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domingo, 20 de setembro de 2026

Cristãos conhecem as contradições dos evangelhos há 1.800 anos

 

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Os quatro Evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — formam a base da fé cristã, mas apresentam um desafio significativo: nem sempre concordam. De cronologias diferentes e histórias únicas a contradições flagrantes nos detalhes de eventos-chave, esses textos têm suscitado perguntas e debates desde os primórdios do cristianismo. Neste episódio de "Misquoting Jesus", o Dr. Bart Ehrman explora uma das soluções antigas mais fascinantes para esse problema: a primeira harmonização dos Evangelhos, conhecida como Diatessaron. 

Criado por um intelectual sírio do século II chamado Tatiano, o Diatessaron (nome que significa “através dos quatro”) foi uma tentativa ambiciosa de entrelaçar as narrativas de Mateus, Marcos, Lucas e João em um único Evangelho abrangente e livre de contradições. Por que alguém se dedicaria a tal tarefa? Como explica Bart, as motivações para criar uma “harmonia evangélica” são duplas. Primeiro, há o desejo de obter o “quadro completo”, de ver cada história e cada perspectiva combinadas em uma grande narrativa. Mas, talvez ainda mais importante, a harmonização serve para suavizar as arestas — as discrepâncias e contradições que podem ser perturbadoras para os crentes e alvo de críticas. 

Bart ilustra os resultados curiosos dessa harmonização com um exemplo moderno de um livro chamado A Vida de Cristo em Estéreo. No Evangelho de Marcos, Jesus diz a Pedro que o negará três vezes “antes que o galo cante duas vezes”. Em Mateus, é simplesmente “antes que o galo cante”. Para resolver isso, o harmonizador moderno faz Pedro negar Jesus um total de seis vezes — três antes do primeiro corvo e mais três antes do segundo! Isso cria uma nova história que não existe em nenhuma das fontes originais, demonstrando um problema crucial dessa prática. A questão central, como Bart aponta, é que a harmonização rouba de cada autor dos Evangelhos sua voz única e seu propósito teológico. Mateus escreveu seu Evangelho para apresentar Jesus como o novo Moisés e o cumprimento da profecia judaica. João escreveu o seu para retratar Jesus como o Verbo divino e preexistente de Deus. 

Quando você os "mistura", perde essas perspectivas distintas. Bart usa o poderoso exemplo das últimas palavras de Jesus na cruz. Em Marcos, um Jesus desesperado clama: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?". Em João, um Jesus calmo e totalmente no controle declara: "Está consumado". Essas duas versões retratam cenas e teologias muito diferentes. A combinação dos dois evangelhos, como frequentemente ocorre na popular tradição das "Sete Últimas Palavras", dilui esses retratos poderosos e distintos, transformando-os em algo que os autores originais jamais pretenderam. Sem um manuscrito completo, como os estudiosos podem sequer saber o que ele continha? 

Bart explica o meticuloso trabalho de investigação envolvido: reconstruir o texto a partir de citações de outros autores antigos, estudar um comentário sobre o Diatessaron escrito pelo erudito do século IV, Efrém, o Sírio, e analisar harmonias evangélicas posteriores da Idade Média, escritas em línguas como latim, árabe e inglês antigo, que podem ser descendentes distantes do original de Tatiano. Por fim, a Igreja tomou a decisão consciente de preservar os quatro Evangelhos distintos. 

Os líderes da Igreja passaram a reconhecer o valor de suas diferentes perspectivas, entendendo que uma "visão completa" de Jesus era melhor alcançada pela leitura de quatro relatos complementares, ainda que por vezes tensos, em vez de uma narrativa única, simplificada e homogeneizada. Este episódio oferece uma visão fascinante do mundo da Igreja primitiva, revelando que os debates sobre a natureza das Escrituras e a pessoa de Jesus são tão antigos quanto o próprio cristianismo. 

Três Pontos Principais: 

1. O Problema das Contradições nos Evangelhos é Antigo: Os leitores modernos não são os primeiros a notar que os quatro Evangelhos contêm discrepâncias. A partir do século II, os cristãos estavam ativamente cientes dessas diferenças e desenvolveram várias estratégias para lidar com elas, desde alterações feitas pelos escribas e teologia complexa (Orígenes) até a harmonização completa (Taciano). 

2. A Harmonização Tem um Custo: Embora combinar os Evangelhos em uma única narrativa possa parecer uma solução simples para as contradições, isso altera fundamentalmente o texto. Esse processo apaga os objetivos literários únicos, as ênfases teológicas e os retratos distintos de Jesus que cada autor individual — Mateus, Marcos, Lucas e João — buscou criar. 3. A Sobrevivência de Textos Antigos Não é Acidental: O desaparecimento do Diatessaron não foi simplesmente azar. Foi o resultado de uma combinação.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Provas da Ressurreição: Evidências, Dúvidas, Metodologia

 


O que é a ressurreição de Jesus?

Ressurreição refere-se ao levantar de Jesus Cristo dentre os mortos três dias após sua crucificação, ou morte na cruz. Os cristãos acreditam que Jesus ressuscitou dos mortos após ser sepultado, conforme havia prometido aos seus seguidores.

Os detalhes da Ressurreição variam nos Evangelhos. Segundo Mateus, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena e às mulheres. Ainda segundo Mateus, ele apareceu primeiro a Pedro. Lucas afirma que a aparição de Jesus aos apóstolos ocorreu em Jerusalém. Mateus escreve que ocorreu na Galileia. Em Lucas, a Ressurreição e a Ascensão aconteceram simultaneamente. Em Atos dos Apóstolos, ocorreram com 40 dias de intervalo. O Evangelho de Marcos, originalmente, não continha nenhum relato da Ressurreição.

A ressurreição de Jesus dentre os mortos é o evento sobre o qual se erguem os pilares do cristianismo. Se Jesus não tivesse ressuscitado, como gostava de dizer o apóstolo Paulo, sua fé — o cristianismo — teria sido em vão. A autenticidade da ressurreição é contestada por muitos, e existem diversas opiniões sobre os detalhes e episódios do evento.

Estudiosos se referem a eventos como a Ressurreição como aparições pós-morte. Candida Moss escreveu: "Apologistas cristãos às vezes afirmam que a ressurreição de Jesus é totalmente única e substancialmente diferente de todos esses outros exemplos de aparições pós-morte. Por quê? Porque Jesus foi trazido de volta à vida em forma corporal e nunca mais morreu. A suposta singularidade da ressurreição serve como uma espécie de prova de que o cristianismo é verdadeiro: nenhum pequeno movimento poderia surgir tão rapidamente e se espalhar tão longe com base em uma falácia tão limitada. O problema com a alegação de 'singularidade' é que existem muitos tipos de existência pós-morte no mundo antigo. Certamente, em Homero, existem os tipos de fantasmas ou aparições que podem atravessar paredes, e Jesus não é nada parecido com isso, mas também existem cadáveres reanimados muito mais tangíveis."

Crenças sobre a Ressurreição

Jesus ensinou que a vida não termina com a morte do corpo. Ele fez esta afirmação surpreendente: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra como todos os outros, viverá de novo”. Segundo as testemunhas oculares mais próximas a ele, Jesus demonstrou seu poder sobre a morte ao ressuscitar dos mortos após ser crucificado e sepultado por três dias. É essa crença que tem dado esperança aos cristãos por quase 2000 anos.

Se Jesus ressuscitou dos mortos, então somente ele teria as respostas sobre o sentido da vida e o que nos espera após a morte. Por outro lado, se o relato da ressurreição de Jesus não for verdadeiro, então o cristianismo estaria fundamentado em uma mentira. O teólogo R.C. Sproul coloca desta forma: “A afirmação da ressurreição é vital para o cristianismo. Se Cristo foi ressuscitado dos mortos por Deus, então ele possui credenciais e comprovação que nenhum outro líder religioso possui. Todos os outros líderes religiosos estão mortos, mas, segundo o cristianismo, Cristo está vivo.”

Muitos judeus consideram a crença de que Jesus era o Messias como mera ilusão e baseada em uma interpretação errônea das escrituras (ou seja, que quando o Messias vier, ele deverá anunciar o fim do mundo).

Explicações para a Ressurreição de Jesus

As evidências da ressurreição de Cristo são o túmulo vazio e as aparições aos discípulos. Alguns estudiosos afirmam que o túmulo de Jesus pode ter sido roubado durante a noite por seus discípulos. Eles também sugerem que as aparições aos discípulos foram, na verdade, sonhos, visões ou alucinações, provocadas em parte pela culpa por terem abandonado Jesus.

Nenhum osso foi encontrado no túmulo. Paulo se esforçou ao máximo para listar testemunhas vivas específicas a fim de responder àqueles que duvidavam da veracidade dos relatos. Os estudiosos então recorreram ao Antigo Testamento e aos próprios ensinamentos de Jesus, encontrando profecias para os eventos que ocorreram. Possivelmente, o argumento menos convincente para a ressurreição apresentado nos Evangelhos foi a reação dos apóstolos ao Cristo renascido. Alguns sequer perceberam que estavam falando com Cristo até que ele se identificou.

Alguns sugerem que a completa inverosimilhança da história seja talvez a principal razão pela qual se deva acreditar nela: argumenta-se que ninguém poderia inventar tal história e convencer as pessoas de sua veracidade a menos que ela realmente tivesse acontecido. Não havia precedentes para os eventos que se desenrolaram. De acordo com as crenças judaicas, o Messias, que deveria inaugurar o Novo Reino, era um guerreiro pronto para lutar contra o mal, não um morto que foi benignamente para a morte e ressuscitou dos mortos.

Existem também algumas explicações criativas. A autora e historiadora australiana Barbara Thiering acredita que ele foi crucificado perto do Mar Morto, onde os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados. Ele foi enterrado em uma caverna e só aparentava estar morto após ingerir um veneno semelhante ao usado em rituais de zumbis no Haiti, que permitem que as pessoas ressuscitem.

Muitos têm dúvidas sobre a história. Alguns estudiosos acreditam que Marcos inventou o episódio do túmulo vazio. Filósofos estoicos e epicuristas em Atenas, que ouviram Paulo, disseram que "a Ressurreição estava muito além do seu alcance". O filósofo grego e crítico cristão do século II, Celso, chamou a Ressurreição de "uma história absurda".

Jesus ressuscitou literalmente dos mortos?

James Martin escreveu: “No domingo de Páscoa, vários discípulos descobriram que o túmulo onde o corpo de Jesus havia sido depositado estava vazio. Mais tarde, naquele mesmo dia, e nos dias e semanas seguintes, outros discípulos encontraram Jesus, que havia ressuscitado dos mortos. Mas quase imediatamente, outros refutaram seus relatos. A princípio, circularam histórias sobre o corpo de Jesus ter sido roubado por seus discípulos astutos. Mais tarde, outros afirmaram que outra pessoa havia sido colocada no lugar de Jesus na crucificação — ou que Ele não estava morto, mas simplesmente drogado e depois secretamente reanimado.

Hoje, circula um mito diferente, às vezes propagado por cristãos bem-intencionados: Jesus não ressuscitou literalmente dos mortos, e isso não importa. Nessa formulação, a "Ressurreição" nada mais foi do que os discípulos se lembrando do que Jesus disse e fez durante sua vida, e deixando que essas lembranças os encorajassem a continuar sua missão.

“Mas quando se examinam os Evangelhos, essa hipótese cai por terra. Por exemplo, em um Evangelho, os discípulos são descritos como estando tão aterrorizados após a crucificação que se esconderam atrás de portas fechadas. Por que não estariam? Seu líder acabara de ser executado da maneira mais vergonhosa imaginável. Mas então, de repente, os discípulos se enchem de determinação, prontos para dar suas vidas por Jesus Cristo. É plausível que simplesmente ficar sentados lembrando-se de Jesus possa explicar uma mudança tão surpreendente? Não, somente algo real, algo dramático e físico, algo que os discípulos viram e experimentaram, poderia levá-los tão decisivamente do terror absoluto à coragem ilimitada. E o que eles viram e experimentaram foi Jesus Cristo ressuscitado dos mortos.”
Esforços acadêmicos para verificar a ressurreição

Candida Moss escreveu: Nos últimos duzentos anos, acadêmicos têm tentado determinar quais eventos da vida de Jesus são realmente verdadeiros. É uma tarefa difícil porque, somente no Novo Testamento canônico, existem quatro Evangelhos que contêm histórias conflitantes, cronologias divergentes e diferentes versões dos eventos. Para descobrir o que aconteceu, os estudiosos empregam "critérios" históricos, como o critério de atestação múltipla (um evento é mencionado em múltiplas fontes), o critério de atestação independente (o evento é mencionado em múltiplas fontes que não tinham conhecimento ou conexão entre si) ou o critério do constrangimento (um evento ou dito é constrangedor para quem o conta, então deve ser verdade, porque as pessoas não costumam contar histórias constrangedoras sobre si mesmas) como ferramentas para discernir quais partes da história têm maior probabilidade de serem verdadeiras.

Nem todos os estudiosos consideram esse tipo de metodologia ou linha de investigação convincente, mas para aqueles que consideram, a ressurreição é mencionada (ainda que de maneiras diferentes e contraditórias) nos quatro evangelhos canônicos e nos escritos do apóstolo Paulo. Em outras palavras, ela atende tanto ao critério de atestação múltipla quanto ao critério de atestação independente.

Isso significa que a crença na ressurreição de Jesus remonta aos primeiros registros documentados da tradição. Usando essa metodologia, temos que concluir que eles viram algo. Ora, isso não significa que a ressurreição realmente aconteceu. Se quisermos dizer que os apóstolos tiveram uma experiência imaginada, alucinatória ou de alguma forma não sobrenatural, essa é uma interpretação razoável dos eventos. Mas não é justo acusá-los de puro engano.

Uma segunda razão para acreditar que os primeiros seguidores de Jesus acreditavam na própria mensagem é que conversas com os mortos não eram tão incomuns no mundo antigo. Hoje, se um amigo lhe dissesse que viu a mãe falecida, você poderia pensar que ele precisa de ajuda psiquiátrica. No mundo antigo, porém, você acreditaria nele e perguntaria o que a mãe havia dito. Como Meghan Henning, professora de Novo Testamento na Universidade de Dayton, disse : “Há inúmeras histórias de mortos que apareceram para seus entes queridos como sombras ou fantasmas. Essas sombras eram assustadoras porque representavam contato com a morte, não porque fossem perigosas ou incomuns de alguma forma. A fronteira entre a vida e a morte não era vista como uma parede impenetrável, mas como um rio que podia ser atravessado na direção oposta ocasionalmente.”

A posição mais cética em relação à ressurreição, portanto, teria que reconhecer que muitas pessoas no mundo antigo viram seus entes queridos voltarem à vida após a morte. Era algo culturalmente comum. Nessa perspectiva, os Apóstolos não eram mentirosos nem loucos; eles estavam expressando suas experiências usando o vocabulário cultural de sua época. Se você quiser acusá-los de mentir, também terá que acusar os antigos egípcios, gregos, romanos, babilônios e assim por diante.

Evidências da Ressurreição?

Em 1998, Lee Strobel, repórter do Chicago Tribune e formado pela Faculdade de Direito de Yale, publicou "Em Defesa de Cristo: A Investigação Pessoal de um Jornalista sobre as Evidências da Existência de Jesus". Strobel havia sido ateu, mas foi compelido pela conversão de sua esposa ao cristianismo evangélico a refutar as principais afirmações cristãs sobre Jesus — particularmente a Ressurreição. Como disse um personagem no filme baseado em seu livro: "Se a ressurreição de Jesus não aconteceu", a fé cristã seria "um castelo de cartas".

Brent Landau escreve: Strobel “argumenta que a ressurreição é a melhor explicação para o fato de o túmulo de Jesus estar vazio na manhã de Páscoa. Alguns estudiosos questionariam a antiguidade da história do túmulo vazio. Há evidências significativas de que os romanos normalmente não removiam as vítimas das cruzes após a morte. Portanto, é possível que a crença na ressurreição de Jesus tenha surgido primeiro e que a história do túmulo vazio tenha se originado apenas quando os primeiros críticos do cristianismo duvidaram da veracidade dessa afirmação.” 

Mas mesmo que presumamos que o túmulo estava realmente vazio naquela manhã, o que prova que foi um milagre e não que o corpo de Cristo foi movido por razões incertas? Milagres são, por definição, eventos extremamente improváveis, e não vejo razão para presumir que um tenha ocorrido quando outras explicações são muito mais plausíveis.

Strobel também é seletivo quanto aos acadêmicos que utiliza para apoiar seus argumentos. Vários deles, de renome, incluindo o Dr. Gary Habermas, são da Liberty University, onde os membros do corpo docente precisam assinar a seguinte declaração: “Afirmamos que a Bíblia, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, embora escrita por homens, foi sobrenaturalmente inspirada por Deus, de modo que todas as suas palavras são verdadeiras revelações de Deus; portanto, é inerrante nos originais e autoritativa em todos os assuntos.”

Em resposta às críticas sobre esse ponto, Strobel disse: Como você sabe, há muitos acadêmicos renomados que concordariam que as evidências da ressurreição são suficientes para estabelecer sua historicidade. Além disso, o Dr. Gary Habermas construiu uma argumentação persuasiva baseada em "fatos mínimos" para a ressurreição, utilizando apenas evidências que praticamente todos os acadêmicos aceitariam. No final, porém, cada pessoa deve chegar à sua própria conclusão sobre a existência de Cristo. Muitos fatores influenciam a forma como alguém interpreta as evidências — incluindo, por exemplo, se essa pessoa possui uma predisposição anti-sobrenatural.

Em resposta a Strobel, Landau escreve: Eu diria que, se ele tivesse perguntado a acadêmicos que lecionam em universidades públicas, faculdades e universidades privadas (muitas das quais têm vínculo religioso) ou seminários denominacionais, obteria um veredicto muito diferente sobre a historicidade da ressurreição. Apologistas cristãos frequentemente afirmam que a principal razão pela qual acadêmicos seculares não confirmam a historicidade da ressurreição é porque eles têm um "viés antissupernaturalista", assim como Strobel faz na citação acima. Em sua caracterização, os acadêmicos seculares simplesmente se recusam a acreditar que milagres possam acontecer, e essa postura significa que eles nunca aceitarão a historicidade da ressurreição, não importa quantas evidências sejam apresentadas. No entanto, apologistas como Gary Habermas, argumento eu, são igualmente antissupernaturalistas quando se trata de alegações de milagres fora dos primórdios do cristianismo, como aquelas envolvendo santos católicos posteriores ou milagres de tradições religiosas não cristãs.

Testemunhas oculares da Ressurreição?

Brent Landau escreve: Uma importante “prova” vem do texto do Novo Testamento conhecido como Primeira Epístola aos Coríntios, escrita pelo apóstolo Paulo a um grupo de cristãos em Corinto para abordar controvérsias que haviam surgido em sua comunidade. Acredita-se que Paulo tenha escrito esta carta por volta do ano 52, cerca de 20 anos após a morte de Jesus. Em 1 Coríntios 15:3-8, Paulo lista as pessoas a quem Jesus ressuscitado apareceu.

Essas testemunhas da ressurreição de Jesus incluem o apóstolo Pedro, Tiago, irmão de Jesus, e, o mais intrigante, um grupo de mais de 500 pessoas reunidas simultaneamente. Muitos estudiosos acreditam que Paulo está citando aqui um credo cristão muito mais antigo, que talvez tenha surgido poucos anos após a morte de Jesus.

Esta passagem ajuda a demonstrar que a crença na ressurreição de Jesus surgiu muito cedo na história do cristianismo. De fato, muitos estudiosos do Novo Testamento não contestariam que alguns seguidores de Jesus acreditavam tê-lo visto vivo apenas semanas ou meses após sua morte. Por exemplo, Bart Ehrman, um proeminente estudioso do Novo Testamento que se manifesta abertamente sobre seu agnosticismo, afirma: “O que é certo é que os primeiros seguidores de Jesus acreditavam que ele havia voltado à vida, em um corpo, e que esse corpo possuía características corporais reais: podia ser visto e tocado, e tinha uma voz que podia ser ouvida.”

Isso, porém, não prova de forma alguma que Jesus ressuscitou. Não é incomum que as pessoas vejam entes queridos que morreram: em um estudo com quase 20.000 pessoas, 13% relataram ter visto mortos. Há uma série de explicações para esse fenômeno, que vão desde o esgotamento físico e emocional causado pela morte de um ente querido até a crença de que alguns aspectos da personalidade humana são capazes de sobreviver à morte do corpo.

Mas e quanto às 500 pessoas que viram Jesus ressuscitado ao mesmo tempo? Em primeiro lugar, os estudiosos bíblicos não têm ideia a que evento Paulo se refere aqui. Alguns sugeriram que se trata do “dia de Pentecostes” (Atos 2:1), quando o Espírito Santo concedeu à comunidade cristã em Jerusalém a capacidade sobrenatural de falar em línguas desconhecidas. Mas um importante estudioso sugeriu que esse evento foi adicionado à lista de aparições da ressurreição por Paulo, e que suas origens são incertas. Em segundo lugar, mesmo que Paulo esteja relatando com precisão, isso não é diferente de grandes grupos de pessoas que afirmam ter visto uma aparição da Virgem Maria ou um OVNI. Embora os mecanismos precisos para tais alucinações coletivas permaneçam incertos, duvido muito que as pessoas considerem todos esses casos como fatos.

Divergências entre cristãos sobre a ressurreição

Candida Moss escreveu : Mesmo que os cristãos geralmente concordassem que Jesus escapou da morte e agora vive no reino celestial transcendente, isso não significa que concordassem sobre o significado disso, seja para Jesus ou para a eventual ressurreição de todos os outros. O Credo dos Apóstolos, proferido em igrejas do mundo todo, pode dizer: "Creio na ressurreição do corpo", mas muitos cristãos da antiguidade não concordavam. 

Em primeiro lugar, havia aqueles cristãos, conhecidos genericamente como docéticos, que acreditavam que Cristo apenas aparentava ser um ser humano ou apenas aparentava ter morrido. Alguns cristãos pensavam que, embora Jesus, o homem, tivesse morrido na cruz, Cristo (que antes era parte de Jesus) o abandonou a uma morte triste e solitária. Obviamente, para esses cristãos, Jesus nunca ressuscitou com um corpo físico material. Para eles, a história ortodoxa da ressurreição de Jesus soava como um filme de terror.

A questão de que tipo de corpo Jesus tinha (ou não) e que tipo de ressurreição todos os outros teriam no futuro foi intensamente debatida na Igreja primitiva. Como a acadêmica finlandesa Outi Lehtipuu demonstrou em seu livro seminal "Debates sobre a Ressurreição dos Mortos", muitos acreditavam que a opinião sobre a ressurreição determinava se alguém era ou não cristão. Era um teste decisivo para a ortodoxia.

A doutrina cristã atualmente difundida é que, quando Jesus ressuscitou, ele ascendeu ao céu em forma corporal. Em outras palavras, ele não era um fantasma. O corpo que ele ocupou era o mesmo em que morreu; na verdade, ainda apresentava as marcas da crucificação (João 20:24-31). Mas isso não significa que todo o corpo de Jesus ascendeu ao céu.

Por que Jesus não é considerado um zumbi?

Candida Moss escreveu: Existia uma infinidade de figuras sobrenaturais e fantasmagóricas no mundo antigo. E se Jesus fosse apenas mais uma delas? É possível sentir a ansiedade em relação a isso nos Evangelhos de Lucas e João. Em Lucas 24:39, Jesus mostra suas “mãos e pés” aos discípulos como prova de que não é um “espírito” ou fantasma. João usa Tomé para se deter nos contornos do corpo ressuscitado. Tomé estava evidentemente ausente na aparição anterior e declara: “Se eu não vir o sinal dos pregos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei” (João 20:25). A ambiguidade da linguagem permite uma variedade de interpretações possíveis. Como são as “marcas dos pregos”? A interpretação dominante desta cena é aquela em que Jesus ainda está visivelmente ferido e Tomé exige inserir o dedo na mão e no lado de Jesus.

Lendo esta passagem em João, fica claro que Tomé espera tocar o corpo de Jesus e ver se ele cede à sua mão (embora nunca saibamos se ele de fato o faz), mas nada no texto grego aqui insiste que seu toque será penetrante em vez de apenas probatório.

Pelo que sei, não há nenhum caso em que o termo seja usado para descrever uma perfuração "de ponta a ponta". Quando Tomé diz que quer colocar o dedo nas marcas dos pregos, ele pode estar se referindo a colocar o dedo sobre ou nas dobras de uma ferida cicatrizada ou em processo de cicatrização, e não em orifícios abertos. Curiosamente, se analisarmos os antigos escritores de medicina, fica claro que eles também acreditavam que os corpos começavam a formar crostas após alguns dias. A maneira como imaginamos essa cena está equivocada.

Por que importa se ele está sangrando ou com cicatrizes? Bem, as cicatrizes comunicam algo importante sobre a própria natureza do corpo ressuscitado de Jesus. Alguns estudiosos, como o Bispo N.T. Wright, afirmam que a presença de feridas e a fisicalidade tangível do corpo de Jesus demonstram que ele é uma pessoa viva e não uma espécie de fantasma. E que, além disso, ele é a primeira pessoa a ser ressuscitada permanentemente na história da humanidade. O problema é que, como escreveu o Professor Gregory Riley em "Resurrection Reconsidered" (Ressurreição Reconsiderada), isso não é estritamente verdade. Certamente, existem tipos de fantasmas — como o da mãe de Odisseu na Odisseia de Homero — cuja alma ou "psique" escapa por entre seus dedos "como vapor", mas havia outros tipos de entidades sobrenaturais que podiam ser facilmente tocadas.

Na verdade, eles podem até gostar disso. Não é absurdo sugerir que Jesus era um zumbi; cadáveres reanimados eram um fenômeno comum no mundo antigo. No Livro das Maravilhas de Flegon, do século II, uma jovem chamada Filínion emerge à noite do túmulo de sua família para se encontrar com um hóspede. Durante seus períodos de reanimação, que duram de minutos a dias, ela come, bebe e tem relações sexuais. Imagine como ele se sentiu ao descobrir. Assim como não diríamos que o Rei da Noite ressuscita pessoas, mas sim reanima cadáveres, também não diríamos que Filínion está realmente viva. A intangibilidade pode ser uma prova de que alguém é um fantasma, mas a capacidade de tocar uma pessoa não garante que ela esteja realmente viva.

Em termos bíblicos, no Evangelho de Mateus há um evento que pode ser razoavelmente descrito como um “apocalipse zumbi”, no qual os túmulos se abrem e os santos mortos saem de seus túmulos e vagam por Jerusalém (Mt 27:52-53). Como escreveram Gregory Riley e Adela Collins, acreditava-se que muitos heróis da antiguidade retornavam à vida para nunca mais morrer. Henning acrescentou que existem muitas histórias em que Asclépio, o deus grego da cura, ressuscita os mortos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Eterno Problema do Mal...“Era uma vez um homem chamado Jó, que vivia no país de Hus...

Em busca da solução para a dor e o sofrimento, os povos primitivos inventaram uma lenda com a qual pensavam justificá-los. Daí surgiu à lenda de Jó. Os argumentos provam está análise que farei desse livro bíblico.

O primeiro problema que nos surge é a questão das contradições existentes nesse livro, apontadas por Bart D. Ehrman:

Como já anunciei, o que se revela uma surpresa para muitos leitores da Bíblia é que algumas dessas respostas não são as que eles esperariam, e que algumas das respostas entram em choque com outras. Vou tentar mostrar, por exemplo, que o livro de Jó tem dois conjuntos de respostas para o problema do sofrimento:

Uma é a história de Jó no início e no final do livro, e a Outra está nos diálogos entre Jó e seus amigos que ocupam a maior parte dos capítulos.

Essas duas visões são contraditórias entre si. Mais ainda, as duas visões diferem das visões dos profetas. E a resposta profética - encontrada ao longo de boa parte da Bíblia hebraica - entra em contradição com as visões "apocalípticas" como Daniel, Paulo e mesmo Jesus. (EHRMAN, 2008, p. 24).

Não bastasse isso, ainda temos o que alguns tradutores bíblicos afirmam, colocando o livro de Jó não como inspirado, mas, sim, como lendário: A literatura sapiencial floresceu em todo o Antigo Oriente.

Ao longo de sua história, o Egito produziu escritos de sabedoria. Na Mesopotâmia, desde a época suméria, foram compostos provérbios, fábulas e poemas sobre o sofrimento que se assemelham ao livro de Jó.

(...) Não é de admirar que as primeiras obras sapienciais de Israel se pareçam muito com a de seus vizinhos: todas elas provêm do mesmo ambiente. (Bíblia de Jerusalém, p. 797).

(...) o autor usa uma antiga lenda sobre a retribuição (1,1-2,13; 42,7-17), omitindo o final (42,7-17) e substituindo-o por uma série de debates que mostram o absurdo da teologia em voga, incapaz de atender à nova situação (3,1-42,6). (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, p. 639).

O autor toma como ponto de partida uma lenda comum na época e, com leves retoques, a relata em 1,1-2,13. O final primitivo dessa lenda se encontra em 42,7-17. A intenção é substituir o final da lenda pelo debate que se encontra em 3,1-42,6. (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, p. 640).

Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo da discussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas as idéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42,1-8: Jó, embora tendo um conceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou o conceito adequado de Deus e de sua Providência.

O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião mais plausível é a de que também seja uma personagem fictícia, pois o objetivo da obra não é contar a história de um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem... (Bíblia Sagrada – Edições Paulinas, p. 579).

O livro de Jó, obra-prima entre os livros sapienciais, digna de figurar entre as melhores obras da literatura universal, é um poema dramático-religioso que discute, em profundidade e com veemente paixão retórica, o tema universal da transformação do homem. Em conexão com esse tema, trata do sentido do sofrimento na vida humana e da doutrina da retribuição.[…]

Origem e acréscimos: Diversidades no vocabulário, no estilo e no ambiente cultural e religioso dão a entender que o livro foi escrito por etapas. Resquícios de vocabulário do período persa e algumas circunstâncias históricas e culturais fazem supor que ele tenha surgido no século V ou IV a.C., após o exílio babilônico, e seus acréscimos, no mais tardar, no século III a.C.

O prólogo e o epílogo são reformulação literária de um conto didático da tradição oral dos sábios do antigo Oriente Médio não israelita. Não poucos detalhes sugerem que o autor (os autores) tenha vivido na Palestina. Certamente inspirado em Jeremias, no livro das Lamentações e nos Salmos de lamentação, o autor compôs seu drama com objetivo profético-pastoral, à semelhança das exortações de Ezequiel. (Bíblia Sagrada – Vozes, p. 631).

Embora não saibamos com certeza onde se encontra Hus, sabemos que não é território israelita. Ou seja, o autor escolheu um estrangeiro como herói da sua história ou drama. Por quê?

Para respeitar a tradição ou a lenda - comentam alguns. Ezequiel 14 menciona Noé, Daniel e Jó como protótipos de santidade. Conhecemos Daniel pela literatura Cananéia. Talvez a lenda contasse a vida paciente e heróica de um Jó de tempos patriarcais, antes que Israel existisse. O autor teria tomado a figura para protagonista de sua obra, respeitando o perfil ou vários elementos da tradição. (Bíblia do Peregrino, p. 1062).

Observem que todos os tradutores e exegetas envolvidos nas Bíblias citadas nos dão conta de que o livro de Jó foi tomado de uma antiga lenda da Mesopotâmia; por isso, julgo importante a origem da informação, porquanto, vindo depor contra a presumida inspiração divina dos textos bíblicos, certamente, não seria colocada, caso isso não tivesse sido comprovado.

Como se vê, desde tempos imemoriais, os “donos” das religiões sempre fizeram suas interpolações (usando até lendas, como aqui) e que, para fortalecerem-nas, atribuíam-nas à divindade a que eles prestavam culto.

Orígenes, considerado um dos pais da Igreja, afirmou que o livro de Jó é mais antigo do que Moisés (ORÍGENES, 2004, p. 495); isso, em outras palavras, quer dizer que esse livro já existia muito antes do início da História do povo hebreu; portanto, anteriormente à existência da Bíblia, pois, segundo dizem, Moisés foi o autor de seus cinco primeiros livros, apesar de no último deles estar narrada a sua morte.

Não posso também deixar de trazer opiniões de historiadores e estudiosos da Bíblia, visando corroborar o que vimos, um pouco atrás, em relação aos tradutores. Leiamos:

Job não entende, mas resigna-se ao destino. Não discute. Aceita. Mas quando se encontra com três de seus velhos amigos, ocorre àquele memorável diálogo que faz o Livro de Job tão caro a todos os amantes da literatura de ficção. (VAN LOON, 1981, p. 118)

[…] Os livros de Jó ou Jonas ou Rute ou Ester foram, desde o início, fábulas ou ficções: foram criados por seus autores. […] (FOX, 1993, p. 336).

Muitas das histórias contadas no Antigo Testamento são compilações melhoradas, adaptadas ou aumentadas de outros saberes e culturas, principalmente do Egito e da Mesopotâmia. Como é o caso de Jó, o babilônico, que se aproxima das idéias, angústias e questionamentos sobre a vida e a morte de Jó bíblico, sendo o primeiro muito mais antigo. (MARQUES, 2005, p. 101.

É interessante ressaltar a coincidência de alguns pontos entre as crenças dos povos mesopotâmicos e as dos hebreus que, sendo seus vizinhos, naturalmente foram influenciados pela tradição regional. Destacamos, entre outros pontos de contato, a analogia de Utnapishtim e Noé, do pobre inominado e Jó, a gula de Enkil e o episódio da Serpente, e entre o Éden e o Dilum. (KRAMER, 1983, p. 114).

[…] Entre os mitos da Suméria figura a história do homem de nome desconhecido, rico, judicioso e afortunado com a família e os amigos, que um dia se encontrou sozinho e enfermo por motivos que ele não era capaz de compreender. […] O homem lastima a sua sorte, exclamando:

“Minha palavra honrada transformou-se em mentira... Uma doença maligna cobre meu corpo... Deus meu... por quanto tempo me abandonarás, me deixarás sem proteção?”. A história desse Jó sumeriano tem um desfecho feliz, porque o deus lhe ouviu as preces e fez que as provações terminassem tão abruptamente como haviam começado. Mas as questões fundamentais do sofrimento humano e da justiça divina – formulada pelo povo sumério e ainda com maior pungência pelo seu descendente bíblico – ainda nos desafiam. (KRAMER, 1983, p. 123).

Um desses heróis distantes, venerado na Babilônia como exemplo de paciência e sofrimento, foi Jó. Após o exílio, um dos sobreviventes usou essa lenda antiga para formular perguntas fundamentais sobre a natureza de Deus e sua responsabilidade pelos sofrimentos humanos. Nessa lenda, Jó é testado por Deus e, como suporta com paciência suas imerecidas tribulações, recupera a antiga prosperidade. Na nova versão, o autor divide ao meio a velha lenda e faz Jó vociferar contra Deus. Junto com seus três consoladores, Jó ousa questionar os decretos divinos e trava um feroz debate intelectual. [...] (ARMSTRONG, 2008, p. 89).

Temos, portanto, a confirmação de que a história de Jó não passa mesmo de uma lenda, que o autor bíblico tomou emprestada de outros povos, adaptando-a, obviamente, à mensagem que queria passar.

Encontramos até o Jó babilônico, vejam: Além do mais, havia também as inevitáveis decepções daquelas almas devotas que, como Jó, tinham cumprido até em demasia todas as obrigações religiosas, apenas para serem abatidas horrivelmente, como foi o caso de um velho rei devoto, Tabi-utul-Enlil, de cerca de 1750 a.C., conhecido como o Jó da Babilônia. Seu lamento e testemunho merecem ser citados:

Meus globos oculares ele obscureceu, trancando-os sob cadeado;

Meus ouvidos ele bloqueou, como os de um surdo.

De rei eu fui transformado em escravo,

E como um louco sou maltratado pelos que estão à minha volta.

tempo de vida designado eu tinha atingido e ultrapassado;

Para onde quer que eu me virasse via maldade sobre maldade.

A miséria crescia, a justiça perecia,

Eu supliquei a meu deus, mas ele não mostrou sua face;

Implorei à minha deusa, mas ela não levantou sua cabeça.

O sacerdote-adivinho não conseguiu prever o futuro através de uma visão,

O necromante com uma oferenda não conseguiu justificar meu caso.

Apelei para o sacerdote oracular: ele não revelou nada.

O mestre exorcista com seus ritos não conseguiu libertar-me da maldição.

Algo igual jamais tinha sido visto:

Para onde quer que eu me virasse, havia sofrimentos pela frente.

Como se eu nunca tivesse reservado a porção do deus

E não tivesse invocado a deusa na refeição,

Não tivesse inclinado minha cabeça e pago meu tributo:

Como se eu fosse um cuja boca não expressa constantemente súplicas e orações;

Não tivesse reservado o dia do deus; tivesse negligenciado a festa da lua nova;

Sido negligente, ou desprezado suas imagens,

Não tivesse ensinado a seu povo reverência e temor,

Não tivesse invocado sua divindade, ou tivesse comido alimentos do deus,

Negligenciado sua deusa e deixado de fazer a libação:

Sou comparado com o opressor que esqueceu seu senhor

E profanou o sagrado nome de seu deus.

No entanto eu pensava apenas em súplicas e orações;

A oração era minha prática, o sacrifício minha lei,

O dia de adoração dos deuses, o júbilo de meu coração,

O dia de devoção à deusa, mais [valia] para mim do que as riquezas;

Prece real - essa era minha alegria;

Sua celebração - meu deleite.

Ensinei meu país a guardar o nome de deus,

Acostumei meu povo a honrar o nome da deusa.

A glorificação do rei, eu tomei igual à de um deus,

E por temor ao palácio, eu instruí o povo.

Achava que tais coisas fossem agradáveis a um deus. ...

Aqui temos o problema deste pobre velho. E agora vem a resposta usual, já conhecida da Babilônia por volta de 1750 a.C.

O que, entretanto, parece bom a si mesmo, a um deus desagrada,

E o que é rejeitado encontra as boas graças junto a um deus.

Quem é que pode saber a vontade dos deuses no céu?

O plano de um deus, pleno de mistério - quem pode entendê-lo?

Como podem os mortais descobrir a vontade de um deus?

Pois o homem não passa de uma coisa insignificante,

enquanto os deuses são importantes.

O homem que ontem estava vivo hoje está morto;

Em um instante ele pode enlutar, de repente, ser aniquilado.

Pois, enquanto um dia ele canta e se diverte,

No outro chora como as carpideiras.

O estado de espírito do homem muda como o dia e a noite;

Quando tem fome, é como um cadáver;

Satisfeito, julga-se igual a seu deus;

Quando as coisas vão bem, gaba-se de subir ao céu,

Quando em dificuldades, queixa-se de descer ao inferno.

Como Jó, entretanto, que enfrentaria esse mesmo problema cerca de 1.500 anos mais tarde, o velho rei Tabi-utul-Enlil, embora submetido a severa provação, não foi abandonado por seu deus, mas viu aumentada sua fortuna.

Primeiramente, entretanto, para tornar clara a extensão do milagre de seu deus, temos que ouvir toda a litania de seus males:

Um demônio perverso saiu de sua toca,

E, de amarelado, minha enfermidade deixou-me lívido.

Ele golpeou meu pescoço, quebrou minha espinha,

Dobrou minha altura como um álamo;

De maneira que fui arrancado como uma planta do brejo e atirado de costas.

A comida tomou-se amarga - pútrida.

E a doença prolongou seu curso. ...

Recolhi-me a minha cama, incapaz de deixá-la,

E minha casa tomou-se minha prisão.

Como algemas do meu corpo, minhas mãos ficaram impotentes.

Como cotos de asa, meus pés esmoreceram,

Meu desconcerto era grande, minha dor intensa.

Uma correia de muitas voltas afligia-me,

Uma lança pontuda trespassava-me.

E o perseguidor atormentou-me o dia inteiro;

E por toda a noite não me deu sossego:

Como que deslocadas, minhas juntas estavam e dilaceradas,

Meus membros, despedaçados, ficaram impotentes.

Em meu estábulo passei a noite como um boi,

Imerso como uma ovelha em meus próprios excrementos.

O mal de minhas juntas aturdiu o principal esconjurador,

Para o vaticinador meus presságios eram obscuros;

O exorcista não conseguiu encontrar o caráter da minha doença,

Tampouco o adivinho determinar o limite de meus males.

Mesmo assim nenhum deus veio em meu socorro, tomando-me pela mão,

Nenhuma deusa teve compaixão de mim, ficando a meu lado.

A cova foi aberta, meu sepultamento, ordenado,

embora não morto, já estava sendo pranteado.

O povo de meu país já tinha pronunciado "ais!"

sobre meu corpo.

A face de meu inimigo resplandeceu quando ele soube.

Quando as notícias foram anunciadas, seu fígado se regozijou,

E eu sabia que tinha chegado o dia em que toda minha família,

Dependente da proteção de nossa divindade estaria em apuros.

Mas então, quando tudo estava perdido e o velho rei, acamado, paralisado, cego, surdo, incapaz de comer e atormentado por dores incessantes chegou à beira do desespero, então veja! O virtuoso sofredor não foi abandonado, mas em sua hora mais sombria, veio até ele em um sonho o mensageiro de sua divindade - "um forte herói ornado com uma coroa" - e tudo o que lhe tinha sido tomado lhe foi devolvido.

O deus enviou uma forte tempestade até a base da montanha celeste,

Para as profundezas da terra ele dirigiu-a

E obrigou aquele demônio perverso a voltar para o abismo. ...

Com a maré ele me livrou do calafrio.

Ele arrancou a raiz de meu mal como uma planta.

O mau sono, que tinha impedido meu repouso,

encheu e escureceu os céus como fumaça. ...

E meus olhos, que tinham sido cobertos pelo véu da noite,

Com um forte vento que levou o véu ele fez brilhar.

De meus ouvidos, que tinham estado fechados e bloqueados,

como os de uma pessoa surda,

Ele removeu a surdez, abrindo sua audição.

A boca que tinha estado tapada, com dificuldade de exprimir sons,

Ele purificou, e como o cobre a fez brilhar.

Os dentes que tinham estado presos, apertados uns contra os outros,

Ele soltou, fortalecendo suas raízes.

Da língua inchada que não podia mover-se,

Ele removeu a intumescência e a fala retomou.

Minha garganta, que tinha estado comprimida como a de um cadáver,

Ele curou e meu peito ressoou como uma flauta. ...

Meu pescoço tinha sido torcido e pendia:

Ele tornou-o ereto como um cedro erguido.

Minha estatura ele tornou perfeita;

E liberto do demônio, ele poliu minhas unhas.

Ele curou meu escorbuto, livrou-me da coceira. ...

Todo meu corpo ele restabeleceu.

Pois o velho rei, agarrado à sua fé, tinha sido levado, à maneira de um devoto que vai a Lourdes ou ao Ganges, a uma água sagrada, onde o poder do deus o curou imediatamente:

Ele limpou as manchas, tomando o corpo inteiro radiante. A carcaça estropiada

recuperou seu esplendor.

Às margens do rio onde os homens são julgados

A marca da escravidão foi apagada e os grilhões retirados.

Daí a seguinte lição:

Deixa aquele que peca contra o templo aprender comigo:

Na mandíbula do leão prestes a devorar-me, Enlil inseriu um bocado.

Enlil capturou o laço do meu perseguidor:

Enlil sitiou a cova do demônio.

Apenas um detalhe para que não passe despercebido: o Jó babilônico é bem mais antigo do que o Jó judeu.

Lembramo-nos muito bem, quando, nos primeiros contatos com as letras, nossa professora primária, para entreter a turma e desenvolver-lhes a imaginação, contava as famosas histórias infantis. Invariavelmente iniciava assim: “Era uma vez...” buscando atrair a atenção dos alunos e criando, desde o início, um clima de expectativa.

Bem, você poderá me perguntar: mas o que tem isso a ver com o assunto que você se propõe a falar? O que estamos propondo, é uma relação direta entre essas histórias e a história de Jó; veja como se inicia o relato bíblico, na versão da Bíblia Sagrada Pastoral: Jó 1,1: “Era uma vez um homem chamado Jó, que vivia no país de Hus. Era um homem íntegro e reto, que temia a Deus e evitava o mal”.

É estonteante a correlação entre as histórias infantis e a que este sendo citado. Aliás, sobre esse país de Hus instala-se desacordo geral sobre onde se localiza:

Ø Hus, não identificada, mas por certo, situada ao oriente da Palestina. Há quem a coloque no Hauran, sul de Damasco (cf. Gen. 36,28; Lam 4,21),... (Bíblia Sagrada – Edições Paulinas, p. 580).

Ø embora não saibamos com certeza onde se encontra Hus, sabemos que não é território israelita. (Bíblia do Peregrino, p. 1062).

Ø Terra de Hus é o território de Edom, fora de Israel... (Bíblia Sagrada – Vozes, p. 634).

Ø ... Jó, que viveu em Hus, provavelmente a sudoeste do Mar Morto,... (Bíblia Sagrada - Santuário, p. 733).

Ø ficava a sudeste da Palestina, na Idumeia ou Edom (cf. Lm, 4,21). (Bíblia Barsa, p. 389).

Ø certamente ao sul de Edom (cf. Gn 36,28; Lm 4,21). (Bíblia de Jerusalém, p. 803).

No fundo, ninguém tem certeza de onde é, mas, para escapar dessa dúvida, alguns querem situá-la num lugar conhecido, esperando que os néscios acreditem neles. E, consultados vários mapas bíblicos e em nenhum deles encontra-se a localização de Hus, obviamente por não saberem mesmo onde era, ou, conforme acredito, não passa de uma ficção literária.

Mas, continuando:

Jó 1,2-5: “Tinha sete filhos e três filhas. Possuía também sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas mulas e grande número de empregados. Jó era o mais rico dos homens do Oriente. Os filhos de Jó costumavam fazer banquetes, um dia na casa de cada um, e convidavam as três irmãs para comer e beber com eles. Quando terminavam esses dias de festa, Jó os mandava chamar, para purificá-los. Ele madrugava e oferecia um holocausto para cada um deles, pensando: ‘Talvez meus filhos tenham pecado, ofendendo Deus em seu coração’. E Jó fazia assim todas as vezes”.

Tal quais as estórias infantis, aqui também é realçada a riqueza de Jó e um pouco de sua vivência diária. Interessante, nesse relato, é que não são citados os nomes de seus filhos, como seria de se esperar, caso o relato fosse verdadeiro; nem mesmo o de sua mulher.

Observe as quantidades citadas nos vv. 2 e 3, pois na análise da última passagem (Jó 42,12- 15) desse livro, citarei numa comparação.

Embora não seja o que pretendo abordar, vale uma digressão para outro assunto, não menos curioso. É a questão de satanás, como sendo o deus do mal; leiamos:

Jó 1,6-12: “Certa vez, foram os filhos de Deus apresentar-se ao Senhor; entre eles veio também Satanás. O Senhor, então, disse a Satanás: “Donde vens?” - “Dei uma voltas pela terra, andando a esmo”, respondeu ele. O Senhor lhe disse: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, teme a Deus e se afasta do mal”. Satanás respondeu ao Senhor: “Mas será por nada que Jó teme a Deus? Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste seus empreendimentos e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estende a mão e toca em todos os seus bens; eu te garanto que te lançará maldições em rosto!” Então o Senhor disse a Satanás: “Pois bem, tudo o que ele possui, eu o deixo em teu poder, mas não estendas a mão contra ele!” E Satanás saiu da presença do Senhor.

A expressão satanás (ou satã, segundo algumas traduções), conforme nos informam vários tradutores bíblicos, quer dizer “acusador”, não sendo, portanto, um ser, mas apenas uma função. Imaginemos num Tribunal de Júri, o promotor de justiça que age na linha de acusação do réu, exatamente o que, no texto, se atribui a esse anjo. Confirmando o que digo pela nota a seguir, relativa a essa passagem:

“A corte celeste, que decide os rumos da história, se reúne no estilo de uma corte oriental. Satã, que significa adversário no tribunal, não é aqui a personificação do mal, e sim uma espécie de investigador...” (Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, p. 640).

Observemos que, se na narrativa está se afirmando que entre os anjos, que se apresentaram a Javé, estava também satanás, é porque ele, evidentemente, era um deles. E se estava junto com os outros não era anjo mau. Seria o mesmo que se dizer que o Promotor Público, que é o outro pólo de que necessita a sociedade para o equilíbrio da Justiça, é um advogado mau, pelo simples fato de exercer a função de acusador.

Entretanto, não sabemos de onde a teologia retira que ele, Satanás, é um anjo mau. Só por pura extrapolação, pois, pelo que se vê do relato bíblico, a única coisa que fez foi ferir um pouco o orgulho de Javé. Isso porque, quando Javé disse que Jó era um homem íntegro, o anjo respondeu que ele era assim só porque “os braços” de Javé se estendiam sobre ele, protegendo-o e proporcionando-lhe as regalias terrenas, mas que, se não tivesse isso, talvez Jó não se comportasse daquele modo. Aí Javé deixa que o anjo retire de Jó tudo quanto tinha para ver se assim ele ainda se manteria firme na sua integralidade, como se em algum momento Deus pudesse ter dúvida sobre qualquer coisa ou sentisse a necessidade de alguém lhe provar algo que pensava ser verdadeiro.

Muitos têm a Jó como o “paciente sofredor”; mas será mesmo? Veja:

Jó 3,1-4: “Então Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento, dizendo: ‘Morra o dia em que nasci e a noite em que se disse: 'Um menino foi concebido'. Que esse dia se transforme em trevas; que Deus, do alto, não cuide dele e sobre ele não brilhe a luz”.

A pergunta é: uma pessoa paciente amaldiçoa o dia em que nasceu? Ou isso é típico dos impacientes? Como se diz; perguntar não ofende... Mas, não bastasse isso, continua o impaciente e já revoltado Jó:

Jó 3,11-16: “Por que não morri ao sair do ventre de minha mãe, ou não pereci ao sair de suas entranhas? Por que dois joelhos me receberam, e dois peitos me amamentaram? Agora eu repousaria tranqüilo e dormiria em paz, junto com os reis e governantes da terra, que construíram túmulos suntuosos para si, ou com os nobres que possuíram ouro e encheram de prata seus mausoléus. Agora eu seria um aborto enterrado, uma criatura que não chegou a ver a luz”.

Jó não suportou tamanho opróbrio, pois disse ter sido preferível que tivesse sido abortado. Atitude compreensível para os que, advogando a vida única, não encontra explicação para a dor e o sofrimento, cujo entendimento só poderá ser justificado se aceitarmos a reencarnação como única situação em que a justiça de Deus se manifesta em plenitude.

Mas, apesar disso tudo, encontra-se em Jó verdades que bem se aplicam aos que acreditam na reencarnação:

Jó 4,8: “Pelo que eu sei, os que cultivam injustiça e semeiam miséria, são esses que as colhem”.

Jó 5,7: “E o homem gera seu próprio sofrimento, como as faíscas voam para cima”.

Dessa fala de Jó refere-se à Lei de Causa e Efeito, comumente denominada de carma, cuja relação com a reencarnação é direta; quem acredita em uma delas acredita também na outra.

Há em Jó uma afirmação que os teólogos fazem de tudo para mudar-lhe o sentido. Leia-se:

Jó 4,15-16: “Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos do meu corpo; parou ele, mas não lhe discerni a aparência; um vulto estava diante de meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz:...”.

Aqui fica evidente, por demais, o fato de Jó ter percebido um espírito; entretanto, os não comprometidos com a verdade, mas com seus próprios dogmas, mudam a palavra “um espírito” por “um sopro” (Bíblias: Vozes, Ave Maria, Paulus) ou por “um vento” (Bíblia Pastoral). Lamentável!

Um bom conselho de Jó:

Jó 8,8-10: “Consulte as gerações passadas e observe a experiência de nossos antepassados. Nós nascemos ontem e não sabemos nada. Nossos dias são como sombra no chão. Os nossos antepassados, no entanto, vão instruí-lo e falar a você com palavras tiradas da experiência deles”.

Mesmo não sendo o sentido que iremos dar, é, por sinal, um sábio conselho, pois os nossos antepassados podem nos orientar com suas experiências pessoais, de modo que não venhamos a errar em coisas que poderemos ter conhecimento para fazer da forma certa.

Considerando que àquela época havia muito pouca coisa escrita, como consultar as gerações passadas se seus componentes já morreram e levaram para o sepulcro seus conhecimentos?

Simples: Evocando-os para lhes consultar o espírito, e, evidentemente, estamos falando aos que acreditam na possibilidade da comunicação com os mortos. Aos que não acreditam, perguntaremos: Teria algum sentido Moisés proibir de se comunicar com os mortos se isso não existisse ou não fosse possível?

Muitos acreditam que o homem ainda vem pagando pelo pecado de Adão e Eva; e disso tiram que os filhos pagam pelos erros dos pais; mas Jó parece não concordar com isso:

Jó 21,19-21: “Dizem que Deus castiga os filhos do injusto! Ora, faça que o injusto mesmo pague e aprenda: que veja com seus próprios olhos a desgraça, e beba a ira do Todo-poderoso. Pois, o que lhe importa a sua família depois de morto, quando o tempo de sua vida tiver chegado ao fim?”

Pena que, em sua justificativa, Jó demonstra não acreditar na vida após a morte, evidenciando uma posição incontestavelmente materialista: “morreu acabou”. Um ponto fundamental levantado por Jó, mas, infelizmente, ainda não assimilado pela grande maioria das pessoas:

Jó 34,11-12: “Deus paga ao homem conforme as suas obras e retribui a cada um conforme a sua conduta. Deus, na verdade, não age de modo injusto. O Todo-poderoso nunca viola o direito”.

E mesmo assim, alguns ainda acham que, por pertencerem a determinada corrente religiosa ou por aceitarem Jesus como seu Senhor e salvador, já estejam salvos. Doce ilusão!

A justiça é clara: “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27).

Diante da afirmação acima de que Deus “retribui a cada um conforme sua conduta”, como explicar que alguém tenha nascido aleijado se “Deus corrige o homem também com o sofrimento na cama” (Jó 33,19)?

Explicação lógica somente se acreditarmos na pré-existência do espírito e na reencarnação; aliás, para nós, é o grande problema insolúvel de Jó: mesmo justo ainda sofre. Como não podiam atribuir esse sofrimento a Deus, por ser injusto, inventaram esse “teste de paciência”.

A falta de conhecimento das leis da natureza fazia com que o povo hebreu atribuísse a uma atitude de Deus determinados fenômenos naturais como, por exemplo:

Jó 36,32-33: “Enche as mãos com raios e atira-os no alvo certo. O trovão anuncia a chegada dele, e a sua ira se acende com a injustiça”.

E ainda há quem diga que a Bíblia é totalmente de inspiração divina. Mas a coisa fica bem pior, quando atribuem solidez ao céu (firmamento):

Jó 37,18: “Por acaso você já estendeu com ele o firmamento, sólido como espelho de metal fundido?”

A palavra firmamento vem de firme, já que acreditavam que o céu, esse azul que vemos acima de nossas cabeças, era totalmente sólido. Para o povo hebreu havia de ser assim, pois era a única maneira de explicar a existência das águas que caíam por ocasião das chuvas, já que não conheciam o fenômeno da evaporação da água.

É interessante observarmos que em Gêneses já encontramos essa ideia: Gn 1,6-8: “Deus disse: ‘Que exista um firmamento no meio das águas para separar águas de águas!’ Deus fez o firmamento para separar as águas que estão acima do firmamento das águas que estão abaixo do firmamento. E assim se fez. E Deus chamou ao firmamento ‘céu’".

Essa é também mais uma das inúmeras passagens que não podemos atribuir como sendo de inspiração divina, já que são evidentemente frutos da cultura daquela época.

Muito curioso é que algumas passagens sugerem a noção da pré-existência da alma, bem como, a reencarnação, como essa, por exemplo:

Jó 38,21: “Certamente você sabe disso tudo, pois já então havia nascido e já viveu muitíssimos anos”.

Como alguém poderia ter vivido muitíssimos anos senão reencarnando várias vezes?

É uma boa pergunta para quem defende vida única. Se alguém nos descrevesse um animal dessa forma: Suas costas são fileiras de escudos, ligados com lacre de pedra; são tão unidos uns com os outros, que nem ar passa entre eles; cada um é tão ligado com o outro, que ficam travados e não se podem separar. Seus espirros lançam faíscas, e seus olhos são como a cor rosa da aurora. De sua boca irrompem tochas acesas e saltam centelhas de fogo. De suas narinas jorra fumaça, como de caldeira acesa e fervente. Seu bafo queima como brasa, e sua boca lança chamas. Em seu pescoço reside a força, e diante dele dança o terror.

Que ideia nós iríamos ter desse animal? Exato: um dragão! Pois é, caro leitor, na Bíblia há a descrição de um animal assim... Veja: Jó 40,25-41,26: “Por acaso você é capaz de pescar o Leviatã com anzol e amarrar-lhe a língua com uma corda? Você é capaz de furar as narinas dele com junco e perfurar sua mandíbula com gancho? Será que ele viria até você com muitas súplicas ou lhe falaria com ternura? Será que faria uma aliança com você, para você fazer dele o seu criado perpétuo? Você brincará com ele como se fosse um pássaro, ou você o amarrará para suas filhas? Será que os pescadores o negociarão, ou os negociantes o dividirão entre si? Poderá você crivar a pele dele com dardos ou a cabeça com arpão de pesca? Experimente colocar a mão em cima dele: você se lembrará da luta, e nunca mais repetirá isso! Veja! Diante dele, toda segurança é apenas ilusão, pois basta alguém velo para ficar com medo. Ninguém é tão corajoso para provocá-lo. Quem poderia enfrentá-lo cara a cara? Quem jamais se atreveu a desafiá-lo, e saiu ileso? Ninguém debaixo de todo o céu. Não deixarei de descrever os membros dele, nem sua força incomparável. Quem abriu sua couraça e penetrou por sua dupla armadura? Quem abriu as duas portas de sua boca, rodeadas de dentes terríveis? Suas costas são fileiras de escudos, ligados com lacre de pedra; são tão unidos uns com os outros, que nem ar passa entre eles; cada um é tão ligado com o outro, que ficam travados e não se podem separar. Seus espirros lançam faíscas, e seus olhos são como a cor rosa da aurora. De sua boca irrompem tochas acesas e saltam centelhas de fogo. De suas narinas jorra fumaça, como de caldeira acesa e fervente. Seu bafo queima como brasa, e sua boca lança chamas. Em seu pescoço reside a força, e diante dele dança o terror. Os músculos do seu corpo são compactos, são sólidos e imóveis. Seu coração é duro como rocha e sólido como pedra de moinho. Quando ele se ergue, os heróis tremem e fogem apavorados. A espada que o atinge não penetra, nem a lança, nem o dardo, nem o arpão. Para ele o ferro é como palha, e o bronze como madeira podre. A flecha não o afugenta, e as pedras da funda se transformam em palha para ele. A maça é para ele como estopa, e ele zomba dos dardos que assobiam. Seu ventre, coberto de escamas pontudas, é uma grade de ferro que se arrasta sobre o lodo. Ele faz ferver o fundo do mar como caldeira, e a água fumegar como vasilha quente cheia de ungüentos. Atrás de si deixa uma esteira brilhante, e a água parece cabeleira branca. Na terra ninguém se iguala a ele, pois foi criado para não ter medo. Ele se confronta com os seres mais altivos, e é o rei das feras soberbas".

Vejamos como nos explicam a palavra Leviatã:

Leviatã (ou também o Dragão, a Serpente Fugitiva – cf. 26,13; 40,25+; Is 27,1; 51,9; Am 9,3; Sl 74,14; 104,26) era, na mitologia fenícia, monstro do caos primitivo (cf. 7,12+); a imaginação popular podia sempre recear que despertasse, atraído por uma eficaz maldição contra a ordem existente... (Bíblia de Jerusalém, p. 805).

Assim, vemos aqui que a cultura de outros povos, no caso em questão os fenícios, está influenciando um autor bíblico no seu relato. Daí concluirmos que, realmente, não dá para aceitarmos que tudo isso seja mesmo de inspiração divina, deixamos isso para os fanáticos.

Vamos agora analisar a última passagem do livro de Jó:

Jó 42,12-15: “E Javé abençoou a Jó, mais ainda do que antes. Ele possuía agora catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas. Teve sete filhos e três filhas: a primeira chamava-se Jemima, a segunda Quézia e a terceira Quéren - Hapuque. Em toda a terra não havia mulheres mais belas do que as filhas de Jó. E o seu pai repartiu a herança entre elas e os irmãos delas”.

Esse final glorioso do livro de Jó é deveras muito intrigante, pois, enquanto os seus filhos continuaram na mesma quantidade, os seus bens duplicaram em relação à sua situação anterior, veremos isso comparando Jó 1,2 com 42,13 e Jó 1,3 com 42,12, respectivamente.

Será que ter bens terrenos é muito mais importante que ter filhos, uma vez que a quantidade de filhos permaneceu a mesma, enquanto que seus bens – ovelhas, camelos, bois e jumentas -, foram todos eles duplicados? Essa é a comparação que falamos, quando, anteriormente, analisamos a passagem Jó 1,2-5.

Outra coisa: para o povo judeu a mulher não tinha nenhum valor; por isso é estranha a citação dos nomes das filhas de Jó, quando o esperado, se fosse para citar algum nome, seriam os dos seus filhos. Por outro lado, elas só receberiam a herança na falta daqueles, conforme está determinado em Nm 27,8.

Por essa passagem fica confirmado que a idéia de uma vida após a morte ainda não era pensamento comum; daí suporem que as bênçãos de Deus deveriam ser dadas em bens terrenos e não em bens espirituais, ou seja, para uma vida no plano espiritual.

A conclusão que se chega é desnecessária colocar, pois de certa forma a opinião já foi dada no desenrolar deste estudo; Mas, por ter achado fantástica a opinião de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin, tradutores da Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, publicação da Paulus: Acompanhe:

[...] percebemos que o livro de Jó é uma crítica de toda teologia que se pretenda definitiva e universal. Essa teologia pode se tornar um verdadeiro obstáculo para a própria experiência de Deus. E aqui o autor dá o seu recado: É preciso pensar a religião a partir da experiência de Deus e não de uma teoria a respeito dele. Ivo Storniolo

[...] O livro é um convite para nos libertar da prisão das idéias feitas e continuadamente repetidas, a fim de entrar na trama da vida e da história, onde Deus se manifesta ao pobre e se dispõe a caminhar com ele para construir um mundo novo. Tal solidariedade de Deus se transforma em desafio: Estamos dispostos a abandonar nossas tradições teológicas para nos solidarizar com o pobre e fazer com ele a experiência de Deus? (Bíblia Pastoral, p. 639). Como se diz popularmente: falou pouco e disse tudo. Euclides Martins Balancin