quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lilith a Lua Negra - Roberto Sicuteri

A Bíblia não fala de Deus - Mauro Biglino

Elohim Amosh e Elohim Milkom


Mauro Biglino está a fazer um ótimo trabalho, traduzido em vários idiomas. Nada de novo (Erich von Däniken, Zecharia Sitchin, Walter Raymond Drake, Mario Pincherle, Peter Kolosimo... já tinham feito o mesmo), mas Biglino tem alguns pontos que jogam em seu favor: é um acadêmico, especializado em história das religiões e na tradução do hebraico antigo, tanto de ter tido vários livros publicados pela Edizioni San Paolo (com a Edizioni Paoline a editora mais prolífica no âmbito católico).

Biglino trabalha com a Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS): baseada no Códice de Leninegrado (do ano 1008 d.C., é a cópia completa mais antiga das Escrituras Hebraicas), é considerada tanto pelo Judaísmo como pelo Cristianismo, como a edição mais confiável das Escrituras em hebraico e aramaico. Na prática é "a" Bíblia.

Biglino não ignora o aspecto simbólico da Bíblia, que existe é não pode ser negado. Todavia, afirma que a Bíblia é mais do que isso.

Fontes?

O ponto de partida é que a Bíblia não tem fontes certas.

Pode parecer coisa esquisita, mas:
Ninguém sabe com certeza quem escreveu os livros do Antigo Testamento.
Ninguém sabe com certeza quando foram escritos os vários livros.
Ninguém sabe dizer com certeza como estavam escritos em origem os vários livros, pois existem milhares de códigos diferentes.
Ninguém sabe dizer com certeza como em origem fossem vocalizados os vários livros, pois o hebraico tem a particularidade de não representar a vogais. 
A situação é tão confusa que em 1958 as universidade de Jerusalém e Tel Avive decidiram iniciar o projecto Bible Project para tentar reconstruir os textos da melhor forma possível. Tempo previsto: 200 anos (portanto faltam só 150 anos).

Tudo no Antigo Testamento é "tradição" e demasiadas vezes esta vai contra as provas. Por exemplo, é tradição considerar a Génesis como escrita por Moisés. Na verdade, as análises sugerem que o livro da Gênesis tenha sido escrito juntando material de diversas origem: mitos da Suméria, da Babilónia e de Ugarit, Enuma Elish e Atrahasis, a Epopeia de Gilgamesh.

O trabalho de Biglino, como é óbvio, é focado no estudo do Antigo Testamento e precisamente na bem conhecida questão do termo "Deus". O que é interesse aqui é o fato do autor ser um especialista do hebraico antigo: mas há outros aspectos que vale a pena relatar.

O problema do termo Elohim não precisa de muitas explicações: em hebraico (אֱלוֹהִים ,אלהים‎) é o plural da palavra elohah (אלוה). Explica Wikipedia que quando os verbos ou adjetivos estão no singular, então Elohim deve ser entendido no singular também. Mesmo considerando como válida esta explicação, é importante notar como no Antigo Testamento existem ambos os casos: Elohim com verbos ou adjetivos singulares e plurales. Portanto, há Deus e Deuses. Este é um fato.

No geral:

Quando na Bíblia encontramos a palavra portuguesa "Altíssimo", na versão hebraica há Elyon ou El-Elyon.
Quando na Bíblia encontramos a palavra portuguesa "Deus", na versão hebraica há Elohim (plural) ou El e Elhoa (singular), com verbos e adjetivos singulares e plurales.
quando na Bíblia encontramos as palavras portuguesas "Senhor" ou "Eterno", no original hebraico há Yahweh ou Yaheowah.
Então, é só um problema de singular ou plural? Nada disso, porque na Bíblia os vários Elohim têm nomes próprios diferentes. Só dois exemplos: o Elohim Amosh (Gdc 11,24) e o Elohim Milkom (1Re 11,33) aos quais podemos acrescentar o mais conhecido Elohim Yahweh.


Um, dez, cem Elohim

Lendo o Antigo Testamento, descobrimos que Yahweh e Kemosh têm o mesmo grau de importância: ambos são "deuses menores", que lideram povos de escassa importância. Salomão, por exemplo, instituiu o culto dos Elohim Kemosh e Milkom ((1Res,11). Mas o sábio Salomão deveria ter conhecido a diferença abismal entre Yahweh (o alegado Deus único e universal) e Milkom ou Kemosh, que até são descritos como "deuses pagãos". O que levou Salomão a adorar dois diferentes Elohim?

Na Bíblia não faltam outros exemplos importantes:
Em Juízes 11, Jefte, comandante das forças israelitas, combate contra os Ammonitas e no versículo 24 afirma:

Não tens tu o que Kemosh, o teu Elohim, deu-te? Da mesma forma, nós temos o que Yahweh, nosso Elohim, nos deu. 

Se admitimos que todos os Elohim são a mesma divindade e representam um único Deus, este diálogo não tem nenhum sentido. Mas, evidentemente, Yahweh e Kemosh são duas entidades diferentes: diferente mais iguais, como os mesmos poderes, os mesmos direitos, nenhum dos dois é considerado superior ao outro.

Inclusive na Bíblia há um erro: Kemosh era o Elohim dos Moabitas, não do Amonitas. Mas paciência... há cerca de 1500 erros como este no Antigo Testamento, como realça o Professor Menachemk Cohen, da Universidade Bar-Illan Tel Aviv. 

O segundo ponto, bem mais importante, é que ambos estes Elohim combatem por autênticos "lenços" de terras. Mais uma vez: são deuses menores. Os três Elohim citados até aqui (Yahweh, Kemosh e Milkom) pertencem a esta categoria.

Uma ulterior confirmação (mas há várias nas Bíblia) pode ser encontrada na pedra de Mesha (850 a.C.): uma inscrição feita compilar por Mesha, líder dos Moabitas. Nesta pedra podemos encontrar o relato duma batalha, no final da qual (linha 13) encontramos quanto segue: 

Fui e combati, tomei, matei todos, sete-mil homens, rapazes, mulheres, raparigas e escravos, porque decidi sacrifica-los em nome de Astar-Kemosh.

Portanto, temos uma situação paradoxal: os Moabitas, que combateram contra os hebraicos, adoravam um Elohim (neste caso Astar-Kemosh): mas Elohim na Bíblia não indica "o" Deus? Sim, em teoria Elohim é Deus, o mesmo Deus do hebraicos. Mas aqui têm um nome diferente: Astar-Kemosh. Porque? Porque a Bíblia explica que são cultos diferentes: os Moabitas não adoravam o mesmo Deus hebraico, eram pagãos. Então é simples entender como "Elohim" não seja "O Deus" mas apenas "um dos Deus". E atenção: a Bíblia é muito explícita quando ao culto é referida ao Elohim hebraico e quando, pelo contrário, indica uma qualquer outra divindade pagã.

O trecho acima reportado tem outra particularidade: cita o culto de Kemosh (que, como vimos, é um Elohim) junto com aquele de Astar. Esta é Astarte (em ugaritico ‘ṯtrt), a Grande Mãe da Fenícia, ligada à babilonesa Ishtar, filha de Baal, um deus bem pouco simpático. Astarte entrou a fazer parte também da religião egípcia, na XVIII dinastia (1543-1292 a.C.) com o termo de Isis, daquela grega como Afrodite e da romana como Vénus. Como podem os Elohim aparecer juntamente com a filha de Baal? Quem são afinal estes Elohim?

Voltamos à Kemosh, porque as similitudes com o outro Elohim, Yahweh, não são poucas. Também Kemosh mora entre o povo dele, tal como faz Yahvew com os israelitas; Moabitas e Hebraicos são derrotados quando os respectivos Elohim ficam zangados com eles (Números 14). E mais ainda: mesmas atitudes, mesmos poderes, mesmos sacrifícios... dois Elohim, apenas dois entre os vários que existem.

Os Elohim são também o Mal, Satanás: é deles que nascem os demônios. Ao ler o Antigo Testamento encontramos os Elohim "colegas" de Yahweh, com nomes quais Baalpeor ou Baalzevuv: não é precisa muita imaginação para entender como o primeiro seja Belfagor e o segundo Belzebu. Assim como Baal é Bóshet.

E a propósito deste último: o termo Baal é na verdade um adjectivo cujo significado é "Senhor", pelo que indica Deus. E os Cananeus herdaram este termo da religião fenícia: os Cananeus utilizavam o adjectivo Baal para indicar o Deus deles. Só a partir do XVI século a.C. Baal passou a ser sinónimo de "falso Deus".

Um Livro de Poder

Resumindo: a Bíblia fala de Elohim, substantivo plural que significa "os Deuses". Este facto em si não é novidade nenhuma, há anos que o assunto é discutido. O que Biglino sugere é de considerar toda a Bíblia como um livro não monoteísta, como o relato de como um entre estes Elohim tenha sido elevado ao estatuto de "único Deus". Por qual razão?

A Bíblia como texto sagrado (e falamos aqui do Antigo Testamento) foi "inventada" pelas classes dominantes hebraicas de Jerusalém e de Alexandria de Egipto, por questões de prestigio, poder e dinheiro. No II-I séculos a.C., em Jerusalém o que estava em jogo era a autoridade, da qual derivavam o poder e o dinheiro; em Alexandria, na mesma altura, a cultura era o tema dominante.

A Bíblia é o relato de como os vários Elohim tenham sido eliminados com o passar do tempo, até sobreviver apenas um entre eles, Yahweh. É dito que a Bíblia não pode ser considerada um texto histórico: e não poderia mesmo. As contradicções, os anacronismos, são obrigatoriamente parte duma operação que consistiu em juntar um leque de textos de várias origens para criar uma única história. Operação não simples, mas que também foi repetida em época mais recente pela Igreja com os Evangelhos.

Mas a Bíblia é também texto histórico, seria errado considera-la apenas como "simbólica", porque assim não é. Só que a história contada não é bem a mesma que conhecemos. Mas este é outro discurso.

Se o assunto for de algum interesse, é possível aprofunda-lo, sempre nesta vertente histórico-linguista: o material é amplo. Mas a última palavra é dos Leitores.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Investigação - A História da Bíblia

A História de Deus 2ª Temporada Legendado - Episódio 3 - Prova Divina

A História de Deus 2ª Temporada - Legendado - Episódio 2 - Céu e Inferno

A História de Deus 2ª Temporada - Legendado - Episódio 1- O Escolhido

The History Channel - Raízes da Fé ( Igreja Ortodoxa )

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Programa Religare - Filologia e Religião

Programa Ecclesia - 18/08/2014 – Exorcismo parte 2

Programa Ecclesia - 11/08/2014 – Exorcismo

Programa Ecclesia - 10/02/2015 – Os Primeiros Cristãos e a Palavra de Deus

Programa Ecclesia - 21/07/2015 – Culto aos santos e imagens

terça-feira, 28 de março de 2017

O Poder da Língua - Pe. José Augusto (15/03/17)

Não sejais um cristão hipócrita - Pe. José Augusto (14/03/17)

Em que se baseia a sua Fé? - Pe. José Augusto (27/03/17)

Programa Ecclesia - O Problema da Nova Ordem Mundial - 26/03/2017

domingo, 26 de março de 2017

Em Busca do Jesus Histórico: A expansão da fé no Brasil

Em Busca do Jesus Histórico: A expansão da fé no Brasil: Desde 2010, uma nova organização religiosa surge por hora A expansão da fé no Brasil acontece em ritmo intenso: uma nova organização...

Em Busca do Jesus Histórico: Onde começam e onde terminam os deuses?: "o alfa e...

Em Busca do Jesus Histórico: Onde começam e onde terminam os deuses?: "o alfa e...: https://Onde começam e Onde Terminam os deuses? "o alfa e o ômega" - Mediterrâneo e as Interações Culturais Helenísticas - André Chevitarese

Onde começam e onde terminam os deuses?: "o alfa e o Ômega" - Mediterrâneo e as interações culturais helenísticas - André Chevitarese

A expansão da fé no Brasil

Desde 2010, uma nova organização religiosa surge por hora

A expansão da fé no Brasil acontece em ritmo intenso: uma nova organização religiosa surge por hora no país. A facilidade para a abertura de novas igrejas a burocracia é pequena, ao contrário do que acontece em outras atividades, o fortalecimento do movimento neopentecostal e até mesmo os efeitos da situação econômica são apontados como motivos que podem explicar o fenômeno.

De janeiro de 2010 a fevereiro deste ano, 67.951 entidades se registraram na Receita Federal sob a rubrica de “organizações religiosas ou filosóficas”, uma média de 25 por dia. Ao levar em conta apenas os grupos novos, que não são filiais daqueles já existentes, o número é de 20 por dia. O processo é simples: primeiro, obtém-se o registro em cartório, com a ata de fundação, o estatuto social e a composição da diretoria; depois, os dados são apresentados à Receita, para que o órgão conceda o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), item obrigatório para o funcionamento legal das instituições.

Com o CNPJ em mãos, basta procurar a prefeitura e o governo estadual para solicitar, caso necessário, o alvará de funcionamento e garantir também a imunidade tributária — a Constituição proíbe a cobrança de impostos de “templos de qualquer culto”. Igrejas não pagam IPTU, Imposto de Renda (IR) sobre as doações recebidas, ISS, além de IPVA sobre os veículos adquiridos. Aplicações financeiras em nome das organizações também estão livres do IR. Em alguns estados, há ainda isenção sobre o recolhimento de tributos indiretos, como o ICMS.

— A vedação se estende a todo tributo que incide sobre a atividade religiosa, desde que o recurso arrecadado seja utilizado naquela finalidade. Caso a instituição não utilize o recurso para promover sua crença, ela pode ser autuada para pagar o imposto devido — explica o advogado Levy Reis, especialista em Direito Tributário, apresentando um exemplo. — Caso uma igreja tenha um estacionamento, não incide qualquer imposto sobre os ganhos, desde que ele seja usado para sua atividade em si. Mas se esta instituição arrecada o recurso e aplica numa viagem de um pregador a passeio para Las Vegas, fica descaracterizada a imunidade tributária. E aí sim pode ser aplicado o imposto com multa.

Migração de fiéis

O texto constitucional estabelece a imunidade fiscal e a liberdade de culto — o direito é classificado como “inviolável”. Não há, portanto, a necessidade de apresentar requisitos teológicos ou doutrinários para abrir uma igreja. A facilidade faz com que muitas organizações sequer tenham um lugar, próprio ou alugado, para receber os fiéis, informando o endereço de imóveis residenciais ou de outras empresas como sendo seus.
Números mostram a quantidade de organizações criadas - Receita Federal

A teóloga Maria Clara Bingemer, professora da PUC-Rio, aponta que a migração de fiéis também é um ponto que possibilita o surgimento de novas entidades. Um relato comum é o de integrantes de igrejas que, ao adquirir o domínio da doutrina e das pregações, resolvem abrir sua própria igreja.

— Os fiéis dessas igrejas neopentecostais, muitas vezes, são ex-católicos, ex-protestantes, estavam em outras religiões e migraram. Mas não permanecem: elas são lugar de trânsito — analisa a teóloga.

Do ponto de vista tributário, a fiscalização sobre os impostos da União cabe à Receita Federal, enquanto as secretarias estaduais e municipais de Fazenda devem supervisionar os tributos a cargo dos estados e cidades. O Ministério Público também tem o dever de averiguar possíveis irregularidades e desvios provocados pela blindagem fiscal.

No Rio, dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), mostram que há 21.333 CNPJs ativos de organizações religiosas. De janeiro de 2010 a fevereiro deste ano, houve 9.670 registros. O estado campeão no período foi São Paulo, com 17.052. Não há um cadastro único que apresente todas as igrejas em atividade no país, portanto a verificação da abertura do CNPJ é o caminho mais seguro. Mas, como o processo é autodeclaratório, a Receita ressalva não ser possível assegurar que todos os cadastros são de organizações religiosas.

Entre as denominações que surgiram, estão movimentos como a “Associação Ministerial Homens Corajosos”. O grupo não tem um templo próprio e percorre diversas igrejas evangélicas com palestras sobre os valores da vida em família. Eles direcionam as pregações para grupos de homens por acreditar que, sem a presença das mulheres, eles se sentirão mais à vontade para “revelar os pecados” e, a partir daí, mudar de postura. As reuniões de preparação para as palestras acontecem em uma sala cedida em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — é onde funciona a funerária de Marcos de Jesus, um dos integrantes. Há ainda, no estado, organizações chamadas “Associação Missionária Boneka”, “Igreja Missionária As Portas do Inferno Não Prevalecerão” e a “Associação Ministerial Chris Duran”, criada pelo cantor, hoje também pastor, que fez sucesso nos anos 1990. Já a Igreja Protestante Escatológica, que estuda um ramo do cristianismo, funciona na casa de seu fundador, na Tijuca, Zona Norte do Rio.

— Todos nós temos nossos trabalhos, ninguém vive da atividade pastoral. Não há cobrança de dízimo, as igrejas que nos convidam pagam apenas os kits que entregamos e, em alguns casos, nosso deslocamento — afirma Marcos de Jesus, integrante da associação dos Homens Corajosos.

O advogado Gilberto Luiz do Amaral, presidente do Conselho Superior do IBPT, defende a imunidade fiscal para os templos:

— Não se pode atacar o todo com a premissa de que alguns usam a religião como atividade econômica. Partidos políticos também têm imunidade. Uma revisão constitucional não deveria servir só para os templos.

Blindagem fiscal é tratada com muita cautela

Igrejas elegem deputados, senadores e, assim como outros atores políticos, fazem lobby no Congresso. A influência vem da força de um eleitorado capaz de decidir eleições — não à toa, mesmo os candidatos pouco habituados aos ritos religiosos frequentam templos e rezam de acordo com o calendário eleitoral. O fim da blindagem fiscal é um tema explosivo e cercado de cuidados em Brasília. Já uma possível expansão dos benefícios tributários tornou-se um assunto incômodo em uma agenda econômica protagonizada pela crise.

Dois projetos antagônicos tramitam no Congresso. Uma Proposta de Emenda Constitucional do então senador Marcelo Crivella, hoje prefeito do Rio, defende a extensão da isenção de IPTU aos imóveis alugados pelas igrejas. O projeto foi aprovado no Senado e está pronto para ser votado na Câmara. Mas, num ambiente dominado por cortes orçamentários e Reforma da Previdência, a pauta não deverá deixar a gaveta tão cedo. Por ironia, o Rio seria prejudicado com as perdas no IPTU, segunda maior fonte de receita.

Já o projeto de iniciativa popular que defende o fim da imunidade tributária para as igrejas aguarda o parecer do relator, senador José Medeiros, na Comissão de Direitos Humanos. Um assunto espinhoso, que traria gastos enormes a organizações pouco acostumadas ao rigor fiscal.

Um episódio de 2015 resume bem o tema. Ao texto de uma medida provisória que elevava impostos, parte do pacote de ajuste fiscal da época, inseriu-se um artigo que anistiava multas a organizações religiosas. O acordo envolveu Dilma Rousseff e Eduardo Cunha. O texto virou lei, livrando poderosas igrejas de multas pesadas.

MPF investiga venda de horários para igrejas nas emissoras de TV

A presença maciça de programas produzidos por igrejas evangélicas nas grades das emissoras abertas de televisão despertou a atenção do Ministério Público Federal (MPF), que apura possíveis irregularidades na prática. Duas hipóteses sustentam as investigações, que acontecem no Rio e em São Paulo: a subconcessão, que é proibida por lei; e o desrespeito ao limite estipulado para a propaganda, hoje em 25% — como as organizações religiosas pagam aos canais, há o entendimento de que se trata de uma negociação publicitária.

De acordo com um estudo da Agência Nacional do Cinema (Ancine), o caso mais expressivo é o da CNT, que tem quase 90% da programação vendida para a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Em São Paulo, o MPF já impetrou uma ação civil pública contra a CNT e a Iurd. No Rio, o inquérito verifica, além da CNT, as situações de Record, Bandeirantes, RedeTV e Gazeta.

O procurador da República Pedro Machado, à frente do processo em São Paulo, afirma que a prática configura uma “transferência indireta” da concessão:

— É o desvirtuamento de um serviço público concedido pela União. E dá para equiparar essa transferência a um espaço publicitário, porque a emissora é remunerada por isso — afirma.

Já o procurador da República Sérgio Suiama, responsável pela investigação no Rio, acrescenta outro elemento ao debate: a desigualdade no uso do espaço de uma concessão pública.

— Na praça, qualquer um pode pregar, mas na TV, que também é um espaço público, só quem paga pode fazer a pregação. Só as igrejas mais poderosas e com mais dinheiro podem financiar isso. Ou autoriza todo mundo a ocupar o espaço, ou proíbe todo mundo — opina.

Além da Iurd, Assembleia de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus, entre outras entidades, também alugam horários para a transmissão de seus cultos. O tema, no entanto, divide opiniões. O Ministério das Comunicações já manifestou, nos autos do inquérito do Rio, o entendimento de que não vê irregularidades no caso da CNT. As regras para radiodifusão não estabelecem limites para a produção de programas por terceiros, o que, de acordo com esta interpretação, seria o caso, e não uma relação publicitária. A segunda instância da Justiça Federal de São Paulo, na análise de uma liminar, negou o pedido para que a programação da CNT fosse suspensa.

Nos documentos que constam do inquérito, as emissoras negam irregularidades, sustentam que são responsáveis pelos conteúdos veiculados e garantem que respeitam os limites determinados para a exibição de publicidade.

Organizações religiosas no Rio:

Associação Ministerial Homens Corajosos

Associação Ministério Chris Duran

Associação Missionária Boneka — Semeando

Comunidade de Aliança Maria Rosa Mística

Comunidade Evangélica Alfa e Ômega

Assembleia de Deus Derrubando Muralhas em Irajá

Igreja Evangélica Pentecostal Porta Estreita

Igreja As Portas do Inferno Não Prevalecerão

Igreja Pentecostal Geração Eleita

Igreja Protestante Escatológica

Ministério Para Que Ele Cresça

Ministério Pentecostal Labareda de Fogo

Assembleia de Deus Geração Eleita em Cristo

Assembleia de Deus Garagem da Vitória

Ministério Itinerante o Querer de Deus

Igreja Missão Global a Voz do Senhor

Igreja Ministério Fonte Água Cristalina

Igreja Missão Evangélica Porta Para o Céu

Igreja Missionária a Fonte do Que Clama

Igreja Missionária Aliança, Promessa e Exaltação

Igreja Missionária Alto Refúgio Restaurando Vidas

Evangelho Pleno do Poder de Deus em Jacarepaguá

Igreja na Obra da Restauração de Tudo em Itaguaí

Igreja Pavilhão da Benção

Igreja Pentecostal a Descida do Espírito Santo

Igreja Pentecostal a Marca do Sangue

Igreja Promessa dos Escolhidos de Deus

Igreja Renovação Cristã Ministério Portas Abertas

Igreja Sinos de Belém Missão das Primícias

Igreja Sinais e Maravilhas de Deus

Igreja Só o Senhor Jesus Cristo Reina