Mesmo que se suponha que uma interpretação da Terra jovem para Gênesis 1-11 seja a leitura mais literal dos textos relevantes (uma suposição que aceito sem problemas), isso não significa que essa interpretação deva ser necessariamente a nossa preferida. Dado que parte da informação que trazemos para esses textos é que temos bons motivos para crer que Gênesis representa Escritura inspirada e autorizada, bem como bons motivos para crer que a Terra é, de fato, muito antiga (da ordem de bilhões, e não milhares, de anos), as abordagens interpretativas que resultam em harmonia entre as Escrituras e a ciência devem ser preferidas em relação àquelas que as colocam em conflito.
Por outro lado, os leitores não crentes, não encontrando nenhuma razão independente para crer que a Bíblia, incluindo Gênesis, representa Escritura inspirada e autoritativa, não têm motivos para favorecer abordagens interpretativas que harmonizem as declarações das Escrituras com nosso conhecimento prévio independente. Gostaria, contudo, de apelar aos meus leitores não crentes para que reconheçam a legitimidade, em princípio, da abordagem que proponho: tendo concluído, de forma independente, que Gênesis é Escritura inspirada, é perfeitamente válido buscar harmonizar seu texto com outros dados.
Poder-se-ia, naturalmente, perguntar qual a razão independente para crer que Gênesis seja, de fato, Escritura. Meu apelo aqui se dirige, entre outras considerações, ao testemunho de Jesus (que, concluí, por meio de investigação racional, estava falando a verdade a respeito de sua auto identificação como Deus encarnado). Visto que Jesus honrou o significado originalista de Gênesis — sem mencionar os apóstolos Paulo e Pedro, que também o fizeram —, isso deveria inclinar o cristão racional a levar o texto de Gênesis muito a sério. Naturalmente, a confiança na identidade de Jesus dependerá muito da força com que se considera, entre outras coisas, as evidências de Sua ressurreição (que é a vindicação pública por Deus das afirmações messiânicas e divinas radicais de Jesus) e o cumprimento das profecias bíblicas. Portanto, essas questões estão todas interligadas.
Por outro lado, é preciso reconhecer que favorecer uma interpretação diferente da leitura mais literal das Escrituras (isto é, como elas seriam mais provavelmente interpretadas sem a influência de dados científicos) reduz, de certa forma, a probabilidade de Jesus ser Deus encarnado, visto que é razoável supor que tudo o que alguém que é Deus encarnado acreditasse (pelo menos sobre tal assunto) seja verdade. A medida em que essa evidência se opõe à divindade de Jesus (e, portanto, à verdade do cristianismo) dependerá da plausibilidade das interpretações de Gênesis 1-11 que não impliquem uma conclusão manifestamente equivocada (por exemplo, que o Universo tenha apenas seis mil anos).
Devo acrescentar aqui, para que não haja mal-entendidos, que, como acadêmico, acredito ser importante emitir um veredito sobre se cada argumento e evidência individual tende à verdade do cristianismo ou a contradiz, bem como um veredito sobre se os argumentos e as evidências, considerados em conjunto, devem inclinar o investigador racional a favor ou contra o cristianismo. Embora eu admita que este ou aquele argumento individual possa tender contra o cristianismo, acredito firmemente que a totalidade das evidências, consideradas de forma holística, é mais do que suficiente para justificar a crença na verdade do evangelho, bem como para fundamentar a vida de alguém nele.
É comum que leigos pensem em evidências como uma proposição de "tudo ou nada" — ou seja, uma evidência ou estabelece uma conclusão ou não. No entanto, a situação geralmente é muito mais complexa do que isso. Por exemplo, em um tribunal, assim como na ciência, é normal que uma conclusão seja estabelecida não por uma única evidência suficiente, mas sim por múltiplas evidências, nenhuma das quais, individualmente, possui grande peso, mas que, em conjunto, fornecem razões suficientes para justificar uma conclusão. Além disso, não é incomum que teorias científicas apresentem dados anômalos — isto é, dados que não se encaixam no paradigma — e chegar a uma conclusão racional exige uma análise e avaliação do equilíbrio das evidências — ou seja, qual das explicações faz sentido considerando os dados como um todo?
Nem sempre é ruim — ao contrário da percepção popular — invocar uma ou mais hipóteses auxiliares ad hoc para explicar dados anômalos, desde que se seja franco e transparente quanto a esse fato e que se reconheça que a tese sofreu um revés probabilístico como consequência. Contanto que as razões para acreditar na teoria em questão sejam, em conjunto, mais fortes do que as razões para rejeitá-la, continua sendo racional aceitá-la como verdadeira. Portanto, a presença de evidências contrárias a uma tese não torna necessariamente irracional continuar a acreditar nela.
Alguns leitores podem se sentir desconfortáveis com o fato de existir qualquer evidência contrária às suas crenças. Mas isso decorre inevitavelmente do nosso conhecimento incompleto do mundo. Se possuíssemos conhecimento exaustivo, todas as evidências apontariam, em uníssono, na direção da verdade. Como não possuímos conhecimento exaustivo, devemos avaliar o equilíbrio das evidências com base nos fatos e dados disponíveis.
A ideia de que não houve morte, de qualquer tipo, antes da queda do homem — uma questão considerada por muitos criacionistas da Terra jovem como a mais importante para justificar a adoção de uma interpretação da Terra jovem. Após analisar cuidadosamente os textos relevantes, concluí que, embora as evidências bíblicas sejam convincentes para a inexistência de morte humana antes da queda, as evidências para a inexistência de morte animal são bastante fracas, visto que todos os textos relevantes admitem interpretações alternativas muito plausíveis. Nesse caso, não estou nem mesmo convencido de que a visão de que não houve morte animal antes da queda seja a interpretação mais literal.
Neste artigo, abordarei o que considero ser a questão mais espinhosa em relação aos primeiros capítulos de Gênesis: as origens humanas. Primeiramente, argumentarei que a historicidade literal de Adão e Eva, sendo fundamental para o próprio evangelho, é de extrema importância, e que a rejeição dessa historicidade literal não pode ser aceita sem graves consequências teológicas. Em segundo lugar, argumentarei que os relatos bíblicos permitem que Adão e Eva tenham existido há centenas de milhares de anos, embora a leitura mais plausível e direta dos textos relevantes (em particular, os relatos genealógicos em Gênesis 5 e 11) seja a de que eles viveram muito mais recentemente — talvez entre seis e dez mil anos atrás. Em terceiro lugar, abordarei a questão da compatibilidade de Adão e Eva com a teoria da evolução e também oferecerei uma breve avaliação crítica dessa teoria. Finalmente, discutirei o que podemos discernir das Escrituras sobre se Adão e Eva estavam sozinhos ou se havia outros seres humanos na Terra na época, que não eram descendentes de Adão e Eva. Também abordarei brevemente o tema de outras espécies de hominídeos antigos, como os neandertais e os denisovanos.
Quão importante é afirmar a existência literal de Adão e Eva?
A historicidade de Adão e Eva é uma questão que toca o âmago da fé cristã. Se o casal primordial não existiu, então a doutrina histórica e bíblica da queda torna-se extremamente difícil de sustentar. Além disso, o apóstolo Paulo claramente vinculou o plano redentor de Deus e a expiação de Cristo pelo pecado com a queda descrita em Gênesis (Romanos 5:12-21). Lemos em Romanos 5:12-14,
12 Portanto, assim como o pecado entrou no mundo por um só homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. 13 Pois, antes da lei, o pecado já estava no mundo, mas não é levado em conta o pecado quando não há lei. 14 Contudo, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual era uma figura daquele que havia de vir.
Em 1 Coríntios 15:20-22, lemos algo semelhante:
20 Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. 21 Pois, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. 22 Porque, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.
Grande parte da teologia cristã referente ao evangelho deriva das cartas de Paulo. Embora os evangelhos sejam nossas principais fontes de informação sobre o ministério de Jesus, as cartas de Paulo são nossa principal (embora certamente não exclusiva) fonte de informação sobre o significado teológico da vida e morte de Jesus. Sendo assim, estaríamos significativamente empobrecidos se não tivéssemos essas cartas.
Nas passagens citadas acima, Paulo afirma que a queda de Adão trouxe o pecado, e consequentemente a morte humana, ao mundo, e que essa é a razão pela qual Cristo teve que morrer fisicamente na cruz para trazer a redenção. A historicidade de um casal primordial literal, portanto, é algo fundamental para o que o evangelho representa. Além disso, o paralelo do versículo 22, “Porque assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados”, também sugere que Adão foi uma figura histórica literal no mesmo sentido que Cristo.
Outra evidência de que Paulo considerava Adão como uma figura histórica literal pode ser encontrada em 1 Timóteo 2:11-14, onde ele recorre a essa doutrina para argumentar sobre o papel da mulher na igreja em relação ao homem. Paulo escreve:
11 Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. 12 Não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio. 13 Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva; 14 e Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.
De fato, o próprio Jesus compreendeu claramente que Adão e Eva eram figuras históricas. Em resposta às perguntas dos fariseus sobre casamento e divórcio, Jesus declarou (Mt 19:4-6):
4 Ele respondeu: “Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher, 5 e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? 6 Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”.
Assim, Jesus não apenas considerou o Gênesis como Sagrada Escritura; ele afirmou a historicidade de um primeiro casal literal em particular.
Como se isso não bastasse, as genealogias registradas em Gênesis 5, 1 Crônicas 1 e Lucas 3 tratam Adão como uma figura histórica. A literatura associada ao judaísmo do Segundo Templo também reconhecia Adão como um indivíduo histórico.
Quando viveram Adão e Eva?
Tendo estabelecido que Adão e Eva são tratados inequivocamente pelas Escrituras como pessoas históricas reais, podemos determinar, a partir das Escrituras, quando aproximadamente Adão e Eva viveram? A visão comum adotada pelos criacionistas da Terra jovem é que Adão e Eva viveram há aproximadamente seis mil anos. Isso se baseia na cronologia do Arcebispo James Usher da Irlanda (1581-1656), que situou a criação do mundo em 4004 a.C. A estimativa de Usher foi baseada nas genealogias bíblicas, em particular aquelas apresentadas em Gênesis 5 e 11. Os dados científicos, no entanto, indicam que os humanos anatomicamente modernos ( Homo sapiens ) estão presentes na Terra há pelo menos 200.000 anos. Se incluirmos outras espécies de hominídeos, como o Homo neanderthalensis (que data de mais de 400.000 anos atrás), em nossa raça, isso recua ainda mais as origens da humanidade. Para que essas datas sejam harmonizadas com o Gênesis, deve haver um grau significativo de incompletude nas genealogias bíblicas de Gênesis 5 e 11. Mas será que as Escrituras permitem tal incompletude nos registros genealógicos?
Ao ler algumas traduções modernas, é fácil ficar com a impressão de que as genealogias em Gênesis 5 e 11 não deixam espaço para lacunas. Por exemplo, a Versão Padrão Revisada (RSV) apresenta o padrão das genealogias de Gênesis da seguinte forma:
Quando A completou X anos, tornou-se pai de B. A viveu mais BY anos após o nascimento de B e teve outros filhos e filhas. Assim, todos os dias de A foram Z anos; e ele morreu.
A tradução na versão em inglês English Standard Version (ESV) reflete mais fielmente o hebraico, traduzindo o texto como “depois que ele gerou…” em vez de “ele se tornou pai de…”. Essa diferença é sutil, mas crucial. Essa construção permite lacunas genealógicas. Por exemplo, o evangelho de Mateus afirma que “Jorão gerou Uzias”. Mas em 2 Reis, aprendemos que Uzias era, na verdade, tetraneto de Jorão. Assim, parece que “A gerou B” pode ser interpretado como “A gerou um ancestral de B”. Podemos identificar outros exemplos de genealogias condensadas nas Escrituras. Por exemplo, em Êxodo 6:14-27, aprendemos que Moisés era filho de Anrão, que era filho de Coate, que era filho de Levi (que era filho de Jacó). Assim, pareceria haver apenas quatro gerações entre Jacó e Moisés. Mas há razões para crer que essa genealogia de Moisés é bastante condensada. Em Gênesis 46:11, aprendemos que o “avô” de Moisés, Coate, nasceu antes da família de Jacó viajar para o Egito, portanto, antes do período de aproximadamente 430 anos em que os israelitas estiveram no Egito (Êxodo 12:40-41).
Se Moisés tinha 80 anos quando o Êxodo ocorreu (Êxodo 7:7), então seu suposto avô Coate teria nascido no mínimo 350 anos antes do nascimento de Moisés. Outro motivo para acreditar que a genealogia de Moisés seja altamente condensada é que, como observa C. John Collins, “os descendentes de Coate somavam 8.600 homens com mais de um mês de idade (Números 3:27-28), e 2.750 deles tinham entre 30 e 50 anos (Números 4:34-37) — e isso apenas um mês depois da saída dos israelitas do Egito (Números 1:1). Essa é uma fertilidade fenomenal se Coate era o avô de Moisés. (Esperaríamos um número mais próximo de 100).” Além disso, se observarmos a genealogia de Josué em 1 Crônicas 7:23-27, descobriremos que, na verdade, havia pelo menos doze gerações entre Jacó e Josué. Essas três observações apontam fortemente para a genealogia de Moisés como sendo altamente condensada. Assim, podemos concluir que as genealogias bíblicas por vezes incluíam lacunas significativas, o que abre a possibilidade de que tais lacunas também existam nas genealogias do Gênesis.
A próxima questão que devemos abordar é se existe um limite máximo estabelecido para a quantidade de lacunas que podem estar contidas em um registro genealógico. Se existir, isso nos permitiria estabelecer um limite máximo para a época em que Adão e Eva viveram. C. John Collins responde a essa questão: “ Não conheço nenhuma maneira de descobrir se existe sequer um limite máximo para o número de lacunas possíveis.” O egiptólogo Kenneth Kitchen concorda:
Retornando a Gênesis 1–11, vemos que as narrativas, em alguns casos, pressupõem paternidade imediata. Veja, por exemplo, a redação de Adão-Sete-Enos em Gênesis 4:25–26. Mas, na maioria dos casos, pode-se, em princípio, ler as fórmulas recorrentes “A gerou B e, depois de gerar B, viveu x anos” como “A gerou (a linhagem que culmina em) B e, depois de gerar (a linhagem que culmina em) B, viveu x anos”. Assim, não podemos datar o dilúvio antes de Abraão nem a criação antes de Noé simplesmente contando as figuras de Gênesis continuamente, como fez o digno Arcebispo Ussher nos dias despreocupados em que nenhuma evidência externa à Bíblia era sequer imaginada, muito menos considerada ou vista.
E, no contexto desses dados externos, qualquer literalismo desse tipo falha. Se Abraão for situado por volta de 2000 a.C., então, com base nessas figuras, o dilúvio teria ocorrido por volta de 2300 a.C. Mas essa é aproximadamente a época de Sargão da Acádia; Tendo sido resgatado de um rio ao nascer, ele não teria achado uma inundação agradável. Pior ainda, sua época remontava a 400 anos, à de Gilgamesh (cerca de 2700), para quem, por sua vez, segundo a tradição, o dilúvio era ainda mais antigo! Portanto, uma solução ussheriana está descartada; os métodos da antiguidade se aplicam. A data do dilúvio permanece incerta, poderíamos dizer! Quanto à data da criação, por que perder tempo com cálculos quando Gênesis 1:1 diz tudo: “No princípio…” — o que é bastante breve.
Dado que Gênesis 1-11 apresenta um ritmo muito acelerado na descrição da história mundial (a narrativa desacelera com a introdução de Abraão em Gênesis 12), é possível que as genealogias em Gênesis 5 e 11 estejam extremamente incompletas, faltando talvez centenas ou até milhares de nomes. Simplesmente não há como saber com certeza. Portanto, tentar usá-las para calcular a data em que Adão e Eva existiram é usá-las para um propósito diferente daquele para o qual essas genealogias foram criadas. Além disso, há uma simetria entre as genealogias de Gênesis 5 e 11 — ambas listam dez nomes e terminam com uma figura-chave que teria tido três filhos (Noé e Terá, respectivamente). Esse tipo de estrutura simétrica se assemelha à genealogia de Jesus no Evangelho de Mateus, que certamente pula gerações.
Pode-se objetar neste ponto que é bastante arbitrário presumir, com base em mera possibilidade, a existência de milhares de gerações omitidas entre Adão e Abraão, quando o texto bíblico não nos fornece indícios concretos de sua existência. Além disso, não conhecemos nenhum outro registro genealógico antigo onde haja, comprovadamente, milhares de gerações omitidas. Assim, invocar sua existência neste caso para evitar a falsificação de Adão e Eva é recorrer a argumentos falaciosos. Há, sem dúvida, alguma validade nessa objeção. Contudo, ao ponderar as alternativas, parece que o cenário que propus é a opção epistemologicamente menos custosa. Os cenários concorrentes incluem:
Adão e Eva não existiram
As genealogias estão completas ou quase completas, e Adão e Eva viveram algures entre seis e dez mil anos atrás.
Existem milhares de gerações omitidas nas genealogias do Gênesis.
A primeira opção não é isenta de custos, visto que, a meu ver, a historicidade de Adão e Eva é essencial para a verdade do cristianismo, possivelmente no mesmo nível da ressurreição de Jesus. Assim, se optarmos pela primeira opção, teremos que propor explicações alternativas plausíveis para as inúmeras evidências que apontam tão fortemente para a verdade do cristianismo — como as diversas evidências da ressurreição de Jesus e os argumentos da profecia preditiva. Por outro lado, se optarmos pela segunda opção, teremos que propor explicações alternativas plausíveis para as inúmeras evidências que apontam para a humanidade ser muito mais antiga do que seis a dez mil anos.
A terceira opção exige que postulemos, sem evidências independentes que a sustentem, a existência de milhares de gerações omitidas nas genealogias do Gênesis. Portanto, todas as três opções têm um custo epistêmico. O cenário que devemos favorecer é aquele que apresenta a menor implausibilidade. Em minha opinião, a terceira opção, embora exija que proponhamos uma hipótese auxiliar ad hoc, é o cenário menos implausível.
Uma objeção adicional surge em relação à localização de Adão e Eva centenas de milhares de anos atrás, em vez de mais recentemente. Ou seja, Gênesis 4:17-22 pressupõe um contexto histórico mais recente, uma vez que descreve indivíduos da linhagem de Caim que foram pioneiros em ofícios como a construção de cidades, a pecuária, a fabricação de instrumentos musicais e o trabalho com metais. Esses ofícios são geralmente considerados pertencentes ao período Neolítico (10.000 a 3.000 a.C.). Portanto, de acordo com a tese que estou sugerindo, essas alusões seriam anacrônicas.
No entanto, C. John Collins aponta que “ é possível ler esses versículos como descrevendo os pioneiros das habilidades que eventualmente levaram aos ofícios com os quais o público estaria familiarizado. De fato, Umberto Cassuto argumentou que os termos hebraicos 'pai' e 'forjador' podem ser lidos com essas nuances.” Alternativamente, pode-se também sugerir que tais ofícios de fato existiram antes do que pensamos atualmente, embora as evidências ainda precisem ser descobertas. No entanto, é preciso reconhecer que esses versículos são mais prováveis se o autor de Gênesis pretendia comunicar que Adão e Eva viveram recentemente (nos últimos dez mil anos) do que de outra forma.
Uma última objeção que às vezes surge em relação à alegação de lacunas na genealogia de Gênesis 5 é a de que Judas 14 descreve Enoque como o “sétimo a partir de Adão”. Esta é, na minha opinião, a mais fraca das três objeções. É típico em genealogias antigas registrar apenas nomes proeminentes. O evangelista Mateus, por exemplo, refere-se a três conjuntos de “quatorze gerações” — de Abraão a Davi, de Davi ao exílio e do exílio a Cristo (Mt 1:17). Talvez Judas 14 se refira à sétima geração significativa, conforme listada em Gênesis 5.
Além disso, provavelmente não é por acaso que Enoque, que andou com Deus, seja listado como o sétimo a partir de Adão, visto que sete é um número sagrado nas Escrituras que simboliza a completude. Kenton Sparks também observa que “ As listas de reis mesopotâmicos frequentemente enfatizam a importância especial do sétimo rei (geralmente Enmeduranki) e seu sábio conselheiro (geralmente Utuabzu), que não morreu, mas 'ascendeu ao céu'.”
Assim, embora as três linhas de evidência que consideramos — as genealogias de Gênesis 5 e 11, o contexto histórico implícito em Gênesis 4:17-22 e a alusão passageira em Judas 14 — não impliquem que a humanidade tenha surgido recentemente (já que cada uma delas pode ser harmonizada, com o auxílio de uma hipótese auxiliar ad hoc, com uma perspectiva que situa Adão e Eva muito mais atrás no tempo), elas constituem evidências que confirmam uma origem mais recente. Além disso, o peso dessas evidências deve ser multiplicado, e não somado, entre si.
Por exemplo, se supusermos que cada uma das duas linhas de evidência é cem vezes mais provável na hipótese de que Adão e Eva viveram recentemente do que na alternativa, isso implica que o fator de Bayes geral é de dez mil (ou seja, ambas as evidências combinadas são dez mil vezes mais prováveis se Adão e Eva viveram recentemente do que de outra forma).
Portanto, embora se possa, se compelido por evidências científicas, postular que Adão e Eva viveram há centenas de milhares de anos, e não apenas há dez mil anos, é preciso, ao fazê-lo, reconhecer francamente que a hipótese da veracidade do cristianismo sofreu um revés probabilístico. Se essa fosse a única evidência relacionada à veracidade do cristianismo, inclinaria o investigador racional à descrença. Felizmente, porém, há muitas outras evidências a serem consideradas, e é minha opinião ponderada que as razões para crer na veracidade do cristianismo, em seu conjunto, superam em muito as razões para rejeitá-lo.
A existência de Adão e Eva é compatível com a evolução?
Outra questão que precisa ser abordada é a da compatibilidade (ou não) entre a evolução e um Adão e Eva históricos. Isso depende, porém, do que se entende por "evolução". Eu argumentaria que Adão e Eva não são compatíveis com a explicação padrão dos livros didáticos sobre a evolução neodarwinista, segundo a qual a evolução ocorre de forma extremamente gradual. De acordo com a visão evolucionista padrão, nunca houve um primeiro casal humano propriamente dito, da mesma forma que poderíamos dizer que não há um momento definível em que um menino se torna adulto — é um processo muito gradual e lento que acontece ao longo de muitos anos. É importante entender que a evolução afeta populações, não indivíduos.
À medida que uma população altera as frequências de diferentes variantes genéticas (chamadas alelos na linguagem técnica), diz-se que a população evolui. Para melhor compreender isso, é útil comparar a evolução das populações à mudança da linguagem ao longo do tempo. Embora nenhum indivíduo possa causar mudanças significativas em sua língua (mantendo sua inteligibilidade para os demais membros de sua comunidade), a língua pode mudar, e de fato muda, lenta e gradualmente ao longo do tempo — mas nunca há um momento específico em que uma nova língua surge.
O mesmo princípio pode ser aplicado à evolução. Portanto, eu argumentaria que o evolucionismo teísta é incompatível com um Adão e Eva históricos, pelo menos no sentido tradicional, visto que nunca houve um momento definível em que a humanidade surgiu. Alguns cristãos, contudo, buscaram resgatar a figura de Adão e Eva, mantendo-se fiéis ao paradigma evolucionista, e analisarei essas tentativas a seguir.
Alguns tentaram sugerir que Deus selecionou dois humanos adultos primitivos e os dotou de uma alma imortal e da imago dei — uma visão que podemos chamar de visão da animação. Por exemplo, o teólogo John Walton, do Wheaton College, escreve: “ Acredito que a imagem de Deus é um dom direto e espiritualmente definido de Deus para os humanos. Para aqueles que acreditam que os humanos são biologicamente um produto da mudança ao longo do tempo por meio da descendência comum, a imagem de Deus teria sido dada por Deus aos humanos em um momento específico dessa história. Ela não seria detectável no registro fóssil ou no genoma.”
De maneira semelhante, o teólogo Tom Wright, da Universidade de St. Andrews, argumenta que “assim como Deus escolheu Israel dentre o resto da humanidade para uma vocação especial, estranha e exigente, talvez o que o Gênesis nos diga é que Deus escolheu um casal dentre os hominídeos primitivos para uma vocação especial, estranha e exigente. Esse casal (chame-os de Adão e Eva, se quiser) seria o representante de toda a raça humana, aqueles em quem o propósito de Deus de fazer do mundo inteiro um lugar de deleite, alegria e ordem, eventualmente colonizando toda a criação, seria levado adiante”. Essa visão também é adotada pelo imunologista britânico Denis Alexander, da Universidade de Cambridge, que argumenta que “Deus, em sua graça, escolheu um casal de agricultores neolíticos no Oriente Próximo, ou talvez uma comunidade de agricultores, aos quais escolheu se revelar de uma maneira especial”.
O tipo de cenário imaginado por Walton, Wright e Alexander me parece muito implausível. Todas as indicações no texto de Gênesis apontam para a criação de Adão e Eva de forma especial e original por Deus . Além disso, na perspectiva da animação, pode-se deduzir que houve um momento na história da humanidade em que existiram organismos biologicamente e anatomicamente idênticos aos humanos modernos, alguns dos quais possuíam a imago dei e outros não. Mas, nessa perspectiva, com base em quê afirmamos que embriões não nascidos possuem a imago dei (em oposição a adquiri-la posteriormente durante o desenvolvimento)? A imago dei , eu diria, faz parte do que significa ser humano. A perspectiva da animação também não explica as palavras de Jesus em Mateus 19:4-5:
4 Ele respondeu: “ Vocês não leram que, no princípio, o Criador os fez homem e mulher, 5 e disse: ‘Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’?”
As palavras de Jesus aqui implicam que os primeiros humanos foram criados homem e mulher. Não há qualquer indicação de que tenham evoluído lentamente a partir de outros primatas, ou que Adão e Eva de fato tiveram pais biológicos e foram arbitrariamente declarados os primeiros humanos portadores da imagem de Deus. Chamar tal interpretação das palavras de Jesus de forçada seria um eufemismo incrível. Além disso, as palavras de Jesus implicam que a sexualidade humana tem sido, desde o princípio, o propósito especial de Deus para a humanidade, e que Deus projetou propositalmente os seres humanos para serem homens ou mulheres.
Se supusermos, porém, que processos naturais cegos produziram os corpos de homens e mulheres (como sustentado pelos evolucionistas teístas), isso mina seriamente a noção de que gênero e sexualidade foram o propósito de Deus para os humanos. Pode-se objetar que Deus age providencialmente por meio da lei natural e pode usar causas secundárias para realizar Sua providência. Contudo, nesse caso, com base em que afirmamos que os relacionamentos heterossexuais e a identidade masculina e feminina são o propósito e o projeto de Deus para a humanidade, enquanto os relacionamentos homossexuais não o são?
A visão da animação também é contestada pelas palavras de Paulo em 1 Timóteo 2:12-13, onde ele apresenta um argumento em favor da complementaridade entre homem e mulher, fundamentado no texto de Gênesis:
12 Não permito que a mulher ensine nem que exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio. 13 Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva; 14 e Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.
Este texto implica fortemente que o homem foi criado primeiro e a mulher depois, e que disso surge a complementaridade entre masculino e feminino. O evolucionista teísta deve interpretar este texto como não tendo nada a ver com a criação física da humanidade por Deus. Isso é extremamente implausível.
Uma tentativa inovadora e provocativa de harmonizar a teoria da evolução com um Adão e Eva históricos foi recentemente proposta pelo biólogo computacional Joshua Swamidass, da Universidade de Washington em St. Louis. Swamidass propõe que Adão e Eva viveram há aproximadamente seis mil anos, de acordo com a compreensão criacionista tradicional. Ele argumenta que Adão e Eva não tiveram pais e, na verdade, foram criados de novo , como descrito em Gênesis 2. Consistente com uma leitura literal de Gênesis, Swamidass propõe que Adão foi formado do pó da terra e Eva da costela de Adão. No entanto, Swamidass argumenta que Adão e Eva não foram os primeiros humanos.
Em vez disso, seus genomas se "misturaram" com o restante da população humana fora do jardim por meio de cruzamentos (isto é, humanos que, diferentemente de Adão e Eva, surgiram naturalmente por meio de processos evolutivos), de modo que todos os humanos existentes podem ser considerados descendentes de Adão e Eva, embora sua ancestralidade genética inclua também outras linhagens não relacionadas a Adão. Swamidass destaca que ancestrais genealógicos universais (isto é, indivíduos aos quais todos os humanos modernos podem traçar sua ancestralidade) são comuns, surgindo frequentemente ao longo da história humana. Swamidass propõe que “Adão e Eva devem trabalhar como governantes sacerdotais ao lado de Yahweh Elohim, para expandir o Jardim por toda a Terra.
A civilização está surgindo e uma nova era está chegando. Seu propósito é acolher a todos em sua família, em um novo reino de Deus.” Swamidass distingue entre o que ele chama de “humanos biológicos” e “humanos textuais”. Para Swamidass, “Humanos biológicos são definidos taxonomicamente, de um ponto de vista biológico e científico. Pelo menos desde o ano 1 d.C., eles são coextensivos aos humanos textuais.” Por outro lado, “Os humanos textuais são o grupo de pessoas a quem as Escrituras se referem. Argumento que este grupo é definido pelas Escrituras como sendo Adão, Eva e seus descendentes genealógicos, incluindo todos os que viviam no mundo, no máximo, no ano 1 d.C. Eles são um subconjunto cronológico dos humanos biológicos, o que significa que alguns humanos biológicos no passado não são humanos textuais, mas todos os humanos textuais são humanos biológicos.”
Embora o modelo de Swamidass seja superficialmente atraente, pois não exige a postulação de milhares de lacunas nas genealogias do Gênesis, os problemas que ele levanta são intoleravelmente grandes demais para que eu recomende a solução de Swamidass. Para começar, em que sentido, se é que existe algum, os humanos biológicos não adâmicos podem ser considerados plenamente humanos? Eles são afetados pelo pecado original, e Jesus morreu para salvá-los? Swamidass conjectura que esses humanos biológicos carregam a imagem de Deus, mas “ainda não foram afetados pela queda de Adão. Eles têm um senso de certo e errado, inscrito em seus corações (Rm 2:15), mas não são moralmente perfeitos. Eles erram às vezes. Estão sujeitos à morte física, o que impede que suas transgressões se transformem em verdadeiro mal (Gn 6:3)”.
As Escrituras, no entanto, não fazem tal distinção entre humanos biológicos e humanos textuais. A visão de Swamidass parece sugerir logicamente que os indivíduos que eram humanos biologicamente (mas não textualmente) são qualitativamente indistinguíveis de outros animais. Mas, nesse caso, não faz sentido chamar seus atos de maus, ou postular que eles tinham um senso de certo e errado. Além disso, se eles, como sugere Swamidass, “fazem o mal às vezes”, isso não sugere que a queda de Adão é apenas uma das muitas quedas que ocorreram na história da humanidade? As ramificações teológicas que acompanham esse cenário são graves demais para que eu considere a proposta de Swamidass.
Se Adão e Eva não são compatíveis com a evolução, então o quê?
Se nenhuma das tentativas propostas de harmonização entre a teoria da evolução e o Adão e Eva históricos funcionar, o que devemos concluir disso? Minha opinião ponderada é que isso não deve nos preocupar, visto que as evidências científicas não sustentam uma explicação evolucionista gradualista para as origens humanas, e o registro fóssil não oferece tempo suficiente para superar as probabilidades de se obter sequer um único par de mutações codependentes necessárias para gerar alguma nova característica, ou fixá-las na população. Portanto, se a transição de um ancestral semelhante a um chimpanzé para um ser humano ocorreu, ela não se deu por um processo estocástico e não guiado de evolução. Consideremos brevemente algumas das mudanças anatômicas que seriam necessárias para transformar um ancestral semelhante a um chimpanzé em um ser humano.
Por um lado, andar e correr eretos “exigem uma nova coluna vertebral, uma forma e inclinação diferentes da pélvis e pernas que se angulam para dentro a partir dos quadris, para que possamos manter os pés sob nós e evitar oscilações laterais durante o movimento. Precisamos de joelhos, pés e dedos projetados para andar ereto e um crânio que se assente sobre a coluna vertebral em uma posição equilibrada. (A cúpula do nosso crânio é deslocada para trás para acomodar nosso cérebro maior e, ainda assim, manter o equilíbrio.) Nossas mandíbulas e inserções musculares devem ser deslocadas, nosso rosto achatado e os seios nasais atrás do rosto e as órbitas oculares localizados em lugares diferentes, para permitir um olhar para a frente e ainda sermos capazes de ver onde colocar os pés.”
De fato, Bramble e Lieberman contabilizam dezesseis mudanças anatômicas que seriam necessárias para converter um australopiteco no gênero Homo. Cada uma dessas mudanças provavelmente exigiu múltiplas mutações codependentes para ocorrer — isto é, duas ou mais mudanças genéticas coincidentes que somente juntas produzem um efeito fenotípico adaptativo que permite a atuação da seleção natural. Surge, portanto, naturalmente a questão de saber se o registro fóssil oferece tempo suficiente para que essa transição tenha ocorrido.
Todas as mutações têm duas restrições temporais que dependem do tamanho da população, da taxa de mutação e do tempo de geração. São elas: (a) o tempo de espera para que uma mutação surja em uma população e (b) o tempo de espera para a fixação da mutação na população — ou seja, o tempo necessário para que a mutação passe de ser possuída por um único indivíduo para se tornar a norma estabelecida na população. Quando o tamanho da população é grande, o tempo de espera para o surgimento de uma mutação diminui (já que há mais indivíduos nos quais a mutação poderia potencialmente ocorrer), mas o tempo de fixação aumenta (já que há mais indivíduos pelos quais a mutação precisa se espalhar).
Por outro lado, com populações pequenas, o tempo de espera para que uma mutação ocorra aumenta (já que há menos indivíduos nos quais a mutação poderia ocorrer), mas o tempo de fixação diminui (já que há menos indivíduos pelos quais a mutação precisa se espalhar). Isso dá origem ao que pode ser chamado de dilema do tempo de espera. Um possível contra-argumento aqui é que mutações neutras (que representam cerca de 75% de todas as mutações) podem ocorrer separadamente, antes de se combinarem posteriormente por recombinação sexual. No entanto, foi demonstrado que “a recombinação reduz o tempo de espera até que uma nova combinação genotípica apareça, mas o efeito é pequeno em comparação com o da taxa de mutação e do tamanho da população”.
O bioquímico Michael Behe, da Universidade Lehigh, e o físico David Snoke, da Universidade de Pittsburgh, argumentaram que o tempo de espera para duas mutações codependentes é proibitivo para o funcionamento do mecanismo neodarwinista da evolução. Behe, em seu livro The Edge of Evolution , usou o exemplo da resistência da malária à cloroquina, que exigiu o surgimento de duas mutações codependentes e, portanto, levou alguns anos e cerca de 10²⁰ organismos para desenvolver resistência à cloroquina. Aplicando esses dados à evolução humana (ou seja, ajustando para o fato de haver muito menos indivíduos humanos) , previu-se um tempo de espera de 10¹⁵ anos.
O argumento de Behe não passou incólume a contestações. Em 2008, dois matemáticos da Universidade Cornell, Rick Durrett e Deena Schmidt, publicaram um artigo na revista Genetics, no qual apresentaram um modelo teórico matemático (em contraste com a análise de Behe, que se baseava em dados empíricos), argumentando que Behe estava, na verdade, enganado, e que o tempo de espera real para um único par de mutações codependentes seria de apenas 216 milhões de anos. Isso se baseava em um tamanho populacional efetivo médio assumido de 20.000 indivíduos por geração (até recentemente, o tamanho populacional efetivo médio dos humanos — ou seja, daqueles que se reproduzem — era tão baixo quanto esse).
No entanto, dado que se acredita que a divergência entre humanos e chimpanzés ocorreu há apenas cerca de seis milhões de anos, isso é altamente proibitivo — uma vez que muitas das mudanças anatômicas necessárias para transformar um ancestral semelhante a um chimpanzé em um humano exigiriam pelo menos duas mutações codependentes, e provavelmente mais.
Como mencionado anteriormente, o tempo de espera para o surgimento de uma mutação não é o único tempo de espera a ser considerado. Há também o tempo de espera para que uma mutação se fixe na população — para que passe de um indivíduo isolado portador da mutação a se tornar a norma estabelecida. Em 2015, um artigo foi publicado na revista Theoretical Biology and Medical Modelling. Os pesquisadores utilizaram uma simulação computacional para estimar os tempos de espera, com base em estimativas razoáveis para uma população ancestral de hominídeos de 10.000 indivíduos e um tempo de renovação de gerações de 20 anos.
Eles estimaram que o tempo de espera para a fixação de uma mutação pontual específica estava na faixa de 1,5 a 15,9 milhões de anos. No entanto, a fixação de uma única mutação co-dependente, de acordo com sua estimativa, pode levar até 85 milhões de anos. Novamente, considerando que a divergência entre humanos e chimpanzés teria ocorrido há apenas seis milhões de anos, isso representa um problema significativo para a explicação evolucionista padrão das origens humanas.
Dito isso, também considero que, embora as evidências pareçam convincentes de que os humanos não surgiram por processos estocásticos cegos, os dados genômicos apontam na direção de que os humanos compartilham, de alguma forma, uma ancestralidade com outros primatas, e esses dados também devem ser levados a sério. É comum que criacionistas afirmem que a similaridade é igualmente bem explicada por um projeto comum ou por descendência comum. Embora haja alguma verdade nisso, a realidade é que os argumentos a favor da evolução, em sua forma mais sofisticada, têm mais a ver com a distribuição de semelhanças e diferenças do que com o mero fato da similaridade.
O espaço não me permite fazer justiça às várias linhas de evidência que podem ser apresentadas. No entanto, permitam-me apresentar uma linha de evidência que considero particularmente convincente — o argumento da distribuição hierárquica aninhada de retrovírus endógenos. Os próximos quatro parágrafos são um pouco técnicos em termos científicos. Para os leitores que não gostam de conteúdo técnico, sugiro que avancem para a seção onde recapitulo os argumentos apresentados nesta parte.
Acredita-se que os primatas estejam presentes na Terra há 50 a 55 milhões de anos. Durante essa história, eles sofreram muitas infecções por retrovírus (vírus de RNA que podem transcrever reversamente seu RNA em DNA e se integrar ao genoma de seu hospedeiro). Às vezes, esses retrovírus infectam as células germinativas (aquelas células que são transmitidas à prole de um organismo). Quando isso acontece, os retrovírus podem ser herdados verticalmente de uma geração para a seguinte, tornando-se relíquias permanentes de infecções virais passadas.
Essas relíquias são chamadas, na linguagem técnica, de retrovírus endógenos (ERVs). Existem literalmente centenas de milhares desses retrovírus endógenos no genoma humano. O que os biólogos evolucionistas observaram é que a distribuição dessas sequências retrovirais nos genomas de diferentes primatas forma uma hierarquia aninhada, semelhante a uma árvore genealógica — exatamente o que se esperaria observar na hipótese de ancestralidade comum.
Além disso, além da localização das sequências de ERV em loci ortólogos (e seu respectivo padrão hierárquico aninhado), também devemos levar em consideração as mutações compartilhadas entre ERVs ortólogos, que também se enquadram em hierarquias aninhadas muito semelhantes. Como a mutação e a localização do ERV são fatores independentes, isso é melhor explicado pela hipótese de descendência. Além disso, os graus comparativos de divergência entre as sequências de repetição terminal longa em ambas as extremidades da sequência retroviral (que servem como promotores retrovirais) entre ERVs ortólogos também são implicativos do modelo de descendência comum.
As sequências de repetição terminal longa (LTR), em ambas as extremidades da sequência retroviral, devem ser idênticas após a inserção. Como as LTRs são idênticas após a transcrição reversa e a integração, uma maior divergência mutacional (assumindo que a ancestralidade comum seja verdadeira) deve estar correlacionada com uma inserção mais antiga. É precisamente isso que observamos. Assim, esta evidência de três níveis é bastante surpreendente na hipótese da criação separada, mas não é nada surpreendente dada a verdade do cenário de descendência comum.
Os criacionistas tendem a responder a essas evidências de duas maneiras. A primeira é apontar para funções que foram identificadas para essas sequências semelhantes a retrovírus no contexto do genoma humano, o que muitos criacionistas interpretam como uma sugestão de que essas sequências não são de origem retroviral, mas sim endêmicas ao genoma humano. Por exemplo, as sequências LTR de ERVs no genoma humano “demonstraram contribuir com sequências promotoras que podem iniciar a transcrição de genes humanos adjacentes”.
Outro exemplo são as proteínas sincitinas fusogênicas que fundem as células placentárias para formar o sinciciotrofoblasto e que são conhecidas por serem essenciais para a formação da placenta. Essas proteínas são codificadas pelo gene do envelope ( env ) de um inserto retroviral endógeno. No entanto, essas funções parecem ter sido adquiridas após a integração, uma vez que as evidências indicam fortemente que esses são, de fato, insertos genuínos no genoma. A evidência para isso está relacionada à enzima integrase, responsável pela integração do DNA viral (após sua retrotranscrição a partir do RNA) no cromossomo hospedeiro. A integrase rompe duas ligações fosfodiéster, uma em cada fita do DNA hospedeiro. A integrase não rompe simplesmente as ligações entre dois pares de bases. Em vez disso, ela separa as quebras por vários pares de bases, resultando em um corte irregular.
Quando nucleotídeos são adicionados para preencher as lacunas criadas pela integrase, o resultado é uma duplicação do sítio alvo, que é a característica principal da inserção mediada pela integrase. Assim, embora existam muitos exemplos de funções que podem ser identificadas para sequências de ERV no contexto do genoma humano, isso tem pouco valor para responder a esse argumento de ancestralidade comum, uma vez que essas funções parecem ter sido adquiridas após a integração dessas sequências semelhantes a retrovírus no genoma humano.
A segunda tentativa criacionista de lidar com essa evidência é apontar para preferências de sítios-alvo. No entanto, embora existam vieses estatísticos para a integração (por exemplo, regiões do cromossomo ricas em genes expressos e próximas a sítios de início da transcrição), esses vieses não são suficientemente específicos para produzir uma diferença estatística significativa. Na verdade, esses vieses exigem milhares de tentativas apenas para serem detectados. A integração de retrovírus em um genoma hospedeiro, portanto, parece ser bastante aleatória.
Recapitulando, vimos que, embora as evidências indiquem que uma transição de um ancestral semelhante a um chimpanzé para humanos provavelmente não tenha ocorrido por um processo evolutivo não guiado, existem, no entanto, evidências genômicas que confirmam a ancestralidade comum dos primatas e que não podem ser ignoradas. Não creio que os evolucionistas tenham respondido adequadamente às primeiras evidências, e não creio que os criacionistas tenham respondido adequadamente às últimas.
Como dar sentido a esses conjuntos de evidências aparentemente conflitantes? O modelo que proponho é o de que Deus trouxe novas formas de vida à existência por meio de uma ação divina milagrosa, usando o genoma de uma espécie preexistente como modelo. Essa sugestão explicaria a presença de vestígios evolutivos no genoma humano e, ao mesmo tempo, justificaria os dados que demonstram a forte improbabilidade de uma transição evolutiva ter ocorrido por processos naturais não guiados. Um Adão e Eva literais, de cunho histórico, certamente é compatível com o cenário que propus.
Alguns podem temer que esta solução seja ad hoc . No entanto, dada a esmagadora evidência científica de que a vida é resultado de um projeto e que processos não guiados são comprovadamente inadequados para explicar as características complexas da biologia, acredito ser legítimo explorar explicações alternativas para dados que, à primeira vista, parecem apontar para uma ancestralidade comum. Se não há uma maneira natural de explicar a transição de A para B, como podemos ter tanta certeza de que essa transição de fato ocorreu? Além disso, não acredito que o registro fóssil sustente uma transição suave e gradual dos australopitecos para o nosso gênero Homo.
De fato, um artigo afirmou: "Nós, como muitos outros, interpretamos as evidências anatômicas para mostrar que o Homo sapiens primitivo era significativamente e drasticamente diferente dos australopitecos em praticamente todos os elementos de seu esqueleto e em todos os vestígios de seu comportamento." O famoso biólogo evolucionista Ernst Mayr, falecido recentemente, afirmou igualmente que “Os fósseis mais antigos de Homo , Homo rudolfensis e Homo erectus , estão separados do Australopithecus por uma grande lacuna não preenchida. Como podemos explicar este aparente salto? Não tendo quaisquer fósseis que possam servir como elos perdidos, temos de recorrer ao método consagrado da ciência histórica, a construção de uma narrativa histórica.”
Adão e Eva estavam sozinhos?
Outra questão de interesse é se Adão e Eva eram, na época de sua criação, os únicos humanos na Terra e, portanto, nossos únicos progenitores, ou se havia outros humanos na Terra também. Às vezes, alega-se que as evidências da genética populacional impedem que sejamos descendentes de um único casal primordial.] Com base no nível de diversidade genética existente na população humana, argumenta-se que a população humana nunca caiu abaixo de alguns milhares de indivíduos. De acordo com esse argumento, a diversidade genética humana é grande demais para ser explicada por um único casal fundador. No entanto, deve-se reconhecer que esse argumento pressupõe um modelo evolucionista das origens humanas.
Pode-se rejeitar isso e propor, em vez disso, que o primeiro casal fundador foi criado com diversidade inicial. Ambos os indivíduos carregariam 22 pares de cromossomos autossômicos (ou seja, cromossomos não sexuais), além de um par de cromossomos X (para a mulher) ou um cromossomo X e um cromossomo Y (para o homem). Se cada uma das quatro cópias dos cromossomos autossômicos (Adão e Eva possuíam duas cópias cada) fosse única, isso resultaria em um grande número de polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) — ou seja, diferenças de nucleotídeos que resultam em variantes genéticas — que estariam presentes na primeira geração. Também poderia ter havido diversidade criada associada aos três cromossomos X (dois possuídos pela mulher e um pelo homem). Como um casal fundador inicial teria apenas um cromossomo Y entre eles, a diversidade criada não pode ser invocada para o cromossomo Y. No entanto, a diversidade do cromossomo Y parece ser muito menor do que a de outros cromossomos.
A bióloga Ann Gauger e o matemático Ola Hossjer apresentaram recentemente um modelo teórico que revela a possibilidade de um casal fundador inicial. Resumindo sua pesquisa, Gauger e Hossjer afirmam: “Mostramos que uma origem da humanidade a partir de um único casal, tão recente quanto 500 mil anos atrás, é consistente com os dados. Com apenas pequenas modificações nas premissas do nosso modelo parcimonioso, sugerimos que uma origem a partir de um único casal há 100 mil anos, ou mais recentemente, seja possível.”
Contudo, se um único casal primordial fosse excluído com base na genética populacional, esse fato falsificaria a historicidade do relato do Gênesis? Não necessariamente. De fato, há evidências nas Escrituras que sugerem, pelo menos, que pode ter havido outras pessoas na Terra além de Adão e Eva. Por exemplo, quando Deus pronuncia o julgamento sobre Caim após o assassinato de seu irmão Abel, Caim expressa a Deus a preocupação de que “quem me encontrar me matará” (Gênesis 4:14). Isso implica que havia outras pessoas caminhando sobre a Terra naquela época, embora Caim fosse apenas a segunda geração depois de Adão.
Embora Caim tivesse outros irmãos, como Sete, é notável que a preocupação expressa por Caim não seja “se um dos meus irmãos me encontrar, me matará”. Em vez disso, é “ quem me encontrar me matará”. Embora esse texto não seja inconsistente com o sujeito sendo os irmãos de Caim, sugere ligeiramente que se refere a alguém fora de sua família imediata. Outro texto que sugere a presença de outros indivíduos vivos na época é a alusão a Caim construindo uma cidade (Gênesis 4:17), embora isso provavelmente seja um uso anacrônico da linguagem, referindo-se a algum tipo de assentamento. Quem Caim esperava que habitasse tal assentamento, se de fato não havia nenhum outro ser humano vivo fora de sua família imediata naquele tempo? Se houvesse outros humanos vivos na época, isso também responderia naturalmente à antiga questão de como Caim conheceu sua esposa (Gênesis 4:17).
Embora os criacionistas da Terra jovem geralmente respondam a essa pergunta afirmando que Caim se casou com sua irmã (o que, argumentam, teria sido seguro dada a pureza genética da raça humana primitiva), isso não é declarado em nenhum lugar do texto. Em vez disso, é dito casualmente que "Caim conheceu sua mulher" (Gênesis 4:17). No entanto, também é importante notar que a visão criacionista tradicional de que Caim se casou com sua irmã é cientificamente possível e a depressão por endogamia não precisa ser um problema se assumirmos que o primeiro casal humano possuía apenas variantes neutras (ou seja, aquelas que não são prejudiciais à sua aptidão).
Embora essas pistas textuais sejam certamente sugestivas, não são decisivas o suficiente para chegar a uma conclusão definitiva, e há textos que também parecem mais consistentes com a ideia de que Adão e Eva estavam sozinhos. Por exemplo, lemos: “ E chamou o homem à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20). Este é provavelmente o texto mais difícil de harmonizar com a noção de que havia outros humanos vivos na época que não descendiam de Adão e Eva. No entanto, é possível interpretar isso como uma maternidade figurativa, e não literal — de fato, o termo “pai” é usado em sentido figurado em Gênesis 4:20-21.
Além disso, se Adão e Eva forem entendidos como o “rei” e a “rainha” de seu povo, então eles podem ser legitimamente descritos como o pai e a mãe de seu povo, mesmo que não em um sentido biológico. Assim, Gênesis 3:20 não invalida a proposta de que Adão e Eva não estavam sozinhos. Outro texto significativo sobre essa questão é Atos 17:26, que diz: “De um só homem ele fez todas as nações, para habitarem sobre toda a face da terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos onde deveriam habitar”. Dependendo da interpretação do dilúvio, porém, isso pode se referir a Noé. Minha opinião é que esse texto provavelmente se refere a Adão.
Alguns argumentam que Gênesis 2 representa uma sequência de Gênesis 1, em vez de uma elaboração sobre o sexto dia. Essa visão permitiria considerar a criação dos humanos em Gênesis 1:26-27 como um evento separado da criação de Adão e Eva em Gênesis 2. John Walton, por exemplo, argumenta em apoio a essa ideia que a fórmula introdutória "Estas são as gerações" (Gênesis 2:4) é um recurso literário que indica que o relato seguinte é uma sequência do anterior.
Ele argumenta: “A fórmula introduz uma narrativa dos filhos dessa pessoa ou uma genealogia dos descendentes dessa pessoa. Em outras palavras, ela fala sobre o que aconteceu depois dessa pessoa (embora às vezes se sobreponha à vida da pessoa) e o que se desenvolveu a partir dela. Em Gênesis 2:4, não se trata do nome de uma pessoa. Usando a mesma lógica, concluiríamos que a seção que está sendo introduzida vai falar sobre o que aconteceu depois da criação dos céus e da terra relatada no relato dos sete dias e o que se desenvolveu a partir disso. Em outras palavras, a natureza da introdução nos leva a pensar em Gênesis 2 como uma sequência.”
Penso que a interpretação de John Walton de Gênesis 2 como uma sequência de Gênesis 1 é improvável. Para começar, mesmo John Walton tem de admitir que, das dez fórmulas introdutórias deste tipo que ocorrem em Gênesis, algumas (Gn 11:10; 25:19; 37:2) não são sequências, mas sim recursivas, e um caso adicional contém tanto um paralelo com um relato anterior quanto uma sequência (Gn 5:1). [39] O argumento de Walton aqui é, portanto, bastante fraco. Além disso, Gênesis 2:1-3 indica que Deus descansou no sétimo dia, o que sugere que ele não criou mais nada depois disso. A criação do homem em Gênesis 2 é, portanto, melhor compreendida, na minha opinião, como uma elaboração do sexto dia da criação.
Pessoalmente, acredito que o conjunto de evidências textuais tende a apoiar a visão tradicional de que todos os seres humanos descendem de um único casal primordial — Adão e Eva. Contudo, é preciso reconhecer que, embora demonstrar a impossibilidade da humanidade ter descendido de um único casal primordial constitua evidência contra Adão e Eva, não a refutaria de forma decisiva. No momento, não creio que as evidências científicas (sejam elas paleontológicas ou genéticas) descartem completamente a existência de um casal fundador inicial, e, portanto, defendo a visão tradicional.
Se houvesse mais pessoas vivas na época que não fossem descendentes de Adão e Eva, quais seriam as ramificações teológicas disso? Concordo com C. John Collins que “Se alguém decidisse que, de fato, havia mais seres humanos além de Adão e Eva no início da humanidade, então, para manter o bom senso, deveria imaginar esses humanos como uma única tribo. Adão seria então o chefe dessa tribo (de preferência gerado antes dos outros), e Eva seria sua esposa. Essa tribo 'caiu' sob a liderança de Adão e Eva. Isso decorre da noção de solidariedade em um representante.
Alguns podem chamar isso de uma forma de 'poligênese', mas isso é bem diferente do tipo mais convencional e inaceitável.” Podemos chamar isso de visão do 'representante tribal'. Penso que essa visão permite manter uma concepção robusta do pecado original. Nessa perspectiva, Adão e Eva, como os primeiros sacerdotes e sacerdotisas da humanidade, seriam os representantes de seus semelhantes, tanto presentes quanto futuros. Eu argumentaria que é teologicamente aceitável sugerir que Adão e Eva estavam entre os primeiros seres humanos criados, mas não é aceitável sugerir que Adão e Eva foram precedidos no tempo por outros humanos que viveram antes deles.
E quanto às outras espécies de hominídeos?
Uma pergunta frequente que recebo é sobre outras espécies de hominídeos, como os neandertais ou os denisovanos, e qual seria a sua relação com os humanos modernos. O espaço não me permite oferecer uma discussão detalhada sobre o assunto. No entanto, seria negligente da minha parte não incluir pelo menos uma breve discussão. A visão mais óbvia seria definir os humanos bíblicos como equivalentes à classificação taxonômica do nosso gênero Homo , com Adão e Eva sendo os primeiros membros do nosso gênero. Contudo, esse cenário é problemático porque o membro mais antigo do nosso gênero Homo data de cerca de dois milhões de anos atrás.
Além disso, deixa um período muito significativo sem qualquer evidência de cultura no registro paleontológico. Não creio ser necessário equiparar os humanos no sentido bíblico ao gênero Homo. De fato, interpretar as Escrituras à luz da classificação taxonômica moderna é anacrônico, da mesma forma que é anacrônico criticar os autores bíblicos por identificarem morcegos como aves em vez de mamíferos (Levítico 11:19). Existem outros organismos vivos hoje (por exemplo, o chimpanzé) que exibem características anatômicas semelhantes às dos humanos modernos, e isso não nos causa nenhuma preocupação.
Dito isso, tendo a acreditar que pelo menos algumas outras espécies de hominídeos descendem de Adão e, portanto, são, na verdade, um subconjunto da nossa espécie. Geralmente se pensa que houve algum cruzamento entre o Homo sapiens e os neandertais e denisovanos, uma vez que fragmentos de DNA neandertal e denisovano foram identificados em humanos modernos. Acredita-se que essa mistura tenha ocorrido há pelo menos 50.000 anos e talvez até mais tarde. Dado que o modelo evolutivo prevê que o Homo sapiens divergiu desses hominídeos arcaicos há mais de 500.000 anos, seria bastante surpreendente se essas duas populações, tendo se separado há tanto tempo, ainda fossem capazes de se cruzar para produzir descendentes férteis. Assim, tendo a pensar que os neandertais e os denisovanos são descendentes de Adão e Eva. Isso se encaixa bem com evidências independentes de arte e cultura humanas arcaicas.
Resumo
Em resumo, vimos que as Escrituras afirmam que Adão e Eva foram indivíduos históricos reais. Embora uma interpretação literal de Gênesis, especialmente o capítulo 5, leve a crer que Adão e Eva viveram recentemente (talvez há apenas seis mil anos), isso é contradito por evidências científicas convincentes que situam a humanidade em um passado muito mais remoto. Das explicações disponíveis para essa aparente discrepância, a abordagem epistemologicamente menos custosa é postular a existência de milhares de lacunas nas genealogias de Gênesis. A existência literal de Adão e Eva, argumentei, é incompatível com a teoria da evolução, embora isso não precise ser motivo de preocupação, visto que as evidências científicas para a teoria da evolução são, a meu ver, pouco convincentes (e há muitas razões convincentes para questionar sua validade por completo).
O conjunto das evidências bíblicas sugere que Adão e Eva estavam sozinhos na Terra como o primeiro casal humano, embora seja possível interpretar as Escrituras considerando a existência de uma população humana, da qual Adão e Eva eram representantes tribais. Finalmente, vimos que não há necessidade de definir os humanos bíblicos como coo extensivos ao gênero Homo, visto que isso é anacrônico. No entanto, há razões científicas para acreditar que alguns humanos arcaicos, notadamente os neandertais e os denisovanos, de fato pertencem à nossa espécie, sendo descendentes de Adão e Eva.
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