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domingo, 13 de setembro de 2026

Segunda Vinda de Jesus Cristo

 

SEGUNDA VINDA DE JESUS

O livro do Apocalipse descreve a segunda vinda de Jesus Cristo com imagens e figuras vívidas, incluindo um falso profeta e uma besta vermelha de sete cabeças ou dragão, que pode representar Satanás. Nos Evangelhos, há referências ao retorno iminente de Cristo. Muitos de seus seguidores acreditavam que isso aconteceria logo após a sua morte. Mateus 24:42-44 diz: “Portanto, vigiem, porque vocês não sabem o dia em que o Senhor de vocês virá... Estejam preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora em que vocês menos esperam.”

Escatologia é a doutrina que trata do fim do mundo, incluindo a Segunda Vinda de Cristo, o julgamento de Deus, o céu e o inferno. Michael J. McClymond escreveu: "Nos Evangelhos, o ensinamento de Jesus se concentrou no reino de Deus, e a Oração do Senhor inclui uma petição para que Deus traga uma realização terrena de seus propósitos: “Venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10). Embora o reino de Deus já esteja presente de forma limitada, ele atingirá a perfeição somente quando Jesus retornar, “vindo sobre as nuvens do céu com poder e grande glória” (Mateus 24:30). A escatologia cristã oferece a certeza de que Deus, em última análise, transformará os indivíduos, a sociedade e o mundo em geral em “um novo céu e uma nova terra” (Apocalipse 21:1).

A ressurreição de Jesus demonstra o propósito de Deus de vencer tudo o que ameaça a humanidade, inclusive a própria morte. Embora algumas versões da escatologia tenham encorajado os cristãos a se afastarem do mundo, muitas têm impulsionado os fiéis a lutarem por misericórdia, paz e justiça. A escatologia tem sido um motor de mudança social e até mesmo de revolução. O livro do Apocalipse oferece um retrato elaborado da esperança cristã, e ainda assim o texto é notoriamente difícil de interpretar. Alguns teólogos o veem como um relato mais ou menos literal do que acontecerá antes do retorno de Jesus, enquanto outros o consideram simbólico ou como referência a eventos que já ocorreram.

Visão dos cristãos evangélicos sobre a segunda vinda de Cristo

Os cristãos evangélicos de hoje acreditam que, quando Jesus retornar, descerá do Monte das Oliveiras e entrará pelo Portão Dourado na Cidade Velha de Jerusalém. Jerry Falwell declarou que, durante o período da Tribulação de sete anos, o Templo Judaico será reconstruído, Moisés e Elias aparecerão e serão assassinados nas ruas de Jerusalém diante de uma audiência internacional pela televisão, ressuscitando três dias depois e dando início a uma celebração global seguida por uma ressurreição em massa dos mortos. Então, um homem aparecerá e dirá ser o Cristo (mas na verdade será o Anticristo) e atrairá muitos seguidores cristãos e judeus, a maioria dos quais morrerá na luta entre o bem e o mal.

Muitos cristãos evangélicos acreditam que três eventos precisam ocorrer para que Cristo retorne, e dois deles já aconteceram: a fundação de Israel em 1948 e a restauração do povo judeu a Jerusalém em 1967, que cumpriram profecias bíblicas que apontam o caminho para a segunda vinda de Jesus Cristo. Para eles, a única profecia que ainda não se cumpriu é a reconstrução do Templo de Jerusalém.

Alguns grupos cristãos evangélicos se aliaram a grupos judeus ultra ortodoxos porque ambos os grupos querem ver os muçulmanos expulsos do Monte do Templo e o Templo Judaico reconstruído como cumprimento de suas profecias apocalípticas, nas quais os cristãos acreditam que Jesus retornará e os judeus ultra ortodoxos acreditam que o verdadeiro Messias aparecerá (o que os cristãos acreditam ser o Falso Messias que lutará contra Jesus).

“Essa é uma ideia muito popular. Ela sugere que o mundo será virado de cabeça para baixo e dominado pelos mansos — ou pelo menos pelos bons e justos — e que esse será um tempo de paz e justiça. Também implica uma solução para o problema do mal (ou seja, por que um Deus todo-bondoso e todo-poderoso permite que o mal floresça impunemente, sem punição ou correção) ao mostrar que, no fim dos tempos, haverá justiça para todos. Os malfeitores serão punidos por seu comportamento na Terra e os bons serão recompensados, à medida que Deus equilibra a balança da justiça no fim dos tempos.

O milenarismo apresenta-se em diferentes vertentes: 1) pré-milenismo; 2) pós-milenismo; 3) amilenismo; 4) dispensacionalismo — em parte uma forma particular de pré-milenismo popularizada por J.N. Darby, fundador dos Irmãos Exclusivos. O dispensacionalismo é também uma doutrina de interpretação bíblica.

Acontecimentos no Apocalipse

De acordo com o Apocalipse, os profetas do Antigo Testamento e algumas outras passagens do Novo Testamento, o fim do mundo começa com um evento chamado Arrebatamento, no qual todos os cristãos fiéis são repentinamente arrancados do mundo, enquanto os não-crentes são deixados para trás para enfrentar uma série de tribulações — incluindo fogo, granizo e sangue caindo do céu; enxames de gafanhotos com rostos humanos que emergem da fumaça de um poço sem fundo; bestas com seis asas e cobertas de olhos; cavalos com cabeças de leão que cospem fogo; um cordeiro com sete chifres; anjos vingativos vestidos de nuvens e arco-íris — que se desenrolam ao longo de um período de sete anos.

Durante as Tribulações, um dragão vermelho com seis cabeças coroadas e dez chifres persegue uma mulher, os mares se transformam em sangue e tudo neles morre; cidades e nações desmoronam, ilhas fogem e montanhas desaparecem em um terremoto colossal; pássaros, convidados para um grande banquete, “comem a carne de reis, a carne de capitães, a carne de poderosos”. Em certo ponto, João escreveu que esses eventos “devem acontecer em breve”. Os cristãos fiéis são poupados desses eventos porque foram arrebatados.

Durante o período das tribulações, o mundo é governado pelo Anticristo, um líder carismático, porém maligno, que faz as pazes com Israel apenas para quebrar sua palavra e perseguir os judeus. A perseguição aos judeus leva as principais potências mundiais ao Oriente Médio, onde ocorre a terrível batalha do Armagedom, com guerreiros satânicos liderados por um príncipe chamado Gogue, de uma terra ao norte chamada Magogue.

A batalha termina com o retorno de Jesus e um confronto celestial entre Jesus e o Anticristo, no qual Jesus finalmente derrota as forças do mal e inaugura seu reinado de 1000 anos de paz e justiça. Após o reinado de 1000 anos, ocorre o Juízo Final. Os fiéis são acolhidos no céu, os impenitentes são condenados e “uma nova cidade, uma nova Jerusalém” desce “do céu, da parte de Deus”.

A Besta de Sete Cabeças e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

A infame Besta de sete cabeças do Apocalipse "era semelhante a um leopardo, com pés como os de urso e boca como a de leão" (Ap 13:1). Esses são os três primeiros animais mencionados em Daniel 7, mas em ordem inversa. A Besta emerge do mar exigindo adoração. Suas sete cabeças simbolizam Roma. Na época de João, sete imperadores haviam governado Roma, e Roma era conhecida como a cidade das sete colinas. O Número da Besta — 666 — é descrito abaixo.

Candida Moss escreveu: A Besta recebe autoridade e poder do dragão (11:7; 13:1-10; 17:7-18). Uma segunda besta surge posteriormente da Terra e instrui as pessoas a adorarem a primeira besta. Essa segunda besta também é chamada de “falso profeta”. Juntas, essas bestas se opõem a Deus e àqueles que não adoram a imagem da (primeira) besta. Não nos é revelado o nome exato da besta que surge do mar, mas ele corresponde ao valor numérico “666”. E nos é dito que a besta reinará por um período específico: 42 meses, ou três anos e meio (Ap 13:5-8).

A imagem dos quatro cavaleiros do Apocalipse foi adaptada e atualizada a partir do profeta hebreu Zacarias. O cavalo vermelho simboliza a guerra e a destruição; o cavalo preto, a fome; o cavalo pálido, a morte; e o cavalo branco, a vingança e a salvação. A palavra Armagedom vem de al-Megido, um local na planície de Jazreel, no atual Israel. Na época de João, muitas batalhas famosas já haviam sido travadas ali, e no primeiro século o local abrigou o acampamento do brutal romano Ironsides.

“Na visão de João, este teria sido o lugar perfeito para a batalha final entre o bem e o mal. Portanto, parece que o Livro do Apocalipse não está profetizando o fim do mundo, mas sim apresentando uma polêmica contra o Império Romano. João estrutura seu ataque de uma forma que se assemelha a outros escritos religiosos da época e que faria sentido para os primeiros cristãos. João estava dizendo aos cristãos do primeiro século para se unirem contra qualquer compromisso com Roma, e que sua fidelidade seria recompensada.”

666 — O Número da Besta

De acordo com Apocalipse 14:9, a marca da Besta é recebida na testa ou na mão. “O número da Besta — 666 — sempre intrigou os cristãos e levou a muitas especulações sobre quem poderia ser. Os estudiosos agora acreditam que se tratava de numerologia, um enigma popular na antiguidade. As letras de um nome recebiam um valor numérico e, somadas, resultavam em um número. O nome do imperador Nero soma 666. Historiadores acreditam que a perseguição de Nero aos cristãos em Roma pode ter entrado na consciência dos primeiros cristãos, tornando-o uma figura odiada.

“No entanto, evidências de manuscritos antigos indicam que 666 pode não ter sido o número da Besta. No final do século XIX, arqueólogos britânicos que trabalhavam no sítio arqueológico da cidade egípcia de Oxirrinco descobriram um conjunto de papiros que foram levados para Oxford, onde acadêmicos vêm estudando-os desde então. Um desses fragmentos de papiro é do Livro do Apocalipse e apresenta o número da Besta como 616. Trabalhando com o mesmo princípio da numerologia, os acadêmicos deduzem que 616 representa o Imperador Calígula. Calígula havia mandado erguer uma estátua de si mesmo no templo de Jerusalém, o que ofendeu profundamente os judeus. Se João fosse de fato um judeu da Palestina, ele saberia disso.

Candida Moss escreveu: “666, o número da Besta mencionado em Apocalipse 13:17, é uma pista. É o número de uma pessoa que precisamos calcular usando gematria, um sistema no qual as letras têm valor numérico (Alfa=1, Beta=2, Gama=3, etc.). Some o valor das letras do nome da Besta e você obterá 666. Dependendo se você usa um sistema numérico grego, hebraico ou inglês, muitos nomes diferentes somam o número diabólico. Os estudiosos da Bíblia tendem a identificar a Besta com o imperador romano Nero. Mas, de acordo com esta calculadora de gematria altamente científica, descobriu-se que “Justin Bieb” também soma 666.

Grande Tribulação

“Milhões de cristãos acreditam que a tribulação é um período imediatamente anterior ao Milênio, quando o julgamento de Deus se realiza sobre o mundo e a humanidade sofre grande sofrimento. A maioria dos cristãos tradicionais considera a doutrina da tribulação como uma forma poética ou simbólica de descrever o conflito eterno entre o bem e o mal. No entanto, há muitos milhões que acreditam que a doutrina da tribulação é uma descrição literal e verdadeira do que acontecerá em algum momento no futuro.

Durante a tribulação, o anticristo (o emissário de Satanás) torturará a humanidade, e Deus entrará em guerra contra o anticristo. A tribulação termina após sete anos, quando Deus derrota o anticristo. A tribulação serviu de pano de fundo para muitos romances e uma grande quantidade de escritos proféticos. A maioria dos pré-milenistas acredita que a Igreja escapará completamente da Tribulação, por meio da doutrina do Arrebatamento.

Um grupo de pré-milenistas (chamados de 'pós-tribulacionistas') acredita que os crentes justos devem permanecer na Terra durante toda a tribulação, mas que Deus os mantém em segurança. Dispensacionalismo, pós-milenismo e amilenismo.

Êxtase

“O Arrebatamento é o evento em que Cristo leva os fiéis para o céu antes da Tribulação. Essa palavra se refere ao 'levantamento' de cristãos, vivos e mortos, no retorno de Cristo. A ideia se baseia em 1 Tessalonicenses 4:17, que fala de cristãos vivos sendo 'arrebatados' no retorno de Cristo. Arrebatamento deriva do latim 'rapere' (raptor, também a raiz de 'raptor', uma ave de rapina).

“Durante o Milênio, os crentes permanecerão no céu, e Deus estará trabalhando na terra com o povo de Israel. Alguns cristãos acreditam no arrebatamento, mas discordam sobre o momento. Alguns pensam que o arrebatamento ocorrerá no final do período da tribulação, e outros acreditam que ocorrerá no meio.

“Essa doutrina afirma que Cristo virá à Terra e levará todos os verdadeiros crentes para o céu antes da Segunda Vinda. Os cristãos discordam sobre o momento exato em que isso acontecerá nos 'últimos dias', e a própria Bíblia não diz explicitamente se ocorrerá antes, durante ou depois da grande tribulação. O arrebatamento é descrito em 1 Tessalonicenses 4, que diz que os crentes serão arrebatados nas nuvens para encontrar Cristo nos ares. Pois o próprio Senhor descerá do céu com um brado de comando, com a voz do arcanjo e com o ressoar da trombeta de Deus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.”

“Então nós, os que estivermos vivos e permanecermos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor.” (1 Tessalonicenses 4)

Anticristo

“O anticristo é o inimigo de Deus que aparece durante os últimos anos da existência do mundo e assume o controle da Terra. Ele é um governante muito poderoso e maligno que finge ser Deus e realiza milagres. O anticristo é mencionado na Bíblia com esse título apenas em 1 João 2:18: Filhinhos, esta é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos têm surgido; por onde conhecemos que é a última hora.”

Algumas crenças sobre o anticristo são: 1) ele ou ela já está vivendo neste mundo e em breve descobriremos quem ele/ela é. 2) Ao longo da história, vários vilões foram acusados ​​de serem o anticristo. Papas foram acusados ​​por protestantes no passado de serem o anticristo; o imperador Frederico II foi outro candidato. 3) o anticristo é uma instituição, e não um indivíduo. A) Portanto, o próprio papado, e não papas individualmente, foi atacado como o anticristo. B) Após o 11 de setembro, alguns acusaram o Islã de ser o anticristo. C) Durante a Guerra Fria, a União Soviética às vezes era chamada de anticristo. D) As Nações Unidas e a Liga das Nações foram consideradas o anticristo. 4) hereges são os precursores do anticristo — isso provavelmente deriva da passagem em 1 João que diz "já agora muitos anticristos..."

Alguns cristãos acreditam que o anticristo dominará a Terra em algum momento futuro e trará grande destruição até ser finalmente derrotado por Cristo. Um escritor moderno (2002) sugeriu que o anticristo emergirá como líder de um superestado europeu, imporá um acordo de paz a Israel "e possivelmente seus vizinhos", será assassinado e depois ressuscitado, ganhará o Prêmio Nobel da Paz e será nomeado Homem do Ano pela revista Time; após esses triunfos, ele se autoproclamará Deus e governará o mundo. A doutrina cristã do anticristo é um desenvolvimento de uma crença judaica semelhante, o que torna ainda mais lamentável que essa doutrina tenha sido usada como arma de antissemitismo. As referências judaicas são encontradas no livro de Daniel.

“Há muitas passagens do Novo Testamento que são consideradas como referentes ao anticristo. Aqui estão algumas delas: E, quando eles tiverem acabado o seu testemunho, a besta que sobe do abismo fará guerra contra eles, e os vencerá, e os matará. — Apocalipse 11:7 ...Ai dos habitantes da terra e do mar! Porque o diabo desceu até vós, e tem grande ira, porque sabe que já tem pouco tempo. — Apocalipse 12. E eu me pus sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia. — Apocalipse 13 A besta que viste era, e já não é; e há de subir do abismo, e irá à perdição. — Apocalipse 17.

Quem é o Anticristo?

Candida Moss escreveu: Na tradição cristã, o Anticristo é uma figura demoníaca que supostamente retornará no fim dos tempos para se opor aos cristãos e a Cristo. É a antítese literal do Messias, Cristo. A imagem que a maioria das pessoas tem do Anticristo vem de filmes como A Profecia, em que o Anticristo é a cria de Satanás, que governa com grande poder por um período de tempo antes do fim do mundo. Mesmo para aqueles que se baseiam nas escrituras em vez de filmes de terror, o Anticristo é uma figura composta com características reunidas a partir de uma variedade de textos, notadamente a descrição da Besta no Livro do Apocalipse (o último livro da Bíblia) e em 1 João (uma carta atribuída ao autor do Evangelho de João).

Vamos supor, por um momento, que todos concordamos que vários livros do Novo Testamento profetizam a chegada de um oponente crucial de Deus no fim dos tempos. O que a Bíblia nos diz sobre essa figura? No próprio Apocalipse, o principal candidato a Anticristo é "a Besta". Os textos do Novo Testamento realmente profetizam o aparecimento de uma única figura do Anticristo? A maioria dos historiadores acredita que não, considerando que os autores do Apocalipse e de 1 João abordavam situações enfrentadas por suas respectivas comunidades. Bert Jan L. Peerbolte argumenta: "Com as imagens das Bestas, o autor do Apocalipse está se referindo aos perigos de sua própria época". A maioria dos estudiosos identifica a besta conhecida pelo número 666 como o imperador Nero, cujo nome (Nero César) corresponde a 666. Embora Nero provavelmente já estivesse morto quando o livro do Apocalipse foi escrito, havia uma profecia de que ele poderia retornar.

Embora quando as pessoas pensam em "Anticristo" pensem no Apocalipse, o último livro da Bíblia nunca usa esse título para os monstros terríveis que descreve. Para o nome Anticristo, precisamos recorrer a uma carta atribuída a João, o evangelista. Em 1 João 2:18-20, somos advertidos: "Esta é a última hora; e, como ouvistes que o anticristo vem, já muitos anticristos têm surgido... Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco." Aqui, encontramos vários anticristos (no plural!) que em algum momento foram membros da comunidade de seguidores de Jesus, mas depois a abandonaram. Soros, um judeu húngaro, dificilmente se encaixa nessa descrição.

O Juízo Final

Segundo Mateus, o Dia do Juízo Final ocorrerá “quando o Filho do Homem vier em sua glória” e será anunciado por “anjos com um forte toque de trombeta” que estarão nos quatro cantos da terra. Naquele dia, todas as pessoas que viveram serão julgadas. Aqueles que praticaram o bem e mantiveram sua fé em Deus e em Jesus serão separados dos ímpios, que serão condenados “ao castigo eterno, e os justos à vida eterna”. Jesus desempenha o papel de juiz e redentor, pedindo a Deus que mostre misericórdia.

O Juízo Final é presidido por Jesus como governante do mundo. O livro de Apocalipse 20:11-21:8 diz: “Então vi um grande trono branco e aquele que estava assentado sobre ele; da sua presença desapareceram a terra e o céu, e não ficou lugar para eles. Vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono, e abriram-se livros. Abriu-se também outro livro, o livro dos viventes; e, de acordo com o que estava escrito nesses livros, os mortos foram julgados segundo o registro das suas obras.”

“O mar entregou os seus mortos”, continua a passagem, “e a Morte e o Hades entregaram os mortos que estavam sob seus cuidados; cada um foi julgado segundo o registro de suas obras. Então a Morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Este lago de fogo é a segunda morte; e nele foram lançados todos aqueles cujos nomes não foram encontrados no registro dos viventes.”

Quando a vinda de Jesus não acontece na data prevista

Candida Moss escreveu: Cristãos vêm prevendo a Segunda Vinda e o fim do mundo desde o apóstolo Paulo. Hal Lindsey, autor do best-seller "O Fim do Mundo", teve que "ajustar" seus planos quando Jesus não retornou nem em 1981 nem em 1988. As Testemunhas de Jeová profetizaram o Armagedom pelo menos nove vezes no século XX. Mais recentemente, Harold Camping faliu ao prever que o Arrebatamento ocorreria em 21 de maio de 2011. Quando seu rápido recálculo para 21 de outubro de 2011 também não se concretizou, ele caiu no esquecimento. 

No início do século XIX, o fazendeiro e pregador batista nova-iorquino William Miller pregava que o retorno de Jesus Cristo era iminente. Sua profecia baseava-se em grande parte em seu estudo do livro bíblico de Daniel. Sua interpretação o levou a concluir, pelo menos inicialmente, que Cristo retornaria em algum momento entre março de 1843 e 1844. Quando março de 1844 passou sem a aparição de Cristo e seus anjos no céu, Miller escolheu outra data — 18 de abril de 1844 — que também passou sem nenhum incidente cósmico ou intervenção divina. Um seguidor de Miller, Samuel Snow, propôs uma terceira data em outubro, mas o Dia do Juízo Final ainda não havia chegado. Os milleritas estavam compreensivelmente desiludidos. Um membro, Henry Emmons, escreveu que precisou de ajuda para ir ao seu quarto, onde ficou “doente de decepção”.

Seria de se esperar que três falsas profecias, conhecidas coletivamente como a Grande Decepção, representassem o fim dos milleritas. De fato, alguns membros se juntaram aos shakers, mas outros começaram a reinterpretar as profecias sobre o fim dos tempos. Um grupo passou a argumentar que elas estavam apenas parcialmente erradas. As profecias não se referiam à Segunda Vinda e ao fim do mundo, mas sim à purificação de um santuário celestial. Não era um evento terreno, mas sim celestial, e isso explicava por que, para nós, meros humanos, poderia parecer que nada havia acontecido. Foi desse grupo que surgiu a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Hoje, a Igreja Adventista do Sétimo Dia possui entre 20 e 25 milhões de membros. Segundo a revista Christianity Today, ela é “a quinta maior comunhão cristã do mundo”.

Ironicamente, as profecias de Daniel que formaram a base para as profecias milleritas (e muitas outras!) sobre o fim do mundo foram, elas próprias, produto de expectativas frustradas. Embora ambientado no século VI a.C., Daniel foi escrito durante o reinado do rei selêucida Antíoco Epifânio IV (175-164 a.C.). Na época, os judeus lutavam contra as tentativas de Antíoco de erradicar costumes e tradições judaicas, como a observância do sábado, a circuncisão e as leis alimentares. Como resposta a essa crise, o livro contém uma série de profecias sobre o que aconteceria no fim dos tempos. As datas são muito específicas e, após a primeira data para a restauração do Templo, dada em Daniel 8:12, ter passado sem incidentes, um autor posterior foi obrigado a adicionar uma segunda profecia (Daniel 12:11-12) para explicar o erro.

A insistência em uma crença, apesar das evidências em contrário, não é um fenômeno exclusivamente religioso. Em 8 de junho de 68 d.C., o imperador romano Nero morreu a poucos quilômetros da cidade de Roma. Temendo a ira do Senado e receoso de um fim trágico, Nero pediu a seu secretário que o ajudasse a cometer suicídio. Mesmo após a morte de Nero, lendas sobre seu retorno persistiram por séculos. Pelo menos três impostores surgiram durante os reinados de seus sucessores. Cada um deles angariou seguidores, foi capturado e morto, mas a lenda de Nero Redivus continuou a ganhar força entre seus partidários.

Prosperar quando uma profecia não se cumpre

Candida Moss escreveu: Embora possa parecer que a moral desta história seja "seja vago sobre suas profecias", o livro de Daniel está em nossas Bíblias e a Igreja Adventista do Sétimo Dia é uma denominação importante no cristianismo. As profecias iniciais não eram estritamente precisas, mas os movimentos que elas geraram se transformaram e prosperaram. O fracasso da adventista do sétimo dia Ellen White em prever com precisão o curso da destruição humana inspirou a teoria da dissonância cognitiva do psicólogo social Leon Festinger. Seu livro, Quando a Profecia Falha, mostrou que, quando confrontadas com provas irrefutáveis ​​de que suas crenças estão erradas, algumas pessoas abandonam seus sistemas de crenças. Mas outras se apegam ainda mais a elas. Elas racionalizam os fatos, defendem sua posição e, na verdade, se tornam mais fervorosas.

Em sua obra clássica, "When Prophecy Fails" (Quando a Profecia Falha), Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter estudaram o caso dos Buscadores, uma pequena religião ufológica que acreditava que deixaria a Terra em um disco voador antes do amanhecer de 21 de dezembro de 1954. Após a não chegada dos extraterrestres, a líder do grupo, Dorothy Martin, mudou de nome e continuou a profetizar. Festinger e seus colegas concluíram que, quando os grupos estão profundamente convencidos de que estão certos e os indivíduos têm apoio social de outros membros do grupo, as crenças podem ser mantidas mesmo diante de evidências contrárias esmagadoras. Segundo Festinger, membros marginais de um movimento que vivenciam um momento de dissonância cognitiva são mais propensos a admitir que estavam errados, mas os devotos se mantêm firmes em suas convicções, reinterpretam suas crenças e se reagrupam.

No Evangelho de Marcos, Jesus diz: "Ninguém sabe o dia nem a hora" da sua volta. Considerando quantas vezes fomos surpreendidos pelo Jesus apocalíptico, seria de se esperar que entendêssemos a mensagem. Mas, sendo tão bons em ignorar nossas repetidas falhas em prever esse dia, não há necessidade de darmos ouvidos às suas palavras tão cedo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O réu: Jesus de Nazaré

O julgamento de Jesus

As 12 horas que separam a prisão da morte de Jesus guardam uma série de mistérios. Por que ele foi detido? Do que foi acusado? Como o condenaram? Quem o matou?

O prisioneiro caminha lentamente para a execução. Seu sangue escorre pelas feridas em carne viva. O fim está próximo. Em poucas horas o homem que irá mudar a história da humanidade morrerá pendurado em uma cruz. Está para começar uma das maiores polêmicas de todos os tempos. Quase 2 mil anos após a morte de Jesus de Nazaré, os detalhes sobre o julgamento que o levou à crucificação ainda são capazes de provocar debates explosivos.

Primeiro, porque os únicos relatos daqueles momentos são os textos religiosos contidos na Bíblia. “Não bastasse isso, os quatro evangelhos (os livros que contam a vida de Jesus atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João) divergem entre si em diversos pontos da narrativa. Não se conhece a seqüência dos fatos e de como ocorreram, o que contribui para que sejam suscitadas tantas polêmicas”, diz o historiador André Chevitarese, professor de história antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo, porque os evangelhos impingem grande parte da responsabilidade pela prisão e condenação de Jesus aos sacerdotes judeus que o julgaram em primeira instância, livrando o romano Pôncio Pilatos, a autoridade máxima na Palestina na época, de qualquer vestígio de culpa. O cristianismo moderno rebate essa versão e nega que os judeus da época de Jesus tenham sido os únicos culpados. Já os historiadores discutem se os fatos narrados na Bíblia têm base nas leis judaicas e romanas antigas, à procura de esclarecer a verdade. “Mas os cristãos fundamentalistas ainda interpretam os evangelhos de forma anti-semita”, diz o padre e teólogo Antônio Manzatto, da Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. “É o que faz Mel Gibson em seu filme A Paixão de Cristo.”

As polêmicas provocadas pelo filme, que está batendo recordes de bilheteria nos Estados Unidos e estreou no Brasil sob ameaças de proibição, têm o mérito de levar ao público questões normalmente restritas aos meios acadêmicos. Afinal, quem matou Jesus? Como se deu o processo que levou à sua condenação? Qual foi a responsabilidade do povo judeu, das pessoas comuns? Para responder a essas perguntas, primeiro é preciso entender o contexto histórico em que esses fatos extraordinários teriam ocorrido.

O réu: Jesus de Nazaré

Atualmente, estuda-se cada vez mais sobre Jesus. Contudo o que a história sabe sobre ele não avançou muito nos últimos 2 mil anos. Além da Bíblia, são raríssimas as referências a Jesus. Há os chamados Evangelhos de Nag Hammadi, encontrados no Egito em 1945. São mais de 60 textos escritos em copta (idioma falado no Egito bizantino) e que faziam parte de uma coleção de textos cristãos do século 4. Esses livros revelam um Jesus místico, milagreiro, mas muito pouco somaram ao personagem histórico.

Já os chamados Manuscritos do Mar Morto, escritos em aramaico (a língua falada na Palestina na época de Jesus), entre 152 a.C. e 68, pelos essênios (uma seita judaica contemporânea de Jesus), tinham um ótimo potencial para renovar o conhecimento histórico sobre Jesus. Encontrados em 1947, em Qumram, Israel, só foram completamente decifrados em 2002 e não citam Jesus nenhuma vez.

A historiografia grega e judaica tão pródiga em personagens da Antiguidade também ignora Jesus. Restam-nos os textos romanos, escritos todos depois da morte de Jesus. Entre eles, os de Flávio Josefo, autor de Antiguidades Judaicas. Porém uma dúvida paira sobre o trecho em que cita Jesus. Josefo afirma que Jesus “fazia milagres e que “apareceu três dias depois da sua morte, de novo vivo”. Para Angelo Chaniotis, do Centro de Estudos de Documentos Antigos da Universidade de Oxford, é discutível que esse trecho seja realmente de Josefo. “Um judeu que se tornou cidadão romano não acreditaria que Jesus era o Messias.” Para ele, o trecho deve ter sido adicionado pelos monges cristãos que tiveram acesso ao texto a fim de copiá-lo, entre os séculos 6 e 11.

Se são raras as vozes da história sobre a vida de Jesus, o silêncio é ainda maior quando se procuram vestígios arqueológicos. Em 2002, anunciou-se o que seria a redenção dos que acreditam nos evangelhos: uma urna funerária com o nome de Jesus escrito. Meses depois provou-se que era uma falsificação. Até hoje não se descobriu nenhum traço arqueológico diretamente associado a Jesus.

No entanto, a arqueologia tem tido sucesso em fornecer subsídios para reconstruirmos o momento histórico no qual teria vivido Jesus. Um exemplo é o trabalho nas imediações de Nazaré. Escavações encontraram grande número de construções romanas do século 1. O fato jogou nova luz sobre a profissão Jesus. A palavra usada na Bíblia para designar o que Jesus fazia é tekton, que tanto pode significar carpinteiro como biscateiro. “As novas descobertas mostram que a Galiléia, e em particular a região de Nazaré, era um verdadeiro canteiro de obras na época de Jesus. Praticamente todos os homens adultos estavam envolvidos com alguma atividade ligada à construção civil”, diz Gabriele Cornelli, professor de teologia e filosofia da Universidade Metodista de São Paulo. Mas como esse camponês que ajudava a erguer paredes para os romanos acabou condenado e morto alguns anos depois?

A Acusação: Blasfêmia

A Galiléia da época de Jesus vivia um período de extrema pobreza. “A região, ao norte da Judéia, sempre havia sido pobre. Mas não miserável, como durante a dominação romana”, escreveu John Dominic Crossan, professor da DePaul University, de Chicago, Estados Unidos e autor de O Jesus Histórico, a Vida de um Camponês no Mediterrâneo. Segundo ele, os camponeses tinham de pagar impostos ao Império Romano, que havia tomado Jerusalém em 63 a.C., aos sacerdotes do Templo em Jerusalém, e ao rei Herodes Antipas. Isso deveria consumir pelo menos dois terços de toda a produção, segundo os cálculos de Crossan. Como resultado de tripla tributação, a população empobrecia e perdia a esperança em tempos melhores.

Também havia uma crescente desconfiança em relação aos sacerdotes do templo. “Em várias passagens dos evangelhos, Jesus critica duramente os sacerdotes por desprezarem os pobres e darem importância excessiva ao ouro”, diz o teólogo Fernando Altemeyer, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Esse descontentamento geral explodiria na guerra dos judeus contra Roma, que durou do ano 66 ao 70. Uma das primeiras ações dos rebeldes foi invadir o templo e rasgar todas as listas de devedores, os maus pagadores de impostos, que ficavam guardadas no local. Roma acabaria vencendo, e o templo foi destruído. “Mas o fato mostra que a revolta contra a cobrança de impostos e a política da elite sacerdotal era imensa”, diz André Chevitarese.

Era o cenário propício para que líderes como Jesus fossem ouvidos. A visão mais aceita hoje em dia é que Jesus, que vinha da parte mais afastada do Império Romano, era mais um entre tantos pregadores. Essa interpretação é sustentada por estudiosos como o padre católico John P. Meier, autor de Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico, e professor da Universidade Católica da América, em Washington, Estados Unidos. “É um fato que na época de Jesus devia haver pelo menos outras cinco ou seis pessoas que se diziam o Messias”, afirma Antônio Manzatto.

O poder local, formado por uma aliança entre a elite judaica e os romanos, via esse movimento de líderes messiânicos com desconfiança. “O discurso era revolucionário, o que poderia abalar as estruturas do poder”, diz André. O de Jesus era seguramente bombástico. Ele pregava a igualdade, o respeito aos pobres, o amor.

Mas se Jesus era apenas um dentre tantos pregadores messiânicos, tudo mudou quando ele chegou a Jerusalém, pouco antes da Páscoa judaica, por volta do ano 30. Naquela época, Jerusalém triplicava de tamanho. Apesar de não ser a capital romana do território ocupado (os romanos preferiam governar de Haifa, de frente para o mar Mediterrãneo), lá ficava o Sinédrio, instituição judaica que funcionava como tribunal e poder legislativo, além do palácio de Pôncio Pilatos, a casa de Herodes Antipas, o rei e, é claro, o Templo Sagrado.

Segundo os evangelhos, Jesus já era conhecido na Galiléia por suas pregações, seus milagres e pela cura de enfermos quando chegou a Jerusalém. De acordo com as leis e tradições judaicas, isso bastava para ser considerado um blasfemo. A cura, na época, era um monopólio divino. No entanto, sua chegada a Jerusalém foi ainda mais recheada de provocações à ordem. Ao entrar na cidade a uma semana da Páscoa, sentado em um jumento, ele comparou-se ao Messias, invocando deliberadamente a profecia do livro de Zacarias sobre a sua chegada (“Aí vem o teu rei, justo e salvador, montado num burrinho”). A ofensa final, no entanto, foi invadir o templo e expulsar fariseus e saduceus. Se isso tiver ocorrido como dizem os evangelhos, ele acabava de comprar uma briga e tanto.

Os juízes: Judeus ou Romanos?

Segundo a Bíblia, Jesus estava reunido com seus seguidores no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, quando foi preso, à noite, depois de ser traído por Judas. Jesus teria sido detido pelos guardas do templo, por ordem do Sinédrio – o conselho formado pela elite judaica que controlava o santuário. Mas há controvérsias. Segundo o próprio evangelho de Mateus, a população da cidade estranhou uma patrulha àquela hora na rua. De fato, isso seria pouco comum. “Para operar além das paredes do templo, os guardas devem ter contado com o apoio de soldados romanos”, diz a historiadora Norma Musgo Mendes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Os evangelistas discordam quando relatam os fatos após a prisão de Jesus. Em comum, eles trazem a versão de que os sacerdotes do templo decidem não condená-lo à pena capital. Se fosse sentenciado à morte pelo Sinédrio, provavelmente seria apedrejado. O prisioneiro é então enviado para a autoridade suprema local, o procurador romano na Palestina, Pôncio Pilatos, a quem cabia julgar questões de interesse do Império.

Aqui, começa outra grande polêmica sobre a narração bíblica. Não haveria nenhuma razão para Jesus não ser condenado sumariamente por Pilatos, mas os evangelhos, única fonte escrita do processo, contam que o governador teria hesitado em sentenciar Jesus e tentado libertá-lo pelo menos duas vezes. Numa, após interrogar Jesus e, tendo-o considerado inocente, resolveu soltá-lo, mas voltou atrás quando foi vaiado pelo povo que acompanhava o julgamento. Em outra, teria pedido que o povo escolhesse entre Jesus e Barrabás, um criminoso conhecido, para que ele soltasse um deles, em um perdão especial devido à Páscoa. O povo teria escolhido Barrabás para ser salvo. No fim, Pilatos teria lavado as mãos, para simbolizar sua inocência em relação ao veredicto. Segundo um dos evangelhos, o de Lucas, o governador ainda teria mandado Jesus para o rei Herodes, mas esse não aceitou julgá-lo e o enviou de volta.

Para alguns historiadores, todo o julgamento é inverossímil, distante das práticas das autoridades romanas na Palestina. “Jesus não era uma pessoa importante na época, era mais um pregador que vinha da distante Galiléia. O mais provável é que ele nem sequer tenha sido julgado, mas, em vez disso, condenado sumariamente à morte”, afirma Gabriele Cornelli. Segundo ele, a passagem do julgamento no Novo Testamento foi escrita com o propósito de orientar os primeiros cristãos a como se portar diante dos sacerdotes e dos romanos.

André Chevitarese concorda. “Os evangelhos devem ser lidos não como uma reportagem, mas como um programa teológico com fundo histórico”, diz. Ele defende que os autores dos evangelhos, que foram escritos entre 40 e 80 anos após a morte de Jesus (e, portanto, depois que os romanos destruíram Jerusalém), utilizaram a narração do julgamento de Jesus para reforçar a cisão entre cristãos e judeus. “Isso era fundamental para afirmar os preceitos da nova religião, e, ao mesmo tempo, não cutucar o Império Romano, com o qual o cristianismo teria de conviver”, afirma André.

Essa análise dos relatos explicaria porque Pilatos é retratado de modo tão brando nos quatro evangelhos. “Até a mulher dele, Cláudia, tenta influenciar o julgamento, a favor de Jesus. Tudo para construir a imagem de um Pilatos bonzinho e não o típico governante romano que estava lá para fazer valer a lei e a ordem”, diz André. No entanto, Filão, o Judeu, historiador que viveu entre 20 a.C e o ano 50 menciona a crueldade de Pilatos e seu autoritarismo em centenas de casos de julgamentos de rebeldes e escravos (aliás, Filão também não se refere a Jesus).

O teólogo Paul Winter, autor de Sobre o Processo de Jesus, aponta outras passagens conflitantes. Para ele, a cena em que o povo escolhe Jesus para morrer no lugar de Barrabás não faz sentido do ponto de vista histórico. Primeiro, havia quatro prisioneiros para serem julgados, incluindo os dois ladrões que morreram na cruz ao lado de Jesus. Nesse caso, de acordo com Winter, não faria sentido o povo escolher um entre dois prisioneiros, e não entre quatro. Em segundo lugar, o hábito de se libertar um preso na Páscoa era raro, e não um fato comum como fazem crer os textos bíblicos.

O veredicto: Cupaldo de Sedição

Outro dedo a apontar para Pilatos e os romanos, quando se procura um culpado pela morte de Jesus, é o debate sobre por qual crime, afinal, ele foi condenado. Vimos que, segundo os evangelhos, os judeus do templo de Jerusalém o acusaram de blasfêmia, mas o historiador Geza Vermes, da Universidade de Oxford, Inglaterra, duvida disso. “Casos de pessoas que se autoproclamavam messias eram comuns naquela época e não espantavam mais ninguém”, afirma. “Jesus foi levado à morte por crime de sedição, de rebeldia política contra os interesses romanos. Só isso justificaria o fato de ter sido julgado por Pilatos e condenado à crucificação.”
Para a historiadora Norma Mendes, é possível que tenha havido uma aliança entre os sacerdotes judeus e os romanos para que Jesus fosse condenado à morte. Aí faria sentido que o Sinédrio o acusasse de blasfêmia e o apresentasse a Pilatos como agitador político, para que fosse morto sem a participação direta da elite judaica.

A pena: Crucificação

“Uma vez que Jesus foi condenado por Pilatos, como aparece na Bíblia, a pena podia ser uma só: crucificação, precedida de açoitamento”, diz o historiador e arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo. Essa era uma pena bastante comum nos territórios ocupados pelos romanos. No ano que Jesus nasceu, por exemplo, mais de 2 mil condenados foram mortos dessa forma. A crucificação era considerada a mais degradante e brutal pena capital. Primeiro, o condenado era violentamente espancado, chicoteado e flagelado. Depois disso, uma pesada tora de madeira era colocada sobre suas costas e seus braços presos às extremidades. Assim ele carregava sua cruz até o local onde seria erguida. O condenado podia ter o calcanhar preso com pregos à madeira, ou as mãos, se não fossem amarradas com cordas.
O teólogo Antônio Manzatto acredita que o sofrimento de Jesus descrito na Bíblia seja fiel ao que realmente ocorria em casos de crucificação. Para ele, não haveria interesse dos evengelistas de exagerar na narrativa dos sofrimentos de Jesus. “O mais importante naquele momento era ressaltar a mensagem do fundador da nova religião. Jesus deve ter sofrido como todos que eram crucificados. Nem mais, nem menos”, afirma.

Segundo Pedro Paulo Funari, a morte na cruz advinha da sede e da asfixia causada pela posição em que o corpo ficava pendurado. O suplício poderia levar dias. No caso de Jesus que, segundo os evangelhos, morreu em poucas horas, isso poderia ser explicado pela perda excessiva de sangue, já que ele teve as mãos pregadas à cruz. Guardas romanos tomavam conta o tempo todo do lugar, não permitindo que dessem água ao condenado ou o tirassem da cruz. A agonia era assistida por familiares e a população em geral.

A falta de sepulturas para os milhares de crucificados daquela época levou os historiadores e arqueólogos a uma conclusão surpreendente: os corpos crucificados não eram retirados da cruz, mas deixados expostos aos elementos até serem devorados pelos abutres e cães. “É a única explicação plausível. O que teria sido feito dos restos mortais dos condenados crucificados que jamais foram encontrados?”, diz o historiador Gabriele Cornelli. Segundo ele, fazia parte da pena a humilhação pública, mesmo depois da morte.

No caso dos familiares de Jesus, é possível que tenham obtido autorização para levar seu corpo. “Os romanos concediam essas autorizações às vezes”, afirma Norma Mendes. Três dias depois que Maria recolheu os restos mortais de seu filho, tem início o maior relato de fé até então conhecido, a ressureição. Está para nascer não só o Cristo (o ungido, em grego), mas uma religião que abraçaria todo o mundo ocidental a ponto de hoje, dois milênios após os fatos analisados nesta reportagem, o cristianismo ser o credo de mais de 2 bilhões de pessoas e influenciar o modo de pensar e agir de grande parte da humanidade. “Direitos humanos, amor ao próximo, perdão, são todos preceitos morais que regem a vida da maioria das pessoas, sejam elas cristãs ou não”, diz o teólogo Antônio Manzatto. “Faz todo o sentido que sua vida seja objeto de tantos estudos e polêmicas.”
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Saiba mais
Livros
Bíblia de Jerusalém, Editora Paulus, 2002, Reúne os quatro evangelhos que relatam a Paixão de Cristo
O Jesus Histórico, a Vida de um Camponês no Mediterrâneo, John Dominic Crossan, Imago, 1994, Um dos maiores estudiosos do tema, Crossan elabora um retrato de Jesus por meio de análises históricas, antropológicas e literárias
Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico, John P. Meier, Imago, 1992, Outra grande obra de referência, que analisa Jesus no contexto de seu tempo
Sobre o Processo de Jesus, Paul Winter, Imago, 1998, O autor discute o passo-a-passo do julgamento de Jesus à luz da história.