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terça-feira, 18 de agosto de 2026

O medo e a angústia em Heidegger

 

Recentemente notei que se tornou muito comum pessoas despertarem um pavor de coisas antes  prazerosas no seu cotidiano, como tomar um banho de mar tranquilo. Ao entrar na água, o pavor de sofrer um ataque de tubarão que toma completamente a mente e o corpo, a ponto de causar paralisia. O mais intrigante é que, embora muitas pessoas tenham nascido e crescido á beira mar, isto é, rodeada pelo mar, jamais viram um tubarão vivo de perto nem tiveram notícia de qualquer ataque no local aonde estão lá. Assim, nenhum evento traumático relacionado a esses animais jamais ocorreu, fazendo deste medo recente um evento aparentemente injustificável.

Naturalmente, essa descoberta me despertou o interesse por desvendar o “o quê” e as causas desse problema. Para isso, recorri à literatura que me foi mais acessível, partindo de uma perspectiva filosófica-teórica para uma visão psicológica-prática. Esta reflexão, portanto, tem como objetivo explicar o que é o medo, por que o sentimos e como vencê-lo, e será apresentada em três partes, sendo esta a primeira.

Pois bem, podemos dizer que o medo é uma das nossas emoções mais básicas, estritamente associada ao nosso senso de autoproteção e sobrevivência. O corpo humano reage instintivamente ao perigo, à aparência do perigo ou simplesmente à crença do perigo, levando-nos em direção à fuga.

Fugir, afastar-se, correr para longe: “é especialmente daquilo de que foge que a presença corre atrás”. Encontrei em Heidegger a resposta mais próxima sobre o objetivo fundamental do medo: a ação. Não posso me apresentar como uma pessoa competente para destrinchar a filosofia heideggeriana, já que nunca me dediquei a estudar profundamente a obra do filósofo alemão. Limitarei-me, portanto, a resumir o básico de suas lições que nos podem ser úteis aqui, e que estão concentradas no capítulo sexto da sua obra Ser e Tempo.

Sabe-se que a preocupação mais profunda de Heidegger não se concentrou na existência em si, mas no ser, mais especificamente no esquecimento do ser. Para ele, o homem cotidiano (do século XX) se mantinha numa situação de encobrimento do seu ser, por isso possuía uma compreensão equivocada da sua própria existência. E essa tendência ao encobrimento repousa, para Heidegger, na tradição filosófica clássica, que levantou pela primeira vez, com os gregos, a questão do ser, mas logo em seguida a esqueceu, dedicando-se a afirmá-la somente a partir do ser enquanto ente e não do ser enquanto tal. Isso o levará, não surpreendentemente, a encontrar na superação da tradição filosófica clássica uma solução para o homem moderno.

Todo esse problema, na visão heideggeriana, gira em torno do conceito de Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo). O Dasein, normalmente traduzido para o português como “presença”, é aquilo que confere ao mundo o caráter de mundo, e aqui o mundo tem uma definição diferente da concepção moderna estabelecida em Descartes. Assim, o interessado em se aprofundar nessa problemática deverá se dedicar à obra do autor, com especial atenção para o seu Ser e Tempo. 

Ao se concentrar em explicar os aspectos existenciais que constituem o Dasein como ser no mundo, Heidegger se viu diante da questão existencial fundamental, isto é, qual é, afinal, o ser da totalidade do todo estrutural, o traço constitutivo da existência do Dasein em que reside a totalidade do ser da existência humana, em outras palavras, a própria essência humana. E ele encontrará esse traço totalizante que define a essência do ser humano justamente no conceito de angústia, buscando o nexo ontológico entre angústia e medo, admitindo que entre ambos existe um parentesco fenomenal, por isso aparecem, na maior parte das vezes, inseparáveis um do outro.

Essa distinção que Heidegger faz entre angústia e medo levou ao topo a minha suspeita de que o meu medo de tubarões tem muito pouco a ver com... tubarões. Veja bem, Heidegger diz que, ao contrário do medo, a angústia não vê um “aqui” e um “ali” determinados, de onde o ameaçador se aproxima. É justamente em o ameaçador não se encontrar em lugar nenhum que se caracteriza a angústia. Ela não sabe o que é aquilo com que se angustia. No entanto, “em lugar nenhum” não significa um nada meramente negativo: “o ameaçador dispõe da possibilidade de não se aproximar a partir de uma direção determinada, situada na proximidade, e isso porque ele já está sempre 'por aí', embora em lugar nenhum. Está tão próximo que sufoca a respiração e, no entanto, encontra-se em lugar nenhum”.

O que Heidegger parece estar descrevendo vai muito além da situação em que uma pessoa teme ser atacada por tubarões, morrer afogada ou viajar de avião; é um estado diante do mundo ou com o mundo, perante o qual os tubarões, a água e os aviões estão aí, senão como figuras quase irrelevantes, como representação daquilo que se verdadeiramente teme.

Aquilo de que se tem medo é sempre um ente intramundano que, advindo de determinada região, torna-se, de maneira ameaçadora, cada vez mais próximo, diz o autor alemão. Medo é a angústia imprópria, entregue à decadência do “mundo” e, como tal, angústia nela mesma velada. Na angústia se está “estranho”. Estranheza significa “não se sentir em casa”, não estar “familiarizado com...”. O não sentir-se em casa deve ser compreendido aqui, essencialmente e ontologicamente, como o fenômeno mais originário.

A angústia para Heidegger tem um quê existencial essencialmente humano. Ela é mais que um fenômeno psicológico e ôntico; ela tem uma dimensão ontológica, pois nos remete à totalidade da existência como ser-no-mundo. Só o homem se angustia, só o homem existe e só o homem pode ter uma compreensão do ser. A diferença entre Heidegger e autores como Kierkegaard e Pascal vai residir no fato de que, nestes, a angústia revela o nosso ser finito, o nada de nossa existência diante da infinitude de Deus, do caráter eterno de Deus, enquanto Heidegger conceberá a angústia apenas como fenômeno existencial da finitude do homem.

“É na angústia que a liberdade de ser para o poder-ser mais próprio... mostra-se numa concreção originária e elementar.”

O filósofo alemão descreve o sentimento de apavoramento de que falava Pascal como o sentimento de angústia, e sugere que a angústia é fundamental para que se alcance a verdade. Pois a busca da verdade não deve ser estática, passiva, contemplativa, mas movimentada pela ação; a ação de ir vivenciar o Nada, o desconhecido, o medo. O medo, assim, impele o homem a abandonar a passividade e se abrir para o desconhecido e obscuro, lutando contra seus instintos mais elementares.

Entendo que, para Heidegger, o medo não é algo a ser evitado, mas buscado no nosso mais profundo ser. O obscuro, o desconhecido, o temido, é onde propriamente encontramos a nossa essência como seres humanos. Somente nos abrindo em direção ao medo conseguiremos de fato nos conhecer e superar a nós mesmos. Esta pode ser, talvez, uma diferenciação própria do Dasein, uma capacidade do ser que reside não apenas em estar no mundo, mas de ser-no-mundo, de ser envolvido no mundo, compreendido no mundo. E o medo da morte encontra aqui uma posição especial, pois nos coloca de face, ou com a eternidade ou com a total falta de sentido, o que, por sua vez, foi demonstrado por Pascal.

Pois bem, para os interessados na visão de Kierkgaard sobre a angústia, recomendo a leitura da sua obra “O Conceito de Angústia”. E considerando a grande demanda de dúvidas e perguntas, a maioria relacionadas ao "medo da morte", a segunda parte desta reflexão trará a visão de Pascal sobre a importância de “antecipar a morte” e de investigar a natureza mortal ou imortal da alma.