sábado, 24 de outubro de 2026

Panteão Maia

 

O panteão dos maias é uma vasta coleção de divindades veneradas nas regiões de Yucatán, Quintana Roo, Campeche, Tabasco e Chiapas, no México, e ao sul, na Guatemala, Belize, El Salvador e Honduras. Esses deuses moldavam a vida e os rituais das pessoas, estabeleciam a ordem e proporcionavam a esperança na vida após a morte.

Nem todos as divindades eram veneradas em todas as cidades-estado dos maias (pelo menos, não com o mesmo nome), mas o tipo de deus e o que simbolizava para o povo parecem ter sido universalmente reconhecidos. Um exemplo disso pode ser visto nos diferentes nomes dados ao submundo pelos maias yucatecas do norte e os maias quiché do sul. Os quichés chamavam seu submundo de Xibalba, enquanto os yucatecas se referiam ao mesmo lugar como Metnal. Embora os nomes fossem diferentes, traziam as mesmas características do sombrio "lugar do terror" que as almas precisavam percorrer após a morte.

Outro exemplo encontra-se nos mitos da criação, nos quais, para os quichés, treze deuses estavam envolvidos na criação de seres humanos a partir do milho, enquanto que, para os yucatecas, eram apenas dois. Ainda assim, trata-se da mesma a mensagem: os deuses lutaram para criar seres humanos, assim como os humanos batalham pela sobrevivência e por suas próprias tentativas de criação e, também, que a vida vem da terra (aqui, na forma de milho, o alimento básico da dieta maia) que, portanto, deve ser honrada e respeitada.

Os deuses se envolviam em todos os aspectos da vida dos maias. Eles controlavam o clima, a colheita, ditavam o cônjuge, presidiam todos os nascimentos e estavam presentes na morte. Como os deuses eram retratados como vesgos, as mães balançavam uma conta sobre a testa de seus filhos para que olhos da criança envesgassem. Da mesma forma, amarrava-se as cabeças das crianças, especialmente as do sexo masculino, a fim de alongar a testa, numa emulação aos deuses - especialmente a figura muito popular do Deus do Milho. As vestimentas usadas pela nobreza, e especialmente as dos governantes das cidades, imitavam a indumentária dos deuses. A maneira pela qual se planejava as cidades e a precisão com que se construíam os templos centrais seguia com rigor o que se entendia como o caminho dos deuses.

O grande Templo de Kukulcán, em Chichén Itzá, baseia-se no calendário secular (o Haab) de 365 dias, mas também é projetado, de forma muito específica, para fazer o deus conhecido como a Serpente Emplumada voltar à terra duas vezes por ano. Nos dois equinócios, a cada ano, as pessoas ainda se reúnem para este evento. Os degraus do Templo de Kukulcán (também conhecido como El Castillo) descem abruptamente do topo da pirâmide até as cabeças de serpente de pedra, na base da escadaria. Precisamente nos equinócios, o sol lança uma sombra que lembra uma serpente movendo-se lentamente ao longo da escadaria até as cabeças de pedra, criando a imagem da serpente emplumada retornando à terra. Kukulcán (também conhecido como Gucumatz e, em sua denominação mais famosa, Quetzalcoatl) era o deus mais popular entre os maias e não surpreende que, ainda hoje, muitos descendentes dos maias e outras pessoas se reúnam no templo duas vezes por ano para receber as bênçãos do seu retorno.

Havia mais de 250 divindades no panteão dos maias e, devido à queima em massa de seus livros pelo bispo Diego de Landa, em 1562, muitas informações sobre os deuses (e a cultura maia) se perderam de maneira irremediável. O texto religioso quiché maia chamado Popol Vuh traz um conjunto de nomes para os deuses diferentes dos adotados pelos yucatecas.

Alguns deuses permanecem não identificados, enquanto a proveniência de outros não é clara ou se confundiu com outras divindades ou com conceitos cristãos. Não há muito acordo entre os estudiosos sobre a idade e o prestígio do "rei" dos deuses, Hunab Ku, por exemplo; enquanto alguns lhe dão uma linhagem antiga, outros defendem seu status pós-conquista. Alguns estudiosos defendem de forma inflexível sua definição de uma determinada divindade, enquanto outros sustentam uma visão oposta e, de fato, há fortes evidências para apoiar ambos os lados. A lista seguinte, portanto, não é de forma alguma abrangente de forma a definir cada deus que os antigos maias veneravam em cada região, vila ou cidade, mas uma tentativa de abranger os detalhes conhecidos até o momento, com a esperança de fazê-lo de maneira concisa.

"A"

Deus da morte cujo nome ainda desconhecemos. Ele é retratado governando uma parte do submundo, cercado pelos ossos de seus súditos. Seus símbolos são uma caveira e uma faca de obsidiana, ambos relacionados à prática do sacrifício humano.

Acan

Deus da intoxicação, do vinho e da arte de preparar balche (uma espécie de hidromel forte). Seu nome significa "arroto" ou "gemido" e ele está associado ao deus da embriaguez dos maias lacandon, chamado Bohr (também conhecido como Bol).

Acat

Divindade da arte da tatuagem e padroeiro dos tatuadores, está associado ao crescimento e desenvolvimento dos fetos. Também costuma ser designado pelos nomes Acat-Cib e Ah-Kat.

Ah-Bolom-Tzacab

Deus da agricultura caracterizado pelo nariz em forma de folha (também conhecido como Ah-Bolon-Dz'acab).

Ah-Cancum

Deus da caça.

Ah-Chun-Caan

Divindade tutelar que proporcionava proteção ao nascer e ao pôr do sol.

Ah-Chuy-Kat

Deus menor da guerra cujo nome significa Destruidor de Fogo.

Ah-Ciliz

Divindade relacionada aos eclipses solares.

Ah-Cun-Can

Deus guerreiro conhecido como Encantador de Serpentes.

Ah-Cuxtal

Deus do nascimento. Seu nome significa "Ganhou a Vida" e ele era responsável pela entrega segura de bebês no reino terreno, tanto física quanto espiritualmente. Depois do parto, lavava as mãos e em seguida passava para o próximo nascimento.

Ahau-Chamahez

Um dos dois grandes deuses da medicina e da cura (com Cit-Bolon-Tun), conhecido como o Senhor do Dente Mágico.

Ahluic

Deus dos mercadores e da riqueza material, com frequência retratado como membro de uma tríade com os deuses Chac e Hobnil.

Ahmucen-Cab

Deus criador que, de acordo com a história da criação do Chilam Balam, cobriu os rostos dos treze deuses do dia, permitindo que fossem capturados pelos nove deuses da noite. Durante este cativeiro, ele espalhou sementes e colocou pedregulhos em toda a terra que surgiu da escuridão. Este ato de criação acabou sendo desfeito e refeito pelos Bacabs.

Ah-Hulneb

Deus menor da água.

Ah-Kin

Deus que representa um aspecto do deus sol (K’inich Ahau) e controla a seca e a doença (também conhecido como Ah-Kinchil).

Ah-Kumix-Unicob

Deuses menores da água que cuidavam dos cenotes e lagoas.

Ah-Mun

Deus da fertilidade e proteção que também personificava o milho.

Ah-Muzencab

Divindades que presidiam e cuidavam das abelhas. Eles também estão associados aos espíritos elementais do ar.

Ah-Patnar-Unicob

Deuses elementais da água. Eram os senhores da Cerimônia da Chuva de Oito Dias, na qual recebiam homenagens.

Ah-Pekku

Deus do trovão.

Ah-Puch

Deus da morte, escuridão e desastre, mas também da regeneração, partos e inícios. De acordo com os quichés, ele governava o submundo de Xibalba e, de acordo com os yucatecas, era um dos muitos Senhores de Metnal. Ele está associado a Cizin, Yom Cimil/Yum Cimil (embora Cizin pareça ser consistentemente imaginado de forma mais sombria).

Ah-Tabai

Deus da caça e protetor dos animais.

Ah-Uaynih

Deusa do sono, especialmente útil para adormecer os homens.

Ah-Uncir-Dz'acab

Deus da cura natural.

Ah-Uuc-Ticab

Deus ctônico [que vive no mundo subterrâneo].

Ah-Wink-Ir-Masa

Deusa da natureza, protetora dos animais selvagens e associada aos cervos.

Ah-Xoc-Xin

Deus da poesia e da música, representava um dos aspectos do deus do sol, K’inich Ahau.

Ahau-Chamahez

Deus da medicina e da cura.

Ahau-Kin

Aspecto do deus sol, também conhecido como Senhor Jaguar ou Senhor do Submundo.

Ahmakiq

Deus da agricultura e das culturas cultivadas.

Ahulane

Deus da guerra, associado ao arco e flecha e conhecido como O Arqueiro.

Ajbit

Um dos treze deuses que auxiliaram a criação de seres humanos a partir do milho, após duas tentativas fracassadas.

Ajtzak

Um dos treze deuses envolvidos nas tentativas de criar a humanidade.

Akhushtal

Deusa do parto.

Akna

Título aplicado a Akhushtal, entre outras deusas, significando "Nossa Mãe" e estreitamente associado às divindades relacionadas à fertilidade e ao parto.

Alaghom-Naom-Tzentel

Deusa do pensamento e do intelecto, também designada como Ixtat-Ix.

Alom

Um dos treze deuses que participaram da criação dos seres humanos. Após a terceira tentativa bem-sucedida, ficou conhecido como Hunahpu-Guch.

Bacabs

Os quatro deuses dos ventos e dos pontos cardeais que sustentam os quatro cantos do mundo. Para os yucatecas, são conhecidos como Muluc (do leste), Kan (do sul), Ix (do norte) e Cauac (do oeste). Muluc e Kan geravam energias positivas, enquanto Ix e Cauac tinham caráter negativo. Essa confluência de energias negativas e positivas permitiu que os primeiros deuses criassem os seres humanos e os mundos físico e não físico. Estão associados às divindades Acat, Akna, Backlum Chamm e Chin.

Backlum Chaam

Um dos Bacabs ou um aspecto dos Bacabs, é o deus da sexualidade masculina.

B'alam

Divindades Jaguar que protegem as comunidades contra ameaças externas. Também guardam e protegem pessoas na vida cotidiana.

B 'alams

Na tradição dos quichés, os B'alams eram os quatro deuses que tornaram possível a criação do homem, após duas tentativas fracassadas. Eram conhecidos como B'alam Agab (Jaguar Noturno), B' alam Quitze (Jaguar Sorridente), Iqi B'alam (Jaguar Negro) e Mahucatah (Agora Não). De acordo com um dos mitos, as outras divindades ficaram com ciúmes de suas habilidades e, assim, obscureceram sua visão, tornando-os mortais.

Bitol

Um dos treze deuses que participaram da criação dos seres humanos. Após a terceira tentativa bem-sucedida, passou a ser conhecido como Ixmacane (trata-se da versão inicial de Ixmacane, um deus posterior).

Bolon-D 'zacab

Deus do relâmpago e padroeiro da colheita.

Bolontiku

Grupo de nove seres ctônicos do submundo associados à regeneração.

Buluc-Chabtan

Também conhecido como `Deus F', trata-se de um deus da guerra, violência e morte, venerado com o sacrifício regular de seres humanos. No Códice de Dresden, aparece sendo comido por larvas. Além disso, é retratado incendiando casas, matando pessoas e assando-as em espetos sobre o fogo.

Cabaguil

Um dos treze deuses que ajudaram na criação dos seres humanos. Seu nome significa "Coração do Céu".

Cabrakan

Também conhecido como Cabracan/Caprakan, era o deus dos terremotos e montanhas. Filho dos deuses Vucub Caquix e Chimalmat, desempenha um papel significativo no início do Popol Vuh ao ser derrotado pelos Heróis Gêmeos, assim como seu irmão, Zipacna.

Cacoch

Deus criador que preside a criatividade e a comunicação (especialmente em relação às comunicações divinas).

Cakulha

Deus menor dos relâmpagos que, com seu irmão Coyopa, auxilia a divindade suprema dos relâmpagos, Yaluk, a criar as tempestades enviadas pelo padroeiro da chuva, Chac.

Camalotz

Servo de Alom que, após a segunda tentativa de criação, decapitou a maioria das pessoas no mundo para que os deuses pudessem começar de novo. Seu nome significa "Sangrador Repentino".

Camazotz

Deus morcego de Xibalba que se alimenta de sangue. No Popol Vuh, ele arranca a cabeça de um dos Heróis Gêmeos, Hun Hunahpu, que é então revivido por seu irmão. Derrotado, acabou expulso da criação.

Camaxtli

Deus do destino, conhecido pelos astecas como Mixcoatl ou Mixcoatl-Camaxtli. Associado à guerra, caça e criação, tinha ainda o crédito por trazer o fogo à terra.

Caprakan

Ver Cabrakan.

Cauac

Um dos quatro Bacabs, Cauac controla o ponto cardeal oeste e o vento oeste. Também conhecido como Zac-Cimi.

Chac

Deus supremo das tempestades e da chuva, associado à agricultura e à fertilidade. Conhecido como o Senhor das Chuvas e dos Ventos, cuidava de importantes fontes de água, como cenotes, poços, riachos e nascentes. Muito popular, Chac (ou Chak) costumava ser alvo frequente de orações e sacrifícios para cortejar seu favor e o dos quatro chacs menores. Um senhor do céu e ferrenho inimigo de Camazotz de Xibalba, era considerado uma divindade carinhosa, embora imprevisível.

Chacs

Quatro espíritos do clima, localizados em cada um dos cantos do mundo, que estavam sob o comando do grande deus Chac e cumpriam suas ordens.

Chac-Uayab-Xoc

Protetor dos peixes e padroeiro dos pescadores.

Chamer

Um dos deuses da morte e regeneração de Xibalba.

Chen

Deusa do milho, da magia e conselheira dos reis, também conhecida como Chin. Ela também estava intimamente associada a relacionamentos homoeróticos e homossexualidade. De acordo com o padre Bartolomeu de Las Casas, ela introduzia a homossexualidade aos nobres maias, que encorajavam seus filhos a entrar em casamentos homossexuais. Associada com a lua, algumas vezes aparece retratada como uma divindade masculina.

Chicchan

Quatro deuses da chuva, dos quatro cantos do mundo, associados aos Bacabs.

Chin

Amplamente conhecida como a deusa maia da homossexualidade. Ver Chen.

Chirakan-Ixmucane

Deusa criadora, formada a partir dos quatro criadores anteriores e listada entre as treze divindades que se envolveram inicialmente na criação dos seres humanos.

Cit-Bolon-Tum

Um dos dois grandes deuses curandeiros (com Ahau-Chamahez).

Cizin

Também conhecido como, ou associado aos nomes Kisim, Kisen, Yom Cimil, Yum Cimil e Ah Puch, ele era um deus da morte que vivia em Xibalba (Metnal para os yucatecas), frequentemente retratado como um esqueleto humano dançante fumando um cigarro. Ele é ainda identificado por seu "colar da morte" de olhos humanos, que pendem de suas terminações nervosas. Cizin aparecia repentinamente e sem aviso, mas sempre acompanhado por um odor desagradável e, por isso, também costumava ser chamado de "O Fedorento". Ao contrário de outros deuses cujos aspectos compartilha, não está associado à regeneração ou renascimento. Mantém as almas das pessoas ruins no submundo, onde são submetidas a seus tormentos e truques. Após a conquista espanhola, tornou-se estreitamente identificado com o demônio cristão.

Colel Cab

Deusa da terra que cuida especialmente das abelhas. Ainda costuma ser invocada pelos Guardiões dos Dias em cânticos, com o propósito de evitar ataques, remediar problemas nas colmeias e auxiliar os apicultores.

Colop-U-Uichikin

Deus do céu, particularmente de eclipses.

Cotzbalam

Um servo de Alom que seguiu Camalotz após a segunda tentativa fracassada de criar a humanidade e devorou os corpos dos decapitados. Seu nome significa "Jaguar Esmagador".

Coyopa

Deus menor do som e do trovão, que atua com seu irmão, Cakulha, sob a liderança do deus supremo do relâmpago, Yaluk, para criar as tempestades enviadas pelo deus da chuva, Chac.

Cuchumaquic

Senhor de Xibalba cujo nome significa "Coletor de Sangue". Pai da deusa Xquic e avô dos Heróis Gêmeos, Hunahpu and Xbalanque.

Cum Hau

Deus da morte e regeneração que vivia em Xibalba.

"E"

Deus agrícola cujo nome ainda não é conhecido.

Ekchuah

Deus também conhecido como Ek Ahau e, anteriormente, como apenas "Deus M". Padroeiro e protetor dos viajantes, mercadores e guerreiros, costuma ser retratado como um homem de pele escura, carregando uma bolsa sobre um dos ombros. Também é reconhecido como padroeiro e protetor do cacau e produtos relacionados.

El Gran Dios

"O Grande Deus", o deus dos cristãos que morava no sétimo nível acima da terra. Em algumas histórias, ele está associado a Hunab Ku. Trata-se de uma adição tardia e pós-conquista espanhola ao panteão maia.

"F"

Deus da guerra associado ao sacrifício humano e repetidas vitórias sobre Ekchuah. Também chamado de Buluc-Chabtan.

Ver Buluc-Chabtan.

Quatrocentos Garotos

Divindades padroeiras do álcool e, mais tarde, das Plêiades. No Popol Vuh, os Quatrocentos Garotos eram jovens que desejavam construir uma cabana na praia, mas não conseguiam levantar a enorme árvore cortada para servir como a principal coluna de apoio. Pediram então ajuda ao gigante Zipacna, que estava deitado nas proximidades. Zipacna concordou em usar sua grande força para mover a árvore, mas zombou dos meninos por sua fraqueza e incapacidade de fazê-lo. Os meninos decidiram que Zipacna deveria ser morto, mas o gigante ouviu o plano, fingiu-se de morto e os matou. Eles ascenderam aos céus e podem ser vistos atualmente como o aglomerado estelar conhecido como Plêiades. Zipacna, por seu turno, acabou sendo morto pelos Heróis Gêmeos.

Gucumatz

Este deus é um dos mais importantes, se não o mais importante, no panteão dos maias. O nome Gucumatz (também Gukumatz) é a designação dos quichés para o deus conhecido pelos yucatecas como Kukulcán e no idioma náuatle como Quetzalcoatl ("a serpente emplumada" ou "a serpente quetzal-penas"), venerado já no primeiro século a.C. na grande cidade de Teotihuacan. Trata-se de uma das treze divindades que formaram o mundo e criaram os seres humanos. De Gucumatz, os humanos aprenderam as regras da lei, agricultura, alfabetização, artes, medicina, arquitetura, construção, caça, pesca e todos os outros aspectos da civilização. Conta-se que ele veio do mar, transmitiu ao povo seus dons e governou sabiamente sobre eles, e depois voltou para o mar, prometendo voltar um dia. Deus dos quatro elementos, também representava a mistura do bem e do mal, da luz e das trevas e, assim, tornou-se uma figura central em muitos dos mitos dos maias, retratado, de várias formas, em praticamente todas as cidades-estado. Como Kukulcán, ele é a grande serpente emplumada que desce os degraus do templo El Castillo, em Chichén Itzá, nos equinócios de primavera e outono do hemisfério norte e acredita-se que traga energia positiva para a terra e para quem estiver presente durante a descida.

Gucup Cakix

Essa divindade, também conhecida como Vucub-Caquix (que significa "Sete Araras"), é retratada no Popol Vuh como um pássaro-demônio arrogante que fingia ser o sol e a lua e, assim, desequilibrava a vida até ser derrotado por Hunahpu e Xbalanque, os Heróis Gêmeos. Pai de Cabrakan e Zipacna, também derrotados pelos famosos gêmeos.

Hacha 'kyum

Deus astral que criou as estrelas espalhando areia no céu. Divindade padroeira dos maias lacandons.

Hapikern

Divindade adversária, Hapikern é a serpente que cinge o mundo e está perpetuamente em guerra com seu irmão, Nohochacyum, o grande deus da criação e proteção, e está fadada a ser destruída por esse deus numa batalha final. Seus outros irmãos, Usukun, Uyitzin e Yantho, são inimigos da humanidade, e outro irmão, Xamaniqinqu, tornou-se o padroeiro dos mercadores e viajantes.

Heróis Gêmeos

Hunahpu e Xbalanque (também chamado de Ixbalanque) são os dois grandes heróis míticos dos maias, cuja história é preservada no Popol Vuh. Eles nasceram da deusa virgem Xquic, que engravidou depois que a cabeça decepada do pai dos gêmeos, Hun Hunahpu, pendurada numa cabaceira de Xibalba, cuspiu em sua mão. Criados por sua mãe e pela avó, os gêmeos se tornaram destaques no "jogo dos deuses", Poc-a-Toc, o jogo de bola da Mesoamérica. Uma vez atingindo a idade adulta, vingaram-se dos Senhores de Xibalba, que haviam assassinado seu pai e tio, aceitando um convite para o submundo, onde uma série de armadilhas e testes os aguardavam. Eles escaparam das armadilhas e ciladas armadas para eles e derrotaram as forças do caos e das trevas. Tentaram então trazer Hun Hunahpu de volta à vida e, embora tivessem conseguido juntar seu corpo e reanimá-lo, não havia possibilidade de trazê-lo de volta à terra. Os gêmeos lhe prometeram, no entanto, que os humanos orariam a ele em busca de esperança e conforto e que seria lembrado e honrado. A promessa foi mantida, já que Hun Hunahpu tornou-se o deus do milho, figura de morte-e-renascimento que aparece na terra como esta planta. Ascendendo de Xibalba, eles queriam parar no mundo médio da terra, mas continuaram subindo pela árvore do mundo em direção ao paraíso onde, mesmo assim, prosseguiram em sua ascensão, tornando-se o sol e a lua (em outra versão, os deuses os recompensam pela vitória transformando-os no sol e na lua). Acredita-se que os Heróis Gêmeos representem a legitimidade da classe dominante maia, ainda que esta teoria seja contestada. Não há dúvidas, no entanto, sobre a popularidade da história entre os maias, pois os gêmeos são retratados em obras de arte por toda a região, geralmente disputando seu famoso jogo. Com base nestas pinturas, parece claro que havia muitas lendas relativas aos heróis gêmeos que acabaram perdidas e, portanto, o Popol Vuh é o único texto remanescente.

Hobnil

Deus da agricultura e prosperidade e membro de uma tríade, junto com as divindades Ahluic e Chac.

Hozanek

Deus do sul, associado ao Bacab Cauac e à cor amarela. Trata-se do filho do grande casal Itzamna e Ixchel.

Hun-Batz

Um dos dois meio-irmãos dos Heróis Gêmeos (o outro sendo Hun-Chowen) também conhecido como "Macaco Bugio" e retratado como este animal. Junto com seu irmão, é o padroeiro dos artistas e escribas.

Hun-Came

Também conhecido como Hun-Cane, trata-se de um senhor do submundo que, junto com Gucup Cakix, matou Hun Hunahpu, o pai dos Heróis Gêmeos, e acabou sendo morto por eles.

Hun-Chowen

Um dos dois meio-irmãos dos Heróis Gêmeos (o outro sendo Hun-Batz), é retratado como um macaco bugio. Junto com seu irmão, é o padroeiro dos artistas e escribas.

Hunab Ku

Enquanto Gucumatz era o deus mais popular, Hunab Ku aparece como a divindade suprema do panteão maia, conhecido como "Deus Único". Embora alguns estudiosos confirmem sua antiguidade, ele parece mais provavelmente um conceito que surgiu após a cristianização dos maias durante a conquista espanhola e, portanto, assemelha-se muito ao Deus cristão. Invisível e sem forma, seu aspecto pode ser estimado a partir da associação ao deus Itzamna, mencionado como seu filho. Hunab Ku é o marido de Ixazalvoh, a mãe divina, associada à água, vida e tecelagem. Algumas inscrições referem-se a esta divindade como "Os Olhos e Ouvidos do Sol", para substanciar a afirmação de que, como o deus cristão, ele é onipresente e sabe tudo.

Hun-Hunahpu

Também conhecido como o Deus do Milho, Hun-Hunahpu morreu, mas, após ser reconstituído por seus filhos, retornou à vida como o milho e, assim, tornou-se uma figura de morte-e-renascimento. Seus filhos são os Heróis Gêmeos, Hunahpu e Xbalanque. Os semideuses Hun-Hunahpu e seu irmão gêmeo, Vucub Hunahpu, após a criação do mundo, tornaram-se proficientes no jogo de bola dos deuses, Poc-a-Toc. Os senhores de Xibalba, no mundo subterrâneo, ficaram furiosos com o barulho dos gêmeos disputando uma partida e elaboraram um plano para se livrar deles. Eles convidaram os jovens para jogar uma partida de Poc-a-Toc em Xibalba. Antes que o jogo pudesse começar, no entanto, os gêmeos foram enganados e mortos. Os senhores do submundo colocaram a cabeça de Hun-Hunahpu no tronco de uma cabaceira, que ficou repleta de frutos estranhos. A jovem virgem Xquiq encontrou a árvore e, quando pegou o fruto, a cabeça disse-lhe para abrir a palma da mão. A cabeça de Hun Hunahpu cuspiu na mão da donzela e ela engravidou de Hunahpu e Xbalanque. Em seguida, foi enviada por Hun Hunahpu para morar com a mãe deste, Xumucane.

Hunahpu

Um dos grandes Heróis Gêmeos que aparecem com destaque nos mitos maias e no Popol Vuh. Filho de Hun Hunahpu e Xquiq, Hunahpu é o deus da noite que restaura as estrelas no céu e, com seu irmão, Xbalanque, derrotou os senhores de Xibalba e criou a ordem na terra. Está associado ao sol e, em alguns mitos, personifica o próprio sol.

Hunahpu-Gutch

Nome adotado pelo deus Alom após a terceira e bem-sucedida tentativa de criar seres humanos.

Hunahpu-Utiu

Uma das treze divindades que contribuíram para a criação dos seres humanos.

Hun-Nal-Ye

Deus da água salgada, do mar e o padroeiro dos tubarões.

Huracán

Também conhecido como "Coração do Céu" e "Perneta", Huracán é um deus das tempestades. No Popol Vuh, ele é o criador supremo da terra, concebe o mundo, participa da criação dos seres humanos e envia o grande dilúvio para destruir suas criações inferiores. Costuma ser mencionado ainda como Senhor do Redemoinho e recebe o crédito como um dos deuses (às vezes o único) a conceder a dádiva do fogo aos humanos.

"I"

Uma deusa primitiva da água que governa o mar, nascentes e poços da qual se desconhece o nome, mas acredita-se que possivelmente seja `Ixik'.

Itzamna

Considerado o fundador da cultura maia, padroeiro e protetor dos sacerdotes e escribas, Itzamna (ou Itzam Ná) é um deus extremamente importante e popular. Como Gucumatz, ele ensinou ao povo as artes da alfabetização, medicina, ciência, arte, escultura e agricultura. Criou e organizou o calendário, além de instruir os humanos no cultivo adequado de milho e cacau. Esta divindade criadora e curativa pode, inclusive, ressuscitar os mortos. Em escritos posteriores pós-colombianos, costuma ser referido como o filho de Hunab Ku e assume muitas das características associadas à figura de Jesus Cristo. Está associado ao profeta Zamna, que trouxe os escritos sagrados para a cidade de Izamal, sob o comando da grande deusa, e também com K'inich Ahau, o deus do sol. Num dos mitos, aparece como o pai dos Bacabs.

Itzam-Ye

Também conhecido como Itzam-Yeh, O Pássaro Serpente, O Pássaro Celestial e O Caminho de Itzamna, Itzam-Ye era uma divindade em forma de pássaro que se aninhava no tronco da grande árvore ceiba, a Árvore do Mundo, que conectava o submundo com o mundo médio (terra) e o mundo superior. De seu galho, Itzam-Ye podia ver toda a criação e sabia todos os segredos dos três planos de existência. Imagens do deus pássaro na árvore sagrada aparecem em muitos sítios maias e, geralmente, gravadas em templos e santuários onde os Guardiães dos Dias entoavam seus cânticos e lançavam feitiços que protegiam o mundo do caos e mantinham a ordem. Mestre do mundo espiritual, Itzam-Ye era bem instruído naquilo que, atualmente, seria considerado como feitiçaria e artes mágicas.

Ixazaluoh

Deusa associada à água e tecelagem.

Ixazalvoh

Mãe divina e consorte de Hunab Ku, trata-se da deusa da água, vida e tecelagem. Também governa a sexualidade feminina e o parto, além de ter poderes de cura. Seus oráculos são considerados importantes canais para as mensagens divinas ao povo.

Ixbalanque

Um dos grandes Heróis Gêmeos, cujas aventuras são relatadas no Popol Vuh. Ver Xbalanque.

Ixchel

Conhecida popularmente nos dias atuais como a "deusa do arco-íris", já que seu nome pode ser traduzido como "Senhora Arco-íris", está associada com diversos aspectos da vida e cosmologia. Embora as imagens nos tempos modernos quase universalmente a retratem como uma jovem atraente, com cabelos longos e escuros, sentada sobre ou perto de um arco-íris, as antigas imagens maias consistentemente a mostram como uma mulher velha e rechonchuda, com feições afiadas e orelhas de onça-pintada, em geral usando um capacete com uma serpente viva saltando e carregando um jarro de água. Ixchel (também chamada de Yx Chebel Yax) tem sido associada à chamada "deusa O" do Códice de Dresden, obviamente uma divindade da chuva, e por isso é considerada uma deusa da chuva, talvez uma consorte de Chac. Porém, também está associada à guerra, pois algumas vezes aparece nas imagens antigas com garras e cercada ou adornada com ossos. Diego de Landa relatou que ela era a “deusa de fazer filhos” e também da medicina. As evidências sugerem que os guardiões dos dias e médicos consultavam Ixchel em suas artes, mas, ao mesmo tempo, ela está associada por meio de outras evidências à lua e à mutabilidade e, ainda, à tecelagem e às artes. De acordo com um mito de Verapaz, ela era a consorte de Itzamna e lhe deu treze filhos. Qualquer que fosse sua principal procedência, tratava-se de uma divindade bastante venerada pelas mulheres e, especialmente, por aquelas que estavam grávidas ou desejavam engravidar. Extremamente popular, seu santuário na ilha de Cozumel tornou-se um dos locais de peregrinação mais importantes para os antigos maias. A ilha, chamada por Hernán Cortés de Isla Mujeres (Ilha das mulheres), recebeu este nome devido ao grande número de estátuas de deusa encontradas lá, entre as quais as de Ixchel. Santuários para Ixchel ainda podem ser vistos em todo o Yucatán nos dias atuais, especialmente em Cozumel, onde sua imagem se confundiu com a da Virgem Maria e as duas agora compartilham a veneração e as orações das mulheres que continuam a fazer peregrinações à ilha.

Ixcuiname

Deusa das quatro idades da mulher (embora não esteja claro se isso significa os quatro épocas em que as mulheres existiram ou os quatro estágios na vida de uma mulher: criança, donzela, mãe e idosa). Seu nome é interpretado como "Quatro Irmãs" ou "Quatro Faces". Também está associada aos quatro deuses criadores Alom, Bitol, Qaholom e Tzacol e, através desse relacionamento, ficou conhecida como Chirakan-Ixmucane, uma das treze divindades que criaram os seres humanos.

Ixmacane

Um dos treze deuses que participaram da criação dos seres humanos, seu nome é a forma final da divindade originalmente chamada Bitol (embora este mesmo nome tenha sido aplicado a outros deuses em sua "forma final" após a criação).

Ixmucane

Um dos treze deuses que participaram da criação dos seres humanos, de acordo com uma versão do mito. Também uma versão do nome Xumucane, a avó dos famosos heróis gêmeos, que, com seu marido, Xpiayoc, criou os humanos a partir do milho. O casal é considerado como as divindades mais antigas e sábias do panteão maia.

Ixpiyacoc

Nome do deus criador Tzacol que, após a terceira tentativa bem-sucedida de criar seres humanos, se dividiu em duas entidades separadas e se tornou Tzacol e Ixpiyacoc. Também uma grafia alternativa de Xpiayoc, o marido de Xumucane, que ajudou na criação de seres humanos a partir do milho.

Ixtab

Também conhecida como "Mulher da Corda", Ixtab era a deusa dos suicídios e, particularmente, daqueles que morriam por enforcamento. Ela aparece no Códice de Dresden como o cadáver em decomposição de uma mulher, pendurada num laço nos céus. Como se considerava o suicídio uma opção de vida honrosa entre os maias, a morte autoinfligida garantia uma passagem instantânea para o paraíso, contornando o submundo sombrio e perigoso de Xibalba. Ixtab escoltaria tais almas para o paraíso, onde desfrutariam do prazer eterno, cercados por outras almas abençoadas, como aquelas que morreram em batalha, no parto, como vítimas sacrificiais ou numa partida de Poc-a-Toc.

Ix-Tub-Tun

Divindade em forma de serpente que cospe pedras preciosas e está associada à chuva.

"K"

Nome pelo qual o deus K 'awi (ou K'awill) era conhecido anteriormente. Trata-se do padroeiro da realeza, majestade e nobreza.

Kan

Um dos principais Bacabs, Kan era conhecido como o Defensor do Sul.

Kan-U-Uayeyab

Padroeiro das cidades e guardião das comunidades urbanas.

Kan-Xib-Yui

Um dos deuses criadores que, às vezes, é mencionado como um dos treze originais que criaram os seres humanos. Em sua origem, provavelmente se tratava de uma divindade da fertilidade local que terminou por ser incluída como um deus da criação, mas que não aparece em todas as listas dos treze criadores.

Kianto

Também conhecido como Kiant, ele é o deus das influências indesejadas, principalmente as doenças e os estrangeiros.

Kichigonai

Criador do dia e o deus da luz na tradição quiché.

K’inich Ahau

Deus solar, conhecido como o "Rosto do Sol" e algumas vezes referido como K’inich Ajaw. Relacionado à cura e medicina. Acredita-se que o deus tardio Hunab Ku seja uma combinação de K’inich Ahau com o Deus cristão. Em alguns mitos iniciais, aparece como o consorte da deusa Ixazalvoh, ainda que as histórias pós-conquista coloquem a divina mãe com Hunab Ku.

K’inich Kakmo

Deus padroeiro da cidade de Izamal, esta divindade solar é representada pela arara.

Kisin

Outro denominação para Cisin, o deus da morte mais frequentemente retratado, mas também o nome de um deus dos terremotos, associado à inimizade contínua entre Nohochacyum e Hapikern e a Tríade Yantho.

Kukulcán

Ver Gucumatz

"L"

Deus da noite, das trevas e da madrugada, cujo nome ainda não é conhecido.

Deus do Milho

Figura divina moribunda e renascida, que assume a forma de Hun Hunahpu, morto pelos Senhores de Xibalba e trazido de volta à vida por seus filhos, os Heróis Gêmeos, e que emerge do submundo como o milho. O deus do Milho “Tonsurado” ou o deus do Milho “Foliado” são imagens comuns encontradas em toda a região. Em suas representações, aparece como eternamente jovem e bonito, com a cabeça alongada, lembrando uma espiga; cabelos longos e esvoaçantes, como as estigmas do milho; e ornamentado com jade, que simboliza o talo da planta.

Mam

Um título de respeito, que significa "Avô", aplicado a várias divindades maias diferentes, incluindo espíritos da terra e das montanhas e os quatro Bacabs. O deus conhecido como Mam Maximon é um deus pós-conquista de viajantes, comerciantes, bruxaria e má sorte, que se confunde com a figura cristã de Judas e, nos tempos modernos, faz parte da programação de celebrações da Semana Santa.

Manik

Deus do sacrifício, das vítimas sacrificiais e do sofrimento purificador.

Mitnal

Também conhecido como Metnal, trata-se do termo dos yucatecas para o submundo e corresponde ao Xibalba dos quiché. De acordo com o Popol Vuh, Mitnal era uma terra escura, fluindo com rios de sangue e pus, povoada por divindades com nomes como Dentes Sangrentos, Garras Sangrentas e Sarna Voadora, entre outros.

Mulac

Um dos quatro Bacabs, conhecido como "Defensor do Oriente".

Naum

Deus que criou a mente e a consciência humanas.

Nacon

Deus da guerra.

Nohochacyum

Divindade criadora-destruidora, irmão do deus da morte, Cizin (ou, possivelmente, outro deus dos terremotos também conhecido como Cizin). Ele é o inimigo jurado da serpente do mundo, Hapikern, e conta-se que, no fim dos dias, vai destruí-la, sufocando-a. Em algumas versões desta história, a vida na Terra é destruída no processo. Este deus está relacionado, em algumas histórias, a Usukan, Uyitzin, Yantho e Hapikern, que desejam o mal aos seres humanos. Também irmão de Xamaniqinqu, o deus padroeiro dos viajantes e comerciantes.

Och-Kan

Também conhecido como Ochan e Ahacan, ele é a grande Serpente da Visão dos maias. Os guardiães dos dias (ou xamãs) precisam ter a experiência da Serpente da Visão em primeira mão para compreender o reino com o qual estão lidando e finalizar a iniciação nos mistérios. A presença de Och-Kan era anunciada por um deus arauto chamado Uc-Zip em Xibalba.

Deuses Remadores

Duas divindades que remam a canoa divina pelo submundo e sobem ao céu. Ficam em lados opostos da embarcação: o Remador Velho Jaguar na frente e o Remador Velha Arraia na parte de trás. Eles participaram da construção do Braseiro Cósmico para os deuses, no início da criação, e são imaginados como símbolos da noite e dia, luz e escuridão e a eterna dança dos opostos. Também costumam representar a Via Láctea.

Pawahtuun

Deus do calendário, associado aos quatro Bacabs e ao final do ano. Ele se posiciona nos quatro cantos do céu e, assim, sustenta o mundo.

Poxlom

Deus das doenças.

Qaholom

Um dos deuses participantes da criação dos seres humanos, junto com Alom, Bitol e Tzacol.

Q'uq'umatz

Ver Gucumatz

Tecumbalam

Grande pássaro enviado para quebrar os ossos e rasgar os músculos dos seres humanos que desagradaram aos deuses e foram destruídos no grande dilúvio enviado por Huracán.

Tepeu

Um dos deuses criadores que participou, às vezes com Gucumatz e Huracán, na criação de seres humanos.

Tlacolotl

Deus do mal, daqueles que praticam o mal e dos lugares escuros onde os planos malignos são feitos. Os maias também atribuíam os terremotos a ele.

Tohil

Deus do fogo e padroeiro da cidade quiché de Q'umarka.

Tzacol

Um dos treze deuses que participaram da criação dos seres humanos. Após a terceira e bem-sucedida tentativa, ele se dividiu em duas divindades separadas, Tzacol e Ixpiyacoc.

Tzultacaj

Também conhecido como Tzuultaq'ah, era o deus das montanhas e vales.

Uc-Zip

Um deus arauto dos Senhores de Xibalba que anunciava a chegada da grande Serpente da Visão Och-Kan.

Usukan

Deus temível, que odeia seres humanos e tem os terremotos como seus servos na tentativa de destruir a vida humana. Irmão de Hapikern, a serpente que circunda o mundo e que também se mostra hostil à humanidade. Quase sempre relacionado junto com Uyitzin e Yantho, no que ficou conhecido como a Tríade Yantho de "vilões" sobrenaturais. Xamaniqinqu, deus dos viajantes e mercadores, é outro irmão.

Uyitzin

Integrante da tríade fraternal com Usukan e Yantho, três irmãos que odeiam a humanidade e são inimigos do deus Nohochacyum, que às vezes também aparece como seu irmão, assim como Xamaniqinqu.

Serpente da Visão

Deus-serpente místico de grande importância para os maias, pois conhecia os segredos do universo e podia transmitir esses segredos a um guardião dos dias (xamã). Ver Och-Kan.

Voltan

Divindade ctônica que era o senhor dos tambores. Não tem relação com Votan, um deus frequentemente invocado no movimento moderno da "Nova Era", mas que não tem presença no antigo panteão maia. Voltan parece ter sido um mortal que foi deificado por seus grandes feitos e se casou com a deusa Ixchel.

Vukub-Cakix

Deus pássaro gigante, com dentes de esmeralda, que lutou e foi derrotado por Hun Hunahpu e Vukub Hunahpu, pai e tio dos Heróis Gêmeos. Também conhecido como Vucub-Caquix.

Vukubcane

Senhor do submundo Metnal (Xibalba) mencionado no Popol Vuh.

Ways

Na crença maia, cada dia tem sua própria energia e essa energia vai ajudar ou prejudicar nosso caminho. Os Ways (Wayobs) são uma espécie de espíritos protetores, cuja energia auxilia e orienta através do curso dos dias e, assim, da própria vida. Cada pessoa tem um way, conforme sua espiritualidade individual. Tais espíritos podem ser manifestar fisicamente, como um animal, para servir de guia e, neste aspecto, são reconhecidos como Totens ou Guias Totêmicos. Eles também se comunicam através dos sonhos, no qual quem sonha é levado ao Wayib (Lugar do Sonho), onde a alma pode se comunicar diretamente com seu way. Até os deuses maias têm um way atribuído a eles, que guia e orienta sua energia, desde que estejam abertos a tal orientação.

Árvore do Mundo

A grande Árvore da Vida ceiba (também conhecida como Yaxche), que tem suas raízes no submundo, cresce através do mundo médio (terra) e tem seus ramos no paraíso. A Árvore do Mundo cresce através dos nove níveis de Xibalba, passa pela terra e continua através dos treze níveis até Tamoanchan (paraíso). A base da árvore do mundo cresce a partir da casca rachada da Tartaruga Cósmica e o tronco pode ser visto como a Via Láctea, numa orientação norte-sul. No eixo da Árvore do Mundo está o deus-pássaro Itzam-Ye, que conhece todos os segredos dos três planos de existência.

Witzob

Os maias acreditavam que os deuses viviam nas montanhas e Witzob significa "montanha", no caso a montanha sagrada dos deuses, em Tamoanchán. As montanhas não eram consideradas como simples massas de rocha inerte, porém, mas sim como algo vivo, imbuído com a mesma energia espiritual que perpassava os seres humanos e todas as coisas vivas. Devido à sua altura, as montanhas tornaram-se manifestações de poder espiritual e influência. Os famosos templos da região maia, desde Chichén Itzá até Altun Ha, representam montanhas artificiais, construídas especificamente para fazer com que o deus padroeiro daquela cidade em particular, e seus amigos e atendentes, sintam-se em casa.

Xamaniqinqu

Deus padroeiro dos mercadores e viajantes, das energias do norte e do ponto cardeal norte e irmão de Nohochacyum, Yantho, Usukun e Uyitzin. Também conhecido como Xaman Ek.

Xbalanque

Um dos grandes Heróis Gêmeos que aparecem com destaque nos mitos dos maias e no Popol Vuh. Filho de Hun Hunahpu e Xquiq, Xbalanque é considerado o gêmeo guerreiro, que lidera o caminho através do submundo e, com seu irmão Hunahpu, derrota os senhores de Xibalba para criar ordem na terra. Está associado à lua e, em algumas histórias, é a própria lua.

Xecotcovach

Pássaro que serve ao deus Alom. Seu nome significa "Arrancador de Olhos do Rosto" e ele participou da destruição dos seres humanos inferiores da segunda tentativa de criação, arrancando seus olhos.

Xibalba

Termo dos quichés para o submundo, que corresponde ao Metnal dos yucatecas. O nome significa "Lugar do Terror". imaginado como local de moradia de seres sombrios, reservados, perigosos e hostis aos humanos. Na morte, a alma do indivíduo precisava passar por Xibalba antes de chegar ao paraíso e, se essa alma fosse particularmente imprópria, não conseguiria escapar, ficando à mercê de várias divindades, como Cizin, pela eternidade. Ao mesmo tempo, no entanto, deve-se notar que vários dos Senhores de Xibalba estão associados à regeneração e ao renascimento e, de forma alguma, Xibalba pode ser equiparado ao conceito cristão de inferno.

Xumucane e Xpiayoc

Deuses mais antigos do panteão maia, são os pais de Hun Hunahpu e Vucub Hunahpu, avós dos Heróis Gêmeos, o casal divino e os primeiros guardiões dos dias que ajudaram a criar os seres humanos. De acordo com os quichés, após os treze deuses da criação terem falhado em suas tentativas de criar a humanidade, eles consultaram o casal para descobrir o que haviam feito de errado. Indagaram ao casal divino qual seria o meio adequado para a modelagem dos humanos. Os dois guardiões dos dias consultaram o calendário sagrado e disseram que a madeira parecia um material adequado mas, quando os humanos de madeira ficaram prontos, não atenderam aos objetivos. Podiam andar e falar, mas não tinham respeito pelos deuses e não conseguiam consultar o calendário; assim, os deuses os destruíram numa grande enchente. Em seguida, Xumucane moeu o milho branco e amarelo e lavou as mãos, guardando a água para preparar um caldo sagrado com o qual deu vida aos humanos a partir do milho, dando origem à humanidade atual. Xumucane é a bisavó e Xpiayoc o bisavô de todos os seres humanos. Também ficou conhecida como a parteira divina, responsável por todos os nascimentos, além de casamenteira divina, encarregada de arranjar todos os matrimônios. Como os dois primeiros guardiões dos dias, eles estão intimamente associados ao calendário sagrado.

Xquiq

Também conhecida como Deusa da Lua de Sangue e Donzela de Sangue, ela é filha de Cuchumaquic, um dos Senhores de Xibalba, e a mãe virgem dos Heróis Gêmeos, Hunahpu e Xbalanque. Depois que os Senhores de Xibalba assassinaram Hun Hunahpu e Vucub Hunahpu, eles colocaram a cabeça decepada de Hun Hunahpu no tronco de uma cabaceira do submundo, como um sinal de alerta para aqueles que quisessem enganá-los. Xquiq foi atraída pelo estranho fruto da árvore e, ao se aproximar, foi abordada pela cabeça de Hun Hunahpu, que então cuspiu em na palma da mão da deusa. Ela engravidou dos gêmeos heróis e, seguindo o comando de Hun Hunahpu, deixou Xibalba e se apresentou à mãe dele, Xumucane. Depois de passar por testes para confirmar sua identidade, ela deu à luz os gêmeos, que foram criados principalmente pela avó. Identificada com a lua minguante (como Xumucane com a lua crescente), também está relacionada ao planeta Vênus e descrita como deusa da fertilidade e da maternidade.

Yaluk

Deus supremo do relâmpago, que cria as tempestades enviadas pelo deus da chuva, Chac. Recebe assistência de duas divindades fraternais, Coyopa e Cakulha.

Yantho

Deus hostil à à humanidade e geralmente relacionado a seus irmãos, Usukun e Uyitzin, numa tríade que despreza os seres humanos e se alegra com seu sofrimento. A tríade está associada aos terremotos e destruição em geral, mas também são irmãos do benevolente Nohochacyum; do deus dos mercadores e viajantes, Xamaniqinqu; e da serpente que circunda o mundo, Hapikern.

Yaxche

A Árvore do Mundo, também conhecida como a Árvore da Vida. Ver Árvore do Mundo.

Yumbalamob

Espíritos protetores que habitam o primeiro nível logo acima da terra e atuam como guardiões e protetores dos cristãos. À luz do dia são invisíveis, mas, à noite, eles se posicionam nas cruzes que os fiéis ergueram fora de suas casas e ficam de guarda. Empunhando facas de obsidiana, eles cortam os ventos que danificariam uma aldeia cristã e, também com tais facas, afastam os perigos da selva circundante e enviam mensagens uns aos outros.

Yum Caax

O deus das matas, da natureza, do cacau, das plantas e da caça. Também conhecido como Yom Caax, Yum Kaax e Yum Ka'ax, era regularmente invocado pelos agricultores antes da limpeza dos terrenos para o cultivo. Trata-se de um deus benevolente, que protege as plantas e animais utilizados pelos humanos para seu sustento. Ele é capaz de guiar a flecha dos caçadores para uma presa especial ou virá-la na direção do próprio caçador, caso não receba a devida reverência e respeito.

Yum Cimil

Um dos Senhores de Xibalba, intimamente associado a Ah Puch e Cizin. Como Cizin, ele usa uma gola de olhos pendurados e costuma ser retratado como um ser esquelético, com ossos adornando suas roupas esfarrapadas.

Yumchakob

Também conhecidas como Nukuchyumchakob, são divindades idosas de cabelos brancos, encarregadas de dispensar a chuva. Os Yumchakob são gentis com os seres humanos e adoram fumar charutos. Estão associados a Kukulkán e, de acordo com alguns estudiosos, o grande deus já foi um deles antes de descer à terra. No Yucatán pós-conquista, passaram a ser retratados como morando no sexto nível acima da terra, logo abaixo de El Gran Dios, o deus cristão.

Zac-Cimi

Um dos quatro Bacabs. Ver Cauac.

Zipacna

Gigante arrogante cuja história é contada no Popol Vuh. Filho de Vucub Caquix e Chimalmat e irmão de Cabrakan, caracterizava-se, como o resto de sua família, pela arrogância. Ficou famoso por dois eventos: o conto dos Quatrocentos Garotos e sua morte nas mãos dos Heróis Gêmeos, Hunahpu e Xbalanque, que conseguiram atirar uma montanha sobre ele. Ver Quatrocentos Garotos.

Zotz

Deus dos morcegos, cavernas e padroeiro da tribo Tzotzil.

Fantasmas no Mundo Antigo

 

A crença na vida após a morte era central para cada uma das principais civilizações do mundo antigo e isso encorajou o reconhecimento da realidade dos fantasmas como espíritos dos falecidos que, por uma razão ou outra, ou retornavam do além-túmulo ou se recusavam a deixar a terra dos vivos.

Para as pessoas da época, não havia dúvida de que a alma de um ser humano sobrevivia após a morte corporal. Seja quais fossem as opiniões pessoais em relação ao assunto, culturalmente eram criados com a compreensão de que os mortos viviam em outra forma, que ainda requeria algum tipo de sustento. Vários fatores ditavam qual vida após a morte se teria: seu comportamento na terra, como seus restos fossem dispostos após o falecimento e/ou como eram lembrados pelos vivos.

Os detalhes da vida pós-morte variam de acordo com as diferentes culturas. Constante apenas é crença de que tal reino existia, que era governado por leis imutáveis e que as almas dos mortos permaneceriam lá a não ser que tivessem licença dos deuses para retornar à terra dos vivos por alguma razão específica. Entre estas razões estariam rituais funerários inadequados; falta de sepultamento; morte por afogamento na qual o corpo não fosse recuperado; assassinato no qual a vítima não fosse descoberta jamais (e portanto ficasse sem sepultamento adequado); ou para lidar com questões mal resolvidas ou fornecer um relato real dos eventos relativos à sua morte, como, por exemplo, alguém assassinado e que precisa de vingar sua morte, levando o assassino à justiça para poder descansar em paz.

A aparência dos fantasmas dos falecidos, mesmo aqueles amados, raramente representava uma experiência bem-vinda. Supunha-se que os mortos permaneceriam em seu próprio reino e não se esperava que atravessassem de volta ao mundo dos vivos. Quando tal evento ocorria, tratava-se de um sinal conclusivo de que alguma coisa estava terrivelmente errada. Quem experimentavam um encontro espiritual deveria cuidar do problema para que o fantasma retornasse à sua devida morada.

Este entendimento era tão prevalente que histórias de fantasmas podem ser encontradas, com enredos muito similares, nas antigas culturas da Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, China e Índia, bem como em regiões da Mesoamérica e nas regiões célticas da Irlanda e Escócia. Os fantasmas também são retratados na Bíblia de maneira muito semelhante às obras romanas iniciais. O que apresentamos a seguir não representa um tratamento abrangente do assunto. Existem vários livros sobre a crença em fantasmas em cada uma das culturas mencionadas e em muitas que não são. O propósito deste artigo é somente proporcionar aos leitores os conceitos básicos da vida após a morte e da crença em fantasmas no mundo antigo.

Fantasmas na Mesopotâmia

Na cultura mesopotâmica, a morte era o ato final da vida, da qual não havia retorno. A terra dos mortos era conhecida por muitas denominações; entre eles, Irkalla, o reino sob a terra conhecido como a "terra sem volta", onde as almas dos mortos residiam numa triste escuridão, comiam terra e bebiam de poças de lama (embora houvesse outras imagens da vida após a morte, como a que aparece na obra Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos).

Esta existência seria o ato final para todos os vivos, independente de quão ricos ou pobres tivessem sido, e estava sob o controle da sombria rainha Ereshkigal. Nenhuma alma tinha permissão de deixar Irkalla sob qualquer razão, nem mesmo uma deusa, como exemplificado pelo poema A Descida de Inanna, no qual mesmo a Rainha dos Céus (e irmã de Ereshkigal), Inanna, deveria encontrar um substituto para ficar em seu lugar uma vez que ela retornava ao mundo dos vivos. Porém, as almas que precisavam completar algum tipo de missão recebiam uma dispensa especial. Os fantasmas poderiam aparecer para pessoas na terra quando se acreditava que havia a necessidade de corrigir algum tipo de erro.

Estas aparições geralmente se manifestavam como uma doença entre os vivos. O acadêmico Robert D. Biggs assinala:

"Os mortos – especialmente os parentes – podiam também atormentar os vivos, particularmente se as obrigações familiares do fornecimento de oferendas a eles fossem neglicenciadas. Especialmente passíveis de retorno para afligir os vivos estavam os fantasmas de pessoas que tivessem morrido de mortes antinaturais ou que não fossem sepultados apropriadamente - por exemplo, a morte por afogamento ou no campo de batalha."

Os médicos da Mesopotâmia, conhecidos como Asu e Asipu, empregavam feitiços que aplacariam os fantasmas mas, antes que tal tratamento começasse, eles pediriam ao paciente para confessar honestamente quaisquer pecados que pudessem ter atraído o fantasma de volta do submundo. Na Mesopotâmia, as doenças eram consideradas uma manifestação externa da punição dos deuses ou dos espíritos dos falecidos por algum pecado. Presumia-se que quem os doentes seriam responsáveis pela falta até que se provasse o contrário.

Após a morte de alguém, surgia uma entidade espiritual conhecida como Gidim, que mantinha uma identidade pessoal com o falecido e viajava para a terra dos mortos. Seria esse Gidim que retornaria para assombrar os vivos caso os ritos funerários e sepultamento não tivessem sido realizados apropriadamente ou se houvesse algum ato ilegal relacionado à morte da pessoa. As inscrições deixam claro, porém, que algumas vezes o Gidim, perversamente, escapava de Irkalla para visitar a terra e molestava os vivos sem nenhuma razão especial.

Estes espíritos corriam o risco de serem punidos pelo deus solar Shamash, que transferiria as oferendas funerárias feitas a eles e as concedia a um Gidim que não tinha quem os lembrasse na terra e que, portanto, não dispunha de oferendas para a continuidade de sua existência. Ainda que haja registros de pessoas amadas retornando da vida após a morte com avisos ou conselhos, a maioria dos fantasmas da Mesopotâmia eram convidados incômodos que precisavam ser enviados de volta ao seu reino com o uso de encantamentos, amuletos, orações e exorcismo.

Fantasmas Egípcios

No antigo Egito, o retorno de um fantasma também era considerado uma questão muito séria. Os egípcios viam a não-existência como intolerável. Acreditava-se que, com a morte, a alma viajava para o Salão da Verdade, onde era julgada por Osíris e os Quarenta e Dois Juízes. Seu coração era pesado numa balança que tinha num dos pratos a pena branca da verdade; se fosse mais leve do que a pena, a alma prosseguia para a vida após a morte; se fosse mais pesado, era atirado ao chão e devorado pelo monstro Amut, fazendo com que a alma cessasse de existir.


O coração de alguém seria mais leve se tivesse vivido uma vida correta e mais pesado caso isso não tivesse ocorrido. A vida após a morte era conhecida como o Campo dos Juncos, uma imagem em espelho da vida terrena no Egito. Quem chegasse lá poderia desfrutar da casa que conhecia, do riacho que passava por ela, sua árvore e cão favoritos e, portanto, não havia razão para uma alma querer retornar à terra, a não ser por um motivo muito poderoso.

Nas épocas mais antigas do Egito, a alma era vista como uma entidade singular, chamada de Khu, o aspecto imortal de cada indivíduo mas, posteriormente, esta concepção se alterou e a alma passou a ser composta por nove diferentes componentes. Dois destes componentes, o Ba e Ka (espírito e personalidade), reuniam-se após a morte na forma do Akh, a entidade que retornaria como um fantasma. Se os ritos adequados não tivessem sido observados, ou algum pecado cometido pelos vivos seja antes ou depois da morte da pessoa, o Akh recebia a autorização dos deuses para retornar à terra a fim de corrigir o erro.

Os vivos atormentados pelo fantasma teriam de apelar diretamente ao espírito retornado na esperança de uma resposta razoável e, se isso não funcionasse, precisariam da intervenção de um sacerdote, que atuaria como um juiz entre os vivos e o morto. Um exemplo disso poderia ser como, quando alguma desgraça acontecia a um viúvo, sua causa era primeiro atribuída a algum "pecado" que ele tivesse ocultado de sua esposa. Ao chegar ao Campo dos Juncos e ter um conhecimento total sobre os fatos, ela então puniria o infrator. Numa carta de um viúvo para sua esposa falecida, encontrada numa tumba da época do Novo Reinado, o homem apela para o espírito de sua esposa para deixá-lo em paz, já que era inocente de qualquer malfeito:

"Qual coisa maligna teria eu feito a ti para suportar tanta maldade? O que fiz a ti? Mas o que fizeste a mim é colocar as mãos em mim, embora não tenha feito nada maligno a ti. Desde quando vivi contigo como teu marido até hoje, o que fiz a ti que precisaria esconder? Quando tu caíste doente, chamei um grande médico... Passei oito meses sem comer e beber como um homem. Chorei muito, junto com todos da minha casa, em plena rua. Dei roupas de linho para envolver-te e não deixei nenhum benefício para ti sem ser realizado. E agora, veja só, passei três anos sozinho sem entrar numa casa, embora não seja certo que alguém como eu devesse fazê-lo. Isso é o que fiz em tua memória. Mas, veja só, tu não sabes distinguir o bom do ruim. 

Se sepultado apropriadamente com os ritos adequados e relembrado continuamente, os espíritos dos mortos podiam trazer grandes benefícios para os vivos e protegê-los por toda a sua existência. Havia uma diferença significativa, porém, na compreensão egípcia de um "espírito" que residia pacificamente no Campo dos Juncos e um "fantasma" que retornava à terra.

Fantasmas na Grécia e Roma

Na antiga Grécia, a vida após a morte consistia em três reinos distintos. Quando alguém morria, uma moeda seria colocada em sua boca para pagar o barqueiro Caronte, que transportaria a alma através do rio Styx. Esta moeda não representava exatamente um “pagamento”, e sim um sinal de respeito entre a alma e os deuses – quando maior fosse seu valor, melhor seria o banco que ela conseguiria na barca de Caronte.

Uma vez que estivesse do outro lado, seria necessário passar pelo cão de três cabeças, Cérbero, e então ficar diante de três juízes para fazer um relato da sua vida. Após a história ter sido contada e os juízes conferenciarem, a alma receberia um copo com água do Rio Lete, as águas do esquecimento, o que apagaria todas as lembranças da sua antiga vida na Terra.

Os juízes designariam então um lugar para a alma: se você tivesse sido um guerreiro que morreu em batalha, iria para os Campos Elísios, um paraíso; se fosse simplesmente uma boa pessoa em vida, seu destino seria a Campo de Asfódelos, também agradável; se, ao contrário, tivesse sido uma má pessoa, então iria para a escuridão do Tártaro, onde as almas permaneciam até que expiassem os pecados cometidos em vida. Nenhuma alma “estava condenada à danação eterna”. Com o tempo, a alma no Tártaro poderia se elevar ao Campo de Asfódelos. A exemplo das culturas da Mesopotâmia e Egito, não se esperava que os mortos retornassem à terra por qualquer razão, mas algumas vezes isso acabava acontecendo. A cultura romana adotava este paradigma básico e tinha uma crença muito mais profunda em fantasmas do que os gregos.

Na comédia Mostellaria (A Casa Assombrada), o comediógrafo romano Plauto conta a história de um rico comerciante ateniense chamado Teopropride, que viaja a negócios e deixa sua casa aos cuidados do filho, Filolache. Este vê a oportunidade de desfrutar da vida ao máximo na ausência do pai, em vez de se mostrar um gerente responsável, e faz um vultoso empréstimo para comprar a liberdade de sua amada, uma escrava. Além disso, gasta ainda mais dinheiro para promover uma grande festa para seus amigos na casa do pai.

Tudo corre bem para Filolache até que seu escravo, Trânio, avisa que soube do retorno inesperado de Teopropride, que logo estará de volta à cidade. O filho entra em pânico, sem saber o que fazer com seus convidados ou como explicará as despesas desmedidas, mas Trânio lhe garante que tudo ficará bem. Ele tranca Filolache e seus convidados na casa e encontra-se com Teopropide do lado de fora, dizendo-lhe que ele não pode entrar porque se descobriu que a residência está assombrada. Segundo seu relato, um fantasma apareceu a Filolache num sonho, no meio da noite, enquanto as tochas ainda estão acesas, e lhe informou que tinha sido assassinado ali, muito tempo atrás, por um anfitrião maligno, que o matou para roubar seu ouro. Trânio acrescenta que o cadáver do homem assassinado ainda está escondido na casa, motivo pelo qual há um risco para qualquer um que ouse entrar.

Teopropide acredita completamente na história e se desespera por não saber onde vai viver dali por diante. Um agiota aparece então, exigindo o pagamento pelo empréstimo feito por Filolache para comprar a escrava, e Trânio explica que o dinheiro foi usado para comprar a casa vizinha, já que a residência da família está inabitável. Mesmo quando Teopropide vai até a casa vizinha e fala com Simo, o proprietário – que nega tê-la vendido para Filolache –, o comerciante ainda não mostra sinais de dúvida sobre a história do fantasma.

Entendia-se que os fantasmas na antiga Roma apareceriam de certos modos previsíveis e, geralmente, em certas horas da noite. O historiador D. Felton observa que o público que se divertiu com Mostellaria acharia a história de fantasma improvisada de Trânio hilariante porque não concordava com o que as pessoas sabiam ser verdade em casos de assombração: o fantasma de um homem assassinado apareceria num aposento iluminado por uma tocha (desde que fantasmas não podiam ser vistos sem algum tipo de luz), mas não apareceriam num sonho, a não ser que fosse um amigo ou pessoa amada.

Fantasmas que apareciam em sonhos eram considerados um tipo completamente diferente de espírito de um "inquieto" que teria sofrido uma morte injusta ou antinatural e sem os ritos apropriados de sepultamento. Na sua pressa em elaborar uma história para o mestre da casa, Trânio confunde dois tipos diferentes de fantasmas e, conforme assinala Felton, o público daquele tempo acharia esta confusão hilariante.

Uma interessante mudança neste paradigma é a história da donzela Philinnion, conforme o relato de Flégon de Trales (século II) e, mais tarde, Proclo (século V). Philinnion é casada com um dos grandes generais de Alexandre, o Grande, Cratero, e morre após seis meses de matrimônio. Ela retorna à vida e visita um jovem chamado Machate todas as noites, em seu aposento na casa dos pais da falecida. Quando é descoberta pelos pais, ela explica que foi libertada do submundo para um propósito específico e então morre pela segunda vez.

A historiadora Kelly E. Shannon, entre outros, destaca que Flégon não mede esforços para autenticar a história, apresentando-a como um relato em primeira pessoa, na forma de uma carta relativa a um evento histórico que aconteceu num lugar específico (Anfípolis) numa certa época (durante o reinado de Filipe II da Macedônia), sem, no entanto, entrar em muitos detalhes para evitar que um leitor familiarizado com o lugar e a época colocasse o relato em dúvida. Shannon acrescenta:

"No que seria razoável um leitor acreditar? A literatura romana é repleta de criaturas, objetos e ocorrências estranhas e inexplicáveis, desde centauros até aparições fantasmagóricas, passando por erupções vulcânicas. E eles não estão confinados ao mundo do mito. Relatos sobre a natureza frequentemente focam em fenômenos que podem parecer bizarros ou impossíveis: autores como Plínio, o Velho apresentam como fatos coisas que um público moderno e racional acharia difícil ou mesmo impossível de levar a sério. 

Este fenômeno mencionado por Shannon, chamado pelos romanos de mirabilia (maravilhas ou milages), incluem bestas falantes, mulheres-espírito incrivelmente altas, visões dos deuses e fantasmas. Entre os milagres mais famosos está o conto de Plínio, o Jovem (61-115), que traz a história do filósofo Atenodoro, que vem para Atenas e ouve falar a respeito de uma casa assombrada, muito barata porque todos receiam o fantasma que nela vive. Atenodoro aluga a casa e, naquela noite, ouve um balançar de correntes e acorda para encontrar um homem em seu aposento que gesticula para que ele se levante e venha com ele. O filósofo segue o fantasma até o quintal da casa, onde o espírito repentinamente se desvanece no ar.

No dia seguinte, Atenodoro pede ao magistrado da cidade para cavar um buraco naquele ponto exato, onde eles encontram os restos mortais de um homem acorrentado. Após o sepultamento com os rituais apropriados, a casa deixa de ser assombrada. Esta história é típica de um lugar mal-assombrado no qual um espírito aparece para buscar reparação por um erro. O sepultamento inadequado dos mortos - ou a falta de túmulo - era considerada a principal razão para o retorno de um espírito da vida após a morte, acima, inclusive, do desejo de um espírito de ter sua morte vingada.

A possibilidade de um espírito retornar para pedir a uma pessoa amada para vingar sua morte é ilustrada por um conto relatado por Apuleio, no qual um homem chamado Trasilo se apaixona pela esposa de seu amigo, Tlepolemo, e o mata durante uma caçada. O espírito de Tlepolemo aparece para sua esposa num sonho, conta-lhe como morreu e pede a ela para vingá-lo. Trasilo queria cortejá-la, mas ela recusara o pedido porque ainda estava de luto. Agora, porém, ela diz ao pretendente que ele pode visitá-la naquela noite. A viúva oferece ao visitante vinho misturado com uma droga e, quando Trasilo cai num estupor, ela o cega com seu grampo de cabelo, declarando que a morte é uma punição muito branda para tal crime: a partir daquele momento, o assassino deveria vaguear pela vida sem ver o mundo. Em seguida, ela vai até a tumba do marido, revela a história de sua morte e tira a própria vida com a espada do falecido. A seu próprio pedido, Trasilo é encerrado na tumba de Tlepolemo e morre de fome.

Estas são as duas principais maneiras pelas quais o público da época entendia que os fantasmas se manifestariam (embora não fossem as únicas formas), seja em sonhos ou em aparições físicas, geralmente com alguma relação a problemas da sua morte – o mesmo paradigma observado em outras culturas.

Fantasmas na China e Índia

Na cultura chinesa, o espírito de uma pessoa que tivesse se afogado, morrido sozinha ou em batalha ou sofrido algum tipo de morte que resultasse no corpo insepulto apareceria fisicamente, mas somente poderia ser vista à noite, sob a luz de tochas. O espírito de um ancestral que quisesse relatar alguma informação ou dar um aviso apareceria num sonho.

O filósofo Mo Ti (v. 470-391 a.C.) considerava os fantasmas uma realidade e argumentava de forma favorável à aceitação do relato do fantasma do ministro Tu Po, que teria voltado do além-túmulo para matar Xuan, o rei de Zhou. Ele raciocina que quando uma pessoa ensina a operar uma máquina qualquer, com a qual não se está familiarizado, ou quando se fala sobre uma região da qual nada se conhece, deve-se aceitar o que é dito caso seja um relato crível e feito por testemunhas confiáveis.

Acompanhando esta linha de raciocínio, o que se diz sobre fantasmas deveria ser aceito se aqueles que relatam as histórias são confiáveis no que afirmam sobre outras coisas que podem ser verificadas. Como os relatos históricos antigos, bem como contemporâneos do seu tempo, contêm referências a fantasmas, devem ser aceitos como realidade - da mesma forma como se reconhece a história estabelecida e notícias do dia -, ainda que não se tenha vivido a experiência pessoalmente.

A crença chinesa em fantasmas era fortemente influenciada pela prática do culto aos ancestrais, pois acreditava-se que os falecidos continuariam a exercer um poderoso efeito no cotidiano dos vivos. Como em outras culturas mencionadas, os espíritos dos mortos podiam beneficiar os vivos, exceto se o sepultamento e ritos funerários tivessem sido inapropriados ou inexistentes, o que seria motivo suficiente para uma autorização dos céus com o objetivo de corrigir o erro.

O Festival dos Fantasmas, cujo objetivo é homenagear e apaziguar os mortos, continua a ser realizado no décimo-quinto dia do sétimo mês do ano Conhecido como o "Mês dos Fantasmas". Este período caracteriza-se pela redução ao mínimo do véu entre o reino dos vivos e dos mortos, o que permitiria aos últimos cruzarem a fronteira mais facilmente (semelhante ao conceito do Samhain celta e do festival mesoamericano conhecido como Dia dos Mortos). Durante o Festival dos Fantasmas, as pessoas deixavam alimentos e presentes para os falecidos, na esperança de que eles permanecessem em seu próprio reino e não viessem atormentar os vivos.

O além-túmulo chinês começava com uma jornada na qual a alma atravessava uma ponte sobre um abismo, onde era julgada. Se fosse considerada merecedora, prosseguia, parava num pavilhão para contemplar a terra dos vivos uma última vez e então bebia um copo de uma mistura chamada Mengpo Soup, que a fazia esquecer completamente da vida terrena. A cultura sobre fantasmas da China diverge nesse ponto sobre o que acontece com a alma a seguir: conforme algumas obras, a alma vai para o céu; conforme outras, reincarna. Se a alma é considerada indigna quando cruza a ponte, cai para o inferno, onde vai permanecer. Em qualquer dos casos, não se espera que a alma retorne para o mundo dos vivos e, se isso acontece e não é um ancestral aparecendo num sonho com avisos ou conselhos, certamente há forças malignas envolvidas.

Isso é exemplificado na história de Ning Caicheng e Nie Xiaoqian, relatada no livro de histórias de Pu Songling (1680). Acredita-se que ela seja muito mais antiga do que o século XVII e o enredo traz a visita de Ning a um templo, onde ele é visitado pelo fantasma da donzela Nie. Ela tenta seduzi-lo, mas ele resiste devido à crença numa conduta virtuosa. Dois outros viajantes que visitaram o templo são encontrados mortos na manhã seguinte, com buracos abertos nas solas dos pés e seu sangue drenado.

Nie respeita a virtude de Ning ao resistir aos avanços e lhe conta que ela morreu no templo quanto tinha apenas 18 anos e ficou sob controle de um demônio monstruoso que habitava o terreno onde foi sepultada. Este monstro exigia que ela seduzisse viajantes e drenasse o sangue das vítimas para alimentá-lo. Ning desenterra os restos mortais de Nie e os leva para casa, onde realiza um sepultamento adequado próximo à sua casa, fazendo libações no túmulo como sinal de respeito e homenagem. Após realizar os rituais funerários apropriados para a jovem, ele se vira para ir embora, mas ela o chama. Ning descobre então que ela retornou à vida devido à sua conduta virtuosa e seus esforços para sepultá-la de forma correta. Eles se casam e, segundo a lenda, vivem felizes para sempre e têm vários filhos.

As histórias de fantasmas chinesas quase sempre possuem uma moral nos moldes da Lenda de Ning e Nie e enfatizam o comportamento virtuoso e gentileza para com os outros. O próprio Confúcio acreditava na eficácia destas histórias porque sentia que as lições aprendidas de encontros sobrenaturais poderiam instilar virtudes apropriadas nos vivos. Isso seria verdade até no caso dos encontros com os chamados Fantasmas Famintos, espíritos cujos parentes tinham se esquecido de seus deveres de respeito e recordação ou aqueles que tivessem sido assassinados sem que os responsáveis fossem levados à justiça. Acreditava-se que os Fantasmas Famintos recebiam uma autorização especial dos deuses para atormentar os vivos até que recebessem o que lhes era devido. Eles poderiam assombrar os vivos ou habitar a casa e se comportar de acordo com o familiar poltergeist.

Isso também se aplicava à Índia, onde os fantasmas dos falecidos eram vistos como um tipo de Fantasmas Famintos. Chamados de Bhuta na antiga (e moderna) Índia, apareciam como humanos, mas com pés ao contrário, e mudavam de aparência sem aviso. Os pés ao contrário simbolizavam que alguma coisa estava errada, que o espírito estava numa condição antinatural. Os Bhutas se materializavam quando a pessoa morria antes do seu tempo estabelecido de permanência na terra. Desde que estavam incapazes de desfrutar de suas vidas na plenitude, eles voltavam à terra na esperança de possuir o corpo de alguém.

A possessão fantasmagórica, incluindo o espírito reanimando seu próprio cadáver, era uma grande preocupação na antiga Índia. Alguns estudiosos sustentam que isso levou à prática da cremação dos falecidos. Se o cadáver fosse cremado, o espírito não poderia retornar para reanimá-lo. Além disso, queimavam-se certas especiarias, junto com o uso de amuletos e orações, para proteger os vivos da possessão fantasmagórica do espírito incapaz de reanimar seu antigo corpo.

Desde que estes espíritos morreram antes de seu tempo devido, sentiam-se infelizes e geralmente zangados. Acreditava-se que os fantasmas causavam múltiplos problemas quando se manifestavam fisicamente mas, como em outras culturas, eram considerados benéficos quando apareciam em sonhos e se tratava de alguém conhecido, especialmente um parente.

Um Bhuta particularmente perigoso chamava-se churail, o espírito de uma mulher morta ao dar à luz. Ele seria encontrado em encruzilhadas e esquinas e tentaria fazer amizade com os vivos. Se fosse uma mulher, a churail iria atrás das suas crianças e ou tentaria possuir seu corpo; no caso de um alvo masculino, o espírito procuraria seduzi-lo e matá-lo. Uma vez que o Bhuta (mesmo uma churail) tivesse vivido o seu tempo previsto na terra, deixaria o mundo dos vivos e voltaria à fila da reencarnação.

A crença indiana na existência além-túmulo relativa à transmigração das almas ditava que os falecidos fossem julgados conforme seus atos terrenos, o que determinaria sua destinação acima ou abaixo na hierarquia espiritual na próxima encarnação. Parece, porém, que isso não acontecia com todas as almas, desde que há histórias envolvendo regiões, casas ou mesmo cidades assombradas onde os fantasmas teriam estado presentes por muitos séculos.

O mais famoso destes locais é o Forte Bangarh, em Rajasthan, uma cidade abandonada que seria habitada por fantasmas. Construída no período do Império Mughal, em 1573, era, segundo a lenda, uma localidade próspera até ser amaldiçoada por um ermitão recluso que vivia nas vizinhanças. Numa versão da história, este ermitão era um sábio que teria dado sua benção para a construção da cidade, sob a condição de que nenhuma das construções fosse tão alta a ponto de lançar uma sombra sobre sua casa, situada numa colina, bloqueando a luz solar. Os construtores originais respeitaram esse pedido mas, posteriormente, ele foi esquecido e acréscimos feitos ao palácio fizeram com que a sombra alcançasse a residência do ermitão. Ele amaldiçoou a cidade e seus habitantes por sua falta de consideração e, em apenas uma noite, todos os andares superiores das construções foram destruídos. Quem sobreviveu abandonou o local e construiu uma nova cidade nas proximidades, também chamada Bangarth.

Outra versão da história envolve a bela princesa Ratnavi e o maligno mago Baba Balnath. Ele estava apaixonado pela princesa, mas sabia que ela jamais corresponderia aos seus sentimentos. O mago então preparou uma poção do amor que faria a princesa ficar atraída poderosamente por ele, e a disfarçou como um perfume, que lhe foi entregue, como um presente, quando se encontraram no mercado. Ratnavi suspeitou que o frasco contivesse alguma coisa além de um perfume e derramou o conteúdo numa rocha próxima que, por causa dos poderes mágicos de atração, rolou diretamente em direção ao mago e o esmagou.

À beira da morte, Baba Balnath amaldiçoou Ratnavi e toda a cidade e jurou que ninguém viveria no interior de seus muros novamente. Como na primeira versão, a cidade foi abandonada numa única noite após alguma catástrofe e, confirmando a maldição, jamais foi habitada novamente – pelos vivos, ao menos. Acredita-se que os mortos, porém, ainda residem em Forte Bangarth e há relatos nos dias atuais de pessoas alegando ter ouvido vozes espectrais, gargalhadas na velha casa de banho, passos e há quem diga ter visto luzes movendo-se pela cidade e até mesmo o espírito da própria princesa Ratnavi.

Fantasmas Mesoamericanos

No sistema de crenças maias, fantasmas que se demoram, tais como aqueles que habitariam Forte Bangarth, eram intoleráveis e precisavam ser mantidos à distância através de encantamentos e amuletos ou conduzidos de volta ao submundo através da intercessão de um Daykeeper (Guardião do Dia), um tipo de xamã. Esta noção da vida além-túmulo parecia-se muito com a das civilizações da Mesopotâmia, segundo a qual o submundo seria um local sombrio e terrível, mas os maias foram além: no submundo maia (chamado de Xibalba ou Metnal) havia numerosos Senhores dos Mortos que poderiam enganar as almas dos falecidos que tentavam encontrar seu caminho rumo ao paraíso.

Uma vez que a alma descia para este mundo subterrâneo, seria uma jornada da qual não havia retorno. Fantasmas, como nas demais culturas mencionadas, não deviam voltar para a esfera terrena. O espírito poderia deixar o corpo e ser conduzido através de uma grande extensão de água pelo espírito de um cão, que ajudaria a alma a navegar entre as jornadas e armadilhas dos Senhores de Xibalba até chegar à Árvore da Vida, que precisaria escalar para alcançar o paraíso.

Os espíritos que retornavam, portanto, eram considerados antinaturais a não ser, como em outras culturas, que aparecessem em sonhos e fossem reconhecidos como amigos ou membros da família (embora isso nem sempre fosse o caso). Os maias preferiam acreditar que os mortos que não encontravam o descanso eterno retornariam na forma de plantas, que tanto podiam ser benéficas ou maléficas.

O melhor exemplo desta crença é a Lenda de Xtabay, que conta a história de duas belas mulheres, Xkeban e Utz-Colel. Xkeban era maltratada pelo povo respeitável do povoado porque tinha feito sexo com um homem fora do casamento, mas os mais pobres a adoravam por causa de sua bondade e gentileza. Utz-Colel era altamente respeitada pelos mais ricos porque vinha de uma boa família e observava toda a etiqueta social adequada; em compensação, tinha um coração duro e cruel e não se importava com ninguém além de si mesma.

Certo dia, uma flagrância estranha e intoxicante tomou conta da vila e, quando os pobres buscaram sua origem, chegaram à cabana de Xkeban e a encontraram morta. A adorável flagrância emanava de seu corpo. Eles a sepultaram e, no dia seguinte, belas flores selvagens foram descobertas sobre seu túmulo, com o mesmo perfume sentido no dia anterior.

Logo a seguir, Utz-Colel morreu – e de seu corpo subiu um odor terrível. O povo respeitável do povoado a sepultou com grande cerimônia, como uma boa e nobre mulher, com muitas flores. No dia seguinte, porém, as flores tinham murchado e morrido. De seu túmulo cresceu a flor conhecida como Tzacam, que não tem perfume, enquanto da sepultura de Xkeban cresceu a flor Xtabentun, com um doce perfume. As almas correspondentes das duas mulheres se fundiram às respectivas flores.

Quanto Utz-Colel descobriu que era uma flor espinhosa sem perfume, ficou com ciúmes de Xkeban e convenceu-se de que o pecado amoroso da rival teria lhe trazido tal recompensa. Ela fez um acordo com os espíritos sombrios de Xibalba para trazê-la de volta à vida, de forma que pudesse fazer sexo com qualquer um que lhe agradasse e, assim, receber as mesmas bençãos de Xkeban. Utz-Colel não compreendia, no entanto, que era movida apenas pela ambição, enquanto que Xkeban tinha sido motivada por amor. Então, ela retornou à terra como Xtabay, a flor que cresce do cacto Tzacam mas, algumas vezes, assumia a forma humana e esperava por viajantes em encruzilhadas. Se um homem lhe desse atenção, ela o seduziria e o mataria. Se o viajante fosse uma mulher, seria punida por afligir sua tranquilidade.

Nas crenças astecas há uma entidade similar, que se parece muito com as churails da Índia. O espírito asteca, chamado Cihuateteo, é o fantasma de uma mulher que morreu ao dar à luz. Estes espíritos também assombravam encruzilhadas mas ignoravam os viajantes; esperavam mulheres com crianças e então derrubavam a mulher e roubavam seus filhos. Também se acreditava que elas conseguiriam se esgueirar para dentro das casas à noite para abduzir crianças.

Amuletos e encantamentos seriam penduradas nas entradas e janelas para afastar a cihuateteo. No sistema asteca de crenças, fantasmas seriam também hóspedes indesejados, que só traziam más notícias ou serviam como presságios de desgraças. Como os maias, os astecas consideravam o além-túmulo como um local sombrio e sem retorno. Se um espírito voltasse, seria uma clara indicação de que alguma coisa estava errada ou que havia problemas à vista.

Como os maias e tarascanos, os astecas acreditavam que os cachorros podiam ver e proteger as pessoas contra fantasmas. Assim, eles sepultavam os falecidos com cães que serviriam à alma na vida após a morte, bem como a guiaria através do submundo, protegendo-a contra os espíritos malignos. Os tarascanos temiam profundamente os fantasmas em geral e, dessa forma, desenvolveram o conceito do cão espírito.

Acreditava-se que os fantasmas eram os espíritos daqueles que tinham sido sepultados de forma imprópria, morrido sozinhos numa caçada e nunca encontrados e também dos afogados. Eles voltariam para assombrar os vivos até que seus corpos fossem descobertos e enterrados adequadamente, de acordo com o cerimonial funerário. O problema, claro, era que os cadáveres poderiam não ser encontrados. Nesses casos, os tarascanos consideravam que um cão espírito poderia descobrir o corpo e conduzir a alma para a vida além-túmulo, evitando que atormentasse os vivos.

Os mortos eram celebrados nas culturas mesoamericanas em vez de pranteados, o que deu origem ao evento conhecido hoje como O Dia dos Mortos (El Dia de los Muertos). A comunidade se reúne nesta ocasião para relembrar os que passaram para o outro lado e para homenagear suas vidas. Originalmente, os astecas honravam a deusa do submundo, Mictecacihuatl, durante este festival, e também as almas das crianças e adultos falecidos. O festival costumava acontecer durante o período da colheita do milho (final de Julho e decorrer de Agosto) mas, após a conquista espanhola, mudou para Novembro, para coincidir com o Dia de Todos os Santos da igreja católica.

Fantasmas Celtas

Esta mudança de estação do Dia dos Mortos na Mesoamérica ocorreu devido à política católica de "cristianização" dos festivais pagãos existentes. Uma celebração similar, observada em locais da Europa setentrional como Irlanda, Escócia e Gales, é conhecida como Samhain (pronuncia-se sou-uen). Os pagãos destas regiões viam a vida como cíclica e não linear e portanto os anos giravam, como uma roda. Samhain era o fim de um ciclo e o início do próximo e acreditava-se que, nesta época, o véu entre os vivos e os mortos afinava-se, o que permitiria aos falecidos voltar à vida.

Isso acontecia no final de Outubro e início de Novembro, tradicionalmente começando no pôr do sol em 31 de Outubro e indo até 2 de Novembro (embora em alguns casos a celebração ocorresse por uma semana antes de 31 de Outubro e uma semana após). Ainda que muitas fontes modernas da Internet e algumas séries populares de TV dos Estados Unidos afirmem que Samhain era o deus celta dos mortos, a quem seriam dedicados sacrifícios no dia 31 de Outubro, isso não é verdade. Jamais houve um deus celta dos mortos chamado de Sam Hain. "Samhain" simplesmente significa "o fim do verão" na linguagem celta.

Conforme a crença dos celtas, os mortos caminhavam livremente pelo mundo dos vivos neste período e as pessoas preparavam refeições que seus amigos e parentes falecidos apreciavam em vida. Samhain era uma celebração importante, a ocasião em que se fazia a colheita, o gado era morto e salgado para o inverno e os ossos eram queimados, uma prática que deu origem aos bone fires, atualmente conhecidos como "bonfires" [fogueiras].

O lado sombrio de Samhain, porém, residia nos mortos inquietos (como os Fantasmas Famintos chineses), também lives para vaguear. Por isso, as pessoas iniciaram a prática de usar máscaras para não serem reconhecidas por um espírito que quisesse prejudicá-las. Este costume evoluiu para a comemoração moderna do Halloween.

O Império Romano tinha conquistado a maior parte das regiões célticas no século I e, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do império, no século IV, a igreja incorporou muitos feriados pagãos em seu calendário. Devido à popularidade de Samhain, foi incluído pela igreja como Allhallows ou Hallowmas, que se tornou o Dia de Todas as Almas e depois o Dia de Todos os Santos, época em que se orava pelas almas dos mortos no purgatório. Como Samhain na Europa, o mesmo ocorreu com o Dia dos Mortos no México; os festivais pagãos viraram efemérides do calendário cristão.

Conclusão

Ainda que a crença de que os mortos podiam retornar à terra no Dia de Todos os Santos persistisse, mudou quando a visão cristã da vida além-túmulo cresceu em popularidade e os fantasmas ficaram relacionados a demônios e o diabo. A Bíblia menciona fantasmas em passagens como Mateus 14:25-27, Marcos 6:48-50 e Lucas 24:37:39. Entre as mais famosas citações referentes a fantasmas está a de I Samuel 28:7-20, na qual o Rei Saul vai até a Bruxa de Endor e pede para que ela conjure o fantasma de Samuel, sem antigo conselheiro e um profeta de Deus. Por causa disso, Saul perde o favoritismo de Deus por preferir consultar um espírito sobre o que fazer, em vez de confiar seu destino a Deus.

Os fantasmas, e especialmente a conjuração de espíritos, assumiu uma conotação negativa à medida que o cristianismo ganhava mais adeptos. A passagem em Marcos 6 também é interpretada como uma representação negativa de fantasmas, pois os discípulos pensam que Jesus é um fantasma quando o veem caminhando sobre as águas. Fantasmas não podiam caminhar sobre as águas, somente deuses e aqueles que eram divinos e, portanto, quando o confundem com um espírito, isso mostraria sua dificuldade em receber a mensagem de salvação de Jesus. O estudioso Jason Robert Combs assinala como o autor de Marcos sabia que sua audiência reconheceria o simbolismo do fantasma. Ele escreve:

"Deuses e homens divinos caminham sobre as águas; fantasmas não. Mas quando os discípulos veem Jesus caminhando sobre as águas, eles acreditam no impossível ao invés do óbvio. A inclusão de Marcos deste absurdo, “porque eles o viram caminhando sobre o mar pensaram que era um fantasma” (6:49), enfatiza de forma dramática a interpretação equivocada do messianismo de Jesus. 

O autor de Marcos continuamente destaca que os discípulos falhavam em reconhecer quem era Jesus e sua missão. O uso do termo fantasma logo no início do livro faria este ponto claro para o público da época, conhecedor do fato de que um espírito não poderia caminhar sobre as águas e que, além disso, a água costumava ser empregada para afugentá-los. O livro bíblico de I João 4:1 declara que se deveria testar todos os espíritos para verificar se eram de Deus e não acreditar que cada espírito seria o que aparentava. Esta passagem, somada à crença expressada em Marcos, I Samuel e outros, encorajou uma conotação ainda mais negativa dos fantasmas do que as pessoas tinham anteriormente.

Embora os fantasmas não tenham sido sempre considerados como indesejados e antinaturais, estavam agora ligados ao demoníaco e vistos como agentes do diabo. As pessoas eram encorajadas a rejeitá-los já que, quando morriam, suas almas iriam para o céu, inferno ou purgatório, sem retornarem à terra. Se alguém via um fantasma, então, assumiria que se tratava de um truque do diabo para atrair a alma para o inferno, ao trazer dúvidas sobre a ordem divina de Deus.

Esta atitude sobre os fantasmas é explorada com fins dramáticos na obra de Shakespeare Hamlet, quando o príncipe dinamarquês duvida que o fantasma que viu seja realmente do seu pai voltando do além-túmulo e diz: "O espirito que eu vi/Pode ser um demônio, e o demônio tem poder/Para assumir uma forma agradável,sim, e talvez/Pela minha fraqueza e melancolia/Como ele é potente com tais espíritos/Provocar minha danação" (II.ii. 610-615). Esta visão dos fantasmas alterou completamente a velha concepção de que eles eram almas dos falecidos e, uma vez que eram demoníacos, desencorajava-se a crença em tais seres.

Com o tempo, uma crescente confiança no secular e mais “científico” modo de ver o mundo completou o trabalho iniciado pela igreja e relegou os fantasmas ao reino da superstição e ficção. A julgar pelo número de websites e livros devotados ao assunto, há muitos interessados no tema dos fantasmas nos dias atuais mas, em termos gerais, a crença não é encorajada culturalmente; uma situação exatamente oposta à posição dos fantasmas no mundo antigo.

O jornalista John Keel, que investigou muitos dos chamados eventos paranormais e é mais conhecido pela sua obra The Mothman Prophecies (As Profecias do Homem-Mariposa), afirmou certa vez que não existe o “paranormal” ou “sobrenatural”. Após citar vários estranhos eventos que pessoas teriam experimentado durante a história, Keel observa que o que as pessoas atualmente chamam de “paranormal” ou “sobrenatural” são na verdade aspectos normais e naturais da vida na terra.

O mundo dos espíritos, fantasmas e almas aparecendo do além-túmulo, de acordo com ele, podem ser tão reais hoje quando eram para as pessoas do mundo antigo; a razão pela qual não mais se aceitam fantasmas como uma parte da vida é simplesmente porque o mundo que opera desta forma não é mais reconhecido como válido. Um novo paradigma de como o mundo funcionava nasceu com o cristianismo e depois com a aceitação de uma visão secular do universo. Com isso, os fantasmas foram distanciados ainda mais do reino dos vivos até que, finalmente, eles perderam seu vigor e se tornaram a matéria-prima de narrativas e lendas.