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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Evangelhos de Mateus e Lucas

 


EVANGELHO DE MATEUS

Marilyn Mellowes escreveu: “O evangelista que compôs o Evangelho de Mateus era provavelmente um judeu cristão, possivelmente um escriba. As evidências históricas sugerem que ele escreveu entre 80 e 90 d.C. e direcionou sua obra a uma comunidade em conflito: judeus cristãos que estavam sendo expulsos das comunidades maiores, localizadas no norte da Galileia ou na Síria. Essas comunidades eram lideradas por fariseus, rabinos que assumiram a liderança do povo judeu após a destruição de Jerusalém.

“Mateus se esforça para situar sua comunidade firmemente dentro de sua herança judaica e para retratar um Jesus cuja identidade judaica é inquestionável. Ele começa traçando a genealogia de Jesus. Para isso, Mateus só precisaria mostrar que Jesus era descendente do Rei Davi. Mas Mateus não deixa nada ao acaso. Ele traça a linhagem de Jesus até Abraão. Nas palavras de Helmut Koester, 'Para Mateus, é muito importante que Jesus seja filho de Abraão'. Em resumo, Jesus é judeu.”

Mateus fundamenta toda a sua obra nas tradições do judaísmo. A narrativa de Mateus inclui a maior parte do Evangelho de Marcos, mas é complementada com ditos, outra fonte escrita conhecida como "M" e possivelmente outros materiais também. Mesmo incluindo relatos de milagres, a principal preocupação do evangelista é apresentar Jesus como um mestre ainda maior que Moisés. Assim, Mateus utiliza suas fontes para criar uma narrativa um tanto diferente, na qual Jesus instrui o povo repetidamente.

A mensagem de Jesus em Mateus

Marilyn Mellowes escreveu: “No Evangelho de Mateus, Jesus profere cinco discursos principais, que são paralelos aos cinco grandes livros de Moisés, conhecidos como Pentateuco. O primeiro e mais importante dos discursos de Jesus é o Sermão da Montanha. Uma das características intrigantes deste discurso é a repetição, por Jesus, das palavras: 'Ouvistes o que foi dito... Mas eu vos digo'. Mateus está dando uma nova interpretação à Lei; ele está estabelecendo a igreja como o novo Israel. 

A preocupação de Mateus com o estado da igreja se reflete na maneira como ele conta a história de Jesus acalmando a tempestade. Em grego, a palavra 'tempestade' significa, na verdade, terremoto. De acordo com uma interpretação, essa história é, na verdade, uma metáfora: os discípulos representam a comunidade cristã, o barco é a igreja. Diante da turbulência e da incerteza que desafiam a fé e ameaçam destruir a igreja, Jesus dá segurança aos fiéis: 'Eis que estou convosco até o fim dos tempos'.

“Mateus reconta a cena final da história de Marcos. As mulheres chegam ao túmulo e descobrem que Jesus não está mais lá. Mas desta vez, o anjo as instrui a dizer aos discípulos que ele ressuscitou. Então, o próprio Jesus aparece diante das mulheres e as orienta a dizer aos discípulos para encontrá-lo na Galileia. Os discípulos vão ao monte — assim como o próprio Jesus havia subido para proferir o Sermão da Montanha — e encontram Jesus. Mas alguns deles têm dúvidas. Será mesmo ele? Jesus os tranquiliza: "Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra". E também os instrui: "Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo".

“Observe que Jesus não diz aos discípulos para irem apenas a “Israel” ou às “ovelhas perdidas da casa de Israel”. Ele lhes diz para irem “às Nações” — a todos os povos. Pois o Reino que Jesus prometeu abrangerá tanto judeus quanto gentios.”

Jesus em Mateus - um homem de Israel

O professor Helmut Koester disse: “O Evangelho de Mateus trata da posição dessas primeiras igrejas cristãs dentro de Israel, ou em sua relação com o que chamamos de judaísmo. E essas são preocupações que pertencem ao período posterior à queda de Jerusalém. Como essas comunidades cristãs, que nem sequer se autodenominam cristãs, e provavelmente nem têm consciência de que são algo diferente de Israel, se relacionam com outros que afirmam ser israelitas? E é muito importante que, para Mateus, Jesus seja plenamente um homem de Israel. 

Portanto, Mateus começa seu evangelho apresentando toda a genealogia de Jesus; ele queria mostrar que Jesus era filho de Davi e, agora, traça essa linhagem até Abraão. Para Mateus, Jesus não é filho de Davi, mas sim filho de Abraão. Ele é verdadeiramente um homem de Israel. E, portanto, o ensinamento de Jesus também está totalmente de acordo com a tradição legítima do ensino da lei de Israel. Assim, em Mateus, e não em nenhum outro evangelho, temos Jesus dizendo que não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la. E que nenhuma parte da lei desaparecerá.

“Mateus demonstra certa hesitação em mostrar que esta também é a comunidade para os gentios. É evidente que sim, existe o evangelho para os gentios. Os discípulos, no final dos evangelhos, são enviados a todas as nações e incumbidos de ensinar-lhes o que Jesus havia ensinado a eles. Ou seja, ensinar-lhes também que Jesus não viera para abolir a lei. Ora, aparentemente, a compreensão da lei não é idêntica à do judaísmo emergente após a destruição de Jerusalém. Observe que não há ênfase na lei ritual. Nada de circuncisão, nada do mandamento do sábado. Portanto, os mandamentos rituais da lei desapareceram. Mesmo assim, Mateus deseja que isso seja entendido como uma nova interpretação legítima da lei de Moisés.”

Comunidade Judaico-Cristã de Mateus

Marilyn Mellowes escreveu: “A comunidade de Mateus aderiu à Lei, mas via Jesus — e não os fariseus — como o intérprete legítimo da Lei. Essa convicção tendia a minar a legitimidade e a autoridade dos fariseus que criticavam os seguidores de Jesus. Agora, Mateus chama os fariseus de 'hipócritas': 'Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Pois vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda espécie de imundície.' (Mateus 23:27)

A atitude de Mateus em relação aos fariseus se reflete na maneira como ele narra a história da morte de Jesus. Pôncio Pilatos é retratado como uma figura simpática, e a culpa recai diretamente sobre os líderes judeus. Mas o fato de Jesus ser declarado morto deixa os fariseus ainda preocupados. Jesus havia predito: "Depois de três dias ressuscitarei" (Mateus 27:63). Eles imaginam um cenário em que os seguidores de Jesus roubam seu corpo do túmulo para comprovar suas afirmações. Pilatos sugere que eles selem o túmulo com uma grande pedra.

O professor L. Michael White disse: “O Evangelho de Mateus foi claramente escrito para um público judeu-cristão que vivia nas imediações da própria pátria. Mateus é o mais judaico de todos os evangelhos. A comunidade para a qual Mateus foi escrito era uma comunidade judaico-cristã que estava enfrentando novas tensões no período de reconstrução após a primeira revolta. Parece que eles já estavam lá há bastante tempo. Eles demonstram, inclusive, uma consciência de um legado mais antigo da tradição de Jesus, que remonta a antes da guerra. Mas agora eles estão vivenciando novas tensões e novos problemas no período pós-revolta, enquanto uma reconstrução política e social está em curso.”

“O que pode estar por trás das tensões sociais refletidas no Evangelho de Mateus é a grande migração populacional que ocorreu após a Primeira Revolta, quando a maior parte da população judaica se mudou para a região da Galileia, no norte. É nesse contexto que o Evangelho de Mateus parece ter sido escrito. Mas, à medida que essa nova população precisava se organizar, as novas realidades políticas da vida na aldeia começaram a gerar novas tensões. 

É nesse contexto que o movimento farisaico se tornaria a nova força dominante para a reconstrução da vida e do pensamento judaicos no período posterior à Primeira Revolta. Da tradição farisaica inicial emergiria a tradição rabínica e... os rabinos, como líderes e mestres da tradição judaica e intérpretes da Torá, da lei, preparariam o terreno para o desenvolvimento normativo do judaísmo até os tempos modernos.”

Conflito na comunidade de Mateus

O professor L. Michael White disse: “Agora, precisamos lembrar que é precisamente no Evangelho de Mateus que os fariseus são os principais oponentes de Jesus ao longo de sua vida. Na época de Jesus, os fariseus não eram um grupo tão proeminente. Por que Mateus conta a história dessa maneira, de modo que um grupo que era menos relevante durante a vida de Jesus se torna o principal oponente? 

É precisamente porque era isso que estava acontecendo na vida da comunidade de Mateus após a guerra. Os fariseus estavam se tornando seus oponentes e estávamos vendo dois grupos judaicos, o grupo judaico-cristão de Mateus e os grupos farisaicos locais, em tensão sobre o futuro do judaísmo. Naturalmente, eles tinham respostas muito diferentes.”

A comunidade de Mateus observa a Torá. Em Mateus, no Sermão da Montanha, Jesus diz: "Não pensem que vim destruir a Lei ou os Profetas; não vim destruir, mas cumprir". Em Mateus, Jesus é um defensor da piedade da Torá, assim como os fariseus. Portanto, por um lado, eles seguem a lei de uma maneira que os torna judeus exemplares. Por outro lado, existem tensões sobre qual é a forma adequada de piedade para eles.

“Um dos indícios da situação da comunidade de Mateus surge quando o evangelho de Mateus apresenta regulamentos sobre como disciplinar os membros da comunidade caso se desviem do controle. Diz que se um dos membros da congregação pecar, vá e fale com ele; e se ele se recusar a ouvir, leve um amigo e fale com ele também; e se ele se recusar a ouvi-lo, leve-o à igreja; e se ele se recusar, expulse-o. Você o expulsa da igreja, da congregação. 

Mas o que é realmente interessante nesse conjunto de regulamentos disciplinares de Mateus 18 é que, quando você os expulsa, quando os excomunga ou os desassocia, você diz: 'você agora é um gentio e um cobrador de impostos'. Você os trata como um forasteiro. Mas se expulsar alguém significa considerá-lo um gentio, aqueles que estão dentro claramente devem se considerar ainda completamente judeus.”

“A forma como Mateus narra a história de Jesus se baseia em muitos símbolos da tradição judaica que realmente transmitem uma imagem de Jesus. Jesus sobe a uma montanha para ensinar e lá fala sobre a lei. Ele se parece com Moisés. Jesus profere cinco sermões diferentes desse tipo, assim como os cinco livros da Torá. Há muitos elementos nessa história que se assemelham às tradições de Moisés, desde o sacrifício dos bebês, na narrativa do nascimento, até o Sermão da Montanha, e até mesmo a forma como Jesus morre, assim como alguns profetas morreram, como mártires de sua vocação profética.”

Evangelho de Lucas

O professor Harold W. Attridge disse: “A tradição relata que Lucas era um companheiro de Paulo, um médico e, portanto, alguém versado na cultura literária e científica helenística. Todas essas são tradições secundárias e a maioria dos estudiosos as considera um tanto quanto pouco confiáveis. O que podemos inferir das evidências do Livro dos Atos e do terceiro evangelho é que o autor era alguém profundamente versado nas escrituras, na Septuaginta, e que estava ciente dos padrões literários helenísticos, historiográficos e romanescos. E esses tipos de padrões certamente têm um impacto em suas obras literárias.”

Marilyn Mellowes escreveu: “O autor de Mateus escreveu sobre um Reino que abraçaria judeus e gentios igualmente. O autor de Lucas escreveu para uma comunidade que também aguardava a chegada do Reino de Deus, mas que estava preocupada com sua vida em outro Reino, o Reino de César. A questão que enfrentavam era esta: podem os cristãos que creem no Reino de Deus também ser súditos leais do Império Romano? A resposta inequívoca de Lucas foi 'Sim'.”

“Também influenciou profundamente a forma como a igreja posterior passou a imaginar o nascimento de Jesus. Pois é Lucas quem apresenta a conhecida história do seu nascimento: “Naqueles dias, César Augusto decretou que se fizesse um recenseamento em todo o mundo romano.” (Lc 2:1) Lucas descreve como José e Maria viajaram de Nazaré, na região da Galileia, para a Judeia, até Belém. Por que Lucas conta a história dessa maneira? Os estudiosos especulam que ele situa o nascimento de Jesus em Belém porque Belém é a cidade do Rei Davi; Lucas está traçando um paralelo direto entre o primeiro rei de Israel e o novo Rei, Jesus Cristo.”

Lucas

O professor Harold W. Attridge disse: “Lucas escreveu duas obras: o terceiro evangelho, um relato da vida e dos ensinamentos de Jesus, e o livro de Atos, que narra o crescimento e a expansão do cristianismo após a morte de Jesus até o final do ministério de Paulo. Lucas provavelmente escreveu nas últimas décadas do primeiro século, provavelmente em um ambiente totalmente helenístico. Os estudiosos especulam se o evangelho foi escrito em Antioquia, que teria sido uma importante cidade helenística, ou na Ásia Menor, em lugares como Éfeso ou Esmirna. Em qualquer caso, Lucas teria estado em contato e em intenso diálogo com a cultura helenística em sentido amplo.”

Marilyn Mellowes escreveu: “A tradição afirma que o autor do Evangelho de Lucas era um médico e companheiro de viagem do apóstolo Paulo. A história não oferece evidências para corroborar essas afirmações, mas a própria obra sugere que foi composta por alguém que vivia em uma das cidades onde Paulo havia fundado suas primeiras igrejas. A composição e a linguagem da obra sugerem que seu autor era culto, fluente em grego e possuía um apurado senso de estilo literário.

Quem escreveu Lucas escreveu mais do que um evangelho; escreveu também o livro de Atos, um relato do crescimento e expansão do cristianismo após a morte de Jesus até o fim do ministério do apóstolo Paulo. De fato, muitos estudiosos insistem que o evangelho de Lucas é apenas a primeira parte de uma história em duas partes que começa com Jesus em Nazaré e termina com Paulo em Roma. Nas palavras de Mike White, "Ele está contando uma história maior, uma história mais grandiosa". E essa história moldou decisivamente a forma como os cristãos veem as origens de sua igreja.

A imagem de Jesus em Lucas

Em Lucas, Jesus surge principalmente como um mestre, um mestre da sabedoria ética, alguém confiante e sereno em seus ensinamentos éticos. Alguém muito interessado em incutir as virtudes da compaixão e do perdão em seus seguidores. O professor L. Michael White disse: “O Jesus do Evangelho de Lucas é apresentado de forma diferente, muito mais como um professor de filosofia, como Sócrates: ele é racional, imparcial, às vezes crítico da sociedade, mas certamente preocupado com o impacto de seus ensinamentos sobre ela. E, no fim, ele morre de forma muito semelhante a Sócrates. 

A morte de Jesus no Evangelho de Lucas é mais como a de um mártir, muito mais serena; ele caminha inexoravelmente para a cruz, sabendo que era o que deveria acontecer. Pilatos não tem culpa alguma. Pilatos tenta se livrar do caso enviando Jesus para Herodes... Pilatos não é o inimigo de Jesus, ele não é o vilão.” E, mais uma vez, isso pode refletir o tipo de preocupações políticas do Evangelho de Lucas. Jesus também não é motivo de preocupação porque não é uma figura rebelde, mas sim um professor, um filósofo, um crítico social, um reformador social. Ele é um bom membro do mundo greco-romano.

Marilyn Mellowes escreveu: “Segundo alguns intérpretes, o Jesus de Lucas não é apenas um rei, mas também se assemelha a um filósofo grego. Outros sugerem que o Jesus de Lucas se assemelha mais a um herói semidivino, como aqueles retratados em histórias populares e celebrados em canções gregas. O autor de Mateus escreveu sobre um Reino que abrangeria judeus e gentios igualmente. O autor de Lucas escreveu para uma comunidade que também aguardava a chegada do Reino de Deus, mas que estava preocupada com sua vida em outro Reino, o Reino de César. A questão que enfrentavam era esta: podem os cristãos que creem no Reino de Deus também ser súditos leais do Império Romano? A resposta inequívoca de Lucas foi 'Sim'.”

“O Jesus de Lucas é uma figura poderosa. Nas palavras de Holland Hendrix, “Ele surge como um profeta saído diretamente da Bíblia Hebraica. Em sua primeira aparição em sua cidade natal, ele cita o profeta Isaías. Ele se apresenta como um libertador, um grande realizador de milagres. Mas também como a figura do benfeitor por excelência.” Diferentemente do Jesus de Mateus, que abençoa os pobres de espírito, o Jesus de Lucas simplesmente abençoa os pobres.

Após uma série de bênçãos que atendiam às necessidades físicas do povo, Jesus oferece conselhos sobre como viver uma boa vida: "Mas eu lhes digo: ouçam: Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam. Se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça-lhe também a outra; se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de levar também a túnica. Dê a todo aquele que lhe pedir; e se alguém lhe tirar o que é seu, não peça de volta. Façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam." (Lc 6:27-31).

Mensagem de Lucas

O professor Harold W. Attridge disse: “Uma das principais preocupações abordadas pela obra conjunta de Lucas e Atos é se os cristãos podem ser bons cidadãos do Império Romano. Afinal, seu fundador foi executado como um criminoso político, e eles estavam sendo associados à destruição de Jerusalém, e algumas pessoas os consideravam incendiários, revolucionários. E Lucas, em seu retrato, quer mostrar que o próprio Jesus ensinou uma ética totalmente compatível com a boa cidadania no império. E que, apesar de um dos heróis do livro de Atos ter sido executado, Paulo, embora isso tenha sido um erro grave e não tivesse nada a ver com o programa político, não foi de forma alguma perigoso.”

Marilyn Mellowes escreveu: “O autor de Mateus escreveu sobre um Reino que abraçaria judeus e gentios igualmente. O autor de Lucas escreveu para uma comunidade que também aguardava a chegada do Reino de Deus, mas que estava preocupada com sua vida em outro Reino, o Reino de César. A questão que enfrentavam era esta: podem os cristãos que creem no Reino de Deus também ser súditos leais do Império Romano? A resposta inequívoca de Lucas foi 'Sim'.”

Uma das diferenças mais notáveis ​​entre o evangelho de Lucas e os de Mateus ou Marcos é, nas palavras de François Bovon, "seu senso de alegria". O evangelho começa com o relato alegre do nascimento de Jesus e termina com a nota vitoriosa da ressurreição e ascensão de Jesus ao céu. O sentimento de abandono que caracteriza o final de Marcos é reduzido a um breve interlúdio na narrativa de Lucas. Ao final do evangelho de Lucas, Jesus já partiu em corpo. Mas, no início dos Atos dos Apóstolos, seu Espírito retorna, guiando os discípulos para a conclusão bem-sucedida de sua missão.

“Comparado aos outros evangelhos, o Jesus de Lucas é menos agitador; o mesmo se aplica ao apóstolo Paulo. Isso nos diz algo sobre o público de Lucas: ele estava aprendendo a viver e prosperar no mundo romano, absorvendo-se na sociedade e cultura ao seu redor. Lucas queria assegurar à sua comunidade cristã — e aos seus vizinhos — que não havia conflito entre a fé em Jesus e a lealdade ao Imperador. 

O reino de Deus e o reino de César podiam coexistir pacificamente; os cristãos podiam ser bons cidadãos tanto do reino terreno quanto do celestial. A esperança de aceitação de Lucas se reflete na maneira como ele retrata a morte de Jesus. Suas últimas palavras são: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34). O Jesus de Lucas morre com serena resolução: ele sabia que sua morte seria seguida pelo nascimento da Igreja.”

O professor L. Michael White disse: “Um dos exemplos mais claros disso é a forma como Lucas conta a parábola do filho pródigo. É uma história muito conhecida. E é uma história sobre arrependimento. O mais novo dos dois irmãos foge de casa, desperdiça sua herança vivendo uma vida vil e, somente depois de entrar em profunda depressão por não ter dinheiro e não saber onde vai morar, decide voltar para casa e ser apenas um servo na casa de seu pai. 

Mas, quando retorna, seu pai o recebe de braços abertos e diz: 'Vamos fazer um grande banquete para te receber de volta'. Agora, o irmão mais velho, que havia ficado em casa todo esse tempo, fica com ciúmes porque havia sido fiel aos desejos e vontades de seu pai. Ele havia feito o que seu pai queria o tempo todo. Foi o irmão mais novo que desperdiçou tudo e foi contra a vontade do pai. Essa história é, na verdade, sobre a percepção de Lucas da relação entre gentios e judeus na casa de Deus. 

É a descrição que Lucas faz da... A igreja, como aquela que está disposta a aceitar tanto o irmão mais velho, o irmão fiel, os judeus, quanto o filho pródigo, os gentios, que viveram uma vida terrível longe do pai por tanto tempo, mas que agora são recebidos de braços abertos na igreja. A visão de Lucas é de uma humanidade unificada na igreja que reúne todos os filhos de Deus.

Lucas e Atos: Romance cristão primitivo e primeira história cristã

Holland Lee Hendrix disse: “Lucas/Atos é um exemplo muito interessante da evolução da literatura cristã primitiva, porque o autor está realizando esta obra... encomendada por um benfeitor. E ele a executa de forma muito metódica, como um bom autor romano faria. Ele estabelece o contexto histórico como se esperaria em uma espécie de romance histórico, e então conta uma história absolutamente maravilhosa. 

Aliás, é uma história tão boa que muitos estudiosos a compararam à literatura romanesca da época e interpretaram Lucas/Atos como um verdadeiro romance cristão primitivo, com todos os ingredientes do romance, incluindo naufrágios, animais exóticos, vegetação exótica, nativos canibais – todo tipo de embelezamento encontrado na literatura romântica da época. Mas é feito de uma maneira historicamente disciplinada, ou pelo menos que parece ser historicamente disciplinada, por um autor muito cuidadoso que se identifica como um artista sob a influência econômica de um benfeitor específico. 

Portanto, Lucas/Atos representa um estágio muito interessante na evolução da literatura cristã primitiva.” Agora está completamente romanizado.

O professor L. Michael White disse: “Também é importante reconhecer que o Evangelho de Lucas tem um volume complementar. Lucas é do mesmo autor do livro de Atos, no Novo Testamento, o livro que conta a história dos primórdios do movimento cristão e acompanha a trajetória de Paulo. E fica muito claro, pela forma como os dois livros se iniciam e pelo prólogo de cada um, que estamos lidando com o mesmo autor e que a narrativa continua de um para o outro. 

Portanto, o autor de Lucas/Atos, e é assim que os chamamos agora, já que se trata de uma obra em dois volumes, está nos contando uma história maior, uma história mais grandiosa, uma história que começa com Jesus e se concentra em como sua vida se desenrolou, mas que continua com a fundação da igreja, sua expansão e as viagens de Paulo que o levam a Roma. É uma história com uma consciência política muito maior. É uma história contada a partir de uma perspectiva histórica mais ampla.” De fato, Lucas/Atos é a primeira tentativa de escrever uma história do movimento cristão a partir de uma perspectiva interna.

O professor L. Michael White disse: “Também é importante reconhecer que o Evangelho de Lucas tem um volume complementar. Lucas é do mesmo autor do livro de Atos, no Novo Testamento, o livro que conta a história dos primórdios do movimento cristão e acompanha a trajetória de Paulo. E fica muito claro, pela forma como os dois livros se iniciam e pelo prólogo de cada um, que estamos lidando com o mesmo autor e que a narrativa continua de um para o outro. 

Portanto, o autor de Lucas/Atos, e é assim que os chamamos agora, já que se trata de uma obra em dois volumes, está nos contando uma história maior, uma história mais grandiosa, uma história que começa com Jesus e se concentra em como sua vida se desenrolou, mas que continua com a fundação da igreja, sua expansão e as viagens de Paulo que o levam a Roma. É uma história com uma consciência política muito maior. É uma história contada a partir de uma perspectiva histórica mais ampla.” De fato, Lucas/Atos é a primeira tentativa de escrever uma história do movimento cristão a partir de uma perspectiva interna.

Jesus em Lucas

Holland Lee Hendrix disse: “O Jesus de Lucas é uma figura extremamente poderosa. Quero dizer, ele surge como um profeta saído diretamente da Bíblia Hebraica. Em sua primeira aparição na sinagoga de sua cidade natal, ele cita o profeta Isaías, e é a passagem que fala sobre libertar os oprimidos e dar vista aos cegos. Jesus é uma figura poderosa e se apresenta como um libertador, um grande realizador de milagres. Mas também, e isso é interessante considerando a autoria de Lucas, como o benfeitor por excelência. Ele é quem concede os grandes dons de Deus, e Deus é visto novamente como uma grande figura benfeitora em Lucas/Atos. Portanto, Jesus provavelmente atinge seu ápice de poder no evangelho de Lucas, sob diversas perspectivas: como profeta, como curador, como salvador, como benfeitor.”

O professor Helmut Koester disse: “Lucas retrata Jesus no evangelho essencialmente segundo a imagem do homem divino. A pessoa em quem os poderes divinos são visíveis e se manifestam, tanto em seus ensinamentos quanto na realização de milagres. A imagem do homem divino também se encaixa na narrativa de viagem de Jesus. O evangelho de Lucas é o único que apresenta uma longa narrativa de viagem de Jesus... O tema da viagem tem sido muito importante na antiguidade para descrever a vida de grandes homens divinos, realizadores de milagres, mestres.

“O tema do homem divino é importante mesmo no sofrimento e na morte de Jesus, porque Jesus morre a morte perfeita de um mártir, uma morte exemplar. Não há clamor: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?' Mas Jesus morre entregando seu espírito nas mãos do Pai, como um mártir piedoso realmente deveria fazer em uma morte de sofrimento. Portanto, a imagem de Jesus é uma imagem que se desenvolve plenamente a partir da imagem do ser humano divino...”

O público de Lucas

O professor L. Michael White disse: “Em contraste com Marcos ou Mateus, o Evangelho de Lucas foi claramente escrito para um público gentio. Lucas é tradicionalmente considerado um dos companheiros de viagem de Paulo, e certamente o autor de Lucas era das cidades gregas onde Paulo havia trabalhado. O Evangelho de Lucas é um produto de um tipo de cristianismo paulino. E, portanto, conta a história de maneiras ligeiramente diferentes dos outros evangelhos. Tem interesses diferentes. Tem preocupações temáticas diferentes. Provavelmente também tem uma autoconsciência política diferente, porque foi escrito predominantemente para gentios nas cidades gregas da Ásia Menor ou da própria Grécia.”

“O público de Lucas parece ser um público literário muito mais culto. O grego de Lucas é o de maior qualidade estilística de todo o Novo Testamento. A leitura assemelha-se mais a um romance da tradição grega do que ao Evangelho de Marcos, que por vezes apresenta uma gramática grega um tanto rudimentar. Portanto, qualquer pessoa que encontrasse o Evangelho de Lucas numa rua de uma cidade grega se sentiria à vontade com ele, desde que fosse capaz de ler um bom grego.

A tradição afirma que Lucas era, na verdade, um companheiro de viagem de Paulo. Ele é frequentemente chamado de Lucas, o médico, o que significa que é retratado como uma pessoa culta do mundo greco-romano. As preocupações do Evangelho de Lucas são, portanto, um pouco diferentes; há questões políticas, bem como sociais, que percebemos na forma como a história é contada, precisamente porque foi escrita para um público muito mais culto.

“O público de Lucas parece ser predominantemente gentio... quando falam sobre a história de Jesus, há uma ênfase maior na situação política de Jesus nos dias de hoje. Jesus é menos um agitador, e o mesmo se aplica a Paulo, aliás, nessas histórias. E isso sugere algo sobre a situação do público: eles também estavam preocupados com a forma como seriam percebidos, a forma como a igreja seria percebida pelas autoridades romanas. Às vezes, sugere-se que o Evangelho de Lucas deva ser visto como uma espécie de apologética dos primórdios do movimento cristão, tentando encontrar seu lugar no mundo romano, para dizer: 'Estamos bem, não se preocupem conosco, somos como vocês: mantemos a paz, somos cidadãos cumpridores da lei, temos altos valores morais, também somos bons romanos.”

“Agora... o contraponto à constatação de que Lucas está contando a história para um público greco-romano com uma espécie de agenda política é o que acontece com a abordagem de Lucas em relação à tradição judaica. Lucas se mostra muito mais antagônico ao judaísmo. Assim, o Evangelho de Lucas e seu livro complementar, Atos dos Apóstolos, também refletem o desenvolvimento do movimento cristão, que se distancia cada vez mais das raízes judaicas e, na verdade, se aproxima cada vez mais da arena política e social romana. 

Essa autoconsciência política e étnica refletida em Lucas/Atos começa a indicar que nós, os cristãos, aqueles que contam essa história, não somos mais, da mesma forma, apenas judeus. Portanto, há uma crescente antipatia em relação a pelo menos certos elementos dentro da tradição judaica e da sociedade judaica.”

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

General Tito Vespasiano, o homem que levou Jesus às lágrimas( Lucas 21:23)

Tito Flávio Vespasiano Augusto (em latim Titus Flavius Vespasianus Augustus) (Roma, 30 de Dezembro de 39 — Aquae Cutiliae, Sabina, 13 de Setembro de 81) foi imperador romano entre os anos de 79 e 81. Foi o filho mais velho e sucessor de Vespasiano.

Antes de ser proclamado imperador alcançou renome como comandante militar ao servir sob as ordens do seu pai na Judeia, durante o conflito conhecido como a Primeira Rebelião Judaica (67 — 70). Esta campanha sofreu uma breve pausa após a morte do imperador Nero (9 de junho de 68), quando o seu pai foi proclamado imperador pelas suas tropas (21 de dezembro de 69). Neste ponto, Vespasiano iniciou a sua participação no conflito civil que assolou o Império durante o ano da sua nomeação como imperador, conhecido como o ano dos quatro imperadores. Após essa nomeação, recaiu sobre Tito a responsabilidade de acabar com os judeus sediciosos, tarefa realizada satisfatoriamente após sitiar e destruir Jerusalém (70), cujo templo foi demolido no incêndio. A sua vitória foi recompensada com um triunfo e comemorada com a construção do Arco de Tito. Seu pai o associou, a partir de 71, ao poder tribunício.

Sob o reinado do seu pai, Tito coletou receios entre os cidadãos de Roma devido ao seu serviço como prefeito do corpo de guarda-costas do imperador, conhecido como a Guarda Pretoriana, bem como devido à sua intolerável relação com a rainha Berenice de Cilícia. Apesar destas faltas à moral romana, Tito governou com grande popularidade após a morte de Vespasiano a 23 de junho de 79 d.C. e é considerado como um bom imperador por Suetônio e outros historiadores coetâneos.

O mais importante do seu reinado foi o seu programa de construção de edifícios públicos em Roma (Tito finalizou o anfiteatro Flávio, conhecido habitualmente como o Coliseu). A enorme popularidade de Tito também foi devida à sua grande generosidade com as vítimas dos desastres que sofreu o Império durante o seu breve reinado, a erupção do Vesúvio em 79 d.C. e o incêndio de Roma de 80 d.C. Após dois anos no cargo, Tito faleceu sofrendo de febre, a 13 de setembro de 81 d.C. A grande popularidade de Tito fez com que o Senado o deificasse.

Prometia ser um imperador à altura do seu pai, mas o seu breve reinado foi marcado por catástrofes. Em 24 de Agosto de 79, o vulcão Vesúvio destruiu as cidades de Pompeia e Herculano e, em 80, Roma foi de novo consumida por um incêndio.

Estabeleceu um governo indulgente, respeitando os privilégios do Senado e realizando grandes obras públicas. Umas das mais importantes que fez como imperador foi inaugurar, em 80 d.C., a obra que seu pai, Vespasiano, iniciara, o anfiteatro Coliseu, embora este ainda estivesse incompleto.

Tito foi sucedido pelo seu irmão menor, Domiciano.

Juventude

Tito nasceu em Roma, filho primogénito de Tito Flávio Vespasiano e Domitilla a Maior. Tito teve uma irmã chamada Domitila a Menor e um irmão, chamado Tito Flávio Domiciano, embora conhecido habitualmente com o nome de Domiciano.

As décadas de guerra civil durante o século I a.C. contribuíram enormemente para o decaimento da velha aristocracia de Roma, que fora gradualmente substituída no poder por uma nova nobreza provincial durante a primeira parte do século I. A família Flávia surgiu da obscuridade na Dinastia Júlio-Claudiana, adquirindo a riqueza e influência necessárias para chegar ao poder. O bisavô de Tito, Tito Flávio Petro, serviu como centurião sob Cneu Pompeu Magno durante a Segunda Guerra Civil da República de Roma. A sua carreira militar terminou quando Pompeu sofreu uma derrota esmagadora às mãos de Júlio César na Batalha de Farsália (48 a.C.).Contudo, Petro conseguiu melhorar a sua situação casando-se com uma tértula sumamente rica, cuja fortuna garantiu a ascensão do filho de ambos, Tito Flávio Sabino I, o avô de Tito. O mesmo Sabino amassou uma grande riqueza como arrecadador de impostos na Ásia e como banqueiro na Helvécia. Casando-se com Vespásia Polião aliou-se com uma das famílias patrícias de maior ascendência aristocrática. A riqueza e a linhagem de Vespásia Polião e Tito Flávio Sabino I garantiram a ascensão dos seus filhos, Vespasiano e Tito Flávio Sabino II, à classe senatorial.

A carreira política de Vespasiano incluiu os cargos de questor, edil, pretor, e culminou em um consulado em 51 d.C., o ano em que nasceu Domiciano. O pouco conhecido da juventude de Tito chegou através dos escritos de Suetônio. O historiador relata que o futuro imperador foi criado na corte imperial junto a Britânico, o filho do imperador Cláudio, que seria assassinado por Nero em 55 d.C. Poucos detalhes chegaram sobre a sua educação, mas aparentemente mostrou pronto uma grande inclinação pelas artes militares, era um poeta experto e um grande orador tanto em grego quanto em latim.

Carreira militar

Tito serviu como tribuno militar na Germânia entre 57 d.C. e o 59 d.C. e na Britânia (60 d.C.) chegando com os reforços necessários após a revolta de Boudica. Em 63 d.C. regressou para Roma e casou-se com Arrecina Tértula, filha de um antigo prefeito da Guarda Pretoriana. A mulher de Tito faleceria em 65 d.C. e este tomou uma nova mulher chamada Márcia Funila que pertencia a uma família aristocrática. Porém, esta família era disposta a unir-se à oposição ao Imperador Nero. O seu tio Quinto Márcio Barea Sorano e a sua filha Servília faleceram após a fracassada conspiração de Caio Calpúrnio Pisão em 65 d.C. Alguns historiadores modernos teorizam que Tito se divorciou da sua esposa devido à conexão da sua família com a conspiração. Não voltou a casar-se de novo. Tito parece ter tido muitas filhas, sendo ao menos uma delas de Márcia Furnila. A única que chegou à idade adulta foi Júlia Flávia, que pôde ser filha de Arrecina, pois a mãe desta também se chamava Júlia.[13] Durante este período Tito dedicou-se à justiça, sendo questor.

Campanha da Judéia

Em 66 d.C. os judeus da Província de Judeia rebelaram-se contra o Império Romano. Céstio Galo, o governador da Síria, foi derrotado na batalha de Beth-Horon e forçado a se retirar de Jerusalém. O rei pró-romano Herodes Agripa II e a sua irmã Berenice fugiram para a cidade de Galileia. Nero designou a Vespasiano para esmagar a rebelião, este marchou imediatamente à região com a V e X legiões. Vespasiano uniu-se a Tito e à XV legião em Acre. Com uma força de 60.000 soldados profissionais, os romanos dispuseram-se a varrer a rebelião através de Galileia e marchar sobre Jerusalém.

A Guerra foi coberta pelo historiador judeu-romano Flávio Josefo no seu trabalho A guerra dos judeus. Josefo serviu como comandante na defesa da cidade de Jotapata quando o exército romano invadiu Galileia em 67 d.C. Após um duro sítio de 47 dias, a cidade caiu, tomando uns 40.000 prisioneiros, que foram assassinados, enquanto o restante dos resistentes se suicidaram. O próprio Josefo rendeu-se a Vespasiano, que o liberou ao observar a sua inteligência. Durante 68 d.C. toda a costa e o norte da Judeia caiu sob o controle romano. Esta expedição serviu para que Tito se distinguisse como um general experto.

Ano dos quatro imperadores

A última e importante fortaleza que resistia era a cidade judaica de Jerusalém. Contudo, a campanha sofreu uma pausa quando chegaram notícias de Roma da morte do imperador Nero e da nomeação de Galba pelo Senado como sucessor. Vespasiano decidiu enviar Tito a apresentar os seus respeitos ao novo imperador. Contudo, quando Tito se aproximava à cidade, recebeu notícias da morte de Galba e da nomeação de Otão como sucessor, além da marcha para Roma desde a Germânia de Vitélio. Não querendo arriscar-se a ser capturado por nenhum dos dois bandos, Tito cancelou a viagem e voltou a unir-se ao seu pai na Judeia.Enquanto isso, Otão fora derrotado na batalha de Bedriacum e suicidara-se tão nobremente que emocionara Roma. Quando chegaram notícias aos exércitos de Judeia e Egito, estes decidiram nomear Vespasiano como imperador a a 1 de julho de 69 d.C. Vespasiano aceitou, e mediante intensas negociações levadas por Tito, uniu-se ao governador da Síria, Caio Licínio Muciano, formando uma força muito importante no Oriente . Esta força mudou-se para Roma liderada por Muciano, enquanto Vespasiano marchou para Alexandria, ficando Tito ao comando para que acabasse com a rebelião. No fim de 69 d.C. as tropas de Vitélio foram derrotadas e o Senado declarou Vespasiano como imperador a 21 de dezembro, finalizando deste jeito o Ano dos quatro imperadores.

Sítio de Jerusalém

Enquanto isso, os judeus encontravam-se num conflito civil entre eles, dividindo a resistência entre os sicários, liderados por Simão Bar Giora e os fanáticos conduzidos por João de Giscala. Tito aproveitou então a oportunidade de começar o assalto sobre Jerusalém. Ao exército romano uniu-se a XII Legião, que fora derrotada sob o comando de Céstio Galo. Desde Alexandria, Vespasiano enviou Tibério Júlio Alexandre para que agisse como segundo de Tito. Tito rodeou a cidade no comando de três legiões (V, XII e XV) sobre o lado oeste e enviou a (X) sobre o Monte das Oliveiras a leste. Tito cortou os alimentos e a água à cidade, depois permitiu a entrada de alguns judeus para celebrar a Páscoa negando depois a saída. O exército romano era acossado continuamente pelos judeus e numa ocasião estes quase capturaram Tito.

Após as tentativas de Josefo de negociar uma rendição, os romanos retomaram as hostilidades e destroçaram depressa as primeiras fases da muralha. Para intimidar a resistência, Tito crucificou os desertores judeus em torno das muralhas. Neste ponto os judeus estavam a ponto de se renderem por causa da fome e os romanos aproveitaram a debilidade para irrompir na cidade após quebrar a última fase da muralha. Os romanos penetraram na cidade, capturaram a fortificação Antônia e iniciaram um assalto frontal sobre o Templo. Segundo Josefo, Tito ordenara que o Templo não fosse destruído, porém, durante a batalha pela cidade, um soldado lançou uma antorcha para o interior do Templo e este ardeu depressa. O cronista Sulpício Severo, no entanto, afirma que Tito ordenou a destruição do Templo. Fosse o que for, o Templo foi totalmente destruído e a cidade saqueada, após o qual os soldados proclamaram-no Imperator no campo de batalha. Segundo Josefo 1.100.000 pessoas foram assassinadas durante o sítio, destes a maioria eram judeus. Fontes antigas informam de que 97.000 pessoas foram capturadas e escravizadas, incluindo Simon Bar Giora e João de Giscala. Muitos escaparam a locais próximos do Mediterrâneo. Aparentemente Tito recusou aceitar uma Coroa de erva (condecoração militar romana) alegando que "não há mérito em vencer umas gentes abandonadas pelo seu próprio Deus".

Herdeiro de Vespasiano

Incapaz de navegar para a Itália durante o Inverno, Tito celebrou uns esplendorosos jogos na Cesareia Marítima e Berytus, depois viajou para Zeugma do Eufrates, onde se apresentou com uma coroa a Vologases II de Partia. Visitando Antioquia confirmou os direitos tradicionais dos judeus naquela cidade. No seu caminho para Alexandria, deteve-se em Mênfis onde consagrou o touro sagrado de Ápis portando uma diadema. Esta diadema era para os romanos um símbolo de realeza. Segundo Suetônio estes fatos causaram uma grande consternação em Roma, onde se temia que se rebelasse contra Vespasiano. Segundo Suetônio Tito viajou imediatamente para Roma com o fim de dissipar os rumores sobre a sua conduta.

Após a sua chegada à cidade em 71 d.C. recompensou-o com um triunfo. Acompanhado por Vespasiano e o seu irmão Domiciano, desfilou a cavalo pela cidade sendo saudado de maneira entusiasta pela população e acompanhado pelos seus tesouros e prisioneiros de guerra. Josefo descreve-o como uma procissão com ingentes quantidades de ouro e prata. A procissão incluía os prisioneiros de guerra e os tesouros do Templo de Jerusalém. Simão Bar Giora foi executado no Fórum Romano, depois disso, a procissão ufanou-se em realizar os requeridos sacrifícios religiosos no Templo de Júpiter. O Arco do Triunfo de Tito, que fica na entrada do Fórum, comemora a vitória de Tito.

Com Vespasiano declarado imperador, Tito e o seu irmão Domiciano receberam o título de César em nome do Senado. Além de compartir o poder tribunício com o seu pai, Tito foi designado cônsul em sete ocasiões durante o reinado do seu pai e atuou como o seu secretário comparecendo em certas ocasiões no Senado no seu nome. Tito foi designado comandante da Guarda Pretoriana, fazendo mais sólida a posição de Vespasiano como monarca legítimo. Contudo Tito tornou-se infelizmente famoso entre a população devido às suas violentas ações ordenando a execução de pessoas suspeitosas de traição. Quando em 79 d.C., foi destapado um complô dirigido por Aulo Cecina Alieno e Éprio Marcelo para derrocar a Vespasiano. Alieno foi convidado a uma ceia, na que foi assassinado por punhaladas no coração.

Durante as revoltas judaicas, Tito iniciou uma relação com Berenice de Cilícia, irmã de Herodes Agripa II, que colaborara com os romanos durante a campanha e depois/(portanto)logo apoiara a Vespasiano no seu caminho para o trono. No 75 d.C., ela voltou junto a Tito e viveu abertamente com ele no palácio como a sua prometida. Os romanos eram cépticos sobre/(acerca_de:)em_relação) esta relação e a desaprovavam. A pressão do (gentes:)povo/(localidade:)povoação fez com que Tito separara-se dela, porém a sua reputação sofreu muito por causa desta relação.

Imperador

Vespasiano faleceu o 23 de Júnio do 79 d.C. por causa de uma infecção e foi sucedido pelo seu filho Tito. Os romanos, por causa dos seus supostos vícios, temiam que Tito tornara-se em outro Nero. Contra todos os prognósticos Tito demonstrou ao povo que era um imperador eficaz e foi muito querido por todos os romanos. Um dos seus primeiros atos como imperador foi ordenar publicamente suspender os juízos baseados em traição. A lei de traição, ou a lei de maestas, a princípio foi usada para processar os que corruptoramente tinham prejudicado as pessoas e a majestade de Roma por qualquer ação revolucionária. Contudo, sob o reinado de César Augusto, esta lei também fora aplicada para condenar os escritos difamatórios. Sob o reinado de Tibério, Calígula e Nero utilizou-se para justificar as execuções, criando uma rede de informadores que fez tremar a administração romana durante décadas. Tito acabou com esta prática, declarando:

É impossível que eu seja insultado ou ultrajado. Eu nada faço que mereça ser censurado, e não me importam as falsidades que sobre mim sejam escritas. E, quanto aos imperadores que já estão mortos e enterrados, já se vingarão por si mesmos caso alguém lhes fazer algum mal, se em verdade são semideuses e possuem algum poder."

Portanto, nenhum dos senadores foi assassinado durante o seu reinado; Tito manteve assim a sua promessa de que assumiria o cargo de Pontifex Maximus" com o objetivo de manter as mãos limpas". Os informadores públicos foram castigados e desterrados da cidade. Como imperador, Tito ficou conhecido pela sua generosidade, e Suetônio declara que para compreender que ele não tirara nenhuma benefício de ninguém durante um dia inteiro ele comentou, "Amigos, perdi um dia".

Desafios

Embora o seu reinado ficasse livre de conflitos militares ou políticos, Tito teve de afrontar um grande número de desastres. A 24 de agosto de 79 d.C., apenas dois meses depois da sua ascensão ao trono, o Monte Vesúvio entrou em erupção, causando a quase completa destruição das cidades da Baía de Nápoles. As cidades de Pompeia e Herculano foram sepultadas sob toneladas de pedra e lava causando a morte de um grande número de pessoas. Tito designou dois ex-cônsules para dirigir as tarefas de reconstrução e doou uma grande quantidade de dinheiro do Tesoro Imperial a fim de ajudar as vítimas do vulcão. O próprio Tito visitou Pompeia após a erupção e depois outra vez mais no ano seguinte.

Durante a segunda visita, um incêndio que durou três dias estourou em Roma. Embora o grau de destruição não fosse tão desastroso quanto o do grande incêndio do 64 d.C., Dião Cássio registrou uma longa lista de edifícios públicos danificados parcialmente ou consumidos totalmente pelo fogo. Entre eles, estavam o Panteão de Agripa, o Templo de Júpiter, o Diribitorium, o Teatro de Pompeu e a Saepta Júlia, entre outros. De novo Tito pagou do seu bolso os danos ocasionados pelo fogo. Aparentemente houve uma praga durante o incêndio, embora se desconheça a natureza da doença e o número de falecidos.

Enquanto isso, a guerra continuara na Britânia, onde Cneu Júlio Agrícola se internou na Caledônia e dirigiu o estabelecimento de várias fortificações. Como consequência das suas ações, Tito foi aclamado Imperator por decimo-quinta vez.

O seu reinado também sofreu a rebelião de Terêncio Máximo, um de vários Neros falsos que continuaram aparecendo ao longo dos anos 70. Embora Nero seja conhecido nomeadamente como um tirano, chegaram escritos que informam que foi enormemente popular nas províncias orientais durante o seu reinado.

Segundo Dião Cássio, Terêncio Máximo seria parecido com Nero na voz e no aspecto e, como ele, tocava a lira. Terêncio estabeleceu-se na Ásia Menor, mas pronto foi forçado a escapar para além de Eufrates, tomando refúgio entre os Partos. Além disso, as fontes antigas declaram que Tito descobriu que o seu irmão Domiciano conspirava contra ele, mas recusou a opção de assassiná-lo ou desterrá-lo.

Obras Públicas

A construção de Anfiteatro Flávio, conhecido habitualmente como o Coliseu de Roma, começou na década de 70 sob o reinado de Vespasiano e finalizou sob o reinado de Tito nos anos 80. Além das espetaculosas dimensões do Coliseu, que ofereciam um grande entretenimento para a população romana, o Coliseu representava também os sucessos militares dos Flávios durante as guerras judaicas. Os jogos inaugurais duraram cem dias, e foram sumamente elaborados, incluindo combates de gladiadores, pelejas de animais selvagens, representações de batalhas navais (para as que foi inundado o teatro), corridas de cavalos e de carros. Durante os jogos, passaram entre o público umas bolas de madeira, inscritas com vários prêmios com os que os ganhadores eram obsequiados.

Junto ao anfiteatro, dentro do recinto da Domus Aurea de Nero, Tito ordenara a construção de uns novos banhos públicos públicos, que deviam levar o seu nome. A construção deste edifício terminou de pressa para que coincidisse com a finalização das obras do Anfiteatro Flávio.

A prática do culto imperial foi ressuscitada por Tito, embora aparentemente isto encontrou algumas dificuldades, pois Vespasiano não foi deificado senão seis meses depois da sua morte. Para honra e glória da dinastia dos Flávios, começaram as obras do Templo de Tito e Vespasiano que finalizaria durante o governo de Domiciano.

Morte

Ao finalizar os jogos, Tito dedicou oficialmente ao povo a construção do anfiteatro e os banhos, o que deveu ser o seu último ato como imperador. Tito partiu para os territórios dos sabinos mas caiu enfermo e faleceu por causa de umas febres, aparentemente no mesmo imóvel que o seu pai. Segundo parece, as últimas palavras que pronunciou Tito foram "somente cometi um erro". Tito governara o Império Romano durante dois anos, da morte do seu pai em 79 d.C. até a sua morte a 13 de setembro do 81 d.C. Tito foi sucedido por Domiciano cujo primeiro ato foi deificar o seu irmão.

Os historiadores especularam muito sobre a morte de Tito e do erro ao qual se refere nas suas últimas palavras, Filóstrato defende que foi envenenado por Domiciano e que a sua morte fora prognosticada por Apolônio de Tiana. Suetônio e Dião Cássio sustêm que faleceu de causas naturais, mas acusam Domiciano de abandonar o seu irmão enfermo e segundo Dião, o erro ao que Tito refere é o de não ter executado o seu irmão que descobriu a sua participação no complô contra ele.

Legado

Os relatos sobre Tito escritos por historiadores antigos são mais exemplares que sobre qualquer outro imperador. Os escritos que sobreviveram, a maioria de autores contemporâneos a Tito, oferecem uma visão estremadamente favorável para o imperador, sobretudo comparado com o tirânico governo do seu irmão Domiciano.

A obra de Josefo A guerra dos judeus oferece uma visão de primeira mão sobre ,o caráter de Tito durante a rebelião judaica. Contudo a neutralidade do escrito de Josefo foi questionado, pois Josefo estava em dívida com o imperador. Quando Tito chegou a Roma em 71 d.C. Josefo acompanhava-o como parte do seu séquito, e depois o historiador naturalizaria-se cidadão romano e tomaria o nome e o praenomen dos seus padroeiros. Josefo recebeu uma pensão anual e viveu em palácio. Sob o patrocínio do imperador, Josefo escreveu muitas das suas obras mais conhecidas. A obra conhecida como A Guerra dos Judeus inclina-se contra os líderes da rebelião, apresentando o levantamento como uma operação mal organizada e culpando aos judeus de causar a guerra.

Outro contemporâneo de Tito, Públio Cornélio Tácito, que começou a sua carreira pública em 80 d.C. ou 81 d.C. e que deve a sua ascensão à dinastia Flávia, oferece uma visão sobre o imperador Tito. As suas Histórias foram escritas neste período, e publicadas durante o reinado de Trajano. Porém, os cinco primeiros livros deste texto, que abrangem os reinados de Tito e Domiciano não foram preservados.

Suetônio oferece um relato curto mas muito favorável sobre o reinado de Tito na sua obra As vidas dos doze césares. Suetônio ressalta os seus sucessos militares e a sua generosidade; assim, a sua descrição de Tito diz:

"Tito, chamado do mesmo jeito que o seu pai, foi querido por todo o povo romano, coisa muito difícil. Era tão superior que era um prazer para a raça humana, foram estas características o que lhe fizeram ganhar o afeto da população."

Outro autor, Dião Cássio, escreveu a sua História de Roma uns cem anos depois da morte de Tito; Cássio tem uma visão muito similar à de Suetônio, e é muito provável que utilizara a este como a sua fonte principal:

"O fato de as fontes falarem muito bem de ele é devido a que esteve pouco tempo no trono, e apenas teve oportunidade de fazer o mal. Desde a data em que o nomearam imperador transcorreram somente dois anos, dois meses e vinte e nove dias -além dos vinte e nove anos, cinco meses e vinte e cinco dias que vivera até então. Certamente, por isso é acreditado que igualou o longo reinado de Augusto, pois Augusto nunca teria sido amado caso viver menos, nem Tito caso viver mais. Augusto, embora se mostrasse irascível pelas guerras e outros contratempos, foi muito capaz, com o tempo, de conseguir uma brilhante reputação pelos seus generosos atos; Tito, pelo contrário, governou com temperança e faleceu no apogeu da sua glória. De ter vivido muito mais, ficaria demonstrado que deve mais a sua fama atual à fortuna do que aos seus próprios méritos."

Plínio o Velho, que faleceu após a erupção do Vesúvio, dedicou a sua obra Naturalis Historiæ ao imperador.