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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Pazuzu: O Demônio Mesopotâmico da Destruição e da Proteção

 

Pazuzu é um demônio babilônico/assírio que atingiu o auge de sua popularidade no primeiro milênio aC Era filho de Hanbi (também conhecido como Hanba), rei dos demônios do submundo, e irmão de Humbaba, o deus-demônio protetor da floresta de cedros na Epopéia de Gilgamesh, que é morto pelos heróis. Ele era famoso por seus poderes destrutivos e, portanto, era frequentemente invocado para proteção contra as mesmas doenças, ameaças e terrores que ele mesmo criava. Ele era o demônio do submundo que comandava os ventos de oeste e sudoeste, que traziam fome durante a estação seca e, na estação chuvosa, tempestades devastadoras e gafanhotos. Como era a força por trás dos ventos destrutivos e da ameaça que eles representavam, também era considerado a melhor defesa contra eles.

Semelhante, neste aspeto, a Set (deus egípcio), as orações a Pazuzu tinham como objetivo desviar a sua inclinação natural para a destruição para fins mais benevolentes de proteção. Uma vez que era evidente que possuía grande poder para causar danos, acreditava-se que era igualmente poderoso na proteção.

Pazuzu é o demônio mesopotâmico mais famoso hoje em dia e provavelmente o único que as pessoas já ouviram falar. O estudioso Stephen Bertman observa: “Embora sem muito brilho, Pazuzu chegou a Hollywood: ele é o único demônio mesopotâmico a ter estrelado um filme — O Exorcista. No filme de terror de 1973 (baseado no romance de 1971 de William Peter Blatty), Pazuzu é o demônio que possui a personagem interpretada por Linda Blair e está associado ao Satanás cristão e às forças do mal.

Demônios na Antiga Mesopotâmia

Ainda assim, embora ele nunca tenha sido considerado o mais benevolente dos seres sobrenaturais da antiga Mesopotâmia e certamente fosse visto como um demônio poderoso, ele não era o mal encarnado. Ele deveria ser considerado mais como um deus travesso, capaz de causar mal ou bem, dependendo de seu humor. Era particularmente poderoso na proteção de mulheres grávidas e crianças contra a deusa-demônio Lamashtu, que se alimentava de bebês não nascidos e recém-nascidos.

O termo «demônio» nos dias de hoje sempre traz consigo a conotação de maldade, mas isso não era assim no mundo antigo. A palavra portuguesa 'demônio' e a palavra inglesa demon são uma tradução da palavra grega daimon, que significava simplesmente espírito. Um daimon poderia ser bom ou mau, dependendo de suas intenções e dos resultados de uma visita. Na antiga Mesopotâmia, como em outras culturas do mundo antigo, os demônios eram frequentemente enviados pelos deuses como punição pelo pecado ou para lembrar a alguém seu dever para com os deuses e outros membros de sua comunidade. Os demônios nem sempre eram maus, e mesmo aqueles que traziam morte e destruição, como Pazuzu, ainda eram capazes de boas ações.

Demônios como Parte do Plano Divino

No mito de Atrahasis, os seres humanos tornaram-se demasiado numerosos, ruidosos e extremamente férteis. Além disso, vivem tanto tempo que, a cada momento, nascem mais pessoas do que aquelas que morrem. Cobrem a Terra e perturbam o deus Enlil com o seu barulho de tal forma que ele decide destruí-los através de um grande dilúvio. Depois de as águas baixarem, o deus da sabedoria, Enki, propõe um plano para repovoar a Terra: os deuses criarão um novo tipo de humano, com uma esperança de vida mais curta e maiores ameaças à sua existência quotidiana. Daí em diante, existirão doenças, abortos espontâneos, impotência, esterilidade, ataques de animais selvagens e todo o tipo de formas de morte à espreita a cada dia.

Os demônios faziam parte desse plano divino e eram enviados para reduzir a população, punir os iníquos, testar os justos, e podiam até receber autorização para atormentar alguém porque um determinado deus considerava que isso era justificado — mesmo que outro discordasse. Os demônios que interferiam no ato sexual e na fertilidade eram especialmente problemáticos.

O demônio Samana, por exemplo, com seus dentes de dragão, garras de águia e cauda de escorpião, era uma ameaça constante, e um encantamento sumério contra ele lista como ele bloqueia a menstruação das jovens, a potência dos homens jovens e os serviços de cortesãs e prostitutas. Samana também poderia afetar colheitas, gado e, de acordo com Bertman, "tinha um apetite especial por bebês e prostitutas". Um demônio de tamanha malícia e poder destrutivo deveria ter sido mantido sob controle estrito pelos deuses; entretanto, Samana era considerado um agente de Gula, a deusa suméria da saúde e da cura, às vezes sendo enviado por ela por motivos que os mortais teriam que tentar entender por si mesmos.

O único aspecto perceptível era que você poderia ser alvo de um deus ou demônio para algum tormento requintado ou mundano a qualquer momento e por razões que nem sempre eram claras. A estudiosa Gwendolyn Leick observa:

"A vida sexual em si, tanto do indivíduo como da sociedade em geral, estava sob uma ameaça potencial da ira de deuses vingativos ou da malícia de forças demoníacas.

A sexualidade era especialmente visada, se seguirmos a narrativa do Atrahasis, porque estava relacionada à reprodução e à população. Ao visar a vida sexual dos seres humanos, os deuses poderiam manter as comunidades humanas em um tamanho administrável.

Pazuzu, o Protetor

Uma das melhores maneiras de se proteger contra tais ataques era encontrar um protetor em um demônio igualmente poderoso, que se interpusesse entre o indivíduo e a ira dos deuses, servindo como um escudo. Pazuzu era a mais popular dessas divindades protetoras. Foi invocado principalmente para impedir Lamashtu de assassinar bebês não nascidos ou recém-nascidos, mas parece ter sido invocado também contra doenças, impotência e os efeitos nocivos dos ventos de oeste e sudoeste, que sopravam da direção da terra dos mortos; os mesmos ventos que o próprio Pazuzu controlava.

Ele é imaginado como uma figura especialmente assustadora, capaz de afugentar qualquer demônio ou fantasma menor. Pazuzu é representado em estatuetas e gravuras com olhos esbugalhados em um rosto canino, um corpo escamoso, um pênis com cabeça de cobra, as garras de um grande pássaro e asas enormes.

Nas cenas iniciais do filme O Exorcista, é retratado com precisão na estátua em tamanho real que o padre contempla na antiga cidade de Hatra.

No romance, o autor mostra o padre segurando uma pequena estátua de Pazuzu, e não contemplando uma figura grande, o que também é preciso. Embora pequenas estatuetas do demônio tenham sido encontradas em Hatra, nunca foram encontradas estátuas em tamanho real em lugar nenhum, e é improvável que algum dia sejam. Representações de demônios ou divindades associadas ao submundo são raras, porque se acreditava que, ao criar tal imagem, atraía-se a atenção do próprio ser representado.

As Imagens, as Estatuetas e os Amuletos

É por esta razão que existem poucas imagens de Ereshkigal, a Rainha dos Mortos, e por que nem mesmo o famoso Relevo de Burney (popularmente conhecido como a Rainha da Noite) nomeia explicitamente o seu sujeito, embora provavelmente retrate Ereshkigal: criar uma imagem da Rainha dos Mortos seria chamar a atenção dela para si mesmo, e ninguém estava particularmente interessado em encontrá-la face a face.

As pequenas estatuetas e amuletos com a figura de Pazuzu tinham exatamente o mesmo efeito: atraíam a atenção de Pazuzu para quem os usava ou para a sala onde a estatueta era colocada, mas seu tamanho diminuto concentrava seu poder na proteção. O mortal individual não teria nada a temer do demônio, pois o estava honrando ao pedir sua proteção; e, quando ele viesse, ele voltaria seus poderes demoníacos contra aqueles que ameaçavam seus protegidos, e não contra o mortal que o invocou.

Essas pequenas estatuetas eram colocadas principalmente nos quartos das crianças, naturalmente, mas podiam estar em qualquer lugar da casa, perto de uma porta ou janela. As imagens e figuras de Pazuzu serviam uma função semelhante à dos Cães de Nimrud, pequenas estatuetas de cães enterradas sob o limiar de um prédio (ou estrategicamente colocadas em um quarto) para proteger contra espíritos malignos, demônios ou fantasmas. Acreditava-se que os Cães de Nimrud estavam imbuídos do espírito de cães reais, associados a Gula, que eram vistos principalmente como animais protetores. Da mesma forma, as estatuetas de Pazuzu eram baseadas na essência do próprio demônio e garantiam a segurança de quem estava em sua presença.

A Evolução dos Demônios

De acordo com o estudioso Jeremy Black, os demônios na Mesopotâmia evoluíram ao longo dos anos, passando de representações de animais ameaçadores para personificações da ameaça de perigo e morte. Black afirma que Pazuzu é a expressão máxima desta evolução e apresenta uma cronologia simplificada desse processo, dividindo-o em cinco fases:

1- Uma fase formativa, nos finais dos períodos Ubaide e Uruque, quando as características de diferentes animais foram combinadas pela primeira vez em seres compostos não naturais.

2- Uma fase otimista, no período acadiano, quando as cenas glípticas mostram a captura e o castigo de demônios nefastos.

3- Uma fase equilibrada, no período babilônico antigo, quando os desenhos de selos cilíndricos frequentemente misturam imagens (deuses, símbolos e outros motivos) de associações boas e más com respeito à humanidade.

4- Uma fase transformadora, com a arte mitanni, cassita e da Assíria média dos séculos XIV a XI aC, quando a imagética centrada no ser humano do período babilônico antigo deu lugar a uma preponderância de híbridos com cabeça de animal.

5- Uma fase demoníaca, representada pela arte neoassíria e neobabilônica, quando demônios individuais eram retratados em todo o seu horror.

Esta última fase de desenvolvimento está em consonância com a nova teologia de um submundo povoado por demônios no primeiro milênio a.C A mudança ocorre, aliás, ao mesmo tempo que o advento da prática de erguer, em palácios e templos, estátuas monumentais e relevos de seres magicamente protetores, e de enterrar pequenas imagens de argila dos mesmos nas fundações.

Essa evolução continuou durante o período helenístico da história da Mesopotâmia e continuou até o período cristão. Os cristãos não precisavam mais de demônios protetores e, naturalmente, a dependência de crenças religiosas anteriores foi desencorajada pela nova fé. Os demônios, juntamente com os antigos deuses, não tinham lugar no céu do Deus cristão e, portanto, foram relegados ao inferno cristão. Os demônios já estavam associados ao submundo e, assim como foi um passo simples transformar a vida após a morte pagã em um inferno de castigo, o mesmo aconteceu ao tornar os demônios agentes desse castigo eterno, bem como seres que chegavam à porta de alguém durante a vida, trazendo perigo, destruição, doença e morte.

Conclusão

Os evangelhos do Novo Testamento retratam Jesus Cristo expulsando regularmente demônios de várias pessoas, e o livro de Atos, Apocalipse e outros descrevem demônios a serviço do adversário de Deus, Satanás. Na carta de I João 4:1, no Novo Testamento, o autor exorta seus leitores a testarem cada espírito para ver se é de Deus e a rejeitá-lo se não for. Os demônios, de acordo com essa perspectiva, certamente não eram de Deus, nem poderiam servir à Sua vontade de forma alguma — um afastamento radical da visão que se tinha dessas entidades na antiga Mesopotâmia.

Após a ascensão do Cristianismo, os demônios passaram a ser considerados apenas como agentes do mal, incapazes de praticar o bem, exceto de forma inadvertida ao servir ao plano geral de Deus. Pazuzu, uma antiga figura mesopotâmica de aparência temível, foi a escolha perfeita como antagonista em O Exorcista, já que o público havia sido preparado, através de quase 2.000 anos de doutrinação, para aceitar o antigo deus-demônio como um instrumento do mal. Para as pessoas do seu tempo, contudo, Pazuzu era frequentemente considerado o mais forte e eficaz guarda de segurança e um escudo contra infortúnios num mundo incerto e, muitas vezes, assustador.