Arqueólogos da Universidade de Udine, na Itália, revelaram novas descobertas que lançam luz sobre a cidade baixa de Nimrud, uma das capitais mais importantes do antigo Império Assírio, no que hoje é o norte do Iraque. As novas descobertas surgem após quase 180 anos de escavações, concentradas principalmente em seus palácios e templos reais.
Os resultados são fruto do Projeto Arqueológico da Cidade Baixa de Nimrud (NiLTAP), liderado pelos arqueólogos Daniele Morandi Bonacossi e Francesca Simi. O projeto visa reconstruir o cotidiano da cidade assíria, indo além do foco tradicional em reis e elites governantes.
A cidade baixa situa-se ao pé da acrópole, abrangendo uma área de aproximadamente 340 hectares e cercada por muralhas com cerca de 8 km de extensão.
Durante décadas, a atenção arqueológica esteve voltada para a Acrópole, onde foram descobertos palácios, templos e enormes relevos em pedra que documentavam as conquistas dos reis assírios. Enquanto isso, as áreas onde viviam artesãos, comerciantes e a população em geral permaneceram muito menos estudadas.
As escavações em Nimrud foram iniciadas pelo arqueólogo Austen Henry Layard em 1845. No entanto, a cidade baixa recebeu apenas investigações de campo limitadas entre 1987 e 1989, quando o arqueólogo Paolo Fiorina trabalhou lá, antes que a Guerra do Golfo interrompesse o projeto.
Nimrud era conhecida como Kalhu (Calah). O rei Assurnasirpal II fez dela a capital do Império Assírio no século IX a.C. Mais tarde, a corte assíria mudou-se para Dur-Sharrukin, hoje conhecida como Khorsabad.
A cidade possui uma importância excepcional devido à sua localização, bem como ao seu papel político e urbano durante o auge do Império Assírio. Além disso, grandes porções da cidade baixa não foram intensamente reconstruídas em períodos posteriores, o que ajudou a preservar muitos de seus vestígios sob a superfície.
O projeto NiLTAP adotou uma abordagem que combina tecnologia moderna com métodos tradicionais de levantamento arqueológico. A equipe começou analisando imagens de satélite históricas desclassificadas, incluindo aquelas capturadas por missões de reconhecimento entre 1967 e 1974.
As imagens revelaram indícios de planejamento urbano organizado na cidade baixa, incluindo muralhas, portões, ruas e áreas com diferentes densidades populacionais. Os pesquisadores então testaram esses indicadores por meio de trabalho de campo.
Durante a campanha de 2025, a equipe criou, pela primeira vez, um mapa topográfico moderno e de alta resolução de todo o local, utilizando o Sistema de Posicionamento Global Diferencial (DGPS) e um drone que produziu imagens aéreas geometricamente corrigidas e um modelo digital do terreno.
Os pesquisadores dividiram a cidade baixa em uma grade de quadrados, cada um medindo 40 m de lado, e coletaram fragmentos de cerâmica de superfície de cada quadrado. Isso permitiu que eles estudassem a distribuição das áreas de assentamento e as mudanças que sofreram ao longo de diferentes períodos.
Uma das descobertas mais notáveis do projeto é uma reavaliação das suposições anteriores sobre o sistema de abastecimento de água de Nimrud. Durante muito tempo, acreditou-se que o canal Patti-Hegalli, construído por Assurnasirpal II, era a principal fonte de água da cidade. No entanto, a análise dos novos dados topográficos sugere que outro canal, localizado ao norte da cidade, pode ter desempenhado um papel importante no abastecimento de água de Nimrud.
Resultados preliminares de levantamentos geofísicos magnéticos em um setor a leste da Acrópole revelaram uma rede organizada de ruas, bairros residenciais e complexos maiores, fornecendo evidências de um tecido urbano integrado sob os atuais campos agrícolas.
Os líderes do projeto acreditam que a combinação de levantamento de superfície, topografia precisa, análise de imagens históricas, sensoriamento remoto e levantamento geofísico em um Sistema de Informação Geográfica (SIG) unificado oferece uma oportunidade sem precedentes para estudar Nimrud em toda a sua extensão.
Essa abordagem não se limita à identificação de edifícios; ela também permite o estudo de como os bairros residenciais, as zonas de atividade econômica, as ruas e os sistemas de água estavam distribuídos, aproximando os pesquisadores do cotidiano das pessoas que habitavam a capital assíria e seus palácios reais.