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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Evangelhos Apócrifos – Uma Perspectiva Junguiana

 

1. Introdução aos Evangelhos Apócrifos

Este ensaio explora os evangelhos apócrifos que não fazem parte do Novo Testamento e questiona o que os distingue dos quatro evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Graças aos relatos dos Evangelhos de Mateus e Lucas, conhecemos a história básica do nascimento de Jesus em Belém. Mas de onde vêm as imagens familiares da gruta, do boi e do jumento ao lado da manjedoura, aquecendo o menino Jesus com seu hálito? Ou o importante papel de Maria Madalena em ambos os contextos, inclusive nos fragmentos não canônicos do Evangelho de Maria? Esses detalhes não são encontrados nos relatos canônicos, mas sim em tradições cristãs posteriores preservadas em escritos apócrifos, particularmente nos evangelhos da infância.

O termo grego apokryphos significa "oculto" ou "encoberto" e é aplicado a escritos que não foram incluídos no Novo Testamento. Isso não significa necessariamente que um texto seja fraudulento ou sem valor histórico, mas simplesmente que o texto não passou a fazer parte da coleção canônica.

2. Os Evangelhos Apócrifos

Os evangelhos apócrifos são uma coleção diversa de escritos, muitos deles fragmentários, que narram eventos da vida de Jesus, Maria, dos apóstolos ou de outras figuras associadas ao movimento cristão primitivo. Eles não foram incluídos no Novo Testamento e, com o tempo, foram excluídos da tradição bíblica autorizada da Igreja emergente.

Esses escritos começaram a surgir particularmente a partir do século II, embora alguns possam preservar tradições anteriores. Seus propósitos eram variados. Alguns buscavam preencher lacunas nas narrativas canônicas; outros ofereciam interpretações teológicas, revelações, ditos de Jesus ou relatos alternativos de sua morte e ressurreição. Alguns eram destinados ao uso devocional, enquanto outros refletiam movimentos teológicos ou filosóficos distintos.

Portanto, é enganoso considerar todos os evangelhos apócrifos simplesmente como distorções dos Evangelhos canônicos. Alguns contêm material lendário, alguns preservam tradições que podem ter circulado independentemente do Novo Testamento e alguns refletem desenvolvimentos teológicos que diferem substancialmente do cristianismo ortodoxo emergente.

Os textos apócrifos podem ser divididos em vários grupos principais: Evangelhos da infância , que tratam da infância de Jesus e da vida de Maria e José.
Evangelhos judaico-cristãos , que parecem ter se desenvolvido dentro ou perto de comunidades judaico-cristãs.
Evangelhos gnósticos ou influenciados pelo gnosticismo , que enfatizam a revelação, o conhecimento espiritual e o despertar da pessoa interior.
Evangelhos da Paixão , com foco especial no sofrimento, morte e ressurreição de Jesus.
Outros evangelhos apócrifos, fragmentários, perdidos ou homônimos, cuja forma original ou autoria é incerta.

2.1. Diferenças entre os evangelhos canônicos e apócrifos

Os Evangelhos canônicos são geralmente datados do primeiro século: Marcos é normalmente situado no início do primeiro século, Mateus e Lucas no final do primeiro século, e João no final do primeiro século ou por volta do início do segundo.

A maioria dos evangelhos apócrifos que sobreviveram data do século II em diante. Essa diferença cronológica era importante porque as primeiras comunidades cristãs consideravam a continuidade com os apóstolos um critério fundamental de autoridade.

Ao mesmo tempo, a cronologia não era o único critério de aceitação. A formação do cânone do Novo Testamento foi um processo editorial, e não uma simples triagem binária. Vários fatores contribuíram para o reconhecimento final de um texto como autoritativo, incluindo: Conexão apostólica — associação com um apóstolo ou com a geração apostólica.
Uso generalizado — especialmente leitura em comunidades cristãs e cultos.
Continuidade com o ensinamento cristão herdado
Coerência teológica com o que eventualmente foi reconhecido como cristianismo ortodoxo.

A Igreja posterior, portanto, não se limitava a perguntar se um texto era antigo. Ela também questionava se o texto pertencia à tradição apostólica herdada e se sua teologia era compatível com a fé que se desenvolvia na comunidade cristã em geral, além de ser coerente em sua mensagem.

Outro critério foi a forma literária. Alguns evangelhos apócrifos contêm narrativas elaboradas, novos episódios de milagres, diálogos, supostas revelações secretas ou simbolismo que estão em grande parte ausentes dos Evangelhos canônicos. Estes podem refletir devoção popular, reflexão teológica ou as convenções literárias de suas comunidades.

A distinção entre canônico e apócrifo não deve, portanto, ser reduzida a "verdadeiro versus falso ou simplesmente gnóstico". A questão histórica mais interessante é quais comunidades produziram esses textos, quais perguntas elas tentavam responder e por que algumas tradições acabaram se tornando autoritativas enquanto outras não.

2.2, Evangelhos Apócrifos e Gnósticos

Como mencionado acima, alguns evangelhos apócrifos importantes estão associados ao que os estudiosos modernos chamam de Gnosticismo . O termo em si é complexo, pois não existia uma única religião antiga unificada chamada "Gnosticismo". Em vez disso, o termo é usado como um guarda-chuva para diversos movimentos e textos que compartilhavam certas características.

Elaine Pagels, estudiosa do cristianismo primitivo e do gnosticismo, observa que uma ideia recorrente é a de que os seres humanos possuem, ou são capazes de despertar para, um conhecimento espiritual superior ( gnose ). O gnosticismo é um movimento dualista que enfatiza o conhecimento revelado para a salvação e distingue entre um Deus supremo desconhecido e o Demiurgo, identificado como o Deus do Antigo Testamento. Alguns textos, como o Evangelho de Tomé e o Evangelho de Maria , oferecem interpretações alternativas dos ensinamentos e da natureza de Jesus.

Alguns sistemas gnósticos desenvolveram uma distinção nítida entre o reino divino transcendente e o cosmos material. Em certos sistemas, o criador ou governante do mundo material é distinguido do Deus supremo e incognoscível. Outros textos são consideravelmente menos dualistas.

Essa diversidade cria um contraste importante com o cristianismo ortodoxo emergente. O cristianismo enfatizava cada vez mais a criação como sendo fundamentalmente criação de Deus, a bondade da corporeidade, a encarnação de Cristo, a morte e ressurreição históricas de Jesus e a salvação por meio de Cristo, em vez de por meio de conhecimento secreto possuído por uma minoria iluminada.

Contudo, as diferenças não devem obscurecer as semelhanças. Ambas as tradições basearam-se nas escrituras judaicas, nas tradições de sabedoria judaica, nas expectativas apocalípticas, nos conceitos de revelação divina, nos anjos e nos reinos celestiais, e na ideia de que os seres humanos podem encontrar a verdade divina.

A relação é, portanto, mais complexa do que uma simples oposição entre “Cristianismo” e “Gnosticismo”. Alguns desses textos são melhor compreendidos como interpretações concorrentes da mensagem cristã primitiva.

2.3 Textos comumente discutidos

Entre os textos comumente discutidos neste contexto estão: O Evangelho Grego dos Egípcios
O Evangelho de Matias
O Evangelho de Maria
O Evangelho de Judas
O Apócrifo de João
a Sofia de Jesus Cristo
O Evangelho de Tomé
O Evangelho de Pedro

Nem todos esses textos, porém, devem ser classificados como gnósticos sem ressalvas. O Evangelho de Pedro, por exemplo, é geralmente tratado como uma narrativa da paixão não canônica, e não como um evangelho gnóstico. O Evangelho de Matias sobrevive apenas em fragmentos e é difícil de classificar. A classificação do Evangelho de Tomé também tem sido debatida.

A seção seguinte, portanto, examina mais detalhadamente esses escritos não canônicos e levanta diversas questões:

De onde vieram esses textos e no que acreditavam seus autores?

Que semelhanças compartilham com o cristianismo primitivo e com as tradições religiosas e místicas judaicas?

Em que diferem do cristianismo que eventualmente se tornou ortodoxo?

Qual era o significado místico e simbólico de Maria Madalena?

E talvez o mais importante:

Por que esses escritos não foram incluídos no Novo Testamento, embora algumas das pessoas e tradições a eles associadas — sobretudo Maria Madalena — tenham se tornado profundamente importantes dentro do cristianismo?

Essas questões também se relacionam com o interesse de C.G. Jung pelas tradições gnósticas, particularmente pelo uso do simbolismo, transformação interior, revelação e a relação entre as dimensões conscientes e inconscientes da experiência religiosa.

3. Os Evangelhos Gnósticos e Não Canônicos: Fontes, História e Crenças

Os textos discutidos a seguir não devem ser tratados como um único sistema teológico. Eles provêm de diferentes períodos e comunidades e representam diferentes maneiras de interpretar Jesus e o significado da salvação.

Cada subseção, portanto, formula quatro perguntas relacionadas:Qual é o texto e de onde ele vem?
O que isso tem em comum com o cristianismo primitivo e as tradições religiosas judaicas?
Em que difere do cristianismo ortodoxo emergente?
O que isso revela sobre o mundo místico e simbólico do cristianismo primitivo?

3.1 O Evangelho Grego dos Egípcios

O Evangelho dos Egípcios é conhecido principalmente por citações preservadas por escritores cristãos primitivos, como Clemente de Alexandria. Não deve ser confundido com o Evangelho Copta dos Egípcios , posterior , preservado na biblioteca de Nag Hammadi, que é uma obra diferente e pertence muito mais claramente a um ambiente gnóstico setiano.

O texto grego parece ter circulado no século II e provavelmente teve origem em um ambiente cristão egípcio. Os fragmentos que sobreviveram contêm ditos e diálogos envolvendo Jesus e figuras como Salomé. Os temas incluem ascetismo, renúncia sexual, superação das divisões cotidianas e transformação da existência humana.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Compartilha com as tradições cristãs primitivas o uso dos ditos de Jesus, temas apocalípticos e ascéticos, e a expectativa de uma transformação radical da existência humana. Sua preocupação em superar o apego mundano também apresenta paralelos com o ascetismo cristão primitivo.

Semelhança com o pensamento judaico e gnóstico:
Sua linguagem pode ser situada no contexto religioso mais amplo das tradições de sabedoria judaica, do cristianismo egípcio e da especulação gnóstica emergente. A ênfase na transcendência da existência ordinária e no retorno a uma condição espiritual mais fundamental é particularmente significativa.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
O texto parece dar um papel muito maior ao ascetismo radical e à interpretação esotérica do que os Evangelhos canônicos. Ele não apresenta Jesus simplesmente como o mestre de uma comunidade pública, mas como um revelador de uma realidade espiritual mais profunda.

Significado místico:
O texto ilustra uma característica importante do misticismo cristão primitivo: a salvação podia ser imaginada como uma transformação do ser humano, e não meramente como um evento externo. O corpo, a sexualidade, a morte e a distinção entre masculino e feminino podiam tornar-se símbolos para a superação das divisões da existência ordinária.

3.2 O Evangelho de Matias

O Evangelho de Matias é um dos textos mais difíceis deste grupo, pois não sobreviveu como uma obra completa. O que sabemos provém principalmente de referências e citações de autores cristãos primitivos.

Foi atribuído a Matias, o apóstolo escolhido para substituir Judas Iscariotes nos Atos dos Apóstolos. Essa atribuição é importante porque o nome de um apóstolo podia conferir autoridade a um texto, embora não demonstrasse que o apóstolo o tivesse de fato escrito.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Os fragmentos sobreviventes sugerem um ambiente cristão preocupado com os ensinamentos de Jesus, a disciplina moral e a interpretação da revelação cristã.

Semelhança com o pensamento judaico e gnóstico:
Há indícios de que algumas tradições associadas a Matias podem ter enfatizado ensinamentos ocultos ou mais profundos. No entanto, as evidências que sobreviveram são muito limitadas para reconstruir uma teologia gnóstica coerente.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
É impossível definir essa diferença com certeza, pois muito pouco do texto original sobreviveu. Este é um exemplo importante de por que classificações como "evangelho gnóstico" devem, por vezes, ser usadas com cautela.

Significado místico:
Seu maior significado pode residir na existência de memórias concorrentes da geração apostólica. O fato de um evangelho ter circulado sob o nome de Matias demonstra como os primeiros cristãos buscavam autoridade por meio de figuras e tradições apostólicas.

3.3 O Evangelho de Maria Madalena e seu papel nos Evangelhos Aceitos

Maria Madalena desempenha um papel vital e consistente nos quatro Evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) como testemunha primordial da morte, sepultamento e ressurreição de Jesus Cristo. Ela desempenha um papel importante em ambos os mundos, inclusive no não canônico — mas a Maria apócrifa é frequentemente vista como uma ameaça. É por isso que o Evangelho de Maria é tão impactante: ela não é apenas a primeira a ver o Cristo ressuscitado. Ela é quem ensina os apóstolos. Isso representa um desafio direto à autoridade episcopal emergente. E é por isso que a mudança de 1969 é tão reveladora. Ela não a apagou, mas a neutralizou. Deu a ela João 20 — que sempre lhe pertenceu — e retirou Lucas 7, de modo que a Maria canônica agora é uma testemunha comissionada.

Papéis-chave nos quatro Evangelhos canônicos

O Evangelho de Marcos apresenta Maria Madalena como uma testemunha crucial na crucificação, testemunha do sepultamento de Jesus por José de Arimateia e uma das primeiras mulheres a encontrar o túmulo vazio.
O Evangelho de Mateus a retrata como uma seguidora fiel que acompanhou Jesus da Galileia, testemunhou a crucificação e descobriu o túmulo vazio ao lado da "outra Maria".
O Evangelho de Lucas: Apresenta-a logo no início da narrativa como uma seguidora proeminente de quem Jesus expulsou sete demônios, observando que ela o sustentou com seus próprios recursos, embora sua visibilidade seja reduzida durante as cenas do sepultamento imediato e do anúncio da ressurreição, em comparação com os outros relatos.
O Evangelho de João destaca de forma singular Maria Madalena, que aparece sozinha junto ao túmulo vazio, chorando, e se torna a primeira pessoa a testemunhar e reconhecer o Cristo ressuscitado , que a encarrega de ir e contar aos outros discípulos (o que lhe confere o título histórico de apostola apostolorum , ou “apóstola dos apóstolos”).

Sim: ela nunca foi formalmente uma apóstola. Não era uma dos Doze. Não consta nas listas canônicas. Mas “apóstolo” no Novo Testamento não é apenas um ofício. Significa enviado . Paulo chama Júnia e Andrônico de “destacados entre os apóstolos” (Romanos 16:7). O termo é mais abrangente do que os Doze. E em João 20, Maria é enviada. Não por um comitê. Pelo Cristo ressuscitado. “Ide aos meus irmãos e dizei-lhes: ‘Subo para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus’”. Isso é uma comissão. Isso é apostólico em sua função, independentemente do que a instituição posterior diga sobre o ofício.

Então, “talvez mais” é exatamente a expressão correta. Ela não é meramente a apóstola dos apóstolos. Ela é aquela por meio de quem a comunidade apostólica recebe o primeiro anúncio da ressurreição. Sem ela, eles não ouvem. Essa é uma dependência com a qual a Igreja institucional nunca se sentiu confortável. Por isso, a chama de “Apóstola dos Apóstolos” e a mantém fora do colégio apostólico. A venera, mas não a escuta. A coloca no calendário e a exclui da conversa.

João certamente pensava assim. Em seu Evangelho, ela é a primeira a ver o Senhor ressuscitado. A primeira a ouvir seu nome ser chamado. A primeira a ser enviada. A primeira a anunciar. Pedro e o Discípulo Amado veem o túmulo vazio, mas voltam para casa. Ela fica. Ela chora. Ela vê. Ela é enviada. Ela fala. Isso não é apenas testemunho. Isso é missão. João lhe dá uma prioridade que nenhum título pode conter e nenhuma burocracia pode apagar.

O texto apresenta Maria como alguém que recebeu uma revelação privada de Jesus. Após a partida de Jesus, ela encoraja os outros discípulos e relata os ensinamentos que recebeu dele. Pedro questiona sua autoridade, enquanto Levi a defende.

Aqui, o contraste com a tradição canônica torna-se particularmente interessante.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
a posição central de Maria não é uma invenção. Nos Evangelhos canônicos, ela já é uma das seguidoras mais importantes de Jesus. Ela testemunha a crucificação e o sepultamento, descobre o túmulo vazio e, particularmente no Evangelho de João, encontra o Cristo ressuscitado. Portanto, ela já é uma importante testemunha da ressurreição.

Semelhança com o pensamento judaico e gnóstico:
O Evangelho de Maria apresenta a salvação em termos de transformação interior e libertação dos poderes que aprisionam a alma. Isso ressoa com as ideias gnósticas de despertar e libertação, ao mesmo tempo que se baseia em tradições judaicas e cristãs mais amplas referentes à sabedoria, revelação, ascensão espiritual e luta contra os poderes cósmicos.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
A diferença crucial diz respeito à autoridade. O texto concede a Maria acesso a uma revelação que parece não estar disponível aos outros discípulos. A autoridade, portanto, deriva não apenas da sucessão institucional, mas também da revelação espiritual direta.

Isso cria um conflito marcante entre Pedro, como representante da autoridade eclesiástica emergente , e Maria, como representante da revelação direta.

O papel de Maria Madalena como símbolo místico talvez seja a questão mais importante em toda a discussão.

Maria Madalena ocupa uma posição notável entre as diferentes tradições cristãs. Nos Evangelhos canônicos, ela é uma discípula histórica e uma das principais testemunhas da ressurreição. No Evangelho de Maria , ela se torna algo mais: uma reveladora de ensinamentos ocultos e um modelo de compreensão espiritual.

Sua importância, portanto, não depende da aceitação do Evangelho de Maria como escritura

A tradição católica continuou a venerar Maria Madalena precisamente porque ela já ocupa um lugar importante nas narrativas canônicas da ressurreição. Seu culto tornou-se particularmente forte na Provença e no sul da França, onde se desenvolveram tradições em torno de lugares associados à sua vida, especialmente as tradições de Sainte-Baume e Saint-Maximin.

É importante, contudo, distinguir veneração de adoração na teologia católica. Maria Madalena é venerada como santa; a adoração no sentido estritamente teológico é reservada a Deus.

O paradoxo, no entanto, é fascinante: a mulher tornou-se uma santa consagrada e uma importante figura devocional, embora o evangelho a ela atribuído nunca tenha se tornado canônico.

Isso nos revela algo importante sobre a formação do cânone. Uma pessoa pode se tornar central na memória cristã sem que todos os textos associados a ela se tornem autoritativos.

3.4. O Evangelho de Maria: Origem e Conteúdo

O Evangelho de Maria é um dos textos mais importantes para a compreensão das diferentes interpretações de Maria Madalena no início do cristianismo. Ele sobrevive principalmente em um manuscrito copta do século V, juntamente com fragmentos em grego que são geralmente datados de épocas anteriores.

O Evangelho de Maria é anônimo — nenhum autor humano conhecido pode ser identificado. Na verdade, não foi escrito por Maria Madalena (ou qualquer outra pessoa contemporânea). O texto data aproximadamente do século II d.C. , composto bem depois da época da Maria Madalena histórica. Alguns estudiosos, notadamente Karen King , especularam que a autora possa ter sido uma mulher, mas isso permanece uma conjectura. O texto foi escrito por um membro desconhecido de uma comunidade cristã primitiva que elevava Maria Madalena a um símbolo de autoridade espiritual direta.

O título associa o texto a Maria Madalena como sua porta-voz (ela é a personagem que transmite os ensinamentos na narrativa), mas os fragmentos que sobreviveram não trazem nenhuma atribuição de autoria.

O Evangelho de Maria começa após a ressurreição. É relativamente curto; as seis primeiras páginas estão perdidas, entre outras.

O Salvador está respondendo às perguntas de seus discípulos sobre o fim do mundo material e a natureza do pecado. Todas as coisas — materiais e espirituais — estão atualmente interligadas, mas cada natureza retornará, eventualmente, à sua origem. O pecado surge porque as pessoas não reconhecem sua natureza espiritual e, em vez disso, se apegam à natureza inferior, que as engana e as conduz à doença e à morte.

A salvação vem da descoberta da verdadeira natureza espiritual interior e da superação das armadilhas do corpo e do mundo. O Salvador adverte contra seguir um líder heroico ou um conjunto de leis; em vez disso, devem buscar a verdadeira humanidade dentro de si mesmos. Ele os comissiona a pregar o evangelho e então parte.

Todos os discípulos, exceto Maria, não conseguiram compreender o ensinamento. Desesperados — temendo compartilhar do mesmo destino — eles se voltam para ela. Maria os consola e relata uma visão na qual o Salvador explicou a natureza da profecia, a ascensão da alma ao seu repouso final e como vencer os poderes ilegítimos que mantêm a alma aprisionada e ignorante de sua verdadeira natureza.

Quando ela termina, dois discípulos protestam. André considera seu ensinamento estranho e se recusa a acreditar que veio do Salvador. Pedro vai além: nega que Jesus teria dado um ensinamento tão avançado a uma mulher ou a teria preferido a eles, insinuando que ela teria inventado a visão para se promover. Maria, surpresa, começa a chorar. Levi a defende imediatamente, chamando Pedro de impulsivo e acusando-o de tratar Maria como inimiga. Ele os admoesta a todos: deveriam se envergonhar, parar de discutir e ir pregar como o Salvador ordenou.

3.5 O Evangelho de Judas

O Evangelho de Judas sobrevive em um manuscrito copta descoberto no século XX e é geralmente datado do século II em sua forma original.

Sua característica mais marcante é a inversão da relação familiar entre Jesus e Judas. Judas é apresentado não simplesmente como o traidor, mas como o discípulo que compreende algo que os outros discípulos não compreendem.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Jesus permanece como o revelador central, e o texto utiliza muitos temas cristãos familiares: os discípulos, o contexto da Última Ceia, o sacrifício, a ressurreição, os anjos e a relação entre Jesus e seus seguidores.

Semelhança com o pensamento judaico e gnóstico:
O texto contém uma cosmologia altamente desenvolvida envolvendo seres celestiais e diferentes níveis de realidade divina. Reflete um mundo no qual o cosmos visível não representa a totalidade da realidade e no qual o conhecimento espiritual revela a estrutura por trás das aparências.

Essas ideias apresentam paralelos com as especulações apocalípticas judaicas sobre reinos celestiais e seres angelicais, mas são desenvolvidas em uma cosmologia gnóstica mais elaborada.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
A diferença mais marcante diz respeito ao próprio Judas. Em vez de ser a simples personificação da traição, ele se torna uma figura enigmática que participa de um mistério divino.

O texto também parece criticar práticas sacrificiais e rituais associadas a alguns grupos cristãos, sugerindo uma reinterpretação radical do culto cristão.

Significado místico:
Judas torna-se um símbolo da ambiguidade entre conhecimento e obediência. O aparente vilão pode possuir conhecimento oculto, enquanto os discípulos aparentemente fiéis podem não compreender a verdade mais profunda.

Essa inversão é característica de diversos textos gnósticos: a pessoa que parece estar fora da narrativa sagrada pode, em outro nível, ocupar seu centro oculto.

3.6 O Apócrifo de João

O Apócrifo de João é um dos textos mais importantes que sobreviveram para a compreensão do pensamento gnóstico setiano. Várias versões sobreviveram, incluindo cópias entre os manuscritos de Nag Hammadi.

Apresenta uma revelação dada por Cristo ressuscitado a João. O texto desenvolve uma cosmologia elaborada, começando com a realidade divina transcendente mais elevada e prosseguindo através de emanações, seres celestiais, Sofia e, finalmente, a criação do mundo material.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Jesus é o revelador da verdade divina, e o texto é estruturado em torno da revelação recebida por um apóstolo. Portanto, permanece reconhecidamente cristão em sua estrutura básica.

Semelhança com o pensamento judaico:
Sua cosmologia se baseia fortemente na linguagem e nas imagens do Gênesis. Adão, Eva, a serpente, a criação, a sabedoria e a figura do criador são reinterpretados através de uma lente teológica radicalmente diferente.

Isso é particularmente interessante porque o texto não se limita a rejeitar as escrituras judaicas. Ele reinterpreta o Gênesis contra si mesmo.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
O criador do mundo material, geralmente chamado de Demiurgo, não é idêntico ao Deus supremo. O cosmos material é, consequentemente, compreendido como resultado de um nível inferior de atividade divina.

Isso difere fundamentalmente da doutrina cristã emergente de um único Deus que cria o mundo e declara a criação boa.

Significado místico:
A história bíblica da criação torna-se uma alegoria do aprisionamento e do despertar espiritual. A humanidade contém um elemento divino que ficou preso no mundo material e precisa despertar para sua verdadeira origem.

Essa é uma das razões pelas quais os textos gnósticos despertaram tanto interesse em C.G. Jung: o mito não é meramente uma narrativa histórica, mas pode funcionar como uma descrição simbólica da transformação psíquica.

3.7 A Sofia de Jesus Cristo

A Sofia de Jesus Cristo é outro diálogo revelatório no qual Jesus ressuscitado ensina seus discípulos sobre a estrutura da realidade, a criação, a humanidade e a salvação.

A palavra grega Sophia significa “sabedoria”, um conceito profundamente enraizado na literatura religiosa judaica. A tradição bíblica da Sabedoria personifica a Sabedoria como uma realidade divina ou quase divina associada à atividade criativa de Deus.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Jesus funciona como o revelador da sabedoria divina, e o texto aborda a criação, a salvação, a ressurreição e o destino da humanidade.

Semelhança com o pensamento judaico:
A relação com a tradição da Sabedoria judaica é particularmente importante. O conceito de Sabedoria divina serve de ponte entre as escrituras judaicas e as especulações cristãs e gnósticas posteriores.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
O texto apresenta uma cosmologia mais elaborada, envolvendo poderes celestiais e níveis de realidade, do que os Evangelhos canônicos. A salvação está ligada ao conhecimento dessa estrutura cósmica.

Significado místico:
Aqui, Sofia representa mais do que conhecimento intelectual. A sabedoria torna-se um símbolo da ordem divina oculta por trás do mundo visível.

Este é um ponto importante ao considerarmos o Gnosticismo: a gnose não é simplesmente "conhecer fatos". Está mais próxima do reconhecimento — uma percepção de quem se é, de onde se vem e a que lugar se pertence em última instância.

3.8 O Evangelho de Tomé

O Evangelho de Tomé é uma coleção de 114 ditos atribuídos a Jesus. Foi preservado em copta entre os manuscritos de Nag Hammadi, embora fragmentos gregos de Oxirrinco demonstrem que versões gregas já circulavam anteriormente.

Diferentemente dos Evangelhos canônicos, o Evangelho de Tomé praticamente não contém narrativa. Não há uma narrativa desenvolvida da Paixão, nenhum relato convencional da ressurreição e nenhuma biografia contínua de Jesus.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Muitos ditos se assemelham ao material encontrado em Mateus, Marcos e Lucas. Esta é uma das razões pelas quais o texto é particularmente importante para o estudo histórico: ele demonstra que coleções dos ditos de Jesus circularam independentemente das quatro narrativas canônicas.

Semelhança com o pensamento judaico e gnóstico:
A ênfase na descoberta do significado oculto nas palavras de Jesus pode assemelhar-se à espiritualidade gnóstica. Tomé direciona repetidamente a atenção para o reconhecimento e a transformação interior.

No entanto, chamar simplesmente o Evangelho de Tomé de "evangelho gnóstico" é um exagero. Os estudiosos divergem sobre até que ponto o texto deve ser classificado como gnóstico, e alguns de seus ensinamentos podem ser compreendidos dentro de tradições sapienciais judaicas e cristãs primitivas mais amplas.

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
A ênfase é colocada fortemente na descoberta do significado dos ensinamentos de Jesus, em vez de em sua morte e ressurreição como os eventos centrais da história da salvação.

Significado místico:
Tomé é talvez o exemplo mais claro da ideia de que o Reino de Deus não é meramente uma realidade geográfica ou política futura, mas algo que pode ser descoberto através de uma percepção transformada.

Isso torna Tomás de Aquino especialmente interessante de uma perspectiva junguiana: a jornada é tanto interior quanto exterior. O significado oculto deve ser descoberto, em vez de simplesmente recebido como doutrina.

3.9 O Evangelho de Pedro

O Evangelho de Pedro difere da maioria dos textos discutidos acima. Trata-se principalmente de uma narrativa da paixão e ressurreição, e não de um diálogo de revelação gnóstica.

Contém um relato ampliado do julgamento, crucificação, sepultamento e ressurreição de Jesus. Algumas passagens parecem enfatizar dramaticamente o caráter sobrenatural da ressurreição.

Semelhança com o cristianismo primitivo:
Sua estrutura narrativa básica é reconhecidamente cristã e se sobrepõe substancialmente às narrativas canônicas da paixão.

Semelhança com o pensamento judaico e gnóstico:
O texto existe dentro do mesmo universo religioso mais amplo das escrituras judaicas, do apocalipse cristão e das interpretações concorrentes sobre a natureza de Cristo. Algumas passagens foram interpretadas como demonstrando tendências docéticas, o que significa que o sofrimento ou a encarnação física de Jesus podem ser apresentados de uma maneira que difere da compreensão ortodoxa emergente do Cristo plenamente humano.

No entanto, não é correto classificar simplesmente o Evangelho de Pedro como um evangelho gnóstico

Diferença em relação à ortodoxia emergente:
Sua abordagem da paixão e ressurreição difere dos relatos canônicos, e alguns dos primeiros escritores cristãos consideravam aspectos de sua teologia problemáticos.

Significado místico:
O texto demonstra a forte influência que a Paixão e a Ressurreição exerceram sobre a imaginação teológica. A fronteira entre memória histórica, proclamação litúrgica e narrativa simbólica já estava sendo explorada de diferentes maneiras pelas comunidades cristãs.

3.10 O que esses textos têm em comum

Em conjunto, esses escritos revelam que o cristianismo primitivo era intelectual e espiritualmente muito mais diverso do que o cânone posterior do Novo Testamento poderia sugerir.

Vários temas recorrentes aparecem: 
Jesus como revelador do conhecimento divino
a possibilidade de revelação espiritual direta
A sabedoria como caminho para a transformação
reinos celestiais e seres espirituais
a interpretação do Gênesis e das escrituras judaicas
a distinção entre aparência e realidade mais profunda
a luta entre a existência espiritual e a existência material
a transformação ou o despertar do indivíduo
formas alternativas de autoridade dentro da comunidade cristã

No entanto, também existem diferenças substanciais

Alguns textos permanecem fiéis às tradições judaico-cristãs. Outros desenvolvem cosmologias gnósticas elaboradas. Alguns enfatizam o ascetismo. Outros se concentram em ditos secretos. Outros ainda são, primordialmente, narrativas da Paixão de Jesus.

É, portanto, melhor falar de várias interpretações cristãs concorrentes do que de uma única alternativa gnóstica unificada ao cristianismo.

3.11 Por que esses Evangelhos não foram escolhidos?

A questão de por que esses textos não foram incluídos no Novo Testamento não pode ser respondida simplesmente dizendo que a Igreja os rejeitou por serem “gnósticos”.

O processo foi consideravelmente mais gradual

Os quatro Evangelhos canônicos adquiriram uma posição única porque estavam associados à geração apostólica, circularam amplamente, foram lidos no culto cristão e, cada vez mais, passaram a ser reconhecidos como expressão da fé comum da Igreja em geral.

Em contrapartida, muitos evangelhos alternativos surgiram mais tarde, foram geograficamente restritos, associados a comunidades específicas ou considerados inconsistentes com a tradição teológica que se tornava dominante.

A doutrina, contudo, tinha grande importância

Com o desenvolvimento do cristianismo, várias questões teológicas tornaram-se decisivas:Existe um único Deus que criou o mundo material?
Jesus é verdadeiramente humano, além de divino?
A morte e ressurreição corporal dele são essenciais para a salvação?
A salvação é primordialmente uma ação de Deus em Cristo, ou pode ser descrita principalmente como o despertar de um conhecimento oculto dentro do indivíduo?
A autoridade se baseia principalmente na tradição apostólica pública, ou a revelação secreta recebida por um indivíduo pode substituir essa tradição?

A Igreja ortodoxa emergente respondeu a essas questões de maneiras que excluíram vários dos sistemas teológicos representados pelos escritos gnósticos.

Mas isso não significa que os textos excluídos foram simplesmente “ocultos porque a Igreja os temia”. Sua exclusão resultou de um processo muito mais longo que envolveu teologia, autoridade apostólica, prática litúrgica, distribuição geográfica e a formação de uma identidade cristã comum.

O paradoxo de Maria Madalena torna isso particularmente visível

A própria Maria poderia ser aceita e venerada, enquanto um texto atribuído a ela poderia permanecer fora do cânone.

A mesma distinção se aplica a muitas outras figuras. O nome de um apóstolo em um texto não o tornava automaticamente apostólico, assim como a rejeição de um texto não apagava a importância histórica ou simbólica da pessoa a ele associada.

O cânone, portanto, não era simplesmente uma lista de tudo o que os primeiros cristãos consideravam interessante ou espiritualmente valioso. Ele se tornou um limite em torno dos escritos que a Igreja emergente considerava normativos para a fé cristã.

4. Por que não devemos confiar nos Evangelhos não canônicos — ou devemos?

Talvez a pergunta devesse ser reformulada.

Os evangelhos não canônicos não devem ser aceitos acriticamente nem descartados simplesmente por serem não canônicos.

São documentos históricos. Eles nos contam algo sobre a diversidade do cristianismo primitivo, o desenvolvimento da teologia cristã, a interpretação das escrituras judaicas e as maneiras pelas quais diferentes comunidades entendiam Jesus.

Contudo, nem todos os textos são igualmente valiosos para a reconstrução do Jesus histórico. Um texto escrito várias gerações depois de Jesus não pode ser automaticamente tratado como um relato de testemunha ocular simplesmente por alegar preservar suas palavras. Tampouco se deve presumir que um texto canônico seja historicamente preciso em todos os detalhes apenas por ter se tornado canônico.

A distinção mais útil é entre diferentes tipos de evidências históricas

Os Evangelhos canônicos fornecem as primeiras fontes narrativas substanciais sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. Os textos não canônicos oferecem evidências adicionais de como Jesus foi lembrado, interpretado e reimaginado pelas comunidades cristãs posteriores.

Sua importância reside, portanto, não apenas no que podem nos dizer sobre o Jesus histórico, mas também no que revelam sobre a história da consciência cristã.

E é aqui que o assunto pode se tornar particularmente interessante de uma perspectiva junguiana.

Os escritos gnósticos transformam repetidamente figuras históricas e histórias bíblicas em símbolos de um drama interior: ignorância e conhecimento, aprisionamento e libertação, morte e renascimento, masculino e feminino, autoridade e revelação individual.

Uma narrativa simplista de “cristianismo ortodoxo versus gnosticismo” desmorona assim que se analisa cuidadosamente o Evangelho canônico de João. João contém uma cristologia extraordinariamente elevada, dualismo luz/trevas, descida e ascensão celestiais, revelação, significados ocultos e uma linguagem recorrente sobre conhecer o Pai e o Filho. Não é um evangelho gnóstico, mas parte de seu vocabulário conceitual se assemelha notavelmente ao ambiente religioso do qual emergiram as tradições gnósticas posteriores.

Isso torna a questão muito mais interessante:

Por que essa constelação específica de textos, tradições e instituições se tornou a forma canônica do cristianismo, enquanto outras interpretações não?

Aqui, creio que uma metáfora de "produto" cultural, introduzida implicitamente por Rodney Stark, pode funcionar muito bem — desde que distingamos a descrição histórica da própria metáfora . Sua questão central em seu livro "A Ascensão do Cristianismo" era: como o obscuro e marginal Movimento de Jesus se tornou a força religiosa dominante. Uma das razões era a qualidade e a consistência da mensagem.

A ideia de “produto global localizado”:

O movimento cristão primitivo não era simplesmente uma mensagem fixa transmitida sem alterações de Jerusalém para o exterior. Ele passou por tradução, adaptação, seleção, interpretação e institucionalização à medida que se deslocava por diferentes ambientes linguísticos, culturais e políticos. Na tradição canônica, ela é testemunha da Ressurreição. Paulo é central nessa narrativa. O movimento paulino tornou-se um dos mecanismos mais importantes pelos quais o movimento de Jesus foi traduzido em uma forma capaz de transpor fronteiras étnicas, linguísticas e geográficas.

4.1. O catolicismo como uma das primeiras instituições globais:

A Igreja Católica acabou por desenvolver características notavelmente comparáveis ​​às de uma organização transnacional no primeiro império global do Ocidente – Roma: uma identidade universal que transcende a etnia local;
doutrina padronizada;
uma hierarquia translocal;
mecanismos de nomeação e sucessão;
práticas litúrgicas comuns;
um cânone textual compartilhado;
redes de educação e transmissão;
instituições locais conectadas a uma estrutura central maior;
mecanismos para a resolução de disputas doutrinárias;
uma enorme rede de comunicações;
e, eventualmente, uma relação institucional com o poder político.

Mas há um ponto ainda mais interessante

A Igreja não se organizou globalmente primeiro para depois desenvolver uma doutrina uniforme. Os dois processos reforçaram-se mutuamente. Os concílios, portanto, não são meras notas de rodapé teológicas. Eles fazem parte da padronização institucional do cristianismo . Os sete primeiros concílios ecumênicos são extremamente importantes para o desenvolvimento do que se tornou o cristianismo niceno/calcedônio dominante; naturalmente, eles não se limitaram a "aprimorar o produto". Eles também debateram interpretações concorrentes do cristianismo , e suas decisões refletiram argumentos teológicos, políticas episcopais, envolvimento imperial, interesses regionais e mudanças no poder institucional.

E isso nos leva de volta a Maria Madalena. Maria Madalena nos apresenta uma figura humana que cruza a fronteira entre o cristianismo canônico e o vasto mundo que o cerca.

Em Lucas, ela já é extraordinária. Não é apenas uma mulher que aparece incidentalmente na história. Ela pertence ao grupo que acompanhava Jesus e está explicitamente associada ao seu ministério. Lucas a descreve como uma das mulheres de quem Jesus expulsou sete demônios e a identifica como uma das mulheres que apoiavam o movimento materialmente. Significativamente, durante 1400 anos, ela foi confundida com a mulher desconhecida, uma pecadora que lavou os pés de Jesus. Até 1969, por um ato administrativo, isso mudou. Nenhuma explicação concreta foi dada.

Por que a instituição preservou Maria Madalena enquanto rejeitava a tradição teológica específica que posteriormente se pronunciou em seu nome? Por que o Evangelho de João canônico lhe conferiu um papel de destaque? Por que a instituição a desvinculou silenciosamente do ato radicalmente bom, quase revolucionário, de Jesus ao permitir que ela lavasse seus pés?

João torna as questões ainda mais incisivas. A própria tradição canônica contém material que demonstra a amplitude da expressão teológica do cristianismo primitivo. A fronteira entre o cristianismo canônico e o que mais tarde foi denominado "gnóstico" não era originalmente uma linha divisória simples. Ela foi construída historicamente.

O cânone não surgiu simplesmente porque um grupo possuía a doutrina original do cristianismo enquanto outro inventou o gnosticismo. Ele emergiu através de um processo prolongado no qual interpretações concorrentes de Jesus foram avaliadas, transmitidas, institucionalizadas e, por fim, delimitadas pela autoridade eclesiástica.

No Evangelho de Maria, ela se torna portadora de conhecimento oculto. No cristianismo posterior, torna-se santa e objeto de profunda devoção. No sul da França, torna-se o centro de uma extensa paisagem sagrada e tradição devocional.

O Evangelho de Maria não se tornou canônico, mas Maria Madalena não desapareceu da memória cristã. A história do cânone não é simplesmente a história de quais pessoas foram lembradas e quais foram esquecidas. É também a história de quais interpretações dessas pessoas se tornaram autorizadas . Um processo cuidadosamente gerenciado.

Os evangelhos não canônicos, portanto, continuam valiosos precisamente porque nos permitem ver alguns dos caminhos que o cristianismo primitivo poderia ter trilhado — mas que, em última análise, não trilhou como a tradição cristã normativa.

Assim, a metáfora do “produto global” adquire valor analítico real:

Movimento de Jesus → múltiplas interpretações locais → expansão missionária → produção textual → competição entre tradições → formação do cânone → refinamento da personalidade e da trindade de Jesus pelos credos → padronização doutrinária → consolidação institucional → parceria imperial → Igreja global.

E Maria Madalena percorre todo o processo como um contraponto fascinante: a pessoa sobrevive ao processo de seleção mesmo quando uma interpretação dela não sobrevive.

Isso transforma a questão inicial da confiança em como a autoridade e as mensagens autoritárias foram construídas . Claramente, Paulo foi o arquiteto estratégico da expansão transcultural e a globalização não foi meramente uma consequência da consolidação doutrinária; ela ajudou a criar as condições que tornaram a consolidação doutrinária necessária.

4.2. Paulo como arquiteto da expansão

A combinação incomum de identidades de Paulo teve enorme importância. Ele era judeu, profundamente instruído na tradição judaica, um excelente comunicador de língua grega atuando em um mundo helenístico e cidadão romano. Suas cartas demonstram uma capacidade de abordar diferentes ambientes sociais e culturais sem abandonar a reivindicação central do movimento.

Sua estratégia também era notavelmente orientada para redes. Ele não tentou converter pessoalmente todo o mundo mediterrâneo. A urbanidade do cristianismo é outro ponto levantado por Rodney Stark. Paulo concentrou-se em importantes centros urbanos — lugares como Corinto, Éfeso, Tessalônica, Filipos e Roma — onde as comunidades podiam se reproduzir e se conectar a redes mais amplas de comércio, viagens e comunicação.

Paulo não estava apenas adaptando o cristianismo a diferentes públicos. Ele também estava mudando o significado de pertencer ao movimento . A abertura do movimento de Jesus aos gentios, sem exigir a conversão completa ao judaísmo, tinha um potencial transformador. Removeu uma importante barreira cultural à expansão.

Ele se tornou um arquiteto pioneiro da expansão transcultural do cristianismo . A expansão do movimento criou um problema que uma pequena seita judaica na Palestina não tinha inicialmente:

Como é possível que milhares de comunidades separadas por geografia, idioma e cultura ainda se considerem pertencentes à mesma religião?

Isso gera uma necessidade institucional de algo semelhante a uma identidade de marca :
Quem é Jesus?
Quem é Deus?
O que é a salvação?
O que constitui a comunidade?
Quais textos são considerados de autoridade?
Quais práticas são legítimas?
Quem tem autoridade para decidir disputas?
O que faz com que uma comunidade cristã em Alexandria seja reconhecidamente da mesma religião que uma em Roma ou Antioquia?

Esse alcance global transformou a Igreja , e a autoridade para transmitir mensagens acabou exigindo instituições capazes de impor ou, pelo menos, transmitir essas definições a distâncias enormes.

4.3. Concílios que aprimoram a singularidade da Trindade e da Cristologia

Chamar os concílios simplesmente de “padronização” é uma simplificação excessiva. As controvérsias trinitárias e cristológicas diziam respeito a algo muito mais profundo: como o cristianismo poderia manter o monoteísmo ao mesmo tempo que fazia afirmações extraordinárias sobre Jesus e o Espírito Santo.

O problema, enquanto solução, era quase matematicamente elegante e retoricamente belo:

Um só Deus — Pai, Filho e Espírito Santo.

E:

Um só Cristo — verdadeiramente divino e verdadeiramente humano.

A Igreja teve que navegar entre posições que aparentemente poderiam levar ao triteísmo/politeísmo, por um lado, e à negação da plena divindade ou humanidade de Cristo, por outro .

As formulações resultantes — especialmente Niceia e Constantinopla sobre a Trindade, e Calcedônia sobre a Cristologia — tornaram-se instrumentos intelectuais precisos e concisos. Não eram narrativas, mas a essência do cristianismo. Eram tentativas de estabelecer limites dentro dos quais a teologia cristã pudesse continuar a se desenvolver sem ruir em alternativas incompatíveis.

O credo tornou-se uma espécie de arquitetura de marca teológica: não uma simplificação do produto, mas uma definição precisa do que poderia e do que não poderia legitimamente pertencer a ele.

E talvez o termo “USP” possa ser usado, mas o utilizarei conscientemente como uma metáfora moderna. O Credo Niceno-Constantinopolitano não era uma “proposta única de venda” no sentido comercial. Mas, como analogia, captura algo real: expressava a identidade distintiva do sistema de crenças cristão de forma concisa, portátil e repetível.

E isso nos leva diretamente de volta à sua pergunta sobre Maria Madalena

A identidade visual final da Igreja não foi criada eliminando todas as tradições concorrentes. Ela absorveu, transformou e preservou seletivamente uma enorme quantidade de material anterior.

O cristianismo não se limitou a "manter o neoplatonismo". Em vez disso, os pensadores cristãos apropriaram-se progressivamente da filosofia platônica e, posteriormente, da filosofia neoplatônica, transformando-a. Agostinho é o exemplo mais óbvio; a teologia cristã posterior recorreu amplamente à metafísica neoplatônica. Portanto, "absorveu" ou "domesticou" seria mais preciso do que "manteve".

Ao contrário da reforma de Akhenaton, que tentou reorganizar a religião egípcia em torno de Áton e suprimir ou marginalizar a ordem cultual estabelecida, a reforma de Akhenaton foi marcada por uma ruptura abrupta e incomum das instituições religiosas, sacerdócios, iconografia e tradições do Egito. O antigo mundo religioso não foi simplesmente reinterpretado; partes importantes dele foram atacadas.

O cristianismo seguiu uma trajetória muito mais sincrética e absorvente :As escrituras judaicas permanecem sagradas;
Abraão, Moisés e os profetas continuam sendo autoridades;
Conceitos filosóficos gregos podem ser usados ​​para articular a teologia cristã;
A metafísica platônica pode ajudar a explicar a transcendência divina;
As linguagens artísticas existentes podem ser reaproveitadas;
Festivais, espaços sagrados e práticas devocionais locais podem, por vezes, ser cristianizados;
Linguagens simbólicas mais antigas podem adquirir novos significados;
No entanto, o sistema resultante pode insistir fortemente em seus próprios limites teológicos.

4.4. O paradoxo da flexibilidade cristã

O cristianismo desenvolveu uma combinação incomum de flexibilidade cultural e rigidez doutrinária .

Podia traduzir-se para a linguagem intelectual grega, a cultura administrativa latina, o simbolismo egípcio, o cristianismo sírio, a Europa germânica, e mais tarde, durante a dinastia Tang, para a terminologia taoísta e budista, tendo posteriormente os jesuítas se inclinado para o confucionismo. Eventualmente, quase qualquer ambiente cultural foi encontrado.

Alguns contratempos ocorreram: os jesuítas foram acusados ​​pelo Vaticano de misturar o Evangelho com heresias pagãs, tolerando a veneração aos ancestrais. O Vaticano , distante do contexto cultural de Pequim, optou por adotar uma postura rígida. Em 1704 e 1715, o Papa Clemente XI emitiu decretos papais proibindo estritamente os católicos chineses de praticarem a veneração aos ancestrais e vetando o uso de conceitos confucionistas (proibição revogada em 1939).

Embora os jesuítas, séculos mais tarde, tenham distinguido cuidadosamente a filosofia confucionista do budismo, os nestorianos foram descartados pelos primeiros sete concílios ecumênicos. Dispersos pela China, eles se apoiaram tanto em termos budistas e taoístas que o público em geral mal conseguia distinguir a diferença . Em uma perseguição estatal taoísta em 845 d.C., eles se tornaram danos colaterais. A "Religião Luminosa" foi proibida juntamente com o budismo, e seus mosteiros foram destruídos.

Mas, por trás dessa flexibilidade, passou a insistir cada vez mais em limites muito precisos em relação aos benefícios:

Deus → Cristo → Trindade → Encarnação → Ressurreição → Igreja → Sacramentos → Escrituras.

Essa pode ser, de fato, uma das razões pelas quais o cristianismo conseguiu se expandir sem se dissolver completamente em religiões locais.

E existe uma comparação multinodal fascinante disponível:

Akhenaton: uma tentativa monoteísta fracassada:
Substituição radical religiosa.

Judaísmo rabínico:
Continuidade através da interpretação textual, da lei e da identidade comunitária após a destruição do Templo.

Cristianismo:
Universalização por meio da incorporação — escrituras judaicas + filosofia grega + estruturas institucionais romanas + culturas locais — definindo progressivamente as fronteiras doutrinárias.

Islã:
Universalização através de uma poderosa estrutura escritural e profética, com seus próprios e fortes limites teológicos e legais.

Isso torna a analogia do catolicismo como a “primeira ONG global bem-sucedida” muito interessante. A conquista extraordinária não foi meramente a expansão . As tradições gnósticas podiam fornecer uma profundidade simbólica e filosófica extraordinária, mas muitas delas representavam um problema para esse sistema universal emergente, porque tendiam a localizar a autoridade religiosa em revelações especiais, conhecimento esotérico e cosmologias alternativas .

Uma instituição universal precisa de algo que possa ser ensinado publicamente em Roma, Alexandria, Antioquia e, eventualmente, em outros lugares, sem exigir acesso a uma cadeia privada de iniciação .

O Credo faz exatamente isso

Talvez seja aqui que a metáfora da “marca global” atinja sua forma mais interessante:

A extraordinária conquista institucional do cristianismo não foi a eliminação das diferenças culturais. Ele aprendeu a operar em meio às diferenças culturais, ao mesmo tempo que definia progressivamente os limites teológicos daquilo que poderia ser considerado cristianismo.

João demonstra que o próprio produto canônico poderia conter material extraordinariamente místico, metafísico e simbolicamente carregado, o que suscitou uma questão binária: quais formas de interpretação mística poderiam ser incorporadas à Igreja universal — e quais interpretações ameaçariam a arquitetura teológica comum?

Algumas críticas consideram a rigidez inflexível um atributo problemático da religião monoteísta:

4.5. Rigidez ou necessidade na definição de limites

*Observação histórica: as tradições monoteístas frequentemente desenvolveram limites rígidos em torno da crença e da prática legítimas.
*Interpretação: alguns historiadores e críticos consideram essa definição de limites como uma fonte de rigidez ou intolerância.
*Tese: A formulação trinitária do cristianismo pode ter fornecido um mecanismo teológico para manter o monoteísmo, ao mesmo tempo que acomodava uma concepção excepcionalmente complexa do divino.

Esse terceiro ponto merece ser particularmente desenvolvido. A Trindade não “suavizou” o monoteísmo no sentido de tornar a doutrina cristã menos exclusiva — ela permaneceu enfaticamente monoteísta. O que ela fez foi abrir espaço dentro do monoteísmo para a pluralidade de pessoas divinas . Essa foi uma mudança conceitual extraordinária. A solução trinitária, em sua forma final, foi essencialmente:


Um ser divino, três pessoas

Da mesma forma, o acordo cristológico acabou por permitir:

Um Cristo, duas naturezas

A reforma de Akhenaton pode ser vista como uma substituição e exclusão radical de um sistema religioso politeísta existente. O cristianismo, por outro lado, desenvolveu uma maneira de incorporar a pluralidade em uma estrutura metafísica monoteísta . Em retrospectiva, a doutrina cristã da Trindade pode ser entendida como uma solução notável para um problema inerente ao monoteísmo cristão: como acomodar a divindade de Cristo e do Espírito Santo sem abandonar a convicção de que Deus é um.

Isso conotava a característica de definição de limites das religiões monoteístas como uma forma problemática de rigidez religiosa. A doutrina cristã da Trindade, no entanto, introduziu uma notável complexidade interna no monoteísmo: preservou a afirmação de um único Deus, permitindo ao mesmo tempo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo ocupassem posições relacionais distintas dentro da realidade divina.

Não existia na Antiguidade um equivalente a uma reunião estratégica que dissesse: "Lição aprendida: incorporar a filosofia grega, preservar as escrituras judaicas, desenvolver uma instituição universal e formular uma Trindade". Isso imporia uma intencionalidade moderna a um processo histórico que durou séculos.

Em vez disso, trata-se de algo mais próximo do respeito e da conexão com a aprendizagem coletiva . Não havia um plano mestre por trás desse desenvolvimento. No entanto, séculos de disputas teológicas, encontros culturais, competição institucional e experiência religiosa produziram uma forma de aprendizagem coletiva. Em termos junguianos, poderíamos ver algo análogo à emergência retrospectiva de um padrão arquetípico: não concebido conscientemente, mas gradualmente moldado pela experiência humana.

As religiões são criadas por seres humanos — muitas vezes não apenas conscientemente, mas isso não torna necessariamente suas experiências ou símbolos mais profundos irreais.

Maria Madalena torna-se, então, quase o veículo perfeito para examinar esse processo.

Ela é simultaneamente figura histórica, testemunha canônica, discípula lembrada, reveladora mística, santa, símbolo cultural e, posteriormente, figura mitológica.

O fato de todas essas camadas terem se acumulado em torno de uma única mulher — enquanto o texto atribuído a ela permaneceu fora do cânone — é precisamente o tipo de paradoxo histórico que seu ensaio agora está apto a explorar. Jung tratou repetidamente mitos, símbolos religiosos e formas culturais recorrentes como fenômenos que poderiam expressar estruturas psicológicas sem terem sido conscientemente inventados por ninguém.

Em retrospectiva, a história do cristianismo pode ser vista como um processo no qual a experiência coletiva, o conflito, a adaptação e a imaginação simbólica produziram gradualmente uma estrutura extraordinariamente coerente.

E essa formulação evita uma armadilha comum: não estamos dizendo: “O cristianismo é junguiano”. Estamos dizendo que Jung fornece terminologia e estrutura metodológica – pelo menos de forma analógica.

Foram as pessoas que criaram os símbolos, ou foram os símbolos, de certa forma, que criaram as pessoas que os perpetuaram?

Jung afirmou em uma entrevista: "O inconsciente é real". Jung acreditava que a mente inconsciente é uma realidade ativa e objetiva que molda nossas vidas tanto quanto o mundo físico. Jung não via o inconsciente como um mero depósito de memórias esquecidas. Ele o considerava uma força viva e independente (autônoma) que pode influenciar nossos pensamentos, nossa realidade e nossas ações.

Os homens criaram as religiões; mas não necessariamente criaram, consciente e deliberadamente, tudo o que as religiões vieram a conter.

A Maria Madalena histórica foi uma pessoa; os evangelistas a transformaram em uma figura literária e teológica; o cristianismo posterior a transformou novamente; as tradições gnósticas a tornaram uma reveladora de sabedoria oculta; o cristianismo medieval a cercou de lendas adicionais; e a cultura moderna continua a reinterpretá-la.

4.6. Maria Madalena – uma visão junguiana

Contudo, a Maria Madalena resultante é agora uma realidade cultural e psicológica por si só. Isso se aproxima muito do que Jung entendia por autonomia do mundo simbólico.

E suspeito que seja também por isso que meu ensaio continua voltando a ela: ela é quase uma demonstração perfeita da proposição "o inconsciente é real", onde as ideias convergiram em vez de se tornarem mais um caminho secundário disperso.

Na perspectiva junguiana, Madalena é uma psicopompa e um receptáculo arquetípico . Na psicologia junguiana, um psicopompa é um mediador entre a mente consciente e a inconsciente. A palavra deriva tradicionalmente do termo grego para um "guia das almas" para a vida após a morte. A tensão entre o material simbólico autônomo e o ego institucional, bem como a persistência histórica da figura apesar das repetidas tentativas de defini-la de forma restrita, parece ser a causa fundamental pela qual a Igreja também pode tê-la considerado incontrolável, e João talvez a tenha valorizado mais como os apóstolos.

5. Conclusão

A conexão entre São Paulo como arquiteto do alcance global do cristianismo, a trajetória teológica e mística singular do Evangelho canônico de João e Maria Madalena como um arquétipo resiliente ilustra o extraordinário poder do cristianismo primitivo de se expandir para além de seu contexto original. Esses três elementos, operando de maneiras diferentes, porém complementares, ajudaram a transformar um movimento messiânico localizado — surgido em um momento histórico e em um contexto cultural específicos — em uma tradição teológica singular e, por fim, em uma religião global.

O que me impressiona particularmente é a maneira relativamente discreta com que a posterior fusão de Maria Madalena com a mulher sem nome que unge Jesus e lava seus pés no Evangelho de Lucas foi tratada, em 1969, como algo a ser corrigido ou esclarecido. De uma perspectiva institucional, isso pode parecer um esclarecimento de identidades. Contudo, algo também pode ter se perdido no processo: o simbolismo que se acumulou em torno da figura resultante da fusão. Essas passagens contêm uma expressão excepcionalmente poderosa de perdão, devoção, intimidade e o bem radical. Ao separar Maria Madalena da mulher sem nome, a tradição pode ter buscado precisão histórica, embora, talvez inadvertidamente, tenha diminuído parte da força teológica e arquetípica dela como figura composta.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Enoch o guardador de segredos: Qumran e os fragmentos do “Livro dos Gigantes".

Nefilin:
Bene ha’ Elohim e a geração dos Nefilin:

Os Filhos de Deus (em hebraico bene ha’ Elohim) — entre os quais figuram Satã/Samael e Lilith — são conhecidos de vários textos da Bíblia Hebraica. Como já vimos, em Jó 1:6 e 2:1 os Filhos de Deus se apresentam a Iahweh na divina assembléia celestial; mais adiante, em Jó 38:7, vemos que os Filhos de Deus estiveram ao lado de Iahweh na criação do mundo: quando vêem a obra de Deus “rejubilavam os filhos de Deus”.

Uma cena semelhante ocorre no Salmo 29:1, onde os Filhos de Deus (bene ’elim) tributam glória ao senhor.[1]

Talvez a mais curiosa referência aos Filhos de Deus seja a do famoso Cântico de Moisés, no Deuteronômio 32, justamente antes dele subir ao monte Nebo, para morrer sem ter entrado na Terra Prometida. O Deuteronômio 32,8 contém o que aparentemente é uma velha referência mitológica à primitiva história da humanidade. – Descobriu-se que um texto fragmentário entre os Manuscritos do Mar Morto continha o Deuteronômio 32:8. composto em escrita do final do período herodiano (fim do século I a.C. ao início do século 1 d.C.). Esse fragmento é hoje o mais antigo texto hebraico do Deuteronômio 32:8 conhecido. Nesse fragmento, as últimas palavras do versículo são claramente bene ha’ Elohim (Filhos de Elohin). Essa redação foi preservada na Septuaginta Grega, que traduziu como “aggelon theou[2]:

“Quando o Altíssimo repartia as nações,
quando espalhava os filhos de Adão
ele fixou fronteiras para os povos,
conforme o número dos filhos de Deus”
(Deuteronômio 32,8)

Aqui são os anjos que guardam ou governam as nações. Porém Deus reservou cuidar pessoalmente de Israel, seu povo eleito: “Mas a parte de Iahweh foi o seu povo, o lote da sua herança foi Jacó”. (Deuteronômio 32,9). Foi uma sábia decisão, já que outros textos indicam que os anjos não fizeram exatamente o que deveriam, ou melhor, fizeram coisas além do que deveriam. Como, por exemplo, ensinar aos homens ciências divinas, casar-se e ter filhos.

O livro da Gênese assinala a união fecunda dos Benei-ha-Elohim com as filhas dos homens. Misterioso casamento do qual nasceu a grande raça dos gibborim, ou dos nephilim:

«Quando os homens começaram a se multiplicar sobre a face da terra e lhes nasceram filhas, os bene ha’ Elohim viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulher todas as que lhes agradaram. E então disse o Senhor: “Meu espírito não terá força (yadon) indefinidamente sobre o homem, pois este na verdade é só carne. E os seus dias serão cento e vinte anos”.[3] Ora, naqueles tempos, os Nefilim habitavam sobre a terra, e também depois, quando os bene ha’ Elohim se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos: estes foram os heróis dos tempos antigos, os homens de renome.» (Gênesis 6:1-4)

O episódio dos “filhos de Deus”, que se casaram com as “filhas dos homens”, é de tradição javista. O capítulo 6 é provavelmente um fragmento de uma antiga versão hebraica do Livro de Enoch que se adicionou ao Gênesis para fornecer uma motivação moral à história do dilúvio, derivada de versões mesopotâmicas, como a epopéia de Gilgamesh, nas quais essa motivação inexiste.

O termo Nefilin significa literalmente “os caídos”, sendo um eufemismo comum para “os mortos”, (por exemplo, Jeremias 6:15 diz: “eles cairão entre os que caem [em hebraico nopelim]”). Em Ezequiel 32:27, temos os Nefilim como guerreiros que caíram:

«Eles jazem com os guerreiros,
Os nefilin dos tempos antigos,
Que desceram ao Xeol [sepulcro]
com suas armas de guerra.» (Ezequiel 32:27)

Muitos textos sugerem que o dilúvio teria como função acabar com os Nefelin, entretanto, a presença de textos narrando a aparição de nefelins após esta data sugere que pelo menos alguns sobreviveram (ou ouve uma Segunda queda dos anjos após aquela data…)

O livro de Números fala da presença de Nefelins em Canaã — em época bem posterior ao dilúvio. No relato, depois de vagar 40 anos no deserto os Israelitas fizeram uma breve parada em Cades, o principal oásis do norte do Sinai, 75 km a sudoeste de Bersabéia. Então Moisés enviou um príncipe de cada tribo presente ao deserto de Farã para explorar a terra prometida: “Subi ao Negueb, e em seguida escalai a montanha. Vede como é a terra; como é o povo que a habita (…) Sede corajosos. Trazei produtos da terra.” (Números 13:17-20) Então eles subiram desde o deserto de Sin até Roob, a Entrada de Emat no extremo norte da terra prometida. Subiram pelo Negueb e chegaram a Hebrom, onde se achavam Aimã, Sesai e Tolmai, os enacim; e chegaram ao vale de Escol. Lá cortaram um ramo de videiras com um cacho de uvas que levaram sobre uma vara, transportada por dois homens; levaram também romãs e figos. (Números 13:21-24) Após 40 dias voltaram da exploração do lugar trazendo os produtos da terra e relatando o seguinte: “Fomos à terra à qual nos enviaste. Na verdade é terra onde mana leite e mel; eis os seus produtos. Contudo, o povo que a habita é poderoso; as cidades são fortificadas, muito grandes; também vimos ali os filhos de Enac. Os amalecitas ocupam a região do Negueb; os heteus, os amorreus e os jebuseus, a montanha; os caneneus, a orla marítima e ao longo do Jordão.” (Números 13:25-29) Então Caleb, príncipe da tribo de Judá, animou-se e disse ao povo reunido diante de Moisés: “Devemos marchar e conquistar essa terra: realmente podemos fazer isso.” Mas os outros príncipes que o haviam acompanhado se opuseram: “Não podemos marchar contra esse povo, visto que é mais forte do que nós (…) A terra que fomos explorar é terra que devora os seus habitantes. Todos aqueles que lá vimos são homens de grande estatura. Lá também vimos Nefelins –os filhos de Enac são descendência de Nefilim –. Tínhamos a impressão de sermos gafanhotos diante deles e assim também lhes parecíamos.” (Números 13:31-33) Mas os príncipes Josué e Caleb reanimaram a comunidade: “Não tenhais medo do povo daquela terra, pois os devoraremos como um bocado de pão. A sua sombra protetora[4] lhes foi retirada, ao passo que Iahweh está conosco” (Números 14:9)

No Deuteronômio 2:11, os gigantes enacim – descendentes dos nefilim – também são chamados de rafaim, um termo mais geral para os habitantes de Canãa, citados em Números:

«Cruzamos o território de nossos irmãos, os filhos de Esaú que habitam em Seir (Édom), e passamos pelo caminho da Arabá, de Elat e de Asiongaber. Depois viramo-nos, tomando o caminho do deserto de Moab. Disse-me então Iahweh: “Não ataques Moab e não o provoques à luta, pois nada te darei da sua região. Eu dei Ar como propriedade aos filhos de Ló. – Outrora os emim aí habitavam; eram considerados como rafaim, assim como os enacim; os moabitas, porém, chamam-nos de emim. Em Seir habitavam outrora os horreus; os filhos de Esaú, porém, os desalojados e exterminaram, habitação no seu lugar, assim como Israel fez para se apossar da terra que Iahweh lhe dera. – E agora, levantai acampamento e atravessai o ribeiro de Zared!”» (Deuteronômio 2:8-13)

Mais adiante, a narração continua: «Ouve, ó Israel: hoje estás atravessando o Jordão para ires conquistar nações mais numerosas e poderosas do que tu, cidades grandes e fortificadas até o céu. Os enacim são um povo grande e de alta estatura. Tu os conheces, pois ouviste dizer: “Quem poderia resistir aos filhos de Enac?” Portanto, saberás hoje que Iahweh teu Deus vai atravessar à tua frente, como um fogo devorador; é ele quem os exterminará e é ele quem os submeterá a ti. Tu, então, os desalojarás e, rapidamente, os farás perecer (…) é por causa da perversidade dessas nações que Iahweh irá expulsa-las da tua frente (…) e também para cumprir a palavra que ele jurou a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó.» (Deuteronômio 9:1-5)

Dois dos mais conhecidos entre os rafaim são o rei Og, de Basã, e o gigante Golias, descrito como descendente de Rafá em Gate (2 Samuel 21,19ss[5]. Segundo o Deuteronômio, o imenso leito de ferro de Og ainda podia ser visto em Rabá: «Pois somente Og, rei de Basã, sobreviverá dos remanescentes dos rafaim; seu leito é o leito de ferro que está em Rabá dos filhos de Amon: tem nove côvados de comprimento e quatro côvados de largura, em côvado comum.» (Deuteronômio 3:11[6] Note que os gigantescos habitantes nativos de Édom-Seir, Amon e Gaza também são totalmente aniquilados em geral por Iahweh (ver Deuteronômio 20:2-3):

«Mas eu destruírei diante deles o amorreu,
cuja altura era como a altura dos cedros,
e que era forte como os carvalhos!
Destruí seu fruto por cima,
E suas raízes por baixo!» (Amós 2-3)

Os nefilin, portanto, parecem ter sido uma raça de heróis que viveu antes do Dilúvio e também em Canãa, quando os israelitas ainda não haviam conquistado a Terra Prometida. Por esse tempo, os nefilim acabam, como o nome sugere, como “os mortos”. Diz-se que os refaim e enacim foram exterminados por Josué (Josué 11:21-22), Moisés (Josué 12,4-6) e Caleb (Josué 15:14; Juizes 1:20), embora restassem alguns desgarrados, que seriam mortos por Davi e seus homens (2 Samuel 21, 18-22; 1 Crônicas 20:4-8). Josué 11,22 nos diz que: “Nenhum dos enacim sobreviveu na terra de Israel, somente em Gaza, em Gate e em Asdode alguns sobreviveram”.

Segundo Ronal S. Hendel, «a função dos nefilim-rafaim-enacim, (…) é constante em todas essas tradições. Eles existem para serem aniquilados: pelo Dilúvio, por Moisés, por Davi e outros. Na tradição israelita, os nefilim tem uma função: morrer.[7] Contudo, sempre acaba sobrando algum para ter filhos e continuar a histórias…

A Queda dos Anjos:

Os nefilins foram considerados nos livros apócrifos da época do Segundo Templo. Entre os achados arqueológicos mais importantes nesta área, encontra-se um texto em aramaico, descoberto no inverno de 1896-97 numa genizah de uma comunidade hebraica do Cairo e publicada, pela primeira vez, sob o título de Documento de Damasco, em 1910. Diz o seguinte:

«III – E, agora, ouvi-me, meus filhos, que eu descerrarei os vossos olhos para que possais escolher aquilo que Ele ama e desprezar tudo aquilo que odeia, para poderdes caminhar perfeitamente em todos os Seus caminhos e não errardes seguindo impulsos culposos ou deitando olhares de fornicação. Porque muitos foram os que se desviaram e homens fortes e valorosos aí escorregaram, tanto outrora como hoje. Caminhando com a rebelião nos corações, caíram os próprios guardas dos céus, a tal chegados porque não observavam os mandamentos de Deus, tendo caído também os seus filhos, cuja estatura atingia também a altura dos cedros e cujos corpos se assemelhavam a montanhas. Todo o ser vivo que se encontrava em terra firme, caiu, sim, e morreu, e foram como se não tivessem sido, porque procediam conforme a sua vontade e não observavam os mandamentos do seu Criador, de maneira que a cólera de Deus se inflamou contra eles.»[8]

Vários fragmentos do Livro de Enoch, escritos em aramaico, foram descobertos nas célebres grutas de Qumra[9], no Mar Morto. Contudo, mesmo depois dos textos terem sido comparados e executado um árduo trabalho de reconstituição, ainda faltaram diversas lacunas. Tentei amenizar este problema tapando os buracos com passagens de uma tradução livre para o etíope quase idêntica ao original aramaico, encontrada na Abissínia (conhecida como Enoch Etíope ou I Enoch)[10]:

VI – 1 «Sucedeu que quando se multiplicaram naqueles dias os filhos dos homens, nasceram-lhe filhas formosas e belas. Os Vigilantes, filhos do céu, viram-nas, desejaram-nas e disseram uns aos outros: Vamos e escolhamos mulheres dentre as filhas dos homens e engendremos filhos. Porém Semihaza, que era o seu chefe, lhes disse: Temo que não queiras realizar esta obra, e seja eu sozinho culpável de um grande pecado. Responderam e lhe disseram todos:[11] «Juremo-nos todos e comprometamo-nos todos sob anátema. Uns com os outros, a não voltarmos atrás neste projeto até que tenhamos realizado esta obra. Então se juramentaram todos em uníssono e se comprometeram uns com os outros. Eram duzentos todos os que desceram no tempo de Jared sobre o cimo do monte Hermon. Chamaram o monte “Hermon”, porque juram e se comprometeram sob anátema uns com os outros nele. Estes são os nomes de seus chefes: Semihazah, que era seu chefe; ’Ar‘teqof, o segundo com relação a ele; Ramt’el, o terceiro com relação a ele; Kokab’el, o quarto com relação a ele; ???’el, o quinto com relação a ele; Ra’ma’el, sexto com relação a ele; Dani’el, sétimo com relação a ele; Zeq’el, oitavo com relação a ele; Baraq’el, nono com relação a ele; ‘Asa’el, décimo com relação a ele; Hermoni, undécimo com relação a ele; Matar’el, duodécimo com relação a ele; ’Anan’el, décimo terceiro com relação a ele; Sato’el, décimo quarto com relação a ele; Shamsi’el, décimo quinto com relação a ele; Sahari’el, décimo sexto com relação a ele; Tumi’el, décimo sétimo com relação a ele; Turi’el, décimo oitavo com relação a ele; Yomi’el décimo nono com relação a ele; Yehadi’el, vigésimo com relação a ele. Estes são os chefes dos chefes de dezena.»[12]

VI – 1 «Eles e seus chefes, todos tomaram para si mulheres, escolhendo entre todas, e começaram a ir a elas e a contaminar-se com elas, a ensinar-lhes bruxarias, encantos e o corte de raízes, e a revelar-lhes as plantas. Elas ficaram grávidas deles e pariram gigantes, altos uns três mil côvados, que nasceram sobre a terra conforme a sua infância, e cresceram de acordo com seu crescimento, e que devoravam o trabalho de todos os filhos dos homens, sem que os homens pudessem abastecê-los. Os gigantes conspiravam para matar os homens e para devora-los. Começaram a pecar [...] contra todos os pássaros e animais da terra e contra os répteis que se movem sobre a terra e nas águas e no céu, e os peixes do mar, e a devorar uns a carne dos outros, e bebiam o sangue. Então a terra acusou os ímpios por tudo o que se havia feito nela.»[13]

«‘Asa’el ensinou os homens a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre e lhes mostrou o que se escava e como poderiam trabalhar o ouro para deixa-lo preparado; e quanto à prata, a lavrá-la para braceletes e outros adornos para as mulheres. Às mulheres revelou acerca do antimônio e acerca do sombreado dos olhos e de todas as pedras preciosas e sobre as tinturas [E assim grassava uma grande impiedade; eles promoviam a prostituição, conduziam aos excessos e eram corruptos em todos os sentidos.][14] «Semihazah ensinou encantamentos e a cortar raízes; Hermoni ensinou a desencantar, a bruxaria, a magia e habilidades; Baraq’el ensinou os sinais dos raios; Kokab’el ensinou os sinais das estrelas; Zeq’el ensinou os sinais dos relâmpagos; ???’el ensinou os sinais de [...]; ’Ar‘teqof ensinou os sinais da terra; Shamsi’el ensinou os sinais do sol; Sahari’el ensinou os sinais da lua. E todos começaram a descobrir segredos à suas mulheres.»[15] «Como estava perecendo uma parte dos homens da terra, seu grito subia até o céu.»[16]

IX -1 «Então Miguel, Sariel, Rafael, e Gabriel olharam para a terra do santuário dos céus e viram muito sangue derramado sobre a terra; e toda a terra estava cheia da maldade e da violência que se pecava sobre ela. Ouvindo isto, os quatro foram e disseram que o grito e o lamento pela destruição dos filhos da terra subia até as portas do céu. E disseram aos santos do céu: É agora a vós, santos do céu, a quem suplicam as almas dos filhos dos homens dizendo: “Levai nosso caso diante do Altíssimo e nossa destruição diante da majestade!” Foram Rafael, Miguel, Sariel e Gabriel, e disseram diante do Senhor do mundo: “Tu és nosso grande Senhor, tu és o Senhor do mundo; Tu és o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores e o Rei dos reis. Os céus são o trono de tua glória por todas as gerações que existem desde sempre, e toda a terra é o escabelo ante ti por toda a eternidade, e teu nome é grande e santo e bendito para sempre. [Tudo foi por Ti criado e conservas o domínio sobre todas as coisas. Tudo é claro e manifestado diante dos teus olhos. Tu vês tudo e nada pode ocultar-se na tua presença. Tu vês o que foi perpetrado por Azazel, como ele ensinou sobre a terra toda espécie de transgreções.]»[17] «pois (eles) ensinaram os mistérios eternos que há no céu para que os praticassem os conhecedores dentre os homens. E (olha) Shemihaza, a quem deste autoridade para reinar sobre todos os seus companheiros. Foram às filhas dos homens da terra e dormiram com aquelas mulheres, contaminando-se com elas [e familiarizaram-nas com toda sorte de pecados. As mulheres pariram gigantes e, em conseqüência, toda a terra encheu-se de sangue e de calamidades. 6. Agora clamam as almas dos que morreram, e o seu lamento chega às portas do céu. Os seus clamores se levantam ao alto, e em face de toda a impiedade que se espalhou sobre a terra não podem cessar os seus queixumes. 7. E Tu sabes de tudo, antes mesmo que aconteça. Tu vês tudo isso e consentes. Não nos dizes o que devemos fazer.]”»[18]

X – 1 «[Então o Altíssimo, o Santo, o Grande, tomou a palavra e enviou Uriel (= Sariel) ao filho de Lamech (Noé), com a ordem seguinte: “Diz-lhe, em meu nome: ‘Esconde-te’, e anuncia-lhe o fim próximo! Pois o mundo inteiro será destruído; um dilúvio cobrirá toda a terra e aniquilará tudo o que sobre ela existe.] Ensina ao justo o que deve fazer, e ao filho de Lamec a preservar sua alma para a vida e a escapar para sempre. E por ele será plantada uma planta e serão estabelecidas todas as gerações do mundo.»[19] «[O Senhor] disse a Rafael: “Vai, pois, Rafael, e ata Azael de pés e mãos e arremessa-o nas trevas! [Cava um buraco no deserto de Dudael e atira-o ao fundo! Deposita pedras ásperas e pontiagudas por baixo dele e cobre-o de escuridão! Deixa-o permanecer lá para sempre e veda-lhe o rosto, para que não veja a luz! 4. No dia do grande Juízo ele deverá ser arremessado ao tremendal de fogo! Purifica a terra, corrompida pelos Anjos, e anuncia-lhe a Salvação, para que terminem seus sofrimentos e não se percam todos os filhos dos homens, em virtude das coisas secretas que os Guardiões revelaram e ensinaram aos seus filhos! Toda a terra está corrompida por causa das obras transmitidas por Azazel. A ele atribui todos os pecados!”]»[20]; «E a Gabriel disse o Senhor: “Vai aos bastardos e aos filhos da fornicação e destrói os filhos dos Vigilantes dentre os filhos dos homens; mete-os em uma guerra de destruição, pois não haverá para eles longos dias. Nenhuma petição a seu favor será concedida a seus pais; pois esperam viver uma vida eterna, ou que cada um deles viverá quinhentos anos”. E a Miguel disse o Senhor: “Vai, Miguel, e anuncia a Shemihaza e a todos os seus amigos que se uniram com mulheres para contaminar-se com elas em sua impureza, que seus filhos perecerão e eles verão a destruição de seus queridos; acorrenta-os durante setenta gerações nos vales da terra até o dia grande de seu juízo. [Nesse dia, eles serão]»[21] (condenados a) «tortura e ao fechamento na prisão eterna. Tudo o que seja condenado estará perdido desde agora; será acorrentado com eles até a destruição de sua geração. E no tempo do juízo com que eu julgarei, perecerão por todas as gerações. Destrói todos os espíritos dos bastardos e dos filhos dos Vigilantes, porque fizeram operar o mal aos homens. Destrói a iniqüidade da face da terra, faz perecer toda obra de impiedade e faz que apareça a planta da justiça; ela será uma bênção e as obras dos justos serão plantadas no gozo para sempre. Naquele tempo todos os justos escaparão e viverão até que engendrem milhares. Todos os dias de vossa juventude e de vossa velhice se completarão em paz.”»[22]

VII – 1. [Enoch havia desaparecido, e nenhum dos filhos dos homens sabia onde ele se encontrava, onde se ocultava e o que era feito dele. O que ocorrera é que ele havia estado junto dos Guardiões e transcorreu os seus dias na companhia dos Santos. 2. Eu, Enoch, ergui-me e louvei o Senhor da Majestade e Rei do mundo. Então os Guardiões (santos) me chamaram, a mim Enoch, o Escriba, e disseram-me: “Enoch, tu, o Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos, que se corromperam com mulheres à moda dos homens, que se casaram com elas, produzindo assim grande desgraça sobre a terra; anuncia-lhes: ‘Não encontrareis nem paz nem perdão’. Da mesma forma como se alegram com seus filhos, presenciarão também o massacre dos seus queridos, e suspirarão com a desgraça. Eles suplicarão sem cessar, mas não obterão nem clemência nem paz!”]

XIII – 1. [Então Enoch encaminhou-se até eles e assim falou a Azazel: “Tu não terás a paz. Uma sentença severa recaiu sobre ti: deverás ser acorrentado. Não alcançarás indulgência nem será aceita a intercessão, por causa dos atos violadores que ensinaste a praticar, e por causa de todas as obras blasfemas, da violência e dos pecados que mostraste aos homens.” Então eu redigi a palavra a todos eles. Todos encheram-se de grande medo e foram tomados de pavor e tremor. Suplicaram-me que lhes escrevesse um rogo intercessório, para que pudessem obter o perdão, e que eu lesse o seu pedido na presença do Senhor dos céus. Pois a partir de então não lhes era mais permitido falar com ele nem levantar seus olhos para o céu, de vergonha pelos seus delitos, pelos quais foram castigados. Assim eu redigi o seu rogo] «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade. Fui e me sentei junto às águas de Dã, na terra de Dã, que está ao sul do Hermonim, ao seu lado oeste, e estive lendo o livro de anotações de suas petições até que dormi. Eis que me vieram sonhos e caíram sobre mim visões até que levantei minhas pálpebras às portas do palácio do céu [...] E vi uma visão do rigor do castigo. E uma voz veio e me disse: Fala aos filhos do céu para repreendê-los. Quando despertei, fui a eles. Todos eles estavam reunidos juntos e sentados e chorando em Abel-Maya (a Fonte do Pranto) que está entre o Líbano e Senir, com os rostos cobertos.»[23]; «Eu contei diante deles todas as visões que havia visto em sonhos e comecei a falar com palavras de justiça e de visão e a repreender os Vigilantes celestes.»[24]

XIV 1. [Este é o] «livro das palavras da verdade e da repreensão dos Vigilantes que eram desde sempre, segundo o que ordenou o Grande Santo no sono que sonhei. Nesta visão eu vi em meu sonho o que agora digo com a língua carnal, com o alento de minha boca, que o Grande deu aos filhos dos homens para que falem com ela e para que compreendam no coração. Assim como Deus destinou e criou os filhos dos homens para que compreendam as palavras do conhecimento, assim me destinou e fez e criou a mim para que repreenda os Vigilantes, os filhos do céu. Eu escrevi vossa petição, Vigilantes, e numa visão me foi revelado que vossa petição não vos será concedida por todos os dias da eternidade, e que haverá juízo por decisão e por decreto contra vós; que a partir de agora não voltareis ao céu e não subireis por todas as idades; e que foi decretada a sentença para acorrentar-vos nas prisões da terra por todos os dias da eternidade; porém que antes vereis que todos os vossos queridos irão à destruição com todos os seus filhos; e as propriedades de vossos queridos e de seus filhos não as desfrutareis; cairão ante vós pela espada de destruição, pois vossa petição por eles não vos será concedida, como não vos é concedida por vós mesmos. Vós continuareis pedindo e suplicando. [...] Não pronunciareis nem uma palavra do escrito que eu escrevi.»[25]

Esses Vigilantes que “mudaram suas obras” e resolveram ensinar aos humanos ciências divinas foram responsabilizados não só pelas guerras (que naquele tempo nem sempre eram vistas como algo ruim) mas também por terem iniciado ou aperfeiçoado a própria civilização: Semihazah ensinou “bruxarias, encantos e o corte de raízes, e a revelar-lhes as plantas”. Nisso se incluía a antiga homeopatia (fabricação de remédios naturais), já conhecida e rigorosamente aperfeiçoada pelos egípcios desde tempos remotos; E também a fabricação de venenos – retirados das plantas – que era uma especialidade daquele período, herdada da dominação romana.

Menos eficazes, mas nem por isso menos populares, deveriam ser as “bruxarias” e “encantos”, aos quais alegava-se que serviam para praticamente tudo que se pudesse desejar, principalmente ganhar fama, fortuna e atrair o sexo oposto. Geralmente nessas práticas se ensina que quando o feitiço da errado é 1) porque o praticante não executou como devia ou 2) porque seu inimigo fez um contra feitiço anulando o primeiro. Assim Hermoni (et. Armaros) “ensinou a desencantar, a bruxaria, a magia e habilidades”… Uma segunda versão em etíope fala sobre outros Vigilantes que, juntamente com Semihazah, teriam ensinado magia: Kasdeja “ensinou aos filhos dos homens toda espécie de sortilégios dos espíritos e dos demônios, bem como os malefícios contra o fruto do ventre materno, para sua expulsão, e os contra a alma, feitiços contra a picada de cobra, contra a insolação e contra o filho da serpente, chamado Tabaet. – E esta foi a tarefa de Kasbeel, que desvelara aos Santos o Juramento supremo, quando habitava no alto da Glória e se chamava Bika. Este pedira a Michael para transmitir-lhe o Nome secreto, a fim de que pudesse ser conhecido e empregado nos juramentos, conquanto aqueles que ensinaram as coisas ocultas aos filhos dos homens tremessem em face desse Nome e desse Juramento.” (I Enoch LXIX)

Sobre culinária, alfabetização e leis, é dito que Penemue “ensinou aos filhos dos homens o doce e o amargo, bem como todos os segredos da sua sabedoria. Ele também instruiu os homens na escrita com tinta e sobre papel, e com isso muitos se corromperam, desde os tempos antigos por todas as épocas, até os dias de hoje. Pois os homens não foram criados para fortalecer sua honestidade dessa maneira, por meio de pena e tinta”. (I Enoxh LXIX)

Kokab’el “ensinou os sinais das estrelas. (et. Ciência das constelações)”. Isso sem dúvida é antiga Astrologia, que incorporava elementos da astronomia. Esta “ciência” era muito valorizada pois, na antigüidade, eram os astrólogos que ficavam encarregados de informar sobre a mudança das estações, da configuração de calendários e outras coisas de grande utilidade para a vida rural e economia dos reinos. Ainda no campo da astrologia, parece que Zeq’el, que “ensinou os sinais dos relâmpagos (Et. Observação das nuvens)” e Baraq’el que “ensinou os sinais dos raios” ficaram responsáveis pala previsão do tempo… Para completar o quadro astronômico/astrológico, Shamsi’el “ensinou os sinais do sol” e Sahari’el “ensinou os sinais da lua. (et. Fazes da lua)”.

Em auxílio da agricultura, ’Ar‘teqof “ensinou os sinais da terra”, se era boa ou ruim para o plantio, etc. Tudo isso gerava grandes facilidades na vida humana que, tendo menos trabalho e mais tempo livre podia se dedicar a cuidados pessoais, iniciar uma vida urbana e até mesmo pensar numa expansão através da guerra. É aqui que entra aquele que apesar de não ser o líder parece ter provocado o maior dano de todos: ‘Asa’el (hebr. et. e árabe Azazel) “Ensinou os homens a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre e lhes mostrou o que se escava e como poderiam trabalhar o ouro para deixa-lo preparado; e quanto à prata, a lavrá-la para braceletes e outros adornos para as mulheres. Às mulheres revelou acerca do antimônio e acerca do sombreado dos olhos (Kohol) e de todas as pedras preciosas e sobre as tinturas”.

Aparentemente, se não fosse pelos insaciáveis filhos vampiros, parece que os ensinamentos dos Vigilantes não seriam tão condenáveis assim, já que trouxeram para a humanidade mais bem do que mal… Tanto que um dos chefes de dezena, Dani’el (et. Danjal) foi adotado posteriormente como anjo da misericórdia pela tradição cristã, ficando mundialmente conhecido. Outro mencionado em versões posteriores, Uzza, tornou-se anjo benéfico para os árabes.

De fato, «o livro apocalíptico dos Jubileus afirma que os Sentinelas (= Vigilantes) vieram para a Terra e depois pecaram, mas que seu príncipe, Samael, teria tido a permissão de Yaveh para atormentar a humanidade».[26]

Entretanto, o judaísmo posterior e quase todos os primeiros escritores eclesiásticos viram nesses “filhos de Deus” anjos culpados.

Sobre a posterior condenação, a Segunda versão de I Enoch limita-se a dizer que «em conseqüência desse Julgamento, eles serão submetidos à angústia e ao estremecimento por terem desvelado aquelas coisas aos habitantes da terra.» (I Enoch LXIX).

Na verdade nenhuma das sete cópias fragmentadas do Livro de Enoch (nem das cinco do Livro dos Gigantes) encontrados nas cavernas de Qumran continha menção ao “abismo de fogo” descrito no Enoch Etíope, o que é significativo pois se trata de textos particularmente grandes.
É possível que estes textos sejam acréscimos posteriores de escribas ou tradutores Coptas – mesmo porque eles se assemelham mais à doutrina cristã dos primeiros séculos d.C. do que à mitologia judaica/essênia da época em que foram escritos os Manuscritos do Mar Morto. Uma descrição mais detalhada deste local de condenação aparece no Livro das “Similitudes de Enoch” (II Enoch). [Diz o texto: «VII – E aqueles homens (dois anjos) me tomaram e me conduziram ao segundo céu, e me mostraram as trevas, mais escuras que as da terra, e eu vi prisioneiros atados, vigiados, que aguardavam o grande e infinito julgamento, e esses anjos eram escuros, mais escuros que a escuridão da terra, e os faziam chorar incessantemente, o tempo todo. – E eu disse aos homens que estavam comigo: “Por que motivo estão eles sendo torturados sem parar?” Eles me responderam: “Estes são os infiéis a Deus, que não obedeceram aos mandamentos de Deus, mas que se aconselharam segundo sua própria vontade, e se foram com seu príncipe que também está acorrentado no quinto céu”». ‡ «VVIII – Os homens levaram-me ao quinto céu e lá me puseram, e vi muitos e incontáveis soldados, chamados Grigori, de aparência humana, e eram maiores que os maiores gigantes e suas faces eram sem viço e o silêncio de suas bocas, perpétuo, e não havia qualquer serviço no quinto céu, e eu disse aos homens que estavam comigo: “Por que eles são tão sem viço e suas faces melancólicas, suas bocas silenciosas, e por que não há serviço neste céu?” Eles me disseram: “Estes são os Grigori, que com seu príncipe Satanail rejeitaram o Senhor da Luz, e atrás deles estão os que são mantidos nas grandes trevas do segundo céu, e três deles foram para a terra vindos do trono do Senhor, para o Ermon, e quebraram seus votos nas encostas da colina do Ermon e viram como eram bonitas as filhas dos homens e tomaram-nas por esposas e sujaram o mundo com suas obras, e durante todo o tempo de sua estada cometeram ilegalidade e promiscuidade, e nasceram gigantes e impressionantes homens grandes e grandes inimizades. E por isso Deus jogou-os com um grande julgamento, e eles choraram por seus irmãos e serão punidos no grande dia do Senhor.” – E eu disse aos Grigori: “Eu vi vossos irmãos e suas obras e seus grandes tormentos, e rezei por eles, mas o Senhor condenou-os a estar embaixo da terra até o céu e a terra se acabarem”. E eu disse: “Por que razão esperais, irmãos, e não servis diante da face do Senhor e por que não pusestes vossos serviços diante da face do Senhor, para que o Senhor não se enraivecesse tanto?” E eles ouviram minhas admoestações e falaram para as quatro ordens do céu, e vede: Enquanto eu estava com esses dois homens, quatro trombetas soaram juntas bem alto, e os Grigori irromperam em um cântico uníssono, e suas vozes foram até o Senhor cheias de piedade e afeição.»] Esta versão, descoberta na Rússia em um texto eslavo, foi provavelmente escrita no Egito no princípio da era cristã e fala da viagem de Enoch através das diferentes coortes do Paraíso.

O Livro dos Gigantes:

Entre os pergaminhos de Qumran foram encontrados fragmentos de uma obra conhecida como “Livro dos Gigantes”, que seria uma espécie de comentário ou complemento ao Livro de Henoc[27]. O Livro dos Gigantes conta que Semihazah, o líder dos Vigilantes, teve dois filhos de sua esposa humana chamados ’Ohyah e Hahyah. Também Baraq’el, o nono vigilante chefe de dezena, foi pai de Mahawai. — Além destes, entre os nomes de gigantes citados entre os fragmentos do mar morto constam os “amigos” «Hobabes e ADK»[28]

A Segunda versão Etíope narra que Asbeel «deu um conselho aos filhos dos Anjos, fazendo com que corrompessem os seus corpos com as filhas dos homens.» (I Enoch LXIX). Assim, seguindo o exemplo dos pais, também “se contaminaram, os Gigantes e os Nefilim”, tomando esposas para “engendraram filhos” mas logo não havia alimento suficiente para todos, o que causou um grande problema entre seus súditos: «Os gigantes (diziam) que não lhes bastava a eles e a seus filhos (o alimento oferecido) [...] e pediam muito para comer»[29]

«Hobabes e ADK (perguntavam…): Que me dará para matar?»[30]

Por fim, desesperados de fome, e não podendo ser satisfeitos com o trabalho humano, os Gigantes começaram a destruir praticamente tudo que encontraram pela frente: «A impiedade foi grande, e eles erravam em todos os seus caminhos.»[31] Um curioso fragmento, menciona esta passagem do ponto de vista do próprio ’Ohyah: «E com o vigor de meu braço e com a força de meu poder [...] (abati) toda carne, e fiz guerra com eles. Porem não [...] encontrei apoio para fortalecer-me, pois meus acusadores [...] habitam nos céus e vivem com os santos, e não (posso
vencê-los) [...] pois eles são mais poderosos que eu.»[32]. — Mais tarde, ’Ohyah e Hahyah tiveram pesadelos, “e o sonho fugiu de seus olhos”: «Chegou o frêmito das feras selvagens, e gritaram um bramido selvagem [...] Assim lhe falou ’Ohyah: “Meu sonho me abateu. [...] fugiu o sonho de meus olhos ao ver a visão”»[33]. Os irmãos levantaram-se e foram a Shemihaza, seu pai, e lhe contaram seus sonhos. Hahyah relatou:

«Vi em meu sonho desta noite [...] jardineiros; estavam regando (uma árvore…) numerosas raízes saíam de seu tronco [...] olhei até que se fecharam as fontes (… e esgotaram-se) todas as águas e o fogo ardeu em todo (o tronco…) Aqui se acaba o sonho.»; «Então ’Ohyah, seu irmão, reconheceu e disse ante os gigantes: Também eu vi em meu sonho esta noite algo extraordinário: O Poder dos céus descia à terra [...] aqui acaba o sonho. Então se assustaram todos os Gigantes, e os Nefilim e chamaram Mahawai e ele veio a eles.»

Os gigantes buscavam quem lhes explicasse o sonho. Por isso suplicaram a Mahawai e lhe enviaram até Henoc, o escriba distinto, e lhe disseram: “Escuta sua voz e diz-lhe que te explique e interprete o sonho”[34] Entretanto, a explicação de Henoc anunciava-lhes punição e morte pela “violência feita aos homens”: «Então castigou e não a nós, (os justos), mas a Azazel», e também aprisionou e capturou «aos filhos dos Vigilantes, os Gigantes; e não serão perdoados nenhum de seus queridos.»[35] Então eles «se prostraram e choraram ante Henoc»[36] — Procurando manter a calma, ’Ohyah disse a Mahawai: «E não trema. Quem te mostrou tudo?»; Disse Mahawai: «Baraq’el, meu pai, estava comigo.»; «Apenas havia acabado Mahawai de contar o que (… Henoc) lhe disse: “Eu ouvi maravilhas. Se uma estéril pode dar à luz (ainda havia uma chance deles serem perdoados)…”»[37] Mahawai deixou «a terra e cruzou a Desolação, o grande deserto», Então viu Henoc, chamou-o e lhe disse: «“Pela Segunda vez eu te peço um oráculo [...] a tuas palavras, junto com todos os Nefilim da terra”»; «“Que saibamos de ti sua explicação”.» — Henoc, o escriba distinto, fez cópias em duas pequenas tábuas das epístulas escrevendo «em uma o testemunho dos gigantes (a Semihaza e a todos os seus companheiros) e na outra [o testemunho dos santos]». Então levou as tábuas «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade.» [38] Mas o perdão lhes foi negado. Disse Henoc:

«Sabei que não (serão perdoadas …) vossas obras e as de vossas mulheres»; «(Serão castigadas) elas e seus filhos e as mulheres de seus filhos (…) por vossa prostituição na terra.»; «E vos acusa a vós, pelas obras de vossos filhos (…) a corrupção com a qual tendes corrompido (…) até a vinda de Rafael. Eis que haverá destruição (…) Agora, pois, desligai vossas correntes (…) e rezai.»[39] «Que não haja paz para voz.»

Depois de repreender os Vigilantes e seus filhos, Henoc falou aos justos: «Palavras de bênção com as quais abençoou Henoc, varão justo a quem foi revelada uma visão do Santo e do céu, pronunciou seus oráculos dizendo: A visão do Santo do céu me foi revelada e ouvi todas as palavras dos Vigilantes e dos Santos e, porque o escutei deles, eu soube e compreendi tudo. Não falarei para esta geração mas para uma geração futura. Agora falo acerca dos eleitos, sobre eles pronuncio meu oráculo dizendo: Sairá o grande Santo de sua morada, e o Deus eterno descerá sobre a terra e irá ao monte Sinai e aparecerá com seu grande exército, e surgirá na força de seu poder do alto dos céus. Todos os Vigilantes tremerão e serão castigados em lugares secretos em todas as extremidades da terra; todas as extremidades da terra se fenderão e eles serão possuídos de tremor e medo até os confins da terra. Fender-se-ão e cairão e se dissolverão os altos e as altas montanhas serão rebaixadas…»[40]

A queda dos anjos vista pelos cristãos:

A tradição da queda dos anjos estava espalhada e existia na época do nascimento do cristianismo no Egito. Ainda hoje persiste na Síria, no Egito e na Etiópia, onde existem igrejas cristãs muito diferentes das nossas. Atualmente, a Igreja Cristã da Etiópia, ou Igreja Copta, mantém o Livro de Enoque em sua Bíblia, como documento oficial. Entre demais cristãos atuais é considerado apócrifo, o que não é de estranhar. Os primeiros padres da Igreja, e os principais pensadores cristãos dos três primeiros séculos conheciam Enoch. Também a Bíblia não era a que conhecemos.

De acordo com Luther Link, «até o século IV, Enoch fazia parte do ainda mal definido cânone[41]»; «Familiar para os judeus e primeiros cristãos, Enoch foi um texto sagrado autêntico para Judas, Clemente, Barnabé, Tertuliano e outros primeiros padres (embora Jerônimo e Orígenes fizessem ressalvas). A influência desse livro foi tamanha que ele chegou citado até mesmo por críticos pagãos, como Celso, que estudou as Escrituras. Muitos conceitos cristãos tem sua primeira ocorrência em Enoch.»[42]; «Essa interpretação influente apresentada por muitos dos primeiros padres da Igreja é uma razão para Enoch ter sido excluído do cânone. Eis o que os primeiros padres escreveram: Justino, martirizado em Roma em 165 d.C., explicou que alguns anjos violaram a ordem apropriada das coisas, cederam a impulsos sexuais e tiveram relações com mulheres, cujos filhos agora chamamos de demônios (Justino, Apologia, II, 2-6).

Esses demônios são a causa de assassinatos, adultérios e todos os outros males. Atenágoras, outro apologista cristão grego, escreveu (em 177) que o Diabo foi criado por Deus exatamente como Ele criara os demais anjos. O homem possui o livre-arbítrio para escolher entre bem e mal, e o mesmo vale para os anjos. O homem possui o livre-arbítrio para escolher entre bem e mal, e o mesmo vale para os anjos. Mas no passado alguns anjos sentiram desejo por virgens, tornaram-se escravos da carne, tiveram relações sexuais com elas e nasceram-lhes filhos que eram gigantes. Junto com as almas desses gigantes, os anjos que caíram do Céu assombram o ar e a terra; são os demônios que vagam pelo mundo (Antenágoras. Plea, 24).

Clemente de Alexandria, outro apologista importante, foi um pensador flexível e sutil na virada do século II. Condenado no século IX como herege pelo patriarca ilegalmente consagrado Fócio, Clemente foi eliminado do martirológio romano. Ele supôs que as verdades da filosofia grega haviam sido roubadas pelos gregos dos hebreus. Tanto os textos gregos como os hebreus misturam verdade e erro, sendo o Diabo a origem da confusão (Clemente. Stromateis, V, I, 10, 1-3).

Em última análise, argumentou Clemente, todas as verdades da filosofia provêm dos anjos caídos; essa idéia deriva de Enoch.»; «Tertuliano[43], como Clemente, acreditava que os anjos celestes que tinham mantido relações sexuais com as filhas dos homens, tal como descrito em Enoch, revelaram muitas artes secretas, inclusive o mistério do kohl. Em prosa evocativa, Tertuliano serve-se de uma sentença de Enoch (cap. e a expande para explicar que os anjos caídos ensinaram às mulheres:

«A radiância de pedras preciosas que com que se ornam colares em cores várias, os braceletes de ouro que envolvem seus braços, as preparações coloridas que se usam para tingir lã, e o pó negro [...] para realçar a beleza de seus olhos.» (Tertuliano. The apparel of women, 2,1.)

Tertuliano fez inúmeras referências a Enoque. Em sua célebre Apologia, por exemplo, ele interpreta o Gênesis à luz de Enoch quando escreve que as Escrituras nos dizem que “alguns anjos perverteram-se e originaram uma raça ainda mais corrompida de Diabos”. Ele e outros primeiros padres aceitaram a idéia dos anjos pervertidos porque interpretaram o capítulo 6 do Gênesis à luz de Enoch.»[44]

Entretanto, nem todos estavam satisfeitos com isso: «Anjos, “os Filhos de Deus”, mantendo relações sexuais com mulheres, as filhas dos homens, era algo que requeria comentário. Os autores judeus interpretaram “filhos de Deus” como filhos de príncipes e nobres. Alguns cristãos, entre eles santo Agostinho, julgaram que a expressão significava homens piedosos que são espiritualmente os filhos de Deus. Tanto os autores judeus como os cristãos evitaram o significado óbvio: que alguma barreira entre os filhos de Deus e os filhos dos homens foi rompida, não por vontade divina mas por desejo sexual.»[45]

Nessa época, até mesmo aqueles anjos que não “caíram” estavam causando prejuízos para a igreja cristã… Santo Agostinho, em seu tempo de pregação, enfrentou um problema causado pela grande popularidade dos anjos: As pessoas estavam fazendo-lhes sacrifícios, orando, etc. e isto estava meio que fora de controle. Por isso ele tentou reduzir os anjos à forma mais abstrata possível e pregava ao público: «Sejam quais forem, por conseguinte, os bem aventurados imortais habitantes das mansões celestes, se não tem amor por nós, se não desejam nossa felicidade, não merecem nossa homenagem. Se nos amam, se querem nossa felicidade, querem sem dúvida que a recebamos da mesma fonte que eles»; «Legítimos habitantes das moradas celestes, os espíritos imortais, felizes pela posse do Criador, eternos por sua eternidade, fortes de sua verdade e santos por sua graça, tocados de compulsivo amor por nós, infelizes e mortais, e desejosos de partilhar conosco sua imortalidade e beatitude, não, querem que sacrifiquemos a eles, mas Àquele que sabem ser, como nós, o sacrifício [ou seja, Jesus Cristo]. Porque somos com eles uma só Cidade de Deus.»; «Quanto aos milagres, sejam quais forem, operados pelos anjos ou por qualquer outro modo, se se destinam a glorificar o culto da religião do verdadeiro Deus, princípio único da vida bem aventurada, devem ser atribuídos aos espíritos que nos amam com verdadeira, é preciso acreditar ser o próprio Deus quem neles e por eles opera.»; «… Aquele cuja palavra é espírito, inteligência, eternidade, palavra sem começo e sem fim, palavra ouvida em toda a pureza, não pelos ouvidos do corpo, mas do espírito, por intermédio de seus ministros, enviados que gozam de sua verdade imutável, no seio de eterna beatitude, palavra que lhes comunica de maneira inefável as ordens que devem transmitir à ordem aparente e sensível, ordens que executam sem demora e facilmente.»; «Assim, mostram-nos os anjos fiéis com que sincero amor nos amam; com efeito, não é à sua própria dominação que querem submeter-nos, mas ao poderio daquele que são felizes de contemplar, soberana beatitude a que desejam cheguemos também e de que não se apartam.» (De civitate Dei, X).

Os anjos eram tão populares que, apesar das Escrituras não darem uma descrição precisa a respeito da “hierarquia celeste”, estudiosos cristãos esforçaram-se para descrever um quadro bem definido. (Podemos ver que estas descrições de autores cristãos foram bastante influenciadas pela filosofia platônica, aristotélica e textos gregos em geral, se afastando em muito do sentido original dos “bene ha’ Elohim”, principalmente nos comentários referentes aos demônios). A fonte mais abalizada para a obtenção de uma angelologia cristã é Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Seus tratados Gerarchia celeste, Gererchia ecclesiastica, Nomi divini e suas Epistole formaram um corpo que granjeou a estima de muitos, inclusive Gregório Magno, são Tomé, a Escolástica, Dante, Meister Eckhart e são João da Cruz. Seu texto Gerarchia celeste é o mais conhecido e apreciado da angelologia cristã. Dionísio estabeleceu que existem nove ordens celestes, subdividas em três ordens principais: A primeira é aquela que está sempre na presença de Deus e inclui os Tronos e suas legiões ‘com muitos olhos e muitas asas’ (os Querubins e os Serafins) A Segunda ordem inclui os Poderes, as Dominações e as Virtudes; a terceira os Anjos, os Arcanjos e as Potestades. Foi só com Dionísio e Tomás de Aquino que o número das hierarquias foi estabelecido e tornou-se praticamente definitiva nas obras posteriores de autores cristãos. — Seguindo a linha de Dionísio, Tomás de Aquino faz uma longa descrição das hierarquias celestes na Suma contra os gêntios[46]:

«Como as coisas corporais estão governadas pelas espirituais, segundo consta, e entre as corporais existe uma certa ordem, é mister que os corpos superiores sejam governados pelas substâncias intelectuais superiores, e os inferiores pelas inferiores. Além disso, porque quanto mais superior é uma substância, tanto mais universal é sua virtude. Logo, a virtude da substância intelectual é mais universal que a virtude corpórea; e por conseguinte, as substâncias intelectuais superiores possuem virtudes que não podem ser desempenhadas por virtude corporal alguma, e por isso não estão unidas a corpos; já que as inferiores possuem virtudes parciais e que podem ser desempenhadas por alguns instrumentos corporais, dessa forma, é preciso que estejam unidas aos corpos.

E como as substâncias intelectuais superiores tem uma virtude mais universal, por isso também estão mais perfeitamente dispostas por Deus, de maneira que conhecem com detalhe a finalidade da ordem que Deus lhes comunica. E esta manifestação da ordenação divida, realizada por Deus, chega inclusive às substâncias intelectuais mais inferiores, como confirma [a palavra] de Jó: “Inumeráveis são Seus servidores, e sobre qual deles não resplandece Sua luz?” (Jó 25:3). Não obstante, as inteligências inferiores não a recebem de maneira tão perfeita que possam conhecer com detalhe quanto hão de executar em vista do ordenado pela providência, mas somente em geral; pois, quanto mais inferiores são, menos conhecimento detalhado da ordem divina recebem ao serem iluminadas pela primeira vez; entretanto, o entendimento humano, que possui o último grau do conhecimento natural, só tem notícia de algumas coisas universalíssimas.

Assim, pois, as substâncias intelectuais superiores recebem imediatamente de Deus um conhecimento perfeito da ordem divina e, em conseqüência, o hão de comunicar às inferiores, tal como, segundo dissemos, o conhecimento universal do discípulo é aperfeiçoado pelo mestre, que conhece com detalhe. Por isso, Dionísio, falando das supremas substâncias intelectuais, que chama primeiras hierarquias, em outras palavras, sagrados principados, disse que não são santificadas por outras, mas que alcançam imediatamente e plenamente de Deus a santidade, e, enquanto cabe, são transportadas à contemplação da beleza imaterial e invisível e ao conhecimento dos motivos das obras divinas; e disse que por elas são doutrinadas as ordens subalternas de espíritos celestes. Segundo ele, as inteligências mais elevadas recebem do princípio mais alto a perfeição de seu conhecimento. [...]»

«Assim, pois, aquelas inteligências que percebem imediatamente em Deus o conhecimento perfeito da ordem da divina providência estão dispostas numa certa hierarquia, porque os superiores e primeiros vêem a razão da ordem da providência — em si mesma – o último fim, que é a bondade divina; porém uns com maior clareza que outros. E estes se chamam Seraphim, i. e., ardentes ou incandescentes, porque o incêndio designa a intensidade do amor ou do desejo, que são duas tendências em relação ao fim. Por isso disse Dionísio que com este nome se designa sua rapidez ou eterno movimento em torno da divindade, fervente e flexível, e sua capacidade de influenciar os seres inferiores excitando-os a um sublime fervor à divindade[47].

Os segundos conhecem perfeitamente a razão da ordem da providência na imagem mesma de Deus. E se chamam Cherubim, que quer dizer plenitude da ciência, já que a ciência se aperfeiçoa pela forma cognoscível. Por isso disse Dionísio, que tal nome significa que são contempladores da primeira virtude operante da divina beleza[48].

Dessa forma, os terceiros contemplam a disposição das ordens divinas nelas mesmas. E se chamam Throni, porque trono significa o poder de julgar, segundo o dito: “Te sentas no trono e distribui justiça” (Salmos 9:5). Conforme isso, disse Dionísio que com este nome se declara que são portadores divinos e tomam parte familiarmente em todas as determinações divinas[49]. [...]

Por outra parte, entre os espíritos inferiores que para executar a ordem divina recebem das superiores um conhecimento perfeito é preciso estabelecer uma ordem. Pois os mais altos deles tem uma virtude mais universal do conhecimento; por isso conhecem a ordem da providência nos princípios e causas mais universais enquanto os inferiores o obtêm em causas mais particulares. [...]

Também estas substâncias intelectuais (i. e. os anjos da Segunda hierarquia) hão de ter certa ordem. Porque, efetivamente a disposição universal da providência se distribui, em primeiro lugar, entre muitos executores. E isso se realiza pela ordem das Dominationum, pois é próprio dos senhores mandar o que hão de executar os outros. Por isso disse Dionísio que este nome (de) dominação designa certo senhorio que rejeita toda servidão e que é superior a toda submissão.

Em segundo lugar, a providência é distribuída e aplicada a vários efeitos pelo que age e executa. E isso se faz mediante a ordem das Virtutum [virtudes], cujo nome, segundo Dionísio, significa certo augusto poder aplicado à todas as obras divinas, que não abandona a nenhum movimento a sua própria debilidade. E isso demonstra que o princípio universal da atividade pertence à esta ordem. Segundo isso, parece que movimento dos corpos celestes, dos quais procedem, como de certas causas universais, os efeitos particulares da natureza, pertence à esta ordem. Por este motivo se chamam virtudes celestes no cap. 21 de S. Lucas, onde diz: “Se moveram as virtudes celestes”. Parece também que a execução das obras divinas que se realizam à margem da ordem natural pertence à esta classe de espíritos, porque tais obras são o que há de mais sublime nos mistérios divinos. Por esta razão diz S. Gregório que “se chamam virtudes aqueles espíritos que freqüentemente fazem coisas milagrosas” (Homil. 34). Por fim, se no cumprimento das ordens divinas há algo principal e universal, é conveniente que pertença à esta ordem.

Em terceiro lugar, a ordem universal da providência, estabelecida já nos efeitos, é preservada de toda confusão pela coerção exercida sobre aquilo que poderia perturbá-la. Coisa que corresponde à ordem das Potestatum [potestades]. Por isso disse Dionísio que o nome de potestade implica certa ordenação, bem disposta e sem confusão alguma acerca do estabelecimento por Deus. E por isso disse S. Gregório que corresponde a esta ordem o conter das forças opostas.

As últimas das substâncias intelectuais superiores são aquelas que conhecem divinamente a ordem da providência através das causas particulares, e são as imediatamente superiores às coisas humanas. Sobre elas Dionísio disse que esta terceira ordem de espíritos manda, por conseguinte, nas hierarquias humanas. E por coisas humanas se há de entender todas as naturezas inferiores e causas particulares que estão ordenadas ao homem e sujeitas a seu serviço.

Aqui também existe uma ordem. Pois nas coisas humanas existe certo bem comum, que é o bem da cidade ou dos cidadãos, e que, ao parecer, pertence a ordem dos Principatuum [principados]. Por isso, disse Dionísio que o nome de principados significa certa categoria de caráter sagrado. Conforme isso, Daniel fez menção de Miguel, príncipe dos judeus e príncipe dos persas e gregos (Dan. 10, 13-20). Segundo isso, a disposição dos reinos, a transmissão de poder de um povo a outro, deve pertencer ao ministério desta ordem. Inclusive a inspiração daqueles que são príncipes entre os homens com respeito a como hão de administrar seu governo, parece que corresponde à esta ordem.

Há, porém, outro bem humano que não é comum, mas individual, ainda que não se utilize em benefício próprio, mas em benefício de muitos: Como as coisas de fé, que todos e cada um hão de crer e observar; o culto divino, etc. E isto corresponde aos Archangelos [arcanjos], de quem disse S. Gregório que anunciam o maior; razão porque chamamos arcanjo a Gabriel, que anunciou a encarnação do Verbo à Virgem.

Há, também, certo bem humano que pertence a cada um em particular. E os bens desta classe correspondem à ordem dos Angelorum [anjos], que, segundo S. Gregório, anunciam as coisas pequenas; e por isso se chamam custódios dos homens, segundo o dizer do salmo: “Te encomendará a seus anjos para que te guardem em teus caminhos” (Sl. 90;11). Por isso, disse Dionísio que os arcanjos são intermediários entre os principados e os anjos, e tem como ambos algo em comum; dessa forma, com os principados, enquanto que são chefes dos anjos inferiores, (…) e com os anjos, porque anunciam aos anjos e, mediante estes — cujo ofício é manifestarem-se aos homens —, a nós o que lhes corresponde segundo a categoria. Por este motivo a última ordem se apropria do nome comum como especialmente seu, porque desempenha o ofício de anunciar aos homens sem intermediários. Daí que os arcanjos tem um nome composto pelos dois, pois se chamam arcanjos, i. e., príncipe dos anjos. (…)

Por último, em todas as virtudes ordenadas é comum que todas as inferiores obrem em virtude da superior. Segundo isso, o que dissemos que pertence à ordem dos serafins o executam as inferiores na virtude dos mesmos. E isso se aplica também às ordens seguintes.»

São Tomás de Aquino fala sobre os anjos em outras partes de sua vasta obra, como por exemplo, nos seguintes trechos da Suma Teológica: «Nos anjos (lat. angelis) não pode haver outra virtude senão a intelectiva e a vontade, conseqüente ao intelecto, porque nisso consiste toda a virtude do mesmo. A alma [humana], porém, tem muitas outras potências; assim, as sensitivas e as nutritivas. E portanto, não há símile.»; «o intelecto angélico está sempre em ato em relação aos seus inteligíveis, por causa da proximidade com o intelecto primeiro, que é ato puro como antes se disse.»; «Há, porém, outra virtude cognoscitiva que nem é ato de órgão corpóreo, nem está, de qualquer modo, conjunta com a matéria corpórea, como o intelecto dos anjos. Por onde, o objeto desta virtude é a forma subsistente sem a matéria. Pois, embora conheçam os anjos as coisas materiais, só as vêem no imaterial a saber, em si mesmos ou em Deus»; «inversamente [aos homens], os anjos conhecem as coisas materiais pelos seres imateriais»; etc.

Com isso, misturando um bom bocado de filosofia grega nos farrapos que restavam da tradição judaica dentro do cristianismo, negou-se que os anjos tivessem corpos e, portanto, não poderiam ter tido relações sexuais com ninguém. — Luther Link continua: «No século V santo Agostinho afirmou, confiante: “Não há dúvida quanto ao fato de esses ‘anjos’ serem homens, e não, como crêem alguns, criaturas diferentes de homens”. Em nossa época, assim como na de santo Agostinho, quando as pessoas dizem “não há dúvida”, geralmente há… Santo Agostinho argumenta que os “filhos de Deus” eram anjos apenas no espírito, por isso se permitiram a perda da graça. Antes da queda, essas pessoas potencialmente superiores tiveram filhos não em conseqüência de seu arrebatamento sexual, mas com o intuito de “povoar de cidadãos a cidade de Deus”:

«Seja como for, eu nem sonharia em crer que foram os santos anjos de Deus a sofrer tal queda no presente caso [...] e não é preciso apelar para os textos que se apresentam sob o nome de Henoch e contêm as fábulas sobre gigantes [nem] a alguns textos sob os nomes de vários profetas e apóstolos que são divulgados por hereges.»

Enoch tornou-se um instrumento de hereges. Mas o que santo Agostinho não nos diz – e que de fato apenas estudos recentes revelaram – é que algumas seções desse livro, nos quais se mencionam gigantes, haviam sido “apropriadas” ou “tomadas antecipadamente” pelos mesmos maniqueístas que haviam ensinado santo Agostinho e a quem este depois repudiou. Bastou que santo Agostinho estigmatizasse esse livro como herético para que ele ficasse eficazmente enterrado por um milênio.»[50] — Essa tática de substituição de uma mitologia por outra foi tão bem sucedida que até no princípio do século XX havia quem se escandalizasse com aqueles que defendiam as idéias do livro de Enoch:

«Mas e estes “filhos de Deus”? Dando crédito aos exegetas autorizados da Bíblia, os anjos teriam descido do céu de Deus para fazer amor as mulheres e engravida-las! Uns soldados salafrários, estes anjos! Honestamente, não podemos, a não ser que pensemos que o céu é um covil de bandidos, aceitar esta explicação sacrílega, visto que é difícil conceber anjos não apenas “levados pelo namoro”, mas capazes de fisicamente satisfazerem os seus desejos. Seriam os anjos seres materiais? Sexuados como nós, mais do que nós, invadidos pelo demônio da concupiscência?»[51]

Mas nem assim o problema estava inteiramente resolvido. Havia ainda um fragmento da queda dos anjos no Gênese que desde então passou a ser considerado pelos exegetas, como de difícil compreenção. — Evidentemente, dizer que os “filhos de Deus” não fizeram o que diz em Enoch seria também negar o próprio livro da Gênese, que conta resumidamente a mesma história… O remédio seria então mudar a identidade dos “filhos de Deus”. (Que grandes atrativos poderia ter o serviço divino se um expressivo grupo de 200 anjos preferiu deixa-lo – conscientes de que sofreriam uma horrível punição futura – só para fazer sexo com fêmeas humanas?) Era necessário dar uma explicação simples e compreensível, adequada ao povo. Por isso, a partir do século IV, em função de uma noção mais abstrata da natureza angélica, a literatura patrística começou a ver os “filhos de Deus” como a linhagem piedosa de Set, (que são espiritualmente os filhos de Deus) e as “filhas dos homens” como a descendência depravada de Caim.

Livros apócrifos, como o Combate de Adão e Eva, traduzido do etíope, insurgiram-se contra a natureza divina dos pais dos Nenfelin:

«E os antigos sábios escreveram sobre eles, dizendo que os anjos desceram dos céus e se ligaram com as filhas de Caim e que delas nasceram gigantes.

Mas enganam-se quanto a isto; não é verdade que os anjos, que são espíritos, se misturem pecando com os homens… Mas, de acordo com a sua essência e natureza, eles não são nem macho nem fêmea, mas puros espíritos, os quais, a partir da sua queda, se tornaram negros.»[52]

Apesar de tudo, talvez a associação da descendência de Caim com Semijazah e seus anjos tenha sido uma boa escolha pois, como já vimos, Caim e seus descendentes também foram “responsabilizados” pela construção das primeiras cidades: Assim como os anjos, eles teríam criado a vida urbana, a civilização e a guerra. Tubalcaim foi “o pai de todos os laminadores”; Outros formaram as castas dos criadores de gado, dos músicos, dos ferreiros, das meretrizes, etc. O próprio nome “Caim” vem de uma raiz que significa “produzir; adquirir; comprar”. Eles estavam destinados ao comércio. — No entanto, a parte mais lembrada da história de Caim era sem dúvida o episódio do assassinato de Abel.

Na verdade, se levarmos em conta o fato da tradição nomear personagens bíblicos de acordo com a personalidade dos mesmos, parece que para os primeiros judeus, Abel não foi uma vítima tão desmerecida quanto pretende o texto da “Sabedoria de Salomão” e o “Novo Testamento” cristão, pois a exegese e a etimologia das palavras revelam um Abel muito diferente do que costumamos ter em mente: Abel (Hêbel, em Hebraico) significa vapor ou vaidade. Hêbel (Abel) é uma palavra que expressa em hebreu tudo aquilo que é fugaz, passageiro, rápido. A imagem do vento é usada para retratar a ilusão, a frustração, o sonho, o nada, o vazio. Segundo o Dicionário Thesarus, de Genesius — Abel (Hêbel) é um nome baseado em diversos sons: Hab-Hav-Av-Bal-Habál. Estes sons formam uma série de conceitos, inspirados na imagem do vento e do sopro. O plural hebráico de Hêbel é Habelím. Os profetas israelitas chamam os ídolos pagãos de Habelím, nome depreciativo e irônico que quer dizer: os ídolos são vento, sopro, fumaça, futilidade, ilusão, estupidez, inutilidade, nada. Hêbl significa também luto. Não qualquer luto, mas as dramáticas demonstrações de pesar e dor próprias dos orientais, luto cheio de gritos e lamentos. José fez luto por seu pai Jacó durante setenta dias, chorando com todo o Egito. O último Cap. do Gênesis descreve o episódio. Foi tão impressionante que os povos cananeus deram ao lugar o nome de Êbel Mitsráim, ou seja, o luto dos egípcios.

O Eclesiastes, nos fornece mais detalhes sobre a significação de Hêbel. Querendo sintetizar todas as suas frustrações, o rei exclamou: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” Em hebreu, a frase soa assim: Habél Habalim Ha.Kol Habel. As traduções dizem: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, mas podemos multiplicar as variantes: ilusão das ilusões, fumaça e mais fumaça, nada sobre nada, mentira e mais mentiras, vento e apenas vento, frustração em cima de frustração, sopro que some no ar, luto e nada mais que luto, aborto de ilusões. Todas essas idéias estão contidas no texto e no contexto do Eclesiastes, além de muitas outras, sugeridas pela etimologia de Hêbel, ou seja, pela imagem do sopro e do vento. Repare que Salomão repete três vezes a palavra: Habél – Habalim – Habel. O grito de Salomão no Eclesiástes, é o grito da tragédia humana, sintetizando toda a dor do homem em todos os tempos. O nome de Abel (Hêbel) como sinônimo de frustração e desgraça, aparece ainda em diversos outros lugares da Bíblia. Para ninguém por em dúvida o sentido da palavra, ela vem acompanhada de vários sinônimos paralelos:

TÔHU : deserto, vazio, nada, devastação, ruínas. “Por nada e por vento consumi minhas forças.” (Isaías 49, 4) “Le.thôhu ve.hêbel kohí kilêti.”

SHAV : caos, nada, vazio, ruínas, deserto, inutilidade, desagraça, tempestade, calamidade, mal, tragédia, fraude, engano, mentira, falsidade. “Odeio os que cultuam ídolos falsos.” (Salmo 31,7) “Çanêti ha.shomrím habelêi shav.”

RE’ÚT : tentativa, busca, esforço inútil, frustração. “Frustração e esforço inútil do espírito.” (Ecl 4,4) “Hêbel u.re’út rúah.”

‘INIÂN : preocupação, cuidado, esforço sem resultados, frustração. “Ilusão e preocupações aflitivas.” (Ecl 4,8) “Hêbel ve.’iniân rá’ hu.”

RA’ÓN : plano fracassado, sonho, expectativa inútil. “Decepção e expectativa inútil do espírito.” (Ecl 4, 16) “Hêbel ve.ra’ôn rúah.”

DEBARÍM MARBÍM : palavrório, tagaralice, palavras e mais palavras. “Palavreado inútil” (Ecl 6, 11) “Debarín marbím Hêbel.”

O termo “hebêl”, na Bíblia, está sempre em “má companhia”. Jeremias, os Salmos e principalmente o Eclesiástes, como também Jó e Isaías, dão-nos o pior dos retratos de seu significado… E é esse o Abel que Caim eliminou da face da terra: O símbolo das frustrações e desilusões da humanidade.

Possivelmente, na mais antiga tradição, o irmão de Caim devia ser visto como uma espécie de idólatra. Podemos dizer que ele era uma espécie de mestre das mentiras e dissimulações. Em conseqüência, Caim pode ter agido como uma espécie de go∙’él had-dám (hebr. Vingador de sangue)[53]. Entretanto, bem antes do conjunto das escrituras ficar estabelecido, o ato de Caim já era visto como homicídio culposo: «[Da sabedoria] se afastou, em sua cólera, um injusto [Caim], arruinou-se em sua senha fraticiada. Por sua culpa a terra foi submersa, e outra vez a Sabedoria a salvou, pilotando o justo [Noé] numa frágil embarcação.» (Sabedoria 10:1-4)

De qualquer forma, o papel de construtor, inventor, gerreiro e comerciante de Caim e seus filhos foi preservado. O pesquisador francês Alberto Cousté fez um levantamento de antigas lendas sobre os descendentes de Caim até o tempo do Rei Salomão e descobriu que o então “herdeiro” da maldição seria o arquiteto Hiram Abi.[54]
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NOTAS:
[1] Como acontece com muitos outros elementos das tradições religiosas de Israel, a origem do conceito dos bene ha’ Elohim pode ser buscada nas tradições canaanitas do século XIV a.C., que ficou gravada em placas de argila em escrita cuneiforme. Nos escritos, epopéias e textos rituais da antiga cidade de Ugarit, no litoral sírio, a expressão banu ili ou banu ili-mi ocorre com freqüência. No panteão caanita, o deus principal é El, cujo nome significa literalmente “Deus”. Ele e sua esposa Acherá são o pai e a mãe dos deuses. A expressão banu ili-mi pode ser traduzida literalmente como “Os Filhos – ou descendentes – de El”. (Além dos textos de Ugarit, já foram encontradas inscrições fenícias dos séculos VIII e VII a.C. mencionando os Filhos de Deus e uma inscrição amonita do século IX a.C. descoberta em Amã, Jordânia; O que prova que o conceito de Filhos de Deus esteve presente nas tradições canaanitas durante um tempo bastante extenso).
[2] Aqui o texto massorético (texto hebraico aceito), substituiu a expressão original “filhos de Elohin” por “Filhos de Israel”. Em muitos pontos, a versão grega das escrituras, conhecida como Septuaginta, traduziu a expressão hebraica “bene ha’ Elohim” por “aggelon theu”, o que acabou por dar no latim “Angelorum”. A palavra grega “ággelos” significa mensageiro, por isso a palavra “Anjo” passou do latim para as línguas deste derivadas trazendo muito mais acentuada a idéia de mensageiro do que qualquer outro aspecto da personalidade ‘angélica’. De fato, há referência de anjos que executaram o papel de mensageiros (hebr. “Malachim”) tanto nas escrituras hebraicas e árabes quanto nas cristãs; mas a atividade dos ‘anjos’ nunca se resumiu apenas a isso. Nos antigos escritos hebraicos, midraxes, etc. haviam “bene ha’ Elohim” para tudo. Por exemplo, haviam anjos para dirigir nações, cuidar do movimento dos astros, transmitir conhecimento aos profetas, guiar os estudantes da Mercabá através dos sete Hehalot, testar os homens através do ciúme, enviar pragas e morte aos infiéis, etc. Por isso, ao invés de interpletar bene ha’ Elohim como “mensageiro de Deus”, seria muito mais apropriado traduzir a expressão em sua forma literal: “Filhos de Elohim”.
[3] Duração máxima a que Deus reduziu a vida humana, segundo esta fonte javista.
[4] Designação das divindades às quais é contraposto o ardor temível do sol. — Em lugar de “sombra protetora”, o grego tem “época (favorável)”.
[5] Em 2 Samuel 21, é um guerreiro de nome Elanã que derrota Golias. Essa história nos soa mais familiar em 1 Samuel 17, onde Davi luta contra Golias. Segundo Ronald S. Hendel (Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto), esse é um exemplo de história que na tradição oral “deriva” de um herói menor para um maior.
[6] Uma nota de pé de página da Bíblia de Jerusalém acrescenta que «Este “leito de ferro” (ou de basalto ferruginoso) era talvez um dos dólmens que se podem ver na região de Amã. — Nove côvados eqüivalem a cerca de 4m.»
[7] Hershel Shanks (org). Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto. Imago.
[8] O texto completo, em português, aparece no apêndice de “Os Documentos do Mar Morto”, de Burrows.
[9] Os rolos e fragmentos do Mar Morto constituem uma coleção de manuscritos, descobertos em 1947, e formam uma valiosa biblioteca conservada da comunidade dos Essênios, em Qumran. Eles estavam escondidos, por segurança, em cavernas próximas, quando o povoado de Qumran foi destruído pelos romanos em 70 d.C., já no fim da revolta judaica contra o domínio romano na Palestina. Os textos foram preservados pelo clima seco da região, e alguns deles remontam ao século II a.C. Muitas das obras encontradas, escritos sectários, eram antes desconhecidas. Todos os livros do Tanach, exceto o de Ester, foram representados no todo ou em parte, nos Manuscritos do Mar morto, sendo que encontram quatro rolos completos de Isaías[9][9]. Parece que a popularidade de Isaías era grande em Qumran, assim como outras obras de natureza apocalíptica sobre o Fim dos Dias.
[10] O estudo filológico mostrou que os originais deste foram escritos por volta do ano 400 d.C. em grego, e a passagem do aramaico para grego e posteriormente para etíope sacrificou primeiro o antigo estilo hebreu detalhista para uma forma abreviada grega e depois o nome dos anjos que ninguém mais sabia direito como pronunciar. Mas quase tudo pode ser corrigido com os dados dos textos de Qumran. ‡ O Enoque Etíope é conhecido de forma completa na Europa desde 1773, quando o explorador inglês James Bruce trouxe três cópias, que foram rapidamente difundidas; mas a primeira publicação de excertos do texto etíope de Enoque, o qual, é o único integral remanescente, só ocorreu em 1800. A primeira tradução completa foi publicada por Richard Laurence em Oxford no ano de 1821, gerando novos debates em torno da velha questão: Se os “filhos de Deus” que tiveram relações sexual com mulheres eram de fato anjos.
[11] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. II (= 1 Henoc 5,9-6,4 + 6,7-8,1)]
[12] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. III (= 1 Henoc 6,4-8,1)]
[13] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. III (= 1 Henoc 6,4-8,1)]
[14] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. II (= 1 Henoc 5,9-6,4 + 6,7-8,1)]
[15] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[16] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[17] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[18] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. IV (= 1 Henoc 8,3-9,3.6-8)]
[19] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. V (= 1 Henoc 10,3-4)]
[20] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. V (= 1 Henoc 10,3-4)]
[21] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. IV (= 1 Henoc 10,8-12)] ‡ O Texto etíope apresenta a versão: “Nesse dia, eles serão atirados ao abismo de fogo, na reclusão e no tormento, onde ficarão encerrados para todo o sempre. E todo aquele que for sentenciado à condenação eterna seja juntado a eles, e seja com eles mantido em correntes, até o fim de todas as gerações. Extermina os espíritos de todos os monstros, juntamente com todos os filhos dos Guardiões, porque eles maltrataram os homens! Purga a terra de todo ato de violência! Toda obra má deve ser eliminada!”
[22] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. V (= 1 Henoc 10,13-19 + 12,3)]
[23] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[24] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[25] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[26] Joan O’ Grady. Satã o Príncipe das Trevas. Editora Mercuryo Ltda. 1991.
[27] Todas as cópias conhecidas desse texto estão muito fragmentadas sendo impossível reconstitui-lo integralmente. Entretanto, tentei pelo menos reunir o pouco que sobrou da história emendando passagens importantes com fragmentos de Enoch para preencher parte das lacunas mais importantes.
[28] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag. 3
[29] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.1
[30] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag. 3
[31] [4QHenoc b. (4Q201 [4QEn b.]), Col. III (= 1 Henoc 8,2-9,4)]
[32] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.2
[33] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.2
[34] 4QGigantes b (4Q530 [4QGiants b.]) - Col. II
[35] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag.7 col. I
[36] 4QGigantesª (4Q203 [4QGiantsª]) Frag.4
[37] 6QGigantes (6Q8 [6QGiants])
[38] [4QHenoc c. (4Q204 [4QEn c.]), Col. VI (= 1 Henoc 13,6-14,16)]
[39] 4QGigantes c (4Q531 [4QGiants c.]) Frag.8
[40] [4QHenocª (4Q201 [4QEnª]), Col. I (= 1 Henoc 1,1-6)]
[41] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. (Cf. Charlesworth, J.H. (org.). The Old Testament pseudepigrapha: Enoch. Trad. E. Isaac. Nova York, 1983; The apocripha and pseudepigrapha of the Old Testament in english. Trad. R.H. Charles. Oxford 1913, vol. II.)
[42] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[43] Um dos mais extraordinários apologistas cristãos foi o grande polemista Tertuliano (155-220 d.C.) Como a maioria dos criativos primeiros padres, Tertuliano converteu-se na meia-idade. “Pode alguém ser mais douto, mais perspicaz do que Tertuliano?”, perguntou Jerônimo. Muitos termos “técnicos” cristãos usados hoje em latim foram cunhados por Tertuliano; pecado original, vitium originis, é um exemplo. Esse vigoroso líder da Igreja norte-africana juntou-se aos montanistas, um rígido grupo de ascetas que acreditava na revelação progressiva, ensinamento condenado pela Igreja.
[44] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[45] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[46] As anotações entre parênteses e colchetes são minhas.
[47] Serafim (Lat. Seraphim) significa “o abrasador” (de Saraf). Isaías é o primeiro a mencionar anjos com este nome: «Acima dele, em pé, estavam serafins, cada um com seis asas: Com duas cobriam a face (para não verem Deus diretamente), com duas cobriam os pés e com duas voavam. Estes clamavam uns para os outros e diziam: “Santo, santo, santo é Jeová dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra...” Nisto, um dos serafins voou para junto de mim, trazendo na mão uma brasa que havia tirado, com uma tenaz, do altar. Com ela tocou-meos lábios, e disse: “Vê, isto tocou os teus lábios, a tua iniqüidade está removida, o teu pecado está perdoado”» (Isa. 6, 2-3; 6-8) — Dionísio, o Areopagita, forneceu essa significação de serafim: "A santa designação de serafins significa para quem sabe hebraico "os que queimam", quer dizer, os que se inflamam... O movimento perpétuo em torno dos segredos divinos, o calor, a profundidade, o ardor fervilhante de uma revolução constante que não conhece descanso ou declínio, o poder de elevar eficazmente à sua semelhança os seus inferiores, animando-os com o mesmo ardor, o mesmo fogo e o mesmo calor, o poder de purificar pelo raio e pelo fogo, a evidente e indestrutível aptidão para conservar idênticas tanto a sua própria luz quanto o seu poder de iluminação, a faculdade de rejeitar e abolir toda treva obscurecedora, tais são as propriedades dos serafins, dedutíveis do seu próprio nome" (PSEO, 206-207).
[48] O nome hebraico de querubim (kerubi) corresponde ao babilônico Karibu (seres de aparência híbrida humanos-animais destinados a velar à porta dos templos e dos palácios, como guardiães de tesouros)... No momento da construção da Arca da aliança, Jeová prescreveu a Moisés: «Farás dois querubins de ouro, de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório; faz-me um dos querubins numa extremidade e o outro na outra: Farás os querubins formando um só corpo com o propiciatório, nas duas extremidades. Os querubins terão as asas estendidas para cima e protegerão o propiciatório com suas asas, um voltado para o outro. As faces dos querubins estarão voltadas para o propiciatório. Porás o propiciatória em cima da arca; e dentro dela porás o Testemunho que te darei» (Êxodo 25, 18-21); No Templo de Salomão, querubins rodeiam a arca, em Ezequiel, eles puxam o carro de Deus; e são a montaria de Deus no Salmo 18: «Cavalgou um querubim e voou, planando sobre as asas do vento».
[49] Os tronos (lat. Throni) são o nome dado aos anjos da primeira hierarquia por Dionísio o Aeropagita: «Os nomes atribuídos às inteligências celestes significam suas respectivas aptidões de conceber a forma divina... Quanto ao nome de tronos muito sublimes e muito luminosos, este indica a ausência total neles de qualquer concessão aos bens inferiores, essa tendência contínua em direção às alturas que indica claramente que eles não são daqui de baixo, a sua indefectível aversão a toda baixeza, a tensão de todas as suas forças para se manterem com firmeza a constância junto Àquele que é, verdadeiramente, o Altíssimo, a sua capacidade de receber com total impassibilidade, longe de qualquer mácula material, todas as visitações da Tearquia, o privilégio que tem de servir de assento a Deus e o seu zelo vigilante em se abrirem aos dons divinos.» (207-208)
[50] Luther Link. O Diabo – A Máscara sem Rosto. Companhia das Letras. 1995.
[51] Robert Charroux. O Livro dos Segredos Traídos. Livraria Bertrand.
[52] Robert Charroux. O Livro dos Segredos Traídos. Livraria Bertrand.
[53] A palavra hebraica go∙’él, que tem sido aplicada ao vingador de sangue, é um particípio de ga∙’ál, que significa, “reivindicar”, “recuperar”, etc. Na lei dos hebreus, o termo aplicava-se ao parente masculino mais próximo, que tinha a obrigação de vingar o sangue daquele que fora morto. (Núm 35:19) O termo go∙’él designava também um parente com o direito de comprar de volta (ou remir). Vingar o sangue tinha por base o mandado a respeito da santidade do sangue e da vida humana, declarado a Noé, em que Deus disse: “Exigirei de volta vosso sangue das vossas almas... da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue.” (Gên 9:5) O homicida deliberado devia ser morto pelo “vingador do sangue”, e não se devia aceitar nenhum resgate por tal assassinato (Núm 35:19-21, 31). É claro que falta aqui um dado importante: Abel apenas ofereceu uma ovelha como sacrifício, entretanto ele foi punido pelo irmão como se houvesse matado um humano, a não ser que “ovelha” seja uma metáfora indicando seu filho primogênito, como aparece no Êxodo: «19. Todo o que nascer macho que sair por primeiro do seio materno é meu: todo macho, todo primogênito das tuas ovelhas e do teu gado. 20. O jumento, porém, que sair por primeiro do seio materno, tu o resgatarás como um cordeiro; se não o resgatares, quebrar-lhe-ás a nuca. Resgatarás todos os primogênitos dos teus filhos. Não comparecerás diante de mim de mãos vazias.» (Êxodo 34: 19-20)
[54] Alberto Cousté. Biografia do Diabo. Editora Rosa dos Tempos