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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Satanás e os Anjos

 


SATAN

Satanás é uma figura religiosa presente no judaísmo, cristianismo e islamismo, e semelhante a figuras encontradas no hinduísmo, budismo e outras religiões. Ele é geralmente retratado como um adversário maligno de Deus. Embora a palavra Satanás derive do termo hebraico para "acusador", Satanás não ocupa o mesmo lugar de destaque no judaísmo que no cristianismo.

Frequentemente retratado com pequenos chifres, cascos fendidos e um cavanhaque, Satanás é conhecido por diversos nomes, incluindo o Diabo, o Príncipe das Trevas, Diablo, o Pai da Mentira, Lúcifer (que significa "portador da luz"), Mefistófeles, Belzebu, Belial, Mastema e o Senhor da Mentira. Na Bíblia, ele é referido como o Maligno e o Príncipe do Mundo. Os muçulmanos o conhecem como Iblis ou Shaytan. Entre os vários espíritos que foram invocados por suas ordens estão demônios, deuses, ídolos, semideuses, anjos, duendes, fantasmas, goblins, diabinhos, fadas, faunos, gênios, ninfas e poltergeists.

Satanás é geralmente caracterizado como poderoso, mas nem de longe tão poderoso quanto Deus, o que levanta a questão: "Por que Deus simplesmente não o destrói?" e "Por que ele foi criado, afinal?". A resposta para isso, segundo alguns estudiosos, é mais uma questão literária do que teológica: ele é um recurso literário conveniente para personificar o mal.

Em uma pesquisa Gallup de 2007, cerca de 70% dos americanos disseram acreditar no Diabo. Uma pesquisa separada da YouGov, de 2013, constatou que mais protestantes do que católicos temem o Diabo. De acordo com uma pesquisa, 60% dos protestantes evangélicos americanos afirmam ter sido tentados pelo Diabo, enquanto apenas 26% dos católicos americanos disseram ter sido tentados. Mesmo assim, o Papa Francisco, de tendência progressista, falou sobre o Diabo e há rumores de que realizou um exorcismo público em maio de 2013.

História Antiga do Diabo

O conceito do diabo parece ter se originado com o Zoroastrismo, que teve origem na Pérsia. Os judeus estiveram sob domínio persa por dois séculos, a partir de 539 a.C. Sem dúvida, eles tiveram contato com o diabo zoroastriano Ahriman.

Os zoroastrianos consideram a existência do mal necessária e acreditam que os homens alcançam a bondade lutando contra ele. Eles também veem a vida como uma luta entre Ahura Mazda e o demônio Ahriman (Príncipe do Caos e das Trevas) e acreditam que o homem tem livre arbítrio para escolher entre Deus e o demônio, e que Ahura Mazda concedeu ao homem inteligência para travar essa luta, proporcionando-lhe a compreensão de que a vida boa às vezes é difícil, mas as consequências do mal são piores. O poder de Ahriman é quase igual ao de Ahura Mazda.

A batalha entre o bem e o mal também se expressa no conflito entre o espírito benevolente Spenta Mainyu e o espírito maligno Angra Mainyu, ambos descendentes de Ahura Mazda. Suas batalhas são, por vezes, vistas como metáforas da escolha entre a verdade e a mentira. Os seres humanos podem inclinar a balança a favor do bem praticando “bons pensamentos, boas palavras e boas ações”. A história do mundo é vista em termos de conflitos entre o bem e o mal que ocorrem ao longo de quatro períodos de 3000 anos. Nos dois primeiros, Deus e o diabo preparam suas forças. No terceiro, eles lutam entre si. No quarto, o diabo é derrotado.

Por volta de 200 a.C., Satanás começou a emergir como uma figura importante por direito próprio em algumas seitas judaicas. Foi durante esse período que ele se tornou o principal oponente de Deus e foi identificado com a serpente que tentou Eva e com o "Filho da manhã" ("Lúcifer") descrito pelo profeta Isaías. Os primeiros judeus acreditavam que, quando o Messias chegasse, ele derrotaria Satanás e inauguraria uma nova era para Deus e seus fiéis seguidores.

Candida Moss escreveu: "Um dos relatos mais influentes sobre a origem dos demônios vem de uma seção do livro apócrifo de 1 Enoque, conhecido como o Livro dos Vigilantes. O Dr. Archie Wright, autor de A Origem dos Espíritos Malignos e Satanás e o Problema do Mal, e professor visitante da Universidade Católica da América, me disse que 1 Enoque se baseia na história bíblica do dilúvio, que se refere a anjos que têm relações sexuais com seres humanos. “Em 1 Enoque, esses anjos caídos, ou Anjos Vigilantes Caídos, se rebelaram contra Deus e sua criação e geraram sua própria prole com mulheres humanas, que são chamadas de Gigantes.” O problema com os Gigantes é que eles comiam muito e, tendo esgotado suas fontes de proteína menos ofensivas, eventualmente voltaram seus olhos e apetites para os seres humanos. Como resultado, disse Wright, “Deus enviou o Dilúvio para destruir os Gigantes, mas eles foram destruídos apenas fisicamente; seus espíritos sobreviveram e são identificados como espíritos malignos ou demônios.”

Os Anjos Caídos, pais dos Gigantes agora desencarnados, foram aprisionados por Deus em um Poço ou Abismo (uma espécie de versão em pequena escala do inferno). Eles só serão libertados no fim dos tempos. Quanto aos demônios, eles continuaram a vagar pela Terra, atormentando os seres humanos sob uma nova forma. De acordo com o Livro dos Jubileus do século II a.C., disse Wright, 90% dos espíritos malignos foram aprisionados com seus pais, enquanto 10% estavam livres para trabalhar com uma figura misteriosa chamada Mastema, um indivíduo posteriormente identificado com o diabo. Este Mastema, no entanto, age de maneira muito semelhante ao Satanás de Jó: ele testa a humanidade com a ajuda de espíritos malignos, mas ele “não é um ser autônomo”.

Satanás na Bíblia

Há poucas menções ao diabo nos primeiros livros do Antigo Testamento. A serpente no Jardim do Éden foi posteriormente identificada com o diabo, mas, conforme descrito em Gênesis, ele é apenas uma serpente. Quando aparece nos livros posteriores, assume nomes diferentes. Ele surge também em Números, mas como um personagem secundário na corte celestial. Satanás aparece pela primeira vez como um personagem real no Livro de Jó, onde é um membro dos anjos de Deus que percorriam o mundo testando a fé do povo escolhido. Aqui, ele é uma figura jurídica e um adversário que desafia Deus para uma aposta sobre a retidão de Jó. Satanás não é mau, ele é apenas um advogado. Em Samuel, o diabo "incitou Davi". Na maior parte do tempo, ele é uma figura menor.

No Novo Testamento, Satanás é mencionado diversas vezes, mas os detalhes sobre sua personalidade e história são vagos. Nos Evangelhos, Satanás é retratado como um adversário de Jesus, que foi tentado pelo diabo em várias ocasiões. O diabo testou Jesus de três maneiras durante seu jejum de 40 dias e 40 noites. Primeiro, pediu a um Jesus faminto que usasse seus poderes para fazer pão a partir de pedras. Segundo, disse-lhe para ganhar fama atirando-se do telhado do Templo e invocando anjos para salvá-lo. Terceiro, levou Jesus a um lugar alto e prometeu-lhe todas as coisas.

No terceiro teste, uma passagem do capítulo 4 do Evangelho de Mateus explica: “O diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor, e disse-lhe: ‘Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares’”. Jesus recusou, dizendo: “Afasta-te, Satanás! Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele servirás’”. O Monte da Tentação (perto de Jericó) é o local tradicional onde se diz que este evento ocorreu.

Candida Moss escreveu: "No Antigo Testamento, os leitores de Gênesis não encontrarão nem maçãs nem Satanás no Jardim do Éden. A serpente falastrona só foi identificada como o Diabo séculos depois. Os demônios são figuras mais frequentes no Novo Testamento. Enquanto os antigos gregos e romanos consideravam os demônios entidades sobrenaturais ambíguas, aqueles que aparecem nos Evangelhos são antagônicos. Eles possuem os corpos de infelizes habitantes do Mediterrâneo antigo, se opõem a Jesus e seus seguidores, atiram um rebanho de costeletas de porco de um penhasco e se preparam para um confronto no fim do mundo.

Satanás nos primórdios do cristianismo

Nossa definição de Satanás foi elaborada nos primórdios da Igreja Cristã, muito tempo depois da morte de Jesus e da escrita dos Evangelhos, por pensadores e teólogos cristãos primitivos. Após quatro séculos de debate, eles definiram Satanás como um antigo anjo — alguns diziam o primeiro anjo e líder de todos os anjos — que liderou uma rebelião no céu e foi lançado ao inferno.

Segundo alguns relatos, Satanás liderou a rebelião por inveja ou orgulho, e ela ocorreu antes da criação de Adão, sendo Satanás considerado o responsável por levar a humanidade ao pecado. No Apocalipse e em outras passagens do Novo Testamento, ele é retratado como alguém que exerce domínio sobre a humanidade até o Fim do Mundo, quando será derrotado por Cristo em sua segunda vinda e ele e outros pecadores serão condenados ao sofrimento eterno.

Muitos dos monges do início da era cristã que foram para o deserto viver em solidão estavam emulando o confronto de Cristo com o diabo durante a Tentação. Aqueles que relataram seus encontros com Satanás frequentemente o descreviam como um leão, uma serpente, um lobo ou algum outro animal desprezado pela humanidade.

Satanás na Idade Média e no Renascimento

Nossa imagem de Satanás foi moldada principalmente pela literatura e arte da Idade Média e do Renascimento. A primeira representação conhecida do Diabo como uma criatura distinta apareceu em um manuscrito do século IX chamado "Saltério de Utrecht". Ele é retratado como um homem seminú segurando um forcado.

No século X, Satanás era uma figura notória na Europa medieval. Ele era retratado em manuscritos, tapeçarias e pinturas; esculpido nas fachadas das igrejas e descrito vividamente em livros e textos religiosos. Aparecia em diversas formas, frequentemente com pernas peludas e cascos fendidos, derivados do deus grego Pã, um tridente anteriormente associado ao deus romano Netuno e uma cabeça de animal como a do deus egípcio Anúbis.

Cristãos temerosos acreditavam que Satanás espreitava em todos os lugares e era a fonte de inúmeras doenças e dificuldades. Acreditavam que ele esperava que as pessoas baixassem a guarda para então atacá-las. Uma das razões pelas quais as pessoas ainda hoje dizem "Saúde!" depois que alguém espirra é que, na Idade Média, acreditava-se que o diabo esperava fora do corpo das pessoas e usava os espirros como uma oportunidade para entrar.

Satanás geralmente recebe um destaque maior no protestantismo calvinista do que no catolicismo. Os protestantes tendem a atribuir a Satanás características como orgulho, luxúria e inveja. "Paraíso Perdido", de Milton, ajudou a moldar a imagem do diabo na mente dos falantes de inglês. Ele não é apenas maligno, mas também charmoso, astuto, autoconfiante, orgulhoso e independente. Em quase qualquer outro contexto, ele seria um herói.

Uma história medieval popular narra a suposta experiência de Teófilo da Cilícia, uma figura eclesiástica do século VI que fez um pacto com o diabo para trocar sua alma por uma posição poderosa e lucrativa na Igreja. Quando o diabo apareceu e exigiu o pagamento, a Virgem Maria interveio em favor de Teófilo, descendo ao inferno e o resgatando do diabo, garantindo diante de Deus que ele havia se arrependido. A história ajudou a elevar o status de Maria e serviu de inspiração para "Doutor Fausto", de Marlowe, e "Fausto", de Goethe, cujo diabo espirituoso e falastrão, Mefistófeles, também moldou nosso conceito moderno de Satanás.

Gravidezes satânicas

Sobre a questão do que exatamente é uma gravidez satânica, Candida Moss escreveu: "Para os apreciadores de filmes de terror, essa pergunta é bem fácil de responder. É um elemento básico do gênero; de Damian, de A Profecia, a O Bebê de Rosemary, a ideia de que Satanás pode procriar com mulheres humanas por meio de relações sexuais está bem estabelecida. Isso não é apenas coisa de filme. A Igreja Católica Romana ensina em seu curso anual de exorcismo em Roma que as pessoas podem ser possuídas no útero e que a possessão transgeracional é um fenômeno real. Teoricamente, é possível, portanto, que uma criança seja possuída por um demônio, mesmo que o ensinamento católico recomende um exorcismo em vez da interrupção da gravidez.

Historicamente, houve vários casos em que pessoas — seja a própria mãe ou pessoas próximas a ela — atribuíram uma gravidez específica à natureza satânica. Um dos exemplos mais famosos ocorreu na França do século XVII, quando um padre atraente e carismático chamado Urbain Grandier tornou-se pároco na cidade de Loudun. Segundo relatos, Grandier era um conquistador que frequentemente desrespeitava seus votos de celibato. Uma freira, a Madre Superiora Jeanne des Anges (“Joana dos Anjos”), afirmou ter sido seduzida por Grandier, que na verdade era um demônio. A sedução teria sido possível porque ele fingia ser um anjo e aparecia para ela como um ser radiante. Jeanne alegou que Grandier, o Anjo-Padre-Demônio, a havia engravidado, e suas acusações logo foram corroboradas por alegações semelhantes de conduta sexual imprópria por outras freiras ursulinas.

Um pacto supostamente assinado entre Grandier e o diabo foi apresentado como prova no julgamento. Era uma verdadeira lista de figuras importantes do mundo demoníaco: além de Grandier, outros signatários incluíam Satanás, Leviatã (uma criatura marinha primordial mencionada na Bíblia) e Astarote (o chamado Grande Duque do Inferno, que ensina matemática aos seus acólitos). Após uma longa investigação conduzida principalmente por meio de tortura, o Padre Grandier foi queimado na fogueira. Quanto à gravidez de Jeanne, após um longo período de convulsões, línguas estranhas e angústia, ela simplesmente desapareceu. Analistas posteriores diagnosticaram sua condição como uma gravidez psicossomática e muitos especularam que ela era simplesmente obcecada por Grandier desde o início. Tudo isso demonstra que existe, sim, algo como beleza em excesso.

Um segundo exemplo nos vem do século XVIII em Nova Jersey. Em 1735, a inglesa Deborah Leeds engravidou de seu décimo terceiro filho. Ela havia emigrado para Pine Barrens, Nova Jersey, no início do século, para viver com seu marido, Japhet. Existem vários relatos ligeiramente conflitantes sobre a origem demoníaca da criança. Em alguns, a Sra. Leeds invocou o diabo ao dar à luz; em outros, ela previu e até mesmo convidou a paternidade demoníaca por estar infeliz com a perspectiva de ter outro filho; e em outro, a criança foi amaldiçoada por um pastor local. 

De qualquer forma, a versão mais popular do nascimento afirma que a criança nasceu um "monstro" e que a Sra. Leeds cuidou dela até sua morte, momento em que a criança voou para os pântanos de Nova Jersey. Nos 200 anos seguintes, o filho de Deborah Leeds se tornou uma figura icônica: o Diabo de Nova Jersey. Houve inúmeros avistamentos do "Diabo de Jersey" em áreas florestais e, em 1890, um pescador afirmou ter visto a cria do diabo cantando para uma sereia (essas criaturas míticas realmente precisam se manter unidas). 

Parece provável que o "Diabo de Jersey" original fosse simplesmente uma criança com deficiência cuja condição foi injustamente interpretada pelos moradores locais como "demoníaca". Se essa análise estiver correta e "criança do diabo" for apenas uma expressão para "nascimento atípico", é preciso questionar se "voou para os pântanos" não seria um eufemismo para "assassinado por familiares ou moradores locais". De qualquer forma, essa criança foi imortalizada na lenda local e como o mascote de aparência amigável do time de hóquei no gelo New Jersey Devils, da NHL.

Crianças Satânicas

Candida Moss escreveu: "Algumas histórias medievais articulam a ideia de que, nas mãos erradas, uma criança pode se tornar demoníaca imediatamente após o nascimento. O texto de 1487, Malleus Maleficarum (ou “Martelo das Bruxas”), do acadêmico, padre e caçador de bruxas alsaciano Heinrich Kramer, conta uma história em que um marido espionou sua esposa e filha dedicando seu filho recém-nascido a Satanás. Imediatamente após o ritual, ele observou o bebê subindo por uma corrente usada para segurar panelas e soube que algo estava errado. Segundo Kramer, as bruxas não apenas sacrificavam bebês, como também os transformavam em atletas prodigiosos.

Não são apenas as mulheres que podem se envolver com prole demoníaca. Tanto o folclore judaico quanto o cristão medieval contêm histórias de súcubos, belas mulheres que seduziam homens à noite. Em alguns casos, os súcubos usavam o sêmen roubado de homens para engravidar mulheres. Seus descendentes, conhecidos como cambions, supostamente nasciam deformados. A vítima mais famosa de um suposto súcubo foi o Papa Silvestre II (946-1003). 

Segundo uma lenda um tanto difamatória do século XII, esse sacerdote francês teve um relacionamento de longa data com uma súcubo chamada Meridiana, que conheceu após aprender artes ocultas em um livro árabe que encontrou na Espanha. Em algumas versões da história, os dois eram apaixonados e, além de ajudá-lo a se tornar papa, Meridiana tentava protegê-lo de danos físicos. A única biografia contemporânea do Papa Silvestre II associa suas conquistas a poderes divinos, mas mesmo assim Meridiana e Silvestre II têm muitos seguidores online.

Bebês satânicos não são apenas coisa do passado. Uma série de eventos horríveis revela como ideias sobre o demoníaco continuam a influenciar o mundo. Em setembro de 2017, uma mulher de Pittsburgh esfaqueou seu filho de 8 dias até a morte porque ele foi criado “pelo diabo”. Uma mulher de Tampa afogou seu bebê de 5 semanas alegando que sabia que ele era o diabo depois que ele começou a falar com ela. Esses exemplos mais recentes chamam a atenção para os trágicos mal-entendidos e preconceitos que estão na base do fenômeno da prole demoníaca. 

A realidade histórica é que, na maioria desses casos, ou a mãe sofre de doença mental ou o assassinato de uma pessoa com deficiência é justificado sob o pretexto de que a criança é “demoníaca”. Em alguns casos, como o incêndio do Grandier, animosidade pessoal e ciúme podem levar a acusações infundadas.

Em sua defesa da recente declaração, White respondeu que seu comentário havia sido “tirado de contexto” e explicou que estava “orando com base em Efésios 6:12, para que nossa luta não seja contra carne e sangue, mas contra tudo o que foi concebido por planos demoníacos, para que seja anulado e não prevaleça em nossas vidas”. Ela afirma que estava falando figurativamente e não queria dizer que bebês são literalmente concebidos pelo diabo, como no caso do Bebê de Rosemary. (Curiosidade: Efésios 6:12 não menciona planos demoníacos). 

Mas White quis dizer que todos nós estamos envolvidos em uma batalha espiritual literal contra agentes de Satanás. O lugar onde essa luta se desenrola na América do século XXI é na arena política. E assim como a lógica dos “bebês satânicos” justifica a rejeição de crianças que não têm a aparência que “deveriam” ter, a lógica de uma guerra cósmica entre o bem e o mal justifica a rejeição daqueles que não têm a aparência ou não acreditam nas coisas que alguns cristãos acham que deveriam. As declarações de White podem ser menos excêntricas do que se anuncia, mas não são menos assustadoras.

Contos do Diabo

“O Diabo Confessou Ter Possuído Uma Mulher Porque Ela Lhe Foi Entregue pelo Marido”, por César de Heisterbacb, século XIII: Quando nosso abade celebrava missa no ano passado no Monte do Santíssimo Salvador, perto de Aachen, uma mulher possuída foi trazida a ele após a missa. Quando ele leu a passagem do Evangelho sobre a Ascensão sobre a cabeça dela e, ao ouvir as palavras “Imporão as mãos sobre os enfermos e estes ficarão curados”, colocou a mão sobre a cabeça dela, o demônio soltou um rugido tão terrível que todos ficamos aterrorizados. 

Conjurado a partir, ele respondeu: “O Altíssimo ainda não o quer”. Quando lhe perguntaram como havia entrado, ele não respondeu, nem permitiu que a mulher respondesse. Depois, ela confessou que, quando seu marido, enfurecido, disse: “Vai para o diabo!”, ela sentiu este entrar por sua orelha. Além disso, aquela mulher era da província de Aachen e muito conhecida. 

Em “Sobre Gerard, um Cavaleiro que o Diabo Levou num Momento da Igreja de São Tomé na Índia para Sua Pátria”, César de Heisterbach escreveu: “Numa aldeia chamada Holenbach vivia um certo cavaleiro chamado Gerard. Seus netos ainda vivem, e dificilmente se encontra um homem naquela aldeia que não conheça o milagre que tenho o prazer de contar sobre ele. Ele amava São Tomé Apóstolo tão ardentemente e o honrava tão especialmente acima dos outros santos que nunca negou esmola a nenhum pobre que lhe pedisse em nome daquele. Além disso, costumava oferecer ao santo muitos serviços particulares, como orações, jejuns e a celebração de missas. 

Certo dia, com a permissão de Deus, o diabo, inimigo de todos os homens bons, batendo à porta do cavaleiro, disfarçado de peregrino, pediu hospitalidade em nome de São Tomé. Foi recebido com toda a pressa e, como fazia frio e ele fingiu estar resfriado, Gerard lhe deu sua própria capa de pele, que não estava muito gasta, para que se cobrisse ao deitar. Quando, na manhã seguinte, aquele que fingira ser um peregrino não apareceu, e a capa foi procurada e não encontrada, sua esposa, furiosa, disse ao cavaleiro: "Você já foi enganado tantas vezes por andarilhos desse tipo e ainda assim persiste em suas superstições!" Mas ele respondeu calmamente: "Não se preocupe, São Tomé certamente compensará essa perda." O diabo fez isso para provocar a impaciência do cavaleiro por causa da perda de sua capa e para extinguir em seu coração o amor pelo Apóstolo. 

Mas o que o diabo havia preparado para sua destruição acabou redundando em glória para o cavaleiro; Com isso, este último foi incitado com mais força, enquanto o primeiro ficou confuso e punido. Pois, depois de algum tempo, Gerard quis ir à morada de São Tomás, e quando estava pronto para partir, quebrou um anel de ouro em dois pedaços diante dos olhos de sua esposa, e juntando-os na presença dela, deu-lhe um pedaço e ficou com o outro, dizendo: "Você deve confiar neste sinal. Além disso, peço que espere cinco anos pelo meu retorno, e depois disso poderá se casar com quem quiser." E ela prometeu.

“Ele empreendeu uma longa jornada e, finalmente, com grande custo e muito esforço, chegou à cidade de São Tomé Apóstolo. Lá, foi saudado com a maior cortesia pelos cidadãos e recebido com tanta gentileza como se fosse um deles e por todos fosse conhecido. Atribuindo essa gentileza ao bem-aventurado Apóstolo, entrou no oratório e orou, recomendando a si mesmo, sua esposa e todos os seus bens ao santo. Depois disso, lembrando-se do prazo estipulado e pensando que os cinco anos terminavam naquele mesmo dia, lamentou e disse: 'Ai de mim! Minha esposa agora se casará com outro homem.' Deus havia retardado sua jornada por causa do que estava por vir.”

“Quando olhou em volta, triste, viu o demônio mencionado anteriormente caminhando com sua capa. E o demônio disse: 'Você me conhece, Gerard?' Ele respondeu: 'Não, não o conheço, mas conheço sua capa.' O demônio replicou: 'Sou aquele que buscou sua hospitalidade em nome do Apóstolo; e tomei sua capa, pelo que fui severamente punido.' E acrescentou: 'Sou o diabo, e recebi ordens para levá-lo de volta para sua casa antes do anoitecer, porque sua esposa se casou com outro homem e agora está sentada com ele no banquete de casamento.' Levando-o consigo, o diabo atravessou em pouco tempo da Índia para a Alemanha, do leste para o oeste, e ao entardecer o colocou em sua própria casa sem lhe causar nenhum dano.”

“Entrando na própria casa como um estranho, ao ver sua esposa jantando com o esposo, aproximou-se e, à vista dela, tirou metade do anel e o enviou a ela em uma taça. Ao vê-lo, ela imediatamente o tirou e, juntando-o à parte que lhe fora dada, reconheceu-o como seu marido. Imediatamente, levantou-se de um salto e correu para abraçá-lo, proclamando que ele era seu marido Gerard e despedindo-se do esposo. Contudo, por cortesia, Gerard o manteve consigo naquela noite. Neste milagre, assim como no anterior, fica evidente o quanto os bem-aventurados Apóstolos amam e glorificam aqueles que os amam.”

Dois hereges realizaram milagres com a ajuda do diabo

César de Heisterbach escreveu: “Dois homens vestidos com simplicidade, mas não sem astúcia, não ovelhas, mas lobos vorazes, chegaram a Besançon, fingindo a maior piedade. Além disso, eram pálidos e magros, andavam descalços e jejuavam diariamente, não perdiam uma única noite as matinas na catedral, nem aceitavam nada de ninguém, exceto um pouco de comida. Quando, com tal hipocrisia, atraíram a atenção de todos, começaram a vomitar seu veneno oculto e a pregar aos ignorantes novas e desconhecidas heresias. Para que o povo acreditasse em seus ensinamentos, ordenaram que peneirassem farinha na calçada e caminharam sobre ela sem deixar rastro. Da mesma forma, ao caminhar sobre a água, não podiam ser afogados; também, mandaram queimar pequenas cabanas sobre suas cabeças e, depois que estas foram reduzidas a cinzas, saíram ilesos. Depois disso, disseram ao povo: 'Se vocês não acreditam em nossas palavras, acreditem em nossos milagres."

“O bispo e o clero, ao ouvirem isso, ficaram muito perturbados. E quando quiseram resistir àqueles homens, afirmando que eram hereges, enganadores e ministros do diabo, escaparam com dificuldade de serem apedrejados pelo povo. Ora, aquele bispo era um homem bom e instruído, natural da nossa província. Nosso monge idoso, Conrado, que me contou esses fatos e que estava naquela cidade na época, o conhecia bem.”

Vendo que suas palavras eram inúteis e que o povo confiado aos seus cuidados estava sendo desviado da fé pelos agentes do diabo, o bispo convocou um certo clérigo que conhecia, muito versado em necromancia, e disse: "Certos homens em minha cidade estão fazendo isso e aquilo. Peço-te que descubras com o diabo, por meio de tua arte, quem são eles, de onde vêm e por quais meios tantos e tão maravilhosos milagres são realizados. Pois é impossível que façam maravilhas por inspiração divina quando seus ensinamentos são tão contrários aos de Deus." O clérigo disse: "Meu senhor, há muito renunciei a essa arte." O bispo respondeu: "Vês claramente em que situação me encontro. Devo ou ceder aos seus ensinamentos ou serei apedrejado pelo povo. Portanto, ordeno-te, para a remissão de teus pecados, que me obedeças neste assunto."

O escrivão, obedecendo ao bispo, chamou o diabo, e quando lhe perguntaram por que o havia chamado, respondeu: "Lamento tê-lo abandonado. E porque desejo ser-lhe mais obediente no futuro do que no passado, peço-lhe que me diga quem são esses homens, o que ensinam e por quais meios realizam milagres tão grandes." O diabo respondeu: "Eles são meus e foram enviados por mim, e pregam o que coloquei em suas bocas." O escrivão perguntou: "Como é que não podem ser feridos, ou afundados na água, ou queimados pelo fogo?" O demônio respondeu novamente: "Eles têm sob as axilas, costurados entre a pele e a carne, os meus pactos, nos quais está escrita a homenagem que me prestam; E, em virtude disso, eles realizam tais milagres e não podem ser feridos por ninguém." Então o escrivão perguntou: "E se isso lhes fosse tirado?" O demônio respondeu: "Então eles ficariam fracos, como qualquer outro homem." O escrivão, tendo ouvido isso, agradeceu ao demônio, dizendo: "Agora vá, e quando eu o chamar, volte."

“Ele foi até o bispo e relatou-lhe essas coisas em ordem. Este, cheio de grande alegria, convocou todo o povo da cidade para um lugar apropriado e disse: 'Eu sou o vosso pastor, vós sois as minhas ovelhas. Se esses homens, como dizeis, confirmarem os seus ensinamentos por meio de sinais, eu os seguirei convosco.'” Caso contrário, é justo que sejam punidos e que vocês, arrependidos, retornem à fé de seus pais comigo." O povo respondeu: "Temos visto muitos sinais da parte deles." O bispo respondeu: "Mas eu não os vi." Por que prolongar minhas palavras? O plano agradou ao povo. Os hereges foram convocados. Um fogo foi aceso no meio da cidade. Contudo, antes que os hereges entrassem, foram secretamente chamados à presença do bispo. Ele lhes disse: "Quero ver se vocês têm algum mal em si." Ao ouvirem isso, despiram-se rapidamente e disseram com grande confiança: "Revistem nossos corpos e nossas vestes cuidadosamente." Os soldados, seguindo as instruções do bispo, ergueram os braços e, percebendo algumas cicatrizes cicatrizadas sob as axilas, abriram-nas com suas facas e extraíram os pequenos pergaminhos que ali haviam sido costurados.

“Tendo recebido esses documentos, o bispo saiu com os hereges em direção ao povo e, após ordenar silêncio, bradou em alta voz: 'Agora, vossos profetas entrarão no fogo, e se não forem feridos, eu crerei neles.' Os miseráveis ​​tremeram e disseram: 'Não podemos entrar agora.' Então, o bispo contou ao povo sobre o mal que havia sido descoberto e mostrou os pactos. Então, todos furiosos lançaram os ministros do diabo no fogo que havia sido preparado, para serem torturados com o diabo em chamas eternas. E assim, pela graça de Deus e pelo zelo do bispo, a heresia crescente foi extinta e o povo que havia sido seduzido e corrompido foi purificado pela penitência.”

Música e o Diabo

Certos feitos musicais foram atribuídos ao Diabo. Ele não só adora cantar, como também é mestre do violino. Alguns dizem que ele inventou o instrumento e prometeu dominá-lo, trocando a habilidade pela alma do aluno. Essas lendas estão relacionadas à crença mais ampla na origem sobrenatural da habilidade musical e das canções individuais." 

De acordo com um relatório publicado em piney.com, “O Movimento de Restauração Americano teve duas vertentes. A primeira foi o Movimento de Pedra. Este movimento dependia de uma manifestação direta do 'espírito santo', comprovada por alguma forma de colapso histérico. Tratava-se de uma forma estudada e calculada de grandes reuniões, utilizando toda a maquinaria dos despertares espirituais, que são muito semelhantes à bruxaria ou ao culto ao diabo. Essa parte dos revivalistas musicais ou carismáticos ainda recorre aos profetas carismáticos como autoridade para profecias nas assembleias de 'adoração' modernas. Uma autoridade importante é:

Charles Daily, do Northwest College of the Bible, Parte Um, apela para profetas carismáticos como autoridade para a música no culto público. A Parte Um não apresenta exceção: a "profecia" das "Mulheres Poetas" era "a Lei" à qual Paulo recorreu para mostrar que as mulheres deveriam permanecer em silêncio, ou seja, sedentárias. Os "homens" jamais seriam pegos se soubessem o significado da performance musical no culto. Parte Dois: Profetisas carismáticas (Paulo diria que eram loucas). Parte Três: Os "Músicos" do Templo. 

Qualquer cantor ou instrumentista que entrasse no Lugar Santo como um tipo "não funcional" do corpo ou igreja de Cristo seria executado, mesmo que sua intenção fosse limpar o lixo. As pessoas continuam ralando os joelhos em busca de autoridade para o sectarismo musical: ela não existe. Toda essa performance de "adoração" é threskia ou carismática, que faz um apelo sexual às pessoas, o que impede completamente a adoração no novo lugar do espírito humano.

Embora a origem denominacional desse movimento revivalista fosse composta por presbiterianos que não conseguiam receber o sinal de que haviam sido predestinados à salvação, vivendo, portanto, em constante temor mortal, Barton W. Stone buscou produzir esses sinais estudando um metodista bem-sucedido. Os avivamentos em Caneridge, no Kentucky, continham todos os ingredientes para "manipular as mentes" daqueles que não tinham conhecimento bíblico. O resultado foi bastante semelhante à adoração ao diabo no Iraque antigo e, em certa medida, moderno. Esses também se consideram cristãos, mas suas práticas são claramente adoração ao diabo. Sem questionar a capacidade de manipulação dos líderes do Movimento Stone, o resultado claramente não é um movimento cristão.

O diabo em ação no mundo moderno

Segundo a tradição cristã, Satanás é um espírito puro criado por Deus com livre-arbítrio. Ele escolheu dedicar sua atenção a tentar e explorar a humanidade. Geralmente é caracterizado como um ser de grande inteligência, mentiroso e sedutor. Nietzsche observou que o cristianismo popularizou o diabo. Ao longo dos anos, Satanás tem sido usado por diversos escritores como recurso literário e hoje é figura constante no cinema. Às vezes, ele é charmoso, mas assustadoramente maligno. Outras vezes, é um tanto caricato. Embora os católicos rezem uma vez por ano para renunciar a Satanás, dar muita ênfase ao diabo é desencorajado. A Igreja Católica ensina que o Diabo é real e que espíritos malignos existem. Nos últimos anos, teólogos têm minimizado a influência de Satanás e optado por explicações psicológicas e psiquiátricas para comportamentos anormais.

Candida Moss escreveu: "Acreditar no diabo não é necessariamente condenável, mas identificar qualquer indivíduo ou grupo com Satanás pode muito bem ser. Como David Frankfurter demonstrou em seu livro "Evil Incarnate" (O Mal Encarnado), a acusação de conspiração demoníaca é uma das formas mais potentes de calúnia contra os cristãos. É uma forma de ataque regularmente dirigida aos judeus e, historicamente, usada para justificar todo tipo de violência contra eles.

Num esforço para se manterem um passo à frente do demônio, padres se reúnem anualmente no Instituto Pontifício Ateneo, em Roma, para trocar experiências e aprender as estratégias mais modernas em guerra espiritual. A procura por esses cursos aumenta a cada ano, e dioceses católicas nos EUA relatam um aumento significativo nos pedidos de exorcismo por parte de seus fiéis. 

O curso ensina que a influência diabólica no mundo se divide em dois tipos básicos. O primeiro é o comum. A tentação de comer um segundo pedaço de bolo, de um par de sapatos Jimmy Choo com um pequeno desconto ou daquela estagiária animada que realmente te entende? Isso é Satanás. Mas o segundo tipo, as maquinações “extraordinárias” do diabo, nos mergulham profundamente no sobrenatural. Numa escala que vai do pior ao mais grave, do comum ao raro, o Diabo pode possuir lugares e objetos, causar doenças ou criar “problemas” na vida de uma pessoa. Uma pessoa pode ficar “obcecada”, ou seja, atormentada por sentimentos de inutilidade ou pensamentos suicidas. Pior ainda, uma pessoa pode ser possuída por um demônio ou pelo próprio Diabo, ao estilo do Exorcista.

Pouquíssimas pessoas fazem pactos faustianos com o Diabo. Afinal, trocar sessenta anos de poder e fama por uma eternidade no inferno é um péssimo investimento. Como, então, uma pessoa permite que o Diabo entre em sua vida? Segundo os exorcistas, comportamentos de risco incluem: ceder à tentação em geral, usar drogas, ouvir heavy metal, ler livros sobre bruxos adolescentes, assistir pornografia, consultar horóscopos e praticar ioga.

O problema é que você pode não saber que está possuído. Um exorcista relatou uma anedota sobre o exorcismo de um homem de 40 anos. Sem que ele soubesse, o paciente estava possuído desde o útero materno. Os únicos sintomas de sua condição eram dúvidas sobre Deus e uma obsessão por "autogratificação". Isso pode ser mais comum do que se imagina.

Anjos

Os anjos são mensageiros entre Deus no céu e a humanidade na Terra. Eles frequentemente aparecem em eventos importantes da Bíblia. Entregaram mensagens a Abraão no Antigo Testamento, a Maria no Novo Testamento e a Maomé no Alcorão. A palavra "anjo" deriva do grego e significa "embaixador" ou "mensageiro".

Nos Evangelhos, um anjo anuncia a Maria que ela engravidará e dará à luz Jesus; “uma grande multidão dos exércitos celestiais” canta louvores a Deus no nascimento de Jesus. Após a tentação no deserto, “anjos o protegeram” e “um anjo... do céu” o consolou em seu momento de agonia em Getsêmani. Na manhã de Páscoa, dois anjos anunciam a notícia de que Jesus ressuscitou.

Anjos e santos são frequentemente representados com uma auréola ao redor da cabeça, simbolizando a santidade de Deus que irradia deles. A ideia da auréola não se originou com o cristianismo. Deuses e espíritos na arte hindu, indiana, grega e romana antiga às vezes tinham luz irradiando de suas cabeças.

Candida Moss escreveu: "Na Bíblia, os anjos são, em sua maioria, mensageiros; a própria palavra significa "mensageiro". Como intermediários de Deus, eles guiam videntes justos como Daniel em visitas ao céu, entregam mensagens aos escolhidos de Deus e cantam louvores eternos a Ele. Existem muitos tipos de anjos, desde os familiares (anjos, arcanjos, querubins) até os estranhamente inanimados (São Paulo fala vagamente sobre "tronos, principados e potestades", o que soa muito como mobília celestial).

Anjos Violentos

Candida Moss escreveu: "O primeiro anjo mencionado na Bíblia é o anjo que guarda a entrada do Jardim do Éden com uma espada flamejante que gira incessantemente. Anjos da guarda estão na Bíblia, mas não estão lá para nos proteger. A história do Éden não é um caso isolado. O Anjo do Senhor está sempre armado. Na maioria das vezes, se um anjo aparece em um evento na Bíblia Hebraica, é para prejudicar alguém. Em uma ocasião, durante o reinado do Rei Davi, quando o Anjo do Senhor estava prestes a destruir Jerusalém, Deus teve que ordenar que ele guardasse sua espada. Isso é fichinha para os Arcanjos. Eles lideram exércitos em batalha e estão em treinamento para o confronto final no Armagedom. 

Serafins são grandes serpentes de seis asas que voam. Querubins não são bebês bem alimentados, são leões alados. Certamente não são o tipo de criatura que você gostaria de ter vigiando seu sono. E esses são os bons anjos. Alguns seres sobrenaturais são menos obedientes que outros. Em Gênesis, aprendemos que os “filhos de Deus” perceberam o quão atraentes eram as mulheres humanas e as tomaram como esposas. Interpretações judaicas posteriores chamaram esses seres angelicais de “Vigilantes” e os culparam por ensinar à humanidade os males da tecnologia. Deus ficou tão irado com a maldade resultante que enviou o dilúvio para exterminar quase todos. Talvez as serpentes aladas não fossem tão más assim, afinal.

Quando chegamos ao Novo Testamento, os anjos já se estabeleceram em seus papéis de mensageiros e seguranças celestiais. Eles têm aparência humana. Os dois jovens que conversam com os discípulos no túmulo vazio de Jesus só podem ser identificados como anjos por suas vestes brancas deslumbrantes. Mesmo assim, eles ainda podem ser um pouco irritadiços. O anjo Gabriel, o melhor ator coadjuvante das peças de Natal modernas, está menos sereno quando anuncia o nascimento de João Batista a Zacarias. Quando Zacarias protesta dizendo que ele já está ficando velho, Gabriel responde: “Eu sou Gabriel. Estou na presença de Deus e fui enviado para falar com você e trazer-lhe estas boas novas. Mas agora, porque você não acreditou nas minhas palavras… você ficará mudo, incapaz de falar, até o dia em que estas coisas acontecerem”. É assim que ele entrega as boas novas. Como escreveu o poeta Rilke: “Todo anjo é terror”.

Nos mil e quinhentos anos desde que a Bíblia foi compilada, os anjos foram transformados nos caucasianos de cabelos na altura dos ombros e vestes brancas que adornam os cartões de oração plastificados. Eles foram identificados como figuras sobrenaturais que oferecem auxílio em momentos de dificuldade. Mas, biblicamente falando, os anjos têm a mesma probabilidade de enviar uma mensagem quanto de entregá-la. Se você busca auxílio espiritual, deve recorrer a um santo. Se encontrar um anjo, provavelmente deve fugir.

Satanás, anjos e inferno

Satanás é frequentemente retratado como o governante do inferno, mas não há menção a ele na Bíblia. Quando o diabo está no inferno, é apenas porque ele próprio está sendo punido. Candida Moss escreveu no Daily Beast: "Tanto Satanás quanto o inferno têm histórias complexas que muitas vezes, mas nem sempre, estão interligadas. Nos livros mais antigos da Bíblia, o inferno parece um detalhe secundário. Existe o Sheol, um poço escuro sob a terra para onde as pessoas vão após a morte, mas ele abriga todos, não apenas os ímpios. 

Era o período do Segundo Templo e, à sombra da conquista de Alexandre, o Grande, a população sobrenatural testemunhou uma explosão. Anjos, mensageiros e executores de Deus, eram uma presença relativamente estável na Bíblia. Foi um anjo que guardou a entrada do Jardim do Éden quando Adão e Eva foram expulsos. E foram anjos que visitaram Abraão, lutaram com Jacó e mataram os primogênitos do Egito. Demônios, no entanto, eram algo diferente, e é nesse período que encontramos as primeiras descrições de atividade demoníaca e anjos caídos." 

Em nenhum momento da Bíblia Satanás é apresentado como governante do inferno. Em vez disso, como escreveu a professora de Princeton, Elaine Pagels, em seu livro "A Origem de Satanás", Satanás era um servo do Senhor, um anjo de Deus. Se Satanás ou Mastema atormentam a humanidade, é apenas porque Deus lhes concedeu permissão. Satanás nunca age independentemente de Deus. 

Satanás se volta contra Deus, escreve Pagels, no mesmo instante em que grupos judaicos se voltam uns contra os outros. Os essênios, o grupo sectário responsável pelos Manuscritos do Mar Morto, e os seguidores de Jesus, que enfrentaram alguma oposição de outros judeus, usam figuras demoníacas como metáforas para esses oponentes do mundo real. Para os essênios, demonizar aqueles com quem se discorda, chamando-os de filhos das trevas, é uma forma de reencenar queixas em um palco cósmico.

Este líder dessas figuras, conhecido por vários nomes como Satanás, Belial e Belzebu, é o principal rival de Deus. No livro do Apocalipse do primeiro século (o último livro da Bíblia canônica), Satanás é capturado por um anjo de Deus e lançado no “Abismo”. Segundo Wright, este provavelmente não é o mesmo poço onde os anjos caídos de Gênesis e Enoque foram aprisionados. Lá Satanás permanece por mil anos antes de uma batalha final e punição eterna no Lago de Fogo.

Segundo Pagels e Wright, trata-se de um pequeno grupo de filósofos cristãos conhecidos como gnósticos, que elevam Satanás de um anjo rebelde, passível de ser derrotado por outro anjo, a uma divindade maligna com poderes invejáveis. No pensamento gnóstico, Satanás ainda é identificado como um ser subordinado, mas cria seu próprio reino material inferior no qual a humanidade está (atualmente) aprisionada. Assim como os essênios, os cristãos usaram o diabo para construir uma narrativa de luta cósmica na qual primeiro os judeus (outros), depois as autoridades romanas que se opunham a eles e, finalmente, outros cristãos dissidentes foram retratados como demônios. O diabo assume forma em encontros antagônicos entre grupos rivais.

Mas, ao longo desse período, e de fato durante os primeiros mil anos do cristianismo, o diabo ainda não se senta em um trono sombrio nem reina sobre os súditos torturados do inferno. Como escreveu a Dra. Meghan Henning em seu livro recém-publicado, "O Inferno Não Tem Fúria", as primeiras descrições do inferno mostram seres humanos sendo torturados por anjos, não por demônios. São os anjos que administram a "justiça" em um espaço que, embora infernal, ainda é claramente propriedade de Deus e operado por Ele. Qualquer leitor que se horrorize com isso deve lembrar que, aos olhos desses autores, os horrores do inferno não estão em conflito com o Divino. Esta é a aparência da justiça de Deus.

Foi somente muito mais tarde, nos escritos de Dante, Milton e seus sucessores, que a mitologia popular do diabo surgiu. Para Dante, o diabo é Lúcifer, o portador da Aurora, que outrora fora o predileto de Deus. Como um ser perfeitamente criado, Lúcifer recusou-se a curvar-se e adorar a humanidade recém-criada. Lúcifer fragmentou as hostes celestiais e guerreou contra os leais a Deus. Foi derrotado e lançado no inferno, onde governa seus companheiros demônios da tundra congelada do nono círculo do inferno. Embora aprisionado nas entranhas do inferno, ele foi capaz de projetar-se no plano mortal para tentar e enganar. O Satanás de Milton é igualmente consumido pela inveja. Nas palavras de Thuswaldner e Russ, ele “perambula pelo abismo entre o inferno e a Terra recém-criada”, tramando a destruição dos seres humanos.

O que essas imagens do diabo trazem à tona é o paradoxo nas ideias cristãs sobre Satanás. Como Philip Almond afirma em "O Diabo", "o diabo é o inimigo mais implacável de Deus e está além do controle de Deus... no entanto, ele também é o servo fiel de Deus, agindo somente sob o comando de Deus". Satanás pode odiar a humanidade e (com bastante eficácia) tramar sua ruína e destruição, mas ele mal é um adversário de Deus, muito menos um igual. Tudo isso significa que o inferno é governado por Deus. Satanás não é o Senhor do Inferno, mas se o for, é apenas um rei fantoche governando a mando de um Deus que permite a interferência demoníaca, mas não tolera a desobediência.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A presença do Diabo no ciclo da vida das comunidades judaicas medievais



O Diabo foi tema de vasta literatura no período medieval. Desde a patrística grega e latina, e por todas as crônicas e relatos do mundo medieval, o Diabo era onipresente e exercia uma influência notável, no mundo dos vivos sendo referenciado como atuante e proselitista. Um aceso debate ocorria entre teólogos e pensadores da Igreja que, ao mesmo tempo, tratavam de delinear os limites de seu poder, para evitar que o Cristianismo adotasse doutrinas dualistas, já que a onipotência divina, não podia ser igualada pelo exército satânico e, por outro, lado faziam uso cotidiano de sua presença e malignidade em prédicas, cultos e exorcismos, de todos os tipos.

Como a História se relacionou com este tema nos últimos séculos?


A historiografia de influência iluminista adotou uma postura cética e de estrito racionalismo. A escola metódica enfocando temas de conteúdo político, diplomático e militar, envidou poucos esforços em abordar tal tema. Grassava certo repúdio por um tema obscuro, que era impregnado de crendices tolas e superstições. Tais temas não seriam dignos de estudo. O Romantismo, por sua vez, retomou o interesse pelo medievo e pelos temas religiosos. Em meados do séc. XIX reaparece esta temática. A primeira obra digna de menção foi de autoria de Michelet, que em seu clássico livro La sorciére1 retomou de maneira pioneira o interesse, da história nos estudos do sobrenatural e das relações entre o mundo natural e o sobrenatural.

No século XX, vemos uma retomada lenta do interesse no estudo do sobrenatural e em particular no Diabo. Em seu livro clássico O Declínio da Idade Média, editado pela primeira vez em 1919, o celebrado autor Johan Huizinga dedica algumas palavras e referências, à presença marcante do Demônio ou Diabo no cotidiano medieval. O autor em diversos aspectos seria um dos “ancestrais” do gênero histórico

denominado como História das Mentalidades ou dos Comportamentos, que floresceu na segunda metade do século passado. Huizinga percebeu que o Demônio estava muito “vivo” no cotidiano das pessoas que viveram e descrevem os séculos XIV e XV.

Na seqüência, já em meados do séc. XX, houve contribuições interessantes neste tema, mas somente na terceira geração da escola de Annales é que os estudos se ampliaram e aprofundaram. Temos algumas obras de expressão: Delumeau, Áries, Duby, Le Goff, Richards, entre muitos mais. Essa tendência se espalhou e gerou obras diversas.

No Brasil podemos citar a obra de Carlos Roberto Nogueira, tanto sobre as bruxas e feiticeiras, quanto sobre o Diabo.

O Diabo e Deus: dilemas do monoteísmo

Como as religiões monoteístas se colocavam diante da temática do Diabo? A posição da Igreja é contraditória, mas, apesar de criticar certos exageros, é uma instituição que aceitou e utilizou-se de conceitos ligados ao Diabo. Desde a Antiguidade Tardia, os autores da Patrística, que definiram e conceituaram a teologia clássica cristã, debateram e advertiram sobre o Diabo. S. Jerônimo é uma das mais fortes referências. João Crisóstomo em Antioquia advertia seus paroquianos sobre os riscos do Diabo.

Isidoro de Sevilha falava intensamente e extensamente sobre o Diabo. Agostinho não tem dúvidas, na sua ótica neo-platônica e cristã, de que o Diabo transita no mundo inferior, na Cidade dos homens. Cria-se o conceito de que se travava uma batalha entre as forças do Bem e do mal. Nas palavras de Nogueira: “[...] os cristãos concordavam em que a queda do homem não foi mais que um episódio na história de um prodigioso combate cósmico, iniciado antes da Criação [...]”. A queda do homem teria sido precedida por uma revolta de algumas das falanges celestiais contra Deus e estes haviam sido precipitados do céu por Deus. Portanto, transitavam na terra e seduziam os humanos para obter adeptos a seu partido.

Até mesmo gente culta como os teólogos e pensadores S. Tomás de Aquino, fundamentado e autorizado por Santo Agostinho, determina que: “Omnes quae visibiliter fiunt in hoc mundo possunt fieri per daemones”. Muitos dos autores e pensadores medievais demonstram certa dose de crítica a esta postura da Igreja, mas nunca negam a existência e a presença do Diabo. Os opositores mais ferrenhos da Igreja, no medievo, foram os heréticos dualistas também denominados maniqueus. Foram sendo reprimidos através do tempo e do espaço: maniqueísmo, mazdeísmo, os paulicianos, os bogomilos e os albigenses. Acreditavam na existência de dois poderes antagônicos e contradiziam o monoteísmo trinitário. Isso era a negação de dogmas fundamentais da Cristandade e sugeria a necessidade de repressão. Eram, portanto, mais adeptos de presença do mal, como entidade independente, do que a própria Igreja que criticavam.

A construção e a manutenção das crenças do imaginário se dão num processo de longa duração. O imaginário se constrói dentro e em função de um determinado contexto social. O Diabo surge no Cristianismo primitivo como uma faceta do intenso dualismo que marca a luta da Igreja para se afirmar nos séculos III e IV. O medievo é uma sucessão de confrontos entre o bem (encarnado pela Igreja) e o mal (encarnado pelo Diabo e seus aliados).

O belicismo, o simbolismo e o contratualismo vigentes neste período são facetas do confronto contínuo entre Deus e a Igreja que o representa contra o Diabo. No dizer de autores como Hilário Franco Jr. o que predominava era “[...] a visão sobrenatural que se tinha do Universo”. O “sobrenatural se mostrando no natural” era um fato cotidiano e corriqueiro, já que a hierofania (manifestações do sagrado no profano) era parte da crença aceita. Até os inimigos da Igreja têm esta visão dualista. Mesmo sendo críticos da Igreja, muitos grupos heréticos tinham uma visão dualista do mundo e enxergavam o confronto entre o espírito e a matéria, entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, no cotidiano e dentro de uma visão hierofânica. Isso pode ser visto entre as heresias dualistas e maniqueístas tais como os bogomílios, os albigenses, e os cátaros de uma maneira ampla, como já frisamos antes. O que muda é que a Igreja passa ser a encarnação do mal e que deve ser combatida. Os dualistas foram severamente perseguidos.

Para a Igreja católica, o Diabo não podia ser nivelado no mesmo patamar que Deus. Sendo essa premissa teológica respeitada, o Diabo tinha “salvo conduto”, para atuar entre os humanos e tentá-los. Sua atuação no cotidiano cristão medieval é completa. Está em tudo e em todos os lugares e situações. Seus seguidores são numerosos e ativos.

A Igreja com todo o seu poder político, religioso e social era a maior formadora de opinião, apesar da crítica das heresias e da contestação social vigente na baixa Idade Média. A Igreja comanda a luta contra o mal e seu líder: Satã. A ordem de Cluny comanda a luta a partir do século X. A Inquisição medieval encabeçada pelos dominicanos se tornará a vanguarda da luta contra o mal encarnado nas heresias, já no século XIII. Grande número de textos foram escritos sobre o assunto. A Igreja autorizou a publicação e deu divulgação através da ordem dos dominicanos de uma obra clássica do tema da bruxaria e da demonologia, o assim chamado Malleus Maleficarum, também popularmente conhecido como O Manual da Caça as Bruxas, que foi editado no final do século XV, por dois freis dominicanos, Heinrich Kramer e Jacob Sprenger. O seu uso declarado era para servir como guia aos Inquisidores que interrogavam e torturavam bruxas e seguidores de heresias satanistas. Exorcismos e formas de identificar bruxas e demônios povoam suas páginas.

Além de bruxos e feiticeiras, uma minoria era tradicionalmente discriminada e perseguida em épocas de crise durante a Idade Média européia: a minoria judaica.

A sociedade medieval cristã associava os judeus ao Demônio. Discriminava os judeus, excluía-os de determinadas ramos da produção econômica e marcava-os como perigosamente envolvidos com a magia e o poder satânico. A Igreja decretou inúmeras leis e regras para isolar os judeus do mundo cristão. As mais famosas regras foram determinadas, por Inocêncio III em 1215, no quarto concílio de Latrão. O objetivo era separar e isolar os judeus do mundo cristão. Os judeus deviam portar a “marca infame” nas suas roupas e habitar em bairros segregados para evitar que contaminassem os cristãos. Percebemos que se trata do mesmo concílio que colocou o maior empenho na guerra contra a heresia maniqueísta. Os judeus também eram considerados um perigo e deviam ser separados da sociedade cristã de maneira radical.

O Diabo no imaginário judaico

Contudo, essa separação não impediu os contatos entre judeus e cristãos. Apesar desta discriminação havia trocas entre o mundo cristão e a minoria judaica. O professor Joshua Trachtenberg, num trabalho pioneiro e pouco divulgado, percebeu em seus estudos o relacionamento e a influência mútua entre o Judaísmo e o Cristianismo no período medieval. Em ambas o imaginário coletivo era muito fértil no que tange ao mundo satânico. Trachtenberg mostra a aparição de uma religião popular (Folk Religion) que aparece paralelamente a religião judaica oficial, com todo o seu legalismo, regras e normas da Halachá (lei judaica). Permitimo-nos ampliar sua reflexão. O Judaísmo “oficial’ era erudito e se fundamentava em estudos metódicos e constantes que exigiam um elevado nível material, para se dedicar de maneira intensa aos profundos e demorados estudos talmúdicos”. Em locais e períodos nos quais havia estabilidade e plena tolerância aos judeus por parte da Igreja e das autoridades seculares, os judeus podiam fundar suas academias talmúdicas (ieshivot). Assim se deu na Espanha muçulmana na Idade de Ouro (séc. IX a XI); na Espanha cristã na Idade de Prata (séc. XII e XIII); em Ashkenaz (séc. X e XI) e na Polônia moderna (séc. XVI e XVII) em certos períodos isolados. No geral havia períodos de crise e perseguição, nos quais a religiosidade popular predominava no seio da população judaica: uma intersecção de religiosidade erudita na superfície e na liderança religiosa, lado a lado com crendices e religiosidade popular no seio da massa judaica, que se via diante de perseguições e preconceito. Certa “circularidade das idéias e da cultura” do topo à base e desta ao topo.

Nesta religião popular ocorrem influências do meio circundante, mesmo se este seja hostil ao Judaísmo. Os judeus influenciam e são influenciados pelo mundo cristão: contaminados com as crenças e crendices, com os mitos e superstições existentes no mundo medieval, como um todo. Trachtenberg distingue entre o cotidiano judaico e a forma pelas quais os grandes sábios e rabinos se opunham às superstições vigentes na sociedade judaica. Os rabinos tentavam manter a racionalidade do judaísmo e “esconder” as crendices. O pesquisador deve usar uma leitura crítica dos textos rabínicos. É óbvio que não se pode escrever história do imaginário, fazendo-se apenas uma leitura superficial dos escritos dos rabinos e sábios. Estes usaram pelo menos dois recursos bem definidos para combater as crendices. Num primeiro estágio as combatiam e condenavam. Numa segunda etapa, ao dar-se conta de que não podiam vencê-las, tratavam de dar-lhes uma vestimenta “mais racional e culta”, e encontraram explicações belas e diferentes para as diversas reações que a sociedade judaica criava na luta contra os demônios e espíritos malignos.

Utilizando nossa experiência no projeto “Heranças e Lembranças”, realizado no Rio de Janeiro, do qual participamos, constatamos a enorme quantidade de amuletos e objetos usados no combate a Satã, mesmo quando a religião judaica o ignore ou dê ao mesmo pouca importância. A religião popular sobrevive às pressões e a tentativa de torná-la culta e racional. No âmbito externo, os judeus que vivem isolados e discriminados, no seio da sociedade cristã (por exemplo) e são acusados de serem aliados do demônio, também acreditam no seu poder maligno. Os “aliados do demônio” (judeus) também o temem e se protegem dele com amuletos, exorcismos, rezas e proteções.

A partir daqui nos propomos a descrever a aparição do tema do demônio e dos espíritos malignos tal com aparece nos séculos XII a XV, entre os judeus da Europa Ocidental (denominada Ashkenaz = Alemanha). O tema também é válido e deve aparecer na Península Ibérica (Sefarad), no norte da África e na Europa Oriental (Polônia). Centralizaremos nossas observações do ciclo da vida judaico e a aparição do elemento satânico em Ashkenaz, mas quando pudermos ofereceremos exemplos de outras regiões a título de ampliação do foco. A guerra contra o mundo satânico e suas ferramentas, será nosso tema daqui por diante. Dividiremos o ciclo da vida em nascimento, casamento e morte, não dando importância à maioridade religiosa (Bar Mitzvá) por não ser um rito de passagem, todavia consolidado na Baixa Idade Média (até o séc. XV).

O nascimento

a) O período anterior ao parto

A mulher que estava grávida era um ser sensível e inspirava cuidados e atenções especiais. Cuidava-se de forma meticulosa da parturiente através de rezas, amuletos cabalísticos com textos mágicos. Escreviam-se nomes de anjos, fórmulas mágicas e orações. Usavam-se freqüentemente objetos metálicos como a chave da sinagoga e até da Igreja e facas, pois se acreditava que os metais tinham a capacidade de distanciar os maus espíritos. Um ser, em especial, era temido: a primeira mulher criada junto com o homem no sexto dia – Lilith. Esta mulher continha poderes malignos e competia com as descendentes de Eva, a primeira mulher. Há diversos amuletos que a exorcizam e rituais se sucedem para mantê-la afastada.

b) O período posterior ao parto e anterior à circuncisão

Acreditava-se que a criança depois de circuncidada e tendo ingressado no pacto de Abraão estaria “imunizada” diante da ameaça dos espíritos malignos. O mesmo é válido, apenas como comparação, na sociedade cristã, na qual o batismo “salvava a alma” e impedia sua queda nas mãos do maligno. Desta maneira a comunidade judaica se mobilizava e todo o arsenal anti-satânico era mobilizado também. Velas acesas dia e noite, o uso de objetos metálicos, textos e amuletos cabalísticos, rezas e vigílias que eram utilizadas na semana que separa o nascimento do menino da sua circuncisão. Em Ashkenaz (Alemanha) existe um costume neste período denominado Wachnacht. Seria uma noite de vigília total na qual não se deixava a mãe, tampouco o recém nascido por nem um segundo desacompanhados, durante a noite que antecede a circuncisão (Brit Milá). Um costume semelhante ocorre entre os judeus marroquinos que trazem cinco meninos já alfabetizados que escrevem uma carta cada um, com um texto que distancia a figura de Lilith que pretende roubar o futuro homem que acabou de nascer. Isso é semelhante aos judeus de origem sefaradita (Espanha), entre os quais o mohel (pessoa que realiza a circuncisão) traz um amuleto metálico e o coloca sob o travesseiro do recém nascido. Outro hábito comum em muitas comunidades judaicas medievais e que observamos em Ashkenaz é a mulher trocar de roupas com seu esposo durante a semana anterior a circuncisão, para que o Diabo e seus servidores se confundissem e pensassem que se trata de um homem e não da parturiente. Isso apesar do mandamento bíblico que proíbe mulheres de vestir roupas de homens e vice versa. Em Ashkenaz havia também a cerimônia de concessão do nome não judaico do recém nascido. O nome judaico era dado no oitavo dia, já o nome alemão era dado no trigésimo dia de vida. O nome da cerimônia era Hollekreisch. Os pesquisadores não entram em acordo sobre a explicação deste costume, mas concordam que deve estar relacionado com as questões dos perigos oriundos do Satã e seus aliados. Alguns dizem se tratar da Frau Holle ou senhora Holle, uma espécie de raptora de bebês que os leva para o interior da Terra.

Em alguns locais em Ashkenaz, se colocavam presentes para a “estrela da criança”, numa clara expressão de presentes para as almas e divindades. O mesmo hábito da achnacht aparece entre os judeus marroquinos, de forma semelhante, durante sete noites de vigília ao bebê e a parturiente para evitar “olho ruim” (semelhante ao popular olho gordo, usado no Brasil). O costume se denomina Tahdid. O uso de velas, muita luz, orações, metais, amuletos servem para espantar os demônios e almas, se assemelhando nos dois casos e mostrando que o hábito era comum em muitas comunidades. A convocação do profeta Elias (Eliahu Hanavi) era, e é, todavia comum a muitas comunidades judaicas. Ele seria um defensor da fé, dos oprimidos e também dos recém nascidos, visto a presença de uma cadeira especial para Elias nas cerimônias de circuncisão. A crença medieval era que Elias realmente se sentava nela, invisível aos mortais comuns. Conta-se que o rabi Iehudá Hachassid, renomado místico ashkenazi, cancelou uma cerimônia de circuncisão por não ter vislumbrado o profeta no seu local tradicional.

O casamento

Num célebre artigo, publicado pela primeira vez em 1925, Jacob Lauterbach levantou enorme polêmica ao afirmar que a quebra do copo no casamento tinha um significado original diferente, da “vestimenta racional” colocada nele pelos rabinos. Usa-se dizer que a quebra do copo, simboliza a destruição e as ruínas do Templo de Jerusalém e a esperança messiânica de reconstruí-lo. Há outras explicações racionais e cultas, tais como a necessidade de não se destruir, visto a impossibilidade de refazer as ruínas de um copo.

Lauterbach demonstra que o sentido medieval era outro, remontando a trechos talmúdicos e a hábitos medievais. Trata-se de mais uma arma anti-satânica. Os rabinos “vestiram” de forma culta, tal costume popular. As técnicas do combate seriam através de três caminhos: a) lutar contra os demônios; b) suborná-los com presentes; c) enganálos fazendo-os crer que as pessoas que aparentavam ser felizes, eram na verdade infelizes e não precisavam ser invejadas.

A quebra do copo durante a cerimônia do casamento não seria por recordação das ruínas do Templo de Jerusalém, mas sim um método de espantar ou até melhor desviar a atenção dos demônios. São frisados como métodos para afastar os demônios do casamento, o uso de tochas, ruídos, pitadas de sal, de pedaços de metal, alguns métodos semelhantes aos já citados no nascimento e muitos deles também usados pelos cristãos.

Havia também presentes ou subornos aos demônios e almas na forma de grãos de trigo, amêndoas, peixe e carne secos. O terceiro e último caso seria enganar ou iludir os demônios e almas. Além da quebra do copo, havia a troca de roupas entre o noivo e noiva, o uso do véu pela noiva com métodos de iludir. Havia é claro o uso do círculo mágico, através do qual se isolava o casal de influências maléficas. Entre outras comunidades, podemos citar a tradição que persiste até hoje entre os judeus de origem marroquina e algumas comunidades orientais de usar o tingimento de cabelos e/ou dedos com hena e o uso de amuletos em forma de uma mão com trechos cabalísticos (a denominada hamsa).

É comum usar a hamsa em outras ocasiões, mas o seu uso é sempre no sentido de proteger seus portadores do mau olhado e de espíritos malignos.

A morte e o sepultamento

É bastante conhecida dos estudiosos da Idade Média a dança macabra (França) ou a dança dos mortos (Inglaterra). O tema foi vastamente descrito através de textos, pinturas e músicas, em especial nos séculos que seguiram a Peste Negra (1348). Em todas as formas de expressão artística a ênfase era na luta do homem para viver diante das doenças, espíritos malignos, o demônio e a morte.

É evidente que o temor dos demônios e almas cresce quando se aproxima o tema da morte. As mesmas armas que vimos nos casos anteriores eram utilizadas para cuidar do corpo do falecido: profusão de velas e luzes, vigílias e orações sem cessar, pedaços de metal com ou sem inscrições, abundância de sal sobre o cadáver.

Quando a pessoa aparentava estar agonizando, ocorria uma reunião de todos os parentes próximos junto ao seu leito, muitos de seus melhores amigos e conhecidos, e ocorria uma cerimônia repleta de etiqueta e regras. Isso foi mais acentuado nos séculos XIV e XV. Entre estes se instituiu a extrema unção (Vidui), bastante assemelhado a mesma cerimônia existente no Cristianismo. O objetivo era salvar a alma do moribundo antes que este perdesse sua consciência e blasfemasse ou fizesse alguma afirmativa contrária à salvação de sua alma, que talvez pudesse ser colocada no seu ouvido por algum demônio ou alma penada.

O uso de orações tais como o Ana Becoach na qual existe um acróstico com os nomes de Deus era considerado muito útil para a salvação do moribundo.

Acostumava-se jogar fora toda a água armazenada na casa do falecido. Havia muitas explicações. Numa diziam que o Anjo da Morte limpara sua espada na água. Outras explicações salientam a utilização da água por demônios e espíritos e a possível permanência de alguns deles nesta água. As rezas se prolongavam até o sepultamento. O féretro era feito sob um ritual minucioso de estações e orações com o objetivo de defender o defunto dos demônios e almas. A crença dizia que o caixão deveria sair antes do que qualquer ser vivo de dentro da casa do defunto ou do local aonde se encontrava para evitar que por engano, os demônios se precipitassem sobre alguém vivo e o vitimassem.

Algumas comunidades do Norte da África costumavam atirar moedas de ouro para todas as direções a fim de afastar o Satã do caixão e do morto, pois o maligno é profundamente ambicioso e deseja riquezas e materialismo. Na Europa Ocidental (Ashkenaz) imitaram os cristãos, ao tomar de porções de terra e grama e atirá-los por detrás dos ombros, proferindo dizeres para espantar e confundir os demônios.

O tradicional costume judaico de lavar as mãos depois de um enterro ao sair do cemitério e/ou ao entrar na sua casa novamente é explicado como sendo um ato de purificação ritual ou como um símbolo de sermos inocentes diante desta morte. Há contudo, quem relacione com demônios e almas.

Conclusões

A imagem do judeu no período medieval era bastante manipulada pela Igreja que construiu uma “mídia” bastante ostensiva contra os “assassinos” de Cristo e aliados do Demônio. A relação Diabo-Judeu é um tema de muita reflexão. Por seu lado, o judaísmo era rigidamente monoteísta e não poderia permitir em seu seio a presença de entidades satânicas que existissem à revelia da vontade divina. Trata-se de uma contradição que acreditamos seja fruto do meio circundante: tanto a Cristandade, quanto o Islã aceitavam e apontavam para existência de hostes do mal e dos riscos de ser seduzido pelos seus representantes. O Judaísmo não era imune a estas idéias e foi fortemente influenciado por elas ainda no período do segundo Templo (entre 530 a.C. e 70 d.C.), quando se escreveram alguns dos livros canônicos, que tratam da existência do Mal. O mais marcante é o livro de Jó, no qual Satã é um servo da corte de Deus. Uma espécie de promotor do reino celeste, que fustiga a humanidade com acusações e reprimendas.

Nos livros externos (apócrifos), não incorporados ao cânone judaico, tampouco ao cristão, se configura a figura do Mal. E há uma interpretação de diversos textos canônicos sob uma ótica mais dualista, que acaba formatando a malignidade através de seres diversos encabeçados pelo Diabo ou Lúcifer, o anjo decaído.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Babilônia, a Grande Mãe das religiões idólatras e abomináveis da terra".

Os pregadores batistas reunidos em 09 de abril de 1877, na Capela dos Marinheiros, em Olver Street. Muitos missionários estrangeiros estavam presentes. O Rev. John W. Sarles, do Brooklin, leu um discurso, em que defendia a proposição de que todo gentio adulto que morrer sem o conhecimento do Evangelho está condenado para toda a eternidade. De outra maneira, argumentou o reverendo ensaísta, o Evangelho é uma maldição, em vez de uma bênção, os judeus que crucificaram Cristo obraram com justiça e toda a estrutura da religião revelada cai por terra.

"O Irmão Stoddart, um missionário da Índia, endossou as opiniões do pastor do Brooklin, dizendo que os hindus era grandes pecadores. Certa vez, depois de ter ele pregado num mercado público, um brâmane se acercou dele e lhe disse: `Nós, os hindus, podemos avantajar-nos o mundo em mentiras, mas este homem nos vence. Como pode ele dizer que Deus nos ama? Olhai para as serpentes venenosas, os tigres, os leões e todas as espécies de animais perigosos que nos rodeiam. Se Deus nos ama, por que Ele não os afugenta?'

"O Reve. Sr. Pixley, de Hamilton, N. Y., aderiu entusiasticamente à doutrina do ensaio do Irmão Sarles e solicitou 5.000 dólares para o ensino de jovens aspirantes ao sacerdócio."

E esses homens - não diremos que ensinam a doutrina de Jesus, pois isso seria insultar a sua memória, mas - são pagos para ensinar a sua doutrina! Podemos nos espantar com o fato de que pessoas inteligentes prefiram a aniquilação a um fé fundamentada numa doutrina tão monstruosa? Duvidamos que qualquer brâmane respeitável confessasse o vício da mentira - uma arte cultivada apenas naquelas regiões da Índia britânica onde se encontram os cristãos. Mas desafiamos qualquer homem honesto desse imenso mundo a dizer se ele acha que o brâmane estava longe da verdade ao afirmar, em relação ao missionário Stoddart, que "este homem nos vence" em mentiras. Que mais poderia ele dizer, se este pregava a eles a doutrina da condenação eterna, porque, na verdade, haviam passado suas vidas sem ler um livro judaico, de que nunca haviam ouvido falar, ou sem procurar a salvação num Cristo de cuja existência eles nunca haviam suspeitado! Mas o clero batista, que precisa de alguns milhares de dólares, há de recorrer a representações terroríficas para acender o coração de sua congregação.

A MORAL DO CRISTIANISMO MODERNO.

O novo credo, portanto, tão como possa parecer, incorpora a essência mesma da crença da Igreja, tal como inculcada por seus missionários. Consideram-se menos ímpio, menos infiel, duvidar da existência pessoal do Espírito Santo, ou da Divindade de Jesus, do que questionar a personalidade do Diabo. Mas, está quase esquecido um resumo do Koheleth.* Quem cita as palavras de ouro do profeta Miquéias, ou parece preocupar-se com a exposição da Lei, tal como foi ouvida do próprio Jesus? Toda a moral do Cristianismo moderno se resume no mandamento de "temer o Diabo". (* Eclesiástico, XII, 13: ver Lang, Commentary on the Olt Testament, ed. por Tayler Lewis, Edimburgo, 1870, p. 199:

“A grande conclusão ouvi: Temei a Deus
E seus mandamentos guardai,
Pois tudo isto é do homem.”

O clero católico e alguns dos paladinos da Igreja romana brigam ainda mais pela existência de Satã e de seus diabretes. Se des Mousseaux afirma a realidade objetiva dos fenômenos espiritistas com um ardor tão inflexível é porque, em sua opinião, esses fenômenos são a prova mais evidente do Diabo em função. Ele é mais católico do que o Papa, e sua lógica e suas deduções de premissas infundadas e não estabelecidas são singulares e provam um vez mais que o credo oferecido por nós expressa com grande eloqüência a crença católica.

"Se a Magia", diz ele, "fosse apenas uma quimera, teríamos que dar uma adeus eterno a todos os anjos rebeldes, que agora perturbam o mundo; pois, assim, não haveria demônios aqui. E, se perdemos nossos demônios, PERDEREMOS também O NOSSO SALVADOR. Pois de que nos redimiria o Redentor? Por conseguinte, não existiria o Cristianismo!"

O Diabo é o gênio protetor do Cristianismo teológico. Tão "santo e reverenciado é seu nome" na concepção moderna, que ele não pode, exceto ocasionalmente no púlpito, ser pronunciado para não ferir os ouvidos dos fieis. Da mesma maneira, antigamente, não era lícito pronunciar os nomes sagrados ou repetir o jargão dos mistérios, exceto no claustro sagrado. Mas conhecemos os nomes dos deuses samotrácios e não podemos precisar o número dos Kabiri. Os egípcios consideravam blasfemo pronunciar o epíteto dos deuses de seus ritos secretos. E mesmo agora, o brâmane só pronuncia a sílaba Om em pensamento silencioso, como os rabinos, o Inefável Nome. Por essa razão, nós que não exercemos tal veneração, fomos levados à cincada da adulteração dos nomes de HISIR e YAVA, nos abusivos Osíris e Jeová. Uma fascinação similar promete muito mais, como se pode perceber, para reunir as designações da personagem obscura de que tratamos; e, no uso familiar, é bastante provável que choquemos as sensibilidades peculiares de muitas pessoas que consideram uma blasfêmia a simples menção dos nomes de Diabo - o pecado dos pecados, que "nunca terá perdão" (Marcos, III, 29: "Aquele que blasfemar contra o Espírito Santo nunca jamais terá perdão, mas estará em perigo de condenação eterna" )

Faz alguns anos um amigo nosso escreveu um artigo de jornal para demonstrar que o diabolos ou Satã do Novo Testamento denota a personificação de uma idéia abstrata e não um ser pessoal. Foi contestado por um clérigo, que concluiu sua réplica com uma expressão deprecatória: "Temo que ele tenha negado seu Salvador". Na sua tréplica, nosso amigo afirmou: "Oh, não! só negamos o Diabo". Mas o clérigo não conseguiu perceber a diferença. Em sua concepção do assunto, a negação da existência objetiva pessoal do Diabo era "o pecado contra o Espírito Santo.

É tarde para esperar que o clero cristão refaça e emende sua obra. Há muita coisa em jogo. Se a Igreja cristã abandonasse ou mesmo modificasse o dogma de um diabo antropomórfico, isso equivaleria a empurrar a carta da base de um castelo de cartas. Toda a estrutura ruiria. Os clérigos a que aludimos percebem que, após a abdicação de Satã como um diabo pessoal, o dogma de Jesus Cristo como a segunda divindade de sua Trindade sofreria a mesma catástrofe. Por incrível, ou mesmo horrendo, que pareça, a Igreja romana baseia sua doutrina da divindade de Cristo inteiramente no satanismo do arcanjo caído. Temos o testemunho do Padre Ventura, que proclama a importância vital desse dogma dos católicos.

Muitas almas zelosas e ardorosas revoltaram-se contra o monstruoso dogma de João Calvino, o papinha de Genebra, para quem o pecado é a causa necessária do maior bem. Essa afirmação foi apoiada, no entanto, por uma lógica como a de des Mousseaux e ilustrada pelos mesmos dogmas. A execução de Jesus, o homem-deus, na cruz, foi o crime mais horrendo do universo e foi necessário para que a Humanidade - esses seres predestinados à vida eterna - pudesse ser salva. D'Aubigné cita o que Martinho Lutero extraiu do cânone e o faz exclamar, em enlevo extático: "O beata culpa, qui talem meruisti redemptorem!" "Ó pecado abençoado, que mereceste esse Redentor". Percebemos agora que o dogma que parecia tão monstruoso é, afinal, a doutrina do Papa, de Calvino e de Lutero - os três são apenas um.

Maomé e seus discípulos, que tinham Jesus em grande respeito com um profeta, observa Éliphas Lévi, costumavam pronunciar, quando falavam dos cristãos, as seguintes palavras: "Jesus de Nazaré era verdadeiramente um profeta de Alá e um grande homem -, mas eis que todos os seus discípulos um dia enlouqueceram e fizeram dele um deus".

Max Müller acrescentou benevolentemente: "Foi um erro dos padres antigos tratar os deuses gentios como demônios do mal e devemos ter cuidado de não cometer o mesmo erro em relação aos deuses hindus".

Mas Satã nos é apresentado como o arrimo e o esteio do sacerdotalismo - um Atlas, que sustenta em seus ombros o céu e o cosmo cristão. Se ele cair, então, em sua concepção, tudo estará perdido e voltará ao caos.

O DOGMA DO DIABO E DA REDENÇÃO.

Esse dogma do Diabo e da redenção parece ter sido baseado em duas passagens do Novo Testamento: "Para destruir as obras do Diabo é que o Filho de Deus veio ao mundo". "E então houve no céu uma guerra; Miguel e os seus anjos pelejavam contra o Dragão e o Dragão com os seus anjos pelejavam e não prevaleceram; nem o seu lugar se achou mais no céu. E foi banido o grande Dragão, aquela velha serpente, chamada Diabo e Satã, que seduz a todo o mundo". Que nos seja permitido, então, explorar as teogonias antigas, a fim de verificar o que significavam essas expressões notáveis.
A primeira indagação refere-se ao fato de saber se o termo Diabo, tal como usado aqui, representa atualmente a maligna Divindade dos cristãos, ou uma força antagônica, cega - o lado escuro da Natureza. Com esta última expressão não queremos dizer que a manifestação de qualquer princípio do mal é malum in se, mas apenas a sombra da Luz, por assim dizer. As teorias dos cabalistas tratam dela como uma força que é antagônica, mas ao mesmo tempo essencial para a vitalidade, a evolução e o vigor do princípio do bem. As plantas poderiam perecer em seu primeiro estágio de existência se fossem exposta a um luz solar constante; a noite que alterna com o dia é essencial ao seu crescimento saudável e ao seu desenvolvimento. O bem, da mesma maneira, deixaria rapidamente de sê-lo se não alternasse com seu oposto. Na natureza humana, o mal denota o antagonismo da matéria com o que é espiritual, e assim eles se purificam mutuamente. No cosmos, o equilíbrio deve ser preservado; a operação dos dois contrários produz a harmonia, tais como as forças centrípeta e centrífuga, e uma é necessária à outra. Se um delas cessar, a ação da outra se tornará destrutiva imediatamente.

A personificação denominada Satã, deve ser contemplada de três planos diferentes: o Velho Testamento, os padres cristãos e a antiga atitude gentia., Supõe-se que ele fosse representado pela Serpente do Jardim do Éden; não obstante, o epíteto de Satã não se aplica, em nenhum dos escritos sagrados hebraicos, nem a essa, nem a qualquer outra variedade de ofídios. A Serpente de Bronze foi adorada pelos israelitas como um deus, porque era o símbolo de Esmun-Asklepius, o Iao fenício. Na verdade, o caráter do próprio Satã é apresentado no Primeiro Livro de Crônicas, instigando Davi a contar o povo israelita, um ato depois declarado como tendo sido ordenado pelo próprio Jeová a inferência inevitável é a de que os dois, Satã e Jeová, eram tidos como idênticos.

Nas profecias de Zacarias encontra-se outra menção a Satã. Esse livro foi escrito num período posterior à colonização da Palestina e, por essa razão, pode-se supor que os assideus devem ter trazido diretamente do Oriente essa personificação. É bastante conhecido o fato de que esse corpo de sectários estava profundamente imbuído das noções mazdeístas e que representava Ahriman ou Angra-Mainyur pelos deuses-nomes da Síria. Set ou Set-an, o deus dos hititas e dos hicsos, e Beeel-Zebub, o oráculo-deus, mais tarde o Apolo grego. O profeta iniciou os seus trabalhos na Judéia, no segundo ano de Darius Hystaspes, o restaurador da adoração mazdeísta. Eis como ele descreve o encontro com Satã: "Depois mostrou-me o Senhor o sumo-sacerdote Jesus, que estava diante do anjo do Senhor, e Satã estava à sua direita para ser seu adversário. E o Senhor disse a Satã "O Senhor te reprima, ó Satã; e reprima o Senhor, que elegeu a Jerusalém! Acaso não é este um tição que foi tirado ao fogo?"

Percebemos que essa passagem, que citamos, é simbólica. Há duas alusões no Novo Testamento que indicam que assim deve ser. A Espístola Católica de Judas refere-se a isso com os seguintes termos: "Quando o arcanjo Miguel, disputando com o Diabo, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a fulminar-lhe a sentença de blasfemo, mas disse 'O Senhor te reprima'". Vemos aqui o arcanjo Miguel mencionado como idêntico ao Senhor, ou anjo do Senhor, da citação anterior, e demostra-se assim que o Jeová hebraico tem um caráter duplo, o secreto e o manifestado como o anjo do Senhor, ou o arcanjo Miguel. Uma comparação entre essas duas passagens deixa claro que "o corpo de Moisés" sobre o qual alternavam era a Palestina, que, como "a terra dos hitias", era o domínio peculiar de Seth, seu deus tutelar. Miguel, o paladino da adoração de Jeová, lutou com o Diabo ou Adversário, mas deixou o julgamento ao seu superior.

Belial, não deve ser considerado, nem como deus, nem como diabo. O termo BELIAL, é definido nos léxicos hebraicos como destruição, assolamento, esterilidade; a frase AISH-BELIAL ou homem-Belial significa um homem destruidor, daninho. Se Belial deve ser personificado para agradar nossos amigos religiosos, seríamos obrigados a fazê-lo distinto de Satã e a considera-lo como uma espécie de Diakka espiritual. Os demonógrafos, todavia, que enumeram nove ordens distintas de daimonia, fazem-no chefe da terceira classe - um conjunto de duendes, nocivos e imprestáveis.

Asmodeu tem origem puramente presa, não é nenhum espírito judaico. Bréal, autor de Hercule et Cacus, mostra que ele é o Eshem-daêva, o espírito maligno da concupiscência, de quem Max Müller nos diz ser "mencionado muitas vezes no Avesta como um dos devas", originalmente deuses, que se tornaram espíritos do mal.

Samuel é Satã; mas Bryant e outras autoridades demonstram ser ele o nome de Simoom - o verbo do deserto, e o Simmom é chamado Atabul-os ou Diabolos.

Plutarco observa que por Typhon se deve entender alguma coisa violenta, ingovernável e desregrada. O transbordamento do Nilo era chamado pelos egípcios de Typhon. O Baixo Egito é muito plano e quaisquer morretes erguidos ao longo do rio para evitar as inundações freqüentes eram chamados Typhonian ou Taphos; aí, a origem de Typhon. Plutarco, que era um grego rígido, ortodoxo, e que nunca foi conhecido como alguém que olhasse egípcios com muita simpatia, testemunha em seu Ísis e Osíris que, longe de adorarem o diabo (de que os cristãos os acusam), os egípcios mais desprezavam do que temiam Typhon. No seu símbolo de poder oposto e obstinado da natureza, acreditavam fosse ele uma divindade pobre, batida, semimorta. Assim, mesmo naquela remotíssima era, já havia pessoas ilustradas o bastante para não acreditarem num diabo pessoal. Como Typhon era representado em um de seus símbolos sob a figura de um asno, no festival dos sacrifícios em honra do sol, os sacerdotes egípcios exortavam os adoradores fiéis a não vestirem ornamentos de ouro sobre seus corpos para não alimentar com eles o asno!

PLATÃO EXPRESSA SUA OPINIÃO A RESPEITO DO MAL.

Três séculos e meio antes de Cristo, Platão expressou sua opinião a respeito do mal dizendo que "existe na matéria uma força cega, refratária, que resiste à vontade do Grande Artífice". Essa força cega, sob o influxo cristão, tornou-se fidedigna: foi transformada em Satã!

Sua identidade com Thyphon não pode ser posta em dúvida se lê o relato de Jó a respeito de sua semelhança com os filhos de Deus, diante do Senhor. Ele acusa Jó de ser capaz de maldizer o Senhor, após suficiente provocação. Assim também Typhon, no Livros dos Mortos egípcio, figura como acusador. A semelhança estende-se até os nomes, pois uma das designações de Typhon era Seth, ou Set; como Shatan, em hebraico, significa adversário. Em árabe, a palavra é Shâtana - ser adverso - perseguir - e Manetho diz que assassinou traiçoeiramente Osíris, em cumplicidade com os semitas (os israelitas). Este fato pode ter dado origem à fábula narrada por Plutarco, segundo a qual, na luta entre Hórus e Typhon, Typhon, com medo da maldade que cometera, fugiu por sete dias em um asno e, escapando, gerou os meninos Hierosolymus e Judaeus (Jerusalém e Judéia).

O Professor Reuvens refere-se a uma invocação a Typhon-Seth, e Epifânio diz que os egípcios adoravam Typhon sob a forma de um asno, ao passo que, de acordo com Busen, Seth "surgia gradualmente entre os semitas como pano de fundo de sua consciência religiosa". O nome de asno em copta, AO, é uma variante fonética de IAÔ, e assim o animal tornou-se um trocadilho-símbolo. Assim, Satã é uma criação posterior, nascida da fantasia ardente dos padres da Igreja. Por um revés da sorte, a que os deuses estão tão sujeitos quanto os mortais, Typhon-Seth caiu das alturas eminentes de filho deificado de Adão-Cadmo para a posição degradante de um espírito subalterno, um demônio mítico - um asno. Os cismas religiosos são tão poucos isentos de mesquinhez frágil e dos sentimentos vingativos da Humanidade quanto às querelas sectárias dos leigos. Prova desse fato nos é oferecida pela reforma zoroastriana, quando o Magismo se separou da velha crença dos brâmanes. Os brilhantes devas do Veda tornou-se, sob a reforma religiosa de Zoroastro, devas, ou espíritos do mal do Avesta. Até mesmo Indra, o deus luminoso, foi enviado às trevas para ser substituído, com uma luz mais brilhante, por Ahura-Mazda, a Divindade Sábia e Suprema.

A VENERAÇÃO DA SERPENTE.

A estranha veneração que os ofitas dedicavam à serpente que representava Cristos se tornará menos perplexa se os estudiosos lembrarem de que em todas as épocas a serpente foi o símbolo da sabedoria divina que mata para fazer ressurgir, destrói para melhor reconstruir. Moisés era descendente de Levi, uma tribo-serpente. Gautama Buddha pertence a uma linhagem-serpente, através da dinastia Nâga (serpente) e reis que reinou no Magadha. Hermes, ou o deus Taautos (Thoth), em seu símbolo-serpente, é Têt; e, de acordo com as lendasofitas, Jesus ou Cristos nasceu de uma serpente (sabedoria divina, ou Espírito Santo), isto é, tornou-se um filho de Deus por meio de sua iniciação na "Ciência da Serpente". Vishnu, idêntico ao egípcio Kneph, repousa sobre a serpente celestial de sete cabeças.

O dragão vermelho ou ígneo dos tempos antigos era a insígnia dos assírios. Ciro adotou-a deles, quando a Pérsia se apoderou do seu país. Os romanos e os bizantinos foram os próximos a assumi-la; e então o "grande dragão vermelho", além de ser o símbolo da Babilônia e de Nínive, tornou-se o de Roma.

A tentação, ou provocação, de Jesus é, todavia, a ocasião mais dramática em que surge Satã. Como que para provar a designação de Apolo-Esculápio e Baco, [como] Diabolos, ou filho de Zeus, ele também é chamado de Diabolos, ou acusador. A cena da provação foi o ermo. O deserto entre o Jordão e o Mar Morto era a morada dos "filhos dos profetas" e dos essênios. Estes ascetas costumavam sujeitar seus neófitos a provocações, análogas às torturas dos ritos mitricos, e a tentação de Jesus foi evidentemente uma cena dessa índole. Por essa razão, afirma-se no Evangelho segundo São Lucas [IV, 13, 14] que "o Diabolos, tendo completado a provação, deixou-o por tempo específico; e voltou Jesus em virtude do Espírito para a Galiléia. Mas o Diabo, neste exemplo, não é evidentemente nenhum princípio maligno, senão o princípio que exerce a disciplina. Os termos Diabo e Satã são empregados repetidas vezes neste sentido. (Ver 1 Coríntios, V, 2; 2 Coríntios, XI, 14; 1 Timóteo, I, 20). Assim, quando Paulo estava propenso a um júbilo excessivo em virtude da abundância de revelações ou descobertas epópticas, foi-lhe dado "na carne, um estímulo, o anjo de Satanás", para o esbofetear. (2 Coríntios, XII, 7. Números, XXII, 22, o anjo do Senhor é descrito como desempenhando o papel de um Satã a Balaam).

A HISTÓRIA DE SATÃ NO LIVRO DE JÓ.

A história de Satã, no Livro de Jó, tem um caráter familiar. Ele é introduzido como um dos "Filhos de Deus", que se apresentam diante do Senhor como numa iniciação mística.

Em todas estas cenas não se manifesta nenhum diabolismo que se supõe caracterizar o "adversário das almas".

É opinião de alguns escritores de mérito e erudição que o Satã do livro de Jó é um mito judaico, que contém a doutrina mazdeísta do Princípio do Mal. O Dr. Haug observa que "a religião zoroastriana apresenta uma afinidade muito estreita ou antes uma identidade, com muitas doutrinas importantes da religião mosaica e o cristianismo, tais como a personalidade e os atributos do diabo e a ressurreição dos mortos". A batalha do Apocalipse entre Miguel e o Dragão pode ser remontada, com igual facilidade, aos mitos mais antigos dos arianos. No Avesta, lemos sobre a luta entre Thraêtaoma e Azhi-Dahâka, a serpente destruidora. Burnouf esforçou-se por demostrar que o mito védico de Ahi, ou a serpente, que lutou contra os deuses, foi gradualmente evemerizado, na "batalha de um homem peidoso contra o poder do mal", na religião mazdeísta. Segundo essas interpretações, Satã seria idêntico a Zohâk ou Azhi-Dahâka, que é uma serpente de três cabeças, uma das quais é humana.

De acordo com Josefo, os hicsos foram os ancestrais dos israelitas. Esse fato é, sem duvida, substancialmente verdadeiro. As Escrituras hebraicas, que contam uma história um pouco diferente, foram escritas num período posterior e sofreram várias revisões antes que fossem promulgadas com qualquer grau de publicidade. Typhon tornou-se odioso no Egito e os pastores, "uma abominação". "No curso da vigésima dinastia foi tratado repentinamente como um demônio do mal, além de suas efígies e nome terem sido obliterados em todos os monumentos e em todas as inscrições onde haviam sido gravados".

A PROPENSÃO DE EVEMERIZAR OS DEUSES EM HOMENS.

Em todas as épocas, existiu a propensão de se evemerizar os deuses em homens. Mencionam-se túmulos de Zeus, Apolo, Hércules e Baco para demonstrar que eles foram originalmente apenas seres mortais. Sem, Cam, e Jafé são as personificações respectivas das divindades Shamas, da Assíria, Kham, do Egito, e Iapetes, o Titã. Seth era deus dos hicsos, Enoch, ou Inaco, dos argivos; e Abarão, Isaac e Judá têm sido comparados a Brahmâ, Ikshvaku e Yadu, do panteão hindu. Typhon caiu da divindade para a diabolicidade, tanto no seu caráter próprio de irmão de Osíris quando no Seth, o Satã da Ásia. Apolo, o deus do dia, tornou-se, na sua roupagem fenícia mais antiga, não mais Baal-Zebul, o Oráculo-deus, mas o príncipe dos demônios e finalmente o senhor do mundo subterrâneo. A separação do mazdeísmo, do vedismo, transformou os devas, ou deuses, em potências do mal. Indra, também, subordina-se a Ahriman na Vendîdâd, criado por ele com material extraído das trevas, junto com Shiva (Sûrya) e os dois Aswins. Até mesmo Jahi é o demônio da Luxuriam - provavelmente idêntico a Indra.

As muitas tribos e nações tinham seus deuses tutelares e avaliavam os dos povos inimigos. A transformação de Typhon, Satã e Belzebus tem esse caráter. De fato, Tertuliano fala de Mithra, o deus dos Mistérios, como um diabo.

No capítulo doze [9,11] do Apocalipse, Miguel e seus anjos venceram o Dragão e seus anjos: “e o Grande Dragão foi precipitado na Terra, aquela Serpente Antiga, chamada Diabolos e Satã, que seduz a todo o mundo”. E em seguida: “E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro”. O Cordeiro, ou Cristo, tinha de descer ao inferno, o mundo dos mortos, e permanecer ali durante três dias antes de subjugar o inimigo, sendo o mito.

Miguel foi denominado pelos cabalistas e pelos gnósticos de “o Salvador”, o anjo do Sol e o anjo da Luz. Ele era o primeiro dos Aeons (Espíritos Estelares) e bastante conhecidos dos antiquários como o “anjo desconhecido” representado nos amuletos gnósticos.

O autor do Apocalipse, se não era um cabalista, deve ter sido um gnóstico. Miguel não foi uma personagem original de sua revelação (epopteia), mas o Salvador e Matador-do-dragão. As investigações arqueológicas o têm indicado como idêntico a Anubis, cuja efígie foi descoberta recentemente num monumento egípcio, com uma couraça e uma lança, no ato de matar o dragão que possui a cabeça e a cauda de uma serpente.

O estudioso de Lepsius, Champollion e outros egiptólogos reconhecerão imediatamente que Ísis é a "mulher com a criança", "vestida de Sol e com a Lua a seus pés", que o "grande Dragão feroz" perseguiu e a quem "foram dadas duas asas da Grande Águia de modo que pudesse fugir para o deserto". Typhon tinha a pele vermelha.

Os Dois Irmãos, os Príncipes do Bem e do Mal, aparecem nos mitos da Bíblia, bem como nos dos gentios, e assim temos Caim e Abel, Typhon e Osíris, Esaú e Jacó, Apolo e Píton, etc. Esaú ou Osu é representado, quando nascido, como "todo vermelho como uma veste felpuda". Ele é o Typhon ou Satã, que se opõe aos seu irmão.

Desde a mais remota antigüidade, a serpente foi venerada por todos os povos como a incorporação da sabedoria divina e como o símbolo do espírito e sabemos por Sanchoniathon que foi Hermes Thoth o primeiro a considerar a serpente como "o mais espiritual de todos os répteis"; e a serpente gnóstica como as sete vogais sobre a cabeça não é senão uma cópia de Ananta, a serpente de sete cabeças sobre a qual repousa Vishnu.

A LENDA DO DRAGÃO SOB VÁRIOS ASPECTOS.

Na mitologia hindu, Vasuki, o Grande Dragão, cospe contra Durgâ um fluído venenoso que se estende por sobre a terra, mas, seu consorte, Shiva, faz a terra abrir sua boca para suga-lo.

Assim, o drama místico da virgem celestial perseguida pelo dragão que quer devorar seu filho não foi visualizado nas constelações do céu, como já foi mencionado, mas também foi representado na adoração secreta dos templos. Era o mistério do deus Sol e foi inscrito numa imagem negre de Ísis.

O menino Divino foi caçado pelo cruel Typhon. Na lenda egípcia, o Dragão persegue Thuêris (Ísis), enquanto esta tenta proteger seu filho. Ovídio descreve Dione (a consorte de Zeus pedágio original, e mãe de Vênus) a fugir de Typhon para o Eufrates, identificando assim o mito como pertencente a todos os países em que os mistérios eram celebrados. Virgílio canta a vitória:

"Salve, querido filho dos deuses, grande filho de Jove!
Recebi a suma honra; os tempos se avizinham;
A serpente morrerá!"

Alexandre Magno, alquimista e estudioso de ciências ocultas, bem como bispo da Igreja Católica Romana, declarou, entusiasmado pela astrologia, que o signo zodiacal da virgem celestial eleva-se acima do horizonte no vigésimo quinto dia do mês de dezembro, no momento assinalado pela Igreja para o nascimento do Salvador.

O signo e o mito da mãe e do filho eram conhecidos milhares de anos antes da era cristã. O drama dos Mistérios de Dmeter representa Perséfone, sua filha, raptada por Plutão ou Hades para o mundo dos mortos; e quanto a mãe finalmente a descobre lá, foi instalada como rainha do reino das Trevas. Esse mito foi transcrito pela Igreja na lenda de Sant'Anna indo em busca de sua filha Maria, que fora levada por José para o Egito. Perséfone é descrita com duas espigas de trigo na mão; assim também Maria, nas imagens antigas; assim também a Virgem Celestial da constelação. Albumazar, o árabe, indica a identidade de muitos mitos da seguinte maneira:

"No primeiro decano da Virgem nasce uma donzela, chamada em árabe Aderenosa [Ardhhanâri?], isto é, virgem pura imaculada, a graça em pessoa, encantadora na postura, modesta no hábito, cabeleira flutuante, segurando em suas mãos duas espigas de trigo, sentada sobre um trono bordado, amamentando um menino eu alimentando-o justamente num lugar chamado Hebréia; um menino, quero dizer, chamado Iessus por determinadas nações, que significa Issa, a quem chamam também de Cristo em grego".

Por essa época, as idéias gregas, asiáticas e egípcias haviam sofrido uma transformação notável. Os Mistérios de Diônisio-Sabazius haviam sido substituídos pelo rito de Mithra, cujas “cavernas” sucederam as criptas do deus antigo da Babilônia à Bretanha. Serapis, ou Sri-Apa, do Ponto, usurpara o lugar a Osíris. O rei do Indostão Oriental, Asoka, abraçara a religião de Siddhârtha e enviara missionários à Grécia, à Ásia, à Síria e ao Egito para promulgar o evangelho da sabedoria. Os essênios da Judéia e da Arábia, os terapeutas do Egito e os pitagóricos da Grécia e da Magna Grécia eram evidentemente adeptos do novo credo. As lendas de Gautama sucederam os mitos de Hórus, Anubis, Adónis, Atys e Baco. Foram incorporados aos mistérios e aos Evangelhos e a eles devemos a literatura conhecida como os Evangelhos e o Novo Testamento Apócrifo. Foram guardados pelos ebionitas, nazarenos e outras seitas como livros sagrados, que podiam “mostrar apenas aos sábios”; e foram preservados até que a influência ofuscante da política eclesiástica romana os arrebatasse.
Quando o sumo sacerdote Hilkiah encontrou o Livro da lei, os Purânas (Escrituras) hindus eram conhecidos dos assírios. Os assírios haviam dominado durante muito tempo a região compreendida entre o Helesponto e o Indo e talvez tenham empurrado os arianos da Bactriana para o Puñhab. O Livro da lei parece ter sido um purâna. “Os brâmanes cultos”, diz William Jones, “pretendem que as seguintes cinco condições devam constituir um purâna verdadeiro:
“1a. Tratar da criação da matéria em geral.
“2a. Tratar da criação ou produção de material secundário e dos seres espirituais.
“3a. Fornecer um resumo cronológico dos grandes períodos de tempo.
“4a. Fornecer um resumo genealógico das famílias principais que reinaram sobre o país.
“5a. Finalmente, fornecer a história de algum grande homem em particular.”

É indubitável que quem quer que tenha escrito o Pentateuco se sujeitou a essas condições, bem como aqueles que escreveram o Novo Testamento estavam muito bem familiarizados com a adoração ritualista budista, com as lendas e as doutrinas por meio dos missionários budistas que se contavam em grande número, naquela época, na Palestina e na Grécia.

Mas “nem Diabo, nem Cristo”. Este é o dogma básico da Igreja. Devemos perseguir os dois ao mesmo tempo. Há uma conexão misteriosa entre os dois, mais estreita do que talvez se supunha, que leva à identidade. Se aproximarmos os filhos míticos de Deus, todos aqueles que eram considerados como os “primogênitos”, eles se harmonizarão e se fundirão nesse caráter dual. Adão-Cadmo desdobra-se da sabedoria conceptiva espiritual em criativa, que desenvolve a matéria. O Adão feito de barro é o filho de Deus e Satã; e Satã também é um filho de Deus, de acordo com Jó.

AS ALEGORIAS DO LIVRO DE JÓ.

A alegoria de Jó, que já foi citada, se corretamente entendida, nos dá a chave para todo esse assunto do Diabo, sua natureza e seu ofício, e substancia nossas declarações. Que nenhum indivíduo piedoso se alarme com essa designação de alegoria. O mito era o método favorito e universal de ensinar nos tempos arcaicos. Paulo, escrevendo aos Coríntios, declara que toda a história de Moisés e dos israelitas era típica; e na sua Epístola dos Gálatas afirma que toda a história de Abraão, suas duas esposas e seus filhos era uma alegoria. De fato, segundo toda probabilidade, que raia à certeza, os livros históricos do Velho Testamento tinham o mesmo caráter. Não tomamos liberdade extraordinária com o Livro de Jó, quando damos a ele a mesma designação que Paulo dá às histórias de Abraão e Moisés.

Mas devemos, talvez, explicar o uso antigo da alegoria e da simbologia. A veracidade da primeira devia ser deduzida; o símbolo expressava alguma qualidade abstrata da Divindade, que os leigos podiam apreender facilmente. Seu sentido superior terminava aí e era empregado pela multidão, portanto, como uma imagem a ser utilizada em ritos idólatras. Mas a alegoria foi reservada para o santuário interior, onde só os eleitos eram admitidos. Donde a resposta de Jesus, quando os seus discípulos o interrogaram em virtude de ele ter falado à multidão por meio de parábolas. "A vós outros", disse ele, "vos é dado saber os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não lhes é concedido. Porque ao que tem, se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado". Nos mistérios menores, lavava-se uma porca para exemplificar a purificação de neófito; a sua volta à lama indicava a natureza superficial da obra que fora realizada.

"O Mito é o pensamento não-manifestado da alma. O traço característico do mito é converter a reflexão em história (uma forma histórica). Como na epopéia, também no mito predomina o elemento histórico. Os fatos (os eventos externos) constituem freqüentemente a base do mito e neles se entretecem as idéias religiosas."

Toda a alegoria de Jó é um livro aberto para quem compreende a linguagem pictórica do Egito, tal como ela está registrada no Livro dos mortos. Na Cena do Julgamento, Osíris aparece sentado em seu trono, segurando em uma das mãos o símbolo da vida, "o garfo da atração", e, na outra, o leque báquico místico. Diante dele estão os filhos de Deus, os quarenta e dois assessores dos mortos. Um altar está imediatamente diante do trono, coberto de oferendas e rematado pela flor do lótus sagrado, sobre a qual se podem ver quatro espírito. Na porta de entrada, permanece a alma que está prestes a ser julgada, a quem Thmei, o gênio da Verdade, está recebendo a conclusão da provação. Thoth, segurando um junco, registra os procedimentos no Livro da Vida. Hórus e Anubis, diante da balança, inspecionam o peso que determina se o coração do morto equilibra ou não o símbolo da verdade. Num pedestal está uma prostituta - o símbolo do Acusador.

A iniciação nos mistérios, como todas as pessoas inteligentes sabem, era uma representação dramática das cenas do mundo subterrâneo. Assim se desenvolve a alegoria de Jó.

Vários críticos têm atribuído a autoria desse livro a Moisés. Mas ele é mais antigo do que o Pentateuco. Jeová não é mencionado no poema; e, se o nome ocorre no prólogo, esse fato deve ser atribuído ou a um erro dos tradutores, ou à premeditação exigida pela necessidade posterior de transformar o politeísmo numa religião monoteísta. Adotou-se o plano muito simples de atribuir os mitos nomes de Elohim (deuses) a um único deus. Assim, em um dos mais antigos dos textos hebraicos de Jó (no cap. XII, 9), ocorre o nome de Jeová, ao passo que todos os outros manuscritos apresentam "Adonai". Mas Jeová está ausente do poema original. Em lugar desse nome encontramos Al, Aleim, Ale, Shaddai, Adonai, etc. Portanto, devemos concluir que ou o prólogo e o epílogo foram acrescentado num período posterior, o que é inadmissível por muitas razões, ou o texto foi adulterado, como o restante dos manuscritos. Assim, não encontramos nesse poema arcaico nenhuma menção à Instituição Sabática; mas um grande número de referência ao número sagrado sete, do qual falaremos adiante, e uma discussão aberta o sabaísmo, a adoração dos corpos celestes que prevalecia, naquela época, na Arábia. Satã é chamado no texto de um "Filho de Deus", membro do conselho que se apresenta diante de Deus, a quem induz a tentar a fidelidade de Jó. Nesse poema, mais claramente do que em qualquer outro lugar, vemos corroborado o significado da denominação Satã. É um termo para o ofício ou o caráter de acusador público. Satã é o Typhon dos egípcios, que grita suas acusações no Amenti; um ofício tão respeitável quanto o do promotor público em nossa época; e se, apesar da ignorância dos primeiros cristãos, ele se tornou posteriormente idêntico ao Diabo, isso não se faz com a sua conivência.

O Livro de Jó é uma representação completa da iniciação antiga e das provas que geralmente precedeu tão agusta cerimônia. O neófito se vê privado de tudo a que dava valor e afligido por uma doença abominável. Sua esposa o exorta a amaldiçoar Deus e a morrer; não há mais esperança para ele. Três amigos aparecem em cena para visitá-lo; Elifaz, o temanita culto, pleno do conhecimento "que os sábios receberam dos seus pais (...) as únicas pessoas a quem a terra foi dada"; Baldad, o conservador, que toma as coisas como elas vêem e que opina que a aflição de Jó é conseqüência de suas culpas; o Sofar, inteligente e habilidoso em "generalidades", mas de sabedoria superficial. Jó responde corajosamente: "Se eu errei, meu erro ficará comigo. Vós vos engrandeceis e me argüis com as minhas calamidades; mas foi Deus quem me aniquilou. (...) Por que me perseguis e não estais satisfeitos com minha carne destruída? Mas eu sei que meu Paladino vive e que num dia futuro ficará no meu lugar; e embora minha pele e tudo que a rodeia sejam destruídos, mesmo sem minha carne eu verei Deus. (...) Vós direis: `Por que o molestamos?', pois a raiz da matéria está em mim!"

Essa passagem, como todas as outras em que se poderia encontrar alusões mais tênues a um "Paladino", "Libertador" ou "Vindicador", foi interpretada como uma referência direta ao Messias; além disso, esse versículo está traduzido da seguinte maneira nos Septuaginta:

"Pois eu sei que é eterno
Aquele que há de me libertar na Terra
Para restaurar esta minha pele que sofre estes males" etc.

Na versão do rei James, como foi traduzida, ela não guarda semelhança alguma com o original. Tradutores artificiosos deram "Eu sei que meu Redentor viverá", etc. E os Septuaginta, a Vulgata e o original hebraixo devem ser considerados como a inspirada Palavra de Deus. Jó refere-se a seu próprio espírito imortal que é eterno e que, quando viu a morte, o libertará desse pútrido corpo terreno e o vestirá com um novo revestimento espiritual. Nos Mistérios báquicos e eleusinos, no Livro dos mortos egípcios e em todas as outras que tratam de assuntos ligados à iniciação, esse "ser eterno" tem um nome. Para os neoplatônicos era o Nous, o Augoeides; para os budistas é Agra; e, para os persas, Feroher. Todos eles são chamados de "Libertadores", "Paladinos", "Metatrons", etc. Nas esculturas mítricas da Pérsia, o feroher é representado por uma figura alada que volteia no ar sobre seu "objeto" ou corpo. É o Eu luminoso - o Âtman dos hindus, nosso espírito imortal, o único que pode redimir nossa alma, e o fará, se o seguirmos em vez de sermos arrastados pelo nosso corpo. Portanto, nos textos caldaicos, lê-se "Meu libertador, meu restaurador", isto é, o Espírito que restaurará o corpo decaído do homem e o transformará numa vestimenta de éter. E é esse nous, augoeides, Feroher, Agra, Espírito dele mesmo, que o triunfante Jó verá sem sua carne - isto é, quando tiver escapado da sua prisão corporal -, e ao qual os tradutores chamam "Deus".

Não só existe a mínima alusão no poema de Jó a Cristo, como também se provou que todas as versões feitas por tradutores diferentes, que concordam com a do rei James, foram escritas com base em Jerônimo, que tomou estranhas liberdades em sua Vulgata. Ele foi o primeiro a enxertar no texto esse versículo de sua própria criação:

"Eu sei que meu Remidor vive,
E que no último dia eu me erguerei da terra,
E serei novamente recoberto de minha pele,
E em minha carne verei meu Deus".

Tudo o que lhe deve ter parecido uma boa razão para crer que ele o sabia, mas que outros não sabiam, e que, além disso, encontravam no texto uma idéia bastante diferente - isso só prova que Jerônimo decidira, com mais uma interpolação, reforçar o dogma de uma ressurreição "no último dia", e com a mesma pele e os mesmos ossos que possuía na terra. Trata-se na verdade de uma agradável perspectiva de "restauração". Por que não ressuscitar também com as mesmas roupas com que o corpo morre?

E como poderia o autor do Livro de Jó saber algo do Novo Testamento quando ignorava o Velho? Há uma ausência total de alusões a qualquer um dos patriarcas; foi sem dúvida obra de um Iniciado, pois que uma das três filhas de Jó recebeu um nome mitológico decididamente "pagão". O nome Keren happuch é traduzido de varas maneiras. Na Vulgata tem "chifres de antimônio"; e em LXX tem "chifre de Amalthea", a preceptora de Júpiter e uma das constelações, emblema de "chifre da plenitude". A presença no Septuaginta dessa heroína de fábula pagã mostra a ignorância dos transcritores em relação ao seu significado, bem como da origem esotérica do Livro de Jó.

Em vez de oferecer consolo, os três amigos do sofrido Jó tentam fazê-lo acreditar que merece sua desventura como uma punição por algumas transgressões extraordinárias que praticou. Respondendo veementemente a todas essas imputações, Jó jura que, enquanto tiver alento, manterá a sua causa.

Os três haviam tentado confundir Jó com alegações e argumentos gerais e ele lhes solicitou uma consideração dos seus atos específicos. Então surgiu o quarto: Eliú, o filho de Baraquel, o buzita, da estirpe de Ram.

Eliú é o filho do hierofante; começa com uma repreensão e os sofisma de Jó se desvanecem com a areia que o vento do oeste leva.

"E Eliú filho de Baraquel, disse: `Os grandes homens nem sempre são sábios (...) há um espírito no homem; o espírito que está em mim me constrange. (...) Deus fala uma vez, uma segunda, embora o homem não perceba. Num sonho; numa visão noturna, quando o sono profundo cai sobre o homem, em cochilos na cama; então ele abre os olhos dos homens e lhes dá suas instruções. Ó Jó, ouve-me; cala-te e eu te ensinarei a SABEDORIA."

E Jó diante das falácias dogmáticas de seus três amigos, no amargor do deserto, exclama: "Não há dúvida de que vós sóis o povo e a sabedoria morrerá convosco. (...) Todos vós sóis uns cosoladores miseráveis. (...) Certamente falarei ao Todo-poderoso e com Deus desejo conversar. Mas vós sóis os que forjam as mentiras, vós sóis médicos de nenhum valor!" O devorado pelas chagas, o Jó que recebera as visitas e que para o clero oficial - que não oferecia outra esperança senão a condenação eterna - havia em seu desespero vacilado em sua fé paciente, respondeu: "Isso que vós sabeis, também eu sei a mesma coisa; não sou inferior a vós. (...) O homem que como flor cai e é pisado foge como a sombra e jamais permanece num mesmo estado. (...) Quando o homem morrer, despojado que seja e consumido, onde estará ele? (...) Se um homem morrer, ele viverá novamente? (...) Quando se passarem alguns anos, então seguirei um caminho de onde não poderei retornar. (...) Oxalá se fizera o juízo entre Deus e o homem, como se faz o de um filho do homem com o seu vizinho'." Jó encontra alguém que responde ao seu grito de agonia. Ouve a SABEDORIA de Eliú, o hierofante, o mestre perfeito, o filósofo inspirado. De seus lábios rígidos brota a representação justa da impiedade de ter censurado o Ser SUPREMO pelos males da Humanidade. "Deus", diz Eliú, "é excelente em poder e em julgamento e em plenitude de justiça. ELE não condenará".

Enquanto o neófito se satisfazia com sua própria sabedoria mundana e irreverente compreensão da Divindade e Seus desígnios e enquanto dava ouvidos às sofisticarias perniciosas dos seus conselheiros, o hierofante se mantinha calado. Mas, quando essa mente ansiosa estava pronta para os conselhos e as instruções, sua voz se fez ouvir e ele fala com a autoridade do Espírito de Deus que o "constrange": "Certamente Deus não ouvirá em vão, nem o Todo-poderoso verá as causas de cada um. (...) Ele não respeitará aqueles que se dão por sábios".

Magnífica lição para o pregador da moda, que "miltiplica palavras sem conhecimento"! Esta magnífica sátira profética deve ter sido escrita para prefigurar o espírito que prevalece em todas as denominações dos cristãos.

Jó escuta as palavras de sabedoria e então o "Senhor" responde a Jó "fora do redemoinho" da Natureza, a primeira manifestação visível de Deus: "Pára, Jó, pára! e considera as maravilhosas obras de Deus; só por meio delas podes conhecer Deus. `Com efeito, Deus é grande, e não o conhecemos', Ele que `faz pequenas as gotas d'água; mas elas vertem segundo o vapor"; não segundo o capricho divino, mas segundo leis estabelecidas e imutáveis; lei que "transferiu os montes e não é conhecida por eles; que move a terra; que ordena ao Sol e o Sol não nasce; e que selou as estrelas; (...) que faz coisas grandes e incompreensíveis, e maravilhosas, que não têm número. (...) Se ele vier a mim, eu não o verei; e se for, eu não o perceberei!"

Então, "Quem é este que obscurece os conselhos com palavras desprovidas de conhecimento?", diz a voz de Deus por meio de Seu porta-voz -, a Natureza. "Onde estava tu quando eu lançava os fundamentos da terra? dize-mo, se é que tens compreensão. Quem deu as medidas para ela, se é que o sabes? Quando os astros da manhã contavam todos juntos, e quando todos os filhos de Deus estavam transportados de júbilo? (...) Estavas presente quando eu disse aos mares: `Até aqui podes vir, mas além daqui; até aqui tuas orgulhosas ondas poderão rolar'? (...) Sabes quem obriga a chuva a cair sobre a terra, onde não havia homem algum; no deserto, onde não havia homem algum? (...) Acaso poderás reunir as doces influências das Plêiades ou impedir a evolução de Orion? (...) Poderás enviar os raios, que possam ir e vos dizer `Aqui estamos'?"

"Então Jó respondeu ao Senhor." Ele compreendeu quais são os seus caminhos e os seus olhos estão abertos pela primeira vez. A Sabedoria Suprema desceu sobre ele; e, se o leitor ficar confuso diante deste PETROMA final da iniciação, pelo menos Jó, ou o homem "afligido" em sua cegueira, entendeu então a impossibilidade de caçar "Leviatã cravando-lhe um arpão no nariz". O Leviatã é a CIÊNCIA OCULTA, em que se pode pôr a mão, "não mais do que isso", e cujo poder e cuja "proporção conveniente" Deus não quer esconder.

"Quem pode descobrir a superfície de sua vestimenta? e quem entrará no meio da sua boca? Quem pode abrir as portas do seu rosto? Em roda dos seus dentes está o seu orgulho, e eles estão selados. O seu espirro é resplendor do fogo e os seus olhos como as pestanas da aurora". Que "faz brilhar uma luz atrás de si", para que se aproxime dele os que não têm medo. E então eles também verão "todas as coisas altas, pois ele é rei apenas sobre todo os filhos da soberba".

Jó, agora à guisa de retratação, responde:

"Eu sei que podes todas as coisas,
E que nenhum pensamento se te esconde.
Quem é este que fez uma exibição de sabedoria arcana
Sem nada saber dela?
Por isso falei sobre o que não compreendia
Coisas que estavam acima de mim, as quais não conhecia.
Ouve! suplico-te e eu falarei;
Perguntar-te-ei, e me responderás:
Eu te ouvi com meus ouvidos,
E agora te verei com meus olhos,
Por isso me repreendo a mim mesmo,
E me penitencio no pó e na cinza?"

Ele reconheceu seu "paladino" e se converteu de que havia chegado a hora da sua vindicação. Imediatamente o Senhor ("os sacerdotes e os juizes", Deuteronômio, XIX, 17) disse aos seus amigos: "Minha ira se voltou contra ti e contra teus dois amigos, porque não me haveis falado retamente diante de mim, como meu servo Jó . Então "o Senhor voltou-se para a penitência de Jó" e "lhe deu em dobro tudo quanto ele havia tido".

Assim, no julgamento [egípcio], o morto invoca quatro espíritos que residem no Lago de Fogo e é purificado por eles. Ele então é conduzido à sua morada celestial e é recebido por Athar e por Ísis e permanece diante de Atum (Âtman a Centelha Divina que habita o Homem), o Deus essencial. Ele agora é Turu, o homem essencial, um espírito puro, e em conseqüência On-ait, o olho de fogo, e um companheiro dos deuses.

Esse grandioso poema de Jó era muito bem compreendido também pelos cabalistas. Enquanto muitos dos hermetistas medievais eram homens profundamente religiosos, eles eram, no fundo de seus corações - como os cabalistas de todas as épocas -, os inimigos mais mortais do clero. Como parecem verdadeiras as palavras de Paracelso quando exclamou, afligido por uma perseguição feroz e por calúnias, e incompreendido por seus amigos e por seus inimigos, maltratado pelo clero e pelos leigos:

"Ó vós de Paris, Pádua, Montpellier, Salermo, Viena e Leipzig! Não sóis mestres de verdade, mas confessores de mentiras. Vossa filosofia é uma mentira. Se quereis saber o que realmente é a MAGIA, procurai-a no Apocalipse de São João. (...) Posto que não podeis aprovar que vossos ensinamentos derivam da Bíblia e do Apocalipse, acabai com vossas farsas. A Bíblia é a verdadeira chave e o verdadeiro intérprete. João, não menos do que Moisés. Elias, Enoch, Davi, Salomão, Daniel, Jeremias e os outros profetas, eram um mago, cabalista, um adivinhador. Se todos eles, ou pelo menos um dos que nomeei, vivessem agora, eu não duvidaria que faríeis deles um exemplo em vosso matadouro miserável e os aniquilaríeis e, se fosse possível, o Criador de todas as coisas também!"

Paracelso demostrou na prática que aprendeu algumas coisas misteriosas e úteis do Apocalipse e de outros livros da Bíblia, bem como da Cabala; e tanto o fez, que é chamado por muitos de o "pai da magia e fundador da física oculta da Cabala e do Magnetismo".

O DIABO SEGUNDO O VELHO TESTAMENTO, E SEU CONCEITO MODERNO.

Essa extensa ilustração pode mostrar que o Satã do Velho Testamento, o Diabolos ou Diabo dos Evangelhos e das Epístolas são personificações do princípio antagônico da matéria, necessariamente inerente a ele, e não mau no sentido moral do termo. Os judeus, vindo do país persa, trouxeram consigo a doutrina de dois princípio. Não puderam trazer o Avesta, pois ele não estava escrito. Mas eles - queremos dizer os assideus [chasîdîm] e parsis - investiram Ormuzd com o nome secreto de Ahriman, com o nome dos deuses do lugar, Satã dos hititas e Diabolos, ou antes Diobolos, dos gregos. A Igreja primitiva, pelo menos sua parte paulina, a dos gnósticos e seus sucessores refinaram posteriormente as suas idéias e a Igreja católica as adotou, enquanto passava pelo fio da espada os seus promulgadores.

A Igreja protestante é uma reação contra a Igreja Católica Romana. Não é necessariamente coerente em suas partes, mas uma multidão de fragmentos que se chocam ao redor de um centro comum, atraindo-se e repelindo-se. Algumas partes se dirigem centripetamente para Roma, ou para o sistema que fez a velha Roma existir; outras ainda são empurradas pelo impulso centrífugo para longe da ampla região etérea de Roma, ou mesmo da influência cristã.

O Diabo moderno é o legado principal da Cibele romana, "Babilônia, a Grande Mãe das religiões idólatras e abomináveis da terra".

Mas talvez se pudesse argumentar que a teologia hindu, tanto bramânica quanto budista, está tão impregnada da crença em diabos objetivos quanto a própria cristandade. Há uma pequena diferença. A sutiliza mesma da mente hindu é uma garantia suficiente de que as pessoas educadas, a porção mais culta pelo menos dos teólogos bramânicos e budistas, consideram o diabo segundo uma outra luz. Para elas o Diabo é uma abstração metafísica, uma alegoria do mal necessário; ao passo que para os cristãos o mito se tornou uma entidade histórica, a pedra fundamental sobre a qual se erigiu a Cristandade, com seu dogma de redenção. Ele é tão necessário - como o mostrou des Mousseaux - para a Igreja, quanto a vesta do capítulo dezessete do Apocalipse para seu leitor. Os protestantes de fala inglesa, não considerando a Bíblia suficientemente explicativa, adotaram a Diabologia do celebrado poema de Milton, Paradise Lost, embelezando-a aqui e ali com trechos extraídos do celebrado poema de Fausto, de Goethe. John Milton, primeiramente um puritano e depois quietista e unitário, sempre considerou sua grande produção como uma obra de ficção, ainda que ajustada às linhas gerais de diferentes partes da Escritura. O Ialdavaôth dos ofitas foi transformado num anjo de luz e na estrela da manhã e feito o Diabo, no primeiro ato do Diabolic Drama. Assim, o capítulo doze do Apocalipse foi traduzido para o segundo ato. O grande Dragão vermelho foi identificado com a mesma ilustre personagem de Lúcifer, e a última cena é a sua queda, como a de Vulcano-Hefaistos, do Céu, para a ilha de Lemnos; as hostes fugitivas e seu líder "caem no abismo tenebroso" do Pandemonium. O terceiro ato é o Jardim do Éden. Satã preside um concílio num salão erigido por ele para seu novo império e determina empreender uma expedição exploradora à procura do novo mundo. O ato seguinte refere-se à queda do homem, sua passagem pela Terra, o advento do Logos, ou Filho de Deus, e sua redenção da Humanidade, ou sua porção eleita, como se deu.

A MAGIA NOS TEMPOS.

Talvez devamos dar uma breve notícia do Diabo europeu. Ele é o gênio que intervém na bruxaria, na feitiçaria e em outros malefícios. Os padres, tomando a idéia dos fariseus, transformaram em diabos os deuses pagãos, Mithra, Serapis e outros. A Igreja Católica Romana denunciou a adoração antiga como comércio com os poderes da escuridão. Os malefici e as feiticeiras da Idade Média eram nada menos do que adeptos da adoração proscrita. A Magia nos tempos antigos fora considerada como ciência divina, sabedoria e conhecimento de Deus. A arte de curar nos templos de Esculápio e nos santuários do Egito e do Oriente sempre foi magia. Até mesmo Darius Hystaspes, que exterminou os magos medos e expulsou, da Babilônia para a Ásia Menor, os teurgos caldaicos, fora instruído pelos brâmanes da Ásia Superior e, finalmente, estabelecia o culto de Ormusde, foi ele próprio denominado de instituidor do magismo. Tudo agora está mudado. A ignorância foi entronizada como a mãe da devoção. A erudição foi condenada e os sábios prosseguiram em sua obra científica como o perigo de suas vidas. Foram obrigados a expor suas idéias em uma linguagem enigmática compreendida apenas pelos seus adeptos e a aceitar o opróbio, a calúnia e a pobreza. Os fieis da adoração antiga foram perseguidos e condenados à morte por feiticeiros. Os albigenses, descendentes dos gnósticos, e os waldenses, precursores dos protestantes, foram caçados e exterminados sob acusação semelhante. O próprio Martinho Lutero foi acusado de conivência com Satã em pessoa. Todo o mundo protestante ainda está sob o peso da mesma imputação. Não há distinção nos julgamentos da Igreja entre dissensão, heresia e feitiçaria. E, exceto onde a autoridade civil lança sua proteção, eles representam ofensas capitais. A liberdade religiosa é vista pela Igreja como intolerância.

OS PRIMEIROS SÉCULOS CRISTÃOS E OS PRIMEIROS EVANGELHOS.

Relatada a biografia do Diabo desde seu primeiro acidente na Índia e na Pérsia, seu progresso entre os judeus e na teologia cristã antiga e recente até as últimas fases da sua manifestação, examinemos agora algumas opiniões dominantes nos primeiros séculos cristãos.

Avatares ou encarnações eram comuns às velhas religiões. Na Índia, os Avatares chegaram a constituir um sistema. Os persas esperavam Saoshyant e os escritores judaicos aguardavam um libertador. Tácito e Suetônio relatam que o Oriente, na época de Agusto, ardia de expectativa por uma Grande Personagem. "Assim, doutrinas tão óbvias para os cristãos eram os arcanos supremos do Paganismo". O Maneros de Plutarco era um menino de Palaestinus; seu mediador Mithras, o Salvador Osíris, é o Messias. Nas nossas "Escrituras canónicas" atuais descobrem-se os vestígios das adorações antigas; e nos ritos e nas cerimônias da Igreja Católica Romana encontramos as formas da adoração budista, suas cerimônias e sua hierarquia. Os primeiros Evangelhos, que já foram tão canónicos quanto os quatro atuais, contêm páginas tomadas quase integralmente das narrativas budistas, como podemos mostrar. Após as provas fornecidas por Burnouf, Cosma de Körös, Beal, Hardy, Schmidt e as traduções do Tripitaka, é impossível duvidar que todo o esquema cristão não emanasse de um outro. Os milagres da "Concepção Milagrosa" e outros incidentes se deixam ver claramente no A Manual of Buddhism, de Hardy [p. 141 e seguintes]. Compreendemos prontamente por que a Igreja Católica Romana está ansiosa para manter o vulgo na ignorância mais completa da Bíblia hebraica e da literatura grega. A Filosofia e Teologia comparada são seus inimigos mais mortais. As falsidades deliberadas de Irineu, Epifânio, Eusébio e Tertuliano tornaram-se uma necessidade.

Naquele tempo, parece que os Livros sibilinos gozavam de muita consideração. Pode-se perceber facilmente que eles foram inspirados na mesma fonte de onde brotaram as obras gentias.

Eis uma página de Gallaeus:

"Uma Nova Luz surgiu
Que, descendo do Céu, assumiu forma mortal.
Primeiro Gabriel apresentou sua poderosa pessoa sagrada,
Depois, dando a mensagem, dirigiu-se com palavras à Virgem:
Virgem, recebe Deus em teu peito puro. (...)
E a coragem voltou a ela e a PALAVRA entrou em seu útero.
Tornando-se encarnado e animado por seu corpo,
Formou-se uma imagem mortal e um MENINO foi criado
Por um parto da Virgem. (...)
A nova estrela enviada por Deus foi adorada pelos Magos.
A criança envolta em panos foi mostrada numa manjedoura ao obediente a Deus
Belém foi chamada `terra divina' da Palavra".

À primeira vista, essa passagem parece uma profecia do nascimento de Jesus. Mas não poderia ela referir-se a algum outro Deus criador? Temos expressões análogas relativas a Baco e a Mithras.

"Eu, filho de Zeus, vim ao país dos tebanos. Sou Baco, a quem partiu Semelê [a virgem], filha de Cadmo [o homem do Oriente], e, engendrado pela chama portadora do raio, assumi forma em vez de divina."

As Dionisíacas, escritas no século V, são úteis para tornar essa matéria mais clara e até mesmo para pôr em relevo sua conexão estreita com a lenda cristã do nascimento de Jesus:

"Perséfone-Vrigem, não escapaste do casamento
E foste esposada nos epitalâmios do Dragão
Quando Zeus, todo enrolado e de aparência modificada,
Um Dragão-noivo transbordante de amor,
Deslizou para teu leito virginal
Agitando a barbas ásperas. (...) Pelos esponsais dracontianos etéreos,
O útero de Perséfone foi agitado por um jovem frutuoso.
E nasceu Zagreus, o Menino coroado de chifres."

Temos aqui o segredo da adoração ofita e a origem da fábula cristã posteriormente revisada da concepção imaculada. Os gnósticos foram os primeiros cristãos a possuir algo como um sistema teológico regular e é bastante evidente que Jesus é que foi adaptado para Cristos em sua teologia, e não foi a sua teologia que se desenvolveu a partir dos seus ditos e das suas ações. Seus ancestrais afirmam, antes da era cristã, que a Grande Serpente - Júpiter, o Dragão da Vida, o Pai e a "Divindade do Bem" - deslizara para o leito de Semelê e os gnósticos pré-cristãos, com uma modificação muito insignificante, aplicaram a mesma fábula ao homem Jesus e afirmaram que a mesma "Divindade do Bem", Saturno (Ialdabaôth), na forma do Dragão da Vida, deslizou por sobre o leito da menina Maria. A seus olhos, a Serpente era o Logos - Cristos, a encarnação da Sabedoria Divina, por meio de seu Pai Ennoia e sua Mãe Sophia.

"Agora minha mãe o Espírito Santo me tomou", diz Jesus no Evangelho dos Hebreus, assumindo seu papel de Cristos - o Filho de Sophia, o Espírito Santo.

"O Espírito Santo descerá sobre ti e o PODER do Supremo te cobrirá da sua sombra; e por isso mesmo a coisa santa que há de nascer de ti será chamada de Filho de Deus", diz o anjo (Lucas, I, 35).

"Deus (...) nos falou nestes dias por seu Filho, ao qual apontou como herdeiro de todas as coisas, e por quem fez os Aeons. (Emanações)."

Todas essas expressões são variações cristãs do versículo de Nonnus "(...) por meio do dracônteo etéreo", pois Éter é o Espírito Santo ou a terceira pessoa da Trindade - a Serpente com cabeça de falcão, o Kneph egípcio, emblema da Mente Divina, e a alma universal de Platão.
"Eu (Sabedoria) saí da boca do Altíssimo e cobri com nuvem toda a terra."

Poimandres, o Logos, surge da Escuridão Infinita e cobre a terra com nuvens que, em forma de serpente, se espalham por sobre toda a Terra. O Logos é a mais velha imagem de Deus e é o Logos ativo, diz Filo. O Pai é o Pensamento Latente.

Sendo esta idéia universal, encontramos uma fraseologia idêntica para expressa-la entre os pagãos, os judeus e os cristãos primitivos. O Logos caldaico - persa é o Primogênito do Pai na cosmogonia babilônica de Eudemus. O "Hino a Eli, filho de Deus", inicia um hino homérico ao Sol. Sôl-Mithra é uma "imagem do Pai", com o cabalístico Zeir-Anpîn.

Parece impossível, e todavia esta é a triste realidade, que, entre todas as várias nações da Antigüidade, não houve uma só que acreditasse num diabo pessoal mais do que os cristãos liberais do século XIX. Nem os egípcios, que Porfírio chama de "a mais erudita nação do mundo, nem os gregos, seus fiéis imitadores, caíram em absurdo tão grande. Podemos acrescentar que nenhum deles, nem mesmo ou judeus antigos, acreditou no inferno ou numa condenação eterna mais do que no Diabo, embora nossas igrejas cristãs atribuam ao demônio tudo quanto se relacione com os gentios. Em todo lugar em que a palavra "inferno" ocorre nas traduções dos textos sagrados hebraicos, ela está distorcida. Os hebreus ignoravam essa idéia, mas os Evangelhos contêm exemplos freqüentes de compressões erradas. Assim, quando Jesus diz (Mateus, XVI, 18) "(...) e as portas do Hades não prevalecerão contra ela", o texto original apresenta "as portas da morte". Em nenhum lugar aparece a palavra "inferno" - aplicada com o significado de condenação, seja temporária ou eterna - utilizada no Velho Testamento com o sentido que lhe deram os forjadores desse dogma. "Tophet", ou "o Vale do Hinnom" não tem esse significado. O termo grego "Gehenna" tem um sentido bastante diferente e equivalente, na opinião de escritores competentes, ao Tártaro homérico.

O próprio Pedro nos dá prova desse fato. Em sua segunda Epístola (II, 4), o Apóstolo, no texto original, diz sobre os anjos pecadores, que Deus "os lançou ao Tártaro". Essa expressão, que lembra muito inconvenientemente a guerra entre Júpiter e os Titãs, foi alterada e agora, na versão do rei James, apresenta "os lançou no inferno".

No Velho Testamento as expressões "portas da morte" e "câmaras da morte" aludem simplesmente às "portas do túmulo", mencionadas especificamente nos Salmos e nos Provérbios. O inferno e seu soberano são ambos invenções do Cristianismo, contemporâneos do seu poder e do recurso à tirania. São alucinações nascidas dos pesadelos dos Antônios do deserto. Antes da nossa era, os sábios antigos conheciam o "Pai do Mal" e não o tratavam senão como asno, o símbolo escolhido de Typhon, "o Diabo". Triste degeneração de cérebros humanos!

Assim como Typhon era a sombra escura de seu irmão Osíris, Python é o lado mau de Apolo, o brilhante deus das visões, o vidente e adivinho. É o morto por Python, mas mata-o por sua vez, redimindo a Humanidade do pecado. Foi em memória dessa façanha que as sacerdotisas do deus-Sol se vestiam com peles de serpente, típicas do fabuloso monstro. Sob sua poderosa influência - a pele da serpente era considerada magnética -, as sacerdotisas caiam em transes magnéticos e "recebiam de Apolo as suas vozes", tornavam-se proféticas e proferiam oráculos.

Além disso, Apolo e Python são apenas um, e moralmente andróginos. As idéias do deus-Sol são todas duais, sem exceção. O Calor benéfico do Sol traz o germe à existência, mas o calor excessivo mata a planta. Quando toca a lira planetária de sete cordas, Apolo produz a harmonia; mas, como outros deuses-sóis, sob seu aspecto sombrio ele se torna o destruidor, Python.

Sabe-se que São João viajou pela Ásia, uma região governada pelos magos e imbuída de idéias zoroastrinas e, naqueles dias, repleta de missionários budistas. Se ele não tivesse visitado esses lugares e entrando em contato com os budistas, seria duvidoso acreditar que o Apocalipse pudesse ter sido escrito. Além das suas idéias do dragão, dá narrativas proféticas inteiramente desconhecidas dos outros apóstolos e que, relativas ao segundo advento, fazem de Cristo uma cópia fiel de Vishnu.

Assim, Ophios e Ophiomorphos, Apolo e Pyton, Osíris e Typhon e Cristos e a Serpente são termos equivalentes. Todos eles são Logos e um é ininteligível sem o outro, como não se poderia saber o que é dia, se não se conhecesse a noite. Todos são regeneradores e salvadores, um num sentido espiritual, o outro num sentido físico. Um assegura a imortalidade para o Espírito Divino; o outro a concede através da regeneração da semente. O Salvador da Humanidade tem de morrer, porque ele oculta à Humanidade o grande segredo do ego imortal; a serpente do Gênese é amaldiçoada porque disse à matéria "não morrerás". [III, 4]. No mundo do Paganismo, a contrapartida da "serpente" é o segundo Hermes, a reencarnação de Hermes Trismegistro.

Hermes é o companheiro constante e o instrutor de Osíris e Ísis. É a sabedoria personificada; como Caim, o filho do "senhor". Ambos construíram cidades, civilizaram e instruíram a Humanidade nas artes.

A ORIGEM DO MITO DO DRAGÃO.

A origem do mito do "Dragão", que ocupa um lugar importante no Apocalipse e na Lenda dourada, e da fábula sobre Simão Estilita convertendo o Dragão e inegavelmente budista e até mesmo pré-budista. Foram as doutrinas puras de Gautama que atraíram para o budismo os cachemirianos cuja adoração primitiva era a ofita, ou a adoração da Serpente. O olíbano e as flores substituíram os sacrifícios humanos e a crença em demônios pessoais. O Cristianismo herdou a degradante superstição de diabos investidos de poderes pestilentos e assassinos. O Mahâvansa, o mais antigo dos livros cingaleses, relata a história do rei Covercapal (cobra-de-capelo), o deus-serpente, que foi convertido para o budismo por um santo Rahat *; e desta lenda derivou seguramente a de Simão Estilita e seu Dragão, que faz parte da Lenda Dourada. * (Deixamos aos arqueólogos e aos filósofos a tarefa de decidir como a adoração de Nâga ou da Serpente pôde viajar da Cachemira para o México e se transformar na adoração do Nagal, que é também uma adoração da Serpente, e numa doutrina de licantropia.)

O Logos triunfa uma vez mais sobre o Dragão; Miguel, o arcanjo luminoso, chefe dos Aeons, vence Satã. * (Miguel, o chefe dos Aeons, também é "Gabriel, o mensageiro da Vida" dos nazarenos e o Indra hindu, o chefe dos Espíritos do bem, que venceram Vâsuki, o Demônio que se revoltou contra Brahmâ.)

É digno de menção o fato de que, enquanto o iniciado mantiver em segredo "o que sabe", ele estará perfeitamente seguro. Isso acontecia nos tempos antigos e acontece agora. Tão logo o Deus dos cristãos, emanado do Silêncio, se manifestava como a Palavra ou Logos, este último se tornava a causa de sua morte. A serpente é o símbolo da sabedoria e da eloqüência, mas é também o símbolo da destruição. Ousar, conhecer, querer e calar" são os axiomas caldeais dos cabalistas. Como Apolo e outros deuses, Jesus é morto por seu Logos *; ele se ergue novamente, mata-o por sua vez e se torna seu senhor. * (Ver o amuleto gnóstico chamado "Serpente Chnuphis", no ato de erguer sua cabeça coroada como as sete vogais, que são o símbolo cabalístico que significa "dom da fala para o homem", ou Logos.)

E agora que mostramos essa identidade entre Miguel e Satã e os Salvadores e Dragão de outros povos, o que pode ser mais claro do que todas essas fábulas filosóficas originadas na Índia, esse viveiro universal do misticismo metafísico? "O mundo", diz Ramatsariar em seus comentários sobre os Vedas, "começou com uma luta entre o Espírito de Deus e o Espírito do Mal, e em luta há de acabar. Após a destruição da matéria, o mal não mais existirá, deverá voltar ao nada".

Na sua Apologia, Tertuliano falsifica evidentemente toda doutrina e toda crença dos pagãos relativas aos oráculos e aos deuses. Chama-os, indiferentemente, de demônios e de diabos, acusando estes últimos de possuírem até mesmo as aves do ar! Que cristão ousaria duvidar de tal autoridade? Não afirmou o salmista que "Todos os deuses das nações são ídolos" e não explicou o Anjo das Escolas, Tomás de Aquino, com sua autoridade cabalística, a palavra ídolos por diabos? "Eles vêem até os homens", diz ele, "e os incitam a adora-los, valendo-se de certas obras que parecem milagrosas".

Max Müller diz que a serpente do Paraíso é uma concepção que deve ter brotado entre os judeus e "dificilmente parece convidar a uma comparação com as concepções mais grandiosas do poder terrível de Vritra e de Ahriman no Veda e no Avesta". Para os cabalistas, o Diabo foi sempre um mito - o aspecto invertido de Deus ou do bem. O Mago moderno, Éliphas Lévi, chama o Diabo de l'ivresse astrale. É uma força cega com a eletricidade, diz ele: e, falando alegoricamente, como sempre fez, Jesus observou que ele "considerava Satã como se fosse um raio caído do Céu".

Muito embora o catecismo cristão nos ensine que Satã in própria persona tentou nossa primeira mãe, Eva, num paraíso real, e na forma de uma serpente, que de todos os animais era o mais insinuante e o mais fascinante! Deus ordena a ela, como castigo, arrastar-se eternamente sobre seu ventre, e comer a poeira do chão. "Uma sentença", observa Lévi, "que em nada se parece às tradicionais chamas do inferno". Não levaram em consideração os autores dessa alegoria que a serpente zoológica real, criada antes de Adão e Eva, arrastava-se sobre seu ventre e comia a poeira do chão, antes que existisse qualquer pecado original.

Por outro lado, não foi Ophion, o Daimôn ou Diabo, como Deus, chamado Dominus? A palavra Deus (deidade) deriva da palavra sânscrita Deva, e Diabo provêm do persa deva palavra substancialmente semelhante. Hércules, filho de Jove e de Alcmena, um dos deuses-sóis mais elevados e também o Logos manifesto, e, não obstante, representado numa dupla, como todos os outros.

O Agathodaimôn, o daemon beneficente, o mesmo que encontramos posteriormente entre os ofitas com a denominação de Logos, ou sabedoria divina, era representado por uma serpente que se mantinha ereta sobre uma vara, nos mistérios das Bacanais. A serpente com cabeça de falcão está entre os emblemas egípcios mais antigos e representa a mente divina, diz Deane.

No Velho Testamento, Jeová exibe todos os atributos do velho Saturno, apesar de suas metamorfoses de Adonais em Elói e em Deus dos Deuses, Senhor dos Senhores.

A TENTAÇÃO DE JESUS, E A DE BUDDHA.

Jesus é tentado na montanha pelo Diabo, que lhe promete reinos e glórias se prostasse e o adorasse (Mateus IV, 8, 9). Buddha é tentado pelo Demônio Wasawartti-Mâra, que lhe diz, no momento em que deixava o palácio de seu pai: "Fica, que possuíras as honras que estiverem ao teu alcance; não vás!" E com a recusa de Gautama em aceitar suas ofertas, rangeu seus dentes com raiva e prometeu vingar-se. Como Cristo, Buddha triunfa sobre o Diabao.

Nos mistérios báquicos, um cálice consagrado, chamado cálice de Agathodaimôn, passava de mão em mão entre os fieis após o jantar. O rito ofita de mesma descrição foi evidentemente tomado desse mistério. A comunhão, que consistia de pão e vinho, foi usada na adoração de quase todas as divindades importantes.

DIVINDADES PAGÃ QUE DESCERAM AO INFERNO.

Em relação com muitas divindades pagãs que, após a morte, e antes de sua ressurreição, desceram ao Inferno, seria útil comparar as narrativas pré-cristãs com as pós-cristãs. Orfeu fez a sua viagem, e Cristo foi o último desses viajantes subterrâneos. No Credo dos Apóstolos, que está dividido em doze frases ou artigos, que foram inseridos cada um por um apóstolo em paticular, segundo Santo Agostinho, a frase "Desceu ao inferno, no terceiro dia ressurgiu dos mortos" é atribuída a Tomé, talvez como uma expiação da sua incredulidade. Seja como for, diz-se que a frase é uma falsificação e não há evidência "de que esse Credo tenha sido modelado pelos apóstolos, ou pelo menos que existisse como credo em sua época".

Trata-se da adição mais importante que foi efetuada no Credo dos Apóstolos e data do ano 600. Esse artigo não era conhecido na época de Eusébio. O Bispo J. Pearson diz que ele não fazia parte dos credos antigos ou das regras de fé. Irineu, Orígens e Tertuliano não parecem conhecê-lo. Não é mencionado em nenhum dos Concílios realizados antes do século VII. Theodoret, Epifânio e Sócrates silenciam-se a seu respeito. Difere do credo de Santo Agostinho. Rufino afirma que, em sua época, ele não constava nem dos credos romanos nem dos orientais. Mas o problema se resolve quando lemos que séculos atrás Hermes falou da seguinte maneira a Prometeu, acorrentado no rochedo árido do Cáucaso:
"Teu tormento não cessará ATÉ QUE DEUS O SUBSTITUA EM TUA AFLIÇÃO E DESÇA AO LÚGUBRE HADES E ÀS PROFUNDEZAS SOMBRIAS DO TÁRTARO!"

Esse deus era Hércules, o "Unigênito", e o Salvador. E é ele que foi escolhido como modelo pelos padres engenhosos. Hércules - chamado Alexikakos porque converteu os malvados à virtude; Soter, ou Salvador, também chamado Neulos Eumêlos - o Bom Pastor, Astrochitôn, o vestido de estrelas, e o Senhor do Fogo. "Ele não sujeitou as nações pela força, mas pela sabedoria divina e pela persuasão", diz Luciano. "Hérules disseminou cultura e uma religião suave e destruiu a doutrina da punição eterna expulsando Cérbero (o Diabo pagão) do mundo inferior." E, como vemos, foi também Hércules quem libertou Prometeu (o Adão dos pagãos), pondo um fim à tortura infligida a ele por transgressões, descendo ao Hades e ao Tártaro. Como Cristo, ele apareceu como um substituto para as aflições da Humanidade, oferecendo-se em sacrifício numa pira funerária. "Sua imolação voluntária", diz Bart, "augurou o novo nascimento etéreo dos homens. (...) Com a libertação de Prometeu, e a ereção de altares, vemos nele um mediador entre os credos antigos e os novos. (...) Ele aboliu o sacrifício humano onde quer que fosse praticado. Desceu ao reino sombrio de Plutão, como uma sombra (...) ascendeu como espírito a seu pai, Zeus, no Olimpo".

A Antigüidade estava tão marcada pela lenda de Hércules, que até mesmo os judeus monoteístas (?) daquela época, para não serem ultrapassados pelos seus contemporâneos, utilizaram-na na manufatura das fábulas originais. Hércules é acusado, em sua mitobiografia, de uma tentativa de roubo do oráculo de Delfos. No Sepher Toledoth Yeshu, os Rabinos acusam Jesus de roubar do seu Santuário o Nome Inefável!

A ADORAÇÃO DE BAAL PELOS ISRAELITAS.

Já se provou que os israelitas adoravam Baal, o Baco sírio, ofereciam incenso à serpente sabaziana ou esculápia e realizavam os mistérios dionisíacos. Mas, como poderia ser de outra maneira, se Typhon era chamado Typhon Sete, e Seth, o filho de Adão, é idêntico a Satã ou Sat-an, e se Seth era adorado pelos hititas? Menos de dois séculos a. C., os judeus reverenciavam ou simplesmente adoravam a "cabeça dourada de um asno" em seu templo; de acordo com Apion, Antíoco Epifanes levou-o consigo. E Zacarias ficou mudo quando da aparição da divindade sob a forma de um asno no templo!.

Pleyte declara que El, o Deus-Sol dos sírios, dos egípcios e dos semitas, não é outro senão Set ou Seth, e que El é o Saturno primordial - Israel. Shiva é um Deus etiópio, da mesma forma que o Baal caldaico - Bel; portanto, ele também é Saturno. Saturno, El, Seth e Khîyûn, ou o Chiun bíblico de Amos, são uma única e mesma divindade e podem ser vistos no seu aspeto pior como Typhon, o Destruidor. Quando o panteão religioso assumiu uma expressão mais definida, Typhon foi separado do seu andrógino - a divindade boa - e caiu em degradação como um poder intelectual brutal.

Essas reações nos sentimentos religiosos de uma nação eram freqüentes. Os judeus adoraram Baal ou Maloch, o Deus-Sol Hércules, nos seus tempos primitivos - se é que tiveram tempos mais primitivos do que os persas e os macabeus - e então fizeram os seus profetas denuncia-los. Por outro lado, as características do Jeová mosaico exibiam mais da disposição moral de Shiva, do que um Deus benevolente e "que sofreu muito". Além disso, ser idêntico a Shiva não é pequena cortesia, pois ele é o Deus da sabedoria. Wilkinson descreve-o como o mais intelectual dos deuses hindus. Ele tem três olhos e, como Jeová, é terrível em sua vingança e sua cólera, às quais não se pode resistir. E, embora seja o Destruidor, é o "recriador de todas as coisas com perfeita sabedoria". É o tipo do Deus de Santo Agostinho que "prepara o inferno para os que espreitam os seus mistérios" e põe à prova a razão humana forçando-a a considerar, na mesma medida, suas boas e más ações.

Apesar das provas numerosas de que os israelitas adoravam um variedade de deuses e ofereciam sacrifícios humanos até um período posterior aos sacrifícios realizados pelos seus vizinhos pagãos, eles conseguiram esconder tais verdades à Humanidade. Sacrificaram vidas humanas até 169 a.C., e a Bíblia registra um grande número dessas ocorrências. Numa época em que os pagãos haviam abandonado essa prática abominável e haviam substituído o homem sacrificial por um animal, surge Jefté sacrificando sua própria filha em holocausto ao "Senhor".

A pluralidade dos deuses de Israel, está manifesta nessas denúncias. Seus profetas nunca aprovaram a adoração sacrifial. Samuel negou que o Senhor se agradasse com holocaustos e vítimas (I Samuel, XV, 22). Jeremmiasd afirmou, inequivocamente, que o Senhor, Yava Tsabaôth Elohe Israel, nunca exigiu nada desse tipo, mas exatamente o contrário (VII, 21-4).

Mas esses profetas que se opuseram aos sacrifícios humanos eram todos eles nazar e iniciados. Esses profetas comandavam um oposição nacional aos sacerdotes, como mais tarde os gnósticos combateram os padres cristãos. É por essa razão que, quando a monarquia foi dividida, encontramos os sacerdotes em Jerusalém e os profetas no país de Israel. Até mesmo Acab e seus filhos, que introduziram a adoração tíria de Baal-Hércules e das deusas sírias em Israel, foram auxiliados e encorajados por Elias e Eliseu. Poucos profetas apareceram na Judéia antes de Isaías, depois de derrubada a monarquia setentrional. Eliseu ungiu Jeú, com o propósito de que ele exterminasse as famílias reais de ambos os países e, assim, unisse os povos sob uma única coroa. Quanto ao Templo de Salomão, desconsagrado pelos sacerdotes, nenhum profeta ou iniciado hebraico moveu uma palha sequer. Elias nunca foi lá, nem Eliseu, Jonas, Naum, Amos ou qualquer outro israelita. Enquanto os iniciados aderiam à "doutrina secreta" de Moisés, o povo, levado pelos seus sacerdotes, embebia-se de idolatria, exatamente como os pagãos. Foram as opiniões e interpretações populares de Jeová que os cristãos adotaram.

OS CRISTÃOS PRIMITIVOS.

Pois bem, pode-se perguntar então: "Considerando-se as muitas evidências de que a teologia cristã é apenas uma miscelânea de mitologia pagãs, como relaciona-la à religião de Moisés?" Os cristãos primitivos, Paulo e seus discípulos, os gnósticos e geralmente os seus sucessoras, distinguiram essencialmente Cristianismo e Judaísmo. Este último, na sua opinião, era um sistema antagonístico, e de origem mais baixa. "Vós recebestes a lei", diz Estevão, "por ministério dos anjos", ou Aeons, e não do Altíssimo. Os gnósticos, como vimos, ensinaram que Jeová, a Divindade dos judeus, era Ialdabaôth, o filho do antigo Bohu, ou Caos, o adversário da Sabedoria Divina.

A pergunta pode ser respondida muito facilmente. A lei de Moisés, e o dito monoteísmo dos judeus, dificilmente poderá ser colocada para além de dois ou três séculos antes do advento do Cristianismo. O próprio Pentateuco, podemos demonstrar, foi escrito e revisto depois dessa "nova partida", num período posterior à colonização da Judéia sob a autoridade dos reis da Pérsia. Os padres cristãos, em sua ânsia de harmonizar seu novo sistema com o Judaísmo e assim esvaziar o Paganismo, fugiram inconscientemente de Scylla e foram apanhados pelo remoinho de Charrybdis. Sob o estuco monoteísta do Judaísmo descobriu-se a mesma mitologia familiar do paganismo. Mas não devemos ver os israelitas com mais desaprovação por terem tido um Moloch ou por serem como os nativos. Nem devemos obrigar os judeus a fazer penitência por causa de seus pais. Eles tiveram seus profetas e suas leis e estavam satisfeitos com ambos. O presente testemunha um povo antes glorioso que leal e que nobremente se manteve unido graças à sua fé ancestral por ocasião das perseguições mais diabólicas. O mundo cristão tem estado num estado de convulsão desde o primeiro século até o atual; dividiu-se numa infinidade de seitas; mas os judeus continuam substancialmente unidos. Mesmo as divergências de opinião não destroem sua unidade.

As virtudes cristãs inculcadas por Jesus, no Sermão da Montanha, não são exemplificadas como deveriam ser no mundo cristão. Os ascetas budistas e os faquires indianos parecem ser os únicos que as inculcam e as praticam. Ao passo que os vícios achados, por caluniadores viperinos, ao paganismo são correntes entre os padres cristãos e as Igrejas cristãs.

O grande abismo entre o Cristianismo e o Judaísmo, apoiado na autoridade de Paulo, existe apenas na imaginação do devoto. Somo nada mais, nada menos, do que os herdeiros dos israelitas intolerantes dos tempos antigos; não dos hebreus da época de Herodes e do domínio romano, que, com todas as suas falhas, se mantinham estritamente ortodoxos e monoteístas, mas dos judeus que, sob o nome de Jeová-Nissi, adoravam Baco-Osíris, Dio-Nyssos, o multiforme Jove de Nysa, o Sinai de Moisés. Os demônios cabalísticos - alegorias do significado mais profundo - foram adotados como entidades objetivas e constituíram uma hierarquia satânica cuidadosamente elaborada pelos demonólogos ortodoxos.

A INTERPRETAÇÃO DE "INRI". O MITO DE BACO.

O mote rosicruciano Igne natura renovatur integra [INRI], que os alquimistas interpretam como natureza renovada pelo fogo, ou matéria pelo espírito, tem sido imposto até hoje como Iesus Nazarenus rex Iudeorum. A sátira sarcástica de Pilatos é aceita literalmente e os judeus a tomaram inadvertidamente como reconhecimento da realeza de Cristo; no entanto, se essa inscrição não for uma falsificação feita no período constantiniano, ela será uma ação dirigida a Pilatos, contra quem os judeus foram os primeiros a protestar violentamente. Interpreta-se I. H. S. como Iesus Hominum Salvator e In hoc signo, ao passo que IH∑ e um dos nomes mais antigos de Baco. E mais do que nunca começamos a descobrir, à luz brilhante da Teologia comparada, que o grande propósito de Jesus, o iniciado do santuário interior, era abrir os olhos da multidão fanática para a diferença entre a Divindade suprema - o misterioso e nunca pronunciado IAÔ dos iniciados caldaicos antigos e dos neoplatônicos posteriores - e o Yahuh hebraico, ou Yaho (Jeová). Os Rosa-cruzes modernos, tão violentamente censurados pelos católicos, agora têm atirado contra eles, como a maior das suas responsabilidades, o fato de acusarem Cristo de ter destruído a adoração de Jeová. Melhor fora se ele o tivesse feito, pois o mundo não estaria tão irremediavelmente confuso após dezenove séculos de massacres mútuos, com trezentas seitas brigando entre si e com um Diabo pessoal reinando sobre uma cristandade aterrorizada.

Apoiado na exclamação de Davi, parafraseada na Versão do Rei James como "todos os deuses das nações são ídolos", isto é, diabos, Baco ou o "primogênito" da teogonia órfica - o Monogenes, ou o "unigênito" do Pai Zeus e Lorê - foi transformado, com o restante dos mitos antigos, num diabo. Por meio dessa degradação, os padres, cujo zelo piedoso só poderia ser ultrapassado por suas ignorâncias, forneceram inadvertidamente as provas contra si mesmo.

É o mito de Baco que manteve escondida durante longos e tenebrosos séculos a vindicação futura dos vilipendiados "deuses das nações" e a última chave do enigma de Jeová. A estranha dualidade de caraterísticas divinas e mortais, tão conspícua na Divindade Sinaítica, começa a entregar seu mistério diante da pesquisa incansável de nossa época. Uma das contribuições mais recentes pode ser encontrada num artigo pequeno, mas altamente importante, publicado em The Evolution, um periódico de Nova Yorque, cujo parágrafo final lança um raio de luz sobre Baco, o Jove de Nysa, que foi adorado pelos israelitas como Jeová do Sinai.

"Assim era o Jove de Nysa para os seus adoradores", conclui o autor. "Representava para eles o mundo da natureza do pensamento. Era o `Sol da retidão, que trazia a saúde em suas asas', e não trazia apenas a alegria para os mortais, mas descortinava para eles a esperança que está além da mortalidade da vida imortal. Nascido de uma mãe humana, elevou-a do mundo da morte para o ar superno, para que fosse reverenciada e adorada. Sendo o senhor de todos os mundos, era em todos eles o Salvador.

"Assim era Baco, o Deus-Profeta. Uma mudança de culto, decretada pelo Assassino Imperador Teodósio, por ordem do Padre Espectral Ambrósio de Milão, modificou seu título para Padre das Mentiras. Sua adoração, antes universal, foi denominada pagã ou local, e seus ritos foram estigmatizados como feiticeiros. Suas orgias receberam o nome de Sabbath das Bruxas e sua forma simbólica favorita, o pé bovino, tornou-se a forma representativa moderna do Diabo, com o casco rachado. O pai da família, que antes fora chamado de Beel-zebub, passou a ser acusado de manter relações com os poderes das trevas. Levantaram-se cruzadas, povos inteiros foram massacrados. A sabedoria e a erudição foram condenados como a magia e feitiçaria. A ignorância tornou-se a mãe da devoção hipócrita. Galileu penou durante longuíssimos anos na prisão por ensinar que o Sol era o centro do universo solar. Bruno foi queimado vivo em Roma em 1600 por restaurar a filosofia antiga; mas, apesar de tudo, a Liberlia converteu-se em festa da Igreja. Baco é um santo do calendário repetido quatro vezes e representado em muitos santuários nos braços de sua mãe deificada. Os nomes mudaram, mas as idéias perduraram inalteradas".

BACO - Exotéricamente e superficialmente, é o deus do vinho e da vindima, bem como da devassidão e do alvoroso. Porém, o significado Esotérico desta personificação é mais abstruso e filosófico. É o Osíris do Egito e tanto sua vida quanto sua significação pertencem ao mesmo grupo dos demais deuses solares, todos eles “carregando com a culpa”, mortos e ressuscitados, como por exemplo Dionísio ou Atys de Frígia (Adónis ou o Tammuz sírio), como Ausonius, Baldur etc. Todos eles foram condenados à morte, pranteados e restituídos à vida. As festas em honra de Atys ocorriam nas Hilarias, celebradas na Páscoa “pagã”- o dia 15 de março. Ausonius, uma forma de Baco, era morto no equinócio de primavera (21 de março) e ressuscitava três dias depois. Tammuz, o duplo de Adónis e Atys, era pranteado pelas mulhares num “bosquezinho” que levava seu nome, “além de Beyhlehem, onde chorava o menino Jesus”- diz São Jerônimo. Baco é assassinado e sua mãe recolhe os pedaços de seu corpo dilacerado, como o fez Ísis com os de Osíris e assim sucessivamente. Dionysos Iacchus, destroçado pelos titãs, Osíris, Krishna e todos os demais desceram ao Hades e retornaram. Astronomicamente todos eles representam o Sol; psiquicamente, são emblemas da “Alma” (o Ego em sua reencarnação), que sempre ressuscita; espiritualmente, todas as vítimas propiciatórias inocentes que expiam os pecados dos mortais, seus próprios invólucros terrenos e, na realidade, imagem poetizada do Homem Divino, a forma de barro animada por seus Deus. G. Teosófico E. Grond.)