Algo que costumo enfatizar para os estudantes do cristianismo primitivo é que esse movimento de Jesus era, em grande parte, uma forma de judaísmo em suas origens. O Jesus camponês era judeu, e todos os primeiros seguidores de Jesus eram judeus, judeus que continuavam a sentir que seguir a lei (a Torá) era a resposta da humanidade à aliança de Deus com o seu povo (Paulo, o fariseu judeu, foi uma pequena exceção por não exigir que os gentios seguissem certos aspectos da lei judaica — especialmente a circuncisão e as leis alimentares — para se juntarem à igreja.
Ainda assim, Paulo era judeu e não se opunha a que os seguidores judeus de Jesus seguissem a lei e, em alguns aspectos, esperava que os gentios seguissem outros aspectos da lei além daqueles que criavam uma distinção social ou de status).
Assim, praticamente todas as representações de Jesus no primeiro século refletiriam naturalmente a sua origem judaica, como de fato ocorre. Contudo, entre os evangelhos do Novo Testamento, o Evangelho de Mateus enfatiza, talvez mais do que outros, a origem judaica de Jesus. Jesus é apresentado como o cumprimento final das escrituras judaicas em mais de uma dúzia de citações que atestam esse cumprimento. O evangelho começa apresentando Jesus como o filho de Davi, o rei ungido por excelência.
Além disso, Jesus é frequentemente apresentado como o novo Moisés, como na narrativa do nascimento. Esse tema recorrente de Jesus como o profeta esperado, assim como Moisés, continua no que Mateus chama de Sermão da Montanha (Mateus 5-7). Ali, o Jesus de Mateus afirma a validade contínua da lei judaica para os seguidores de Jesus:
“Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota, nem um til se omitirá da Lei, sem que tudo se cumpra. Portanto, qualquer que violar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; mas aquele que os praticar e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque eu vos digo que, se a vossa justiça não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:17-20).
Os seguidores de Jesus deveriam seguir a lei de uma maneira que superasse a dos fariseus, que tinham a reputação (fora dos evangelhos e desta passagem em Mateus) de seguir a lei cuidadosamente em seu dia a dia, além da prática de muitos outros judeus. Esta é a chave interpretativa para o material que se segue (erroneamente chamado de “antíteses”), no qual Jesus cita a lei de Moisés e a interpreta de uma forma que afirma fortemente a intenção original das leis (como Jesus a entendia em Mateus).
Estas não são substituições para a lei de Moisés, mas sim uma radicalização da razão pela qual essas leis foram dadas por Deus, na visão de Mateus. Mateus e alguns membros da comunidade para a qual seu evangelho foi escrito, no final do primeiro século, evidentemente continuaram a dar importância à observância da lei e continuaram a se considerar judeus dessa maneira.