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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Não há sacerdotisas israelitas na Bíblia. Uma maldição de 2.400 anos conta uma história diferente

 

Uma nova análise de uma mensagem de 2.400 anos rabiscada em um pedaço de cerâmica sugere que ela pode ser não apenas o exemplo mais antigo de uma maldição popular da antiguidade, mas também a primeira evidência direta da presença de mulheres sacerdotisas em templos judaicos.

A inscrição de 12 palavras, escrita em aramaico antigo, foi descoberta em 1925 no sítio de um antigo templo judaico em Elefantina, uma ilha no Nilo, no sul do Egito.

Os estudiosos debatem o significado da inscrição há quase 100 anos, mas todos concordam que ela se refere a uma túnica — alguns sugeriram que era uma "vestimenta sagrada".

“Eis a minha túnica, que deixei no [templo]…” começa o texto.

A interpretação mais recente, no entanto, é que a mensagem é, na verdade, uma maldição que invoca a retribuição divina sobre quem roubou a túnica; também parece instruir uma autoridade feminina no templo a colocar a maldição em prática.

“Esta é a primeira vez que temos documentação em primeira mão de uma sacerdotisa – uma mulher – em um templo judaico”, diz Gad Barnea, professor de história e pensamento judaico na Universidade de Haifa, em Israel, e autor de um novo estudo sobre a inscrição, publicado recentemente na revista Religions.

Poesia sobre cerâmica

A inscrição está escrita em um fragmento de cerâmica conhecido pelos arqueólogos como "óstraco"; esses fragmentos eram frequentemente usados ​​para escrita antes da popularização do papel.

Foi escavado das ruínas do templo judaico construído em Elefantina no século VI a.C., possivelmente por refugiados que fugiam das invasões assírias e babilônicas dos reinos de Israel e Judá. Alguns estudiosos se referem a esses primeiros templos judaicos como "javistas" porque seu culto às vezes diferia das práticas judaicas posteriores.

Barnea observa que as palavras da inscrição criam um ritmo distinto, o que indica que ela era recitada em voz alta como um encantamento ritual no templo.

“Há uma forma poética nisso que ninguém percebeu até agora”, diz ele. “O fato de haver algo de poético nesse texto foi o primeiro indício que me alertou, que havia algo mais do que apenas instruções sobre uma túnica.”

Mais importante ainda, a inscrição de Elefantina usa a forma feminina do verbo aramaico "comandar", indicando que o ritual estava sob a autoridade de uma mulher na hierarquia do templo, e não de um homem.

Barnea afirma que a mulher sem nome está ordenando a Javé — usando um recurso poético comum de se referir à divindade como "o Leão" — que consagre uma túnica para que a pessoa que a roubou se torne um "ladrão de templo" e não um mero ladrão, merecendo assim a retribuição divina por sua ofensa.

“As implicações disso são enormes”, diz ele. “Na Bíblia, não temos nenhuma sacerdotisa; mas aqui temos provas em primeira mão de que tais sacerdotisas existiram nos templos judaicos.”

A especialista em aramaico Tawny Holm, da Universidade Estadual da Pensilvânia, que não participou do estudo, afirma que a pesquisa "resolve o problema de como entender esse óstraco, que de outra forma seria peculiar".

Ela observa que muitas inscrições semelhantes de Elefantina são cartas, mas esta não contém uma saudação formal, o que torna a ideia de que se trata de uma maldição ritual "atraente e convincente".

Práticas judaicas antigas

Registros antigos em papiros mostram que uma comunidade judaica floresceu em Elefantina até que seu templo foi destruído em uma revolta em 410 a.C. A existência do templo contraria o princípio judaico tradicional de que Javé só deve ser adorado no templo de Jerusalém. Mas Barnea observa que templos judaicos antigos semelhantes podem ter existido fora de Jerusalém, em lugares como a Babilônia.

E embora a Bíblia sugira que apenas homens podem ser sacerdotes, a inclusão de mulheres na liderança do templo de Elefantina pode ter refletido uma prática comum na época, afirma ele.

O estudo menciona pesquisas anteriores que sugerem que o culto judaico primitivo era provavelmente mais semelhante ao dos judeus de Elefantina do que ao dos judeus descritos na Bíblia, que poderiam ser vistos como um ideal religioso: "A Bíblia é a exceção, não Elefantina", escreve Barnea.

Embora Holm discorde que a referência ao "Leão" na inscrição signifique Javé — ela acha que pode se referir a um sacerdote subordinado —, "o intrigante aqui é que a funcionária tem uma autoridade significativa", diz ela.

O óstraco é agora a terceira evidência que sugere que as mulheres tinham poder na hierarquia do templo judaico em Elefantina, observa Holm; as outras são um texto em papiro sobre uma "serva de Javé" chamada Tapemet e um papiro enigmático que sugere que os falantes de aramaico no antigo Egito estavam familiarizados com mulheres como sacerdotisas.

Susan Ackerman, professora de religião e estudos feministas do Dartmouth College, que também não participou do estudo, concorda com Barnea que a representação bíblica do judaísmo pode não ser um retrato preciso da antiga religião israelita.

Ackerman afirma não ser contrária à ideia de que possa ter havido sacerdotisas na antiga religião israelita, mas observa que isso pode ser simplesmente um exemplo da influência religiosa egípcia nas práticas judaicas, particularmente em Elefantina.

“Elephantine… demonstra de muitas maneiras que as normas bíblicas não precisam ser aplicadas na comunidade judaica em geral”, diz ela.

Uma maldição contra ladrões

Além de ser uma rara evidência da existência de sacerdotisas judias, o óstraco de Elefantina também é um documento histórico crucial.

Barnea afirma que a forma da inscrição segue uma fórmula para uma “maldição contra ladrões”, na qual um item roubado é consagrado para que a divindade assuma a tarefa de punir o criminoso; não só é o exemplo mais antigo desse tipo de maldição, que se tornou muito popular no mundo greco-romano, como também é o único registro de qualquer ritual realizado em um templo dedicado a Javé, diz ele.

Barnea acrescenta que algumas características físicas da inscrição sugerem que ela foi copiada previamente por um escriba e armazenada com espaços em branco que poderiam ser preenchidos para um cliente pagante — neste caso, uma mulher chamada Slwʾh . (A prática de ter tábuas de maldição prontas nos templos era comum na época romana.)

E o estudioso rejeita a sugestão de que quaisquer artefatos anteriores possam ter constituído uma maldição yahwista: "Esta é a maldição judaica mais antiga que existe", afirma.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

História e Desenvolvimento do Judaísmo

 


JUDAÍSMO

O judaísmo é a religião do povo judeu. É a religião monoteísta (de um só Deus) mais antiga e a religião viva mais antiga do Ocidente. O judaísmo precedeu e influenciou grandemente o cristianismo e o islamismo, que se baseiam em crenças judaicas. O fato de estar tão intimamente ligado ao povo judeu torna os dois inseparáveis, de uma forma que, digamos, não se opõe ao cristianismo e aos franceses. A relação torna-se ainda mais intrincada e complexa quando se considera a nação de Israel. As palavras "judaísmo" e "judeu" derivam de "Judá", o antigo reino judaico do sul da Palestina.

O judaísmo é a origem das três religiões abraâmicas, que também incluem o cristianismo e o islamismo. Os judeus acreditam que Deus os designou como seu povo escolhido para dar um exemplo de santidade e comportamento ético ao mundo. Os judeus acreditam que existe apenas um Deus com quem têm uma aliança. Em retribuição a todo o bem que Deus fez ao povo judeu, os judeus cumprem as leis de Deus e procuram incorporar a santidade em todos os aspectos de suas vidas. 

O judaísmo tem uma rica história de textos religiosos, mas o documento religioso central e mais importante é a Torá. A lei judaica tradicional ou oral, a interpretação das leis da Torá, é chamada de halacá. Os judeus praticam seus cultos em sinagogas. Os líderes espirituais são chamados de rabinos. Seis milhões de judeus foram assassinados no Holocausto, numa tentativa de erradicar o judaísmo. Há muitas pessoas que se identificam como judias sem necessariamente acreditarem ou observarem qualquer lei judaica.

O judaísmo continua sendo uma religião importante, mesmo tendo um número relativamente pequeno de seguidores. Há uma ênfase na vontade divina expressa em leis, e a autoridade eclesiástica tem sido tradicionalmente fraca, enquanto as leis escritas têm sido fortes. Em sua forma conservadora, o judaísmo possui diversos rituais, leis e regras que devem ser seguidos nos mínimos detalhes, mas muitas vezes a base desses rituais não passa da tradição. Os estudos judaicos têm se voltado frequentemente para a interpretação dessas leis em um mundo em constante transformação, e o próprio judaísmo tem sido descrito como um "reflexo" sobre a história e a tradição judaicas.

Origem do Judaísmo

O judaísmo foi fundado, segundo a Bíblia e a Torá, por volta de 1300 a.C., por Moisés, quando ele trouxe os Dez Mandamentos do Monte Sinai. Diz-se que sua origem remonta a 3800 anos atrás, na Mesopotâmia, com Abraão, o patriarca fundador das tribos de Israel. Abraão fez um pacto com Deus para difundir a doutrina do monoteísmo em troca de Deus guiá-lo à Terra Prometida de Canaã (Israel). A Torá de Moisés é a fonte da maioria dos textos sagrados. Jesus era judeu e as escrituras sagradas do judaísmo são consideradas sagradas pelo cristianismo e pelo islamismo.

Evolução do Judaísmo Ortodoxo

O rabino YY Rubinstein escreveu para a BBC: “O início do judaísmo começa, curiosamente, sem judeus. A Bíblia registra vinte gerações da humanidade antes do surgimento do primeiro judeu, Abraão. Sua personalidade serviria de paradigma para seus descendentes, que eventualmente se tornariam o povo judeu. Ele foi um revolucionário religioso que refinou sua espiritualidade a tal ponto que Deus lhe falou; em outras palavras, ele se tornou um profeta (embora sua esposa Sara tenha se tornado uma profetisa ainda maior). Ele era um iconoclasta que desafiou abertamente as crenças universais de sua época e insistiu que havia apenas um Deus. Ele estava obstinadamente disposto a sacrificar a própria vida em vez de comprometer suas crenças.” 

“O povo que descendesse de Abraão teria que manifestar todas essas qualidades para desempenhar o papel que Deus lhe havia designado. De fato, a única vez que a Torá define a natureza do povo judeu é para identificá-lo como 'de cerviz rígida' ou teimoso. Ainda assim, se Deus exigisse de um povo que levasse uma mensagem através de Cruzadas, Inquisição, Pogroms e Holocausto, a teimosia seria a característica essencial.

No século V a.C., quando os judeus eram governados pelos persas, o sacerdote Esdras e o líder Neemias trabalharam juntos para reconstruir Jerusalém e reorganizar e reformar a vida comunitária judaica. Eles exortaram o povo judeu a renovar sua aliança com Deus e a se livrar das influências estrangeiras e pagãs. Alguns consideram seus esforços como a fundação do judaísmo. Nos 250 anos seguintes, a Judeia foi um estado vassalo da Pérsia, governado por um governador judeu nomeado pela liderança persa e por um líder religioso na figura de um sumo sacerdote.

O termo judaísmo surge pela primeira vez entre os judeus de língua grega do primeiro século d.C. (Judaismes, ver ii Macabeus 2:21; 8:1; 14:38; Gálatas 1:13-14). Seu equivalente hebraico, Yahadut, encontrado apenas ocasionalmente na literatura medieval, mas usado frequentemente nos tempos modernos, não possui paralelos nem na Bíblia nem na literatura rabínica. 

Judaísmo e História

O cristianismo e o islamismo são religiões históricas, um conceito estranho ao budismo e ao hinduísmo, e todos se consideram os legítimos herdeiros da Terra Santa. De uma perspectiva histórica, o judaísmo é um ramo da árvore do monoteísmo, mas para os judeus não há ruptura entre o período da criação, de Abraão, dos fariseus e os dias de hoje.

Alguns historiadores religiosos dividem a história do judaísmo em cinco períodos: 1) o período bíblico; 2) o período pós-bíblico, quando o judaísmo se consolidou no Talmude; 3) a Idade Média, quando a filosofia religiosa e o misticismo atingiram seu auge; 4) o período em que a ortodoxia, a neo-ortodoxia e o sionismo tomaram forma; e 5) o período posterior à criação de Israel.

Os judeus são um povo real e histórico, mas o quanto sua história real coincide com a história descrita na Bíblia é objeto de conjectura, especulação e debate. Para muitos judeus, religião e história são uma só coisa, e a história do judaísmo tem sido uma série de problemas, derrotas, sofrimento e exílio do povo judeu. Esse destino tem sido tradicionalmente atribuído à falha em seguir a vontade de Deus.

Nos últimos anos, descobertas arqueológicas e pesquisas acadêmicas têm demonstrado como os textos bíblicos podem ser comparados proveitosamente com tradições e episódios históricos das civilizações do antigo Egito e Mesopotâmia, Fenícia, Canaã, Assíria e Pérsia.

Embora raramente no poder, os judeus foram o grupo dominante na Terra Santa durante séculos. A localização estratégica da Palestina (Israel) no Mar Mediterrâneo, entre a Ásia, a Europa, o Oriente Médio e a África, fez dela um prêmio altamente cobiçado, disputado e ocupado por diversas civilizações e povos.

A história ocupa um lugar de destaque na vida dos judeus modernos. Eventos ocorridos há milhares de anos são tratados como se tivessem acontecido ontem. "Poucos contra muitos" é uma expressão hebraica muito usada para descrever o destino do povo judeu e de Israel. As crianças aprendem na escola que os judeus e Israel sempre estiveram cercados por inimigos hostis e que, assim como Davi contra Golias, triunfaram.

História Bíblica

A Torá (Antigo Testamento), o livro sagrado do judaísmo, é essencialmente a história das 12 tribos hebraicas que se uniram sob a liderança de Moisés para formar uma nação, e essa história estabelece uma conexão universal com a humanidade. Os primeiros capítulos da Bíblia focam no tema da rejeição de Deus pelo homem, desencadeando uma série de problemas até que, finalmente, Deus escolheu um homem, Abraão, cujos descendentes formariam um povo fiel que mais tarde seguiria Moisés para fora do Egito.

Os reinos bíblicos eram relativamente pequenos e tinham pouca influência no Oriente Médio durante os tempos bíblicos. Embora Gênesis trate da humanidade, o texto que se segue concentra-se principalmente no povo judeu. A Bíblia primitiva narra a migração do povo hebreu da Mesopotâmia para Canaã (Israel), depois para o Egito e, por fim, de volta a Canaã. Alguns estudiosos consideram essa migração como uma migração física de um povo seminômade, enquanto outros a interpretam como uma jornada espiritual, ou ambas.

A religião praticada pelos povos antigos mencionados na Bíblia era bastante diferente das religiões modernas e não pode ser considerada judaísmo ou uma forma primitiva de cristianismo. Ela incluía sacrifícios e outros rituais mais semelhantes às religiões praticadas por povos tribais do que pelos judeus ou cristãos modernos.

"Israel" significa "aquele que luta com Deus". Jacó recebeu esse nome após lutar com um anjo. Mais tarde, passou a significar o povo judeu e o lugar para onde o povo judeu espera retornar, na Palestina. Palestina é um nome que foi usado na antiguidade clássica e foi ressuscitado após mais de mil anos de desuso.

Criação do Judaísmo

A evolução do hebraísmo (uma religião baseada apenas nas escrituras do Antigo Testamento) para o judaísmo (com rabinos e doutrinas religiosas interpretadas por esses rabinos) foi uma transformação lenta que começou com a destruição do Segundo Templo (70 d.C.) e a compilação da Mishná (o primeiro grande documento canônico do judaísmo, depois da Bíblia) no século II d.C. Durante esse período, o judaísmo absorveu novas ideias e enfrentou novos problemas, muitos deles resultantes de guerras e deslocamentos populacionais.

Alexandria era um centro da vida intelectual judaica, bem como do pensamento intelectual grego, romano e cristão. Eruditos judeus como Filo de Alexandria foram profundamente influenciados pela filosofia grega, o que os ajudou a encontrar um vocabulário e ideias para abordar alguns dos conceitos mais abstratos de sua religião, especialmente no que dizia respeito a Deus. Em contrapartida, os estudiosos que permaneceram fiéis às suas raízes na Palestina mantiveram-se mais fiéis à Bíblia e conceberam Deus em termos mais humanos e antropomórficos. A evolução desses dois métodos de abordagem do judaísmo levou à articulação dos aspectos mais misteriosos do judaísmo e à codificação de suas leis.

A criação do judaísmo foi obra de rabinos que reconstruíram a religião judaica interpretando a Torá em um mundo sem Templo, com base em tradições orais, famílias e sinagogas. Os registros desses rabinos formaram a base da Mishná e do Talmud.

Na Idade Média, existiam muitas seitas judaicas. Em alguns casos, cada uma possuía seu próprio Talmud. Com o tempo, o Talmud Babilônico predominou sobre os demais. Estes foram posteriormente organizados em códigos, dos quais o código de Maimônides (1135-1204) e Joseph Caro (1488-1575), conhecido como "Shulchan Aruch", tornou-se o mais importante.

Judaísmo Rabínico

O judaísmo rabínico é historicamente a forma mais difundida e representativa do judaísmo. Jacob Kat escreveu na Enciclopédia Internacional das Ciências Sociais: "Ele aceita os livros canônicos da Bíblia Hebraica como revelação divina e lhes confere autoridade incontestável. O mesmo se aplica ao conteúdo da tradição oral. Tanto a lei escrita quanto a oral, contudo, não são fontes simples a serem consultadas diretamente pelo crente em busca de orientação. Sua interpretação está nas mãos de especialistas, isto é, os sábios ou rabinos que são, de maneira mais ou menos formal, autorizados por seus predecessores. Essa transmissão ininterrupta da lei oral de mestre para aluno desde a época de Moisés é um dos princípios fundamentais do sistema de crenças do judaísmo rabínico."

As regras e o conteúdo da interpretação estão incluídos na própria tradição e são relativamente rigorosos quando se referem a assuntos práticos, como questões morais, rituais ou cívicas (halachá). Na área da crença e do dogma, contudo, o corpo de ensinamentos (agadá) é menos estritamente definido, tanto em método quanto em conteúdo. Ambos os tipos de ensinamentos foram incorporados aos textos básicos do judaísmo rabínico — a Mishná e a Guemará, que juntos constituem o Talmud (tanto a versão palestina, editada no século III, quanto a babilônica, editada no século V). 

A Mishná é um resumo conciso, em hebraico, de todo o corpus da lei judaica, tal como se cristalizou no século II da era cristã. A Guemará é um relato quase sistemático, em aramaico, das discussões e elaborações extensas da Mishná, conforme ocorreram nas academias palestinas e babilônicas nos séculos subsequentes. O texto é ainda intercalado com longas discussões de exegese formulada e folclore. Todo o conjunto de ensinamentos religiosos é comumente designado pelo nome Torá, um termo que, estritamente falando, se refere apenas aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, ou seja, o Pentateuco.

A Mishná e o Talmud, obras consideradas autoritativas, foram submetidos a reinterpretações, em parte como consequência da dialética inerente à interpretação textual e em parte como resultado de decisões jurídico-religiosas sobre novas e problemáticas realidades. A partir de comentários, novelas e responsa, camadas sucessivas foram adicionadas à lei, e, consequentemente, a halachá foi repetidamente codificada. Correspondentemente, pensadores religiosos alinharam seus ensinamentos teóricos a diversos sistemas filosóficos contemporâneos. Ambas as atividades intelectuais — jurídica e filosófica — dependiam da interpretação de textos sagrados específicos por autoridades qualificadas e permaneceram de natureza escolástica.

Paralelamente a esses dois ramos do saber religioso, desenvolveu-se, desde os tempos talmúdicos, especialmente durante a Idade Média, o conhecimento esotérico dos místicos conhecido como Cabala. Partindo de ideias gnósticas, desenvolveu teorias emanativas da divindade e reinterpretou grande parte da tradição sob essa perspectiva. O principal livro da Cabala é o Zohar, escrito em aramaico na Espanha do século XIII e atribuído a um dos sábios talmúdicos do século II. Embora tenha sido contestado por alguns racionalistas desde então e visto com suspeita por alguns halacistas, encontrou ampla aceitação, especialmente a partir do final da Idade Média, quando influenciou fortemente tanto o pensamento quanto a prática religiosa.

Maimônides, Yehudah Halevi e outros pensadores judeus

Moisés Maimônides (1135-1204) é considerado o maior erudito da Torá, o mais importante filósofo judeu medieval e o pensador racionalista mais influente do judaísmo. Ele é o autor de "O Guia dos Perplexos" e dos Treze Artigos de Fé, além de ser a fonte de muitas leis talmúdicas e rabínicas. Tanto Maimônides quanto o filósofo e cientista muçulmano Averróis nasceram na cidade espanhola de Córdoba e diz-se que se tornaram bons amigos.

Os Treze Artigos de Fé de Maimônides são considerados o dogma fundamental do Judaísmo. São eles: 1) A existência de Deus, o Criador de Todas as Coisas; 2) Sua unidade absoluta; 3) Sua incorporeidade; 4) Sua eternidade; 5) A obrigação de servi-Lo e adorá-Lo somente; 6) A existência da profecia; 7) A superioridade da Profecia de Moisés sobre todas as outras; 8) A Torá é a revelação de Deus a Moisés; 9) A Torá é imutável; 10) A onisciência e presciência de Deus; 11) Recompensas e punições de acordo com as ações de cada um; 12) A vinda do Messias; 13) A ressurreição dos mortos.

Bahya ibn Pakuda (Espanha, século XI) foi outro famoso pensador judeu. Em seu livro "Deveres do Coração", ele defendeu o ascetismo, denunciou a entrega aos desejos e desenvolveu uma espécie de sufismo judaico, divulgando-o para um público amplo.

Yehudah Halevi (1080-1141?) foi um grande rabino, poeta e pensador judeu que abordou o judaísmo a partir de uma perspectiva diferente e é considerado um dos maiores poetas judeus. Nascido na Espanha, passou grande parte da vida na Palestina. Em sua obra, enfatizou um amor intenso e profundamente pessoal por Deus, a fidelidade à comunidade judaica e o desejo de comunhão divina. Halevi era um médico extrovertido e poeta da corte. Escreveu versos religiosos e poemas seculares, sendo apreciado por judeus, cristãos e muçulmanos. Muitos de seus poemas tratavam de espiritualidade, alienação e a saudade de uma pátria. Alguns de seus poemas, como "Ode a Sião", ainda são parte integrante dos serviços religiosos judaicos.

Houve uma famosa série de debates teológicos entre padres e rabinos nos séculos XIII e XIV, patrocinados pela Igreja Católica. Os rabinos estavam numa situação sem saída. Se perdessem, perderiam; se ganhassem, corriam o risco de serem linchados por uma multidão. Um famoso duelo entre um judeu convertido ao cristianismo chamado Pablo Christian e Nachmanides de Girona, o mais famoso estudioso talmúdico de sua geração, ocorreu em Barcelona em 1283. Nachmanides teve um desempenho tão brilhante que foi acusado de blasfêmia e forçado a deixar o país.

Cabala

A Cabala é o nome dado ao conhecimento místico judaico transmitido oralmente de geração em geração e mencionado no Talmude. Ela se dedica a encontrar significados ocultos nas Escrituras, alcançar planos elevados e estados de êxtase, explorar a magia e especular sobre a vinda do Messias. A Cabala tem sido comparada ao Sufismo e ao misticismo islâmico. A palavra Cabala significa, em linhas gerais, "tradição esotérica" ​​e, mais precisamente, "o que recebe", uma referência a Moisés recebendo as leis de Deus no Monte Sinai, e um termo amplamente utilizado em Israel para descrever a recepção de hotéis, entre outras coisas.

Apesar das alegações de que a Cabala é uma forma de ensinamento místico praticado por Moisés, suas origens remontam à Europa medieval. Na Espanha e no sul da França do século XIII, estudiosos judeus afirmavam possuir conhecimento secreto das escrituras, originário de Moisés e transmitido oralmente ao longo dos séculos. Esses estudiosos e exegetas, posteriormente conhecidos como cabalistas, concentravam-se principalmente em duas seções da Torá cuja discussão pública era proibida pelo Talmude. A primeira é a descrição da Criação em Gênesis e a segunda é a descrição, no Livro de Ezequiel, da visão de Ezequiel de uma carruagem cósmica.

A Cabala surgiu numa época em que o judaísmo era dominado por rabinos que estabeleciam leis rígidas e detalhadas que todos os judeus eram obrigados a seguir sem questionamento. O judaísmo daquela época era baseado no racionalismo moral e incluía um código de ética. Enfatizava a primazia da caridade e desacreditava crenças esotéricas e a busca por respostas para questões profundas, como o significado de Deus. Os cabalistas buscavam não apenas definir e caracterizar Deus, mas também acessar seu poder espiritual e cosmológico, uma busca considerada herética pelos puristas.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Os cristãos escravizados que teriam ajudado a escrever a Bíblia e espalhar o Evangelho

 


Um livro lançado neste ano nos Estados Unidos traz um argumento surpreendente para muitos leitores da Bíblia: o de que pessoas escravizadas tiveram um papel crucial, e pouco reconhecido, na criação e na disseminação do Novo Testamento.

Em God’s Ghostwriters: Enslaved Christians and the Making of the Bible ("Ghostwriters de Deus: Cristãos Escravizados e a Criação da Bíblia", em tradução livre), a historiadora Candida Moss afirma que pessoas escravizadas ajudaram os discípulos de Jesus a redigir os textos bíblicos e a espalhar o Evangelho pelo Império Romano.

Segundo Moss, que é professora de Teologia da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, somente 5% a 10% da população era alfabetizada na época – entre eles, os mais ricos.

A maioria dos apóstolos e primeiros cristãos não sabia ler ou escrever. Mesmo os que sabiam, muitas vezes eram impedidos por sofrer de artrite ou problemas de visão, em uma época em que óculos não existiam.

Compor e copiar textos a mão era um trabalho árduo e fisicamente cansativo, que os membros da elite não queriam fazer e que o resto da população não tinha como fazer.
Assim, a tarefa cabia geralmente a pessoas escravizadas, que eram alfabetizadas desde jovens para desempenhar a função de secretários, escribas, leitores e mensageiros.

Nesse contexto, o fato de alguém ser identificado como autor de um texto não significava que tinha escrito com suas próprias mãos.

O mais comum era que a obra fosse ditada a pessoas escravizadas ou, em alguns casos, que haviam sido libertas mas, de acordo com Moss, não eram totalmente livres.

A historiadora argumenta que, ao redigir o material ditado por outros e copiar manuscritos, esses escravizados não apenas reproduziam os textos, mas contribuíam de forma ativa como coautores, fazendo correções e edições.

Essa colaboração se estendeu pelos dois primeiros séculos da Era Cristã, segundo a pesquisa.

"Você pode ver pessoas escravizadas e ex-escravizadas como parte fundamental da atividade missionária, da escrita e da interpretação bíblica no início do Cristianismo. Elas estão envolvidas em tudo isso", diz Moss à BBC News Brasil.

Os escravizados viajavam a locais distantes para ler passagens bíblicas a fiéis que não eram alfabetizados, em um papel que Moss compara ao de missionários, escolhendo gestos e entonação para transmitir e interpretar os ensinamentos de Jesus.

Moss cita o exemplo das Cartas de Paulo. Segundo a historiadora, Paulo era o único apóstolo alfabetizado, mas ele próprio indica, em seus textos, que usava a ajuda de outras pessoas para ler e escrever.

Além disso, algumas de suas cartas foram redigidas quando ele estava na prisão, que costumava ser em um subsolo escuro e de onde seria difícil escrever.

Moss considera provável que tenham sido ditadas a assistentes escravizados, emprestados por seguidores ricos.

A Epístola aos Romanos traz o trecho "Eu, Tércio, que escrevi esta carta", indício de que foi redigida com a ajuda de Tércio.

De acordo com Moss, ele é comumente descrito como escriba, o que pode dar a impressão de que era um amigo ou alguém que havia desempenhado a tarefa de forma voluntária.
A historiadora lembra, porém, que escribas e secretários na Era Romana não eram profissionais de classe média, mas sim pessoas escravizadas ou ex-escravizadas que haviam sido libertas.

Moss destaca ainda que Tércio significa simplesmente "Terceiro", nome comum entre escravizados na época.

A Epístola aos Filipenses menciona Epafrodito. De acordo com Moss, o nome está relacionado à deusa do amor, Afrodite, e tem o significado de "belo", sendo comum entre escravizados na Antiguidade, período em que muitos meninos eram explorados sexualmente.

Outro exemplo é o Evangelho Segundo Marcos. A historiadora salienta que o autor é descrito como intérprete de Pedro e argumenta que há indícios de que Marcos era escravizado.

Moss afirma que, à medida que o Cristianismo passou a dominar o Império Romano, o status de escravizados dos primeiros cristãos foi apagado, e "muitos heróis das Escrituras foram promovidos a bispos".

Ela lamenta que as contribuições dos escravizados para o Novo Testamento e o florescimento do Cristianismo não sejam reconhecidas.

Como não há evidências diretas, a interpretação de Moss é baseada principalmente na leitura de textos religiosos e seculares e no que se sabe sobre a escravidão nesse período histórico, e o livro recebeu algumas críticas por usar muitas "conjecturas" e "especulação sobre o passado".

Mas ela salienta que foi "transparente sobre onde há evidências melhores ou piores" e garante que o argumento de que pessoas escravizadas colaboraram no Novo Testamento não é especulação.

"Gostaria que pensássemos de forma diferente sobre quem estamos lendo quando lemos a Bíblia", afirma.

"Não é apenas um livro de reis e bispos. É também uma coleção de livros produzidos por pessoas de diferentes setores da sociedade, que merecem visibilidade."

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, Moss falou sobre o papel dos escravizados na Antiguidade, como contribuíram para a Bíblia, as evidências que encontrou em sua pesquisa e a resposta aos críticos.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - O que se sabe sobre o papel de pessoas escravizadas em ajudar a redigir a Bíblia?

Candida Moss - Elas são coautoras do Novo Testamento, porque os textos que conhecemos como Novo Testamento, as Cartas de Paulo, os Evangelhos, foram ditados a pessoas escravizadas ou ex-escravizadas. E esse foi um processo muito ativo e colaborativo, elas tinham um grande trabalho.
Uma vez escrito um texto, ele seria copiado e corrigido por um escriba escravizado. Seria transportado a outro local por um mensageiro escravizado que era, para todos os efeitos, um missionário. E seria, então, lido em voz alta e interpretado para o público por pessoas escravizadas.
Você pode ver pessoas escravizadas e ex-escravizadas como parte fundamental da atividade missionária, da escrita e da interpretação bíblica no início do Cristianismo. Elas estão envolvidas em tudo isso.

BBC News Brasil - A senhora ressalta que os escravizados tinham um papel muito ativo nessa colaboração. De que maneiras eles contribuíram na edição e correção dos textos?

Moss - Era um trabalho muito ativo. Na Antiguidade, eles usavam taquigrafia, mas não era padronizada, era muito individual. Isso significa que quem fizesse a anotação seria a pessoa a expandir [as abreviações] e, ao fazer isso, estaria tomando decisões sobre como fazer o texto soar bem.
Secretários escravizados tinham alto grau de educação, especialmente se comparados aos apóstolos, que eram pescadores. Assim, era útil aos apóstolos ter pessoas instruídas que pudessem ajudar a melhorar o estilo, tornar a história mais cativante, esse tipo de coisa.
Então, devemos supor que os escravizados estão participando disso. E é importante, porque significa que eles não são apenas colaboradores, mas que sua visão de mundo, sua perspectiva, suas prioridades e sua genialidade, tudo isso também está presente nos textos.

BBC News Brasil - A senhora afirma que as pessoas escravizadas tinham alto grau de instrução, o que é diferente da escravidão atlântica, quando muitos escravizados eram impedidos de aprender a ler. Como era esse aspecto da escravidão na Era Romana?

Moss - Essa é uma das grandes diferenças entre a escravidão romana antiga e a escravidão atlântica. Na escravidão atlântica, os proprietários não queriam que seus trabalhadores escravizados aprendessem a ler e escrever precisamente porque isso lhes daria poder, então tomaram medidas ativas para evitar isso.
Mas com os romanos era diferente, por uma série de razões. Uma delas é que não tinham óculos.
Cerca de 40% da população atual teria dificuldade de ler e escrever se não tivesse óculos. Você pode imaginar como, na Antiguidade, ter trabalhadores escravizados que podiam ler e escrever melhor que você, simplesmente porque podiam enxergar melhor, era realmente importante.
E não era apenas deficiência visual, mas também problemas como artrite, gota [que dificultavam a escrita]. Se você escreve por um longo período de tempo, começa a doer. Essa é outra razão pela qual as pessoas não queriam fazer [essa tarefa].
E você adiciona a isso a falta de eletricidade. Grande parte da leitura era feita à noite. Então eles usavam trabalhadores escravizados, especialmente jovens, que tinham visão aguçada. Temos evidências deles falando sobre isso.
Na época da escravidão atlântica já existiam máquinas que podiam copiar textos, mas os romanos não tinham isso, então precisavam de pessoas. Não queriam fazer esse trabalho eles próprios, por isso usavam pessoas escravizadas e devidamente treinadas para produzir textos legíveis.

BBC News Brasil - Qual era a situação dos ex-escravizados que haviam sido libertos, muitos dos quais também atuavam como escribas e leitores?

Moss - Muitos continuavam morando nas casas de seus escravizadores e continuavam obrigados a eles. Caso sentissem que um liberto tinha sido ingrato, os romanos debatiam no Senado sobre sua reescravização. Em determinadas situações, os libertos poderiam ser executados.
Há passagens na literatura romana sobre como os libertos eram obrigados a fornecer serviços sexuais a seus ex-escravizadores, principalmente no caso das mulheres.
Certamente não era uma liberdade da forma como pensamos atualmente.

BBC News Brasil - Seu livro cita exemplos específicos que indicam a colaboração de escravizados e libertos na criação do Novo Testamento. Quais são alguns dos principais?

Moss - Sabemos que Paulo, que era um dos poucos autores cristãos da época com bom nível de instrução, estava ditando. E sabemos disso porque ele próprio nos diz.
Sabemos o nome do escriba que escreveu a Epístola aos Romanos, Tércio, que significa apenas “terceiro”, e é o nome [comum] de trabalhador escravizado.
Na Epístola aos Gálatas e na Primeira Epístola aos Coríntios, Paulo faz referência ao fato de estar escrevendo partes das cartas sozinho, o que sugere que outra pessoa escreveu o resto. Ele efetivamente diz que foi coautor de várias de suas cartas.
Em relação ao Evangelho Segundo Marcos, sabemos que Marcos era, na verdade, o secretário de Pedro. A tradição [cristã] mais antiga nos diz que ele era um intérprete para Pedro, e podemos supor que um intérprete [na época] seria uma pessoa escravizada.
Quando você olha para os dados, a maioria dos intérpretes era escravizada. Então, essa primeira camada da tradição [cristã] faz com que Marcos pareça ser um tipo de trabalhador escravizado.
Posteriormente, ele é [apresentado como] o primeiro bispo de Alexandria, mas não é isso que a tradição antiga diz.
Sabemos que todos os textos do Novo Testamento, quando copiados, teriam sido copiados por trabalhadores escravizados ou ex-escravizados. Esses eram textos muito longos, levavam muito tempo para serem copiados.
E quando você vê os nomes de alguns dos associados de Paulo, como Epafrodito ou Fortunato, esses são nomes [comuns] de trabalhadores escravizados.
Se você olhar para as evidências, se deixar de lado a tradição cristã e perguntar, dados seus nomes, dado o que estão fazendo, que tipo de pessoas eram eles, você dirá que eram escravizados. Essa seria a conclusão lógica.

BBC News Brasil - Além de contribuir para a redação da Bíblia, pessoas escravizadas também ajudaram a espalhar o Evangelho. Como era esse trabalho?

Moss - Para espalhar o Evangelho, ele precisava ser levado por alguém [a locais distantes]. Viagens eram perigosas na Antiguidade e, por isso, essa tarefa costumava ser atribuição de trabalhadores escravizados em quem se podia confiar para transmitir as cartas com precisão.
Eles tinham que descobrir como chegar ao destino. Quando chegavam, tinham que decidir quando se anunciar e entregar a mensagem. E, se estivessem em uma comunidade cristã, eram chamados a ler a mensagem em voz alta para o grupo.
Se você pensar nas Cartas de Paulo, ou nas cartas de outras figuras do início do Cristianismo, temos os nomes de alguns desses mensageiros, e são todos libertos ou trabalhadores escravizados.
Ao ler a mensagem em voz alta, o tom de voz e a ênfase, são muito importantes. Os gestos com as mãos, as expressões, tudo isso dependia da pessoa escravizada que estava interpretando o texto.
Naquele momento, eles se tornam a face do Evangelho. Eles são os intérpretes das escrituras.
Há várias evidências da Antiguidade tentando limitar a forma como os textos eram interpretados, porque havia preocupação com isso, com a influência da pessoa que faz a leitura.
[Esses mensageiros] também respondiam a perguntas. No caso das Cartas de Paulo, mesmo hoje em dia algumas pessoas têm dificuldade de entender.
Paulo dava instruções aos mensageiros sobre como ler e como explicar as cartas. Sabemos disso porque ele próprio nos diz.
Se você estivesse em uma igreja hoje, esses mensageiros seriam a pessoa que faz a homilia e, muitas vezes, o sermão. Porque são eles que estão fazendo a interpretação dos textos.

BBC News Brasil - Durante quanto tempo durou esse processo, em que pessoas escravizadas participaram ativamente da composição e da disseminação de textos bíblicos?

Moss - Estamos falando realmente dos primeiros 200 anos em que o Cristianismo estava se espalhando. Os anos críticos em termos de escrever, copiar e disseminar a mensagem. Todos os livros do Novo Testamento foram escritos nesse período.
Posteriormente, há um período em que se vê mais pessoas que são profissionais, mas que não são escravizadas, copiando os textos. E isso acontece por volta do século quarto. E então você vê o surgimento dos mosteiros, e a tarefa de copiar os textos se torna domínio dos monges.

BBC News Brasil - Seu livro recebeu algumas críticas por usar "muitas conjecturas" e "especulação sobre o passado". Como foi feita a sua pesquisa? E qual a sua resposta a essas críticas?
Moss - Em relação à minha pesquisa, fiz uma série de coisas. Porque é difícil, você está tentando contar as histórias de pessoas que foram deliberadamente apagadas da História.
É um desafio, mas não é sem precedentes. Estudiosos da História Atlântica já fizeram isso antes, e desenvolveram um método chamado fabulação crítica. Quando as pessoas dizem que estou sendo especulativa, o que querem dizer é que estou usando esse método.
Nesse método, sabemos que estamos tentando preencher lacunas e, portanto, sendo especulativos. Mas eu também diria que muitos estudos são especulativos sem reconhecer esse fato.
Não olhei apenas para o que os estudiosos da História Atlântica fazem, mas também para a história da ciência cognitiva, a história do trabalho [envolvido na escrita] de livros.

Analisei amostras do período medieval, do século 17, do século 20, e ficou claro que, quando se tem funcionários administrativos de baixo escalão, eles sempre alteram o texto.
Li muitos estudos médicos para ver o quão grave teria sido a perda de visão durante a Antiguidade. Observei esqueletos, [para] evidências de artrite. Li muitos relatórios arqueológicos.
Pesquisei materiais que me eram muito familiares, como papiros antigos que registravam como as pessoas escreviam. Vi exemplos de pessoas escrevendo sobre trabalhadores escravizados em textos.
Este é um livro escrito para todos, eu não queria que fosse muito técnico. Mas uma das coisas que fiz e que não tenho certeza se os críticos notaram foi criar um site com todos os recursos disponíveis, de forma gratuita, com links para as fontes primárias, para quem quiser ver as evidências.
Então acho que, quando as pessoas dizem que estou sendo especulativa, é porque sou muito transparente sobre onde há evidências melhores ou piores, e a maioria das pessoas não faz isso. A maioria apenas apresenta um argumento forte.
Em termos de especulação, eu estava dizendo coisas como: "Se sabemos que pessoas escravizadas trabalharam neste texto, e isso é um fato, que tipo de mudanças podemos imaginar que eles introduziram?"
E então eu procuraria, por exemplo, vocabulário que Paulo não usou em suas outras cartas, e o que isso poderia significar para trabalhadores escravizados [terem sido autores do texto].
Mas estava claro que eu estava dizendo "talvez tenha sido isso que aconteceu, porque não posso provar de uma forma nem de outra".
E eu diria que também não se pode provar que foi Paulo [que escreveu]. É apenas uma suposição. Dizer que Paulo escreveu a Epístola aos Romanos, quando o que [o texto] diz é que Tércio escreveu, não é apenas especulação, é errado.
Eu diria que Paulo e Tércio escreveram a Epístola aos Romanos, e que não podemos ter certeza [do tamanho] da contribuição de Tércio. Mas isso não significa que devemos apagar Tércio da história.

BBC News Brasil - O que a senhora espera que as pessoas levem da leitura de seu livro?

Moss - Gostaria que pensássemos de forma diferente sobre quem estamos lendo quando lemos a Bíblia.
Não é apenas um livro de reis e bispos. É também uma coleção de livros produzidos por pessoas de diferentes setores da sociedade, que merecem visibilidade.
E, se pensarmos nelas, vamos ler as escrituras de maneira diferente. Vamos perceber coisas que não havíamos notado.