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domingo, 25 de outubro de 2026

A Religião no Mundo Antigo

 

Religião (do latim Religio, que significa 'restrição', ou Relegere, de acordo com Cícero, que significa 'repetir, releitura' ou, muito provavelmente, Religionem, 'mostrar respeito pelo que é sagrado') é um sistema organizado de crenças e práticas que giram em torno, ou conduzem, a uma experiência espiritual transcendente. Não há cultura na história da humanidade que não tenha praticado alguma forma de religião.

Nos tempos antigos, a religião não se diferenciava do que hoje conhecemos como 'mitologia' e consistia em rituais regulares baseados na crença de entidades sobrenaturais superiores que criaram e continuavam a manter o mundo e o cosmos circundante. Essas entidades eram antropomórficas e se comportavam de modo que espelhavam de perto os valores da cultura (como no Egito), ou às vezes se envolviam em atos contraditórios a esses valores (como é visto com os deuses da Grécia).

A religião, daquela época e de agora, preocupa-se com o aspecto espiritual da condição humana, deuses e deusas (ou um único deus ou deusa pessoal), a criação do mundo, o lugar de um ser humano no mundo, a vida após a morte, a eternidade e como escapar do sofrimento neste mundo ou no próximo; e cada nação criou o seu próprio deus à sua própria imagem e semelhança. O filósofo grego Xenófanes de Cólofon (c. 570-478 a.C.) escreve:

"Os mortais supõem que os deuses nascem e têm roupas, vozes e formas como as suas. Mas se bois, cavalos e leões tivessem mãos ou pudessem pintar com as mãos e realizar trabalhos como os homens, os cavalos pintariam imagens de deuses semelhantes a cavalos, e bois pintariam deuses semelhantes a bois, e cada um moldaria os corpos parecidos aos seus próprios. Os etíopes acreditam em deuses pretos e de narizes achatados; os trácios, em deuses de olhos azuis e cabelos ruivos. (Diógenes Laércio, Vidas)

Xenófanes acreditava que havia "entre os deuses e os homens, um deus, o maior, nada parecido com os mortais no corpo ou na mente", mas ele era a minoria. O monoteísmo não fazia sentido para os povos antigos, exceto para os visionários e profetas do Judaísmo. A maioria das pessoas, pelo menos até onde se pode discernir a partir do registro escrito e arqueológico, acreditava em muitos deuses, cada um dos quais tinha uma esfera especial de influência. Na vida de um indivíduo, não existe um outro indivíduo dedicado a apenas atender as necessidades do primeiro; este interage com muitos tipos diferentes de pessoas, a fim de alcançar a plenitude e ganhar a vida.

Atualmente, durante sua vida, um indivíduo irá interagir com os pais de outro indivíduo, seus irmãos, professores, amigos, amantes, empregadores, médicos, frentistas de posto de gasolina, encanadores, políticos, veterinários, e assim por diante. Nenhuma pessoa pode preencher todos esses papéis ou suprir todas as necessidades de um indivíduo – assim como era nos tempos antigos.

Da mesma forma, os povos antigos acreditavam de que nenhum deus poderia cuidar de todas as necessidades de um indivíduo. Assim como alguém com um cão doente não procuraria um encanador, da mesma forma, alguém com um problema amoroso não procuraria um deus da guerra. Se alguém estivesse sofrendo com um coração partido, procuraria a deusa do amor; se quisesse vencer um combate, só então consultaria o deus da guerra.

Os muitos deuses das religiões do mundo antigo realizaram esta função como especialistas nas suas respectivas áreas. Em algumas culturas, um certo deus ou deusa se tornaria tão popular que transcenderia a compreensão cultural da multiplicidade e assumiria uma posição tão poderosa e abrangente que quase transformaria uma cultura politeísta em henoteísta.

Enquanto politeísmo significa a adoração de muitos deuses, henoteísmo significa a adoração de um deus em muitas formas. Essa mudança de entendimento foi extremamente rara no mundo antigo, e a deusa Ísis e o deus Amon do Egito são provavelmente os melhores exemplos da ascensão completa de uma divindade comum para o (a) criador (a) supremo (a) e sustentador (a) do universo reconhecido (a) em diferentes formas.

Como observado, toda cultura antiga praticava algum tipo de religião, mas não se pode identificar com certeza onde a religião começou. A controvérsia sobre se a religião mesopotâmica inspirou a dos egípcios já dura mais de um século e não está mais perto de ser resolvida do que quando começou. É muito provável que cada cultura tenha desenvolvido a sua própria crença em entidades sobrenaturais para explicar os fenômenos naturais (dia e noite, as estações do ano) ou para ajudar a dar sentido às suas vidas e às incertezas que os seres humanos se deparam diariamente.

Embora tentar traçar as origens da religião possa ser um interessante exercício de intercâmbio cultural, não parece ser um uso muito proveitoso do tempo, quando parece bem claro que o impulso religioso é simplesmente uma parte da condição humana e que diferentes culturas em diferentes partes do mundo poderiam ter chegado às mesmas conclusões sobre o significado da vida independentemente.

Religião na antiga Mesopotâmia

Como acontece com muitas invenções e avanços culturais, o 'berço da civilização' Mesopotâmia tem sido citado como o berço da religião. Não se sabe quando a religião se desenvolveu na Mesopotâmia, mas os primeiros registros escritos da prática religiosa datam de c. 3500 a.C. da Suméria. As crenças religiosas da Mesopotâmia sustentavam que os seres humanos eram cooperadores dos deuses, trabalhavam com eles e para que eles retivessem as forças do caos que haviam sido controladas pelas divindades supremas no início dos tempos. A ordem foi criada a partir do caos pelos deuses, e um dos mitos mais populares que ilustram este princípio fala do grande deus Marduk, que derrotou Tiamat e as forças do caos para criar o mundo. O historiador D. Brendan Nagle escreve:

"Apesar da aparente vitória dos deuses, não havia garantia de que as forças do caos não recuperassem seus poderes e derrubassem a criação organizada dos deuses. Deuses e humanos estavam envolvidos na luta perpétua para conter os poderes do caos, e cada um deles tinha seu próprio papel a desempenhar nesta batalha dramática. A responsabilidade dos habitantes das cidades mesopotâmicas era fornecer aos deuses tudo o que precisavam para governar o mundo.

Os seres humanos foram criados, de fato, com este objetivo: trabalhar junto com os deuses e para os deuses com um propósito benéfico em comum. A afirmação de alguns historiadores de que os mesopotâmicos eram escravos dos seus deuses é insustentável, porque é bem claro que o povo compreendia a sua posição como cooperadores. Os deuses recompensavam os seres humanos pelo seu serviço, cuidando das suas necessidades diárias na vida (como fornecer-lhes cerveja, a bebida dos deuses) e mantendo o mundo em que viviam. Esses deuses conheciam intimamente as necessidades do povo porque não eram entidades distantes que viviam nos céus, mas habitavam em casas na terra construídas para eles por seu povo; essas casas eram os templos que foram erguidos em cada cidade da Mesopotâmia.

Os complexos de templos, dominados pelo imponente zigurate, eram literalmente consideradas as casas dos deuses e suas estátuas eram alimentadas, lavadas e vestidas diariamente, enquanto os sacerdotes e sacerdotisas cuidavam deles como se fossem reis ou rainhas. No caso de Marduk, por exemplo, sua estátua foi carregada para fora de seu templo durante o festival em homenagem a ele e através da cidade de Babilônia para que ele pudesse apreciar sua beleza enquanto desfrutava do sol e ar fresco.

Inana era outra divindade poderosa que era muito reverenciada como a deusa do amor, sexo e guerra, e cujos sacerdotes e sacerdotisas cuidavam fielmente de sua estátua e templo. Inana é considerada um dos primeiros exemplos da figura de deus que morre e ressuscita, que desce ao submundo e retorna à vida, trazendo fertilidade e abundância à terra. Ela era tão popular que seu culto se espalhou da região sul da Suméria para toda a Mesopotâmia. Ela se tornou Ishtar dos acadianos (e mais tarde os assírios), Astarte dos fenícios, Sauska dos Hurritas-hititas, e foi associada a Afrodite dos gregos, Ísis dos egípcios e Vênus dos romanos.

Os templos foram o centro da vida da cidade ao longo da história da Mesopotâmia, desde o Império Acadiano (c. 2334-2150 a.C.) até o Assírio (c. 1900-612 a.C.) e dali em diante. O templo servia em múltiplas funções: o clero distribuía cereais e bens excedentes aos pobres, aconselhava os necessitados, prestava serviços médicos e patrocinava as grandes festas que honravam os deuses. Embora os deuses cuidassem bem dos humanos enquanto viviam, a vida após a morte da Mesopotâmia era um submundo sombrio, localizado sob as montanhas distantes, onde as almas bebiam água estragada das poças e comiam poeira por toda a eternidade na 'terra sem volta'. Essa visão sombria de sua morada eterna era notadamente diferente da dos egípcios, bem como de seus vizinhos, os persas.

Antiga Religião Persa

A religião primitiva dos persas chegou ao Planalto Iraniano com as migrações dos arianos (devidamente entendidos como Indo-Iranianos) algum tempo antes do terceiro milênio a.C. A fé primitiva era politeísta com um deus supremo, Ahura Mazda, presidindo divindades menores. Entre os mais populares deles estava Atar (Deus do fogo), Mitra (Deus do sol nascente e das Alianças), Hvar Khshsata (Deus do sol pleno) e Anahita (deusa da fertilidade, água, saúde, cura e sabedoria). Esses deuses representavam as forças da bondade e da ordem contra os espíritos malignos da desordem e do caos.

Em algum ponto entre 1500-1000 a.C., O Profeta e visionário Zoroastro (ou Zaratustra) reivindicou uma revelação de Ahura Mazda através da qual ele entendeu que este deus era o único ser supremo, criador do universo e sustentador da ordem, que não precisava de outros deuses além dele. A visão de Zoroastro se tornaria a religião do Zoroastrismo – uma das mais antigas do mundo ainda praticadas nos dias atuais.

De acordo com esta crença, o propósito da vida humana é escolher entre seguir Ahura Mazda e o caminho da verdade e da ordem (Asha) ou seguir seu eterno adversário, Angra Mainyu (ou Ahriman) e o caminho das mentiras e do caos (Druj). Os seres humanos eram considerados inerentemente bons e possuindo livre arbítrio para escolher entre esses dois caminhos; dependendo da escolha que a pessoa fizesse, isso moldaria sua vida e indicaria seu destino após a morte. Quando uma pessoa morria, atravessava a Ponte Chinvat, onde era julgada.

Aqueles que viviam uma vida boa de acordo com os preceitos de Ahura Mazda eram recompensados com vida contínua no paraíso da Casa da Canção, enquanto aqueles que se deixavam enganar por Angra Mainyu eram jogados no inferno da Casa das Mentiras (druj-demana) onde eram torturados implacavelmente e, embora cercados por outras almas sofredoras, sentiriam-se eternamente sozinhos.

Embora os estudiosos frequentemente caracterizem o Zoroastrismo como uma religião dualista, parece claro que Zoroastro fundou uma fé monoteísta focada em uma única deidade todo-poderosa. Os aspectos dualistas da religião apareceram mais tarde na chamada heresia do Zorvanismo que fez Ahura Mazda e Angra Mainyu irmãos, filhos de Zorvan (tempo) e o próprio tempo tornou-se o poder supremo através do qual todas as coisas surgiram e faleceram.

O Zoroastrismo também sustentava que um Messias viria em alguma data futura (conhecido como Saoshyant - Aquele Que Traz Benefício) para redimir a humanidade em um evento conhecido como Frashokereti que foi o fim dos tempos e trouxe união com Ahura Mazda. Esses conceitos influenciariam as religiões posteriores do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. A crença em um único deus, diferente dos seres humanos e todo-poderoso, também pode ter influenciado a religião egípcia durante o Período de Amarna, no qual o Faraó Akhenaton (R. 1353-1336 a.C.) aboliu os rituais e práticas tradicionais egípcias e os substituiu por um sistema monoteísta focado no único deus, Áton.

Religião no Egito

A religião egípcia era semelhante à crença mesopotâmica no sentido de que os seres humanos colaboravam com os deuses para manter a ordem. O princípio da harmonia (conhecido pelos egípcios como ma'at) era muito importante na vida egípcia (e na vida após a morte), e sua religião estava totalmente integrada em todos os aspectos da existência. A religião egípcia era uma combinação de magia, mitologia, ciência, medicina, psiquiatria, espiritualismo, herbologia, bem como a compreensão moderna de 'religião' como crença em um poder superior e uma vida após a morte. Os deuses eram amigos dos seres humanos e buscavam apenas o melhor para eles, fornecendo-lhes a mais perfeita de todas as terras para viver e um lar eterno para desfrutar quando suas vidas na terra terminassem.

Esse sistema de crenças continuaria, com vários desenvolvimentos, através da longa história do Egito, apenas interrompido pelas reformas religiosas de Akhenaton durante seu reinado. Após sua morte, a antiga religião foi restaurada por seu filho e sucessor Tutancâmon (r.C. 1336 a c. 1327 a.C.), que reabriu os templos e reacendeu os antigos rituais e costumes.

Os primeiros registros escritos da prática religiosa egípcia datam de cerca de 3400 a.C. no período pré-dinástico no Egito (c. 6000 a.C. 3150 a.C.). Divindades como Ísis, Osíris, Ptah, Hathor, Atum, Set, Néftis e Hórus já estavam estabelecidas como forças poderosas a serem reconhecidas bem cedo. O mito da criação egípcia é semelhante ao início da história da Mesopotâmia, em que originalmente havia apenas águas caóticas e lentas. Tal oceano estava sem limitações, era raso e silencioso até que, sobre a sua superfície, se ergueu uma colina de terra (conhecida como ben-ben, o monte primordial que, imagina-se, as pirâmides simbolizam) e o grande deus Atum (o sol) estava sobre o ben-ben e falou, dando à luz o deus Shu (do ar), a deusa Tefnut (da umidade), o deus Geb (da terra) e a deusa Nut (do céu). Ao lado de Atum estava Heka, a personificação da magia, e a magia (heka) deu origem ao universo.

Atum tinha a intenção de que Nut fosse sua noiva, mas ela se apaixonou por Geb. Zangado com os amantes, Atum os separou esticando Nut pelo céu, longe de Geb, na terra. Embora os amantes ficassem separados durante o dia, eles se reuniam à noite e Nut teve três filhos, Osíris, Set e Hórus, e duas filhas, Ísis e Néftis.

Osíris, como mais velho, foi anunciado como 'Senhor de toda a Terra' quando nasceu e recebeu sua irmã, Ísis, como esposa. Set, consumido pelo ciúme, odiava seu irmão e o matou para assumir o trono. Ísis então embalsamou o corpo de seu marido e, com poderes encantados, ressuscitou Osíris, que voltou dos mortos para trazer vida ao povo do Egito. Mais tarde, Osíris serviu como juiz supremo das almas dos mortos no Palácio da Verdade e, julgando o coração das almas, decidia a quem seria concedida a vida eterna.

A vida após a morte para os egípcios era conhecida como o Campo dos Juncos e era um espelho da vida na terra, desde a árvore, o riacho e até o cão favoritos. Os entes-queridos falecidos estariam esperando pela pessoa quando ela chegasse ou então seguiriam caminho. Os egípcios viam a existência terrena como simplesmente uma parte de uma jornada eterna e estavam tão preocupados em passar facilmente para a próxima fase que criaram seus túmulos sofisticados (as pirâmides), templos e inscrições funerárias (o Textos das Pirâmides, Textos do Esquife, e O Livro Egípcio dos Mortos) para ajudar a passagem da alma deste mundo para o outro.

Os deuses cuidavam da pessoa após a morte, assim como na vida desde o início dos tempos. A deusa Qebhet trazia água para as almas sedentas na terra dos mortos e outras deusas, como Serket e Néftis, cuidavam e protegiam as almas enquanto estas viajavam para o campo de juncos. Um egípcio da antiguidade compreendia que, desde o nascimento até a morte (e mesmo depois da morte), o universo tinha sido ordenado pelos deuses e todos tinham um lugar nessa ordem.

Religião na China e na Índia

Este princípio de ordem também é fundamental na religião mais antiga do mundo ainda praticada hoje: o Hinduísmo (conhecido pelos adeptos como Sanatan Dharma, 'Ordem Eterna', que parece ter sido fundada já em 5500 a.C., mas certamente por c. 2300 a.C.). Embora muitas vezes visto como uma fé politeísta, o hinduísmo é, na verdade, henoteísta. Há apenas um deus supremo no Hinduísmo, Brahma, e todas as outras divindades são seus aspectos e reflexões. Como Brahma é um conceito amplo demais para ser compreendido pela mente humana, ele se apresenta em muitas versões que as pessoas reconhecem como as divindades Vishnu, Shiva e muitas outras. O sistema de crenças hindu inclui 330 milhões de deuses que vão desde aqueles conhecidos nacionalmente (como Krishna), até divindades locais menos conhecidas.

O principal entendimento do Hinduísmo é que existe uma ordem para o universo e cada indivíduo tem um lugar específico nessa ordem. Cada pessoa no planeta tem um dever (dharma) que só ela pode realizar. Se agirmos corretamente (karma) no cumprimento desse dever, a pessoa é recompensada aproximando-se do Ser Supremo e, eventualmente, tornando-se uma com deus; se não o fizer, ela reencarna quantas vezes forem necessárias para finalmente entender como viver e aproximar-se da união com a alma suprema.

Essa crença foi herdada por Sidarta Gautama quando ele se tornou o Buda e fundou a religião conhecida como Budismo. No Budismo, no entanto, não se busca a união com um deus, mas com a própria natureza superior, pois se deixa para trás as ilusões do mundo que geram sofrimento e obscurecem a mente com o medo da perda e da morte. O Budismo tornou-se tão popular que viajou da Índia para a China, onde teve igual sucesso.

Na China antiga, acredita-se que a religião tenha se desenvolvido já em c. 4500 a.C., como evidenciado por desenhos em cerâmica encontrados no Sítio Neolítico da Aldeia de Banpo. Essa estrutura inicial de crenças pode ter sido uma mistura de animismo e mitologia, pois essas imagens incluem animais reconhecíveis e dragões-porcos, precursores do famoso dragão chinês.

Na época da Dinastia Xia (2070-1600 a.C.), havia muitos deuses antropomórficos adorados com um deus principal, Shangti, presidindo a todos. Essa crença continuou, com modificações, durante o período da Dinastia Shang (1600-1046 a.C.), que desenvolveu a prática do culto aos antepassados.

As pessoas acreditavam que Shangti tinha tantas responsabilidades que ele ficou ocupado demais para lidar com as necessidades de seus adoradores. Pensava-se que, quando uma pessoa morria, ia viver com os deuses e tornava-se intermediária entre o povo e esses deuses. O culto aos antepassados influenciou os dois grandes sistemas de crenças chineses: o Confucionismo e o Taoísmo, ambos os quais fizeram deste culto o princípio fundamental de suas práticas. Com o tempo, Shangti foi substituído pelo conceito de Tian (céu), um paraíso onde os mortos residiriam eternamente em paz.

Para passar da vida terrena para o céu, era preciso atravessar a ponte do esquecimento sobre um abismo e, depois de olhar para trás pela última vez, beber de um cálice que purificava toda a memória. Na ponte, se a pessoa era considerado digna do céu, ela passava; se fosse considerada indigna, ela escorregava da ponte caindo no abismo, para ser engolida pelo inferno. Outras versões deste mesmo cenário afirmam que a alma reencarnava depois de beber do cálice. De qualquer forma, esperava-se que os vivos se lembrassem dos mortos que haviam passado pela ponte para o outro lado e honrassem a memória deles.

Religião na Mesoamérica

A memória dos mortos e o papel que eles ainda desempenhavam na vida daqueles na terra era um componente importante de todas as religiões antigas, incluindo o sistema de crenças dos maias. Os deuses estavam envolvidos em todos os aspectos da vida dos maias. Assim como acontece com outras culturas, havia muitas divindades diferentes (mais de 250), todas com sua própria esfera especial de influência. Eles controlavam o tempo, a colheita, ditavam o cônjuge, guiavam cada nascimento e estavam presentes na morte.

A vida após a morte para os maias era semelhante à mesopotâmica, pois era um lugar escuro e sombrio, mas os maias imaginavam um destino ainda pior, onde se estava constantemente sob ameaça de ataque ou engano pelos senhores demônios que habitavam o submundo (conhecido como Xibalba ou Metnal). O pavor da viagem através de Xibalba era uma força cultural tão potente que os maias são a única cultura antiga conhecida por honrar uma deusa do suicídio (Ixtab), porque se pensava que os suicídios contornavam Xibalba e iam direto para o paraíso (assim como aqueles que morreram no parto ou em batalha). Os maias acreditavam na natureza cíclica da vida, que todas as coisas que parecem morrer são simplesmente transformadas, e consideravam a vida humana apenas mais uma parte do tipo de padrão que viam ao seu redor na natureza. Eles constataram que a morte era uma evolução natural após a vida e temiam a possibilidade muito antinatural de que os mortos pudessem voltar para assombrar os vivos.

Era possível que uma pessoa se mantivesse viva por uma série de razões (a principal era o sepultamento impróprio), e assim eram realizadas cerimônias para lembrar dos mortos e honrar seu espírito. Além dos Maias, esta crença foi mantida também por culturas mesoamericanas como os Astecas e os Tarascanos. Com o tempo, tornou-se o feriado conhecido hoje como o Dia dos Mortos (El Dia de Los Muertos), em que as pessoas celebram a vida daqueles que faleceram e recordam os seus nomes.

No entanto, não eram apenas as pessoas que deveriam ser lembradas e honradas, mas também uma divindade muito importante que os estudiosos chamam de Deus do Milho. O Deus do milho é uma imagem de Deus que morre e ressuscita na forma de Hun Hunahpu que foi morto pelos senhores de Xibalba, trazido de volta à vida por seus filhos, Os Gêmeos Heróis, e emergiu do submundo como milho. O Deus do Milho 'tonsurado' ou o Deus do Milho 'folheado' são imagens comuns encontradas na iconografia maia. Ele sempre é retratado como eternamente jovem e bonito, com uma cabeça alongada semelhante a uma espiga de milho, cabelos longos e esvoaçantes como seda de milho, e ornamentados com jade para simbolizar o caule de milho. Ele era considerado tão importante pelos maias, que as mães amarravam a cabeça de seus filhos pequenos para achatar a testa e alongar a cabeça, com o intuito de se assemelhar a ele.

O Deus do Milho continuou sendo uma divindade importante para os maias, mesmo quando ofuscado pelo maior e mais popular dos deuses, Gucumatz (também conhecido como Kukulcan e Quetzalcoatl), cuja grande pirâmide em Chichén Itzá atualmente ainda é visitada por milhões de pessoas todos os anos. Nos equinócios duplos de cada ano, o sol lança uma sombra sobre as escadas da estrutura da pirâmide, que assemelha-se a uma grande serpente descendo escada abaixo; pensa-se que este seja o grande Kukulkan que regressa dos céus à terra para dar as suas bênçãos. Ainda hoje as pessoas se reúnem em Chichén Itzá para testemunhar este evento nos equinócios, lembrando o passado e esperando pelo futuro.

Religião Grega e Romana

A importância da lembrar dos mortos, como parte da adoração religiosa, integrava as crenças dos gregos também. Lembrar dos mortos fazia com que os vivos mantivessem viva a alma do falecido na vida após a morte. Os gregos, assim como as outras culturas mencionadas, acreditavam em vários deuses que cuidavam de suas incumbências humanas mas, com a mesma frequência, buscavam seu próprio prazer.

A natureza instável dos deuses pode ter contribuído para o desenvolvimento da filosofia na Grécia, uma vez que a filosofia só pode desenvolver-se numa cultura em que a religião não satisfaz as necessidades espirituais das pessoas. Platão criticava constantemente o conceito grego dos deuses e Critias afirmou que eles apenas foram criados pelos homens para controlar outros homens. Xenófanes, como mencionado acima, afirmava que a visão grega era completamente errada e que Deus era inimaginável.

Ainda assim, para a maioria dos gregos – e de maneira geral para o funcionamento da sociedade – os deuses deveriam ser honrados, assim como aqueles que haviam passado para o seu domínio. O fato de uma pessoa não estar mais viva na Terra não significava que ela deveria ser esquecida, assim como ninguém se esqueceria de honrar os deuses invisíveis. Assim como acontecia com outras culturas antigas, a religião na Grécia estava totalmente inserida na vida diária e na rotina.

Os gregos consultavam os deuses em assuntos que iam desde assuntos de Estado até decisões pessoais amorosas, casamento ou trabalho. Uma história antiga conta como o escritor Xenofonte (430 a.C. 354 a.C.) foi a Sócrates perguntando se o filósofo achava que ele deveria se juntar ao exército de Ciro, o Jovem, em campanha para a Pérsia. Sócrates enviou-o para fazer a pergunta ao deus em Delfos. Em vez de fazer sua pergunta original, Xenofonte perguntou ao deus de Delfos qual dos muitos deuses era melhor cortejar favores, a fim de garantir um empreendimento bem-sucedido e um retorno seguro. Ele parece ter obtido a resposta correta, já que sobreviveu à desastrosa campanha de Ciro e, não só retornou a Atenas, mas salvou a maior parte do exército.

A religião de Roma seguiu o mesmo padrão da Grécia. A religião romana provavelmente começou como uma espécie de animismo e se desenvolveu à medida que entrava em contato com outras culturas. Os gregos impactaram significativamente a religião romana, e muitos dos deuses romanos são, simplesmente, divindades gregas com nomes romanos e características ligeiramente alteradas.

Em Roma, a adoração aos deuses estava intimamente ligada a assuntos de Estado, e acreditava-se que a estabilidade da sociedade dependia do grau de reverência que o povo tinha pelos deuses e da participação em rituais que os honravam. As Virgens Vestais são um exemplo famoso desta crença, em que contava-se com estas mulheres para manter os votos que tinham feito e desempenhar as suas funções de forma responsável, a fim de honrar continuamente Vesta e tudo o que ela dava ao povo.

Embora os romanos tivessem importado seus principais deuses da Grécia, uma vez que a religião romana estava estabelecida e ligada ao bem-estar do Estado, nenhum deus estrangeiro era bem-vindo. Quando a adoração da popular deusa egípcia Ísis foi trazida para Roma, o imperador Augusto proibiu a construção de templos em sua homenagem, além de rituais públicos observados em sua adoração, porque ele achava que tal atenção dada a uma divindade estrangeira minaria a autoridade do governo e estabeleceria crenças religiosas. Para os romanos, os deuses tinham criado tudo de acordo com a sua vontade e mantido o universo da melhor maneira possível e o ser humano era obrigado a mostrar-lhes honra pelas suas bênçãos.

Isso era verdade não apenas para os 'principais' deuses do panteão romano, mas também para os espíritos do lar. O penates eram espíritos terrenos da despensa que mantinham a casa segura e harmoniosa. Esperava-se que as pessoas fossem gratas por seus esforços e se lembrassem deles ao entrar ou sair de casa. As estátuas dos penates eram retiradas do armário e colocadas sobre a mesa para serem honrados durante as refeições, e sacrifícios eram deixados junto à lareira para seu deleite. Se alguém fosse diligente em apreciar seus esforços, seria recompensado com saúde e felicidade constantes mas, se os esquecesse, sofreria por tal ingratidão. Embora as religiões de outras culturas não tivessem precisamente esses mesmos tipos de espíritos, a identificação dos espíritos locais – e especialmente os do lar – era comum.

Temas frequentes na religião antiga e sua continuidade

Embora as culturas possam nunca ter tido contato entre si, as religiões do mundo antigo compartilhavam muitos dos mesmos padrões umas com as outras. A iconografia espiritual das pirâmides maias e egípcias foi identificada desde que os maias foram trazidos pela primeira vez à atenção do mundo por John Lloyd Stephens e Frederick Catherwood no século XIX, mas a verdadeira estrutura das crenças, histórias e imagens mais significativas na mitologia antiga são consideravelmente semelhantes de cultura para cultura.

Em todas as culturas, encontram-se padrões iguais ou muito semelhantes, que as pessoas acharam importantes e que deram vitalidade às suas crenças. Esses padrões incluem a existência de muitos deuses que se interessam pessoalmente pela vida das pessoas; criação por uma entidade sobrenatural que fala, modela ou ordena a existência; outros seres sobrenaturais que emanam do primeiro e maior; uma explicação sobrenatural para a criação da terra e dos seres humanos; uma relação entre os humanos criados e seu deus criador exigindo adoração e sacrifício.

Existe ainda a repetição da imagem conhecida como deus que morre e ressuscita, muitas vezes uma entidade poderosa que é morta, ou morre, e volta à vida para o bem do seu povo: Osíris no Egito, Krishna na Índia, o deus do milho na Mesoamérica, Baco em Roma, Átis na Grécia, Tamuz na Mesopotâmia. Muitas vezes há uma vida após a morte semelhante a uma existência terrena (Egito e Grécia), contrária à vida na terra (Mesoamérica e Mesopotâmia), ou uma combinação de ambos (China e Índia).

A importante mensagem espiritual dessas diferentes religiões é repetida em textos da Fenícia (2700 a.C.), à Suméria (2100 a.C.), à Palestina (1440 a.C.), à Grécia (800 a.C.), à Roma (c. 100 d.C.) e passou a influenciar as crenças daqueles que vieram depois. Este tema é até abordado no judaísmo na figura de José (Gênesis 37, 39-45), que é vendido por seus irmãos como escravo no Egito, vai para a prisão após as acusações da esposa de Potifar e, mais tarde, é libertado e restaurado. Embora não morra literalmente, salva o país da fome após a sua simbólica 'ressurreição', sustentando o povo da mesma forma que outras figuras regenerativas.

O conto Fenício do grande deus Baal que morre e retorna à vida para combater o caos do deus Yamm já era antigo em 2750 a.C., quando a cidade de Tiro foi fundada (de acordo com Heródoto) e a história grega do deus que morre e ressuscita, Adonis (c. 600 a.C.), era derivada de contos fenícios anteriores baseados em Tamuz, que foi emprestado pelos sumérios (e mais tarde pelos persas) no famoso mito Descida de Inanna.

Este tema da vida após a morte e da vida proveniente da morte e, claro, do julgamento após a morte, ganhou grande fama através dos esforços evangelizadores do Apóstolo Paulo, que espalhou a palavra de Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou, por toda a antiga Palestina, Ásia Menor, Grécia e Roma (c. 42-62). A visão de Paulo sobre a figura de Jesus, o filho ungido de Deus que morre para redimir a humanidade, foi inspirada nos sistemas de crenças anteriores e influenciou a compreensão dos escribas que escreveriam os livros que compõem a Bíblia.

A religião do Cristianismo padronizou a crença na vida após a morte e estabeleceu um conjunto organizado de rituais, pelos quais um adepto poderia ganhar a vida eterna. Ao fazer isso, os primeiros cristãos estavam simplesmente seguindo os passos dos sumérios, dos egípcios, dos fenícios, dos gregos e dos romanos, sendo que todos tinham seus próprios rituais moldados para a adoração de seus deuses.

Depois dos cristãos, os estudiosos muçulmanos do Alcorão instituíram seus próprios rituais para compreender a divindade suprema que, embora muito diferente em forma dos do cristianismo, judaísmo ou qualquer uma das religiões 'pagãs' mais antigas, serviam ao mesmo propósito que os rituais outrora praticados na adoração do panteão egípcio, há mais de 5.000 anos: proporcionar aos seres humanos a compreensão de que não estão sozinhos em suas lutas, sofrimentos e triunfos, que podem controlar seus impulsos mais primitivos e que a morte não é o fim da existência. As religiões do mundo antigo forneciam respostas às perguntas das pessoas sobre a vida e a morte e, nesse aspecto, não são diferentes das religiões praticadas no mundo atual.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Baal, uma divindade proeminente na mitologia do antigo Oriente Médio

 

Baal, uma divindade proeminente na mitologia do antigo Oriente Médio, particularmente na cultura cananeia, era reverenciado como o deus das tempestades e da fertilidade. Representado como um poderoso guerreiro, acreditava-se que Baal residia no topo do Monte Zafon, simbolizando o controle sobre a natureza e as chuvas vitais essenciais para a agricultura. Sua mitologia inclui narrativas significativas com batalhas contra outros deuses, como Yamm, o deus do mar, e Mot, o deus da morte, ilustrando a natureza cíclica da vida, da morte e do renascimento. A influência de Baal estendeu-se aos textos bíblicos, onde ele frequentemente aparece como rival do deus dos israelitas, destacando conflitos culturais e diferentes crenças religiosas da época.

Descobertas arqueológicas, especialmente uma biblioteca de tabuletas de pedra da antiga cidade de Ugarit, forneceram informações valiosas sobre as características de Baal e o sistema de crenças cananeu, que incluía mais de 230 divindades. Os relacionamentos de Baal com outros deuses, como sua linhagem do deus criador El e seus laços com a deusa Anat, enriquecem ainda mais sua narrativa. A complexidade do caráter de Baal e a mitologia que o envolve refletem a compreensão que os antigos cananeus tinham do mundo natural e suas crenças espirituais.

Baal era uma das principais divindades adoradas por diversas culturas antigas do Oriente Médio. Embora existissem vários deuses com o nome Baal, a divindade mais significativa era encontrada na mitologia cananeia . Baal era frequentemente retratado como um guerreiro poderoso e considerado o deus das tempestades e da fertilidade. Dizia-se que ele governava de seu palácio no topo do Monte Zafon, o pico mais alto da Síria. Baal é mencionado diversas vezes no Antigo Testamento da Bíblia , onde é descrito como o principal rival do deus dos israelitas. Grande parte das informações que os arqueólogos descobriram sobre Baal provém de várias tabuletas de pedra antigas encontradas na Síria em 1928.

Plano de fundo

Os arqueólogos acreditam que o povo conhecido como cananeus se originou das terras a leste e se estabeleceu perto do Mar Mediterrâneo por volta de 3200 a.C. Eles fundaram diversas cidades nas regiões dos atuais Líbano, Jordânia, Israel e Síria. Um dos principais assentamentos cananeus foi a cidade portuária de Ugarit, um importante centro comercial no Mediterrâneo de aproximadamente 1450 a 1180 a.C. Cananeu é o nome dado ao povo de Canaã no Antigo Testamento da Bíblia. Para os gregos, os cananeus eram chamados de fenícios.

O sistema de crenças cananeu incluía mais de 230 divindades. A principal entre elas era o deus criador, El. El era o deus da sabedoria e o mais antigo de todos os deuses. Apesar de sua posição como criador, El não participava ativamente da vida cotidiana dos humanos. Ele mantinha distância e dizia-se que habitava os confins do norte com sua esposa, a deusa Aserá. Ela é frequentemente associada ao oceano. Em alguns mitos, Aserá e El são os pais de Baal. Outras versões dizem que o casal gerou todos os deuses, exceto Baal. Em alguns relatos, o pai de Baal é o deus dos grãos, Dagan.

Anat era a deusa do amor e da guerra. Ela era esposa de Baal. Em alguns relatos, ela também era sua irmã. Yamm era o deus do mar e governante das águas da Terra. Os cananeus o consideravam um ser destrutivo que trazia inundações e chuvas torrenciais. Mot era o deus da morte e da seca. Dizia-se que sua morada ficava no deserto inóspito do submundo.

Visão geral

Baal, também grafado como ba'al, era uma palavra que significava "senhor" ou "mestre" nas línguas semíticas do antigo Oriente Médio. Consequentemente, havia muitas divindades locais na região com o título de Baal. O Baal proeminente na mitologia cananeia provavelmente era uma fusão de uma divindade local com o deus mesopotâmico da tempestade, Hadad, por volta dos séculos XVI ou XVII a.C. Em alguns casos, a divindade local era referida por seu local geográfico de residência, como Baal de Aleppo. O deus cananeu às vezes era chamado de Baal de Zafon, uma referência à sua morada mitológica no Monte Zafon, um pico na fronteira entre a Síria e a Turquia. A montanha é hoje chamada de Jebel Aqra.

De acordo com o Antigo Testamento da Bíblia, Baal acabou por destronar El e se tornar o deus supremo dos cananeus. Nesses relatos bíblicos, ele também tomou Aserá como esposa. Baal é mencionado cerca de noventa vezes no Antigo Testamento. Ele é frequentemente citado como um deus falso e um opositor do deus de Israel. Em diversas ocasiões, os israelitas são punidos por adorarem Baal. Outras vezes, recebem ordens de seu deus para destruir altares e relíquias associadas a Baal.

Em 1928, arqueólogos que escavavam uma tumba nas ruínas de Ugarit, no noroeste da Síria, descobriram uma biblioteca de tabuletas de pedra contendo uma riqueza de informações sobre Baal e a religião cananeia. Uma das tabuletas retrata Baal como um guerreiro, usando um capacete com chifres e erguendo uma maça acima da cabeça como se estivesse prestes a atacar um oponente. Na outra mão, ele segura uma lança com vegetação crescendo em sua haste. Os cananeus consideravam Baal o deus da fertilidade e o senhor da terra, que controlava a natureza. Ele também era o deus das tempestades e responsável pelas chuvas que davam vida. Algumas referências a Baal o chamavam de "Senhor dos Céus" e "Aquele que Cavalga sobre as Nuvens".

Um mito que envolve Baal o descreve travando uma batalha pela supremacia com o deus do mar, Yamm. Ambas as divindades desejavam ter controle sobre a Terra. Yamm envia mensageiros a El e à assembleia dos deuses, exigindo que entreguem Baal. O deus da tempestade se recusa a se render e, em vez disso, confronta Yamm em batalha. Com a ajuda do deus artesão, Kotha, Baal golpeia Yamm com sua maça, derrotando-o. O mito representa o triunfo do ciclo natural da chuva sobre as inundações destrutivas de Yamm.

Outro mito conta a história de Baal e Mot, o deus da morte e principal adversário de Baal entre os deuses. Após derrotar Yamm, Baal realiza um grande banquete para celebrar sua vitória. Cheio de orgulho, Baal percebe que agora controla a Terra, mas deseja dominar toda a criação. Ele envia mensageiros a Mot e exige o reinado do submundo. Mot decide enganar Baal e, em vez disso, o convida para o submundo para que ele traga suas chuvas ao deserto e sacie a sede de Mot. Baal aceita o convite. Uma vez no reino de Mot, Baal fica preso na terra da morte.

A ausência de Baal faz com que as chuvas cessem na Terra. Preocupados com a seca persistente, os deuses se reúnem para escolher outra divindade para substituir Baal, que eles temem ter morrido. No entanto, El tem um sonho no qual vê o fim da seca e o retorno da fertilidade da terra. Percebendo que Baal está vivo e sendo mantido prisioneiro por Mot, Anat parte em busca de seu marido. Ela viaja para o submundo e derrota Mot em batalha, cortando-o em pedaços e queimando seu corpo. Agora livre, Baal retorna ao seu palácio e traz de volta as chuvas à terra.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Os profetas, os adivinhos e o papel das provas

 

Antigamente, em Israel, em vez de “profeta” (nabi), como hoje se diz, dizia-se “ro’eh” ou “vidente” (I Samuel, 9:9).

Há muito tempo que se ouve que a diferença entre profeta e vidente é a fonte de suas visões sobre o futuro. Enquanto o vidente atribui a si mesmo a fonte desse poder, o profeta atribui a Deus — e se coloca como instrumento d’Ele.

Na verdade, há muitas nomenclaturas e movimentos que realmente se confundem nessa definição.

Mircea Eliade lembra que, por quase um milênio, os videntes javistas, como Natã, coexistiam e se confundiam com os profetas.

Outros dizem que Natã era profeta, não vidente, mas um profeta de uma época primitiva, mântica, que se caracterizava por processos oraculares e de clarividência.

Havia profetas das ruas, profetas das cortes e profetas dos templos que, normalmente, se articulavam e transitavam de um lugar a outro no cotidiano — e, sim, havia os loucos que se diziam profetas.

Diante disso, havia uma grande preocupação dos israelitas em higienizar o “movimento profético”, tanto da loucura quanto da influência política e da temida heterodoxia — e talvez nenhum outro povo tenha se preocupado tanto com a figura temerária do “falso profeta”.

Uma outra preocupação muito comum, que foi herdada pelos cristãos e até hoje se torna, dentro do meio cristão, uma preocupação genuína de debate, é a respeito das provas e evidências.

Não vejo nenhuma outra religião com tanta preocupação em se articular com a ciência vigente. Basta ver a monopolização dos cristãos nos intermináveis (e chatíssimos) debates entre “ciência e fé”. Por um lado, a falta de conhecimento religioso e a falta de conhecimento científico de muitos que se propõem a articular esses domínios acabam por criar inúmeras seitas pseudo-religiosas e pseudo-científicas.

Apesar dos muitos equívocos desses movimentos e da criação de incontáveis picaretas, eles são entendíveis por traduzirem uma herança cultural milenar, presente desde os israelitas mais primitivos.

Para o bem e para o mal, não há como escapar disso.

Não era incomum os profetas se acusarem e disputarem entre si seus poderes e revogarem provas.

Apesar da dimensão dos mistérios — uma confiança etérea na impalpabilidade das verdades divinas é, muitas vezes, apenas covardia epistêmica, de não querer enfrentar a verdade e fingir que é possível proteger a fé com um manto de simbolismos e metáforas.

Eu gosto da dimensão simbólica, da dimensão metafórica e da dimensão mito-poética — só não consigo fingir que ela, muitas vezes, se torna apenas um ponto de fuga.

Por que raios o Vaticano delibera sobre a Teoria da Evolução de Darwin? Por que ela é importante, goste você ou não.

Voltando ao mundo veterotestamentário, um episódio famoso é o desafio de Elias aos profetas de Baal no Monte Carmelo. Nesse desafio, dois altares seriam construídos: um para Baal e outro para o Senhor. Um novilho seria colocado sobre cada altar como oferta. Os profetas de Baal invocariam seu deus, e Elias invocaria Javé. O deus que respondesse com fogo, consumindo a oferta, seria reconhecido como o verdadeiro Deus. O povo concordou com a proposta.

Os profetas de Baal prepararam seu altar e colocaram o novilho sobre ele. Eles começaram a clamar a Baal, pedindo que ele enviasse fogo do céu. Desde a manhã até o meio-dia, eles gritaram: “Ó Baal, responde-nos!” Mas não houve resposta. Nada aconteceu. Quando Elias fez o mesmo, imediatamente, o fogo desceu do céu e consumiu completamente o holocausto, a lenha, as pedras, a terra e até a água que estava na valeta.

Todos os grandes profetas são sincera e apaixonadamente convictos da autenticidade de sua vocação e da urgência da sua mensagem. Dentre todas as manifestações proféticas, pouco importa se provoquem êxtase ou que sejam apenas deliberações palacianas de um sábio, precisam de fato corresponder à realidade.

No Monte Carmelo, antes de iniciar o desafio, Elias se dirigiu ao povo de Israel, que estava indeciso entre seguir Javé ou Baal. Ele disse: “Até quando vocês vão oscilar entre duas opiniões? Se o Senhor é Deus, sigam-no; mas, se Baal é Deus, sigam-no” (1 Reis 18:21).

Não acredito que Elias tenha dito isso da boca para fora. O povo poderia seguir Baal se Baal operasse, naquele momento, um milagre.

Elias tinha dito aquilo, no entanto, com a certeza de que aquilo não iria acontecer — não havia a menor possibilidade de aquilo acontecer.

Elias, com seu dedo mindinho em riste, em um tom provocativo, disse: “quebre meu dedo”.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

A Relação Complexa entre Iavé, El e Baal

 

O nascimento, a sobrevivência, o crepúsculo e a derradeira extinção de um ser divino parecem seguir seus próprios padrões evolutivos, de tal forma que alguns deuses perduram sem mudanças cultuais ou teológicas significativas por séculos, enquanto outros emergem no palco mundial apenas para se consumirem até a extinção quase tão logo quanto apareceram. De fato, um dado deus deve realizar um cuidadoso ato de equilíbrio para persistir ao longo do tempo humano, marcado por tumultos aparentemente intermináveis. Por um lado, um ser divino deve possuir uma qualidade definida o suficiente para atrair e manter adoradores e, ao mesmo tempo, tal deus não pode ser tão rígido ou seu culto tão conservador que não possa suportar adaptações e mudanças significativas. A única certeza do nosso mundo mundano é que ir muito longe em uma direção torna um deus desinteressante, e ir muito longe na outra, o condena. Dadas as mudanças religiosas e modismos que fluem franca e seguramente através dos éons, alguns deuses se adaptaram e muitos se extinguiram, embora um deus tenha se mostrado bastante bem-sucedido, curiosamente o suficiente, não que isso o faça um deus melhor ou mesmo um deus real além de toda expectativa histórica razoável. De fato, este deus, cujo simples nome significa algo como “aquele que existe”, emergiu das areias da obscuridade da Idade do Bronze para, eventualmente, tornar-se não apenas um deus nacional, mas, no fim, simplesmente o Deus para a esmagadora maioria da população mundial atual. Mas como o guerreiro tribal e deus da tempestade, Iavé, foi de ser um deus menor entre deuses muito mais antigos e muito mais poderosos, perdurando até então, pelo menos, para simplesmente se tornar Deus, o único Deus de tudo o que existe na mitologia de bilhões?

Fato é que a as origens de Iavé são totalmente desconhecidas. O nome pode aparecer pela primeira vez no século XIV a.C. em uma lista de inimigos de Amenófis III e em uma lista similar, mas mais tarde, no século XIII a.C., por Ramsés II, como os shasu de Iavé ou os shasu de Iahu. Não está claro como isso era pronunciado. Os shasu eram pastores semi-nômades tipicamente associados com roubos e brigandagem em geral. O nome egípcio para eles realmente indica sua existência nômade: “vagar”. Enquanto o nome adotado em semita e hebraico significa algo como “terreno” ou “saquear”. Então, há uma pista do que eles eram. Embora o nome Iavé pareça aparecer aqui, também parece estar funcionando principalmente como um topônimo em vez de um teônimo. Mas que outros shasu na lista também estão associados à região da cordilheira de Seir, no sudoeste da Transjordânia, provavelmente será relevante aqui em um momento. Se os shasu eram proto-israelitas não está claro, mas parece razoável pensar que provavelmente havia alguma conexão. E isso se encaixa com os habiru e os grupos sociais, então étnicos, os hebreus, que começaram como um grupo social, não um grupo étnico, que também estavam associados com brigandagem. Então, esta é uma história de origem divertida. Israel aparece pela primeira vez entrando na história na Estela de Merneptá, é um filho de Ramsés II, tipo seu 13º filho, onde ele reivindica vitória, de tal forma que Canaã foi saqueada em todo tipo de desgraça, Ascalon foi vencida, Gezer foi capturada, Ianoão foi feita inexistente, Israel foi devastada, e sua semente não existe, Hurru tornou-se viúva por causa do Egito. Talvez valha a pena mencionar aqui que o determinante egípcio em Ascalon, Ianoão e Gezer indica cidade estrangeira, é o determinante da montanha tripla, enquanto Israel tem o determinante do grupo étnico estrangeiro, embora, para ser justo, o uso de determinantes por escribas egípcios pode ser em todo lugar, meio arbitrário. O posicionamento geográfico mais ao sul também pode ser importante, embora note que os israelitas que Merneptá afirma ter aniquilado não estão realmente associados aqui com os shasu, então isso é interessante. E, claro, seu deus, o deus de Israel, e nenhum desses caras é mencionado aqui.

Origens e Evolução de Iavé: Dos Shasu aos Primeiros Israelitas

O primeiro vínculo histórico-arqueológico entre Israel e Iavé, como o deus, data de muito, muito mais tarde, na Idade do Ferro, quando a estela de vitória do século IX a.C. de Mesa se vangloria de ter arrastado vasos de Iavé diante de Camos, enquanto o reino moabita se rebelava e escapava da hegemonia israelita-amorita na região. Portanto, parece que nômades e saqueadores do sul do Levante estavam associados a Iavé, talvez como um tipo de topônimo teológico, e que, pelo século XIII a.C., um grupo étnico conhecido como Israel, ao menos aos olhos dos egípcios, existia em uma área semelhante. Já no século IX a.C., a casa israelita de Onri parece ter tido Iavé como uma figura importante, provavelmente como seu deus nacional, em oposição ao moabita, antes de os mencionados vasos serem arrastados.

Dada a escassez do registro arqueológico, que basicamente se resume a isso, o que podemos inferir de nosso outro corpo sobrevivente de evidências, ou seja, a literatura israelita, conforme editada e compilada na Bíblia Hebraica, sobre as origens de Iavé, ou o que podemos chamar de iavismo primitivo?

Para tanto, parece que a melhor metodologia seria analisar as estratas linguísticas mais antigas da literatura israelita, conforme aparecem na Bíblia Hebraica, especialmente o Cântico do Mar em Êxodo 15:1-18, Juízes 5 ou o Cântico de Débora, Salmos 18, 29, 68, Gênesis 49, entre outras referências dispersas que mencionam Iavé e seu culto de forma linguisticamente arcaica. A partir disso, pode-se esboçar um retrato aproximado do Iavé primitivo. Aparentemente, a terra natal original dessa divindade era Seir, Edom, Temã, com o local de culto mais antigo provavelmente situado nessa região – lembre-se dos chasu mencionados anteriormente, ou seja, a Península Arábica noroeste, logo a leste do Mar Morto. Iavé parece ter sido originalmente um deus guerreiro, possivelmente associado a saques e bandos de guerra proféticos. Além disso, a manifestação central de Iavé parece ter sido tempestades, especificamente as tempestades catastróficas que resultam em inundações repentinas mortais, que até hoje afetam aquela região. Petra, a mesma região de onde Iavé pode ter originado, foi projetada para gerenciar exatamente essas tempestades. E, de fato, é possível ver vídeos dessas inundações repentinas na região, que são aterrorizantes.

Em algum ponto do final da Idade do Bronze ou provavelmente no início da Idade do Ferro, o culto de Iavé fez seu caminho até as Terras Altas da Judeia, estabelecendo-se provavelmente em um centro de culto em Siló. Isso corresponde, aproximadamente, ao período bíblico dos juízes. A natureza nômade e possivelmente mercantil – note a menção de caravanas no Cântico de Débora, que é, a propósito, provavelmente o texto mais antigo da Bíblia Hebraica – do iavismo primitivo pode explicar a difusão do culto, isto é, foi espalhado através do comércio mercantil. Esta difusão é provavelmente superdeterminada, no entanto, especialmente se os saques estiverem envolvidos.

O pano de fundo histórico de tudo isso é o Colapso da Idade do Bronze, ao longo do século XIII a.C., quando a civilização no Mediterrâneo Oriental experimentou um colapso de sistemas em cascata, realmente assustador, resultando em migrações em massa do Egeu – ou seja, os povos do mar –, regressão de fronteiras imperiais e colapso da hegemonia local por parte dos vários impérios, especialmente os egípcios, colapso imperial completo para os hititas e a cidade-estado de Ugarit e desintegração urbana generalizada, como em um local como a cidade de Gezer. De fato, pode ser que as condições do Colapso da Idade do Bronze tenham criado o vácuo de poder no qual o saque como meio de sobrevivência emergiu, e um culto de saque liderado por um deus guerreiro como Iavé poderia ter se mostrado bastante popular no caos. Imagine que tipo de religiões emergiriam em um mundo ao estilo de Mad Max. Embora isso seja apenas especulação, essa disrupção no Colapso da Idade do Bronze provavelmente permitiu que os vários estados se revoltassem, resultando ou não em colocá-los para baixo, mas também especialmente no colapso da hegemonia egípcia na região. E isso é muito importante, pois teria permitido a independência de fato, especialmente nas Terras Altas cananeias, porque, afinal, quem desejaria subir lá? Não me surpreende que o culto de Iavé, em sua ala de construção de estado militar-político, tenha se estabelecido em Siló, relativamente remoto, antes de se espalhar para o norte e sul nas Terras Altas e então avançar para o oeste, para baixo, no Sefelá, para eventualmente competir com o povo do mar, que também havia conquistado um ponto de apoio no antigo território da hegemonia egípcia. Isso, claro, é o peleset, como o conhecemos da literatura egípcia, ou da Bíblia, como você adivinhou, os filisteus. Assim, por volta do Ferro I, ou aproximadamente em torno de 1200 a 1000 a.C., Iavé provavelmente veio a se estabelecer nas Terras Altas Cananeias, marcando assim o fim do iavismo primitivo e o início de um processo incrivelmente complexo pelo qual elementos dos sistemas religiosos e cultuais cananeus seriam negociados com o culto, mas também a própria pessoa divina de Iavé, através de um processo de convergência teológica e assimilação, divergência e antagonismo cultual, e especialmente sincretismo monárquico inicial. Para apreciar este processo, é melhor explorar esta dialética complexa em dois eixos: um sendo o próprio panteão cananeu, mas o outro sendo a progressão através do tempo, do período dos juízes e através das monarquias, relações cultuais complexas marcadas pelo sincretismo no norte, principalmente, mas mais pontuadamente por monolatria iavista no sul, antes da eventual transição para o monoteísmo no período exílico e realmente no período pós-exílico. Então, vamos começar explorando a dinâmica da convergência teológica e divergência ou antagonismo cultual com o panteão cananeu e Iavé.

Convergência Teológica: Iavé e o Panteão Cananeu

A maior parte do nosso conhecimento do panteão cananeu vem das descobertas de vastas bibliotecas reais da cidade de Ugarit, outra vítima do Colapso da Idade do Bronze. O que emergiu desse centro são coleções significativas de documentos mitológicos e cultuais detalhando a natureza, personalidades e feitos míticos dos vários deuses cananeus nesse panteão. Embora duas ressalvas talvez sejam necessárias: a primeira é que o tesouro de Ugarit pode representar uma expressão especificamente real, especificamente ugarítica, da teologia cananeia e seus ciclos míticos; a segunda é que esses documentos datam, no mais tardar, do meio do século XII a.C. – a própria cidade foi provavelmente destruída por volta de 1185 a.C., o que são centenas de anos e ainda a uma boa distância do locus classicus do desenvolvimento do culto israelita, um bom tanto mais ao sul nas Terras Altas. Assim, não sabemos em que grau o culto cananeu se expressou especificamente nessa região, nas Terras Altas, e isso é especialmente verdadeiro porque o registro escrito cananeu naquela área é notavelmente pobre, basicamente inexistente. Portanto, em que grau podemos considerar os textos ugaríticos representativos dos textos das Terras Altas cananeias, não está claro.

Mas essas ressalvas à parte, o chefe do panteão cananeu era o deus avô El, simplesmente Deus. De fato, algumas teorias realmente sugerem que Iavé era uma manifestação local, muito ao sul de El, mas eu acho isso provavelmente duvidoso. Embora Deuteronômio 32:9 pareça ser um lembrete arcaico de quando Elion, uma manifestação de El, dividiu o mundo, fornecendo especificamente a Iavé as terras de Jacó/Israel. Isso é provavelmente uma rara sobrevivência de um período em que Iavé ainda estava, de certa forma, subordinado a Elion e antes da convergência teológica com El de forma mais ampla. No entanto, está claro que os iavistas estavam confortáveis o suficiente com El para permitir quantidades significativas de assimilação de características de El a Iavé, mesmo quando essas características talvez estivessem em contraste significativo com o guerreiro estridente do culto primitivo. Uma das características mais notáveis dessa assimilação é a de El como um deus sábio e idoso. El é conhecido como o pai dos anos nos ciclos míticos ugaríticos, e talvez essa imagem de uma divindade idosa de barba branca seja uma assimilação de El a Iavé que se mostrou a percepção mais visivelmente duradoura e popular na arte. Se você imagina um homem idoso barbudo como Deus, você está imaginando El assimilado a Iavé. Junto a esse caráter idoso, também está a sabedoria de El, um traço não tipicamente associado, novamente, a um deus guerreiro; eles não precisam ser sábios ou inteligentes. Além disso, Iavé é parcialmente assimilado como uma divindade criadora, mas apenas parcialmente. O nome Iavé provavelmente apenas significava “aquele que é” ou “ele é” e não estava primitivamente associado a poderes criativos; novamente, deuses guerreiros não fazem muita coisa criando, e a forma verbal de torcer seu nome, yod-he-vav-he, em uma forma criativa, a forma verbal que conhecemos como piel em hebraico, nunca aparece na literatura israelita. Assim, não é surpreendente que muito do trabalho criativo na Bíblia seja tipicamente associado a nomes divinos como El e especialmente Elohim; mesmo um nome como El Cana, El cria, nunca realmente aparece com uma forma teonímica iavística; nunca obtemos uma versão iavística daquele nome. Portanto, temos uma situação em que não apenas elementos de El são assimilados a Iavé, mas os israelitas primitivos estavam ou mesmo confortáveis o suficiente com uma identidade teológica feita entre os dois, eles combinam El e Iavé; é muito claro na Bíblia Hebraica. Assim, muitos elementos do El cananeu, embora não todos eles, definitivamente não todos eles, como veremos em um momento, são assimilados a Iavé, ou com a identidade sendo estabelecida, os poderes e características de El de fato se tornam aqueles de Iavé. Um elemento dessa transferência, especialmente no período anterior, era o conselho divino de El, incluindo um séquito de burocratas quase divinos, como o promotor hassatam, mas também o líder militar, o Tsar Sava, mas também incluindo os 70 filhos de El ou El Yom. Claro, esses filhos também mais tarde seriam rebaixados a anjos à medida que o monoteísmo se enraizasse, antes de descer à Terra para se acasalar com mulheres humanas em Gênesis 6, e tudo isso é desenvolvido, claro, no Livro de Enoque. Embora, como a criação, essa assimilação do conselho divino não fosse total; os filhos sempre aparecem como filhos de El, o apelido divino lá nunca dos filhos de Iavé. Embora, junto com esses seres originalmente quase divinos, também viria todo um séquito de objetos celestes, porque o céu, especialmente coisas como estrelas, o sol e a lua, que eram todos adorados na região também; um desses seres, provavelmente Vênus, aparece no conselho divino como uma espécie de insurgente sublevado para o submundo cananeu dos israelitas em um oráculo contra o rei de Babilônia, provavelmente Nabucodonosor. Claro, esse personagem mais tarde se tornaria modificado na mitologia cristã para se tornar o satânico Lúcifer naquela tradição, mostrando apenas quão longa é a meia-vida desses seres. Esse ser remonta à antiga mitologia celestial cananeia. Outra instância interessante tem um espírito enganador, um ruach shakir, sendo recrutado por Iavé para enganar alguns profetas para garantir a morte do rei Acabe. Claro, o Salmo 82 também captura essa assimilação do conselho divino de El muito claramente; ele está falando com membros do conselho divino, aqueles deuses cultuais, talvez. Talvez a assimilação mais peculiar a Iavé, o deus guerreiro, sejam realmente os traços de El como misericordioso e compassivo. Esta é uma característica marcante e sensível para o avô El, que até tem um pouco demais para beber de vez em quando; há algumas ótimas histórias nos ciclos míticos ugaríticos sobre isso. É uma assimilação interessante, mas razoável, a um deus cuja pré-história de guerra e saque brutal deve fazer a transição, tem que fazer a transição, quando você entra em um culto mais sedentário, onde, sabe, você não pode resolver todos os seus problemas por meio da violência, mesmo a maioria dos seus problemas por meio da violência.

Assim, isso resulta em leitores contemporâneos experimentando um choque ao ler a Bíblia Hebraica, na qual a divindade ali parece deleitar-se absolutamente com o banho de sangue de seus inimigos e com o ato de matar pessoas. Depois, algumas páginas, encontramos uma divindade cuja misericórdia e compaixão nunca falham. Isso ocorre porque temos aí a fusão de dois deuses com características muito distintas. Claro, nem todos os aspectos de Iavé foram assimilados igualmente pelos israelitas. Um dos epítetos importantes de El era “Touro El”, e a iconografia do touro acabou dominando toda a iconografia, especialmente no sul. Enquanto isso, a iconografia polarizava entre os israelitas, parecendo que as variantes do culto do norte aceitaram a iconografia do touro de El associada a Iavé. Jeroboão I estabeleceu imagens distintas de touro em seus santuários de Iavé em Betel — cujo nome significa “Casa de El” — e em Dã. O atual sítio de Dã é o único santuário de Iavé sobrevivente do mundo antigo, ao lado de Tel Arad, no sul, mas este está em sua maior parte desmontado e alojado no Museu de Israel; esses são os únicos dois santuários de Iavé que sobrevivem no registro arqueológico atual. Embora a imagem do touro possa ter sido primitiva para Iavé, é mais provável que tenha sido uma assimilação do culto de El no norte, enquanto o culto do sul, por sua vez, preferia a arca e os querubins como seus principais símbolos de culto, tendendo, em geral, a uma disposição anicônica e a detestar, especialmente à medida que o reino do norte crescera em poder e prestígio.

De fato, a narrativa do bezerro de ouro pode ser uma polêmica do sul contra a assimilação nortenha desse aspecto do culto de El, isto é, a importação dessa iconografia do touro. Finalmente, El tinha uma consorte divina, Atirat, mas discutirei sobre ela ao abordar Asherah em breve. Se a relação entre Iavé e El era de assimilação à convergência, então a relação com o deus guerreiro e da tempestade cananeu Baal, literalmente “O Senhor”, será caracterizada não só pela assimilação mas também por um antagonismo cultual direto. A descoberta do ciclo de Baal ugarítico contribuiu significativamente para o nosso entendimento da mitologia local antiga daquela região, mais do que talvez qualquer outro conjunto de textos, exceto, é claro, a Bíblia Hebraica. Nele, Baal é famoso por suas vitórias sobre as forças caóticas do mar, ou Yam, sua luta com a morte, até a morte, seguida por sua ressurreição e a obtenção de uma trégua com Mot, o deus da morte, com a ajuda da feroz deusa guerreira da fertilidade Anat, garantindo assim as chuvas de inverno que trazem vida à região antes de ser exaltado como virtualmente o rei do mundo inteiro.

A Relação Complexa entre Iavé, El e Baal

Quase todos os elementos do culto de Baal interceptam com Iavé e seu culto, muito provavelmente devido às semelhanças entre as divindades e à popularidade de Baal em comparação com o recém-chegado Iavé na região. Ambos os deuses estavam associados a tempestades, especialmente por suas chuvas que trazem vida à região, mas associados a tempestades de tipos muito distintos. Iavé, provavelmente, estava ligado às tempestades de trovão aterrorizantes e inundações repentinas das regiões áridas do sul, enquanto Baal estava primariamente relacionado às tempestades costeiras de inverno, sem as quais a região árida lutaria para prosperar. No entanto, à medida que Iavé se estabelecia na região, o motivo dele como cavaleiro sobre as nuvens, um atributo praticamente compartilhado com Baal, seria ampliado não apenas às tempestades do sul, mas também às chuvas costeiras. Este elemento foi facilmente assimilado em Iavé, com numerosas evidências dessas teofanias de tempestade abundantes. Embora o Salmo 29 se alinhe tanto com a iconografia de Baal que alguns estudiosos simplesmente argumentaram que ele é um hino de substituição de Baal por Iavé, isso é um pouco simplista. Além disso, elementos do desafio de Baal com o mar ou Yam e seu dragão Lotan são refletidos no iavismo israelita primitivo com um desafio similar, mais notavelmente na terceira história da criação da Bíblia, encontrada no Salmo 74 e, claro, em Jó, onde a derrota de monstros marinhos, especificamente Leviatã, era um aspecto necessário para forjar o mundo da desordem aquática para a ordem. Curiosamente, essa derrota de Leviatã seria mais tarde transposta para um apocalipse que termina o mundo, e mutações posteriores do mito, tanto no judaísmo quanto no cristianismo. Para Baal, o desafio com a morte ou Mot é frequentemente desmitologizado de tal forma que Iavé tem controle sobre a vida e a morte, e em algumas passagens, Iavé é até descrito como engolindo a morte. Isso representa uma grande afirmação de poder sobre a vida e a morte, já que é exatamente a morte, descrita no grande mito como tendo uma boca aberta, que faz o engolir, não os deuses. Ademais, o local de moradia de Baal no Monte Zafon, o moderno Jebel Aqra, tornou-se sinonímia no hebraico apenas como a palavra para norte, com Iavé também inicialmente associado a montanhas, especialmente Sinai e Moriah.

O título El Shaddai provavelmente é apenas mais uma referência à assimilação de El a Iavé, vinda da palavra acadiana para montanha, embora eventualmente o Monte Sião substituiria o monte Zafon como local de orgulho, mas a metonímia “Zafon” como palavra para norte permanece no hebraico até hoje. Claro, com ambos sendo deuses guerreiros e da tempestade, não é surpreendente que Iavé fosse colocado contra Baal em um combate cultual. A popularidade de Baal pode ser vista nos inúmeros, mais de uma dúzia, nomes teonímicos a ele associados, que são provavelmente manifestações locais de Baal, semelhantes à forma como os deuses romanos eram manifestados localmente, ou mesmo à maneira como se obtém avatares de Maria em vários lugares, Nossa Senhora de tal e tal. Além disso, o horror que a adoração de Baal parece ter inspirado em certos escritores e profetas israelitas é evidente. Está bastante claro que, pelo menos na primeira metade da monarquia, houve uma tentativa bastante forte de sincretizar a adoração de Iavé e Baal, o que parece razoável, com objetos de culto de Baal colocados em santuários especificamente iavistas, provavelmente para agradar tanto à população local quanto às esposas exógamas para quem Baal era o deus central em sua religião; os israelitas se casavam fora do grupo israelita para, basicamente, garantir relações internacionais, como todo mundo. Isso foi, muito provavelmente, uma tentativa de assimilar Baal a Iavé, assim como ocorreu com El, no norte. No entanto, o culto do sul nunca se sentiu tão confortável com isso, e purgas por vários reis do sul, como por Ezequias, Jeú e, mais famosamente, Josias, buscaram erradicar completamente a adoração não iavista e até mesmo a adoração iavista não jerusalimita.

Parece que, pelo século VIII a.C., os profetas israelitas, como Elias e Eliseu, realmente rejeitaram qualquer forma de sincretismo, e a narrativa descreve vários desafios como provações entre os partidários iavistas israelitas e o culto de Baal e o culto de Asherah, especialmente como apoiado por Acabe e sua esposa fenícia Jezabel, que recebe uma reputação maligna injustamente, a propósito, o nome dela contém um teonímico. De fato, os escribas da Bíblia Hebraica odiavam tanto Baal que os teonímicos empregando seu nome passaram por uma substituição de tabu com a palavra hebraica para vergonha, de modo que nomes como o da deusa Astarte se tornaram Astarote, usando o padrão de vogal da palavra para vergonha para alterar seu nome. Além disso, a frase “príncipe ou touro de Baal” famosamente se tornou “o Senhor das Moscas”, e até mesmo o termo de Daniel para a “abominação da desolação” pode realmente ser um trocadilho em “Baal Shamem” ou “Baal dos céus”, sugerindo que o celestial é rebaixado. Assim, Baal e Iavé são provavelmente vítimas do que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”; eles são apenas muito semelhantes. O palco da antiga Canaã, da antiga Israel, simplesmente era, bem, muito pequeno para dois deuses guerreiros da tempestade, e com apenas uma exceção menor, Baal basicamente desaparece do registro religioso em Canaã pelo período pós-exílico, embora Baal continuasse a funcionar no sistema de deidades fenício como Melqart até a ascensão da hegemonia cristã no período clássico tardio. Assim, um deus tinha que sair, e, pelo menos naquela região, acabou sendo Baal. Embora isso não diga diretamente respeito ao desenvolvimento de Iavé como um deus, mas mais ao iavismo como um culto, é a questão de como a consorte de El, Atirat, seria ou não incorporada. Asherah, mencionada cerca de 40 vezes ao longo da Bíblia Hebraica, embora majoritariamente em referência a um tipo de poste ritual de madeira que provavelmente representa uma árvore sagrada da fertilidade, que, por sua vez, claro, representa a própria deusa. Há algumas vezes em que ela é mencionada como um “pesel”, uma Asherah estabelecida por Manassés, que é provavelmente uma representação gravada dela, talvez como aquelas da Idade do Bronze dela segurando seus seios; portanto, não sabemos ao certo.

O Sincretismo e a Controvérsia em Torno de Asherah

Não surpreendentemente, o culto de Asherah era muito popular, e parece razoável por muitas razões — fertilidade é popular — que a convergência de assimilação de Iavé e El também resultaria na troca de consorte, de tal forma que El Atirat se tornaria Iavé Asherah, e isso parece ser exatamente o que aconteceu, embora, claro, não sem alguma controvérsia teológica significativa. Vários reis israelitas e judeus parecem ter colocado seu símbolo de culto em templos de Iavé, e Elias contestou estridentemente com seus profetas e os profetas de Baal, matando todos eles, pelo menos de acordo com o texto. Josias visou seu culto em suas reformas inquisitoriais. De fato, foram os deuteronomistas, em particular, que tinham as preocupações mais profundas sobre a eliminação de seu culto. Seu status exato nesse período é contestado, enquanto as duas inscrições famosas em Kuntillet Ajrud e Khirbet el-Qom parecem indicar que seu status era como consorte de Iavé, apesar do sufixo pronominal problemático que ninguém parece saber exatamente como interpretar, e há 50.000 volumes sobre esse único sufixo pronominal. A preocupação predominante sobre ela é a adoração de seu objeto de culto em si, especialmente em santuários iavistas. Eles podem ter aceitado Iavé tendo uma esposa, mas não seu objeto de culto no mesmo santuário. Embora tenhamos que reconhecer a escassez de evidências aqui, parece razoável para mim que ela funcionou como consorte de Iavé, mas que essa assimilação de El foi fortemente contestada teologicamente, especialmente no sul, com as facções monolátricas iavistas emergentes. 

O objeto de culto provavelmente representava a deusa, o que parece ser quase um fato incontestável. Claramente, este se tornou associado com Iavé. Os deuteronomistas estão constantemente reclamando sobre isso, e a lógica da convergência com El sugere que ambos foram concebidos juntos. Apesar disso, as características anicônicas e monolátricas gerais iavistas eventualmente emergiram e obtiveram hegemonia cultual, especialmente no sul. Até que ponto Asherah e Astarte/Ishtar foram assimiladas nesse período permanece desconhecido. A resposta é provavelmente incerta. Além disso, há uma vaga referência a um ser chamado “Rainha dos Céus”, muito criticada por Jeremias. A identidade desse ser também permanece um mistério, embora o termo para os bolos oferecidos à Rainha dos Céus nesse texto derive do acadiano, indicando uma possível assimilação de Ishtar/Astarte, embora não haja certezas. 

Com exceção de alguns nomes, especialmente em fontes arcaicas como o Cântico de Débora, a deusa guerreira da fertilidade Anat parece ter tido pouco papel nesse período do desenvolvimento do iavismo e, talvez, no contexto cultual de Canaã como um todo. No entanto, as imagens de derramamento de sangue associadas à Anat ugarítica — ela caminhando entre sangue e carnificina, com cabeças decapitadas rolando a seus pés e mãos desmembradas voando sobre ela como gafanhotos — necessitam ser consideradas em um contexto mais amplo. Por que não há uma banda de metal chamada Anat? Vemos descrições semelhantes de Iavé se deleitando na guerra e na carnificina no Cântico de Débora, mas eu suspeito que as semelhanças entre Iavé primitivo e Anat se devem mais às práticas comuns de guerra total antiga do que a uma convergência teológica ou assimilação real. 

Certamente, o iavismo sofreria mais assimilações com a mitologia cananeia, incluindo a desmitologização dos deuses da peste Reshef e Dever, transformando-se em figuras aterrorizantes que servem como corcéis puxando o carro divino — uma imagem presente na Bíblia Hebraica. Interessante também é a transformação dos mortos régios e poderosos dos Refaim da mitologia ugarítica para gigantes derrotados por figuras bíblicas, simbolizando uma demonstração de força.

De Henoísmo a Monoteísmo: A Evolução Teológica de Iavé 

No geral, assistimos a um complexo processo não linear pelo qual o iavismo primitivo e Iavé se tornaram dominantes na pós-colapso da Idade do Bronze, nas terras altas cananeias israelitas, emergindo como a principal divindade, embora não a única, dos israelitas. Este é o famoso henoísmo do período, que se tornou um aspecto central de sua emergente hegemonia nacional na região. O período anterior é caracterizado por uma mistura de convergência teológica e divergência, assimilação e conflito, todos com os cultos cananeus locais e seus deuses, com uma tendência ao sincretismo originalmente nas áreas mais afluentes do norte. Essa tendência provocou a ira dos partidários iavistas do sul, que possivelmente já se inclinavam à monolatria e ao aniconismo, juntamente com uma minoria de profetas xamãs do norte. Após a destruição do norte em 722 a.C., os refugiados iavistas do norte foram absorvidos no culto do sul, mais resistente ao sincretismo, anicônico e monolatra. Esse processo culminaria nas reformas de Josias e dos deuteronomistas, que visavam eliminar não apenas a adoração não iavista, mas também a adoração iavista não jerusalimita, centralizando a prática religiosa e, por extensão, a política.

Com o exílio do século VI a.C. das elites judaicas, majoritariamente monolatras iavistas ou até mesmo monoteístas, a teologia do exílio e do pós-exílio representou uma mudança significativa de um deus judaico local para um deus cósmico singular. Este período marcou o surgimento do monoteísmo, transformando o iavismo no judaísmo. A transição para um monoteísmo universal viria com seu preço: o particularismo de Iavé, distanciando-se do deus guerreiro da tempestade primitivo para se tornar uma divindade universal, transcendendo todas as diferenças.