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domingo, 20 de setembro de 2026

Evidências da existência de Maria Madalena

 

Maria Madalena foi uma pessoa real?

Sabemos muito pouco sobre a própria Maria. A Bíblia não fornece detalhes pessoais sobre sua idade, posição social ou família. Seu nome, Maria Madalena, nos dá a primeira pista real sobre ela. Sugere que ela era de uma cidade chamada Magdala. Existe hoje um lugar chamado Magdala, a 193 quilômetros ao norte de Jerusalém, às margens do Mar da Galileia. Sabemos também que existiu um antigo lugar chamado Magdala, mencionado na literatura. O nome aparece no Novo Testamento e também em textos judaicos. Seu nome completo é Magdala Tarichaea. Magdala parece significar torre, e Tarichaea significa peixe salgado. Se o nome da cidade era Torre do Peixe Salgado, não é surpresa que sua principal atividade fosse a pesca. Como uma mulher que vivia em Magdala, Maria pode ter trabalhado nos mercados de peixe.

Um texto judaico que menciona Magdala, chamado Lamentações Rabá, afirma que Magdala foi julgada por Deus e destruída por causa de sua fornicação. É possível que a descrição de Magdala como um lugar de fornicação seja a origem da ideia, que surgiu no cristianismo ocidental, de que Maria Madalena era uma prostituta. Sabemos que havia bordéis em outros lugares do Mediterrâneo, e a Galileia provavelmente não era exceção. Fazia parte do Império Romano, que impunha uma pesada carga tributária às famílias, e muitas vezes as mulheres pagavam o preço mais alto.

O que mais se pode depreender sobre Maria Madalena é aprendido através do estudo da sociedade judaica e da antiga Palestina há 2.000 anos. A conquista romana e, posteriormente, o domínio imperial romano teriam tido um impacto bastante dramático na Galileia. Economicamente, isso teria trazido à população encargos tributários cada vez maiores, o que teria pressionado as famílias. Quando os encargos tributários atingiam seu ápice e uma família não conseguia mais pagar suas dívidas, as crianças às vezes eram entregues como escravas. Talvez esse tenha sido o destino de Maria Madalena.

Com um histórico tão difícil, não é difícil imaginar que Maria possa ter sido uma prostituta, mas essa evidência é puramente circunstancial. No entanto, seu nome, Maria Madalena, pode sugerir algo completamente diferente: ela era solteira. Uma mulher casada teria o sobrenome do marido, e Maria não. Não há nada no limitado material que temos sobre Maria nas tradições dos Evangelhos que sugira que ela era casada; ela nunca é descrita como viúva e não se diz que ela tenha tido filhos. Há 2.000 anos, uma mulher solteira era vista com suspeita. Talvez isso tenha isolado Maria, mas não explicaria completamente sua imagem negativa.

Evangelho de Maria

O Evangelho de Maria é um texto apócrifo atribuído a Maria Madalena. Trata-se de um livro de papiro encontrado em um bazar do Cairo em 1896 por um estudioso alemão que o deparou por acaso. Encadernado em couro e escrito em copta, o livro narra a história de Maria, começando algum tempo depois da ressurreição, com os discípulos tendo acabado de ter uma visão de Jesus. Jesus encorajou seus discípulos a saírem e pregarem seus ensinamentos ao mundo, mas eles têm medo de fazê-lo porque ele foi morto por isso, e dizem: 'Se o mataram, vão nos matar também'. É Maria quem se apresenta e diz: não se preocupem, ele prometeu que estaria conosco para nos proteger. Diz que ela converte os corações deles para o bem e eles começam a discutir as palavras do Salvador.

Em textos como o Evangelho de Filipe, Maria era apresentada como um símbolo de sabedoria. No entanto, no Evangelho de Maria, ela é quem está no comando, transmitindo aos discípulos os ensinamentos de Jesus. Maria, retratada como uma mulher idosa com os cabelos envoltos em um lenço, olha para uma caveira com as mãos juntas, parecendo estar em profunda oração. 

“Nesse momento, Pedro pede a Maria que lhes conte algumas coisas que ela talvez tenha ouvido, mas que os outros discípulos não ouviram. Ela responde: 'Sim, eu lhes contarei o que lhes foi ocultado'. Ela fala sobre uma visão que teve de Jesus e uma conversa que teve com ele. Como narra o Evangelho, Maria então relata os detalhes dessa conversa, que trata do desenvolvimento espiritual e da luta constante da alma contra o mal ao longo da vida.

“Nesse ponto surge a controvérsia, e André intervém dizendo: 'Bem, eu não sei o que vocês pensam, mas essas coisas me parecem muito estranhas, e parece que ela está nos transmitindo ensinamentos diferentes dos do Salvador.' Pedro então intervém e diz: 'Devemos todos nos virar e ouvi-la? Jesus teria falado em particular com uma mulher em vez de falar abertamente conosco? Ele a preferiu a nós?'”

Mateus defende Maria e refuta o ataque de Pedro contra ela. No texto, o problema de Pedro parece ser que Jesus escolheu Maria em detrimento dos outros discípulos para interpretar seus ensinamentos. Pedro vê Maria como uma rival pela liderança do próprio grupo. Pedro não precisava ter temido. A maioria das pessoas considera Pedro a rocha sobre a qual a igreja foi estabelecida. Ele é a figura principal dos discípulos, e Maria Madalena é uma espécie de figura secundária no elenco de personagens.

“Uma das coisas absolutamente fascinantes sobre o Evangelho de Maria é que ele nos convida a repensar a história do cristianismo: será que todos os discípulos entenderam? Será que eles realmente compreenderam e pregaram a verdade? Talvez o Evangelho de Maria tenha sido radical demais. Ele apresenta Maria como uma mestra e guia espiritual para os outros discípulos. Ela não é apenas uma discípula; ela é a apóstola dos apóstolos.

Será que os arqueólogos realmente encontraram o local de nascimento de Maria Madalena?

Em janeiro de 2022, o Jerusalem Post noticiou que uma “escavação de salvamento” (o tipo de escavação realizada antes da construção em áreas culturalmente ricas), co-organizada pela Universidade de Haifa e pela Associação de Antiguidades de Israel, desenterrou os restos de uma sinagoga de 2.000 anos em Migdal, Israel. Migdal está localizada no Mar da Galileia e é tradicionalmente identificada como Magdala, a cidade natal de Maria Madalena. Em um comunicado, a diretora da escavação, Dina Avshalom-Gorni, disse: “Podemos imaginar Maria Madalena e sua família vindo à sinagoga aqui, juntamente com outros moradores de Migdal, para participar de eventos religiosos e comunitários”.

Candida Moss escreveu: “A descoberta da sinagoga é, na verdade, a segunda desse tipo na cidade. Em 2009, uma sinagoga maior e mais ornamentada foi desenterrada, completa com uma pedra elaboradamente esculpida que apresentava uma menorá de sete braços. Ambas as sinagogas datam do período do Segundo Templo, quando Jesus viveu e pregou na região. A sinagoga menor consistia em um salão principal e duas outras salas menores (uma das quais pode muito bem ter abrigado rolos da Torá). Os vestígios dos acessórios da antiga vida ritual estavam presentes no local. Lâmpadas de cerâmica, tigelas de vidro moldado, anéis e alguns utensílios de pedra estavam entre os restos mortais.”

Poucos dias após a notícia ser divulgada, as estudiosas bíblicas e especialistas em Maria Madalena, Professora Joan Taylor, do King's College London, e Elizabeth Schrader, doutoranda da Universidade Duke, publicaram um importante estudo sobre as primeiras evidências do significado de "Madalena" no Journal of Biblical Literature. Fruto de três anos de pesquisa, este artigo analisa os dados literários que fundamentam grande parte do que sabemos sobre Maria e chega a conclusões persuasivas e reveladoras sobre o significado de seu nome.

Evidências históricas de Magdala, a suposta cidade natal de Maria Madalena

Uma sinagoga que data da época de Jesus e Maria Madalena, e que se acredita ter sido inspirada no Templo Judaico de Jerusalém, foi descoberta em Magdala, suposta cidade natal de Maria Madalena, localizada às margens do Mar da Galileia. A Pedra de Magdala, que pode ter servido como suporte cerimonial para a Torá, encontrada no local, está agora guardada nos depósitos de tesouros nacionais de Israel.

Na década de 1970, arqueólogos franciscanos começaram a escavar parte de Magdala, nos arredores de um resort à beira do lago, já desativado, chamado Hawaii Beach. Kristin Romey escreveu: “Em 2009, arqueólogos da Autoridade de Antiguidades de Israel apareceram para examinar o local, conforme exigido por lei. Depois de algumas semanas sondando o solo rochoso, ficaram surpresos ao descobrir as ruínas enterradas de uma sinagoga da época de Jesus — a primeira estrutura desse tipo desenterrada na Galileia. A descoberta foi especialmente significativa porque refutou um argumento apresentado por céticos de que não existiam sinagogas na Galileia até décadas após a morte de Jesus. Se esses céticos estivessem certos, sua afirmação destruiria a imagem de Jesus nos Evangelhos como um frequentador assíduo de sinagogas, que muitas vezes proclamava sua mensagem e realizava milagres nesses locais de encontro judaicos.”

“À medida que os arqueólogos escavavam as ruínas, descobriram paredes revestidas de bancos — indicando que se tratava de uma sinagoga — e um piso de mosaico. No centro da sala, ficaram estupefatos ao encontrar uma pedra do tamanho de um baú que exibia os elementos mais sagrados do Templo de Jerusalém esculpidos em relevo. A descoberta da Pedra de Magdala, como o artefato passou a ser chamado, representou um golpe mortal na noção, outrora difundida, de que os galileus eram caipiras ímpios, distantes do centro religioso de Israel. Conforme os arqueólogos continuavam a escavar, descobriram uma cidade inteira enterrada a menos de trinta centímetros da superfície. As ruínas estavam tão bem preservadas que alguns começaram a chamar Magdala de “Pompeia israelense”.

Será que Maria Madalena chegou a viver em Magdala?

A associação de Maria Madalena com Magdala baseia-se em duas premissas. Candida Moss escreveu: Primeiro, que Madalena é uma espécie de sobrenome que remete às suas origens geográficas, como frequentemente acontecia com nomes antigos. Segundo, que essa cidade litorânea era chamada de "Magdala" no primeiro século d.C. Ao analisar os fundamentos históricos do argumento, Schrader e Taylor demonstram que as falhas começam a surgir.

“Havia, segundo Schrader me contou, muita discordância sobre o significado do nome de Maria. O tradutor do século V, São Jerônimo, acreditava que era um apelido, significando “torre”. Apelidos como esse eram comuns na antiguidade, especialmente entre os seguidores de Jesus. Assim como Pedro era a “rocha” e Tiago era o “justo”, Maria também era a “torre da fé”. Alguns autores antigos acreditavam que o nome se referia ao seu local de nascimento, mas não havia dois escritores antigos com a mesma opinião. O prolífico teólogo do século III, Orígenes, identificou Magdala como a cidade natal de Maria, mas nunca especificou sua localização. 

Isso é especialmente estranho, visto que Orígenes passou grande parte de sua vida em Cesareia e viajou pela região do Mar da Galileia. Quão conhecida poderia ser a cidade se Orígenes não sabia onde ela ficava? Na verdade, ele dedica mais tempo a enfatizar que seu nome significava "Magnificação" e era um título apropriado para uma testemunha "proeminente" da ressurreição. Taylor disse que "Como 'Magdala' significa 'a torre' (bem como 'magnificada') em aramaico e havia inúmeros lugares chamados 'a torre de alguma coisa', Orígenes... e outros poderiam ter escolhido diferentes interpretações." Diante de todas essas divergências de opinião, disse Schraeder, certamente não devemos nos precipitar em conclusões baseadas na geografia: "Como não havia consenso na antiguidade sobre o significado de seu nome, as suposições modernas de que ela veio de um lugar próximo ao Mar da Galileia são altamente suspeitas."

“Evidências arqueológicas mostram que a cidade no Mar da Galileia, hoje conhecida como Magdala, era certamente uma vila de pescadores do primeiro século. E era exatamente o tipo de lugar de onde Jesus recrutava seguidores. A geografia e a cronologia, no entanto, são um pouco imprecisas. Taylor disse: “Na época de Jesus, havia uma vila chamada Migdal Nuniyya (a 'torre de peixes') localizada muito perto, a apenas um 'mil' (cerca de 1 km) além da fronteira norte de Tiberíades, uma cidade que ficava mais ao sul do que a cidade atual. O local de peregrinação cristã de Magdala fica a cerca de 6 km da Tiberíades romana, do outro lado do Monte Arbel, e a arqueologia indica cada vez mais que era uma cidade separada e de porte considerável.” Não há evidências em fontes cristãs de que o local de peregrinação tenha sido chamado de “Magdala” até o século VI, quando o local começou a se tornar um destino para turistas religiosos.”

Frascos de perfume da época de Jesus foram encontrados na cidade natal de Maria Madalena

Em 2008, arqueólogos franciscanos que trabalhavam em Israel anunciaram a descoberta de frascos de perfume que poderiam ser semelhantes ao usado por Maria Madalena para lavar os pés de Jesus. A Reuters noticiou: “Uma equipe de arqueólogos franciscanos que escavava na cidade bíblica de Magdala, no atual território de Israel, afirma ter desenterrado frascos de perfume semelhantes aos que podem ter sido usados ​​pela mulher que teria lavado os pés de Jesus.”

“Os unguentos perfumados foram encontrados intactos no fundo de uma piscina cheia de lama, juntamente com objetos de cabelo e maquiagem”, disse o diretor da escavação conduzida pelo grupo Studium Biblicum Franciscanum: “Se as análises químicas confirmarem, podem ser perfumes e cremes semelhantes aos que Maria Madalena ou o pecador citado no Evangelho usavam para ungir os pés de Cristo”, disse o padre Stefano de Luca, arqueólogo responsável pela escavação, ao o sítio.

“Maria Madalena é citada no Novo Testamento como uma discípula fiel de Cristo, de quem foram expulsos sete demônios. Ela é frequentemente considerada a pecadora que ungiu os pés de Jesus. “A descoberta dos unguentos em Magdala, em todo caso, é de grande importância. Mesmo que Maria Madalena não tenha sido a mulher que lavou os pés de Cristo, temos em mãos 'produtos cosméticos' da época de Cristo”, disse De Luca.

“Magdala era o nome de uma antiga cidade perto das margens do Mar da Galileia, no que hoje é o norte de Israel. Uma aldeia árabe palestina ficava perto do local até a guerra que deu origem a Israel em 1948, e uma cidade israelense chamada Migdal ocupa atualmente a área. “É muito provável que a mulher que ungiu os pés de Cristo tenha usado esses unguentos, ou produtos com composição e qualidade semelhantes”, disse De Luca. O Studium Biblicum Franciscanum apoia pesquisas em estudos bíblicos, mas concentra-se na escavação arqueológica de sítios ligados ao Novo Testamento e ao cristianismo primitivo no Oriente Médio.”

Gruta de Maria Madalena na França

Andrew Todhunter escreveu: “A leste de Aix-en-Provence, diante de um amplo maciço florestado com vista para um planalto, encontra-se a gruta de Sainte-Baume. Aqui, segundo a tradição católica romana, Maria Madalena passou os últimos 30 anos de sua vida. Do estacionamento, uma trilha íngreme pela floresta leva à gruta e a um pequeno mosteiro adjacente. Numa manhã clara de junho, o interior da gruta estava visivelmente mais frio do que o ar exterior. À luz de velas, um altar de pedra brilhava no centro da gruta, e estátuas de Maria Madalena eram visíveis nos cantos irregulares da gruta. Duas relíquias da santa — uma mecha de cabelo e a suposta extremidade de uma tíbia, escurecida pelo tempo — repousavam num relicário dourado.

Embora uma tradição afirme que ela morreu em Éfeso, outras sustentam que viajou do Oriente Médio para o sul da França. Mas estabelecer com certeza científica que Maria Madalena chegou às colinas da Provença, ou que Tomé morreu na Índia, provavelmente permanecerá fora do nosso alcance. A análise científica de relíquias é invariavelmente inadequada, muitas vezes confirmando apenas que os ossos são do sexo e período corretos. Os avanços em testes e arqueologia, juntamente com a descoberta de manuscritos ainda desconhecidos, continuarão a refinar nosso conhecimento histórico sobre os santos. Mas muito permanecerá inconclusivo. Qual a melhor maneira, então, de entender esses indivíduos se o alcance da ciência é limitado? Como acontece com a maioria dos primeiros cristãos, devemos nos basear em grande parte em lendas e relatos históricos, reconhecendo o poder que essas figuras míticas ainda exercem hoje, cerca de 2.000 anos após suas mortes.

Candida Moss tem um interesse particular nos primeiros mártires. "As pessoas têm encarado as relíquias como parte de um processo de luto", disse ela. "Quando minha mãe morreu, ofereceram a cada um de nós um fio de cabelo dela para guardar, e todos nós aceitamos. Então, acho que qualquer pessoa que já tenha vivenciado o luto entenderia por que alguém se apegaria a coisas associadas a um ente querido. Ainda mais em pequenas comunidades cristãs. O apelo era o de ter uma pessoa em seu meio, com quem se podia ter contato direto após a sua morte."

Correndo na caverna de Maria Madalena, na França

Andrew Todhunter escreveu: “A gruta é cuidada pela Ordem Dominicana desde 1295. Protegida pelo Estado e valorizada por sua rica biodiversidade, a própria floresta é considerada sagrada há muito tempo. Acredita-se que a floresta e as cavernas locais ainda tenham uma forte ligação com a fertilidade, e mulheres vêm aqui há milênios para rezar por filhos. Até hoje, algumas mulheres chegam a esfregar o abdômen nas estátuas de Maria Madalena enquanto rezam. Essa prática física não é incentivada pela Igreja, disse-me Le Hégaret, mas é difícil de impedir. Nas paredes da caverna, há bilhetes e placas de agradecimento em vários idiomas. “Obrigada, Santa Maria Madalena, por curar minha filha”, diz uma em francês, datada de outubro de 1860. Outra diz simplesmente: “Merci pour Marion.”

Maria Madalena, o Código Da Vinci e a Igreja Católica

A Igreja Católica há muito retrata Maria Madalena como uma prostituta que se redimiu. O Papa Gregório I (540-604) é creditado por elevar o status de Maria Madalena. Ele se tornou papa em uma época em que a peste assolava a Europa e enfatizou formas penitenciais de culto, associando Maria Madalena a isso como uma maneira de afastar a doença. Em 1969, o Vaticano reconheceu que ela não era uma mulher caída e pediu desculpas formalmente por ter lhe atribuído uma má reputação.

Entre aqueles que acreditavam que Jesus e Madalena eram casados ​​estavam Martinho Lutero e Brigham Young. A ideia de que ela estava grávida quando Jesus foi crucificado era muito popular na França, onde vários reis promoveram a noção de que a criança teria fundado a linhagem merovíngia da realeza europeia.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Bispo John Selby Spong e as narrativas tardias da ressurreição de Cristo

Em seu último livro, “Por que o Cristianismo deve mudar ou morrer: um bispo fala com os crentes no exílio”, o Bispo Spong estabeleceu um programa claro para o futuro da teologia anglicana e da teologia cristã. Ele acredita que o Cristianismo morrerá, a não ser que sejam feitas mudanças radicais que redundem numa nova Reforma.

Se nós devemos reformular uma visão da futura teologia anglicana, como acredito que devemos, cabe a nós faze-lo, em diálogo com o Bispo Spong. O seu desafio merece ser levado a sério e não considerá-lo como disparates violentos de um bispo herege. As questões e os debates que ele coloca são inevitáveis, mas suas respostas são problemáticas para nós que temos feito esforços para combinar, numa síntese aceitável, o tratamento crítico destemido do Novo Testamento com uma adesão fiel à sua mensagem como ela é formulada no quérigma apostólico e resumida nos credos (em outras palavras, uma ortodoxia crítica).

A necessidade dessa abordagem dual foi impressa em mim pelas minhas sucessivas experiências nos estudos do Novo Testamento em Cambridge e em Tubinga, na Alemanha. Em Cambridge aprendi métodos críticos, em Tubinga mergulhei na Igreja da Alemanha e na sua resistência teologicamente fundamentada aos desafios do Socialismo Nacional, um desafio que pode ser enfrentado por uma adesão fiel à palavra de Deus testemunhada nas Santas Escrituras. Em lealdade a essa dupla inspiração que entro aqui no exame da chamada para a mudança feita pelo Bispo Spong.

Teísmo

O Bispo Spong argumenta que, se o Cristianismo deseja ter o futuro, devemos abandonar o que ele denomina de “teísmo”. Por essa afirmação ele não quer dizer que todos nós devamos ser “ateus”, mas devemos abandonar uma espécie particular de teísmo, a visão de Deus como “uma divindade personalista”, localizada num lugar externo, “lá em cima”. Tal Deus foi pensado como Deus que intervém no processo cósmico e na história humana. É o argumento do Bispo Spong de que a visão do mundo sucessiva e cumulativamente moldada por Copérnico, Galileu, Newton, Darwin, Freud e Einstein não podem possivelmente acomodar a visão tradicional da divindade. Em lugar do “teísmo” assim entendido, o Bispo Spong propõe que o substitua com a idéia tillichiana de Deus como “fundamento do Ser”.

Todavia, aqui se recomenda certo cuidado. A visão do mundo como um sistema fechado de causa e efeito não é quase tão seguro hoje como tem sido desde o Iluminismo. Há uma crescente abertura para a possibilidade de dimensões da realidade não suscetíveis à observação científica. Marcus Borg chama a atenção para isso, quando ele diz que “a visão do mundo que rejeita ou ignora o mundo do Espírito é não só relativa, mas está em processo de ser rejeitada. Não há nenhuma razão intelectual para supor que essa segunda ordem da realidade seja irreal e há muitas evidências experimentais para sugerir a realidade do Espírito.” Borg não está falando de um outro mundo lá em cima, mas de uma dimensão ou profundidade da realidade observável, que transcende à observação científica e que é perceptível somente a uma visão espiritual.

Muito do que o Bispo Spong trata como teísmo tradicional é denominado de “mitologia” por Rudolph Bultmann. Isso é verdade, por exemplo, com o conceito “Deus lá em cima” e “Deus que desce lá de cima”. Tal linguagem mitológica deve ser, certamente, “demitologizada”. Por essa operação, Bultmann quis dizer que essa linguagem não deve ser interpretada literalmente nem ser eliminada, mas antes interpretada existencialmente. Embora questionemos a adequação da interpretação existencial de Bultmann da mitologia bíblica, concordaríamos inteiramente que quando a Bíblia diz Deus está “lá em cima” e “está descendo”, não faríamos nem uma interpretação literal nem sua eliminação, porque essa linguagem estaria dizendo alguma coisa de muita importância sobre Deus. Ela está atentando uma experiência de Deus como uma realidade que transcende o nível ordinário da realidade. Os textos bíblicos tais como esses dão testemunho disso: “Assim diz o Alto e Sublime que vive para sempre, e cujo nome é santo: Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito humilde...” (Is 57.15). A passagem fala no mundo do Espírito como a dimensão do ser de Deus. Ela se refere a uma outra dimensão da realidade não acessível à observação científica. Não fala na localização de Deus, mas da qualidade do ser de Deus.


A Bíblia fala por meio da linguagem mitológica sobre o “Deus que desce”, especialmente em um ponto crucial na história de Israel, o Êxodo: “De fato tenho visto a opressão sobre o meu povo no Egito, tenho escutado o seu clamor, por causa dos seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo. Por isso desci para livra-los das mãos dos egípcios e tira-los daqui para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel” (Ex 3.7-8).

Noutra vez, no retorno do Exílio: “Ah! Se rompesses os céus e descesses!” (64.1); no evento de Cristo: “Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus” (Ef 4.10), ou “Aquele que vem do Alto está acima de todos” (Jo 3.31).

A linguagem da “descida” é indispensável para a visão bíblica de Deus. Esta linguagem não deve ser tomada literalmente, mas ela fala da condescendência divina, o que Lutero denominou de Herablassung, a permissão divina de se humilhar. Nesses eventos cruciais da história da salvação, Deus se envolveu graciosamente com o sofrimento do seu povo. Rejeitando isso, rejeita-se o que a Bíblia quer dizer quando ela declara que, em última instância, Deus é amor. Certamente, o Bispo Spong não deseja negar isso.

Quanto à linguagem tillichiana de Deus como o fundamento do Ser, tal conceito é bom até certo ponto. Mas é precisamente a divindade transcendente – o Deus que está “acima de todos os céus”, o qual “desce” no êxodo e se revela no evento de Cristo – que é o fundamento de nosso Ser. É uma questão de isto e aquilo mantido em tensão paradoxal, e não de Deus só lá em cima ou Deus ou só Deus nas profundezas de nosso ser. Em síntese, o teísmo não deve ser abandonado, se devemos ser fiéis à mensagem bíblica, mas deve ser expandido para incluir tanto o “hiper-panteismo” e o “panteísmo” (Deus acima de todas as coisas e em todas as coisas).

Denominamos este Deus de Deus pessoal, não porque Deus é uma pessoa como nós, mas porque o Deus bíblico volta-se para as pessoas em sua Palavra. Por essa palavra, Deus nos chama numa relação de “eu e tu” com Deus. O conceito da Palavra de Deus, tão central através da Bíblia, nos proíbe negar a imagística da pessoa atribuída a Deus como o Bispo Spong negaria.

Porém pode esta alegação de que Deus interferiu na história do seu povo, Israel, ser sustentada, diante de uma visão do mundo como um sistema fechado de causa e efeito? Alguns argumentam hoje em dia que a concepção moderna do mundo foi modificada pela descoberta de um fator de indeterminação no processo cósmico e alguns apologistas cristãos não se têm mostrado vagarosos em explorar essa revisão. Entretanto, essa indeterminação parece estar confinada ao nível das partículas subatômicas e devemos fazer uso disso com cautela antes de aplicar a possibilidade de indeterminação aos eventos históricos. Seria mais proveitoso ao teólogo apelar a dois níveis de realidade já mencionados. Em nível de observação histórica-crítica, todos os eventos históricos são, em princípio, explicáveis em termos de causa e efeito. Isto é verdade mesmo a respeito dos eventos bíblicos centrais. Porém esses eventos podem ser vistos de uma perspectiva diferente, num nível diferente. Os grandes eventos bíblicos são acompanhados de declarações proféticas. Moisés afirma ser o Êxodo uma intervenção de Deus; o deutero-Isaias afirma que o retorno é um ato de Deus e os apóstolos dão testemunho de Jesus Cristo como ato redentor de Deus. Em cada caso, a Palavra é proclamada e recebida em fé ou rejeitada em desconfiança. É a Palavra e a fé que possibilitam à teologia cristã falar dos atos de Deus, da intervenção divina na história, nos eventos que, ao nível ordinário, são entendidos em termos de causa e efeito.

Pecado humano e a Lei

Está correto o Bispo Spong ao rejeitar como um todo o conceito da condição humana pecaminosa, que a teologia tradicional tem denominado de “pecado original”? É verdade como argumenta o bispo, que a nossa visão da conduta humana é muito diferente do que a de cinqüenta anos atrás, para não dizer nada sobre o Novo Testamento? Entendemos muito mais sobre a conduta humana desde Marx, Freud e Jung, entretanto os seres humanos ainda exploram e matam uns aos outros.

Essas considerações trazem questões sobre a Lei. Naturalmente, a estória de Moisés, que sobe à montanha para receber o Decálogo nas tábuas de pedra é um mito, como o bispo reconhece corretamente. Como todos os grandes mitos bíblicos, este expressa uma verdade importante. Os seres humanos têm, geralmente, alguma espécie do senso do certo e errado. Eles sentem, no geral, estar debaixo do que Kant denominou de “imperativo categórico”. Esse senso do certo e errado foi moldado pela experiência de Deus por parte de Israel. Eles reconheciam ser responsáveis a Yahweh e que tinham de prestar contas de sua conduta. Eles compreenderam que o senso deles sobre o certo e o errado não era sua imaginação. Naturalmente, suas formulações dos Mandamentos foram culturalmente condicionadas, como o bispo bem ressalta. Isso foi verdade com respeito ao mandamento que ordena a observação do sábado. Também, é verdade que a proibição do adultério tinha muito mais a ver com o direito da propriedade do que com a moralidade sexual. Porém devemos interpretar os Dez Mandamentos (ou, pelo menos, a segunda tábua) nos termos da radicalização que Jesus fez deles no Sermão do Monte, e nos termos do mandamento duplo do amor. Mesmo o quarto (ou terceiro) mandamento não é inteiramente irrelevante: o sábado encontra sua realização escatológica na vinda do Reino de Deus e celebramos a vinda do Reino e nela participamos na observância semanal do Dia do Senhor. Por conseguinte, para os cristãos o domingo não é o sábado, mas sua realização escatológica.

Há uma outra razão para insistir na origem divina do imperativo moral: o pecado é visto como pecado só à luz da exigência divina. Paulo percebeu isso quando se referiu à lei como convocação para o arrependimento (Rm 7.7-25). Só se for a transgressão de um imperativo divino será exposta como pecado, isto é, rebelião contra Deus e perversão de nossa relação com Deus. Até que isso aconteça, não será percebida a necessidade da libertação que vem de Deus. É em resposta a essa situação que o ato redentor em Jesus Cristo aconteceu. Para isso voltemos a nossa atenção.

Evento de Cristo

Podemos concordar com o Bispo Spong que partes da estória de Jesus nos evangelhos não devem ser tomadas literalmente. Isto é verdadeiro, especialmente, com respeito às narrativas da infância e às narrativas da ressurreição.

Tenho argumentado alhures que as estórias de nascimento em Mateus e Lucas são essencialmente expressões narrativas de Cristologia e que a crença cristã significa a aceitação da cristologia que elas expressam. O bispo está no caminho certo quando ele as trata como “midrash”, embora midrash – que, no geral, é entendido como interpretação expandida de um texto do Antigo Testamento – provavelmente não seja um termo técnico correto nesta conexão. Talvez as estórias do nascimento contenham um pouco mais de história factual do que o bispo está pronto a admitir. Certos pontos de concordância entre Mateus e Lucas esclarecem que alguma coisa das tradições factuais entesouradas nas estórias são de origem pré-evangelho e podem, de fato, ser históricas. Tais itens incluem os nomes de Maria e José, a alegação de que José é de origem davídica e a datação do nascimento de Jesus pelo fim do período do reinado de Herodes e, talvez, o curioso timing da concepção e a localização do nascimento em Belém. Ao ler essas estórias, devemos, todavia, ouvir a proclamação que elas entesouram – que Jesus Cristo é a intervenção de Deus, cumprimento da esperança da restauração de Israel.

O Bispo John Spong tem alergia em alto grau para com a “teologia do sangue”, isto é, a interpretação da morte de Jesus como sacrifício. (É irônico que esteja enfastiado com este tópico, considerando que este século pode ser o mais sanguinolento da história humana!) Podemos concordar com ele que a linguagem do sacrifício que ocorre no culto não tem sentido na cultura contemporânea. Entretanto os seguintes pontos devem ser considerados:

1. O sacrifício no culto se supre de apenas uma de várias imagens com que o Novo Testamento apresenta o sentido da morte de Cristo. Para Paulo, essa imagem tem apenas um papel menor e nas citações das tradicionais fórmulas de hinos outras importantes imagens são tomadas das relações pessoais e internacionais (reconciliação), tribunal (justificação) e campo de batalha (vitória sobre os poderes cósmicos do mal).

2. A Cruz é central para a mensagem cristã, o coração do ato de Deus em Jesus Cristo. Os teólogos não devem abandoná-la como incompreensível, mas devem descobrir uma imagística adequada para a sua compreensão contemporânea.

3. “Sangue” no pensamento hebraico significa, não simplesmente uma realidade física, mas a própria vida, especialmente, a vida entregue à morte.

4. A idéia do amor doador, derramado até a morte, não é certamente estranha para a nossa cultura ou para qualquer outra cultura. Podemos apreciar o sentido paulino quando ele se refere a Cristo, que “me amou e deu a si mesmo por mim” (Gl 2.20).

Estórias (narrativas) da Páscoa

A proclamação da Páscoa resumida em 1Coríntios 15.3-8 é, geralmente, reconhecida pelos estudiosos como sendo pré-paulina e, provavelmente, seja uma tradição muito antiga. As pessoas constantes da lista nessa formulação tiveram experiências visionárias que podem ser suscetíveis à explicação psicológica, num certo nível. Entretanto, no nível da proclamação e da fé, o Novo Testamento afirma que elas são encontros de revelação. Por meio dessas revelações os receptores vieram a crer que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e o exaltou ao modo transcendente de ser Deus. As narrativas de aparição no fim dos evangelhos são, no entanto, tardias. Em analogia com as estórias de nascimento, elas são expressões narrativas da mensagem da Páscoa entesouradas na tradição mais antiga. Elas põem ao público o caráter revelador das aparições e suas implicações: a inauguração da quérigma, a fundação da Igreja e sua missão e a origem do batismo cristão e alguns aspectos da eucaristia.

Muito mais está em debate a estória do túmulo vazio. Muitos estudiosos concordariam com o Bispo Spong e, na esteira de R.Bultmann, a abandonam como uma “lenda tardia”. Eles podem estar certos. Todavia tenho dito alhures que há um núcleo histórico da estória, a partir do qual a “lenda posterior” se desenvolveu. Este é o fato de que Maria Madalena, talvez, com outras mulheres, descobriram o túmulo, no qual Jesus foi sepultado, inexplicavelmente vazio. Como todos os outros fatos históricos é suscetível de explicações naturais e um certo número dessas possibilidades é mencionado ou sugerido nos evangelhos. Por exemplo, Marcos se esforça em ressaltar que as mulheres anotaram o local do túmulo na tarde da Sexta-feira, portanto, elas foram ao túmulo errado na manhã da Páscoa. Mateus fala no rumor de que os discípulos roubaram o corpo. João sugere que alguma outra pessoa (um jardineiro, por exemplo) removeu o corpo. Não há dúvida que há outras explicações naturais possíveis, mas as narrativas dos sinóticos oferecem expedientes literários de um anjo que faz a interpretação. Aqui aparece a comunidade da fé propiciando uma categoria de interpretação da revelação a um fato histórico. Um outro argumento mencionado, freqüentemente, contra a historicidade do túmulo vazio é sua ausência no quérigma pré-paulino de 1 Coríntios 15.3-8, e no debate subseqüente de Paulo nesse capítulo. Entretanto, é não só defensável que a seqüência “foi sepultado – foi ressuscitado” implica na inversão do sepultamento, porém, mais importante é o argumento subseqüente de Paulo de que a ressurreição dos fiéis implica numa ressurreição do corpo. A ressurreição de Jesus e a ressurreição geral dos fiéis envolvem a transformação do corpo. Naturalmente, isso não significa – como se insiste freqüentemente hoje em dia – a ressuscitação do cadáver, mas a transformação do físico. A tradição do túmulo vazio é um lembrete de que o cristão deve abraçar a glorificação da matérias do cosmos.

Ascensão

A ascensão é contada apenas duas vezes no Novo Testamento e só nos escritos de Lucas 24.50-51 (texto mais longo) e Atos 1.6-11. A segunda versão é claramente o que o Bispo Spong chamaria de midrash baseada numa estória semelhante acerca de Elias em 2 Reis 2.1-12. Ela coloca na forma de estória uma crença que foi, geralmente, mantida na Igreja primitiva, isto é, que – sendo ressuscitado dentre os mortos – é agora exaltado ao modo transcendente do ser de Deus. O bispo, na minha opinião, está muito certo em insistir que a estória não deve ser tomada literalmente. Porém não deve ser eliminada a verdade que ela enuncia. A “ascensão” é uma linguagem mitológica para a verdade-fé essencial de que Jesus é Senhor, removido das restrições do espaço e tempo e constantemente acessível e presente na Palavra e sacramento.

Parusia

Do mesmo modo, a parusia não deve ser considera como evento literal, no qual Cristo desce com seus anjos sobre nuvens do céu no fim da história. É uma expressão simbólica do que Teilhard de Chardin denominou de “ponto ômega”, o alvo da história humana e do processo cósmico. Mais uma vez, o Bispo Spong é correto em insistir que esse evento não pode ser tomado literalmente. Entretanto, mais uma vez, deve ser interpretado e não eliminado.

Jesus como pessoa de Espírito


O bispo tomou de Marcus Borg a descrição de Jesus de Nazaré como “pessoa do Espírito”. Esta idéia tem sua atração, certamente. Jesus pode ser apresentado inteligivelmente ao mundo contemporâneo como uma figura de uma classe de gente que teve uma experiência fora do comum daquelas dimensões elevadas da realidade, do sagrado, do mundo do Espírito. Porém essa compreensão não consegue captar o que é único sobre Jesus. É como a descrição dele como mestre e profeta, o que é verdade.

É interessante que, em apoio a essa visão sobre Jesus como pessoa do Espírito, Marcus Borg cita a versão de Lucas do discurso inaugural de Jesus na sinagoga de Nazaré, (Lc 4.18-19), no qual Jesus menciona Isaías 61. Tão impressionado, por ser tão oportuna essa citação para a situação, Borg está tentado a aceitar a sua autenticidade, a despeito de ser uma expansão de Marcos 6.1 por parte de Lucas e, portanto, provavelmente seja mais redacional, (isto é, aditamento editorial). Seja como for, há outras passagens para apoiar a noção de que Jesus é a figura plena de Espírito, por exemplo, Marcos 3.28-29; Lucas 7.22, que ressoam Isaias 61. Há passagens cuja autenticidade está menos aberta à dúvida do que a versão de Lucas do sermão em Nazaré. Por conseguinte, podemos concordar que Jesus entendeu a si mesmo como estando habilitado para a sua missão pelo Espírito e neste contexto, há algo mais preciso: o poder escatológico de Deus que vem de um modo único sobre seu único agente escatológico. Aqui, na interpretação que Jesus faz de si mesmo, encontramos a gênese pré-Pascal da cristologia pós-pascal, pós-ressurreição.

Conclusão

A teologia anglicana tem sempre se esforçado em ser fiel ao quérigma e ao credo, e aberta aos novos conhecimentos. Alcançar tal síntese é uma tarefa árdua e um constante desafio. É sempre mais fácil aderir rigidamente ao sentido literal da Bíblia e rejeitar qualquer novo conhecimento. É igualmente mais fácil se capitular sem reserva ao pensamento contemporâneo e comprometer a verdade do evangelho. Porém, desde a publicação de Lux Mundi, o anglicanismo tem demonstrado a preferência por “isto e aquilo”, ao invés de “ou isto ou aquilo” – tanto a fidelidade para com a revelação quanto para com a abertura para novas descobertas da verdade. Continuar nesse caminho será o desafio para a teologia anglicana no terceiro milênio.