?

Valentiniano I (321-375), antigo comandante militar durante o governo de Juliano e Joviano, foi proclamado imperador pelo exército de Niceia. Instalou-se em Mediolanum (Milão) e associou-se ao seu irmão Valente. Conseguiu expulsar os alamanos da Gália e estabeleceu a paz na Bretanha, sufocando uma série de revoltas.

No ocidente, Valentiniano I foi sucedido por seus filhos Graciano e Valentiniano II, que na ocasião estavam com 16 e 4 anos. Ambos foram controlados, reciprocamente, por seus conselheiros. Esses governos não foram suficientemente fortes, e o usurpador Magno Máximo assassinou Graciano em Lion (França) e instalou sua corte em Trèveres (Trier, Alemanha), esperando o reconhecimento de seu poder por parte de Teodósio, que governava o oriente desde 379.

Teodósio I (346-395), filho de Flávio Teodósio, um general de Valentiniano I, condenado à morte por Valentiniano I, recebeu de Graciano a parte oriental do Império em janeiro de 379. Seus primeiros anos de governo estiveram ligados aos problemas com os invasores godos. Em 382, firmou um tratado com eles, por meio do qual poderiam se estabelecer em território romano, porém deveriam integrar-se ao exército como federados. Mais tarde, Teodósio assina um acordo com os persas sassânidas, poderoso império rival de Roma no século IV.

Durante o ano de 387, Máximo invade a Itália, destronando Valentiniano II, que consegue refúgio no Oriente com Teodósio. Em resposta, o Imperador do Oriente marchou contra Máximo em 388, vencendo o usurpador, que morreu em combate. Restabeleceu assim, Valentinano II como Imperador do Ocidente.

Um ano depois, Valentiniano aparece morto, supostamente por suicídio. Arbogasto, general franco, escolhe Flávio Eugênio como Imperador. Eugênio, pagão, tenta restaurar o culto aos deuses, sendo derrotado e morto pelas tropas de Teodósio em Aquileia. O Império é unificado pela última vez. Toda a corte é assentada em Milão, nova capital.

Teodósio morreu na cidade de Milão em janeiro de 395. Foi o último imperador que, graças à sua habilidade pessoal e sua força de caráter, exerceu um controle sobre o Império Romano. Deixou o poder nas mãos de seus filhos Arcádio (377 ou 378-408), em Constantinopla, e Honório (387-423), em Milão. Apesar de nenhum dos dois ter a personalidade ou o carisma do pai, a sucessão transcorreu sem resistência.

Considerações Finais

Arcádio morreu em 408, e seu filho Teodósio II, coimperador desde 402, com um ano de idade, o sucedeu. Em 423, morre Honório, depois de um reinado de atividade nula. Em 425, Valentiniano III, filho de Gala Placídia, irmã de Honório, é instituído Imperador do Ocidente. Com apenas seis anos de idade, a regência coube à sua mãe, e a partir de 433, o poder passou para o magister militum (mestre dos soldados) Flávio Aécio. Nesse período, os Vândalos instalaram-se no império, e os hunos cruzam as fronteiras.

A continuidade dinástica não impediu as rivalidades políticas entre os partidários de um ou outro imperador. Mas, apesar da pouca idade dos governantes, a influência dos seus generais e ministros foi de suma importância para uma efêmera estabilidade política nesses tempos extremamente difíceis para o Império Romano.

Nesse período ocorreram menos desordens do que nos anteriores. Efetivamente após ter conhecido uma dinastia constantiniana e uma valentiniana, o século V conhece uma dinastia teodosiana, ambas interligadas entre si pelo casamento dos seus membros.

Começa a surgir um sentimento de lealdade monárquica, apesar de uma série de transtornos. A melhor prova disso é que, apesar de toda a carência militar e política, os filhos de Teodósio I morreram de morte natural.

A idéia familiar foi suficientemente forte para que, de uma dinastia a outra, se procurasse criar um laço por meio do matrimônio. Valentiniano casa o filho Graciano, então como dezesseis anos, com a neta de Constantino, de treze anos. E Teodósio, por sua vez, desposou a filha de Valentiniano.

Lentamente, vai-se instalando nas vastas regiões imperiais um respeito ao imperador como governante supremo. Por este motivo, não podemos considerar completamente ineficazes os esforços das dinastias do Baixo Império para regularizar a transmissão de poder, uma herança que os reis medievais vão aproveitar muito bem, para legitimar e consolidar seus reinos.

Uma nova capital é efetivada, Constantinopla, antiga colônia grega de Bizâncio. A sua vida política, econômica e social, aos poucos vai se fortalecendo, rivalizando com a própria Roma. A idéia de Constantino era enfraquecer o incontrolável Senado Romano, estabelecer um eixo político-econômico mais próximo aos Bálcãs, protegendo a área contra uma futura invasão persa.

As bases das reformas de Constantino foram mantidas pelos seus sucessores. A aliança com a Igreja, legítima herdeira de Cristo e do Império, tornou-se cada vez mais forte. Com isso, está formado uma das bases do pensamento político medieval. O Sumo Pontífice, bispo de Roma, e as dinastias germânicas.
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Agradecimentos ao meu grande amigo
Pedro Paulo Funari - historiador