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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Satanás e os Anjos

 


SATAN

Satanás é uma figura religiosa presente no judaísmo, cristianismo e islamismo, e semelhante a figuras encontradas no hinduísmo, budismo e outras religiões. Ele é geralmente retratado como um adversário maligno de Deus. Embora a palavra Satanás derive do termo hebraico para "acusador", Satanás não ocupa o mesmo lugar de destaque no judaísmo que no cristianismo.

Frequentemente retratado com pequenos chifres, cascos fendidos e um cavanhaque, Satanás é conhecido por diversos nomes, incluindo o Diabo, o Príncipe das Trevas, Diablo, o Pai da Mentira, Lúcifer (que significa "portador da luz"), Mefistófeles, Belzebu, Belial, Mastema e o Senhor da Mentira. Na Bíblia, ele é referido como o Maligno e o Príncipe do Mundo. Os muçulmanos o conhecem como Iblis ou Shaytan. Entre os vários espíritos que foram invocados por suas ordens estão demônios, deuses, ídolos, semideuses, anjos, duendes, fantasmas, goblins, diabinhos, fadas, faunos, gênios, ninfas e poltergeists.

Satanás é geralmente caracterizado como poderoso, mas nem de longe tão poderoso quanto Deus, o que levanta a questão: "Por que Deus simplesmente não o destrói?" e "Por que ele foi criado, afinal?". A resposta para isso, segundo alguns estudiosos, é mais uma questão literária do que teológica: ele é um recurso literário conveniente para personificar o mal.

Em uma pesquisa Gallup de 2007, cerca de 70% dos americanos disseram acreditar no Diabo. Uma pesquisa separada da YouGov, de 2013, constatou que mais protestantes do que católicos temem o Diabo. De acordo com uma pesquisa, 60% dos protestantes evangélicos americanos afirmam ter sido tentados pelo Diabo, enquanto apenas 26% dos católicos americanos disseram ter sido tentados. Mesmo assim, o Papa Francisco, de tendência progressista, falou sobre o Diabo e há rumores de que realizou um exorcismo público em maio de 2013.

História Antiga do Diabo

O conceito do diabo parece ter se originado com o Zoroastrismo, que teve origem na Pérsia. Os judeus estiveram sob domínio persa por dois séculos, a partir de 539 a.C. Sem dúvida, eles tiveram contato com o diabo zoroastriano Ahriman.

Os zoroastrianos consideram a existência do mal necessária e acreditam que os homens alcançam a bondade lutando contra ele. Eles também veem a vida como uma luta entre Ahura Mazda e o demônio Ahriman (Príncipe do Caos e das Trevas) e acreditam que o homem tem livre arbítrio para escolher entre Deus e o demônio, e que Ahura Mazda concedeu ao homem inteligência para travar essa luta, proporcionando-lhe a compreensão de que a vida boa às vezes é difícil, mas as consequências do mal são piores. O poder de Ahriman é quase igual ao de Ahura Mazda.

A batalha entre o bem e o mal também se expressa no conflito entre o espírito benevolente Spenta Mainyu e o espírito maligno Angra Mainyu, ambos descendentes de Ahura Mazda. Suas batalhas são, por vezes, vistas como metáforas da escolha entre a verdade e a mentira. Os seres humanos podem inclinar a balança a favor do bem praticando “bons pensamentos, boas palavras e boas ações”. A história do mundo é vista em termos de conflitos entre o bem e o mal que ocorrem ao longo de quatro períodos de 3000 anos. Nos dois primeiros, Deus e o diabo preparam suas forças. No terceiro, eles lutam entre si. No quarto, o diabo é derrotado.

Por volta de 200 a.C., Satanás começou a emergir como uma figura importante por direito próprio em algumas seitas judaicas. Foi durante esse período que ele se tornou o principal oponente de Deus e foi identificado com a serpente que tentou Eva e com o "Filho da manhã" ("Lúcifer") descrito pelo profeta Isaías. Os primeiros judeus acreditavam que, quando o Messias chegasse, ele derrotaria Satanás e inauguraria uma nova era para Deus e seus fiéis seguidores.

Candida Moss escreveu: "Um dos relatos mais influentes sobre a origem dos demônios vem de uma seção do livro apócrifo de 1 Enoque, conhecido como o Livro dos Vigilantes. O Dr. Archie Wright, autor de A Origem dos Espíritos Malignos e Satanás e o Problema do Mal, e professor visitante da Universidade Católica da América, me disse que 1 Enoque se baseia na história bíblica do dilúvio, que se refere a anjos que têm relações sexuais com seres humanos. “Em 1 Enoque, esses anjos caídos, ou Anjos Vigilantes Caídos, se rebelaram contra Deus e sua criação e geraram sua própria prole com mulheres humanas, que são chamadas de Gigantes.” O problema com os Gigantes é que eles comiam muito e, tendo esgotado suas fontes de proteína menos ofensivas, eventualmente voltaram seus olhos e apetites para os seres humanos. Como resultado, disse Wright, “Deus enviou o Dilúvio para destruir os Gigantes, mas eles foram destruídos apenas fisicamente; seus espíritos sobreviveram e são identificados como espíritos malignos ou demônios.”

Os Anjos Caídos, pais dos Gigantes agora desencarnados, foram aprisionados por Deus em um Poço ou Abismo (uma espécie de versão em pequena escala do inferno). Eles só serão libertados no fim dos tempos. Quanto aos demônios, eles continuaram a vagar pela Terra, atormentando os seres humanos sob uma nova forma. De acordo com o Livro dos Jubileus do século II a.C., disse Wright, 90% dos espíritos malignos foram aprisionados com seus pais, enquanto 10% estavam livres para trabalhar com uma figura misteriosa chamada Mastema, um indivíduo posteriormente identificado com o diabo. Este Mastema, no entanto, age de maneira muito semelhante ao Satanás de Jó: ele testa a humanidade com a ajuda de espíritos malignos, mas ele “não é um ser autônomo”.

Satanás na Bíblia

Há poucas menções ao diabo nos primeiros livros do Antigo Testamento. A serpente no Jardim do Éden foi posteriormente identificada com o diabo, mas, conforme descrito em Gênesis, ele é apenas uma serpente. Quando aparece nos livros posteriores, assume nomes diferentes. Ele surge também em Números, mas como um personagem secundário na corte celestial. Satanás aparece pela primeira vez como um personagem real no Livro de Jó, onde é um membro dos anjos de Deus que percorriam o mundo testando a fé do povo escolhido. Aqui, ele é uma figura jurídica e um adversário que desafia Deus para uma aposta sobre a retidão de Jó. Satanás não é mau, ele é apenas um advogado. Em Samuel, o diabo "incitou Davi". Na maior parte do tempo, ele é uma figura menor.

No Novo Testamento, Satanás é mencionado diversas vezes, mas os detalhes sobre sua personalidade e história são vagos. Nos Evangelhos, Satanás é retratado como um adversário de Jesus, que foi tentado pelo diabo em várias ocasiões. O diabo testou Jesus de três maneiras durante seu jejum de 40 dias e 40 noites. Primeiro, pediu a um Jesus faminto que usasse seus poderes para fazer pão a partir de pedras. Segundo, disse-lhe para ganhar fama atirando-se do telhado do Templo e invocando anjos para salvá-lo. Terceiro, levou Jesus a um lugar alto e prometeu-lhe todas as coisas.

No terceiro teste, uma passagem do capítulo 4 do Evangelho de Mateus explica: “O diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor, e disse-lhe: ‘Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares’”. Jesus recusou, dizendo: “Afasta-te, Satanás! Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele servirás’”. O Monte da Tentação (perto de Jericó) é o local tradicional onde se diz que este evento ocorreu.

Candida Moss escreveu: "No Antigo Testamento, os leitores de Gênesis não encontrarão nem maçãs nem Satanás no Jardim do Éden. A serpente falastrona só foi identificada como o Diabo séculos depois. Os demônios são figuras mais frequentes no Novo Testamento. Enquanto os antigos gregos e romanos consideravam os demônios entidades sobrenaturais ambíguas, aqueles que aparecem nos Evangelhos são antagônicos. Eles possuem os corpos de infelizes habitantes do Mediterrâneo antigo, se opõem a Jesus e seus seguidores, atiram um rebanho de costeletas de porco de um penhasco e se preparam para um confronto no fim do mundo.

Satanás nos primórdios do cristianismo

Nossa definição de Satanás foi elaborada nos primórdios da Igreja Cristã, muito tempo depois da morte de Jesus e da escrita dos Evangelhos, por pensadores e teólogos cristãos primitivos. Após quatro séculos de debate, eles definiram Satanás como um antigo anjo — alguns diziam o primeiro anjo e líder de todos os anjos — que liderou uma rebelião no céu e foi lançado ao inferno.

Segundo alguns relatos, Satanás liderou a rebelião por inveja ou orgulho, e ela ocorreu antes da criação de Adão, sendo Satanás considerado o responsável por levar a humanidade ao pecado. No Apocalipse e em outras passagens do Novo Testamento, ele é retratado como alguém que exerce domínio sobre a humanidade até o Fim do Mundo, quando será derrotado por Cristo em sua segunda vinda e ele e outros pecadores serão condenados ao sofrimento eterno.

Muitos dos monges do início da era cristã que foram para o deserto viver em solidão estavam emulando o confronto de Cristo com o diabo durante a Tentação. Aqueles que relataram seus encontros com Satanás frequentemente o descreviam como um leão, uma serpente, um lobo ou algum outro animal desprezado pela humanidade.

Satanás na Idade Média e no Renascimento

Nossa imagem de Satanás foi moldada principalmente pela literatura e arte da Idade Média e do Renascimento. A primeira representação conhecida do Diabo como uma criatura distinta apareceu em um manuscrito do século IX chamado "Saltério de Utrecht". Ele é retratado como um homem seminú segurando um forcado.

No século X, Satanás era uma figura notória na Europa medieval. Ele era retratado em manuscritos, tapeçarias e pinturas; esculpido nas fachadas das igrejas e descrito vividamente em livros e textos religiosos. Aparecia em diversas formas, frequentemente com pernas peludas e cascos fendidos, derivados do deus grego Pã, um tridente anteriormente associado ao deus romano Netuno e uma cabeça de animal como a do deus egípcio Anúbis.

Cristãos temerosos acreditavam que Satanás espreitava em todos os lugares e era a fonte de inúmeras doenças e dificuldades. Acreditavam que ele esperava que as pessoas baixassem a guarda para então atacá-las. Uma das razões pelas quais as pessoas ainda hoje dizem "Saúde!" depois que alguém espirra é que, na Idade Média, acreditava-se que o diabo esperava fora do corpo das pessoas e usava os espirros como uma oportunidade para entrar.

Satanás geralmente recebe um destaque maior no protestantismo calvinista do que no catolicismo. Os protestantes tendem a atribuir a Satanás características como orgulho, luxúria e inveja. "Paraíso Perdido", de Milton, ajudou a moldar a imagem do diabo na mente dos falantes de inglês. Ele não é apenas maligno, mas também charmoso, astuto, autoconfiante, orgulhoso e independente. Em quase qualquer outro contexto, ele seria um herói.

Uma história medieval popular narra a suposta experiência de Teófilo da Cilícia, uma figura eclesiástica do século VI que fez um pacto com o diabo para trocar sua alma por uma posição poderosa e lucrativa na Igreja. Quando o diabo apareceu e exigiu o pagamento, a Virgem Maria interveio em favor de Teófilo, descendo ao inferno e o resgatando do diabo, garantindo diante de Deus que ele havia se arrependido. A história ajudou a elevar o status de Maria e serviu de inspiração para "Doutor Fausto", de Marlowe, e "Fausto", de Goethe, cujo diabo espirituoso e falastrão, Mefistófeles, também moldou nosso conceito moderno de Satanás.

Gravidezes satânicas

Sobre a questão do que exatamente é uma gravidez satânica, Candida Moss escreveu: "Para os apreciadores de filmes de terror, essa pergunta é bem fácil de responder. É um elemento básico do gênero; de Damian, de A Profecia, a O Bebê de Rosemary, a ideia de que Satanás pode procriar com mulheres humanas por meio de relações sexuais está bem estabelecida. Isso não é apenas coisa de filme. A Igreja Católica Romana ensina em seu curso anual de exorcismo em Roma que as pessoas podem ser possuídas no útero e que a possessão transgeracional é um fenômeno real. Teoricamente, é possível, portanto, que uma criança seja possuída por um demônio, mesmo que o ensinamento católico recomende um exorcismo em vez da interrupção da gravidez.

Historicamente, houve vários casos em que pessoas — seja a própria mãe ou pessoas próximas a ela — atribuíram uma gravidez específica à natureza satânica. Um dos exemplos mais famosos ocorreu na França do século XVII, quando um padre atraente e carismático chamado Urbain Grandier tornou-se pároco na cidade de Loudun. Segundo relatos, Grandier era um conquistador que frequentemente desrespeitava seus votos de celibato. Uma freira, a Madre Superiora Jeanne des Anges (“Joana dos Anjos”), afirmou ter sido seduzida por Grandier, que na verdade era um demônio. A sedução teria sido possível porque ele fingia ser um anjo e aparecia para ela como um ser radiante. Jeanne alegou que Grandier, o Anjo-Padre-Demônio, a havia engravidado, e suas acusações logo foram corroboradas por alegações semelhantes de conduta sexual imprópria por outras freiras ursulinas.

Um pacto supostamente assinado entre Grandier e o diabo foi apresentado como prova no julgamento. Era uma verdadeira lista de figuras importantes do mundo demoníaco: além de Grandier, outros signatários incluíam Satanás, Leviatã (uma criatura marinha primordial mencionada na Bíblia) e Astarote (o chamado Grande Duque do Inferno, que ensina matemática aos seus acólitos). Após uma longa investigação conduzida principalmente por meio de tortura, o Padre Grandier foi queimado na fogueira. Quanto à gravidez de Jeanne, após um longo período de convulsões, línguas estranhas e angústia, ela simplesmente desapareceu. Analistas posteriores diagnosticaram sua condição como uma gravidez psicossomática e muitos especularam que ela era simplesmente obcecada por Grandier desde o início. Tudo isso demonstra que existe, sim, algo como beleza em excesso.

Um segundo exemplo nos vem do século XVIII em Nova Jersey. Em 1735, a inglesa Deborah Leeds engravidou de seu décimo terceiro filho. Ela havia emigrado para Pine Barrens, Nova Jersey, no início do século, para viver com seu marido, Japhet. Existem vários relatos ligeiramente conflitantes sobre a origem demoníaca da criança. Em alguns, a Sra. Leeds invocou o diabo ao dar à luz; em outros, ela previu e até mesmo convidou a paternidade demoníaca por estar infeliz com a perspectiva de ter outro filho; e em outro, a criança foi amaldiçoada por um pastor local. 

De qualquer forma, a versão mais popular do nascimento afirma que a criança nasceu um "monstro" e que a Sra. Leeds cuidou dela até sua morte, momento em que a criança voou para os pântanos de Nova Jersey. Nos 200 anos seguintes, o filho de Deborah Leeds se tornou uma figura icônica: o Diabo de Nova Jersey. Houve inúmeros avistamentos do "Diabo de Jersey" em áreas florestais e, em 1890, um pescador afirmou ter visto a cria do diabo cantando para uma sereia (essas criaturas míticas realmente precisam se manter unidas). 

Parece provável que o "Diabo de Jersey" original fosse simplesmente uma criança com deficiência cuja condição foi injustamente interpretada pelos moradores locais como "demoníaca". Se essa análise estiver correta e "criança do diabo" for apenas uma expressão para "nascimento atípico", é preciso questionar se "voou para os pântanos" não seria um eufemismo para "assassinado por familiares ou moradores locais". De qualquer forma, essa criança foi imortalizada na lenda local e como o mascote de aparência amigável do time de hóquei no gelo New Jersey Devils, da NHL.

Crianças Satânicas

Candida Moss escreveu: "Algumas histórias medievais articulam a ideia de que, nas mãos erradas, uma criança pode se tornar demoníaca imediatamente após o nascimento. O texto de 1487, Malleus Maleficarum (ou “Martelo das Bruxas”), do acadêmico, padre e caçador de bruxas alsaciano Heinrich Kramer, conta uma história em que um marido espionou sua esposa e filha dedicando seu filho recém-nascido a Satanás. Imediatamente após o ritual, ele observou o bebê subindo por uma corrente usada para segurar panelas e soube que algo estava errado. Segundo Kramer, as bruxas não apenas sacrificavam bebês, como também os transformavam em atletas prodigiosos.

Não são apenas as mulheres que podem se envolver com prole demoníaca. Tanto o folclore judaico quanto o cristão medieval contêm histórias de súcubos, belas mulheres que seduziam homens à noite. Em alguns casos, os súcubos usavam o sêmen roubado de homens para engravidar mulheres. Seus descendentes, conhecidos como cambions, supostamente nasciam deformados. A vítima mais famosa de um suposto súcubo foi o Papa Silvestre II (946-1003). 

Segundo uma lenda um tanto difamatória do século XII, esse sacerdote francês teve um relacionamento de longa data com uma súcubo chamada Meridiana, que conheceu após aprender artes ocultas em um livro árabe que encontrou na Espanha. Em algumas versões da história, os dois eram apaixonados e, além de ajudá-lo a se tornar papa, Meridiana tentava protegê-lo de danos físicos. A única biografia contemporânea do Papa Silvestre II associa suas conquistas a poderes divinos, mas mesmo assim Meridiana e Silvestre II têm muitos seguidores online.

Bebês satânicos não são apenas coisa do passado. Uma série de eventos horríveis revela como ideias sobre o demoníaco continuam a influenciar o mundo. Em setembro de 2017, uma mulher de Pittsburgh esfaqueou seu filho de 8 dias até a morte porque ele foi criado “pelo diabo”. Uma mulher de Tampa afogou seu bebê de 5 semanas alegando que sabia que ele era o diabo depois que ele começou a falar com ela. Esses exemplos mais recentes chamam a atenção para os trágicos mal-entendidos e preconceitos que estão na base do fenômeno da prole demoníaca. 

A realidade histórica é que, na maioria desses casos, ou a mãe sofre de doença mental ou o assassinato de uma pessoa com deficiência é justificado sob o pretexto de que a criança é “demoníaca”. Em alguns casos, como o incêndio do Grandier, animosidade pessoal e ciúme podem levar a acusações infundadas.

Em sua defesa da recente declaração, White respondeu que seu comentário havia sido “tirado de contexto” e explicou que estava “orando com base em Efésios 6:12, para que nossa luta não seja contra carne e sangue, mas contra tudo o que foi concebido por planos demoníacos, para que seja anulado e não prevaleça em nossas vidas”. Ela afirma que estava falando figurativamente e não queria dizer que bebês são literalmente concebidos pelo diabo, como no caso do Bebê de Rosemary. (Curiosidade: Efésios 6:12 não menciona planos demoníacos). 

Mas White quis dizer que todos nós estamos envolvidos em uma batalha espiritual literal contra agentes de Satanás. O lugar onde essa luta se desenrola na América do século XXI é na arena política. E assim como a lógica dos “bebês satânicos” justifica a rejeição de crianças que não têm a aparência que “deveriam” ter, a lógica de uma guerra cósmica entre o bem e o mal justifica a rejeição daqueles que não têm a aparência ou não acreditam nas coisas que alguns cristãos acham que deveriam. As declarações de White podem ser menos excêntricas do que se anuncia, mas não são menos assustadoras.

Contos do Diabo

“O Diabo Confessou Ter Possuído Uma Mulher Porque Ela Lhe Foi Entregue pelo Marido”, por César de Heisterbacb, século XIII: Quando nosso abade celebrava missa no ano passado no Monte do Santíssimo Salvador, perto de Aachen, uma mulher possuída foi trazida a ele após a missa. Quando ele leu a passagem do Evangelho sobre a Ascensão sobre a cabeça dela e, ao ouvir as palavras “Imporão as mãos sobre os enfermos e estes ficarão curados”, colocou a mão sobre a cabeça dela, o demônio soltou um rugido tão terrível que todos ficamos aterrorizados. 

Conjurado a partir, ele respondeu: “O Altíssimo ainda não o quer”. Quando lhe perguntaram como havia entrado, ele não respondeu, nem permitiu que a mulher respondesse. Depois, ela confessou que, quando seu marido, enfurecido, disse: “Vai para o diabo!”, ela sentiu este entrar por sua orelha. Além disso, aquela mulher era da província de Aachen e muito conhecida. 

Em “Sobre Gerard, um Cavaleiro que o Diabo Levou num Momento da Igreja de São Tomé na Índia para Sua Pátria”, César de Heisterbach escreveu: “Numa aldeia chamada Holenbach vivia um certo cavaleiro chamado Gerard. Seus netos ainda vivem, e dificilmente se encontra um homem naquela aldeia que não conheça o milagre que tenho o prazer de contar sobre ele. Ele amava São Tomé Apóstolo tão ardentemente e o honrava tão especialmente acima dos outros santos que nunca negou esmola a nenhum pobre que lhe pedisse em nome daquele. Além disso, costumava oferecer ao santo muitos serviços particulares, como orações, jejuns e a celebração de missas. 

Certo dia, com a permissão de Deus, o diabo, inimigo de todos os homens bons, batendo à porta do cavaleiro, disfarçado de peregrino, pediu hospitalidade em nome de São Tomé. Foi recebido com toda a pressa e, como fazia frio e ele fingiu estar resfriado, Gerard lhe deu sua própria capa de pele, que não estava muito gasta, para que se cobrisse ao deitar. Quando, na manhã seguinte, aquele que fingira ser um peregrino não apareceu, e a capa foi procurada e não encontrada, sua esposa, furiosa, disse ao cavaleiro: "Você já foi enganado tantas vezes por andarilhos desse tipo e ainda assim persiste em suas superstições!" Mas ele respondeu calmamente: "Não se preocupe, São Tomé certamente compensará essa perda." O diabo fez isso para provocar a impaciência do cavaleiro por causa da perda de sua capa e para extinguir em seu coração o amor pelo Apóstolo. 

Mas o que o diabo havia preparado para sua destruição acabou redundando em glória para o cavaleiro; Com isso, este último foi incitado com mais força, enquanto o primeiro ficou confuso e punido. Pois, depois de algum tempo, Gerard quis ir à morada de São Tomás, e quando estava pronto para partir, quebrou um anel de ouro em dois pedaços diante dos olhos de sua esposa, e juntando-os na presença dela, deu-lhe um pedaço e ficou com o outro, dizendo: "Você deve confiar neste sinal. Além disso, peço que espere cinco anos pelo meu retorno, e depois disso poderá se casar com quem quiser." E ela prometeu.

“Ele empreendeu uma longa jornada e, finalmente, com grande custo e muito esforço, chegou à cidade de São Tomé Apóstolo. Lá, foi saudado com a maior cortesia pelos cidadãos e recebido com tanta gentileza como se fosse um deles e por todos fosse conhecido. Atribuindo essa gentileza ao bem-aventurado Apóstolo, entrou no oratório e orou, recomendando a si mesmo, sua esposa e todos os seus bens ao santo. Depois disso, lembrando-se do prazo estipulado e pensando que os cinco anos terminavam naquele mesmo dia, lamentou e disse: 'Ai de mim! Minha esposa agora se casará com outro homem.' Deus havia retardado sua jornada por causa do que estava por vir.”

“Quando olhou em volta, triste, viu o demônio mencionado anteriormente caminhando com sua capa. E o demônio disse: 'Você me conhece, Gerard?' Ele respondeu: 'Não, não o conheço, mas conheço sua capa.' O demônio replicou: 'Sou aquele que buscou sua hospitalidade em nome do Apóstolo; e tomei sua capa, pelo que fui severamente punido.' E acrescentou: 'Sou o diabo, e recebi ordens para levá-lo de volta para sua casa antes do anoitecer, porque sua esposa se casou com outro homem e agora está sentada com ele no banquete de casamento.' Levando-o consigo, o diabo atravessou em pouco tempo da Índia para a Alemanha, do leste para o oeste, e ao entardecer o colocou em sua própria casa sem lhe causar nenhum dano.”

“Entrando na própria casa como um estranho, ao ver sua esposa jantando com o esposo, aproximou-se e, à vista dela, tirou metade do anel e o enviou a ela em uma taça. Ao vê-lo, ela imediatamente o tirou e, juntando-o à parte que lhe fora dada, reconheceu-o como seu marido. Imediatamente, levantou-se de um salto e correu para abraçá-lo, proclamando que ele era seu marido Gerard e despedindo-se do esposo. Contudo, por cortesia, Gerard o manteve consigo naquela noite. Neste milagre, assim como no anterior, fica evidente o quanto os bem-aventurados Apóstolos amam e glorificam aqueles que os amam.”

Dois hereges realizaram milagres com a ajuda do diabo

César de Heisterbach escreveu: “Dois homens vestidos com simplicidade, mas não sem astúcia, não ovelhas, mas lobos vorazes, chegaram a Besançon, fingindo a maior piedade. Além disso, eram pálidos e magros, andavam descalços e jejuavam diariamente, não perdiam uma única noite as matinas na catedral, nem aceitavam nada de ninguém, exceto um pouco de comida. Quando, com tal hipocrisia, atraíram a atenção de todos, começaram a vomitar seu veneno oculto e a pregar aos ignorantes novas e desconhecidas heresias. Para que o povo acreditasse em seus ensinamentos, ordenaram que peneirassem farinha na calçada e caminharam sobre ela sem deixar rastro. Da mesma forma, ao caminhar sobre a água, não podiam ser afogados; também, mandaram queimar pequenas cabanas sobre suas cabeças e, depois que estas foram reduzidas a cinzas, saíram ilesos. Depois disso, disseram ao povo: 'Se vocês não acreditam em nossas palavras, acreditem em nossos milagres."

“O bispo e o clero, ao ouvirem isso, ficaram muito perturbados. E quando quiseram resistir àqueles homens, afirmando que eram hereges, enganadores e ministros do diabo, escaparam com dificuldade de serem apedrejados pelo povo. Ora, aquele bispo era um homem bom e instruído, natural da nossa província. Nosso monge idoso, Conrado, que me contou esses fatos e que estava naquela cidade na época, o conhecia bem.”

Vendo que suas palavras eram inúteis e que o povo confiado aos seus cuidados estava sendo desviado da fé pelos agentes do diabo, o bispo convocou um certo clérigo que conhecia, muito versado em necromancia, e disse: "Certos homens em minha cidade estão fazendo isso e aquilo. Peço-te que descubras com o diabo, por meio de tua arte, quem são eles, de onde vêm e por quais meios tantos e tão maravilhosos milagres são realizados. Pois é impossível que façam maravilhas por inspiração divina quando seus ensinamentos são tão contrários aos de Deus." O clérigo disse: "Meu senhor, há muito renunciei a essa arte." O bispo respondeu: "Vês claramente em que situação me encontro. Devo ou ceder aos seus ensinamentos ou serei apedrejado pelo povo. Portanto, ordeno-te, para a remissão de teus pecados, que me obedeças neste assunto."

O escrivão, obedecendo ao bispo, chamou o diabo, e quando lhe perguntaram por que o havia chamado, respondeu: "Lamento tê-lo abandonado. E porque desejo ser-lhe mais obediente no futuro do que no passado, peço-lhe que me diga quem são esses homens, o que ensinam e por quais meios realizam milagres tão grandes." O diabo respondeu: "Eles são meus e foram enviados por mim, e pregam o que coloquei em suas bocas." O escrivão perguntou: "Como é que não podem ser feridos, ou afundados na água, ou queimados pelo fogo?" O demônio respondeu novamente: "Eles têm sob as axilas, costurados entre a pele e a carne, os meus pactos, nos quais está escrita a homenagem que me prestam; E, em virtude disso, eles realizam tais milagres e não podem ser feridos por ninguém." Então o escrivão perguntou: "E se isso lhes fosse tirado?" O demônio respondeu: "Então eles ficariam fracos, como qualquer outro homem." O escrivão, tendo ouvido isso, agradeceu ao demônio, dizendo: "Agora vá, e quando eu o chamar, volte."

“Ele foi até o bispo e relatou-lhe essas coisas em ordem. Este, cheio de grande alegria, convocou todo o povo da cidade para um lugar apropriado e disse: 'Eu sou o vosso pastor, vós sois as minhas ovelhas. Se esses homens, como dizeis, confirmarem os seus ensinamentos por meio de sinais, eu os seguirei convosco.'” Caso contrário, é justo que sejam punidos e que vocês, arrependidos, retornem à fé de seus pais comigo." O povo respondeu: "Temos visto muitos sinais da parte deles." O bispo respondeu: "Mas eu não os vi." Por que prolongar minhas palavras? O plano agradou ao povo. Os hereges foram convocados. Um fogo foi aceso no meio da cidade. Contudo, antes que os hereges entrassem, foram secretamente chamados à presença do bispo. Ele lhes disse: "Quero ver se vocês têm algum mal em si." Ao ouvirem isso, despiram-se rapidamente e disseram com grande confiança: "Revistem nossos corpos e nossas vestes cuidadosamente." Os soldados, seguindo as instruções do bispo, ergueram os braços e, percebendo algumas cicatrizes cicatrizadas sob as axilas, abriram-nas com suas facas e extraíram os pequenos pergaminhos que ali haviam sido costurados.

“Tendo recebido esses documentos, o bispo saiu com os hereges em direção ao povo e, após ordenar silêncio, bradou em alta voz: 'Agora, vossos profetas entrarão no fogo, e se não forem feridos, eu crerei neles.' Os miseráveis ​​tremeram e disseram: 'Não podemos entrar agora.' Então, o bispo contou ao povo sobre o mal que havia sido descoberto e mostrou os pactos. Então, todos furiosos lançaram os ministros do diabo no fogo que havia sido preparado, para serem torturados com o diabo em chamas eternas. E assim, pela graça de Deus e pelo zelo do bispo, a heresia crescente foi extinta e o povo que havia sido seduzido e corrompido foi purificado pela penitência.”

Música e o Diabo

Certos feitos musicais foram atribuídos ao Diabo. Ele não só adora cantar, como também é mestre do violino. Alguns dizem que ele inventou o instrumento e prometeu dominá-lo, trocando a habilidade pela alma do aluno. Essas lendas estão relacionadas à crença mais ampla na origem sobrenatural da habilidade musical e das canções individuais." 

De acordo com um relatório publicado em piney.com, “O Movimento de Restauração Americano teve duas vertentes. A primeira foi o Movimento de Pedra. Este movimento dependia de uma manifestação direta do 'espírito santo', comprovada por alguma forma de colapso histérico. Tratava-se de uma forma estudada e calculada de grandes reuniões, utilizando toda a maquinaria dos despertares espirituais, que são muito semelhantes à bruxaria ou ao culto ao diabo. Essa parte dos revivalistas musicais ou carismáticos ainda recorre aos profetas carismáticos como autoridade para profecias nas assembleias de 'adoração' modernas. Uma autoridade importante é:

Charles Daily, do Northwest College of the Bible, Parte Um, apela para profetas carismáticos como autoridade para a música no culto público. A Parte Um não apresenta exceção: a "profecia" das "Mulheres Poetas" era "a Lei" à qual Paulo recorreu para mostrar que as mulheres deveriam permanecer em silêncio, ou seja, sedentárias. Os "homens" jamais seriam pegos se soubessem o significado da performance musical no culto. Parte Dois: Profetisas carismáticas (Paulo diria que eram loucas). Parte Três: Os "Músicos" do Templo. 

Qualquer cantor ou instrumentista que entrasse no Lugar Santo como um tipo "não funcional" do corpo ou igreja de Cristo seria executado, mesmo que sua intenção fosse limpar o lixo. As pessoas continuam ralando os joelhos em busca de autoridade para o sectarismo musical: ela não existe. Toda essa performance de "adoração" é threskia ou carismática, que faz um apelo sexual às pessoas, o que impede completamente a adoração no novo lugar do espírito humano.

Embora a origem denominacional desse movimento revivalista fosse composta por presbiterianos que não conseguiam receber o sinal de que haviam sido predestinados à salvação, vivendo, portanto, em constante temor mortal, Barton W. Stone buscou produzir esses sinais estudando um metodista bem-sucedido. Os avivamentos em Caneridge, no Kentucky, continham todos os ingredientes para "manipular as mentes" daqueles que não tinham conhecimento bíblico. O resultado foi bastante semelhante à adoração ao diabo no Iraque antigo e, em certa medida, moderno. Esses também se consideram cristãos, mas suas práticas são claramente adoração ao diabo. Sem questionar a capacidade de manipulação dos líderes do Movimento Stone, o resultado claramente não é um movimento cristão.

O diabo em ação no mundo moderno

Segundo a tradição cristã, Satanás é um espírito puro criado por Deus com livre-arbítrio. Ele escolheu dedicar sua atenção a tentar e explorar a humanidade. Geralmente é caracterizado como um ser de grande inteligência, mentiroso e sedutor. Nietzsche observou que o cristianismo popularizou o diabo. Ao longo dos anos, Satanás tem sido usado por diversos escritores como recurso literário e hoje é figura constante no cinema. Às vezes, ele é charmoso, mas assustadoramente maligno. Outras vezes, é um tanto caricato. Embora os católicos rezem uma vez por ano para renunciar a Satanás, dar muita ênfase ao diabo é desencorajado. A Igreja Católica ensina que o Diabo é real e que espíritos malignos existem. Nos últimos anos, teólogos têm minimizado a influência de Satanás e optado por explicações psicológicas e psiquiátricas para comportamentos anormais.

Candida Moss escreveu: "Acreditar no diabo não é necessariamente condenável, mas identificar qualquer indivíduo ou grupo com Satanás pode muito bem ser. Como David Frankfurter demonstrou em seu livro "Evil Incarnate" (O Mal Encarnado), a acusação de conspiração demoníaca é uma das formas mais potentes de calúnia contra os cristãos. É uma forma de ataque regularmente dirigida aos judeus e, historicamente, usada para justificar todo tipo de violência contra eles.

Num esforço para se manterem um passo à frente do demônio, padres se reúnem anualmente no Instituto Pontifício Ateneo, em Roma, para trocar experiências e aprender as estratégias mais modernas em guerra espiritual. A procura por esses cursos aumenta a cada ano, e dioceses católicas nos EUA relatam um aumento significativo nos pedidos de exorcismo por parte de seus fiéis. 

O curso ensina que a influência diabólica no mundo se divide em dois tipos básicos. O primeiro é o comum. A tentação de comer um segundo pedaço de bolo, de um par de sapatos Jimmy Choo com um pequeno desconto ou daquela estagiária animada que realmente te entende? Isso é Satanás. Mas o segundo tipo, as maquinações “extraordinárias” do diabo, nos mergulham profundamente no sobrenatural. Numa escala que vai do pior ao mais grave, do comum ao raro, o Diabo pode possuir lugares e objetos, causar doenças ou criar “problemas” na vida de uma pessoa. Uma pessoa pode ficar “obcecada”, ou seja, atormentada por sentimentos de inutilidade ou pensamentos suicidas. Pior ainda, uma pessoa pode ser possuída por um demônio ou pelo próprio Diabo, ao estilo do Exorcista.

Pouquíssimas pessoas fazem pactos faustianos com o Diabo. Afinal, trocar sessenta anos de poder e fama por uma eternidade no inferno é um péssimo investimento. Como, então, uma pessoa permite que o Diabo entre em sua vida? Segundo os exorcistas, comportamentos de risco incluem: ceder à tentação em geral, usar drogas, ouvir heavy metal, ler livros sobre bruxos adolescentes, assistir pornografia, consultar horóscopos e praticar ioga.

O problema é que você pode não saber que está possuído. Um exorcista relatou uma anedota sobre o exorcismo de um homem de 40 anos. Sem que ele soubesse, o paciente estava possuído desde o útero materno. Os únicos sintomas de sua condição eram dúvidas sobre Deus e uma obsessão por "autogratificação". Isso pode ser mais comum do que se imagina.

Anjos

Os anjos são mensageiros entre Deus no céu e a humanidade na Terra. Eles frequentemente aparecem em eventos importantes da Bíblia. Entregaram mensagens a Abraão no Antigo Testamento, a Maria no Novo Testamento e a Maomé no Alcorão. A palavra "anjo" deriva do grego e significa "embaixador" ou "mensageiro".

Nos Evangelhos, um anjo anuncia a Maria que ela engravidará e dará à luz Jesus; “uma grande multidão dos exércitos celestiais” canta louvores a Deus no nascimento de Jesus. Após a tentação no deserto, “anjos o protegeram” e “um anjo... do céu” o consolou em seu momento de agonia em Getsêmani. Na manhã de Páscoa, dois anjos anunciam a notícia de que Jesus ressuscitou.

Anjos e santos são frequentemente representados com uma auréola ao redor da cabeça, simbolizando a santidade de Deus que irradia deles. A ideia da auréola não se originou com o cristianismo. Deuses e espíritos na arte hindu, indiana, grega e romana antiga às vezes tinham luz irradiando de suas cabeças.

Candida Moss escreveu: "Na Bíblia, os anjos são, em sua maioria, mensageiros; a própria palavra significa "mensageiro". Como intermediários de Deus, eles guiam videntes justos como Daniel em visitas ao céu, entregam mensagens aos escolhidos de Deus e cantam louvores eternos a Ele. Existem muitos tipos de anjos, desde os familiares (anjos, arcanjos, querubins) até os estranhamente inanimados (São Paulo fala vagamente sobre "tronos, principados e potestades", o que soa muito como mobília celestial).

Anjos Violentos

Candida Moss escreveu: "O primeiro anjo mencionado na Bíblia é o anjo que guarda a entrada do Jardim do Éden com uma espada flamejante que gira incessantemente. Anjos da guarda estão na Bíblia, mas não estão lá para nos proteger. A história do Éden não é um caso isolado. O Anjo do Senhor está sempre armado. Na maioria das vezes, se um anjo aparece em um evento na Bíblia Hebraica, é para prejudicar alguém. Em uma ocasião, durante o reinado do Rei Davi, quando o Anjo do Senhor estava prestes a destruir Jerusalém, Deus teve que ordenar que ele guardasse sua espada. Isso é fichinha para os Arcanjos. Eles lideram exércitos em batalha e estão em treinamento para o confronto final no Armagedom. 

Serafins são grandes serpentes de seis asas que voam. Querubins não são bebês bem alimentados, são leões alados. Certamente não são o tipo de criatura que você gostaria de ter vigiando seu sono. E esses são os bons anjos. Alguns seres sobrenaturais são menos obedientes que outros. Em Gênesis, aprendemos que os “filhos de Deus” perceberam o quão atraentes eram as mulheres humanas e as tomaram como esposas. Interpretações judaicas posteriores chamaram esses seres angelicais de “Vigilantes” e os culparam por ensinar à humanidade os males da tecnologia. Deus ficou tão irado com a maldade resultante que enviou o dilúvio para exterminar quase todos. Talvez as serpentes aladas não fossem tão más assim, afinal.

Quando chegamos ao Novo Testamento, os anjos já se estabeleceram em seus papéis de mensageiros e seguranças celestiais. Eles têm aparência humana. Os dois jovens que conversam com os discípulos no túmulo vazio de Jesus só podem ser identificados como anjos por suas vestes brancas deslumbrantes. Mesmo assim, eles ainda podem ser um pouco irritadiços. O anjo Gabriel, o melhor ator coadjuvante das peças de Natal modernas, está menos sereno quando anuncia o nascimento de João Batista a Zacarias. Quando Zacarias protesta dizendo que ele já está ficando velho, Gabriel responde: “Eu sou Gabriel. Estou na presença de Deus e fui enviado para falar com você e trazer-lhe estas boas novas. Mas agora, porque você não acreditou nas minhas palavras… você ficará mudo, incapaz de falar, até o dia em que estas coisas acontecerem”. É assim que ele entrega as boas novas. Como escreveu o poeta Rilke: “Todo anjo é terror”.

Nos mil e quinhentos anos desde que a Bíblia foi compilada, os anjos foram transformados nos caucasianos de cabelos na altura dos ombros e vestes brancas que adornam os cartões de oração plastificados. Eles foram identificados como figuras sobrenaturais que oferecem auxílio em momentos de dificuldade. Mas, biblicamente falando, os anjos têm a mesma probabilidade de enviar uma mensagem quanto de entregá-la. Se você busca auxílio espiritual, deve recorrer a um santo. Se encontrar um anjo, provavelmente deve fugir.

Satanás, anjos e inferno

Satanás é frequentemente retratado como o governante do inferno, mas não há menção a ele na Bíblia. Quando o diabo está no inferno, é apenas porque ele próprio está sendo punido. Candida Moss escreveu no Daily Beast: "Tanto Satanás quanto o inferno têm histórias complexas que muitas vezes, mas nem sempre, estão interligadas. Nos livros mais antigos da Bíblia, o inferno parece um detalhe secundário. Existe o Sheol, um poço escuro sob a terra para onde as pessoas vão após a morte, mas ele abriga todos, não apenas os ímpios. 

Era o período do Segundo Templo e, à sombra da conquista de Alexandre, o Grande, a população sobrenatural testemunhou uma explosão. Anjos, mensageiros e executores de Deus, eram uma presença relativamente estável na Bíblia. Foi um anjo que guardou a entrada do Jardim do Éden quando Adão e Eva foram expulsos. E foram anjos que visitaram Abraão, lutaram com Jacó e mataram os primogênitos do Egito. Demônios, no entanto, eram algo diferente, e é nesse período que encontramos as primeiras descrições de atividade demoníaca e anjos caídos." 

Em nenhum momento da Bíblia Satanás é apresentado como governante do inferno. Em vez disso, como escreveu a professora de Princeton, Elaine Pagels, em seu livro "A Origem de Satanás", Satanás era um servo do Senhor, um anjo de Deus. Se Satanás ou Mastema atormentam a humanidade, é apenas porque Deus lhes concedeu permissão. Satanás nunca age independentemente de Deus. 

Satanás se volta contra Deus, escreve Pagels, no mesmo instante em que grupos judaicos se voltam uns contra os outros. Os essênios, o grupo sectário responsável pelos Manuscritos do Mar Morto, e os seguidores de Jesus, que enfrentaram alguma oposição de outros judeus, usam figuras demoníacas como metáforas para esses oponentes do mundo real. Para os essênios, demonizar aqueles com quem se discorda, chamando-os de filhos das trevas, é uma forma de reencenar queixas em um palco cósmico.

Este líder dessas figuras, conhecido por vários nomes como Satanás, Belial e Belzebu, é o principal rival de Deus. No livro do Apocalipse do primeiro século (o último livro da Bíblia canônica), Satanás é capturado por um anjo de Deus e lançado no “Abismo”. Segundo Wright, este provavelmente não é o mesmo poço onde os anjos caídos de Gênesis e Enoque foram aprisionados. Lá Satanás permanece por mil anos antes de uma batalha final e punição eterna no Lago de Fogo.

Segundo Pagels e Wright, trata-se de um pequeno grupo de filósofos cristãos conhecidos como gnósticos, que elevam Satanás de um anjo rebelde, passível de ser derrotado por outro anjo, a uma divindade maligna com poderes invejáveis. No pensamento gnóstico, Satanás ainda é identificado como um ser subordinado, mas cria seu próprio reino material inferior no qual a humanidade está (atualmente) aprisionada. Assim como os essênios, os cristãos usaram o diabo para construir uma narrativa de luta cósmica na qual primeiro os judeus (outros), depois as autoridades romanas que se opunham a eles e, finalmente, outros cristãos dissidentes foram retratados como demônios. O diabo assume forma em encontros antagônicos entre grupos rivais.

Mas, ao longo desse período, e de fato durante os primeiros mil anos do cristianismo, o diabo ainda não se senta em um trono sombrio nem reina sobre os súditos torturados do inferno. Como escreveu a Dra. Meghan Henning em seu livro recém-publicado, "O Inferno Não Tem Fúria", as primeiras descrições do inferno mostram seres humanos sendo torturados por anjos, não por demônios. São os anjos que administram a "justiça" em um espaço que, embora infernal, ainda é claramente propriedade de Deus e operado por Ele. Qualquer leitor que se horrorize com isso deve lembrar que, aos olhos desses autores, os horrores do inferno não estão em conflito com o Divino. Esta é a aparência da justiça de Deus.

Foi somente muito mais tarde, nos escritos de Dante, Milton e seus sucessores, que a mitologia popular do diabo surgiu. Para Dante, o diabo é Lúcifer, o portador da Aurora, que outrora fora o predileto de Deus. Como um ser perfeitamente criado, Lúcifer recusou-se a curvar-se e adorar a humanidade recém-criada. Lúcifer fragmentou as hostes celestiais e guerreou contra os leais a Deus. Foi derrotado e lançado no inferno, onde governa seus companheiros demônios da tundra congelada do nono círculo do inferno. Embora aprisionado nas entranhas do inferno, ele foi capaz de projetar-se no plano mortal para tentar e enganar. O Satanás de Milton é igualmente consumido pela inveja. Nas palavras de Thuswaldner e Russ, ele “perambula pelo abismo entre o inferno e a Terra recém-criada”, tramando a destruição dos seres humanos.

O que essas imagens do diabo trazem à tona é o paradoxo nas ideias cristãs sobre Satanás. Como Philip Almond afirma em "O Diabo", "o diabo é o inimigo mais implacável de Deus e está além do controle de Deus... no entanto, ele também é o servo fiel de Deus, agindo somente sob o comando de Deus". Satanás pode odiar a humanidade e (com bastante eficácia) tramar sua ruína e destruição, mas ele mal é um adversário de Deus, muito menos um igual. Tudo isso significa que o inferno é governado por Deus. Satanás não é o Senhor do Inferno, mas se o for, é apenas um rei fantoche governando a mando de um Deus que permite a interferência demoníaca, mas não tolera a desobediência.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Rabi Tovia Singer: E a Origem de Satanás.

Por que Deus não destruiu Satanás? Essa é uma das perguntas mais dificeis para qualquer pastor ou pregador. Existem diversas teorias e explicações para isto. Desde as mais simples até as mais complexas. A maioria se baseia principalmente na parabola de Yeshua sobre o Joio e o trigo (Mt 13,24-30) de modo analogo, comparando o joio com o diabo. Ateus e céticos são grandes criticos desta teologia e desta exegese, porque causa um certa impressão de impotência da parte de Deus, ou até mesmo, masoquismo, segundo ateus. Em partes, tais criticas possuem um certo grau de fundamento, pois se cremos que Deus é onipotente, onisciente e onipresente, é no minimo contraditório supôr que ele não possa ou não queira destruir seu inimigo, permitindo que ele corrompa os homens e os leve a pecar.

Certas religiões, como o judaismo ortodoxo, por exemplo, não crêem na existência de satanás como um ser, antropormófico, mas como uma inclinação para o mal de cada ser humano. Outras crenças, como a doutrina espirita, por exemplo, também seguem uma linha de raciocinio semelhante. Ja a grande maioria de religiões cristãs, crêem na existência fisica de satanás, como um ser, inimigo de Deus e da humanidade e que será derrotado na segunda vinda do messias. Algumas religiões possuem isto como dogma fundamental e pilar de fé. Para alguns fundamentalistas a crença na existência do diabo tornou-se tão fundamental quanto a crença no messias. Ja para teologos universitarios, a exegese judaica é mais coerente e menos blasfêmica, pois não torna o criador maligno, nem incapaz, mas tolerante e bom para com o homem.

A primeira coisa que observamos, se seguirmos uma linha do tempo biblica, é a diferença do monoteismo judeu para o cristianismo atual, que segundo alguns teologos, esta mais parecido com a cultura grega que a judaica. Antes de Abraão, os povos do mundo antigo eram politeistas e tinham um deus para tudo. Um deus da agricultura, um dos rios, um das chuvas, em do amor etc...Abraão foi o primeiro homem a reconhecer a existência de um único Deus. A partir dai, surgiu o monoteismo, a crença em um Deus invisivel, poderoso, que era tudo e responsavel por tudo. A partir de Abraão Deus formou seu povo, que se destacava dos demais por ser um povo monoteista e que tinha sempre a presença desse único Deus consigo, abençôando e até ajudando em combates e castigando quando seu povo desobedecia seus mandamentos. Essa caracteristica monoteista, vemos presente também em suas escrituras sagradas. Tudo era atribuido á Deus, até mesmo fatos que são de dificil compreesão para nós humanos, mas que tinham um propósito maior.

Era o próprio Deus que endurecia o coração do faraó do egito,para não libertar seu povo (Ex 9,12); foi o próprio Deus que enviou um espirito mau, o que nós chamamos de demônio, para atormentar o Rei Saul (1Sm 18,10); foi o próprio Deus que levantou Nabucodonossor, rei da Babilônia, contra seu povo como castigo por sua idolatria (Jr21,7) e tudo era atribuido a um único Deus. Quando então satanás entrou nas escrituras? Segundo alguns teologos, ele surge logo no livro de gênesis, como a serpente do Edén que tentou o homem e leovou a sua queda. Isto baseado no que diz o livro das revelações, apocalipse:
"E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele" Ap12,9.

Mas segundo alguns teologos a narrativa do gênesis não é literal, é simbólica. O judaismo mesmo não interpreta gênesis, Bereshith, literalmente. Alguns teologos ainda atribuem a serpente de forma simbolica, aos anjos que pecaram narrado no livro apócrifo de Enoque. E estes supostos anjos não teriam relação alguma com satanás, sendo que segundo as próprias escrituras eles estariam presos até o dia do juizo:
"Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;" 2Pe2,4.

A palavra "Satã" significa em hebraico "acusador", "opositor". Aparece, pela primeira vez no livro de Ióv (Jó), sendo como um promotor celestial. A sua intimidade com Deus e o direito de entrar no "Céu", de ir e vir livremente e dialogar com Ele, torna-o uma figura de muito destaque. Veja o livro de Jó 1:6 "Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles".

O livro de Jó foi escrito depois do Exílio Babilônico. Sabemos que o povo judeu, tendo retornado a Israel com a permissão de Ciro, rei persa, no ano 538 a.C, assimilou muitos costumes dos persas. Isto ocorreu devido à simpatia e apoio que receberam do rei, que inclusive permitiu a construção do Segundo Templo judaico e ainda devolveu muitos de seus tesouros, que haviam sido roubados. A religião dos persas, o Zoroastrismo, influenciou sobremaneira o judaísmo. No Zoroastrismo, existe o Deus supremo Ahura-Mazda, que sofre a oposição de uma outra força poderosa, conhecida como Angra Mainyu, ou Ahriman, "o espírito mau". Desde o começo da existência, esses dois espíritos antagônicos têm-se combatido mutuamente.

O Zoroastrismo foi uma das mais antigas religiões a ensinar o triunfo final do bem sobre o mal. No fim, haverá punição para os maus, e recompensa para os bons. E foi do Zoroastrismo que os judeus aprenderam a crença em um Ahriman, um diabo pessoal, que, em hebraico, eles chamaram de SATAN - Por isso, o seu aparecimento na Bíblia só ocorre no livro de Jó e nos outros livros escritos após o exílio Babilônico, do ano 538 a.C. para cá. Irônicamente no mesmo livro, todo o mal que Jó passara também é atribuido somente á deus:...e o consolaram acerca de todo o mal que YHWH lhe havia enviado....Jó42,11.

Nestes livros já aparece a influência do Zoroastrismo persa. Observe ainda que a tentação de Adão e Eva é feita pela serpente e não por Satanás, demonstrando assim que o escritor do Gênesis não conhecia Satanás. Os sábios judaicos, interpretando o Eclesisastes 10:11, afirmam (Pirkei de Rabi Eliezer 13) que, na verdade, a cobra que seduziu Adão e Eva era o Anjo Samael, que apareceu na terra sob a forma de serpente. Ele, que é conhecido como o "dono da língua", usou sua língua para seduzir Adão e Eva ao pecado. O poder do mal está em sua língua, e este poder pode ser usado somente para dominar o sábio. Ele não pode prevalecer sobre um ignorante. "Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos" Mt11,25.

Uma outra observação interessante é que o livro de Samuel foi escrito antes da influência persa no ano de 622 a.C. e, no II livro de Samuel em seu capítulo 24:1, você lê com relação ao recenseamento de Israel o seguinte:
"A cólera de YHWH se inflamou novamente contra Israel e excitou David contra eles, dizendo-lhe: Vai recensear Israel e Judá".

Agora veja esta mesma passagem no I livro das Crônicas, que foi escrito no começo do ano 300 a.C, portanto, já sob a influência do Zoroastrismo persa, com o já conhecimento de Ahriman/Satanás. No capítulo 21:1 desse livro está escrito:
"E levantou-se Satã contra Israel, e excitou David a fazer o recenseamento de Israel".

Portanto, o que era YHWH no livro de Samuel aparece agora no livro das Crônicas como SATANÁS (Confira em sua Bíblia). Assim, está evidenciado que Satanás não é um conceito original da Bíblia, e sim, introduzido nela, a partir do Zoroastrismo Persa.O livro de Jó também não possui uma interpretação literal. Na biblia hebraica ele figura dentre os livros sábios. Não situa uma época, um rei ou mesmo outro livro da biblia. Ele retrata a história de um homem justo e fiel, mesmo que sem nada e a relação de d'us com o sofrimento humano. Interpreta-lo literalmente também implica em contradições com outros livros da biblia. "Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta" Tg1,13.

Outra passagem interessante que observamos é em Mateus 16 a partir do versiculo 16, onde Kefa (Pedro) reconhece Yeshua como o Messias: "E Shimon Kefá, respondendo, disse: Tu és o Mashiach, o Filho do Elohim vivo..." E logo em seguida Yeshua mesmo lhe diz que quem lhe revelara isto não foram os homens, mas o próprio Eterno o revelara:...E Yeshua, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Shimon Bar Yona, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus...E logo depois Yeshua lhes diz que terá que sofrer e padecer nas mãos dos homens (vs21) Pedro o repreende pois não queria ver seu mestre sofrer e Yeshua então lhe diz:..."Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens".

Muitos exegetas interpretam esta passagem como se o diabo estivesse usando o apostolo Kefá. Mas esta interpretação gera dois problemas. Primeiro que é estranho imaginar uma manifestação demôniaca, bem na presença de Yeshua HaMashiach, ou mesmo o diabo estar usando o apostolo Kefá no mesmo instante que a Ruach do Eterno estava com ele e acabara de reconhecer Yeshua como messias. Segundo que é também estranho o diabo usar o apostolo Kefá para num ato de compaixão querer impedir que Yeshua sofresse e fosse preso. É no minimo contraditório. Se formos analisar sob a ótica teologica mais profunda, de que satã é só uma palavra que significa opositor, então podemos entender que Yeshua chamou Kefá de Satanás porque ele estava se opondo ao sacrificio que Yeshua teria de passar, portanto, por isso Yeshua o chama de satanás, não por uma possessão.

O mesmo ocorre no exemplo acima, do senso de Israel. Não foi um ser, satã que se levantou em Israel ou utilizou o rei David, mas uma idéia opositora, e o levou a pecar, indo contra a vontade do Eterno. Vemos nos versiculos seguintes do capitulo vinte e quatro de Samuel, que o Eterno Elohim oferece a Davi a opção de escolha de como deveria ser castigado e o próprio rei Davi diz: ...Eis que eu sou o que pequei...(vs17) Observe também que das três opções de castigo que o Eterno lhe oferece, nenhuma é para o diabo, mas todas para os homens: ...Queres que sete anos de fome te venham à tua terra; ou que por três meses fujas de teus inimigos, e eles te persigam; ou que por três dias haja peste na tua terra?(vs13)...Então onde fica a justiça divina neste exemplo? Satã se levanta em Israel, leva o rei David a pecar e quem é castigado é o povo? É claro que isto é incoerente com a própria natureza justa do criador. A explicação teologica e a judaica parecem mais coerente neste caso, que uma idéia opositora tomou conta do Rei David, não um ser.

Para analisarmos bem este tema, primeiro temos que entender que o cristianismo era originalmente uma crença judaica e que depois passou por uma transformação de Roma. Vejamos então a visão judaica sobre este tema. A seguir um texto do Rabi Tovia Singer :

A Idéia Original acerca do Satán.

Pra começar, Satán é um conceito judaico, que os cristãos usurparam, deturparam, modificaram, corromperam e antropoformizaram. Como dissemos, a palavra hebraica remete-nos a um inibidor, opositor, adversário [humano; jamais de D-us!] Segundo o Judaísmo, ele é um Maláh (Um ser espiritual autômato enviado por D-us para específicas missões, cuja indicação missionária está no título {nome} que é dado ao ser. Podemos no momento entender este ser simplesmente como “anjo”.) Um anjo, neste contexto é um princípio de força guiada pela Inteligência Suprema, D-us. A função ou missão do Satan é explicada no Talmud da seguinte forma: Esta entidade é o Ietzer Hará.

Esta entidade é o Satan. Esta entidade é o Maláh HaMávet (Anjo da Morte). Começando pela primeira explicação, quando falamos de Ietzer Hará, estamos nos referindo à má inclinação; às NOSSAS idéias estranhas ao nosso próprio objetivo ético e moral; ao desejo que cometer ações contrárias à Lei divina, e às justificativas mentais que são geradas POR NÓS enquanto decidimos sobre fazer ou não fazer aquilo que ferirá os princípios da Lei de D-us que decidimos observar. Do mesmo modo que temos dentro de nós o Ietzer Hará o Instinto ao Mal, temos na mesmíssima medida o Ietzer HaTov o Instinto ao Bem. Do mesmo modo, este nosso lado se mostra presente quando manifestamos pensamentos e conceitos que nos levam a agir à favor do bem e da justiça. Ambos estão dentro de nós na mesma medida.

Assim, por exemplo; se uma pessoa se levanta contra você para te matar, e você subitamente se vê motivado a se defender e proteger sua vida, mesmo que custe a vida daquele que primeiro se levantou contra você, esta é a motivação do Ietzer A essência do Ietzer Hará é o “fervor do sangue”. E a arma do Ietzer Hará é a imaginação, o devaneio. Mas o Ietzer Hará por si mesmo, não é mau, assim como a Imaginação ou o devaneio não são maus por si mesmos. O que ocorre é que a pessoa é aquela que caracteriza as forças dentro de si, tornando-as boas ou más. Outro conceito importante é que somente o ser humano pode ser mau. Portanto, o Ietzer Hará é a natureza humana voltada - pela própria pessoa - para o mal. Em si mesmo, não é mais que uma força neutra que podemos utilizar para o que desejarmos, inclusive para temas espirituais bons e de caráter justo. Já a natureza animal/ emotiva precisa ser controlada pelo intelecto. Após estar convencido de fazer o mal, a decisão da pessoa é levada pelo Satan diante da Corte Celestial para o veredicto. Então ele pode voltar com a missão de punir a pessoa, ou mesmo como a missão de ser o Maláh HaMávet (“anjo” da morte) e por um fim na vida de crimes vivida pela pessoa. Tudo isso são temas de caráter espirituais e portanto, NÃO PODEM SER COMPREENDIDOS LITERALMENTE.

Todas estas colocações são meros exemplos de conceitos puramente espirituais! Uma outra alegoria que explica o que dizemos, é o que é dito em Kabalá: O ar dos céus e o ar do inferno estão sempre nos rodeando. Quando uma pessoa faz uma boa ação esta é escrita no ar dos céus. Quando faz uma má ação é escrita no ar do inferno.A completa explicação destas alegorias é maior do que o que posso oferecer por agora, mas o ponto principal disso tudo, é que Satán não é mesmo o cara com chifres.

As Escrituras Hebraicas deixam bem claro, que o Altíssimo colocou no mundo, tanto o bem como o mal como está Escrito: Devarim {Deuteronômio} 30:15, "Vê que pus diante de ti hoje a vida e o bem, a morte; e o mal". Em Ieshaiáhu {Isaías} 45:7, o profeta descreve o plano da criação de D-us expressando que, "Eu formo a luz e crio a escuridão; Eu faço a paz e Sou Eu quem cria o mal; EU SOU o ETERNO que tudo faz".

Estes versos declaram abertamente que o único responsável pelo que chamamos de mal é D-us. Estes versos apóiam e comprovam a idéia judaica sobre o balanço espiritual perfeito entre o que denominamos “bem e o mal”, que toda alma confronta. Este é o plano de criação de seres conscientes, realizado pelo D-us o Altíssimo. Ieshaiáhu 45:7 e Devarim 30:15 (ver tbm Is8,,13) apresentam problemas teológicos ao Cristianismo, que mantém que D-us haveria criado o Satan, o anjo que ficou mal. De acordo com a doutrina cristã, o Satán teria sido um anjo elevado, o qual; por um ato de corrupção espiritual e rebelde desobediência, tornou-se o chefe adversário e caluniador de D-us, e teria sido ele quem introduzira o mal no mundo. Na teologia cristã D-us não criou aquilo que chamamos mal, ELE somente seria o autor do que chamamos bem. Portanto - dizem os cristãos - D-us jamais criaria algo tão sinistro como o diabo. Ao invés disso, foi o diabo mesmo que teria se tornado perverso e se transformado no diabo que é hoje. Esta concepção é completamente estranha ao pensamento hebreu (de onde a idéia de Satán se origina), e obviamente não tem suporte nos textos originais hebraicos; nem no sistema legal judaico. Afinal, sugerir que D-us teria criado o Satán perfeito, mas mesmo sendo “perfeito” o Satán ainda pudesse se rebelar contra D-us, mostra que D-us fez algo “perfeito” de forma “imperfeita”. Afinal, se D-us cria somente o bem, o mal é algo fora do seu plano, ou seja; uma conseqüência inesperada, que O levou para um “plano B”...E se o Satan tirou de dentro de si mesmo, sua própria rebelião, então não era de fato perfeito. Satan teria então, um “defeito de fábrica” que transferiria a responsabilidade para D-us, em última análise!

Ignorando esta contradição por enquanto, o Judaísmo ensina que o propósito da criação do Satán é justamente o sugerido por seu nome “ser um inibidor do homem”. Como servo de D-us, o Satan leva adiante os propósitos divinos em todos os seus detalhes. Satan é um dos “anjos” mencionados nas Escrituras Hebraicas. Em momento algum ele é chamado de diabo ou demônio. Em momento algum a palavra hebraica Maláh que significa mensageiro é usada nas Escrituras Hebraicas para referir-se a seres diabólicos!Não existe um único exemplo nas Escrituras Hebraicas, sobre o Satan ser inimigo de D-us ou ter um reino paralelo ao de D-us.

O Satán jamais se opõe a vontade de D-us! Em parte alguma da Bíblia Hebraica isso é mais evidente do que o livro de Ióv (Jó). No primeiro capítulo, Satan aparece juntamente com outros anjos diante de D-us, e sugere que a fé a fidelidade de Ióv poderia ser simples resultado da sua falta de dificuldades. Então propõe que Ióv fosse testado em suas convicções. D-us concorda com a elaboração de Satan, e não somente permite que ele realize o que sugeriu, mas ainda lhe concede instruções específicas, que ele por sua vez observa religiosamente. Ou seja, não estamos diante do relacionamento de dois inimigos! Estamos diante de D-us e uma de suas criaturas! Numa alegoria que procura nos revelar um pouco mais do caráter espiritual do mundo. Em última análise, todo o sofrimento de Ióv foi a vontade de D-us para ele para testá-lo e elevá-lo.

Enquanto em termos de interpretação cristã, o triunfo pessoal de Ióv é algo teologicamente impossível, enquanto que, em termos autenticamente judaicos sua história (a de Ióv) é apenas o reflexo da própria missão humana, e o modelo do projeto de D-us para a humanidade. Em Devarim {Deuteronômio} 30:15 a Torá declara abertamente sobre D-us colocar o que chamamos “mal” diante de nós, enquanto que em Ieshaiáhu {Isaías} 45:7 este mesmo conceito está vivo no Judaísmo ecoando a mensagem da Torá de que D-us mesmo é o criador do bem e do mal. E como tais conceitos obviamente foram problemáticos para os “tradutores”.

Como podem os cristãos manter a opinião de que D-us não criou o mal, se as Escrituras Hebraicas declaram que sim, ELE criou o mal? É até compreensível que os “tradutores” - por exemplo – os da Bíblia Católica Ave Maria, ao invés de traduzir corretamente a palavra Hebraica “ráh” (mal) registrada em Ieshaiáhu {Isaías} 45:7 escrevam ao invés disso: 7. formei a luz e criei as trevas, busco a felicidade e suscito a infelicidade. Sou eu o Senhor, que faço todas essas coisas.

As palavras “felicidade” e “infelicidade” foram eleitas para deturpar o conceito original do termo que nada mais é que o reflexo do próprio pensamento hebreu no uso da palavra “ráh” que significa literalmente Mal. Isso não incomoda nem mesmo os protestantes, e apenas demonstra o mau uso e desonestidade dos cristãos em geral no uso das Escrituras Hebraicas. Se existem Bíblias que procuraram traduzir corretamente este trecho em particular, não deixam de usar outros para continuar impondo seu sistema particular de pensamento em frente ao texto original hebraico. Agora, vale a pena mencionar que o Cristianismo apresenta Ieshaiáhu {Isaías} 14:12 como se fosse uma referência sobre a mitologia de um demônio rebelde que teria caído do céu, um anjo caído. Eles argumentam dizendo que Ieshaiáhu {Isaías} teria usado o termo “estrela da manhã”.

Temos aí sérios problemas com tais alegações.

Primeiro, caso cristãos mantenham que a expressão “estrela da manhã” seja uma referência ao Satan exclusivamente; como é que irão explicar que no seu próprio livro religioso, em Apocalipse 22:16 Jesus é chamado “estrela da manhã” também?

Em segundo lugar, uma leitura atenta de Ieshaiáhu {Isaías} 14 revela que ele está se referindo a Nevuhadnetzar (Nabucodonosor), o perverso rei da Babilônia e não ao Satán.Em 14:4 o profeta explicitamente menciona diretamente do rei da Babilônia como o tema da sua profecia: Que pronunciarão esta parábola sobre o rei da Babilônia: Como o opressor cessou de oprimir e como se esgotou sua arrogância? Por intermédio de todo este capítulo e do capítulo anterior, o profeta prediz o levante e a queda deste arrogante rei, que usou seu poder para atacar Jerusalém e destruir o Templo; mas que no fim; sofreria também uma queda cataclísmica. Em 14:12 Nevuhadnetzar é comparado ao planeta Vênus, cuja luz ainda pode ser vista no começo da manhã, mas que finalmente se esvai quando surge o sol. Assim como a luz de Vênus, Nevuhadnetzar reinaria e brilharia com um curto período de tempo, mas como o profeta disse, ele seria ofuscado pela luz de Israel que perduraria para além de seu tempo, e ofuscaria toda sua glória arrogante.

Rabi Tovia Singer

Então como vemos, segundo o conceito judaico, satãn nada mais é que um mensageiro a serviço do Eterno, ou nossa própria inclinação para o mal, nosso Ietzer Hará. Até os primeiros séculos da igreja, era assim que os primeiros seguidores do messias enchergavam satã, como um mensageiro ou uma palavra que indica oposição, não como um ser. Em sua segunda epistola aos corintios o apostolo Shaul (Paulo) parece exemplificar bem este conceito judaico:

"E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar." 2Cor 12,7.

Esta explicação parece ser mais coerente, e de acordo com o pensamento judaico. Senão teremos que imaginar explicações estranhas para algumas passagens controversas, como quando Paulo manda que se entregue pessoas a Satanás para se salvarem (1Cor5,55) e o mesmo admite que entregou dois homens, Himineu e Alexandre para satanás (1Ti1,20). Qual a lógica do apostolo Paulo, entregar dois homens á satanás e ainda recomendar que se entregue um para que seu espirito se salve no dia do juizo? Se tormarmos o significado da palavra como opositor, então o texto passa a ter mais lógica nos dois casos. Um exemplo muito citado por religiosos e ja praticamente um chavão é o de 2 corintios 11,14:

"E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz."

Mas se vemos o versiculo anterior, vemos que Shaul não esta falando de um ser espiritual mas de homens:
"Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo".

Ou seja, homens falso, que fingiam-se apostolos, mas opunham-se ao evangelho de Cristo. Estranhamente quase ninguém ve este versiculo anterior ou o contexto deste. Será que é porque Shaul esta criticando justamente os falsos apostolos e obreiros? O mesmo ocorre com João 10,10, onde ao contar uma parabola, sobre o bom e o mau pastor, Yeshua diz que o Ladrão (o mau pastor) vem somente para roubar, matar e destruir. Religiosos ignoram este contexto e atribuem ao diabo esta passagem, mudando não só o contexto original como ignorando o que o próprio Yeshua disse neste mesmo contexto: "Eu sou o bom pastor". Atribuindo esta passagem ao diabo, eles além de blasfemarem contra o único Deus negando-lhe atributos e transferindo-os ao seu suposto inimigo, como contradizem as próprias escrituas como o livro do profeta Jeremias, onde o Eterno disse: "Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares". Jeremias 1,10.

Interpretar Satanás literalmente gera estes tipos de contradições dentro da própria escritura. Principalmente sobre a suposta queda de satanás que a teologia tradicional diz que se refere ao oraculo de Isaias 14,12 e ezequiel 28. (vide estudo sobre: lucifer e a estrela da manhã) Então segundo esta teologia ele caiu do céu no Edén, mas também caiu quando Yeshua enviou seus setenta discipulos a pregarem(Lc10,18), mas ainda cairá no final dos tempos(Ap12,9) Ou seja, não tem como respaldar esta teologia sem entrar em inumeras contradições. Todas essas passagens e todas que aparecem esta palavra, podem ser analisadas de uma forma mais coerente segundo uma ótica judaica que havia nos primeiros séculos.

Após a formação da igreja romana, isto virou uma grande Bavel, dividiram a glória de Elohim atribuindo-lhe um suposto inimigo, e ainda tranformaram isto em um dogma fundamental, sendo acusado de heresia, qualquer um que não interprete Hasatã como um ser, antropormófico. Mas nenhum consegue responder de maneira lógica e livre de contradições o porque Deus não destruiu o diabo e permite que ele continue corrompendo os homens. Respeito a visão teologica da maioria dos segmentos cristãos, mas acho produtivo e edificante analisar sob uma ótica judaica, afim de se evitar certas contradições e ter uma interpretação mais coerente e racional.

Por que Deus não destruiu satanás? Porque ele não é um ser. È só uma palavra que simboliza um mensageiro da vontade divina ou nossa inclinação para o mal.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Marcos (5,1-20) e o Enigmático Tema do Edemoninhado de Gadara

Empreender um estudo sócio-teológico sobre possessão e exorcismo é uma tarefa árdua e desafiadora, principalmente para um leigo (não formado na matéria de Sociologia, mas versado em Filosofia e Teologia). Sair do lugar comum e expor os conflitos de uma interpretação bíblica mais humana e intencional não tem sido considerado pela maioria dos eruditos. Por um lado, haverá aqueles que dirão não ser possível estudar sociologicamente o “mundo espiritual”. Outros dirão que humanizar o sagrado é correr o risco de banalizar a fé. A proposta de uma interpretação sociológica, uma nova leitura, é necessária porque não se pode desvincular a Bíblia do ser humano e este, do mundo em que vive.

O que tem a dizer, então, a História, a Tradição, o mundo bíblico do 1º e 2º Testamento, a Razão e a Ciência, sobre a possessão? Pode-se vincular possessão e alienação, possessão e opressão, possessão e doença? A partir desse ponto de vista, quê demônios atinge e penetra no ser humano e o aliena e o possui, tirando-lhe a liberdade?

Onde, nesse processo, se encaixa o preconceito religioso - contra negros p. ex. – com seus deuses demonizados? E o preconceito de gênero – contra as mulheres – que, acredita-se, é portadora e responsável pelo pecado original e por isso mais suscetíveis aos “encantos da serpente?” E o preconceito social – contra os pobres – onde este é considerado maldito e incapaz de mudar sua própria sorte, livrar-se de suas doenças, crescerem na vida?

Por quem ou pelo quê são possuídos?
Quais demônios sociais e políticos niilistas são introduzidos à força em seu viver frágil?

Sugerir respostas que gerem reflexões é a intenção desta obra. Porém, não foi possível incluir os conceitos de Paul Tillich (o demônico), e também, da mesma forma injusta, foi deixado à margem Rudolf Otto (o sagrado). Não seria possível abarcar todos esses conceitos, mas eles se encontram nas entrelinhas. A música como forma de exorcismo também não encontrou um espaço coerente para análise. Entre outros, foram considerados aspectos mais relevantes dentro da possessão: a política, o preconceito religioso, a medicina (doença), a comunicação (linguagem), a possessão cristã (pelo espírito de Deus), entre outros.

I. PARTE
1. INTRODUÇÃO

A perícope de Marcos (5,1-20) permite que o leitor da Bíblia a utilize além dos objetivos marcanos. Além da mensagem e da prática de Jesus, o leitor/intérprete poderá tirar práticas diversas sobre demonologia, exorcismo, palavras de ordem, diálogo, batalha espiritual, corporal e geográfica. Mas se o texto for analisado dentro de um contexto de opressão social e militar, o texto se revela pleno de sentidos reais e simbólicos. Embora seja um texto milenar em sua composição e originalidade, supõe-se uma narrativa realista que “requer simultaneamente a autonomia da literatura e a plausibilidade da redação histórica; ela é ao mesmo tempo contemporânea e afastada do leitor. Autonomia literária significar a liberdade criativa do autor para usar a ‘licença poética’ ao narrar situações, caracterizações e trama. O Evangelho não pretende ser relato ‘jornalístico’ de eventos; Marcos livremente interpreta e editorializa as tradições em que se inspira.” Marcos escreve a partir de um momento histórico e ninguém pode se apropriar do texto para criar uma teologia própria.

Esses aspectos do mundo narrativo de Marcos só podem ser vistos como reflexo direto de sua realidade social. A deterioração econômica e política, especialmente na década anterior aos levantes da guerra romano-judaica, deixou em extrema pobreza partes significativas da população palestinense, principalmente nas áreas rurais densamente populosas da Galiléia. A doença e a incapacidade física constituíam parte inseparável do ciclo de pobreza (fenômeno ainda verdadeiro nos dias de hoje, apesar do advento da medicina moderna). Para o trabalhador diarista, a enfermidade significava desemprego e empobrecimento imediato, As “multidões” (ochlos) servem de pano de fundo para a narrativa e representam um dos grandes aspectos de sua localização social.

Essa “apropriação” do texto para fins diversos pode ser literal, espiritual, ideológica ou sociológica. Mas sempre há uma intencionalidade no texto marcano, um conflito latente que se expande à medida que o texto vai sendo desvendado.

Um texto sempre é escrito a partir de um lugar social. Nele estão codificados elementos de política, econômica, ideologia e relações sociais que permitem identificar o leque das relações sociais e suas contradições, mesmo que tenha sido escrito a partir do horizonte de compreensão da classe dominante.

“A apropriação é algo mais do que a simples compreensão de um texto, não sendo apenas assimilação. Aqui, trata-se do mecanismo por meio do quais grupos ou classes sociais tentam tornar ‘seus’ o texto bíblico. Desse modo, tenta-se utilizar ideologicamente o texto bíblico como justificativa de uma determinada prática.” Fica claro que esse exemplo (do geraseno/gadareno) sempre será lembrado como o que mais causa impacto como prática exorcística. Para Marcos toda a prática de Jesus deriva desse conflito.

Para Marcos, toda prática de Jesus em seu ministério na Galiléia é caracterizada pela atividade de expulsar demônios. Desde a tentação no deserto (1,12-13) e o exorcismo inaugural (1,21-28), o evangelista caracteriza a prática de Jesus como expulsão de demônios.

2. O EVANGELHO DE MARCOS

O evangelho de Marcos deve ter sido escrito, de acordo com a maioria dos exegetas, por volta do ano 70. Marcos é considerado o mais antigo dos Evangelhos. Foi escrito em língua grega koiné, com hebraismos evidentes. Na história redacional, Marcos é tido como o redator final do texto recolhidos dos dados da tradição. O mais importante para o redator é o assunto e não a seqüência cronológica do relato. Marcos tem uma intenção querigmática ou “segunda intenção” na redação do texto.

Embora não se dê nenhuma importância à exatidão da sucessão histórica dos acontecimentos, a sua disposição dos diversos trechos, um ao lado do outro, não é arbitrária. É a intenção querigmática que dirige o seu trabalho de redator.

Marcos trouxe para o seu escrito tradições mais antigas que, na forma original, ainda não tinham sido propostas e transmitidas como “Evangelho”. Por ser a fonte mais antiga serviu de base para os demais evangelhos sinóticos, que têm como base também, a fonte “Q”.

É um relato em forma literária fantástica e original (não serão analisadas as variantes constantes nos demais evangelhos sobre esse episódio, como por exemplo, Mateus, que cita dois endemoninhados). Percebe-se essa estrutura literária intencional em Marcos.

Neste relato [Mc 5,1-20], muito elaborado a partir do ponto de vista literário, vão se alternando o registro narrativo... Jesus chega pela primeira vez a um território pagão (v. 1); a tomada de iniciativa contra o mal é o que desencadeia toda ação. O endemoninhado está situado no campo da impureza e da morte (vv. 2-5), simboliza o homem dominado e escravizado; nesse contexto, o diálogo com o demônio tem conotações políticas (Legião = Exército romano = demônios = porcos) e apresenta seu final violento no mar-morte. Porém deve-se ter em conta o que o “ corpo” significa na antropologia judaica: é o que dá presença operante ao espírito no mundo. Se são expulsos do homem, os demônios não poderão seguir atuando naquela região, a não ser em “outro corpo”; daí a importância do pedido (v. 10). Porém no consentimento de Jesus aparece a ironia: a porcaria, os porcos são lugar demônios-Legião romana. A concessão de Jesus é só aparente: quando os porcos se jogam no mar, os demônios ficam “sem corpo”, com o que a expulsão chega ao seu final. Não houve pacto.

Dessas conclusões estruturais se deduz a intencionalidade do momento histórico. Torna-se ainda mais fantástico porque, de acordo com alguns exegetas, Paulo já exercia seu apostolado nessa época. Pode-se ter uma idéia do contexto histórico do relato.

A interpretação do evangelho de Marcos pode ajudar-nos a descobrir, se não com exatidão, pelo menos aproximadamente, a sua situação histórica. Quando Marcos escreveu o seu evangelho, a missão entre os pagãos, que supõe a pregação de Paulo, já era incontestável.

(Há divergência entre os eruditos se há cinco, seis ou sete, relatos de exorcismo no 2º Testamento. Para o teólogo PE. Luís Schiavo existe seis). Não se chegou ainda à conclusão se o exorcismo é uma fórmula (ou forma) literária.

Tem-se discutido muito se o exorcismo seria uma forma literária. Existe também a preocupação em se definir uma coleção de milagres onde o exorcismo faça parte. Pelas características da prática exorcística do Jesus de Marcos é possível perceber uma estrutura bem definida, como atesta outras fontes e tradições. Encontramos muitos exemplos de histórias de expulsão e de envio de demônios ao mar na antigüidade. O mar sempre foi um lugar de destruição, do desconhecido, para o homem primitivo.

3. EXORCISMO COMO MILAGRE

Quase todos os cristãos acreditam em milagres, sem o qual a vida do homem religioso não teria sentido. “Todos acreditam em milagres, pelo menos os que acontecem no Antigo Testamento, nos tempo de Cristo e em Atos dos Apóstolos. Ele é o aviso mais visível e o mais acreditado entre os poderes do sobrenatural. Se, à sua maneira, ele serve para medir a crença comunitária no vigor de Deus e na verdade da fé, nada é mais forte do que as religiões dos fracos.” O milagre é o estímulo e o conforto de todo sofredor, oprimido, que acredita que um dia Deus irá salvá-lo e pode, por vezes, parece ser uma troca.

... o milagre popular é a mostra de efeitos simples de trocas de fidelidades mútuas entre o sujeito e a divindade, com a ajuda ou não de uma igreja e de mediadores humanos ou sobrenaturais.

Os milagres são acontecimentos estranhos, que o crente entende como sinais da ação salvadora de Deus. A narração dos milagres ocupa bastante espaço, com 156 versículos contra 119 da história da paixão e não se sucedem por ordem natural ou histórica. E todas essas narrativas de milagres tem como única e exclusiva intenção apresentar Jesus. E apesar de todas as controvérsias, o povo da Bíblia não questionava os milagres, visto não possuírem outra explicação para estranhos fenômenos.

Na opinião de SCHREINER, J. e DAUTZENGER, G., as narrativas de milagres, no Evangelho de Marcos, desenrolam-se de forma diferente que nos sinóticos e em João, e salientam a intenção querigmática de evangelista.

Muito diferente, no evangelho de Marcos foi o desenvolvimento das narrações dos milagres. Certamente elas foram determinadas desde o princípio pela primitiva profissão de fé em Jesus. É o que já se vê no uso freqüente de títulos cristológicos como “kyrios” (5,19; 7,28), “mestre” (3,1; 5,7), “o santo de Deus” (1,24), “Filho do homem” (2,10). As próprias aclamações que fecham as narrações dos milagres servem, direta ou indiretamente, à profissão de fé em Jesus, p. ex., em Marcos não têm, porém, uma característica única, como a sua história da paixão. Os seus modelos se encontram tanto no Antigo Testamento (p.ex., a ressurreição de mortos por Elias e Eliseu), como, principalmente, no ambiente helenístico do cristianismo primitivo. É possível descobrir entre as histórias prodigiosas helenísticas e cristãs primitivas não só motivos paralelos formais como também amplas concordâncias de estilo e de construção narrativa.

Ao apresentar Jesus como libertador e Messias, Marcos pretende mostrar que “em suma, os atos simbólicos de Jesus eram poderosos não porque desafiassem as leis na natureza [como milagre], e sim porque desafiavam as próprias estruturas da existência social. (...) sua cura e seu exorcismo funcionavam para ‘elaborar’ a ordem simbólica dominante, desmascarando a maneira como esta atuava para legitimar relacionamentos sociais concretos. À medida que essa ordem desumanizava a vida, Jesus desafiava, bem como desafiava suas estruturas: eis porque seus “milagres” não eram universalmente aceitos. Dependendo do status da pessoa na ordem dominante, cada um os encarava como desvios sociais (maus, heréticos) ou libertadores. Este ainda é um desafio para o século XXI: colocar em práticas os exemplo e ações de Jesus libertador.

John D. Crossan, citando o estudioso e erudito Haroldo Remus, esclarece ainda que o mesmo milagre que ocorre no interior de um grupo não tem o mesmo nome que em grupos rivais. Realidade sociológica que divide os povos. Mas o exorcismo é um milagre e existe sempre uma ligação entre os milagres apresentados pelos evangelistas e a mensagem e a pessoa de Jesus. Pode ser chamado de “milagre querigmático”.

3.1. A estrutura do milagre de exorcismo

Da cultura greco-romana, o judaísmo e cristianismo herdaram, entre outras coisas, o modo estrutural de pensamento, tanto expositivo como sistemático. Baseados em histórias de exorcismos desse sincretismo cultural, pode-se observar a seguinte estrutura de um milagre – de forma geral - de exorcismo:

Estrutura

1. Indicação da situação e descrição do estado do possesso
2. Encontro do exorcista com o possesso
3. Tentativa de defesa por parte do demônio
4. Ordem dada pelo exorcista para que saia do possesso
5. Saída acompanhada de demonstração
6. Reação dos espectadores

Os seguintes elementos estruturais típicos fazem parte da tópica:

1. Indicação do quadro mórbido
2. Tentativa de defesa por parte dos demônios
3. Pergunta pelo nome e indicação do nome
4. Ordem dada pelo exorcista ao demônio para que saia do possesso; fórmulas e práticas de esconjuros que ele usa
5. Saída acompanha de demonstração
6. Reação dos espectadores

Para não ficar apenas em um exemplo estrutural, citando J. Greimas, Ched Myers define cinco elementos essenciais das narrativas de exorcismo:

(1) mandato ou mandamento;
(2) aceitação ou rejeição do mandato;
(3) confronto;
(4) sucesso ou insucesso;
(5) conseqüência ou atribuição.

Entre outra característica dos milagres de exorcismo está o fato de que “no ritual das histórias extrabíblicas de expulsão de demônios encontram-se também ordens de silêncio.” No caso de Marcos, Jesus impede que os demônios revelem quem ele é, mas ao mesmo tempo, como um xamã, exige o nome do (s) demônios. Somente conhecendo o nome dos demônios, um exorcista poderia expulsá-lo.

4. A “LIBERTAÇÃO”

A opção narrativa de Marcos contém elementos de duplicidade, no qual ele repete os acontecimentos em seqüência a fim de enfatizá-los, ou chamar a atenção do leitor.
...certos elementos ocorrem duas vezes, a intervalo de apenas um versículo. Assim, p. ex., descrevem-se duas vezes: o encontro de Jesus com o possesso (vv. 2.6); a permanência do possesso os túmulos (vv. 3.5); o pedido de garantia dos demônios (vv. 10.12), e o relato das testemunhas oculares a outras pessoas (vv. 14.16). Estas duplicatas, ao que parece, querem reforçar a impressão que o relato deve provar no ouvinte e no leitor. E nisto elas se aproximam de um outro fenômeno que nos chama a atenção, ou seja: a indomabilidade do possesso, o comportamento totalmente oposto deste homem depois de curado, o grande número de demônios, etc.

Paul Tournier já expressava há algumas décadas que “os gritos são a arma dos fracos. O endemoninhado que grita está apenas expressando sua fraqueza diante de uma dominação reinante. A dialética existente entre a vontade do indivíduo e a vontade de dominar está implícita nas narrativas de exorcismo de Marcos. É visível, a partir daí, a relação antropológica e sociológica da possessão.

Se o exorcismo é um milagre, é um milagre de cura, de libertação do indivíduo alienado dentro de uma sociedade. A narrativa do gadareno pode incluir elementos simbólicos, porque o possesso está “cheio” de demônio (s) poderoso (s). Libertá-lo é inseri-lo na sociedade a fim de desenvolver plenamente o seu papel. O pedido para que Jesus vá embora da cidade deriva do medo que o milagre seja interpretado pelos romanos como um evento revolucionário. O medo torna-se maior que o milagre. O indivíduo está livre, mas a sociedade não. Na opinião de J. D. Crossan, toda sociedade oprimida desenvolve a crença em que os opressores são os demônios possuidores e a cura se dá através de um movimento de libertação ou ação religiosa que possibilite uma sublimação. Como exemplo ele cita uma história africana. Pode-se compara esse exemplo ao demônio-Legião, ou seja, o estrangeiro opressor.

A existência de uma dialética política entre o indivíduo possuído e a sociedade (...), ou seja, entre o microcosmo e o macrocosmo demoníaco – é confirmada pelo meu segundo exemplo, desta vez retirada de um caso moderno. Segundo Barrie Reynolds, nas tribos lunda-luvale dos barotse, que habitavam a região conhecida como Rodésia do Norte, havia uma enfermidade tradicional chamada mahamba, que era causada “por uma possessão pelos espíritos dos ancestrais”. Mais tarde, no entanto, acabou se desenvolvendo uma versão moderna dessa doença, chamada bindele; ela era “provocada pela possessão por outros espíritos [o que] pode ser considerado um reflexo da tensão entre a sociedade da vítima e o grupo representado pelo espírito. Acredita-se que aqueles que sofrem de bindele (palavra em luvale que significa ‘europeus’) estão possuídos pelo espírito de um europeu” (133). Reynolds ainda conta que em 1944 um exorcista chamado Rice Kamanga, que mais tarde adotaria o nome Chana I, fundou uma igreja dedicada à cura da bindele, “um processo demorado, que pode levar uma a cinco meses (135). Legião estava para a Palestina romana assim como bindele estava para a Rodésia colonizada pelos europeus.

O colonizador representa o demônio que possui geográfica e fisicamente o oprimido, gerando religiosas de fuga e subversão a fim de exorcizar aquilo que o dominador representa.

5. ONDE ACONTECEU O EXORCISMO DO GADARENO

Não há consenso sobre o local do exorcismo na opinião de vários autores. Henry H. Halley alega que Gerasa é a atual Querza, sendo que Gadara ficava mais ao sul, onde existem colinas caindo para o mar. Alfons Weise informa que não havia nenhum lago na região de Gerasa.

A expulsão do demônio teria acontecido na região das gerasenos, ou seja, nas vizinhanças da cidade de Gerasa, que ficava na Jordânia oriental, cerca de 55 km ao sul do lago de Genesaré. Fora fundada pelos gregos, no século IV a.C. Hoje se chama Dsherash. As difuculdades do texto de Marcos começam com essa indicação topográfica, pois não havia nenhum lago na região de Gerasa, nem esta região ficava perto do lago de Genesaré, de sorte que os animais pudessem se precipitar “pelo despenhadeiro”.

Os evangelistas e não somente os teólogos divergem sobre o local do exorcismo, como é caso de Mateus.

Mateus sentiu esta dificuldade e mudou a indicação do lugar, transferindo o acontecimento para Gadara, situado mais ou menos a 10 km do lago. Mas esta distância é também muito grande ainda. Orígenes, um dos Padres da Igreja, introduziu uma variante, por volta de 200 d.C. segundo a qual o acontecimento se deu perto de Gergesa, lugar situado junto ao lago. Com isto ele aplaina as dificuldades, mas ao preço de grave mudança no texto original, o que não representa nenhuma solução. Todos os três topônimos quadram com a região conhecida como Decápole – distrito das dez cidades – situada na Jordânia helenística oriental. Talvez a prolixa indicação topográfica de Marcos seja indício de que a narrativa a tenha passado por um processo de crescimento e de que em seu estado fundamental, ou seja, no estágio anterior à Marcos, ainda não continha a história da passagem de Jesus pelo lago e dos animais que se precipitaram nas águas. É bem possível que a sua introdução começasse mais ou menos com estas palavras: Ele chegou a região dos gerasenos.

Champlin, citando os pais da Igreja, também vê dificuldades em apresentar o lugar.

Gerasa era uma cidade de Decápolis (moderna Jeras, na Transjordânia), localizada a mais de 50 km a suleste do mar da Galiléia e, conforme Orígenes (Comentário sobre João V, 41 m(24), esse é o menos provável dos três lugares. Outra área dacapolitana era Gadara, acerca de 8 km a suleste do mar da Galiléia (moderna Um Queis). Embora Orígenes também fizesse objeção a Gadara (o que, segundo ele afirmou, aparece em alguns poucos manuscritos) porque ali não havia nem lago e nem precipício, Josefo (vida IX, 42) refere-se a Gadara como cidade que tinha um território “que jazia nas fronteiras de Tiberias” (= o mas da Galiléia). Que esse território chegava até ao mar pode-se inferir da fato que antigas moedas que trazem o nome de Gadara com freqüência retratam um barco. Orígenes preferia Gersesa, não porque ocorre nos manuscritos – ele faz silêncio sobre isso – mas por causa da base dúbia da tradição local (é o lugar “de onde, conforme se frisa, os porcos foram lançados precipício abaixo pelos demônios”, e, por causa da base ainda mais duvidosa da etimologia (“o significado de Gergesa é “habitação dos que foram expulsos”, e. desse modo, o nome “contém uma alusão profética à conduta mostrada pelos habitantes daqueles lugares ao Salvador , ‘os quais rogaram-lhe que se afastasse do território deles’”.

Embora haja uma inclinação a favor de Gerasa, a composição narrativa de Marcos faz supor que havia uma intenção em localizar Gerasa na Decápolis com a finalidade de enfatizar o espaço sócio-simbólico gentílico.

6. LEGIÃO-DEMÔNIOS

A quantidade de soldados de uma Legião coincide com o número de porcos em Marcos. Este chama o conjunto dos porcos da “manada” com 2.000 porcos. Após vários incidentes na Palestina, as legiões destacadas para essa região eram das mais ferozes. Tinham a finalidade de debelar qualquer insurreição violentamente. O teólogo Luigi Schiavo, na tese de mestrado (UMESP) “2000 demônios da Decápole” (vide bibliografia), relata:

O momento histórico era de grande presença militar na Palestina. A Legião VI Ferrata estava estacionada na Galiléia e a X Fretensis, na Síria, com provavelmente, uma guarnição de 2 mil homens em Gerasa. Por outro lado, aumentavam os levantes populares armados com o objetivo de “lançar ao mar” todos os opressores.

Essa designação de “lançar ao mar” tem paralelo na história de Israel, a começar com Faraó do Egito (o êxodo) e também com Jonas (a fuga). O mar é grande símbolo de destruição total, punição, esquecimento. Atualmente, os árabes se apossaram desse slogan, imagens militares de aniquilação.

“Legião” é um termo, alguns chamam de latinismo (C. Myers e G. Thiessen), que possuía sentido no mundo social de Marcos. Quando uma pessoa ouvia falar de “legião”, sua mente remetia ao grupo de soldados do império romano. O texto está, assim, empregnado, implicitamente de imagens militares. Decorre dessa situação de dominação a alienação do gadareno.

G. Theissen observa com acerto que qualquer pessoa naquela época, ao ouvir esse nome, não poderia deixar de fazer a associação com as legiões romanas. A dimensão política está presente nesse exorcismo pelo valor simbólico do nome do demônio (“Legião”). (...)... A presença do imperialismo romano significava que, no nível social, o povo de Deus estava sendo possuído por demônios. Repare, aliás, nas implicações esquizofrênicas do controle demoníaco: ele aponta para a existência de um poder mais forte do que o indivíduo, um poder que está “dentro” dele, mas que é visto como algo maléfico, afastando, portanto, qualquer possibilidade de conluio ou cooperação.

A título de uma irônica curiosidade, Halley aponta que os porcos entraram em pânico quando perceberam os demônios dentro de si e por isso, perderam o domínio de si mesmos e precipitaram-se no mar...

7. EXORCISMO, MAGIA E RELIGIÃO

Crossan analisando a vida de um camponês do mediterrâneo (conforme livro de mesmo título na bibliografia), conclui que esse camponês vinculava religião e magia e Jesus, nesse contexto, era visto como um mago ou xamã, pois curava e expulsava demônios, possuía contato direto com a divindade, e só um mago ou xamã poderia fazer isso. Na Palestina do tempo de Jesus, as pessoas que praticavam o exorcismo, ou a expulsão de demônios, estavam exercendo uma profissão reconhecida e de reputação. Nesse ponto de vista, Jesus é um mago, pois o povo assim o vê e vai atrás dele, para ver se lhe sobra uma pouco desse poder. Está claro, também, que por suas atividades como curandeiro, milagreiro e exorcista (título do livro de Luigi Schiavo – vide bibliografia), convocando discípulos e atraindo multidões, ao entrar em Jerusalém, já prenuncia sua morte. As autoridades não deixarão de agir a fim de debelar qualquer tipo de insurreição. Outros já haviam promovido revoltas semelhanças. Não havia interesse que um “profeta do povo” agitasse Jerusalém da festa da Páscoa, momento crucial para demonstrações de violência, poder e força. Os videntes, ou nabis, cuja tradição João Batista concluíra, deviam ser perseguidos e mortos, como reza a tradição. O mago e o bandido tinham a mesma sorte.

... a magia está para a religião assim como o banditismo está para a política. Enquanto o banditismo contesta a legitimidade do poder político, a magia contesta a do poder espiritual. Tanto no mundo antigo quanto no moderno, pode-se fazer uma distinção entre magia e religião através de definições prescritivas e políticas, mas não através de descrições neutras e objetivas. A religião é magia oficial e aprovada; a magia é uma religião extra-oficial e censurada. Ou, em termos mais simples: “nós” praticamos religião, “eles” praticam magia. Não importa se os magos são a favor ou contra a religião oficial. A sua própria existência, independente de suas intenções, já constitui uma ameaça para a validade e a exclusividade da religião. É por isso que grandes magos judeus, como Honi, o Criador-de-círculos, e Hanina ben Dosa, tiveram que ser purificados em termos de oração e estudo para serem aceitos dentro da crescente hegemonia da tradição rabínica.

Apesar da existência de alguns exorcistas, xamãs ou magos conhecidos (deve-se lembrar que alguns magos do oriente viram a estrela de Belém e foram visitar o menino Jesus). Alguns exemplos de exorcistas famosos da antigüidade: Elias e Eliseu, Honi e Hanina eram magos, assim como Jesus de Nazaré, Salomão, Eleazar, Apolônio de Tiana e Hanina Ben Dosa (este dois últimos praticaram exorcismos parecidos com o de Jesus, mas antes dele). Os exorcistas eram personagens normais da sociedade antiga. Deles se esperava que comunicasse as palavras e os atos divinos aos pobres mortais.

Portanto,
1. há uma forte conexão entre exorcismo e magia e/ou religião ...
2. há pouquíssima narrativas de exorcismos.
3. pouquíssimas figuras exorcistas...
4. a única figura exorcista na literatura disponível a quem um número razoável de exorcismos é atribuído, e relatado em detalhe, é Jesus de Nazaré.

8. A PRÁTICA DE JESUS, EXORCISTA

“Jesus é o profeta da inclusão.” Como profeta da inclusão, as evidências estão claras a seu favor, quando desobstrui o caminhos dos pobres e oprimidos a fim de que, como gente, participem da sociedade como iguais. Em que se caracteriza a prática de Jesus?

Chamamos práticas ao conjunto de ações pelas quais um sujeito busca incidir na transformação da realidade e nas quais realiza seu projeto e sua utopia. Nenhuma prática se dá como algo isolado, porque não existe o “sujeito puro”; dado o caráter dialogal da existência humana, toda ação é ação-resposta, que nasce de uma interpretação e provoca outras ações, seja de colaboradores (projetos semelhantes ou complementares), seja de oposição (quando se trata de projetos contrários). Portanto, para compreender o sentido de uma prática, deve-se situar as ações que a compõem dentro de um duplo contexto:

• o contexto interno, dentro da prática homogênea de um sujeito, em que se vão dando mudanças que respondem a uma lógica interna nascida da coerência com determinados valores e projetos;
• o contexto externo, constituído pelas outras práticas com as quais entra em relação, e com as circunstâncias nas quais elas se realizam.

Prática e valores estão intimamente relacionados, pois deles brota a prática e a partir deles analisa e valoriza outras práticas como similares ou contrárias. Assim, pois, pela análise das práticas podemos conhecer os valores e os projetos subjacentes a elas. Porém, para descobrir no relato de Marcos essa prática de Jesus processual e situada necessitamos de “chaves de leitura”, porque não se expressa de maneira direta, explícita, mas por insinuações, implícitas. Todo texto tem esses dois níveis de mensagem: o direto, que se descobre à primeira vista, e o indireto, que está nas entrelinhas e que, com freqüência, é o mais importante. Quando não se chega a esse nível de significado, corre-se o risco de se ficar numa leitura fundamentalista.

Jesus realizou seu projeto e sua utopia para transformar a realidade sem empregar um padrão rígido de procedimento. Geralmente, Jesus nunca tocava em indivíduos possuídos por demônios, mas, por outro lado, costumava tocar em enfermos e doentes; “o uso de uma palavra de comando talvez fosse a técnica mais comum que empregava para realizar suas curas e exorcismos.” Jesus exorcizava preferencialmente pessoas pobres e indivíduos, intervindo profundamente na realidade social deles.

Porém, somente a presença de Jesus já era suficiente para mostrar o mal que agia na vida das pessoas. A presença do mal era definitivamente erradicada da vida da pessoa. A ação de Jesus era a favor da vida abundante e impedia que “outros” falassem por eles.

A prática de Jesus anula a ação do demônio no gadareno. Este se endireita e fala livremente. Antes, um demônio (a presença física dos violentos legionários) o possuía, falava por ele e o dominava. A ação de Jesus torna esse homem livre para falar o que realmente pensa livre de opressões de qualquer tipo. Por isso, os seus conterrâneos querem que Jesus saia da cidade na mesma hora, mas por causa do medo da liberdade de expressão de um homem são e livre. O endemoninhado representa ansiedade coletiva em face do imperialismo romano. Jesus reata o caminho da comunicação perdida. O gadareno não podia impedir que falassem por ele, “sua voz era a expressão da ideologia daqueles que tem poder.” Não tinha nem vez, nem voz, nem identidade pessoal.

Jesus nunca se interessou por demônios, mas antes pelas pessoas possuídas. Como o método de Jesus não era extático, também não pode sacramentar métodos de exorcismo como os atuais. Para Neuza Itioka, apesar do seu preconceito religioso, “não existe nenhum método seguro prescrito de expulsar demônios.” É preciso avaliar aquilo que realmente possui as pessoas nesta época e procurar dar as respostas baseadas em uma prática evangélica, não extática, que permita ao indivíduo a liberdade de crer por si mesmo, apesar do sistema de poder que querem manipulá-lo sem a menor culpa.

II. PARTE
1. Evolução da crença

É sabido que “desde os tempos mais remotos do pensamento humano, existem formas diferenciadas de possessão (possessão demoníaca). Paralelamente, existiram também, desde os tempos imemoriais, mecanismos de defesa contra a possessão, entre eles o exorcismo.” Dessa forma, o conceito de possessão e exorcismo sempre estiveram atrelados à religião. A crença em espíritos que podem penetrar no ser humano, seja como forma de vingança ou de poder, é originária da história das religiões.

O demônio e seu mundo não só constituem um aspecto da teologia ou da doutrina cristã, mas também povoam o universo cultural que se desenvolveu nos dois últimos milênios de nossa história.

Atualmente o tema ganha relevo em meios pentecostais e neopentecostais, onde o demônio ocupa, no culto e na vida, lugar central. A centralidade nos demônios desloca o verdadeiro sentido do culto a Javé. Já em tempos pós-modernos “o sagrado reaparece em formas primitivas e selvagens...” Nas palavras do historiador João Gonzaga “no final do século XII surgiu notável eclosão de espiritualidade popular... Acima de tudo fortificou-se a convicção de que Deus, os santos e, também, o demônio estão sempre presentes neste mundo, imiscuindo-se materialmente nos negócios humanos”. E tal como um paradoxo acredita-se que o mesmo ato que serve como prova de alguma influência maligna, também serve como sinal de divindade.

Para os estudiosos, principalmente antropólogos, está claro que:
A crença em espíritos é encontrada em todas, ou quase todas, as sociedades humanas. Ela assume formas variadas, mas um espírito parece ser um agente invisível, quase humano, que é imediata, e quase instintivamente, postulado como sendo a causa de um acontecimento repentino, estranho e inesperado.

Após o advento do Iluminismo, a tentativa de transformar a ciência em dogma ou a tentativa de transformar a religião em ciência, derrotou o espírito de interação entre uma e outra. Anteriormente, o Escolasticismo já prenunciava a ruptura. O mundo da razão não consegue perceber que o mito faz parte do sentido de mundo do crente. Contudo, também não se consegue explicar Deus. Vê-se, assim, que se alternam durante a história humana a interpretações das crenças. Há aqueles que querem o retorno aos fundamentos e ao literalismo bíblico, e há aqueles que preferem uma abertura para compreender melhor a vida e qualquer outra dimensão inexplicável, concluindo que o finito não pode compreender o Infinito nem o relativo atingir o Absoluto. Torna-se necessário buscar explicações no passado e no presente para julgar convenientemente o que é possessão.

Assim, por volta do século IX o diabo começava a ocupar uma posição central na crença dos cristãos ocidentais. A teologia ortodoxa do Oriente dava pouca atenção às doutrinas a respeito do Maligno. Os Padres bizantinos enfatizavam de maneira mais específica a transcendente unidade de Deus; todas as coisas, independentemente de parecerem boas ou más, vinham de Suas mãos. Tudo procedia de Deus e tudo estava destinado a retornar a Ele.

Neste caso, o passado demonstra que nem sempre a preocupação se centraliza no demônio. Esta deveria ser a tônica da religião (ou das Religiões). Quando tudo procede de Deus não há lugar para o Mal.

2. DEFINIÇÕES E EXPLICAÇÕES
2.1. O que é possessão demoníaca?

Existe uma série de definições e explicações para o que é possessão demoníaca. Desde o conceito dos Evangelhos, elaboraram-se várias teologias que resumiram-se na chamada Demonologia. Para os cristãos ocidentais a possessão é sempre negativa, ou seja, atribuída a um mau espírito vindo da parte de Satan/Diabo/Lúcifer. Os pentecostais e neopentecostais têm sua própria cosmologia demoníaca de onde derivam os estados de possessão. Dentro dessas duas vertentes cristãs a cura evidencia-se pelo ato de “exorcismo”, comumente chamado de “expulsão”. Expulsar é ordenar em voz audível com bastante ênfase, em nome de Jesus, para que o demônio/espírito do mau, saia “de dentro” do indivíduo. Para isso, utilizam-se das fórmulas literais também presentes nos Evangelhos.

Como exemplo, pode-se citar um item do Manual da Igreja Universal do Reino de Deus: possessão “é a habitação de um ou mais demônios no corpo de uma pessoa, exercendo-lhe controle e influência, com prejuízo para as funções mentais e físicas. Nesse caso, os demônios agem no interior da pessoa, de dentro para fora”. Neuza Itioka, conhecida “batalhadora” espiritual, utiliza o conceito de possessão de acordo com a ciência, Antropologia e a Sociologia, e que deve ser entendida como “invasão de espíritos”, que podem ser “voluntárias ou involuntárias”, “induzidas ou espontâneas”, “violentas ou calmas’. Para ela, porém, a possessão não se limita a pessoas, mas também a matéria sem vida e à natureza em geral.

A necessidade de compreender melhor esse problema sociologicamente permite uma abordagem mais global da possessão ou endemoninhamento.

O que é endemoninhamento ou possessão?
Qual a sua origem?

Para algumas pessoas, pastores, teólogos e estudantes pareceriam óbvio. No entanto, é causa de grande sensacionalismo entre os cristãos em geral. Muitas vezes por desconhecimento do assunto ou por falsas e curiosas “revelações”.Existem divergências entre os teólogos quanto às definições ou origem, mas em geral, são semelhantes. Torna-se necessário resumir a idéia de alguns autores como tentativa de consenso mais amplo. Ainda do ponto de vista de Neuza Itioka, endemoninhamento é... é a invasão de um espírito com personalidade penetrando na vida de uma outra pessoa, tentando expressar-se ou manifestar-se, e muitas vezes controla-la, suprimindo a primeira.

Na opinião de Pe Gustavo Solimeo, o endemoninhamento/possessão consiste...em um domínio que o demônio exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de uma pessoa. Esta se converte em um instrumento cego, dócil, fatalmente obediente ao poder perverso e despótico do demônio.

Outros se exprimem em categorias de possessão diabólica:
Por possessão diabólica se entende a posse de uma pessoa humana por um espírito do mal de maneira tal que o espírito assume a personalidade do ser humano e controla todos os seus movimentos físicos, inclusive a fala.

Maior divergência existe quanto às origens da possessão. Como já foi citado anteriormente, a possessão por espíritos maus considerada negativa prevalece sobre a possessão positiva, sinal do divino. Os cristãos ocidentais em geral consideram a possessão negativa muito mais que a positiva. Crêem que a origem da possessão está nos demônios e espíritos maus vindo do inferno. Uma minoria acredita na possessão por entes queridos que morreram (Neuza Itioka).

Para verificar a origem da possessão é preciso considerar a crença nos demônios, suas formas de agir, modo, natureza, etc. “O vocábulo ‘demônio’, nesse caso, conforme sua origem (...) não se refere especificamente ao diabo, mas a criaturas sobrenaturais, espírito supra-humano e abaixo de deus (théos), compreendendo quer entidade malfazeja, como o diabo, quer benfazeja, como os anjos.”

2.2. Os demônios

Os demônios em suas diversas formas são considerados os responsáveis pela possessão. A fim de buscar um início comum, verifica-se que em todas as culturas existe um princípio comum. Fora do judaísmo e do cristianismo também existem fontes e referências para identificar o que são “demônios”.

O judaísmo incorporou diversas característica da região em que se desenvolveu (Mesopotâmia). Acredita-se que somente após a saída do Egito eles passaram a acreditar no demônio. “Mas o nome demónio não era por eles [judeus] atribuídos (como acontecia com os gregos) aos espíritos bons e maus, mas somente aos maus. E aos bons demônios deram o nome de Espírito de Deus, e acreditavam que aqueles cujos corpos entravam eram profetas. Em suma, todas a singularidades, quando boas, eram atribuídas ao Espírito de Deus, e as más a algum demónio, mas a um, um mau demónio, isto é, um diabo.

E portanto chamavam demoníacos, isto é, possuídos pelo diabo aqueles que denominamos loucos ou lunáticos, ou aqueles que tinham a doença de cair, ou que diziam qualquer coisa que eles, por não a compreenderem, consideravam absurda.” O termo “daimon” era empregado no gr. clássico, às vezes como um sinônimo de theos (deus). Entre os gregos, o demônio podia ser um “poder” ou até mesmo a psiquê. Para os estóicos a alma do morto pode se tornar um demônio (daí a crença da possessão pelos parentes mortos ter origem na mitologia). Para Heráclito, “o caráter é o espírito que habita em um homem, e não uma entidade separada.”

Na cultura brasileira, mais especificamente de origem africana, os demônios são representados pelo Exús, e demais orixás do Candomblé.

2.3. Etimologia.

Palavra de formação erudita, do gr. daímon, -onos, ‘divindade, gênio, espírito supra-humano, mas infradivino, depois, em linguagem eclesiástica, ‘espírito mau, gênio desfavorável’, representado no lat. daemon, onis, e a base grega –logía, ‘ tratado, ciência, discurso’. O ing. demonology e o fr. démonologie são do séc. XVI, o port. it. demonologia, esp. demonología aparecem no séc. XVIII-XIX.

Dentro da cultura mesopotâmica todos os demônios tinham nomes. O bruxo ou xamã deveria conhecer o nome do demônio. Somente assim poderia expulsá-lo. No 1º Testamento não existe ainda essa crença. “Nada de realmente certo se encontra sobre a origem dos demônios, nas páginas da Bíblia, ainda que muitos creiam que sejam os anjos caídos que seguiram a Satanás.”

Champlin continua dizendo:

Muitas coisas são indiscutíveis sobre esse assunto: a primeira, nem os hebreus e nem os cristãos criaram as elaboradas demonologias e angelologias que, finalmente, vieram a ser aceitas. Segunda, apesar das elaborações, exageros e elementos místicos que entraram no pensamento hebreu e cristão, no tocante aos demônios, essas noções são corretas quanto à temível realidade dos demônios e sua capacidade de influenciar e de apossar-se de pessoas.

Referindo-se a Tertuliano, Champlin considera ainda:

As próprias Escrituras nada nos informam acerca dos demônios, pelo menos em termos bem definidos; por isso mesmo, a sua identificação com os anjos caídos pode representar ou não a verdade. Se isso representa a verdade, mesmo assim, pode não representar a verdade inteira sobre a questão. Muitos casos de possessão demoníaca parecem demonstrar que alguns demônios, pelo menos, são de fato entidades que antes eram seres humanos comuns.

O positivista Aldous Huxley, criticando com dureza o processo inquisitivo de Loudun (França), discorreu sobre o demônio com importante papel a desempenhar no mundo religioso como personalidade ativa, não restando ao homem somente o recurso da oração.

Os demônios desempenharam até pouco tempo atrás um papel muito importante na religião cristã – e isso desde seus primórdios. Porque, como observou o Padre A Lefèvre, S. J., “o Diabo ocupa uma posição muito irrelevante no Velho Testamento; seu poder supremo ainda não se revelara. O Novo Testamento o mostra como o chefe das forças coligadas do mal”. Nas atuais traduções do pai-nosso, pedimos para sermos livres do mal. Mas será que o apo tou ponerou é neutro, em vez de masculino? Não está implícito na própria estrutura da oração que a palavra se refere a uma pessoa? “Não nos deixes cair em tentação, mas (pelo contrário) livrai-nos do Diabo, do Tentador.” O crescimento da ênfase nos demônios é muito grande. Há grupos que estabelecem relação de determinados demônios com certos problemas: demônio da bebida, do machismo, da pobreza, etc. Numa espécie de neo-maniqueísmo o mundo é dividido entre Deus e Satanás (e seus anjos maus), e quase todo conflito é visto em função dessa pretensa atuação demoníaca.

Para verificar a progressão do conceito dos demônios é preciso ver os dados bíblicos disponíveis, ou seja, o Primeiro e o Segundo Testamento.

3. 1º TESTAMENTO

Não se encontra possessão demoníaca no Primeiro Testamento, a não ser a possessão de Saul (1 Sm 16,14-23). Essa possível “possessão” vem de Deus, ou seja, de um espírito vindo diretamente de Javé. Um estudo mais detalhado indica que a demonologia judaica tem origens externas (outras religiões). Mesmo Davi é chamado de Satã (adversário), cf. 1 Sm 29,4. Conclui-se que originalmente Satanás é um ser humano. Em Jó, Satanás faz parte da corte celestial, chamado de filho de Deus (ben-elohim). Em Tobias 6,7 (livro considerado apócrifo ou deutero-canônico) há uma fórmula de exorcismo primitiva: oração e ritual (além de se queimar um fígado de peixe- para a cultura celta o salmão é um peixe sábio). Para as tribos de Javé, porém, não havia “necessidade de corporificar uma entidade maligna. Para eles, Jahveh, era um deus tribal e, como tal, superior aos deuses das tribos vizinhas, que se colocavam, assim, como seus adversários e como expressões naturais da maldade, tornando supérfluas qualquer encarnação suplementar do Mal. Mas é óbvio que a crença deveria crescer e solidificar-se, tal como atesta Weise.

Mais tarde a concepção de Israel a respeito de Deus modifica-se já sob vários aspectos: ao lado de Iahweh, ou em seu lugar, aparece o mensageiro de Deus, para comunicar a vontade divina aos homens (Ex 3). A partir dos dois últimos séculos antes de Cristo, Deus é representado como o absolutamente transcendente, inatingível. O grande vazio entre ele e os homens é ocupado, então, cada vez mais, de acordo com as concepções religiosas de Israel, por seres intermediários, aos anjos. São estes seres que agora estabelecem o contato entre Deus e o homem. Esta evolução é importante também no que respeita ao aparecimento da idéia de um poder mau personificado. O ponto de partida desta idéia é o problema relativo à origem da culpa, das doenças, da morte e, por fim, também do mal. A resposta mais antiga a esta questão é a narrativa do pecado original (Gn 3): o mal não vem de Deus, mas é causado pela vontade do homem. Aqui ainda não se fala do diabo, mas somente da serpente que seduz o homem, enquanto símbolo de um poder astuto e misterioso, porém inteiramente submetido a Deus. É da época igualmente antiga que provém a frase: “Iahweh instigou Davi” a fazer o recenseamento do povo, recenseamento que, em verdade, não agradou a Deus (2Sm 24). Mais ou menos 600 anos depois, a mesma cena é expressa nesses termos: “E Satanás instigou a Davi (1Cr 21; cerca de 300 a.C.). O que aconteceu nesse intervalo de tempo? Já não se suportava a idéia de que Deus tentasse o homem e, sob influência do meio ambiente em que vivia Israel, adotaram-se então certa concepções a respeito de seres sobrenaturais que, embora submetidos a Deus, eram adversários do homem. Por isto, já por volta de 400 a.C., afirma-se no livro de Jó que Satanás acusa os homens perante o tribunal de Deus, como um dos “filhos de Deus” e membros da corte divina. Em alguns círculos de Israel desenvolveu-se paralelamente uma autêntica demonologia na qual Satanás, de membro que era da corte celeste, foi progressivamente se transformando em um ser dependente, desligado de Deus, tendo sua morada no inferno [mundo subterrâneo] e uma corte de espíritos malignos.

A Bíblia, procura desvincular Deus da origem do Mal, da origem do Diabo, a fim de isentá-lo e, num curto espaço de tempo, personificou outro ser, independente e antagônico. Esse ser era responsável pelo mal que escolhera para si mesmo e para o mundo. Em futuro distante lutaria pela posse de todos os seres. O Diabo se fez a si mesmo.

4. 2º TESTAMENTO

“Jesus é o personagem da Antigüidade do qual o maior números de exorcismos é narrado.” Na Palestina do tempo de Jesus, as pessoas que praticavam o exorcismo, ou a expulsão de demônios, estavam exercendo uma profissão reconhecida e de reputação. Eram magos ou xãmas.

O discurso de Jesus faz do poder do exorcismo um motivo teológico de certa importância. As desordens que se manifestam nos endemoninhados são conseqüências do reino do pecado no homem; os poderes do mal se apoderam da sua liberdade de tal maneira que o homem se tornou vítima indefesa, até no santuário íntimo de sua pessoa.

Seguindo a mesma linha de raciocínio anterior, “... o nome demónio não era por eles [judeus] atribuídos (como acontecia com os gregos) aos espíritos bons e maus, mas somente aos maus. E aos bons demônios deram o nome de Espírito de Deus, e acreditavam que aqueles cujos corpos entravam eram profetas. Em suma, todas as singularidades, quando boas, eram atribuídas ao Espírito de Deus, e as más a algum demónio, mas a um, um mau demónio, isto é, um diabo. E, portanto chamavam demoníacos, isto é, possuídos pelo diabo aqueles que denominamos loucos ou lunáticos, ou aqueles que tinham a doença de cair, ou que diziam qualquer coisa que eles, por não a compreenderem, consideravam absurda.”

Dentro, portanto da cultura semítica, mesopotâmica ou judaica, a presença do Mal eqüivalia à criação de seres responsáveis por ele. Não difere em muito das demais culturas consideradas primitivas das demais sociedades humanas. Sempre há um princípio do Bem e um princípio do Mal, qualquer que seja o nome que lhe for dado. No Brasil, por exemplo, não é diferente. O exemplo da cultura indígena também se pode verificar na cultura de origem africana os mesmo princípios.

Outro aspecto a ser explorado era a forma como a Tradição patrística compreendia os demônios e a possessão. Dentro da patrística é possível perceber, como era esperado, o papel negativo, destrutivo, dos demônios. A crença ainda incipiente, herdada do 2º Testamento, contribui em progresso crescente com relação à demonologia. Mas ainda é possível perceber a presença do elemento mítico. Agostinho foi o que melhor expressou teologicamente, ou formulou uma demonologia com cores e matizes, ainda que medievais.

5. OS PAIS DA IGREJA

Dizem que Santo Agostinho ficava irritado com os demônios. Ele cria que aS bruxas eram fruto do relacionamentos de um demônio com uma mulher. Os demônios juntavam sêmen de homens e injetavam nas mulheres, já que eles não têm como produzi-los. Daí nasciam bruxas. Sua obra Cidade de Deus resumiria sua crença de um mundo bom e um mundo mal. Esses demônios eram chamados de íncubos, e conhecidos também por silvanos e faunos. Íncubos eram demônios que possuíam mulheres. São Clemente acreditava que os demônios, por não terem órgãos, possuíam os humanos a fim de utilizá-los. E todos eram unânimes em concordar que o demônio, em qualquer caso ou situação, não deveria ser levado em conta. Deveria até ser desacreditado. Havia desentendimento e contra senso.

Ele cita o pensamento pagão prevalecente na sua época: “Os deuses ocupam as regiões mais elevadas, os homens as mais baixas, os demônios a região intermediária... Eles têm a imortalidade do corpo, mas as paixões da mente em comum com os homens”. No livro VIII de A Cidade de Deus (iniciado em 413), Agostinho assimila essa antiga tradição, substitui os deuses por Deus, e converte os demônios em diabos – afirmando que eles são, sem exceção, malignos. (...) Ele os chama de “animais aéreos”...

6. CARACTERÍSTICAS DA POSSESSÃO DEMONÍACA

As perguntas: como distinguir a possessão genuína da fraude? ou como saber se realmente é possessão? São relevantes. Existem muitas formas, sintomas e sinais para saber “diagnosticar” esse estado. Estão, de modo geral, de acordo com a Igreja, de acordo com a tradição, de acordo com os teólogos, desde as mais “óbvias” até as mais curiosas e ridículas.

Os testes mais simples é a evidência de falar em uma língua diferente, mas esse teste pressupõe também uma possessão cristã, visto que como sinal de Pentecostes o povo fala em outras línguas. Em acréscimo a esse sinal estão a força física descomunal, a levitação e a clarividência.

6.1. Formas de possessão

Na época da Inquisição, quando o mundo era povoado por demônios, o interesse e a curiosidade pelo assunto beiravam à loucura e à ingenuidade, ao mesmo tempo. À loucura porque satisfazia os desejos secretos dos inquisidores, segundo alguns críticos.

A curiosidade da época descia a detalhes para responder: Como entra um espírito mau no homem? De várias maneiras, explicava-se: com a comida que a pessoa ingere; ou passando por um lugar onde existe determinado espírito; ou com um rito para se obter um espírito; ou por espírito ter se sentido ofendido etc. Sabia-se que eles eram mais ativos à noite. Para alcançar a posse de uma pessoa, o Demônio se instala nas mais variadas formas, suscetíveis de permitirem o ingresso no corpo da vítima. Assim, sabe-se, através de confirmações feitas por Diabos em pessoa, durante exorcismos, que eles penetram através da boca, do ânus, dos órgãos sexuais, e de outras vias não esclarecidas. Afinal, os demônios não eram obrigados a revelar todos os seus segredos.

Nesse ponto é necessário um esclarecimento. Na antropologia judaica é o corpo que possibilita a atuação dos maus espíritos no mundo. Sem corpo, eles não conseguem atuar. O mesmo vale para locais geográficos. Exemplos dessa visão podem ser encontrados na Bíblia, no livro de Daniel e nos livros considerados apócrifos (ou deutero-canônicos).

6.2. Sintomas

Quais são os sintomas de uma possessão demoníaca? Para Edir Macedo é “tudo aquilo que foge ao normal, sem que tenha uma causa plausível.” Podemos resumir em:
a. Doenças e enfermidades físicas
b. Doenças mentais
c. Constantes dores de cabeça ou dores localizadas em outras partes do corpo, não diagnosticadas pela Medicina
d. Insônia
e. Medos e fobias
f. Desejos de suicídios
g. Vícios
h. Nervosismo
i. Depressão
j. Visões de vultos e audições inexplicáveis

Champlin elabora outra lista semelhante, ao que ele chama de sinais de possessão.

a) Fenômenos psíquicos
b) Enfermidades em geral
c) Personalidade múltipla
d) Crenças errôneas (heresias)
e) Agitação interior (falta de paz)
f) Falta de controle sobre os vícios
g) Perversões sexuais
h) Malignidade de toda sorte (violência)
i) Atitudes e Atos anti-sociais
j) Ódio
k) Espíritos que atacam e se retiram (tática de guerrilha)
l) Espíritos malignos difíceis
m) Variedade de espíritos possuidores
n) Comportamento ameaçador
o) Limites impostos aos espíritos
p) Contorções faciais típicas
q) Vozes (interiores)
r) Melancolia

6.3. As manifestações do endemoninhamento violento

(1) Mudança da personalidade, afetando a inteligência

(2) Mudança física, afetando a voz, etc

(3) Mudança mental (conhecimentos ocultos)

(4) Mudança espiritual (contra Deus)

“Aliando-se aos doutores da Igreja, os médicos medievais acrescentaram outras dezessete evidências, das quais citaremos apenas algumas mais pitorescas que denunciam um universo preso a uma obsessão demoníaca”:

- quando a doença fosse tal que os médicos não conseguissem descobri-la nem conhece-la;

- quando, sob a ação de todos os tratamentos possíveis, em vez de se apaziguar, a doença se agravasse;

- quando o mal se revestisse, logo de início, de grandes sintomas e dores, ao contrário das doenças comuns que aumentam pouco a pouco;

- quando a pessoa soltasse suspiros tristes e lamentosos sem nenhuma causa legítima;

- quando perdesse o apetite e vomitasse a carne ingerida;

- quando se tornasse impotente ao mister de Vênus (relações sexuais);

- quando se mostrasse perturbado, assustado, ou fosse tocado de alguma mudança notável, ao penetrar no recinto onde se encontrasse a pessoa suspeita de lhe haver feito mal;

- finalmente, quando, no intuito de sanar o mal, o padre houvesse aplicado unções sagradas nos olhos, nos ouvidos, na testa e em outras partes do corpo, e essas partes viessem a eliminar suor ou apresentassem alguma outra modificações.

6.4. Causas

As causas do endemoninhamento dentro do levantamento histórico efetuado também contemplam a opinião de diversos autores, alguns já citados. A grande maioria está relacionada à ausência da proteção divina derivada da prática constante de algum pecado (segundo a crença evangélica). Além disso, existem outras práticas (ou predisposições que facilitam a entrada de um demônio em uma pessoa). Segundo Neuza Itioka e R. Champlin, as causas da possessão podem ser, respectivamente:

(1) Quando as leis de Deus são quebradas

(2) Reações a desastres e calamidades

(3) Músicas com determinados ritmos

(4) As drogas

(5) A embriaguês através de bebidas fortes

(6) A manipulação dos poderes assim chamados parapsicológicos

(7) O exercício da passividade

(8) Culto aos ancestrais

(9) Pecados de imoralidade


6.4.1. Predisposições que encorajam a possessão demoníaca

a) Uma vida de dissipações

b) Freqüentar lugares de má fama

c) Participação em ritos onde baixam “espíritos’

d) Vida vazia

(e) Música sensual

f) Vícios

g) Pactos

h) Misticismo

i) Ocultismo

j) Crianças suscetíveis aos espíritos dos mortos


No Tratado Sacerdotal Sammarinus, documento antigo, existe dezessete formas de um sacerdote reconhecer a possessão demoníaca.

COMO RECONHECER A POSSESSÃO (segundo o Tratado Sacerdotal Sammarinus)

1 – Quando o suspeito não consegue comer carne de cabra no espaço de trinta dias. Entretanto, esse sinal se refere mais provavelmente aos epiléticos;

2 – Quando o indivíduo apresenta fisionomia assustada, olhar espantado e aspecto hediondo;

3 – Quando simula estar louco, crescendo continuamente o volume do seu corpo e sua força;

4 – Quando não consegue pronunciar o Santo Nome de Jesus ou de qualquer outro santo, nem cantar os Salmos “Miserere meu Deus”, ou “Qui habitat”, o Evangelho de São João, que começa com “no princípio era o Verbo”, e outras coisas do gênero;

5 – Quando se exprime em grego, latim ou outro idioma que jamais haja aprendido, ou lê, escreve, canta musicalmente e realiza outras coisas que não lhe foram ensinadas;

6 – Quando se torna mudo, surdo, lunático, cego, que são sinais assinalados pela Sagrada Escritura;

7 – Quando, ao ser exorcizado, sente descabidamente um vento frio ou quente na cabeça, nos ombros e nos rins, e se transforma, se aflige a blasfema;

8 – Quando experimenta dores e sintomas extraordinários, como violentas cólicas nas entranhas e partes internas, sensações como vermes, formigas, rãs, a correrem desde a cabeça até o resto do corpo, até os artelhos, quando o ventre se dilata, ou o pescoço, ou a língua, ou quando se reconhece exaltado no seu estado de ânimo;

9 – Quando, por alguma razão secreta, deixa de assisti ao Serviço Divino, de fazer orações de acordo com o seu hábito, de tomar água benta, de ouvir a palavra de Deus;

10 – Quando se mostra vexado ou encolerizado ao aplicar-lhe o padre as relíquias dos Santos, os Agnus Dei, ou quando, nas preces, o sacerdote recorre ao Sinal-da-Cruz, às coisas bentas e, principalmente, ao Santo Sacramento do Altar;

11 – Quando se eleva e logo desaparece uma bolha na sua língua. Quando se elevam diversas bolhas, semelhantes a pequenos grãos, trata-se de sinal mais digno de nota, concluindo-se, à vista das bolhas, qual o número de Demônios alojados no corpo do indivíduo;

12 – Quando o indivíduo se revela presa de constante inquietação, andando para cá e para lá, principalmente em busca de lugares solitários e desertos;

13 – Quando está tolhido em todos os seus membros, mantendo-se sempre adormecido como morto;

14 – Quando não consegue suportar o aroma das rosas ou outros determinados perfumes;

15 – Quando revela fatos absolutamente secretos e os denuncia manifestando desprezo por Deus e dirigindo injúrias aos vizinhos;

16 – Quando se torce ao ser exorcizado, faz meneios, se curva e contorce o corpo e os membros de maneira imprevista e inadmissível numa criatura;

17 – Finalmente, quando o Demônio, seja de que forma for, lhe apareceu antes que tivesse noção de estar possesso.


Para Macedo a manifestação da possessão demoníaca é bem simples. Basta o indivíduo ouvir a pregação do Evangelho.


6.5. Tipos de possessão/endemoninhamento

A terminologia demoníaca, ou seja, a terminologia dos tipos de possessão não é uniforme. Alguns falam de possessão propriamente dita, endemoninhamento, invasão, obsessão, tormento por espectros e até circumissessão. A presença do demônio da vítima se dá por período de crise ou permanentemente. No caso do endemonhiado gadareno, ele estava atormentado por vários demônios ao mesmo tempo. “No Malleus maleficarum [manual do inquisidores], com base na melhor autoridade possível, declara-se que os demônios não possuem vontade e compreensão, mas somente o corpo e as faculdades mentais mais estreitamente ligadas a este. Em muitos casos, os demônios nem possuem o corpo inteiro do endemoninhado, mas uma pequena parte dele – um único órgão, alguns músculos ou ossos.” Da mesma forma que os demônios eram considerados (referentes à sua natureza) ígneos, aéreos, terrestres, aquáticos, subterrâneos e lucífugos , também as formas e os tipo variavam. Alguns chegavam a se disfarçar de alimento para entrar na vítima.

Quando deseja penetrar, de qualquer forma, disfarça-se até de pedra, pássaros, insetos em geral (nunca se sabe quando o mosquito que zumbe à noite é um demônio... cuidado, portanto, ó mortais), animais domésticos, etc.

Portanto, o coração humano não está livre das possessões, na opinião do crítico de Loudun (Aldous Huxley), mesmo o “coração permanentemente vigiado e controlado torna-se receptivo a todas as graças, e finalmente é ‘possuído e governado pelo Espírito Santo’. .. Mas, durante o percurso para esse fim desejado, pode haver possessões de espécies muito diferentes. Pois de forma alguma todas as inspirações são divinas, ou mesmo edificantes ou convenientes. Como poderemos distinguir entre as orientações do não-Eu que é o Espírito Santo, e daquele outro não-Eu que é algumas vezes um tolo, ou um louco, ou mesmo um criminoso malévolo?”

No início dos tempos moderno, apesar de um reavivamento do “sagrado selvagem”, ainda não se pode ver nenhum esclarecimento do aspecto social da possessão. Como foi visto acima, na Idade Média, o Escolasticismo, cria-se em um mundo de três andares: inferno abaixo, terra no meio e céu acima. Com o Iluminismo e a progressão científica muitas situações que poderiam ser creditas ao diabo, agora têm explicações racionais e razoáveis, principalmente no que se refere às doenças.

7. DOENÇAS
7.1. A doença e a possessão

Tem sido cada vez mais apregoado pelos meios de comunicação, rádio e tv, por igrejas neopentecostais, que todo o mal, incluindo a doença, vem do diabo. Revive-se, assim, a crença primitiva de que aquilo que não é bom para o corpo vem do mal. Na Mesopotâmia existiam demônios para cada doença e para órgão do corpo (todos esses demônios tinham nome). Para a febre existia, por exemplo, um demônio específico.

As causas que associavam doenças a demônios vinham de longe, com raízes na Babilônia e no Egito. De fato, na Mesopotâmia as doenças foram atribuídas aos demônios, aos monstros e outros seres maus. A cura era baseada por meio de orações e textos de encantamento. Portanto medicina estava entrelaçada com religião e magia, fé e crença em forças ocultas.

Em geral, a religião não permitia desde essa época que o fiel consultasse qualquer tipo de médico. No 1º Testamento, a figura do sacerdote reunia as qualidades de curandeiro e o homem de ligação com Javé. Procurar um médico e não utilizar o recurso da oração consistia em falha grave. Comparavam-se os médicos aos embalsamadores egípcios. Por volta do século II já se admitia a consulta a um médico (p. ex. Lucas), mas somente depois de se ter ido ao Templo.

Para doenças vistas como conseqüência do pecado deveria haver um remédio religioso, uma mágica, um ritual. O medico se utilizava, então, do método do exorcismo como forma de cura. A doença também era considera impureza, o que impedia o acesso do doente ao Templo, tendo que adquirir alguns passaportes para esse fim (comprar animais para o sacrifício).

No manual de doutrinas da IURD, Macedo diz que todas as enfermidades têm uma origem em comum, i.e., que são causadas por um espírito de enfermidade ou uma bactéria demoníaca. Por isso, em muitos casos, dar-se ordem aos loucos e lunáticos para que todo mal saía do corpo do homem “possuído”.

Retornando à interpretação do mundo grego, a doença era sinal de possessão.

Outras interpretações é a de que a doença era um sinal de que o demônio tomou posse da pessoa. Muitos povos primitivos, particularmente os gregos, responsabilizavam os deuses pelas doenças; assim, por exemplo, a palavra “influenza”, que significa gripe, originalmente significava que alguém está sob a influência maligna dos astros – os deuses podiam curar desde que lhes fossem oferecidos um sacrifício apropriado.

Da mesma forma que na Mesopotâmia as doenças eram e atribuídas aos demônios e, no judaísmo as doenças psíquicas eram consideradas como diabólica, no Brasil, semelhantemente os Exús e outros deuses de origem africana, são responsáveis pelas doenças: credita-se a Exú as doenças das vias bucais. Há referências aos demônios das dores de cabeça nas tabuinhas cuneiformes da Babilônia. O processo de cura para as “doenças de possessão’ se daria através do ritual de “exorcismo”. O exorcismo é a prática mais comum para qualquer caso de possessão.

7.2. Exorcismo e cura

Dentro do processo de formação da crença em espíritos possuidores, da explicação sobrenatural daquilo que não se compreende ou não se aceita, foi necessário descobrir como curar ou “extrair” o espírito de dentro da pessoa. De forma primitiva, dentro da crença das várias épocas, destacam-se alguns métodos: processos eméticos, processos purgantes, processos de sangria e processos a quente (nos primeiros casos fazia-se o possesso vomitar até perder a alma). Utilizava-se também do calor , colocando-se a cabeça do possesso dentro de um forno, como forma de expelir o demônio.

Esperava-se que o demônio saísse desta forma. Se não saía pela “porta da frente”, tentava-se fazê-lo sair pela retaguarda, empregando purgantes com vontade. Persistindo a ação demoníaca, os “médicos” aplicavam sangria, na vã tentativa de expulsar o Diabo de dentro do corpo da vítima.

A possessão e exorcismo poderiam, talvez, ser considerado fenômenos culturais por serem encontrados em quase todas as culturas. Sempre existe alguma forma de possessão e alguma forma de exorcismo. Analisando a cultura geral de povo pode-se perceber qual o seu grau de compreensão e interação com essa questão. A cultura indígena brasileira e a cultura africana permitem, com certa liberdade, uma reflexão mais correta.

Para os cristãos a cura está em Jesus Cristo, Deus.

8. CULTURA
8.1. Indígena brasileira

Outras culturas têm explicações diferentes para a presença do Bem e do Mal no seus meio, diferentes do dualismo ocidental. Dentro da cultura latina, os colonizadores “demonizaram” as crenças das terras conquistadas. Aquilo que acreditavam ser diferente era anticristão. Ao realizarem a primeira missa na Terra de Santa Cruz, crucificaram os índios como hereges. Esse primeiro ritual cristão de posse desfigurou o verdadeiro sentido da cruz. Mas também os mataram, que mesmo depois de mil anos não ressuscitarão. Contarão em suas lendas como foram possuídos pelo homem branco sem cura ou exorcismo.

Entre os índios o exorcismo era conhecido.

Entre os índios do Brasil a possessão pelos espíritos é um fenômeno mais do que conhecido. O ciclo de lendas do Jurupari, relacionado com herói civilizador que trouxe a organização patriarcal, inclui o fenômeno de possessão como algo bastante comum. O espírito do herói pode ser incorporado mediante técnicas especiais, em cerimônias secretas, a que só podem comparecer os homens. Por vezes, espíritos contrários tomam conta de alguns membros da tribu e são esconjurados, por meio de invocações e furmigações. Para os índios avás-canoeiros, de Goiás, não existe o mal como força eterna e absoluta. A força cósmica é sempre boa, positiva. Por isso eles riem dos brancos que vivem num dilema constante entre um deus bom e um deus agressivo. Esses povos admitem o mal na terra, por exemplo, na cobra, mas este depende totalmente da experiência humana. A cobra só faz mal se alguém mexer com ela. A culpa não será da cobra, mas sim de quem vai provocá-la.

A teologia indígena, portanto, já elaborava de forma bem avançada a reflexão sobre o bem e o mal, não necessitando de teólogos oficiais e demonstrando sabedoria.

8.2. Africanos

Os africanos também foram demonizados em seus costumes, cultura e religião. Assim, obrigatoriamente foram aceitando certa superioridade da cultura do exílio, relacionando–a a um fator sócio-econômico. Verifica-se o preconceito religioso.

O próprio negro brasileiro, ao estudar a religiões africanas de seu país, aceita o ponto de vista do branco, o da superioridade da civilização ocidental. Tende-se inconscientemente a admitir que o candomblé não pode fundamentar ou postular uma filosofia do universo e uma concepção do homem, diferentes sem dúvida das nossas, mas tão ricas e complexas quanto estas, a pretexto de que o fiéis dessas religiões pertencem em geral às camadas mais baixas da população – empregadas, lavadeiras, proletários.

Na opinião de Neusa Itioka, “os negros teriam todas as razões para confundir os santos católicos com os orixás do seu animismo ou fetichismo.” [Itálicos deste autor]. Essa afirmação demonstra como ao demais estudiosos evangélicos, o preconceito sobre aquilo que desconhecem, além de tratar-se de uma afirmação racista ao creditar ao negro a impossibilidade de reflexão, o que poderia ser sintetizado nas palavras do sociólogo Roger Bastide. Ele considera que “... é preciso demonstrar que esses cultos não são um tecido de superstições, que, pelo contrário, subtendem uma cosmologia, uma psicologia e uma teodicéia; enfim, que o pensamento africano é um pensamento culto.”

Além disso, torna-se necessário reagir imediatamente contra um preconceito pejorativo que ameaça desnaturar a descrição dos fatos etnográficos; que impedia, na realidade, a compreensão do verdadeiro significado das cerimônias e dos gestos, apresentando-os antes como uma espécie da caricatura ou de degradação.

Ainda, na opinião de Bastide, o candomblé é uma imagem de sociedade divina. Portanto, ao citar a possessão (ou êxtase – como chama Bastide) é falar de uma possessão divina, dentro da concepção africana. Os evangelicais ocidentais vão “discernir” que o que os possui nos seus domínios (nos seus terreiros) são demônios. É a demonização em curso histórico.

(Haveria ainda espaço para falar de outras religiões, por exemplo, o Hinduísmo, onde Brahma é neutro. Nele não há maldade nem bondade).

Caminhando ao lado do preconceito cultural (demonização da cultura), ainda existe o preconceito de gênero (demonização da mulher), “como parte mais fraca”.

8.3. Preconceito de gênero: a mulher

Dentro da maioria das religiões a mulher ainda é a maioria, porém a mais discriminada. Torna-se a “mais possuída” em todos os sentidos. Ainda que seja por mais vezes objeto do divino, também foi por muitas vezes instrumento do Mal. À mulher coube a culpa histórica de introduzir no mundo o pecado.

Crossan, citando Ioan Lewis, comparou opressão com possessão:
Ioan Lewis chamou atenção para a conexão existente entre possessão e a opressão, quer esta tome a forma de sujeição sexual e familial das mulheres aos homens, ou da racial e imperial de um povo a outro. No primeiro caso “os cultos de possessão feminina são (...) movimentos de protesto quase explícitos contra o sexo dominante (...) Dentro da sua função social a possessão por espíritos estrangeiros surge como uma estratégia agressiva oblíqua” (31,32). No segundo caso, as sociedades em que persistem cultos de possessão centrais geralmente são compostas por pequenas unidades sociais fluidas, expostas a condições ambientais particularmente rigorosas, ou comunidades conquistadas que vivem sob o domínio da opressão estrangeira” (35).

Dentro desse aspecto social, a mais penalizada será a mulher, uma vítima por excelência.

Incorporando, pois, todas as crenças da Antiguidade, amplificado pelo discurso da Igreja, o Diabo preside a vida comunitária cristã. Em toda parte se vê o diabólico, o mundo inteiro é por ele invadido. E sua vítima é, por excelência a mulher. Porque a mulher está mais predestinada ao Mal que o homem, segundo os textos bíblicos – “Toda a malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher; que a sorte dos pecadores caia sobre essa!” (Eclesiástico 25:26) – e os primeiros teólogos cristãos.

“Desde o princípio, foi a mulher que Deus nomeou como antagonista do espírito do mal (Gn 3,15).” Essa interpretação ainda está vigente no meio evangelical. Mas essa nomeação não a exclui de ser portadora do mesmo mal que antagoniza e às vezes personifica.

Também não havia clemência na opinião dos padres da igreja sobre as mulheres e o diabo.

Mas, de acordo com os textos dos Padres da Igreja, nos primeiros séculos, havia ao mesmo tempo uma visão teológica contrária em relação ao papel das mulheres. Elas é que eram consideradas as tentações dos homens, que procuravam levar o homem à queda. Em alguns desses textos, parecia que as mulheres não tinham papel algum a desempenhar na criação, exceto como instrumentos do Diabo e como tentações a serem vencidas. Em muitos casos os textos bíblicos, com suas formulações, serviram como fonte de opressão, sobretudo das mulheres. Em outros casos, eles trazem a luta de muitas mulheres que não se conformaram com a triste realidade à qual eram submetidas. O texto bíblico também é produto de uma determinada cultura histórica, muitas vezes androcêntrica e patriarcal. Resgatar isso nos possibilita uma leitura libertadora, não só em relação à mulher, como também ao homem. Também nos oferece pistas de como velhos paradigmas, que só serviam para legitimar o poder de uns em cima de outros, podem ser superados, em favor da busca e da construção de novas relações de gênero entre mulher e homem.

A dominação da mulher por círculos de poder poderia ser chamada de possessão. Os círculos de poder (pode-se chamar de demônios) podem ser a igreja, os homens, os códigos culturais, etc. Por mais incrível que pareça, a sexualidade é o maior campo de possessão, tanto feminina como masculina. “É a descoberta da sexualidade como reciprocidade, mas também como fator de dominação. A serpente é um símbolo de dominação: seu culto era bastante difuso no norte do Estado de Israel. (...) Cobrir as genitálias, as dores de parto, o desejo que leva à dominação, a hostilidade da mulher com a serpente (Gn 3,15-16): tudo isso é confirmação do projeto de dominação que a serpente representa. Ela é astuta (é símbolo também de sabedoria), e pode enganar. Pela sexualidade pode-se enganar, também! E a mulher, não por ser mais fraca, mas por estar mais ligada à geração da vida, é mais exposta que o homem a este engano. (...) devemos pensar no sistema de dominação patriarcal, cujo símbolo é a serpente, reafirmado e reforçado pelo cristianismo posterior.” O papa Gregório Magno, em seus Diálogos, conta que uma pobre freira, tendo entrado na horta do convento para colher alfaces e comido, sem a oração devida, um pé de alface no qual um diabo se escondia, ficou por isso endemoniada.

Curiosamente, tanto havia demônios-machos (súcubos) como demônio fêmea (íncubus). De duas formas a mulher era possuída. Deitam-se com as mulheres ou as corrompem, pois são fracas e culpadas.

Os súcubos (“os que deitam por baixo”) eram demônios fêmeos que assaltavam os homens adormecidos, sob o aspecto de mulheres formosas, às vezes virgens, impelindo-os a quebrarem os votos de castidade ou, no caso de homens casados, a cometerem adultério. (...) Os íncubos (“os que se deitam por cima”) representavam a contrapartida masculina, buscando corromper a mulher, deflorando-a, se fosse virgem, ou arrastando as esposas ao adultério.

Para a mulher não havia fuga possível. Ou era possuída pelo mal ou era geradora dele. A sexualidade é uma das maiores formas de possessão de gênero.

III. PARTE
1. Em nossos dias...

Dizem que o “Deus e o Diabo dos brancos chegaram ao nordeste [do Brasil] nas caravelas de Pedro Alvares Cabral”. Provérbios e contradições à parte, toda conquista diviniza ou demoniza, a exemplo dos conflitos que envolvem árabes e norte-americanos neste tempo (século XXI). Não poderia deixar de ser diferente no tempo de Jesus, com a conquista romana, onde a população sofria forte pressão de ambos os lados. Nesse contexto a explicação da possessão como fator social fica ainda mais evidente. Seria uma espécie de protesto.

Na antropologia e nas demais ciências sociais “pode-se observar um interesse pelo ambiente social em que o indivíduo está inserido; o problema é visto já dentro do campo de interação entre o indivíduo e o grupo social”. Deve-se, portanto analisar que relação existe entre grupo social e possessão demoníaca. Dessa interação derivam os “demônios” que o invadem sem permissão. Entre tornar-se possesso e ser possesso existe uma grande diferença, pois tornar-se implica no resultado de um processo externo e ser implica em um processo interno. Tanto o oprimido como o opressor podem tornar-se ou ser.

O historiador Joseph Campbell exemplifica melhor essa tese:
“Um professor”,escreveu Leo Froebius em um famoso ensaio sobre a força do mundo demoníaco (daimoniacós) na infância, “está escrevendo em sua mesa de trabalho e sua filha de quatro anos está correndo pela sala. Ela não tem nada para fazer e o está perturbando. Então, ele dá a ela três palitos de fósforos queimados, dizendo: ‘Olhe, brinque com isto’, e ela senta-se no tapete e começa a representar com os fósforos, Joãozinho, Mariazinha e a bruxa. Assim passa um bocado de tempo, durante o qual o professor se concentra em seu trabalho sem ser interrompido. Até que, de repente, a menina grita aterrorizada. O pai corre, perguntando: ‘O que é? O que aconteceu?’ A menina corre para ele, mostrando todos os sinais de pânico. ‘Papai, papai’, ela grita, ‘tire a bruxa daqui! Não suporto mais a bruxa!” “Uma explosão emocional”, observa Froebius, é uma característica de uma mudança espontânea de idéia, do nível dos sentimentos (Gemut) para o da consciência sensorial (sinnliches Bewusstsein). Além do mais, o surgimento de tal explosão obviamente significa que determinado processo espiritual se completou. O palito de fósforo não é uma bruxa; tampouco o era para a menina no início da brincadeira. O processo, portanto, está no fato de o fósforo ter-se transformado numa bruxa no nível dos sentimentos e conclusão do processo coincide com a transferência dessa idéia para o plano da consciência. A observação do processo escapa à avaliação do pensamento consciente, pois ela entra na consciência apenas após ou no momento da conclusão. Entretanto, desde que a idéia é, ela deve ter-se tornado. O processo é criativo, no melhor sentido da palavra; pois, como vimos, para uma criança um palito de fósforo pode tornar-se uma bruxa. Concluindo: a fase do tornar-se ocorre no nível dos sentimentos, enquanto a do ser está no plano consciente.

O escritor russo Dostoievski, na sua obra Os Demônios, onde nenhum personagem é um espírito mal – todos são humanos, transmite a mensagem de que o mal “tem realidade na medida em que o demônio faz de uma criatura um possesso”. Está implícito o processo de tornar-se.

Seria incorreto, então, concluir que no “seio da própria igreja há uma atividade demoníaca” , na medida em que os demônios são invocados para depois serem rechaçados sob o poder de Deus? Filosoficamente o ser torna-se não-ser para depois de “liberto” retornar a ser o que era antes. É um paradoxo de transformação invocar – fazer se manifestar - para depois expulsar. Quais serão as alterações físicas e emocionais por quais passará o indivíduo nesse processo de “possível” cura (exorcismo)?

Na verdade, dentro de um ambiente social de opressão política, religiosa e econômica o indivíduo passa por um processo religioso de cura/exorcismo, quando essa pretensa cura é apenas um paliativo para a doença que reside em outro lugar. A tentativa de esclarecer o verdadeiro lugar da doença continua.

2. O AMBIENTE SOCIAL

O mundo ainda vive o conflito dualista entre o bem e o mal.

As forças destruidoras da vida ainda estão entre nós: doença, alienação, pobreza, miséria, exclusão, preconceito, desemprego, violências, poluição, destruição do meio ambiente, corrupção, drogas, vícios etc. São os demônios e os espíritos maus de hoje.

A sociedade é culpada por causar distúrbios nos indivíduos. Os comportamentos estranhos são uma forma de protesto, de reação, p. ex., a possessão. Ou seja, procurar a causa apenas no indivíduo não é o melhor caminho a percorrer, embora o individualismo concorra com um mal solitário deste século. O evangelicalismos e o fundamentalismo focalizam o problema apenas no indivíduo que não se integra, responsabilizando-o inteiramente pelo mal que o possui. Daí resultam os adjetivos de que é cunhado: pobre e maldito, impossibilitado de se comunicar com Deus.

O possesso geraseno representa ...a exclusão social com todas as suas conseqüências: “desajustamento social”, enfermidades psíquicas, redução da pessoa ao nível vegetativo, sem capacidade de comunicação.

No ambiente social onde estes fenômenos ocorrem, atualmente, não foi possível perceber ainda uma prática inclusiva, a prática de Jesus, que interferisse no processo de exorcismo sem deslocar o foco da questão. Segundo Émile Durkheim, sociólogo, deve-se afastar “sistematicamente todas as prenoções”, pois é a base de um método confiável de investigação e estudo. As prenoções são como dogmas milenares do cristianismo e da cultura.

3. SOCIEDADE E EXORCISMO SOCIAL

A sociedade atual precisa de exorcismo, mas a religiosidade cristã por vezes atrapalha, como bem expressa Bráulia Ribeiro, missionária da Jocum na Região Norte do Brasil. Perdeu-se o foco da libertação.

A nossa religiosidade rasa às vezes nos leva a exorcizar pessoas, e não demônios. Um verdadeiro ato de amor a Deus e aos pobres exorciza os demônios que habitam nossa consciência social e atrai aqueles a quem Deus ama para libertá-los.

O teólogo Irineu J. Rabuske afirma que espírito e demônios tem papéis baseados naquilo que cada sociedade lhe atribui de bom ou mal. Isso é significativo porque é ideologicamente concebido, intencionalmente explorado. Mas, por outro lado, estão claros os componentes que contribuem para a ideologia da possessão. O papel do cristianismo contemporâneo reside na verificação correta do mal e no remédio apropriado.

Muito do que os exorcistas da Igreja antiga conseguiram por meio de esconjuro, hoje deve ser alcançados mediante médicos e cientistas, economistas e políticos. Os exorcistas cristãos primitivos compartilhavam um movimento amplo e excedente ao próprio âmbito das comunidades, do qual (o movimento) o mundo daquele tempo esperava alívio para os seus males. Se o cristianismo atual quiser assumir parte desta preocupação dos antigos exorcistas, então necessita percorrer os caminhos que hoje para isso são necessários, isto é, deve realizar exorcismos mediante a razão e o esclarecimento.

4. CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS

A possessão demoníaca contém o germe da violência porque o indivíduo alienado não consegue distinguir a causa de seus atos, nem o que seus atos significam. Isto acontece porque aquilo que o possui pensa e dirige as cenas da sua vida. Ao se tornar violento, ele representa a sociedade. O mal que ela lhe causa retorna para ela mesma. Visto que as sociedades são violentas por natureza, surge a necessidade de sublimação, compensação, o que indica logo seguir, a criação de um bode expiatório, sintetizado na figura do demônio.

O autor [R. Girardi] recorre ao princípio do bode expiatório, isto é, a violência expulsa a violência, como base da organização das sociedades. Alicerçadas nesse princípio, as sociedades são violentas por natureza e, como tal, necessariamente sucumbem pelo princípio de divisão interna.

Assim, ao nascimento de um indivíduo, de acordo com Durkheim, a sociedade já o aguarda com seus códigos e seus intérpretes autorizados, fórmulas prontas, que existem fora de si mesmos. Portanto, o indivíduo possuído com o germe da violência traz dentro de si a compensação de um bode expiatório, porque a sociedade já definiu isso antes dele nascer. Então, se outro “ser” o comanda, questiona-se se esse homem é culpado.

Não é possível esquecer os demônios - os outros demônios - contemporâneos semelhantes aos da violência. A questão econômica de uma nação pode sofrer o males do “demônio da inflação”, por exemplo. Esse esquema, ou sistema negro de anulação pessoal exige prática igual à de Jesus Exorcista, a fim de esboçar, mesmo que, timidamente, um exorcismo social, ou seja, exorcizar a sociedade, exorcizar as entidades e instituições demoníacas, quer cidades, estados, governos ou igrejas.

Têm-nos temidos, como coisas [os demônios] de um poder desconhecido, isto é, um poder ilimitado para fazer o bem e o mal, e consequentemente, têm dado ocasião aos governantes dos Estados gentios para controlarem assim seu receio, estabelecendo aquela demonologia (na qual os poetas, como sacerdotes principais da religião pagã, eram especialmente empregados, ou respeitados) necessária para a paz pública e para a obediência dos súditos, e para tornarem algum deles bons demónios, e outros maus, uns como esporas para a violência, os outros como rédeas para impedi-los de violar as leis.

Os grupos que se fecham a uma explicação razoável ou racional, mesmo sendo parte da solução e vêem nesses fenômenos de possessão algo de outro mundo são grupos fundamentalistas, que fizeram uma opção ideológica bastante clara e pragmática. Demonizam aquilo que não entendem ou não consegue explicar racionalmente.

4.1. Sociedade possuída

O mundo político do tempo de Jesus expressava essa “demonologia” na violenta dominação romana. Não era uma dominação legítima em termos modernos. Para responder de acordos com as suas forças, o povo elabora suas explicações, visões e cosmologia. É a religião popular produzindo válvulas de escape por meio de mundo sobrenatural. O gadareno está vivendo sob o governo de Roma e poderosas legiões. Quando liberto por Jesus, senta-se como um homem normal, vestido, que articula bem as palavras e expressa, além de tudo, seu desejo de seguir o Mestre. Sua classificação muda de uma hora para outra. Há um nexo entre doença e possessão e classes sociais. O gadareno, por assim dizer, muda de classe social.

A religião popular de uma sociedade – não a de uma igreja na sociedade – prescreve palavras de ordem que apenas recobrem, com os termos do sagrado, o código de trocas das classes de que é parte, ocupando um dos seus setores de produção simbólica de serviços e significados e respondendo por funções de atribuição de legitimidade, não apenas de uma ordem dominante de relações, como se afirma com freqüência, mas principalmente de modos subalternos de vida no interior dessa ordem, ocupando-se muito mais em estabelecer preceitos de trocas entre os seus próprios sujeitos, do que entre eles e qualquer instituição religiosa.

Ter vez é voz na sociedade somente é possível após um ato de libertação divina. A restauração da comunicação do homem alienado e Deus são possíveis. Chama-se religação, religare, um ato cristão por excelência. Não é possível fazer religação através da batalha espiritual ou quebra de maldições. Se o homem é exorcizado do demônio da pobreza para, assim, se tornar rico, possuidor das riquezas deste mundo, outro demônio o possui: o demônio da riqueza. Há apenas uma troca. A casa vazia permite a entradas de demônios piores. Ou então, Jesus é expulso como foi expulso da Decápolis.

A atitude dos que pedem para Jesus ir embora é a mesma de uma sociedade que valoriza mais as posses dos bens do que a libertação dos alienados e escravizados. Em primeiro lugar, Deus quer que o homem viva. A sociedade que põe qualquer coisa acima da vida humana é sociedade que rejeita Jesus.

A visão de um homem adentrando o tempo do capitalismo (Shopping), consumindo (prestando culto ao deus mercado), lhe dá uma sensação de poder (de compra) que não tem. Ele já possuído pelo espírito do capitalismo e a ética protestante (atual) não lhe permite refletir sozinho. O exorcismo (com x) tornar-se “esorcismo” (com s). Ainda sobre a batalha espiritual são verdadeiras são as palavras de Bráulia Ribeiro na Revista Ultimado:

Senti-me desnudada em minhas motivações. Demônios me atraem, crianças sofrendo, não. Antros de trevas e agentes sobrenaturais de repente se tornaram minha motivação e a da igreja, envolvidos nesse video game gigante, brincando de evangelho. Um evangelho-viagem, cósmico, que vai se distanciando sutilmente do evangelho-terra, evangelho-gente, evangelho-amor, evangelho dos pobres e de Jesus.

(...) A batalha espiritual que não gera transformação de consciência social, transformação ética e moral, que não quebra a nossa hipócrita indiferença de classe média brasileira em relação aos pobres, que não cura nossa sociedade aleijada, não passa de animismo, de feitiçaria. (...) A nossa religiosidade rasa às vezes nos leva a exorcizar pessoas, e não demônios. Um verdadeiro ato de amor a Deus e aos pobres exorciza os demônios que habitam nossa consciência social e atrai aqueles a quem Deus ama para libertá-los.

Há um mal cultural inerente às sociedades humanas. Esse mal cultural rompe o equilíbrio social e religioso. As respostas do homem atual são (e serão) as mesmas do homem antigo. Escapará para o mundo cósmico, onde as potestades e principados guerrearão uma guerra acima dos homens mortais. Isto soa muito homérico, mitológico.

No entanto, qualquer que seja o mal, qualquer interpretação que se lhes dê (está claro que o Mal existe sempre personificado), desestabiliza e desequilibra a vida, trazendo o caos para tudo e para todos. A “fuga para o céu” onde tudo se realiza não é mais platônico (a) porque a filosofia na era do evangelicalismo, de modo geral, é incipiente e não comportaria uma reflexão dessa magnitude. Mas poderia se dizer que tudo ocorre no “mundo das idéias”.

A existência do mal dentro de um grupo social característico torna esse grupo impotente, por um tempo breve ou paralisa a revolta dos excluídos?

No interior de um sistema popular de crenças, onde todos o seres agem como os da Terra e têm, portanto, interesses políticos, a existência do Mal demonstra o seu poder sempre provisório, mas sempre renovado, de romper as normas do equilíbrio da vida, da sociedade e da natureza e introduzir sobre todas as coisas um estado transitório de desordem.

Dentro dessa perspectiva, “a ciência moderna funcionou como uma espécie de exorcista enquanto superou em grande parte as concepções ingênuas antigas, apresentando explicações razoáveis para fenômenos antes atribuídos somente a causas metafísicas”. E ainda assim o homem busca explicações (no sentido de cura e salvação), das mais variadas.

“O homem pode buscar a salvação diante de várias concepções do mal – ansiedade, doença, sensação de inferioridade, dor, medo da morte, preocupação com a ordem social. Ele procura, então, soluções de ordens diferentes: uma cura; a eliminação de agentes maléficos; a sensação de que tem acesso ao poder; uma melhoria da sua posição social; maior prosperidade; a promessa de vida após a morte, de reencarnação, de uma ressurreição do túmulo, ou de uma fama que possa perdurar para a posteridade; a transformação da ordem social (incluindo a restauração de uma ordem social do passado, real ou imaginária). (...) Das várias teodicéias que organizam as diversas promessas e atividades apropriadas para lidar com essas percepções específicas do mal, duas reações são bastante comuns entre os povos menos desenvolvidos: a taumatúrgica e a revolucionária” (492).

Esse paralelismo do exorcismo com a revolução tem sentido. Se o dominador é o demônio em pessoa, a salvação virá apenas pela revolução política e social. A tomada do poder é a vitória sobre o poder das trevas.

4.2. Exorcismo social

Desde que a possessão pode ser social, política, econômica e psicológica, torna-se necessário usar a palavra como forma de comunicação, pois o “demônio fala e ouve” e tem um nome pelo qual é reconhecida sua atuação, como faziam os xamãs mesopotâmicos.

Para dominar nossos maus espíritos/demônios interiores/complexos/pensamentos obsessivos, devemos usar palavras mais fortes para quebrá-los, derrotá-los, sujeitá-los. Acima de tudo, devemos dar um nome a eles. Enquanto continuamos como uma legião anônima que não podemos discernir com clareza, eles são muito assustadores. Mas quando recebem um nome, ou são interpretados pelo analista, eles perdem o poder. Ficam desmistificados.

O reconhecimento daquilo que oprime e possui o ser humano contra sua vontade já possibilita experimentar um antídoto, porque ao serem desmistificados perdem a aura de poder que tanto assusta e se tornam “velhos conhecidos”. Ao utilizar a palavra como meio de exorcismo social, está-se utilizando da linguagem comum, ou então não haveria palavras de ordem em nome de Jesus. A bem da verdade, segundo algumas opiniões, um demônio somente pode ser expulso e repreendido se receber uma ordem para sair em voz audível.

Don Cupitt, teólogo anglicano, afirma com todas as letras que as próprias palavras são demônios e fica a pergunta se um reinado pode sobreviver com divisões internas. Nesse ponto ele concorda com Rubem Alves. Cuppit afirma ainda:

Por conseguinte, os espíritos desmitologizados tornam-se palavras gerais e o enorme poder do mundo espiritual sobre os mundos das experiências sensorial passa a ser o enorme poder que a linguagem tem de formar, ordenar e classificar a realidade. As palavras são demônios que podem com tanta facilidade escorregar direto do mundo externo para os seus pensamentos mais íntimos e deixá-lo profundamente perturbado, e elas são os mensageiros alados que você envia para realizar os mais variados propósitos. Palavras são objetos públicos invisíveis, pairando ao meu redor. Enquanto escrevo, em multidão, como um enxame de espíritos. A linguagem é o poder sobrenatural que nos fez sair do estado natural.

“Somos morada de palavras, possessões demoníacas ou o vento indomável do Espírito Santo.”

5. EXCLUSÃO DE GÊNERO: A DIMENSÃO FEMININA DA POSSESSÃO

De acordo com a afirmação do teólogo Irineu J. Rabuske, “a interpretação religiosa da possessão não é mais possível” . A ênfase numa visão social permite diferenciar os tipos, formas e gêneros de possessão e a conseqüente interação com as demais ciências.

Uma forma de preconceito de gênero, desde a Idade Média, foi feita contra as mulheres. O medo do poder do feminino invadia as mentes masculinas religiosas ao ponto de criarem todo um aparato contra as chamadas “bruxas” e que se chamou de Inquisição.

Outros estudiosos já verificaram a conexão entre possessão e gênero feminino.

Ioan Lewis chamou atenção para a conexão existente entre possessão e a opressão, quer esta tome a forma de sujeição sexual e familial das mulheres aos homens, ou da racial e imperial de um povo a outro. No primeiro caso “os cultos de possessão feminina são (...) movimentos de protesto quase explícitos contra o sexo dominante (... Dentro da sua função social a possessão por espíritos estrangeiros surge como uma estratégia agressiva oblíqua” (31,32). N segundo caso, as sociedades em que persistem cultos de possessão centrais geralmente são compostas por pequenas unidades sociais fluidas, expostas a condições ambientais particularmente rigorosas, ou comunidades conquistadas que vivem sob o domínio da opressão estrangeira”.

O que também é a constatação de Rabuske quando cita Katharina Elliger.

Ao longo da história do cristianismo, na maior parte dos casos de possessão trata-se de mulheres. Katharina Elliger observa que, nesses relatos, as vítimas são, na maioria, mulheres humildes, sem instrução e pertencentes às classes mais baixas da sociedade. Tendo presente a histórica opressão da mulher na sociedade ocidental, é plenamente válido supor que estamos diante de uma categoria social oprimida, de acordo com a já citada tese de Gerd Theissen, segundo a qual as narrativas de possessão do NT são, em grande parte, expressão das classes oprimidas. A pesquisa antropológica tem constatado que, nas diversas religiões, possessão pode ser um recurso mediante o qual mulheres e grupos de pessoas oprimidas e carentes de atenção procuram se fazer valer diante de seus maridos ou superiores.

A melhor de chamar a atenção é a possessão. Todas as atenções se voltam para esse fenômeno extraordinário.

6. O PODER DA LINGUAGEM COMO LIBERTAÇÃO

Aldous Huxley sintetizou o resultado da linguagem na formação do mundo e das ideías de forma brilhante. Nada escapa ao poder da palavra bem dita.

A linguagem é o instrumento do progresso humano para além da animalidade, e a linguagem é a causa do desvio do homem, a partir da inocência animal e de sua conformidade à natureza das coisas, para a loucura e as crenças nos demônios. As palavras são ao mesmo tempo indispensáveis e fatais. Tratadas como hipóteses de trabalho, as proposições acerca do mundo são instrumentos para podermos entendê-lo cada vez mais. Tratadas como verdades absolutas, como dogmas que devem ser assimilado, como ídolos que devem ser adorados, as proposições sobre o mundo distorcem nossa visão da realidade e nos conduzem a todo tipo de conduta imprópria.

Traugot Constantin Osterreich, professor, antropólogo, teólogo alemão, descreve o caminho da linguagem desde a filosofia grega, de acordo com Don Cuppit

.... no decorrer da história do pensamento o mundo arcaico dos espíritos foi transformado por Platão em seu Mundo Inteligível de idéias gerais ou Formas. Mais tarde, de novo, o mundo superior de Platão foi transformado por Kant numa ordem de conceitos mentais, e essa, por sua vez, se transformou na filosofia moderna (na década de 1930) no vocabulário de nossa linguagem. Condensando todo esse longo e complexo processo, vemos hoje, do nosso ponto de vista, que o mundo sobrenatural da religião foi, o tempo todo, uma representação mítica do mundo da linguagem.

A obsessão pelo domínio da linguagem, a descoberta de que linguagem pode introjetar quaisquer idéias nas pessoas mediante técnicas apuradas de neurolinguística (para usar somente este exemplo), transformaram alguns seres humanos em demônios, que visam o tempo todo possuir almas e mentes desavisadas para seus mais perversos fins. Nisto a possessão nada tem de sobrenatural, porque parte diretamente do mundo terrestre onde homens se confundem com demônios mediante uma só palavra.

Aldous Haxley, o homem que pesquisou os eventos de Loudun concluiu a mesma coisa. Ele comenta:
A possessão é mais mundana do que sobrenatural. Os homens deixam-se obcecar por pensamentos sobre uma pessoa, uma classe, uma raça ou uma nação, à qual odeiam. Atualmente, os destinos do mundo estão nas mãos de endemoninhados – homens que se deixam possuir pelo mal que escolheram descobrir nos outros. Eles não acreditam no Diabo; mas fizeram todas as tentativas possíveis para serem possuídos – e obtiveram sucesso. E, uma vez que acreditam ainda menos em Deus que no Demônio, parece bastante improvável que consigam se curar da possessão.

Não existe exorcismo para o homem que procura o mal. Este o consome por inteiro.

7. CONCLUSÃO

A presença do Mal na vida humana é inquestionável. A despeito de a Bíblia trazer uma visão de mundo que não coincide com a visão do século XXI, ainda assim, não se pode negar essa presença nefasta. Muito mais importante do que isso é atitude de Jesus frente ao fenômeno. Jesus, como um exorcista do seu tempo, provou que é possível a libertação do ser humano de qualquer opressão que o aliene. Bastam apenas algumas considerações finais a respeito da perícope de Marcos 5,1-20, a começar pelas questões textuais até a análise teológica.

Conhecendo agora textos que nos mostram Jesus como exorcista. Duas são a provas que eles nos fornecem, a saber: (1) a de que Jesus libertava os homens de determinados males que os seus contemporâneos consideravam como possessões diabólicas; (2) a de que os próprios textos não foram redigidos à maneira dos fatos, como os concebe a moderna historiografia. Ele contém um grande número de elementos formais daquela época, além de uma mensagem bastante explícita. Eles estão a serviço da proclamação da palavra da salvação. Temos aí uma questão, por não tratada, mas que se coloca para o homem de nossa época a respeito deste gênero de narrativa: eram forças realmente pessoais, eram demônios que Jesus expulsava das pessoas? Ou os possessos sofriam de doenças que somente em razão dos conhecimentos insuficientes daquela época e de uma concepção superada do mundo, que acreditava na existência de espíritos bons e espíritos maus, eram considerados possessões diabólicas? Esse tipo de pergunta não dirige apenas ao passado. Elas desembocam, sobretudo na questão absolutamente atual de saber como os cristãos, em nossos dias, devem continuar a obra exorcística de Jesus: procurando o diabo em pessoa para torná-lo inofensivo, ou procurando conhecer a forças que ameaçam a existência, represá-las e vencê-las por um engajamento multiforme, mediante a prática do bem?

O mal, como afirma Weise, “é sempre pessoal”. Sempre necessita de alguém para se expressar, sempre um ser humano será o vetor principal da manifestação demoníaca. E um agrupamento de pessoas poderão se tornar em uma instituição possessa, cega para as verdadeiras necessidades de outros irmãos, opressora e detentora de todas as verdades.

Os homens criados à semelhança de Deus precisam vê-lo mais nas pessoas do que oter olhos apenas para o Inimigo.

A possessão existe em quase todas as culturas “primitivas”. A interpretação de como isso se dá é diferente de uma cultura para outra. Para uns a possessão é divina, para outros é diabólica. Para os cristãos ocidentais qualquer possessão que não seja divina (pelo Espírito Santo) é negativa.

Ficar doente é estar possuído, porque a impossibilidade de cura antigamente era computada aos deuses e somente um ritual de exorcismo curaria o doente/possesso. O Primeiro Testamento não crê nos demônios e o Segundo Testamento já aparece com a ação demoníaca. Acredita-se que essa crença é externa ao judaísmo. Para os Pais da Igreja o mundo era tridimensional.

Para os indígenas brasileiros o mal existem para quem provocá-lo. Para os africanos exilados à força, ser possuído é ser visitado por deuses da terra natal.

Às mulheres, após a Queda, é reservada a imagem da culpa pelo Mal que entra no mundo. São dominadas (possuídas) de muitas formas: socialmente, sexualmente. Até chega-se ao ponto do Apóstolo Paulo dizer que serão salvas ao dar à luz. É o direito de salvação reservado à procriação. Sem falar na gestação de um possível anticristo (acredita-se que uma das novidades do fim do mundo seria a imitação que o diabo faria para gerar o anticristo à semelhança de Maria, sem contato humano).

Historicamente, portanto, a possessão demoníaca e seus agentes, os demônios, estão vinculados a uma terrível pressão social, em que os menores indivíduos de uma sociedade são os maiores culpados.

Alguns evangelicais brasileiros ainda mantêm uma atitude de abertura frente ao mundo teológico, o que não quer dizer que acreditem ou desacreditem, concordem ou discordem. Assim ainda é possível ler algumas opiniões muito bem consistentes. Basta citar dois exemplos. Um descreve o diabo como “ninguém” (baseado no poeta Baudelaire) e, portanto, não possui poder que não lhe seja dado.

Enquanto Deus afirma: “Eu sou o que sou” (Êx. 3.14), Satanás declara, segundo o poeta francês Baudelaire: “O meu nome é Ninguém. Não há ninguém: de quem deveis ter medo? Ides tremer diante do Não-existente?”

A outra é a consciente missionária da Jocum, Bráulia Ribeiro.

A batalha espiritual que não gera transformação de consciência social, transformação ética e moral, que não quebra a nossa hipócrita indiferença de classe média brasileira em relação aos pobres, que não cura nossa sociedade aleijada, não passa de animismo, de feitiçaria.

Ambos estão de acordo em não dar atenção a quem, ou o quê, não merece atenção. Antes, deve-se focalizar no ser humano e suas necessidades. Suas necessidades sociais, físicas, emocionais dependem de um correto discernimento do mal que os aflige sem piedade. São demônios, são “flores do mal”, são feiticeiros modernos e não menos sedentos de sangue. Leonardo Boff transforma o diabólico e lhe dá um novo significado.

Dia-bólico provém de dia-bállein. Literalmente significa: lançar coisas para longe, de forma desagregada e sem direção; jogar fora de qualquer jeito. Dia-bólico, como se vê, é o oposto do sim-bólico. È tudo o que desconcentra, desune, separa e opõe.

Ao que se pode deduzir que os homens podem dar significados diferentes à mesma coisa, objeto ou crença. Os demônios, responsáveis pelo mal, foram bodes expiatórios das civilizações. Atualmente, o retorno do “sagrado selvagem” pinta o mundo de outras formas. Porém, menos agressivas na aparência e, no entanto, causadoras do mesmo mal. Não se pode dar mais atenção ao mal do que ao bem, mas pode-se transforma-lo, através de ações que possibilitem a libertação do indivíduo em sociedade. Quem centra sua batalha no mal não consegue mudar o mundo para melhor, se violência gera violência.

Os teólogos, torno a repetir, acautelaram-se ao máximo contra o dualismo maniqueísta, mas em todas as épocas, grande número de cristãos procedeu como se o Diabo fosse o Princípio Fundamental, nivelando-se a Deus. Deram mais atenção ao mal e ao problema de sua erradicação, do que ao bem e às atitudes que contribuíam para o aumento da virtude. Os efeitos provocados pela obsessão do mal são sempre desastrosos. Aqueles que empreendem uma cruzada, não para se encontrarem com Deus, mas para combater o Diabo nos outros, nunca conseguem tornar o mundo melhor, mas o deixam como está ou algumas vezes um tanto pior do que estava ante do início da cruzada. Pensando principalmente na mal, tendemos, por melhores que sejam nossas intenções, a criar ensejo para que o mal se manifeste.

Jesus Cristo Exorcista é o centro da libertação. Quando o possuído é libertado daquilo que o paralisa, aliena e destroi, denuncia a sociedade excludente, que busca mais o mal do que o bem. É o princípio da cura.
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