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sábado, 19 de setembro de 2026

Paulo: Vida, Conversão e Morte

 

PAULO

São Paulo (10 d.C. a 64 d.C.?) foi uma das figuras mais importantes do início do período cristão. Considerado um orador carismático e fervoroso, além de um ativista incansável e apaixonado, ele ajudou a difundir o cristianismo juntamente com outros missionários e escreveu os primeiros documentos conhecidos sobre a fé cristã. As primeiras cartas de Paulo, escritas entre 49 e 62 d.C., são os textos mais antigos do Novo Testamento.

Paulo está intimamente ligado a Damasco, na Síria. Na Rua Direita, na Cidade Velha da atual Damasco, segundo o livro de Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento, Saulo de Tarso recuperou a visão e tornou-se São Paulo, o apóstolo. De acordo com a Bíblia, Saulo começou sua trajetória aterrorizando os cristãos em Jerusalém e, mais tarde, foi cegado por uma visão divina nos arredores de Damasco. 

Ele foi conduzido à cidade e curado da cegueira por um homem chamado Ananias, que recebeu uma visão do Senhor e disse a Paulo: "Levanta-te e vai à rua chamada Direita". Ao longo da antiga rua romana encontram-se a Capela de São Paulo, onde Paulo foi descido em um cesto para escapar de uma multidão de judeus; a Casa de Ananias, que se acredita ser a casa original do homem que ajudou Paulo; e a Capela de Hanania, uma antiga igreja construída no local onde São Paulo se converteu ao cristianismo com a ajuda de Hanania.

Paulo é frequentemente retratado em pinturas como um homem bonito, mas talvez não fosse bem assim. Candida Moss escreveu: "O apóstolo Paulo, que não tinha falta de admiradoras, é descrito em um texto cristão antigo como um homem baixo, careca, de pernas arqueadas, com uma monocelha — uma única sobrancelha formada quando as duas sobrancelhas se encontram no meio, acima da ponte do nariz — e, às vezes, com a aparência de um anjo... No caso de figuras religiosas como Paulo, sua falta de atratividade ajudava a proteger seus seguidores dos perigos da atração sexual. Como Jennifer Eyl escreveu sobre o relacionamento de Paulo com sua discípula Tecla, Paulo e Tecla nunca se olhavam devido ao risco de se apaixonarem."

A importância de Paulo

Alguns acreditam que Paulo foi ainda mais importante que Jesus para estabelecer o cristianismo como uma grande religião. Ele transformou o que era um movimento marginal de judeus em uma religião que abrangia todos os povos espalhados pelo Império Romano, um dos maiores domínios políticos que o mundo já conheceu. A Paulo é atribuído o mérito de ter moldado a ortodoxia cristã e a forma como os Evangelhos foram interpretados.

O professor Wayne A. Meeks disse: “O apóstolo Paulo é, depois de Jesus, claramente a figura mais intrigante do primeiro século do cristianismo, e muito mais conhecido do que Jesus porque escreveu todas aquelas cartas que temos como fontes primárias... Há muitas coisas surpreendentes sobre ele. Por exemplo, na erudição moderna, tendemos a dividir em várias categorias. Há gentios e há judeus. Há pessoas que falam grego e há pessoas que falam hebraico. Há o judaísmo palestino, que inclui o apocalipticismo. Há o judaísmo rabínico e há o judaísmo helenístico, que deriva profundamente do mundo grego. Paulo parece se encaixar em várias dessas categorias, confundindo, portanto, nossas divisões modernas. Então, ele é um personagem intrigante e enigmático em alguns aspectos.”

“O principal impacto que ele deixou no cristianismo após sua morte foi através de suas cartas, mas em sua própria época, ele se via principalmente como um profeta para os não judeus, para levar a eles a mensagem do Messias crucificado, e ele fez isso de uma maneira extraordinária. Ele era uma pessoa que, de certa forma, era urbana, e percebia que as cidades eram a chave para a rápida disseminação dessa nova mensagem. ...Em certo momento, ele escreveu aos cristãos romanos: 'Preenchi o território do Oriente com o evangelho, não tenho mais espaço para trabalhar aqui'. 

O que ele poderia querer dizer com isso? Havia apenas um punhado de cristãos em cada uma das principais cidades do Império Romano do Oriente. O que ele queria dizer, que havia preenchido todo o Império Romano do Oriente com o evangelho? Mas olhamos para esses lugares e vemos que cada um deles estava em uma importante estrada romana ou em um importante porto marítimo. Eram os grandes centros comerciais do mundo. Eram o centro das migrações de pessoas, e ele via esse mundo, de um ponto de vista romano, que era um ponto de vista urbano, com o país circundante centrado naquela cidade.” e a propagação do cristianismo depende de levá-lo a esses grandes centros.”

Início da vida de São Paulo

Originalmente chamado Saulo de Tarso, Paulo nasceu em uma família judia de língua grega que havia obtido cidadania romana na cidade de Tarso, no sul da Turquia. Ele nasceu entre 7 e 10 d.C. Foi educado em Jerusalém "aos pés de Gamaliel", neto do grande sábio judeu Hillel. Paulo aprendeu a fazer tendas quando jovem. Durante suas viagens, muitas vezes se sustentava como fabricante de tendas.

Paulo recebeu uma excelente educação em grego, bem como formação em direito judaico. Isso, aliado ao seu forte senso de missão, fez dele uma ponte entre os mundos judaico e cristão. Em Coríntios, Paulo escreveu sobre um “espinho na carne” que, segundo ele, foi enviado por “um mensageiro de Satanás para me atormentar, para que eu não me alegrasse demais”. Alguns estudiosos sugerem que isso pode ter sido uma referência à epilepsia, malária ou alguma outra doença.

O professor L. Michael White disse: “Tradicionalmente, Paulo cresceu como um judeu da diáspora. Ou seja, de uma família judia, com uma educação judaica muito tradicional, mas vivendo não na terra natal, e sim em Tarso, uma cidade no leste da Turquia. Portanto, ele vivia em uma cidade grega, que, aliás, era uma espécie de encruzilhada interessante na fronteira do Oriente Médio, e ainda assim teve uma educação judaica muito tradicional. Ele próprio era fariseu e foi formado como fariseu, então estaria familiarizado com a tradição de interpretação das escrituras e, de fato, dos próprios profetas. Quando ouvimos Paulo usar linguagem profética tanto para enquadrar sua mensagem de pregação quanto para descrever sua própria auto compreensão, é porque ele estava imerso nessa linguagem profética por meio de seus estudos na tradição judaica.”

Paulo, quando era um judeu radical e odiava os cristãos

Acredita-se que Paulo tenha sido membro de uma seita judaica radical e violenta chamada fariseus samitas, seguidores de um sábio judeu que defendia uma interpretação rigorosa da lei judaica e o tratamento severo de não judeus. Descrevendo-se como um "hebreu de hebreus", Paulo considerava o cristianismo uma blasfêmia e perseguia os seguidores de Jesus antes de sua conversão. Acredita-se que ele tenha se envolvido em espancamentos, prisões e até execuções de homens, mulheres e crianças cristãs.

Os Atos dos Apóstolos contam a história de Paulo. Inicialmente, um judeu devoto e cidadão romano, ele testemunhou a cena de tumulto em torno da morte de Santo Estêvão e passou a acreditar que era seu dever solene perseguir os cristãos. Ele chegou ao ponto de arrastar homens e mulheres cristãos para a prisão e torturá-los se não renunciassem à sua fé. Ele obteve permissão do sumo sacerdote em Jerusalém para perseguir e prender cristãos que tentassem fugir.

Paulo afirmou que, antes de sua conversão, perseguiu os primeiros cristãos "sem medida". Seu alvo parecia ser os judeus da diáspora helenizados que haviam retornado à região de Jerusalém. A perseguição inicial de Paulo aos cristãos provavelmente foi direcionada a esses "helenistas" de língua grega devido à sua postura contrária ao Templo. Dentro da comunidade judaico-cristã primitiva, isso também os diferenciava dos "hebreus" e de sua participação contínua no culto do Templo.

Conversão de São Paulo

Paulo se converteu ao cristianismo por volta de 32 a 35 d.C., cerca de cinco anos após a morte de Jesus, enquanto viajava da Galileia e Jerusalém para Damasco com o objetivo de prender o máximo de cristãos que conseguisse encontrar. Paulo alegava ter tido uma visão de Jesus ressuscitado. De acordo com Atos 9 do Novo Testamento, Paulo foi repentinamente cegado por uma luz radiante, e uma voz lhe disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Abalado e deitado no chão, Paulo (Saulo) perguntou: “Quem és tu, Senhor?”. A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”.

Tremendo e ainda cego, Paulo foi para Damasco, onde mudou seu nome de Saulo para Paulo, recuperou a visão e foi batizado. Ele foi “cheio do Espírito Santo” e “imediatamente pregou a Cristo nas sinagogas, dizendo que Ele era o Filho de Deus”. Depois disso, Paulo meditou sozinho por meses e então procurou Pedro para aprender como Jesus vivia. Jesus apareceu a Paulo em outras visões.

Gálatas 1:10-1:24 diz: 10Porventura, procuro eu agora o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se ainda estivesse a agradar a homens, não seria servo de Cristo. 11Porque quero que saibais, irmãos, que o evangelho que por mim preguei não é evangelho de homem algum.

12Pois não o recebi de homem algum, nem me foi ensinado; mas veio por revelação de Jesus Cristo. 13Vocês ouviram falar da minha vida anterior no judaísmo, como eu perseguia violentamente a igreja de Deus e procurava destruí-la. 14No judaísmo, eu me destacava mais do que muitos da minha idade entre o meu povo, tão zeloso eu era pelas tradições dos meus pais. 15Mas, quando aquele que me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça, 16teve a graça de me revelar seu Filho, para que eu o anunciasse entre os gentios, não consultei carne nem sangue. 17Nem subi a Jerusalém para os que eram apóstolos antes de mim, mas fui para a Arábia e voltei novamente a Damasco.

18Depois de três anos, subi a Jerusalém para visitar Cefas e fiquei com ele quinze dias. 19Mas não vi nenhum dos outros apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor. 20(Em tudo o que lhes escrevo, diante de Deus, não minto!) 21Depois, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. 22E eu ainda não era conhecido pessoalmente pelas igrejas de Cristo na Judeia; 23apenas ouviam dizer: “Aquele que antes nos perseguia agora prega a fé que outrora procurava destruir”. 24E glorificavam a Deus por minha causa.

Paulo e a Igreja Primitiva

“Foi sugerido que a obra de Jesus Cristo e o impacto de sua morte e ressurreição não teriam tido um impacto duradouro no mundo se não fosse pelo trabalho missionário de Paulo. O relato da conversão de Paulo ao cristianismo está contido no livro do Novo Testamento, os Atos dos Apóstolos. Antes de sua conversão, Paulo era conhecido como Saulo e se opunha violentamente à fé cristã ensinada por Jesus e, após a sua morte, por seus discípulos.

“Saulo passou por uma conversão dramática, conhecida como a conversão no caminho de Damasco, quando ficou temporariamente cego. Ele se viu cheio do Espírito Santo e imediatamente começou a pregar o evangelho cristão. O ensinamento de Paulo se concentrava na compreensão da morte e ressurreição de Jesus Cristo como um ponto de virada central na história. Ele entendia a ressurreição como um sinal do fim da necessidade de viver sob a lei judaica. Em vez disso, Paulo ensinava sobre viver no Espírito, no qual o poder de Deus se manifestava através da carne humana.

Algumas de suas cartas para igrejas nascentes em todo o Império Romano estão contidas no Novo Testamento e delineiam a teologia de Paulo. Ele insistia que os gentios tinham tanto acesso à fé quanto os judeus e que a libertação da Lei libertava a todos. Foi esse ensinamento que se mostrou essencial para o desenvolvimento e o sucesso da igreja primitiva, que, de outra forma, não teria permanecido nada mais do que mais uma seita judaica.

São Paulo trabalha como missionário

Paulo não era teólogo nem erudito, mas sim missionário. Ele ajudou a difundir o cristianismo juntamente com outros missionários, principalmente entre gentios ou quase-judeus que rejeitavam leis judaicas como a circuncisão. Fundou as primeiras comunidades cristãs gentias (até então, quase todos os cristãos eram judeus convertidos) e estabeleceu muitas igrejas na Ásia Menor e na Grécia.

Paulo usava as mesmas táticas aonde quer que fosse. Ao chegar a uma cidade, ele discursava na sinagoga local. Quando as congregações se exaltavam e se irritavam, ele se retirava e organizava uma igreja em áreas não cristãs. Ao fazer isso, Paulo é reconhecido por ter dado os primeiros passos para tornar o cristianismo uma religião mundial, aberta a todos, e não apenas aos judeus, como era anteriormente.

Em seu rastro, Paulo deixou para trás assembleias autossustentáveis ​​chamadas “ekklesiani”, uma extensão e transformação de um movimento galileu de protesto no qual a crucificação de Jesus e a vinda do Reino de Deus eram vistas como eventos destinados a “nos livrar da presente era má”. Alguns estudiosos acreditam que Paulo não estava tentando estabelecer o cristianismo, mas sim reformar e expandir o judaísmo.

Escritos de São Paulo

As Epístolas (Cartas) de Paulo, incluindo as cartas aos Tessalonicenses e aos Coríntios, são os documentos cristãos mais antigos que se conhece. As primeiras foram escritas por volta de 50 d.C., antes dos Evangelhos, e constituem uma parte considerável do Novo Testamento. Essas cartas foram escritas ao longo dos anos para seus amigos e igrejas. O livro de Atos descreve a história inicial da Igreja Cristã e a vida e obra de Paulo.

Ao todo, treze epístolas foram atribuídas a Paulo, e estas representam cerca de um terço do Novo Testamento. O Novo Testamento começa com os Evangelhos, seguidos pelos Atos dos Apóstolos, um relato dos esforços missionários dos apóstolos, os discípulos mais próximos de Jesus. Em seguida, vêm as epístolas paulinas (aquelas escritas por São Paulo), que esclarecem e expandem doutrinas religiosas deduzidas dos ensinamentos de Jesus. Depois disso, vêm as epístolas gerais. O último livro do Novo Testamento é o Apocalipse, que aborda alguns dos mistérios do mundo celestial e descreve a Segunda Vinda de Cristo.

Atribui-se a Paulo a definição e a expressão do significado da posição cristã sobre a redenção, a morte e a ressurreição de Jesus. Ele também: 1) descreveu a salvação como algo que vem “pela graça... fé bruta”, não pelo cumprimento das leis de Moisés; 2) elaborou a lógica da morte de Cristo pelos pecados da humanidade; e 3) retratou a redenção como emancipação do pecado, em vez do conceito vetero-testamentário de libertação da escravidão e da opressão.

Tecla e Paulo

Uma das apóstolas mais famosas foi Tecla, uma virgem mártir convertida por Paulo. Santa Tecla (Thekla) nasceu na atual cidade turca de Konya, na época de Cristo. Ela foi proibida de ouvir São Paulo pregar o Evangelho em Konya. Steven V. Roberts escreveu: “Sentada à janela aberta, ela milagrosamente ouviu a voz dele e se converteu instantaneamente. Depois disso, rompeu seu noivado e jurou permanecer uma 'noiva de Cristo'. Por isso, foi condenada à morte na fogueira. Mas uma tempestade repentina apagou as chamas. Quando rejeitou as investidas de um nobre na cidade de Antioquia, foi jogada em uma vala com animais selvagens, que se recusaram a atacá-la. Finalmente, Paulo abençoou sua decisão de viver como uma virgem ascética nas colinas de Maaloula, mas ela enfrentou mais uma provação: um camponês local jurou usurpar sua virtude. Ela fugiu de suas investidas, e a montanha se abriu diante dela, oferecendo-lhe um estreito caminho de fuga.”

Elizabeth Clark, da Universidade Duke, disse: “Tecla é uma personagem literária do cristianismo, provavelmente do século II, que passou a ser considerada uma personagem histórica real no século IV. Tecla aparece em um documento chamado Atos de Paulo e Tecla, que é um dos muitos conjuntos de atos que vieram a ser rotulados como atos apócrifos... Tecla é representada como uma jovem aristocrata que ouve os ensinamentos de Paulo e, ao ouvir a mensagem de Paulo, que é interpretada neste texto... como uma mensagem de renúncia sexual, ela abandona seu noivo e deseja seguir Paulo em suas viagens missionárias.

Sua família se opõe veementemente a isso. Sua mãe chega ao ponto de tentar queimar a filha na fogueira para impedi-la de realizar esse desejo, mas depois de muitas aventuras emocionantes, incluindo batizar-se em um tanque de focas, Tecla consegue se tornar missionária e vive até uma idade avançada pregando e ensinando o evangelho. Portanto, esta é uma das várias histórias nos atos apócrifos em que mulheres são representadas renunciando à vida sexual.” riquezas e particularmente o casamento e a atividade sexual com o objetivo de seguir os ensinamentos dos Apóstolos.

"Acho que a moral da história de Tecla é que as mulheres jovens estariam melhor se não se casassem, mas se já forem casadas, que tentem, o mais rápido possível, levar uma vida de abstinência e renúncia sexual, e dessa forma estarão cumprindo melhor a vontade de Deus. Nos Atos de Tecla, por exemplo, Paulo faz um discurso no qual reformula a parte da Bíblia que chamamos de bem-aventuranças. É o 'bem-aventurados os fulanos de tal...'. A versão de Paulo é sobre bem-aventurados os corpos das virgens... bem-aventuradas as castas. É tudo sobre castidade sexual. Essas são as pessoas que são bem-aventuradas nesta nova reformulação da mensagem cristã."

Prisão e naufrágio de São Paulo

Paulo foi preso em Jerusalém em 58 d.C., a pedido de líderes judeus locais, por tentar converter judeus ao cristianismo. Ele foi enviado para a cidade portuária de Cesareia, onde ficou preso por dois anos. Invocou sua cidadania romana e foi enviado a Roma, onde permaneceu em prisão domiciliar por mais dois anos.

Em 57 d.C., após completar sua terceira viagem missionária, Paulo chegou a Jerusalém para sua quinta e última visita. Os Atos dos Apóstolos relatam que ele foi inicialmente recebido calorosamente. No entanto, Atos narra como Paulo foi advertido por Tiago e pelos presbíteros de que estava ganhando a reputação de estar indo contra a Lei Judaica. Paulo se submeteu a um ritual de purificação para refutar tais acusações. Após sete dias, quando o ritual de purificação estava quase concluído, alguns "judeus da Ásia" (provavelmente da Ásia romana) acusaram Paulo de profanar o templo ao levar gentios para dentro dele.

Ele foi preso e arrastado para fora do templo por uma multidão enfurecida. Quando o tribuno soube do tumulto, ele e alguns centuriões e soldados correram para o local. Incapazes de determinar sua identidade e a causa do tumulto, eles o acorrentaram. Ele estava prestes a ser levado para o quartel quando pediu para falar ao povo. Os romanos lhe deram permissão e ele começou a contar sua história. Depois de um tempo, a multidão respondeu. "Até então, eles o ouviam, mas depois gritaram: 'Tirem esse homem da face da Terra! Ele não deve ter permissão para viver."

Na manhã seguinte, 40 judeus "juraram não comer nem beber até que tivessem matado Paulo", mas o filho da irmã de Paulo soube do complô e o avisou, e Paulo avisou o tribuno de que os conspiradores iriam emboscá-lo. Paulo foi levado para Cesareia, onde o governador ordenou que ele fosse mantido sob guarda no quartel-general de Herodes. Marco Antônio Félix ordenou a um centurião que mantivesse Paulo sob custódia, mas que "lhe concedesse alguma liberdade e não impedisse nenhum de seus amigos de cuidar de suas necessidades". Ele ficou detido ali por dois anos e então foi ordenado a ir a Roma para ser julgado pelos crimes que lhe eram imputados. No caminho, ele naufragou perto da atual Malta.

Candida Moss escreveu: Segundo a Bíblia, Paulo estava preso e a caminho de Roma para ser julgado quando o navio em que viajava atingiu um banco de areia e encalhou. Como resultado da colisão, Paulo e seus companheiros de prisão descobriram que haviam chegado à ilha de Malta, a cerca de 80 quilômetros ao sul da Itália. A tradição afirma que Paulo naufragou na costa do que hoje é conhecido como Baía de São Paulo, na parte norte da ilha. 

De acordo com os Atos dos Apóstolos, que registram os detalhes da viagem e do naufrágio de Paulo com bastante precisão, pouco antes de atingirem o recife, os marinheiros do navio lançaram quatro âncoras ao mar (27:28, 40). Os marinheiros planejavam matar todos os prisioneiros, mas estes, por sugestão de um centurião amigo, pularam no mar e chegaram à costa (alguns nadaram, outros flutuaram em pranchas, como no Titanic; Paulo não nos diz a qual grupo pertencia).

Paulo disse que o povo de Malta lhe demonstrou "uma bondade incomum". De Malta, Paulo viajou para Roma via Siracusa e chegou lá por volta de 60 d.C., onde passou mais dois anos em prisão domiciliar. A narrativa de Atos termina com Paulo pregando em Roma por dois anos a partir de sua casa alugada enquanto aguardava julgamento.

Paulo e o Sistema Jurídico Romano

Os romanos estabeleceram leis semelhantes à Mirnada para proteger os direitos dos acusados ​​de crimes. Um dos mais famosos a invocar essas leis para sua proteção foi Paulo. O capítulo 22 dos Atos dos Apóstolos descreve como Paulo é acusado por um magistrado romano de um crime semelhante a incitar um motim. Quando estava prestes a ser levado para a prisão e torturado, ele disse às autoridades que era cidadão romano, o que lhe permitia permanecer em liberdade até o julgamento.

Após o sumo sacerdote de Jerusalém ter reclamado ao governador romano Festo que Paulo ainda estava à solta, Festo respondeu no capítulo 25 dos Atos dos Apóstolos: "Não é costume romano entregar um homem antes que ele tenha enfrentado seus acusadores e tido a oportunidade de se defender das acusações."

Paulo conquistou sua liberdade por alguns anos ao invocar seu direito legal de ter seu julgamento em Roma. Ele finalmente chega a Roma, mas o livro de Atos termina sem mencionar o desfecho do caso. Alguns cristãos afirmam que ele foi crucificado ou jogado aos leões por Nero, mas estudiosos acreditam que as acusações provavelmente foram retiradas, pois não há outros registros do caso.

Morte de São Paulo

Não se sabe ao certo o que aconteceu com Paulo, mas acredita-se que ele tenha sido martirizado em 64 d.C., o ano em que Nero culpou os judeus pelo grande incêndio de Roma. Antes de ser morto, São Paulo invocou seu direito, como cidadão romano, de ser decapitado. Seu desejo foi atendido. Segundo alguns, Paulo foi martirizado no local onde hoje se encontra o Mosteiro das Três Fontes, em Roma. A Catedral de São João de Latrão, a basílica cristã mais antiga de Roma, fundada por Constantino em 314 d.C., contém relicários que supostamente guardam as cabeças de São Paulo e São Pedro, além do dedo decepado de Tomé, o incrédulo, que foi cravado na ferida de Jesus.

Em junho de 2009, o Vaticano anunciou que os testes realizados em restos mortais que se acreditava serem de São Paulo "parecem confirmar" que de fato pertenciam ao santo. A datação por carbono de fragmentos ósseos encontrados em um túmulo que se dizia ser de São Paulo determinou que os fragmentos datam do primeiro ou segundo século d.C. Poucos dias antes, autoridades do Vaticano haviam anunciado a descoberta do ícone mais antigo conhecido de um apóstolo, um afresco de São Paulo, encontrado em outro túmulo.

O Papa Clemente I (35-99 d.C.) escreveu em sua Epístola aos Coríntios que, após Paulo "ter prestado testemunho perante as autoridades", ele "partiu do mundo e foi para o lugar santo, tendo se revelado um exemplo notável de perseverança e paciência". Inácio de Antioquia afirmou em sua Epístola aos Efésios que Paulo foi "martirizado", sem dar mais detalhes. Tertuliano escreveu que Paulo foi "coroado com uma saída como a de João", mas não está claro a qual João ele se referia.

É Eusébio quem afirma que Paulo foi morto durante a perseguição de Nero e, citando Dionísio de Corinto, argumenta que Pedro e Paulo foram martirizados "ao mesmo tempo". Isso também é relatado por Sulpício Severo, que afirmou que Pedro foi crucificado enquanto Paulo foi decapitado. João Crisóstomo descreve Paulo sendo preso por Nero, mas nada diz sobre sua execução ou sobre Pedro. Com base nas cartas atribuídas a Paulo, Jerônimo afirma que Paulo foi preso por Nero, depois libertado por dois anos e então decapitado "no mesmo dia" e enterrado às margens do Caminho de Óstia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Emmanuel Levinas sobre: À intolerância ao Talmud e a literatura rabínica


O judaísmo frente à intolerância: reflexões teóricas sobre a resistência na história

Tão antigo quanto a humanidade, o fenômeno da intolerância construiu inúmeras representações. Da literatura às manifestações artísticas, da propaganda política ao controle da memória social, dos mitos à religião, veremos ao longo da História, grupos sociais e minorias étnicas sendo submetidos, manipulados, segregados e exterminados a partir da proposital difusão de discursos de poder.

Podemos ainda considerar que a intolerância ao judaísmo e aos judeus, manifestada na formação de pensamentos depreciativos e atitudes sectárias e destrutivas sobre esse povo, representa um dos processos mais longos e ininterruptos da história da marginalidade social.

Com base em tal premissa, o objetivo deste ensaio é refletir acerca dos aspectos ideacionais e práticos da intolerância aos judeus, construídos com base no pensamento religioso de natureza teológica/eclesiástica. Da Idade Média à Modernidade, a intolerância religiosa será apresentada a partir das dimensões concretas que assumiu na História Mediterrânea, tomada em sua essência e perversidade, articulando processos de exclusão e eliminação do ser judaico.

Essas questões evidenciam que todo discurso intolerante possui um projeto de dominação que não indicaria, necessariamente, um golpe político, ou usurpações de poder. Tal artifício de legitimidade do pensamento intolerante baseia-se numa espécie de raciocínio de projeção. Projetam-se sobre os alvos sociais do discurso e práticas intolerantes os males construídos pela própria sociedade ou grupo dominante. No imaginário da intolerância, o oprimido torna-se sempre um opressor, que deve ser combatido.

Tanto em Estado como em sociedade, atitudes concretas são tomadas para comprovar “a razão” ou o “sentido” das violências instituídas: No mundo antigo, temos os estigmas da rebeldia judaica contra o Império Romano, que redundaram em milhares de crucificações por todo o território.

Na Idade Média, o mito do judeu deicida e errante, através da difusão de uma lógica punitiva eterna ao povo do “Antigo Israel”, acusados de haverem supostamente tramado, renegado e traído o Deus que a eles foi revelado. Segundo o pensamento eclesiástico, a verdade e a salvação universais deixaram de estar ao lado do povo judeu quando estes pecaram contra Deus.

Para Paulo de Tarso (Epístola aos Romanos), um novo Israel (Israel Espiritual) e um Novo Testamento surgiam através do cristianismo, sobrepondo-se e anulando a existência do que chamou de “antigo Israel e seu Antigo Testamento” (Israel Carnal). A expressão paulina Verus Israel – O verdadeiro Israel, em configuração cristã, ilustra a gênese do distanciamento histórico que passou a demarcar as tensas relações entre Cristianismo e Judaísmo, até os dias atuais.

Na realidade, em alguns textos dos Pais da Igreja (Patrística), localizamos a idéia de anterioridade do cristianismo em relação ao judaísmo, e de sobreposição religiosa. Em História Eclesiástica, datada de inícios do século IV d.C, o bispo Eusébio de Cesaréia reportara-se aos "testemunhos do Antigo Testamento" para que, em sua hermenêutica, ficasse comprovada a relação mística e religiosa entre Moisés e Jesus.

No livro I De História Eclesiástica, Eusébio discorre sobre a cristianização de Moisés, definindo o judaísmo como obsoleto já desde tempos bíblicos. Defendia que Abraão, Isaac e Jacob já seriam cristãos em seus atos e identidades, e Moisés, um líder que teria se colocado contra costumes a posteriori praticados pelo Judaísmo, como o descanso aos sábados (Shabat), as regras alimentares judaicas (Kashrut) e a circuncisão (Brit-Milá). Segundo Eusébio:

(...) É agora o momento adequado de mostrar que o próprio nome Jesus, como também o de Cristo, foram honrados pelos profetas consagrados de outrora. Primeiro, o próprio Moisés reconheceu como é supremamente augusto e ilustre o nome de Cristo quando transmitiu a tradição dos tipos e símbolos místicos de acordo com o oráculo (...). Assim, evidentemente, ele compreendeu que Cristo era um ser divino. O mesmo Moisés, sob o Espírito divino, antevendo também o título Jesus, igualmente dignifica com certo privilégio de distinção.(...) Mas eles obviamente conheciam o Cristo de Deus, conforme apareceu a Abraão, comungou com Isaac, falou com Jacó e conversou com Moisés e os profetas após ele, conforme já foi demonstrado. (EUSEBIUS, 1992, I; III e IV)

Além dos patriarcas e profetas bíblicos perderem sua definição hebraica, Jesus é entendido como um não judeu. Seria angustiante aos principais líderes eclesiásticos da Idade Média pensar que um Deus adorado pela cristandade pudesse ter sido guiado por princípios judaicos, em suas ações e pretensões com o próximo. O Deus cristão não poderia ser um judeu. Os Pais da Igreja erigiram uma literatura repleta de alegorias interpretativas não apenas de oposição, mas de anulação da cultura judaica, e das heranças judaicas inerentes à formação do Cristianismo.

Lembremos que o cristianismo surge historicamente como uma seita judaica, propagada no interior de sinagogas da Judéia romana. Entre aqueles que viam Jesus como Messias, não havia qualquer intenção de serem abolidos práticas e costumes judaicos cotidianos. Em sua imensa maioria, os cristãos dos primeiros séculos na Judéia eram, assim como Jesus (Yeshua ben Yossef), judeus praticantes das leis mosaicas e devotos à Tora.

Tertuliano, João Crisóstomo, Jerônimo, Eusébio de Cesaréia, Agostinho de Hipona, Gregório Magno, Ambrósio de Milão, intelectuais e autoridades eclesiásticas dos séculos III, IV e V, aprofundaram a lógica de substituição histórica das alianças divinas. Aos judeus, lhes foi rompida a aliança com Deus, uma vez merecedores de um trágico destino diaspórico, por suas crueldades. Para Agostinho de Hipona, o Israel Carnal, representado pelo povo judeu, seria historicamente substituído por um Israel Espiritual, cristão, sem máculas ou posturas traiçoeiras em relação ao próximo, e a Deus.

É importante ressaltar que as leituras alegóricas sobre a Bíblia Hebraica e os Evangelhos não se restringiram a uma doutrina anti-judaica de caráter discursivo. Constata-se que, no âmago do pensamento intolerante de setores do episcopado mediterrâneo, o discurso anti-judaico amadureceu rumo a uma práxis anti-semita, pontualmente localizada quando, em nome da “salvação das almas”, previu-se a destruição dos judeus, de suas práticas, produções textuais, e instituições.

A literatura episcopal fundamentada na Patrística clássica esteve metodologicamente ancorada em interpretações alegóricas e concepções soteriológicas sobre o homem e sua relação com o trascendental. Representou esta literatura, em nosso entendimento, um rearranjo circunstancial entre as novas significações atribuídas às múltiplas realidades mediterrâneas, e o forte legado agostiniano especialmente referente às ilações sobre os judeus e o Judaísmo.

Lembremos que com Agostinho, os judeus já desempenhavam função quase determinante no jogo mitológico-existencial da cristandade, ao terem suas existências pré-condicionadas por questões como o deicídio, a culpabilidade perene, as inextinguíveis condições carnal, errante e diaspórica, e a aproximação com a identidade herética. Agostinho apresentava ainda a necessidade de opressão, perseguição ou conversão obrigatória dos elementos sociais desviantes, práticas interpretadas como provas de um amor divino incondicional e piedoso às criaturas historicamente condenadas.

Seguindo a lógica de teóricos como Raoul Girardet, Maria Luiza Tucci Carneiro sustenta que o mito encontra-se na base das retóricas intolerantes

como a representação deturpada de fatos ou personagens reais que, repetida constantemente, induz o indivíduo a elaborar uma interpretação falsa de um momento histórico ou de um grupo. O mito induz a acreditar numa realidade que não é verdadeira e, desta situação, se valem os teóricos (...) a que interpretam os fatos reais de forma distorcida de acordo com os interesses do grupo a que servem. Tais idéias, no entanto, para se transformarem em práxis, necessitam de ter a sua disposição meios adequados de circulação: é quando a doutrina se manifesta como discurso.

Afirmamos assim que o discurso episcopal exacerbou tais pragmatismos agostinianos, repensando a questão judaica com base na mescla entre velhas e novas dicotomias, ambivalências e rótulos. Tais concepções sobre o real (Cristo-AntiCristo; bem-mal; céu-inferno; pureza-pecado; mundo sublime -mundo vil, saúde-doença, etc.) tornariam imóveis os papéis sociais então distribuídos, principalmente em relação ao problemas das conversões obrigatórias e suas prováveis resistências.

Nesse sentido, nos deparamos com um conjunto denso e complexo de alegorias, metáforas e falsos conceitos, que reforçam a hipótese do uso da linguagem como duplo instrumento de opressão, atuando em nível real e simbólico. Esse discurso de poder tornava o outro impotente perante as imagens construídas, pérfido em suas “invenções”, perdendo quaisquer possibilidades de aceitação ou de existência social / espiritual.

Sucessivos desterros, conversões forçadas, confisco de bens, punições físicas e assassinatos em massa; Aos cristãos/Cristandade, representados pelas Igrejas e Monarquias Européias, a teologia patrística articulada dos séculos IV ao VII legou a responsabilidade de expandir a verdade universal, salvando a humanidade de um mal supostamente presente e sempre ameaçador.

Nas epístolas de Agostinho redigidas aos heréticos do Norte da África (Donatistas, Pagãos e Judeus), os poderes benignos da Igreja, aliados às forças das leis imperiais, preocupados com o destino da humanidade, poderiam fazer uso da perseguição, textualmente definida como “prova de amor”.

No anseio de concretização do chamado “cristianismo militante”, converter ou exilar os elementos propagadores do mal seriam algumas das soluções vislumbradas. “Os filhos pagando eternamente pelos crimes de seus pais”: com esta expressão de Agostinho, a Igreja medieval encontrava legitimidade suficiente para desestruturar a existência judaica no mundo mediterrâneo.

Jean Delumeau, em seus estudos sobre o fenômeno do medo no Ocidente medieval, analisa também algumas das principais fontes do ódio ou da intolerância ao elemento judaico. Ao enfocarmos especificamente o mundo mediterrâneo da Alta Idade Média, esse ódio, que para o autor, seria um desdobramento do medo perante o desconhecido, manifestou-se, historicamente, em importantes componentes comportamentais.

Percebe-se a hostilidade da coletividade cristã – ou parte dela – frente a uma minoria tida como empreendedora, e considerada, acima de tudo, inassimilável. Conforme já destacara Carlo Ginzburg em alguns de seus trabalhos, o hibridismo e a diferença inerentes ao que denominamos como ethos judaico ultrapassariam, em nosso entendimento, aos limiares toleráveis de convivência cultural em sociedade.

As hostilidades supracitadas poderiam ser expressas, a exemplo, nas atitudes tomadas pelas instâncias formais e doutrinárias de poder. O medo aqui se manifestaria pela projeção da imagem do mal absoluto em sociedade sobre a figura do judeu empreendedor, resistente, e disseminador, via proselitismo, de uma fé já historicamente condenada. Esse mal, como será estudado a seguir, só poderia ser de fato extirpado caso frontalmente combatido.

Na literatura episcopal de origem hispano-visigoda, por exemplo, os recursos da invenção, da projeção e da generalização são amplamente utilizados para definir a marginalidade judaica do converso. Inseridos nas categorias de “povo deicida”, de “perfídia” e “mal absoluto”, os judeus batizados peninsulares – De Discretione Iudaeorum - tornavam-se efetivamente, uma questão a ser resolvida.

Lugares da resistência à intolerância: o Talmud e a literatura rabínica

Segundo Marc-Alain Ouaknin, “la question centrale du judaïsme est celle delínterpretation et le Talmud est le lieu du conflit des interpretation". Para todos os discursos intolerantes, encontramos expressões que se contrapõem aos esquemas de dominação instituídos. Assim, em meio aos aparentes silêncios dos sujeitos alvos da intolerância, é imperativo ao historiador contemporâneo conceder lugar para os chamados “discursos da resistência”.

A intolerância ao elemento judaico pode ser explicada, em muitos casos, como a não compreensão e oposição às visões de mundo produzidas pelo Judaísmo Rabínico (IV ao XVI), em sua expressão literária mais conhecida e difundida pelas comunidades judaicas em todo o mundo: o Talmud.

A historiografia medievalista até hoje permaneceu silenciosa quanto às inflexões da cultura rabínico-talmúdica sobre o universo social do judeus e dos conversos de origem judaica. Chegam sequer a apontar o Talmud como possibilidade para o estudo do anti-semitimo, latente entre os séculos VI e VII, ou antes, como fundamento filosófico e exegético da resistência dos judeus batizados.

Para Jacob Neusner, o Talmud marca a inserção de uma historicidade ocidental ao Judaísmo mishnaico, mais restrito ao mundo oriental da Palestina, sendo peça indispensável na análise da História do próprio Ocidente Medieval.

De difícil tipificação literária, o Talmud reúne 25 mil páginas de pensamento rabínico divididas entre 63 volumes temáticos, produzidos nos séculos IV e V d.C, por academias ao norte da Judéia e Babilônia. O Talmud pode ser compreendido como conjunto hermenêutico (Guemará), dialógico-reflexivo (Haggadah) e normativo (Halachá) de discussões sobre o real, o trascendental e o homem, enquanto código de éticas e lições de condutas judaicas em sociedade.

Sua polêmica heteroglossia, oposta a uma visão estritamente teológica de mundo, abriu espaço para uma subversão de ordens estabelecidas. Com seu teor interpretativo, podemos considerar que o Talmud ordenou e dinamizou simbolicamente as existências judaicas no medievo e na modernidade.

Podemos inclusive associar tais espaços de subversão, abertos pela literatura rabínica, à condição judaica de pária social, conforme propôs Anita Novinsky em ensaio sobre a censura e as minorias:

Durante milênios os judeus foram párias, animados por um sentimento do indeterminado, do heterodoxo. Eles formam um grupo que em potencial tinha todas as condições para se opor a uma ordem preestabelecida. Hannah Arendt reconheceu no judeu pária essa capacidade para recusar o mundo. Privados de seus direitos políticos, muitos judeus conseguiram libertar-se, mas apenas individualmente, como homens. Excluídos de toda participação política imediata, realizam essa integração por meio da arte e de sua própria criatividade, como artistas ou intelectuais rebeldes. O que é fundamental nessa tradição clandestina do judeu, sempre um ‘excluído’, é a força de sua posição crítica.” (NOVINSKY, 2002, p. 32)

A polissemia e a heteroglossia, adjetivações adequadas ao entendimento dos significados culturais do Talmud, também foram discutidas, em profundidade filosófica, por Emmanuel Levinas. O autor, em diversas leituras e interpretações de tratados do Talmud da Babilônia, buscou transmitir aos seus leitores que, longe do consenso esperado de textos ditos “moralizantes” ou “edificantes”, o Talmud constitui-se como conflito de interpretações sobre o real humano e a incomensurabilidade do transcendental, do divino.

O poder simbólico e heterodoxo inscrito nos comentários talmúdicos evidencia um sentido de “contra-revelação” ao propósito da teologia cristã, em textos que apresentavam diversas escolas filosóficas de pensamento, representadas pelos Rabis, dialogando sobre problemas de ordem ontológica, espiritual ou exegética, sem que necessariamente se alcançasse um resultado normativo.

No Talmud, como em toda a literatura rabínica circundante (Midrashim), o ato de discutir, manifestar o intelecto, suplantavam integralmente a tendência ao autoritarismo ideológico ou teológico. Esta dinâmica talmúdica veio então reforçar a autoridade dos Rabinos na diáspora judaica. As discussões enunciavam sempre a manutenção do locus central de irradiação do imaginário rabínico – a sinagoga. Contra essa instituição e suas práticas congregacionais, versaram algumas das principais homilias do bispo de Antioquia João Crisóstomo que, em 387 d.C, relacionou a Sinagoga à condição pecaminosa de promiscuidade sexual, corrupção e lascívia, estigmas sempre recorrentes no imaginário anti-semita europeu:

Muitos, eu sei, respeitam os judeus e pensam que seu atual modo de vida é digno de louvor. É por isso que desejo por ao chão tal opinião mortal. Eu disse que a sinagoga não era melhor do que um teatro (...); Lupanar e teatro, a sinagoga é também antro de salteadores e covil de bestas. (...) Vivendo para o ventre, a boca sempre escancarada, os judeus não se conduzem melhor que os porcos e os bodes, na sua lúbrica grosseria e no excesso de sua glutoneria. Só sabem fazer uma coisa: empanturrar-se e embriagar-se. (...) Porém, sob inúmeras circunstâncias, os judeus dizem que eles, da mesma maneira, respeitam a Deus. Deus proiba-me de dizer isso, nenhum judeu adora a Deus ! Quem o afirmou? O filho de Deus o afirmou! Por ter dito: ‘Se vocês quisessem conhecer meu Pai, deveriam conhecer a mim. Mas vocês não conhecem nem a mim, nem a meu Pai.’ Poderia eu citar um testemunho mais verídico do que o Filho de Deus? (MIGNE,1857, V. 48 E 49)

Emmanuel Levinas encontrou diversas alusões ao ímpeto libertário judaico tão temido por eclesiásticos medievais como João Crisóstomo. O Talmud alerta que o poder rabínico, como quaisquer outras formas de poder (políticos ou não) criadas pelos homens, poderia ser questionado, enfrentado, ou mesmo negado pela própria comunidade.

Importante textos talmúdicos abordam, em parábolas, a questão das relações sociais de produção à luz de princípios éticos que deveriam ordenar uma espécie de “convivência conciliatória” entre trabalhadores e senhores, estando esses últimos obrigados a reconhecer os direitos e a insubmissão do outro à lógica do mesmo. Em audaciosas passagens, Rabinos aconselham suas comunidades a nutrirem ódio e cautela pelo poder em sua natureza, e não se aproximarem jamais das autoridades políticas, consideradas evasivas e indiferentes aos problemas reais da população. Nos tratados Avot, Shabat e Pessachim, encontramos ainda a obrigatoriedade de contestação às ordenações de governos que por ventura, obrigassem seus súditos a cometer atos ilícitos, criminosos.

Nesse sentido, o Talmud referenda simbolicamente a possibilidade de um descontentamento social sobre uma ordem política considerada maléfica. Abre-se a possibilidade, no judaísmo rabínico, da recusa dessa ordem, ou antes, a recusa do poder do homem sobre o homem. Para o Talmud, aí residiria a raiz de todo o mal. Caso caracterizadas como opressoras ou corruptas, as autoridades poderiam ser renegadas, contestadas, ou mesmo substituídas por outras mais benéficas para a comunidade. Para a lógica talmúdica, se um líder fosse autoritariamente imposto, sem considerar o consenso da coletividade, estaria fadado ao fracasso.

O historiador Yehuda Bauer, em artigo intitulado “Anti-Semitism as an European and World Problem” entende que a consciência crítica de liberdade religiosa e política defendida pelos judeus da diáspora com base na literatura rabínica foi alvo, por séculos, de reações de incompreensão e rechaço. Para Bauer, a cultura judaica medieval erigiu três pilares éticos de base democrática, incompatíveis com as lógicas de poderes teocráticos, fundamentalistas, ou totalitários. Seriam eles:1) todos os homens são livres; 2) todos os homens são iguais, e as mesmas leis devem servir a todos; 3) todos os homens têm direito de reivindicar poder e criticar o soberano.

Para a relação entre Talmud, revolução e liberdade, Levinas, na mesma ótica de Bauer, afirma que a literatura rabínica, entre parábolas e alegorias, mostra-se intransigente em relação ao ócio e à paralisia social, tanto para aqueles que não saberiam recusar uma ordem política, ou mesmo sequer “questionar o ordem do Rei”.

Nesse sentido, por diversas vezes na História, o Talmud, foi considerado como literatura anti-cristã e diabólica. Sua leitura foi proibida, seus leitores banidos, e suas edições queimadas em praça pública, por imperadores, papas, monarcas europeus (medievais e modernos) e governos totalitários contemporâneos.

Sobre os judeus e o Talmud afirma Napoleão Bonaparte:

Os judeus são um povo vilão, poltrão e cruel. São lagartas, gafanhotos que devastam os campos. (...) O mal provém principalmente dessa compilação indigesta chamada Talmud, onde se encontra, ao lado de suas verdadeiras tradições bíblicas, a moral mais corrompida, a partir do momento em que se trata de suas relações com os cristãos. (...) Não pretendo subtrair à maldição com que foi fulminada essa raça que parece ter sido a única a ser excetuada da redenção, mas gostaria de deixá-la sem condições para propagar o mal (...). o bem é feito lentamente, e uma massa de sangue viciado só melhora com o tempo. (...) Quando entre cada três casamentos, houver um entre judeu e francês, o sangue dos judeus deixará de ter um caráter particular (...). (POLIAKOV, 1974, p. 196)

Sobre a censura à produção intelectual judaica, mesmo que religiosa, a reflexão da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro fornece alguns esclarecimentos:

a repressão às idéias e aos intelectuais integrou projetos políticos articulados em diferentes momentos da nossa história. (...) o intelectual ativo - aquele que escrevia e divulgava suas idéias ‘revolucionárias’ – sempre foi tratado pelas instituições vigilantes como um ‘herege’, um ‘homem maldito’, um ‘bandido’. Por ultrapassar os limites do permitido, foi repreendido, julgado e punido. Os livros apreendidos como ‘armas do crime’, transformaram-se em prova material da trama articulada contra o regime e que, segundo os homens do poder, poderiam desequilibrar a ordem imposta. (CARNEIRO, 2002, p. 20-21)

A título de conclusão parcial ao tema, entendemos que a violência, originária de sectarismos religiosos, seria o similar a um estado de ódio socialmente instituído e quase incontrolável. Para pensadores como o escritor e acadêmico argelino Mohammed Arkoun, quando a intolerância é substituída pelo ódio não haveria mais volta, exatamente porque os discursos passariam a adotar três critérios que, somados, seriam fatais para o diálogo entre os homens: violência, sagrado e verdade.

Esse tripé elaborado pelo sectarismo religioso, faz a intolerância assumir o poder de um mito, e como todo mito, adquire feições perenes e deixa as sociedades que a construíram marcadas para sempre. É um quadro desalentador para todos nós, porque corrobora a hipótese de ser o anti-semitismo, um fenômeno historicamente renitente. Fenômeno que parece adquirir sempre novas roupagens, parece supostamente justificar-se com “novas causas”, mas na realidade, reacende velhos estigmas profundamente arraigados ao imaginário social, sem perspectivas de extinção.