Mostrando postagens com marcador Papias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papias. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de outubro de 2026

O Evangelho de João é uma falsificação, uma fabricação e um engano literário?

 

Nos últimos dias, vi várias postagens nas redes sociais sobre o recente artigo de Hugo Mendez, "A Comunidade Joanina Existiu?". O título e o resumo do artigo me deixaram imediatamente com uma pulga atrás da orelha. Parece que, de tempos em tempos, alguém escreve um artigo ou um livro alegando que nos fará repensar completamente tudo o que pensávamos sobre Jesus, o Novo Testamento ou o cristianismo primitivo. Quase inevitavelmente, a alegação não leva a lugar nenhum e se mostra pouco convincente. Mas, como essa alegação foi feita, as premissas dessa obra permanecem na consciência pública e as pessoas tendem a simplesmente presumir que a alegação, ou algo semelhante, deve ser verdadeira até certo ponto.

Com o tempo, mais trabalhos serão escritos repetindo essa afirmação pouco convincente, mas com uma pequena variação. Essa nova afirmação será aclamada como "inovadora" e "provocativa", e mesmo que, no fim das contas, não leve a lugar nenhum, estará circulando e se tornará parte do cenário acadêmico. Afinal, é ousada, é original e é instigante. O único problema é que é praticamente inútil, e quanto mais recebe aplausos na academia, mais a academia perde credibilidade.

É possível observar exemplos de ideias levadas a um extremo tão absurdo que até mesmo acadêmicos apegados à novidade precisam admitir que as afirmações são um disparate. O livro "Jesus Mythicism", de Richard Carrier, é um excelente exemplo dessa insanidade. A bem da verdade, porém, Carrier apenas expandiu as afirmações um pouco menos absurdas de estudiosos como Bart Ehrman. Ora, Ehrman é um verdadeiro estudioso da Bíblia, mas apresentou argumentos bastante extravagantes; e são justamente esses argumentos extravagantes que abrem caminho e convidam a "ultrapassar os limites" para afirmações ainda mais absurdas.

Admito que sou apenas um estudioso bíblico de segunda categoria, mas reviro os olhos quando me deparo com esse tipo de coisa. Sempre vão longe demais e se baseiam em especulações, suposições e, francamente, em um pensamento muito simplista. Nem tudo acaba sendo tão absurdo quanto as afirmações sem sentido do Miticismo de Jesus, mas sejamos honestos, há muitos exemplos no mundo acadêmico dos Estudos Bíblicos de absurdos insensatos disfarçados de pesquisa de ponta.

Vamos analisar o artigo de Mendez

Isso me leva ao artigo de Mendez. Já ​​li coisas muito piores, mas, para ser sincero, não há nada em seu artigo que seja baseado em algo além de especulação. É pura especulação contra uma caricatura bastante simplista e superficial dos escritos joaninos, que a maioria dos estudiosos sequer aceita. Permita-me resumir o argumento de Mendez em alguns tópicos:

O apóstolo João não escreveu o Evangelho de João; ele foi escrito por um autor anônimo que se apresentou como o "discípulo amado", cuja existência histórica não podia ser comprovada e, portanto, cuja veracidade era incontestável. Ele se fez passar por testemunha ocular do Jesus histórico para dar credibilidade às suas próprias afirmações teológicas sobre Jesus. Em resumo, ele estava praticando um engano literário.

Aqueles que escreveram as epístolas de I, II e III João imitaram intencionalmente o estilo de escrita daquele autor anônimo do Evangelho de João para fazer parecer que o mesmo homem (isto é, o apóstolo João) as havia escrito. Eles também estavam praticando um engano literário.

Essa dinâmica é diferente da das cartas de Paulo, cuja autenticidade é contestada. Embora essas epístolas não tenham sido escritas por Paulo, elas foram claramente escritas no estilo dele, e Paulo foi a figura histórica real que escreveu suas cartas para comunidades paulinas reais e históricas. Portanto, as cartas de Paulo, cuja autenticidade é contestada, possuem maior credibilidade histórica. Em contrapartida, o Evangelho de João é uma obra anônima, o que significa que I, II e III João são igualmente cartas anônimas que tentam imitar o estilo de escrita de uma obra anônima anterior — portanto, nenhuma comunidade joanina jamais existiu ali.

Sim, I, II e III João compartilham temas e estilos de escrita comuns com o Evangelho de João, mas isso não significa que foram escritos pelo mesmo autor. Significa que os autores anônimos das epístolas estavam propositalmente tentando fazer parecer que eram de autoria do mesmo autor.

O Evangelho de João é historicamente suspeito porque o diálogo nele contido não se assemelha em nada ao diálogo dos Evangelhos Sinópticos. Os longos discursos de Jesus são invenções do autor, nas quais "a voz de Jesus foi apropriada pelo autor, que o transformou em porta-voz de um intrincado sistema de ideias alheio aos Sinópticos". Em suma, embelezar é uma coisa, fabricar algo no Evangelho de João é outra bem diferente. Nesse aspecto, o Evangelho de João se assemelha mais aos Evangelhos pseudoepígrafos de Tomé, Maria e Pedro.

Quem escreveu o Evangelho de João teve que dar a entender que era um "discípulo amado" como João, para competir com a "grande quantidade de evangelhos" que circulavam no final do primeiro século.
Conclusão? O Evangelho de João é uma “fonte contaminada” para a reconstrução histórica, portanto, o mesmo se aplica às epístolas — elas são “extensões de uma invenção e invenções por si só”. Logo, a ideia de que existiu uma comunidade joanina é uma ficção.

Quanto às supostas figuras históricas mencionadas em III João (Gaio e Demétrio) — Lamento, mas como o autor é fictício, esses nomes são apenas uma “isca” enganosa para dar à epístola uma aparência histórica.

O autor do Evangelho de João baseou-se nos Evangelhos Sinópticos para compor o seu próprio evangelho e modificou a visão sinóptica da “vida eterna” que seria alcançada na “era vindoura” após uma futura ressurreição, caracterizando-a como uma “ressurreição espiritual” (João 5:24-25) que poderia ser experimentada aqui e agora. (Mendez também afirma que essa ideia de uma “ressurreição espiritual” pode ser encontrada nas obras paulinas “pseudoepígrafas” de Colossenses 3:1-3 e Efésios 2:1-7).

Vamos reagir ao artigo de Mendez

Comecemos com uma pergunta: "Você está convencido por essas afirmações?" Eu não estou. E vamos direto ao ponto: não há nenhuma evidência concreta que sustente nada disso .

Autoria

É verdade que, tecnicamente, o Evangelho de João é anônimo, pois em nenhum lugar do próprio Evangelho é afirmado que João o escreveu. Mas encontramos indícios disso em diversos Padres da Igreja do início do século II, como Papias, Irineu e Policarpo. Eusébio também os menciona em sua História da Igreja Cristã. O consenso entre os primeiros Padres da Igreja, logo após o período apostólico do século I, é que o apóstolo João acabou vivendo em Éfeso mais tarde em sua vida, e que foi exilado por um tempo em Patmos durante o reinado de Domiciano.

Ao mesmo tempo, como nos conta Papias, bispo de Hierápolis (70-163 d.C.), havia outro João vivendo em Éfeso, conhecido como João Presbítero. Dito isso, Irineu relata que tanto Papias quanto Policarpo, bispo de Esmirna (69-155 d.C.), conheceram o apóstolo João quando eram jovens e João já era idoso (provavelmente por volta da década de 90 d.C.). Além disso, Irineu, bispo de Lyon (130-200 d.C.), ao discutir o cânon das Escrituras, afirma que a Igreja reconhecia quatro Evangelhos autorizados: Mateus, Marcos, Lucas e João.

Levando tudo isso em consideração, eis o que podemos afirmar com certeza, pelo menos na minha opinião:

(1) O Evangelho de João é tecnicamente anônimo
(2) O verdadeiro apóstolo João acabou vivendo em Éfeso até sua morte, por volta da década de 90 d.C.
(3) Havia outro líder cristão em Éfeso naquela época que também se chamava João.
(4) Irineu nos diz que tanto Papias quanto Policarpo conheciam o apóstolo João.
(5) Irineu também menciona que o Evangelho de João era um dos quatro evangelhos canônicos.

Portanto, parece-me que, embora não possamos afirmar com certeza que o apóstolo João escreveu o Evangelho de João, é bastante óbvio que essa era a afirmação da Igreja primitiva dentro de uma geração após a morte de João. E mesmo assim, havia uma admissão aberta de que existiam dois Joãos em Éfeso, que às vezes eram confundidos. Isso não fez com que ninguém duvidasse do status canônico e da autoridade do Evangelho de João.

Diante disso, as afirmações de Mendez de que o Evangelho de João, assim como I, II e III João, são invenções, falsificações e enganos literários são, para dizer o mínimo, um tanto sensacionalistas, ouso dizer, "ao estilo de Carrier".

Diálogo e Estilo de Escrita

Vamos abordar brevemente mais dois pontos. Primeiro, será que Mendez tem razão quanto aos diálogos no Evangelho de João? O Evangelho de João é historicamente questionável porque seu diálogo é diferente do dos Evangelhos Sinópticos? Em resumo, não. Ao mesmo tempo, não conheço muitos estudiosos que considerem os discursos de Jesus no Evangelho de João como ditados palavra por palavra. É claro que os discursos no Evangelho de João são construções literárias altamente criativas que refletem a teologia que o autor está transmitindo. Isso não significa que o autor esteja "fabricando" coisas ou inventando tudo do nada. Simplificando, o uso da criatividade literária não significa automaticamente que nada no texto tenha fundamento histórico . Só se chega a essa conclusão partindo de uma premissa fundamentalista que diz: "A menos que seja exatamente o que Jesus disse palavra por palavra (ou seja, a menos que seja basicamente um ditado), então não é verdade!"

E quanto à afirmação de Mendez de que as semelhanças estilísticas entre I, II e III João e o Evangelho de João são apenas evidências de que pessoas diferentes escreveram I, II e III João e copiaram intencionalmente o estilo de escrita do Evangelho de João... e depois incluíram referências a Gaio e Demétrio como "provocações" extras em suas artimanhas literárias? Minha reação a essa afirmação é: "E qual é a sua prova disso?". Talvez uma conclusão mais plausível (e menos conspiratória) seja simplesmente esta: se você tem vários textos diferentes que compartilham os mesmos temas e estilos de escrita, talvez deva concluir que a mesma pessoa os escreveu. Na minha opinião, o argumento de que "Vejam como esses estilos de escrita são semelhantes — eles devem ter sido escritos por autores diferentes!" simplesmente não se sustenta.

E o que significa essa tal de “ressurreição espiritual”?

Por fim, fiquei surpreso com a afirmação de Mendez de que o autor do Evangelho de João (vamos chamá-lo apenas de João) estava tentando promover a ideia de uma “ressurreição espiritual”, e que essa mesma ideia era encontrada no pseudoepígrafos de Paulo. Não, as passagens citadas por Mendez não se referem a uma “ressurreição espiritual”. Essa expressão é um paradoxo que não faz sentido. O próprio conceito de ressurreição denota uma superação física da morte , não algum tipo de iluminação espiritual ou experiência com o Espírito Santo. O que Jesus diz em João 5:24-25, assim como o que Paulo diz em Colossenses 3:1-3 e Efésios 2:1-7, não se trata de uma “ressurreição espiritual”, mas sim da experiência do crente com o poder transformador do Espírito Santo, que foi disponibilizado àqueles que depositam sua fé em Cristo, precisamente porque Jesus Cristo ressuscitou fisicamente na história. E essa experiência do Espírito Santo é tomada como garantia de que aqueles que depositam sua fé em Cristo ressuscitarão fisicamente um dia, assim como o próprio Cristo ressuscitou. Essas passagens não se referem a algum tipo de “ressurreição espiritual”.

Conclusão:

Muito mais poderia ser dito, mas a conclusão (pelo menos para mim) é que o artigo de Mendez não apresenta nada de substancial. Já sabíamos que a autoria do Evangelho de João, embora claramente reivindicada no início do século II , ainda não é totalmente conclusiva — o que é bem diferente de afirmar que se trata de uma “falsificação”, “invenção” ou “engano literário”. Já sabíamos que os diálogos no Evangelho de João não são ditados palavra por palavra — é óbvio que houve uso de criatividade literária. Isso está muito longe de dizer que o autor anônimo estava simplesmente inventando coisas porque aparentemente havia uma competição real no mercado de vendas daquela pequena minoria perseguida conhecida como os cristãos do final do século I.

Sim, eu entendo que o principal argumento de Mendez é que não existiu uma comunidade joanina de fato, e esse é um assunto completamente diferente. Mas dizer: "Já que o Evangelho de João é anônimo, isso significa que I, II e III João são invenções, e isso significa que não existiu uma comunidade joanina de fato" — apesar das claras evidências de que o apóstolo João realmente viveu em Éfeso quando idoso e tinha uma comunidade de fiéis ao seu redor, entre os quais estavam Policarpo e Papias — me desculpe, mas não me convence.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Os Apologistas

Recebem esta denominação os pensadores cristãos dos séculos II e III d.C., que se dedicavam à tarefa de escrever apologias do cristianismo. Era preciso, nessa época, defender a nascente doutrina cristã de três correntes distintas que lhe faziam oposição: a religião judaica, o Estado romano e a filosofia pagã. Contra os judeus, era necessário afirmar argumentativamente o messianismo de Jesus Cristo. Contra os romanos, era preciso convencer o imperador do direito de legalização à prática do cristianismo dentro do Império. E contra os filósofos pagãos, a tarefa dos apologistas era a de apresentar a religião cristã como uma verdade total, à diferença dos erros ou verdades parciais presentes, segundo estes autores, na filosofia helenística.

REFUTAÇÃO DOS APOLOGISTAS CONTRA OS PAGÃOS - SÉC II

ARGUMENTOS DOS PAGÃOS CONTRA O CRISTIANISMO

A doutrina da ressurreição é absurda

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

Os Evangelhos mencionam testemunhas oculares

O efeito sobre os discípulos foi profundo

Existe analogia nos ciclos da natureza (ex: estações do ano).

ARGUMENTOS DOS PAGÃOS

Há contradições nas Escrituras

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

Harmonias como o Diatessaron, de Ticiano, esclarecem contradições

ARGUMENTOS PAGÃOS

O ateísmo conta com ampla aceitação

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

Mesmo Platão acreditava num deus invisível

ARGUMENTOS PAGÃOS

O cristianismo é a adoração de um criminoso crucificado

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

A condenação de Jeus violou a lei

ARGUMENTOS PAGÃOS

O cristianismo é uma novidade

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

O cristianismo vem sendo preparado desde a eternidade

Moisés antecedeu os filósofos pagãos

ARGUMENTOS PAGÃOS

O cristianismo evidencia uma falta de patriotismo

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

Os cristãos obedecem a todas as leis, desde que não violem a consciência

ARGUMENTOS PAGÃOS

Os cristãos praticam incesto e canibalismo

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

Observe o estilo de vida dos mártires

ARGUMENTOS PAGÃOS

O cristianismo leva à destruição da sociedade

RESPOSTAS DOS APOLOGISTAS

As calamidades naturais de fato representam o juízo divino contra a idolatria

ARGUMENTOS DOS APOLGISTAS CONTRA O PAGANISMO

Os filósofos pagãos cometeram plágio, roubando suas melhores idéias de Moisés e de outros profetasO politeísmo é um absurdo filosófico e uma decadência moralOs filósofos pagãos contradizem uns aos outros e até a si próprios.

REFUTAÇÃO DOS APOLOGISTAS CONTRA O JUDAÍSMO - SÉC II

Os judeus dos primeiros séculos diziam:

"O cristianismo é um desvio do judaísmo".

Resposta dos apologistas:

A lei judaica é temporária por definição e encaminha para a nova aliança.

Os judeus diziam:

"O humilde carpinteiro morto numa cruz não corresponde ao Messias profetizado no AT."

Resposta dos apologistas:

O AT predisse o sofrimento e também a glorificação do Messias.

Os judeus diziam:

"A divindade de Cristo vai de encontro à unidade de Deus."

Os apologistas diziam:

O AT deixa prever a pluralidade de pessoas dentro da unidade da deidade.

OS ARGUMENTOS DOS APOLOGISTAS CONTRA O JUDAÍSMO:

As profecias do AT foram cumpridas em Cristo

Os tipos (ritos e símbolos) do AT apontam para Cristo.

A destruição de Jerusalém confirma a visão de que Deus condenou o judaísmo e apoiou o cristianismo.

UMA VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA IGREJA

Embora seja, em certa medida, artificial e errado quebrar a história da igreja Cristã em distintos períodos ou épocas, é, todavia, uma ferramenta útil para visualizar o desenvolvimento da vida da igreja nos dois milênios passados. A maioria dos historiadores da igreja reconhece três períodos gerais:

I. Cristianismo Patrístico - 95 d.C. a 590 d.C.(Assim chamado por causa da influência dominante, tanto sobre a vida como sobre o pensamento, dos Pais da Igreja)

II. Cristianismo Medieval – 590 d.C. a 1517 d.C.(Este período foi chamado primeiramente de Idade Média por Christopher Keller [1634-80])

III. Cristianismo Moderno - 1517 d.C. até o presente(O grande momento decisivo na história da igreja foi a Reforma Protestante, inaugurada por Martinho Lutero em 31 de outubro de 1517)

É útil subdividir cada um destes períodos gerais em fases mais descritivas:

I. Cristianismo Patrístico - 95 d.C. a 590 d.C.

a. A Idade das Apologéticas – este período data desde 95 d.C., geralmente considerado como o ano quando o último livro do cânon do Novo Testamento (Apocalipse) foi escrito, até 325 d.C. e o Concílio de Nicéia. Alguns preferem 312 d.C., o ano em que Constantino se converteu ao Cristianismo. O Edito de Milão, em 313 d.C., pôs fim efetivamente à perseguição da igreja como um movimento minoritário e concedeu-lhe um status legal pleno, para ser igualmente tolerada com todas as outras religiões. Durante este período, a igreja se esforçou para se defender contra as ameaças do paganismo, tanto politicamente como teologicamente.

b. A Idade das Polêmicas – de 325 d.C. até o aparecimento de Gregório (o último dos Pais da Igreja e o primeiro dos verdadeiros Papas), em 590 d.C. Seguindo a conversão de Constantino, a igreja “se moveu rapidamente da solidão das catacumbas ao prestígio dos palácios” ( Shelley ). Com o poder do Estado ao seu favor, a igreja começou a exercer sua influência moral sobre a sociedade como um todo. Com prestígio e influência política, contudo, veio também a corrupção interna. O Monasticismo emergiu em protesto desta secularização da fé. Em 392, o imperador Teodósio I estabeleceu o Cristianismo como a única religião legal do Império Romano. Foi durante este período também que as maiores controvérsias doutrinárias foram travas e resolvidas em concílios teológicos sancionados pelo Estado.

II. Cristianismo Medieval – 590 d.C. a 1517 d.C.

a. A Idade da Hierarquia Papal ­ desde Gregório o Grande (590) até a divisão entre Oriente e Ocidente (1054), ou até Gregório VII (1073). A principal característica desta época, freqüentemente referida (talvez sem justificação) como Idade das Trevas , foi o estabelecimento e solidificação do poder da hierarquia papal Católica Romana.

b. A Idade do Escolasticismo ou Sistematização - de 1054/1073 até o começo da Reforma Protestante em 1517. Durante este período, a doutrina cristã foi totalmente sistematizada através da filosofia e teologia dos sacerdotes, tais como Anselmo(1033-1109), Peter Abelard (1142), Hugo de São Vítor, Peter Lombard, Alberto o Grande, Duns Scotus, alcançando seu zênite na obra monumental de São Tomás de Aquino (1225-74), cuja teologia (chamada Tomismo ) foi declarada eternamente válida para o Catolicismo em 1879.

[Foi também durante este período que a igreja Oriental se dividiu da Romana (1054)]

III. Cristianismo Moderno - 1517 d.C. até o presente

a. A Idade da Reforma Protestante e do Confissionalismo Polêmico – da postagem de Martinho Lutero das 95 teses (1517) até a Paz de Westphalia (1648-50). Este período testemunhou o triunfo da Reforma Protestante na Europa (com o florescimento das quatro maiores tradições do Protestantismo antigo: Luterana, Reformada, Anabatista e Anglicana), bem como a reação de Roma na Contra-Reforma Católica e a influência dos Jesuítas. O século XVII foi caracterizado pelo desenvolvimento do escolasticismo e da ortodoxia credal. Movimentos reacionários e reavivalistas emergiram nos últimos estágios deste período, parcialmente em oposição à aparente estagnação que se estabeleceu no meio de muito do Protestantismo.

b. A Idade do Racionalismo e do Reavivamento ­– de 1650 à Revolução Francesa (1789). Também conhecida como a Idade da Razão, visto que a ciência substituiu a crença no sobrenatural, à medida que a igreja ficou debaixo da influência poderosa do Iluminismo (no qual a razão era estimada acima da revelação). Os grandes movimentos de reavivamento na Inglaterra (os Wesleys) e na América (Edwards e Whitefield) foram a melhor defesa da igreja contra a invasão do humanismo.

c. A Idade do Progresso – de 1789 até a Primeira Guerra Mundial (1914). Os primeiros anos deste período foram caracterizados pela reviravolta política (as Revoluções Americana [1776] e Francesa [1789]) e pela transformação social (a Revolução Industrial). A emersão da alta crítica Alemã e a publicação da Origem das Espécies de Darwin ativaram uma filosofia que ameaçava minar os fundamentos da ortodoxia. Foi durante os últimos estágios deste período que vemos a emersão do que é conhecido como um liberalismo teológico moderno.

d. A Idade das Ideologias – de 1914 (Primeira Guerra Mundial) até os dias de hoje. Durante este período a pletora de novos deuses se levantou para competir pela fidelidade da mente secular. Comunismo, Nazismo, Facismo, liberalismo teológico (que foi desafiado pela reação da neo-ortodoxia Bartiniana), socialismo, ecumenismo, individualismo, humanismo estão entre as ideologias mais competitivas. A igreja respondeu a este assim chamado modernismo com os seus próprios ismos , Fundamentalismo, e finalmente o mais intelectualmente sofisticado e culturalmente engajado Evangelicalismo. Outros desenvolvimentos dignos de nota foram o Denominacionalismo e o movimento Pentecostal/Carismático.

ENTENDA UM POUCO MAIS SOBRE O PERÍODO DOS PAIS DA IGREJA
COMO DIVIDIR O PERÍODO?

Podemos dividir os Pais da Igreja em três grandes grupos a saber: Pais apostólicos, Apologistas e Polemistas. Todavia devemos levar em conta que muitos deles pode se enquadrar em mais de um desses grupos devido a vasta literatura que produziram para a edificação e defesa do Cristianismo, e também de acordo com o que as circunstancias exigiam, como é o caso de Tertuliano, considerado o pai da teologia latina. Sendo assim então temos:

Pais apostólicos: Foram aqueles que tiveram relação mais ou menos direta com os apóstolos e escreveram para a edificação da Igreja, geralmente entre o primeiro e segundo século. Os mais importantes destes foram, Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Papias e Policarpo.

Apologistas: Foram aqueles que empregaram todas suas habilidades literárias em defesa do Cristianismo perante a perseguição do Estado. Geralmente este grupo se situa no segundo século e os mais proeminentes entre eles foram: Tertuliano, Justino, o mártir, Teófilo, Aristides e outros.

Polemistas: Os pais desse grupo não mediram esforços para defender a fé cristã das falsas doutrinas surgidas fora e dentro da Igreja. Geralmente estão situados no terceiro século. Os mais destacados entre eles foram: Irineu, Tertuliano, Cipriano e Origenes.

OS APOLOGISTAS DO SÉC II

Apologia significa “DEFESA”. Os apologistas foram homens que procuraram defender a fé cristã diante de algumas acusações. As acusações eram afirmações de que o cristianismo era composto de pessoas ignorantes, que era copiado dos grandes sábios, como Platão (ao ensinar a imortalidade da alma) e assim mesmo deturpado como no caso da “absurda” doutrina da ressurreição. Diante de tais acusações, levantaram-se os Apologistas para defender a Fé Cristã, especialmente contra o judaísmo, a filosofia pagã e as religiões pagãs.
Segue a lista mais comum dos apologistas do segundo século:

QUADRATO (início do séc. II)

LUGAR DE MINISTÉRIO: Atenas.

ESCRITOS: Apologia (documento-texto perdido, apenas citado por Eusébio).

FATOS NOTÁVEIS:

Foi bispo de Atenas.
Sua apologia se dirigia ao imperador Adriano.
Contrapõe o cristianismo ao judaísmo e ao culto pagão.

ARISTIDES (início do séc. II).

LUGAR DE MINISTÉRIO: Atenas.

ESCRITOS: Apologia (perdido).

FATOS NOTÁVEIS:
Sua apologia se dirigia ao imperador Adriano.
Mostra forte influência paulina.
Posto que a apologia de Quadrato, de que nos fala o historiador Eusébio, parece ter se perdido, a mais antiga apologia que temos é a de Aristides.

JUSTINO, MÁRTIR (100-165).

LUGARES DE MINISTÉRIO: Palestina, Éfeso e Roma.

ESCRITOS:
Primeira Apologia;
Segunda Apologia;
Diálogo com o Judeu Trifon;
Contra Heresias (perdido);
Contra Marcião (perdido).

FATOS NOTÁVEIS:
Estudou filosofia;
Era professor leigo intinerante;
Resistiu pessoalmente a Marcião;
Desenvolveu o conceito teológico do LOGOS

SPERMATICO, ou seja: "Jesus dá ao homem a

capacidade de aprender a verdade".
O encontro com o cristianismo não o fez

abandonar sua bagagem de filosofo. Ele

considerou que no cristianismo tinha encontrado

a “Verdadeira Filosofia”. Esta é a tese de suas

apologias;
Defendeu o cristianismo com base na profecia,

nos milagres e na ética.
Foi decapitado em Roma.

TACIANO (110-172).

LUGARES DE MINISTÉRIO: Assíria, Síria e Roma.

ESCRITOS:

Diatessaron;
Discurso aos Helenos.

FATOS NOTÁVEIS:

Discípulo de Justino;
Defendeu a prioridade temporal do cristianismo,
sobre as outras religiões;

Produziu a primeira harmonia dos evangelhos;

Caiu posteriormente no gnosticismo;

Seus seguidores foram chamados de chamados

de "encratitas".

ATENÁGORAS (séc.II).

LUGAR DE MINISTÉRIO: Atenas.

ESCRITOS: Apologia da Ressurreição dos Mortos.

FATOS NOTÁVEIS:

Era platonista;

Escreveu em estilo clássico.

TEÓFILO (181).

LUGAR DE MINISTÉRIO: Antioquia.

ESCRITOS: A Autólico.

FATOS NOTÁVEIS:
Foi um severo polemista com os filósofos

pagãos;
Foi bispo de Antioquia.

MELITO (190).

LUGAR DE MINISTÉRIO: Sardes.

ESCRITOS: Cerca de 20 obras (todas perdidas).

FATOS NOTÁVEIS:

Foi bispo de Sardes;
Apoiou os da teoria dos quartodecimanos.
Produziu a primeira lista cristã dos livros
do Antigo Testamento.

HEGESIPO (séc. II).

LUGARES DE MINISTÉRIO: Síria, Grécia e Roma.

ESCRITOS: Memoriais (perdido).

FATOS NOTÁVEIS:
Era judeu convertido;
Coletou informações sobre a história da Igreja

Primitiva para comprovar a pureza e a

apostoloicidade dessa igreja;
Culpava o judaísmo por todas as heresias.

NOTA: Todos os documentos-textos que estão citados
como "perdidos" devem a comprovação de sua
existência através de escritos encontrados que citam
tais textos perdidos.