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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino

 



A noção de Pecado Original é uma das doutrinas mais polêmicas na história da Igreja, especialmente quando foi primeiramente formulada por Agostinho de Hipona (354–430), mas também no princípio da Reforma Protestante — com formulações radicais pela maioria dos reformadores e, do lado Romano, o estabelecimento de um dogma “completo” do Pecado Original no Concílio de Trento (mas recuperando o Concílio de Orange de 529) —, assim como na teologia racionalista entre os séculos XIX e XX, que assumia uma opinião bastante otimista sobre a natureza humana.

A polêmica não cessou em nossa própria época, especialmente com a assimilação crítica da teoria da evolução, impondo aos teólogos e filósofos cristãos, alguns muito populares (como C. S. Lewis e Alister McGrath), a tarefa de articular diferentes maneiras de encarar a historicidade das narrativas do Gênesis e de figuras como Adão e Eva. O desafio é: como é possível o Pecado Original numa interpretação menos literal ou menos histórica (ou as duas coisas) dos capítulos 2 e 3 do Gênesis?

Pecado e Culpa

Pois bem, o Pecado Original aparece geralmente em duas formas. A primeira forma, mais simples, afirma aquilo com que todos os ramos históricos do cristianismo concordam: por conta do Pecado Original, todo ser humano nasce com uma deficiência espiritual, uma alienação fundamental, um distanciamento de Deus, uma inclinação para o pecado, que é transmitida de geração em geração à semelhança de uma doença congênita. Os ancestrais da humanidade nasceram com uma riqueza imensa, mas a apostaram imprudentemente, caíram na desgraça, e toda a descendência nasceu pobre.

Por isso, todo mundo já nasce ruim. É o que Chesterton diz que podemos ver na rua: a história humana está cheia de atrocidades, e pequenas crueldades são facilmente vistas por todo lado. A primeira versão é chamada pelos ortodoxos de Pecado Ancestral, tentando evitar a confusão com a segunda forma. Pois alguns cristãos crêem que o Pecado Original não é apenas a maldade herdada. Há algo mais: todo mundo nasce culpado pelo pecado de Adão, e portanto condenado. Essa segunda versão encontra na tradição reformada (calvinista) os defensores mais abertos, assim como nos ortodoxos seus críticos mais renitentes.

A idéia de culpa herdada suscita uma perplexidade moral. Afinal de contas, como uma pessoa pode ser culpada por algo que não fez? Podemos discutir se alguém pode assumir a responsabilidade, voluntariamente, pelo pecado de outra pessoa, e esse tipo de benevolência é essencial à teologia cristã — “Ninguém a tira de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade.” (Jo. 10:18a) —, como quando alguém paga uma fiança ou uma dívida que tenha levado a escravidão. Mas como posso ser culpado por algo de que não fui autor, no momento do nascimento, antes mesmo de que eu realize qualquer ato que “convalide” ou “corrobore” a sentença? Ademais, trata-se de uma culpa crescente: a geração ascendente não deixa de ser culpada quando a descendente é punida. O nexo entre autor e crime deixa de ter qualquer relevância.

Como David Bentley Hart apontou aqui e ali, uma culpa herdada é um conceito tão logicamente coerente quanto o de um círculo quadrado. Pois culpa, objetivamente, significa: você violou a regra.

Essa segunda versão tem em Agostinho sua origem teológica, ainda que com precedentes patrísticos. Afinal, pergunta Agostinho aos pelagianos, se o batismo é “para remissão de pecados” (At. 2:38), por que batizamos crianças? Agostinho extraiu do costume a teologia (lex orandi lex credendi): só poderia ser porque as crianças já nascem carregando a culpa do pecado de Adão. O resultado mais terrível era de que as crianças que não foram batizadas, ou seja, a maioria delas, estavam por isso mesmo condenadas (De Pec. mer. et rem. et de Bapt. parv., I, c. 21, aqui). O instrumento de graça se torna, assim, instrumento de desgraça para quem não goza dele.

O relacionamento entre o Pecado Original e o batismo infantil não foi criação de Agostinho. Segundo Jaroslav Pelikan, é em Cipriano de Cartago (c.200–258), muito lido e citado por Agostinho, que a correlação entre esses dois elementos se mostra pela primeira vez. Na realidade, penso que esse relacionamento já estava indicado in semine em Rm. 6:6,7, se lido contra 1Co. 15:22, mas isso é outra história.

O locus histórico para discussão da teologia do pecado original é Rm. 5:12-21, texto em que Paulo contrasta Adão e Cristo. Há outros textos, como os Gn. 2–3 ou o Sl. 51:5, mas o fato é que esses são casos de eisegese, de imposição doutrinal sobre o texto; não existe “Pecado Original” no Antigo Testamento. Nenhum desses textos conhece a noção de que o pecado do primeiro ser humano é transmitido aos descendentes, seja como maldade herdada, seja como culpa herdada.

In Quo Omnes Peccaverunt

A noção de “culpa herdada” surge em Agostinho de uma leitura defeituosa de Rm. 5:12. Agostinho normalmente não utilizada o Novo Testamento em sua língua original, mas na tradução latina. Como todo intérprete preso a uma tradução defeituosa, Agostinho é induzido a erro. Qual era o erro? Note o texto latino e sua tradução (Pe. Antonio Pereira de Figueiredo, séc. XVIII):

“Portanto assim como por um homem entrou o peccado n’este Mundo, e pelo peccado a morte, assim passou tambem a morte a todos os homens por um homem, no qual todos peccaram.“ (Rm. 5:12, Pe. Figueiredo)

propterea sicut per unum hominem in hunc mundum peccatum intravit et per peccatum mors et ita in omnes homines mors pertransiit in quo omnes peccaverunt (Rm. 5:12, Vulgata)

Note que “por um homem”, em negrito, fica por conta do Pe. Figueiredo, mas o sentido já estava dado no original: in quo (no qual), que é masculino, só poderia se referir ao unus homo (ac. unum hominem), que é masculino. Isso quer dizer: todos os homens pecaram em Adão. Os grandes luminares da teologia ocidental medieval utilizaram esse texto latino, e por ele foram levados a pensar que, quando Adão pecou, toda a humanidade pecou “nele”.

Creio que em Tomás de Aquino (1225–1274) essa noção de culpa herdada encontra uma forma mais explícita que em Agostinho; o “boi mudo” usa o vocábulo latino culpa explicitamente e sem rodeios, e mostra conscientemente depender da versão incorreta de Rm. 5:12. Por exemplo:

…o pecado original não é realizado por nossa própria vontade, senão talvez enquanto a vontade de Adão é considerada nossa, segundo o modo de dizer do apóstolo, em Rom. 5, “no qual todos pecaram”. (ST, IIIa q. 84 a. 2 ad 3) [….peccatum originale non est nostra voluntate peractum; nisi forte inquantum voluntas Adae reputatur nostra, secundum modum loquendi quo apostolus dicit, Rom. V, in quo omnes peccaverunt.]

Embora a culpa não esteja atualmente no sêmen, ainda assim está virtualmente na natureza humana, a qual é acompanhada de tal culpa. (ST, Ia-IIae q. 81 a. 1 ad 3) [Etsi culpa non sit actu in semine, est tamen ibi virtute humana natura, quam concomitatur talis culpa.]

De fato, Tomás de Aquino era capaz de considerar que o Pecado Original herdado é voluntário, apesar de não se originar na vontade do herdeiro (ST, Ia-IIae q. 81 a. 1 co.). Em resposta à objeção levantada a partir de Ez. 18:20, que estabelece o princípio de que os indivíduos só serão julgados pelos seus próprios pecados, Tomás de Aquino responde:

“Do filho se diz que não carrega o pecado do pai, pois não será punido pelo do pai a menos que participe de sua culpa. E esse é justamente o caso que discutimos, pois a culpa é transmitida por origem do pai ao filho, assim com o pecado atual é transmitido por imitação.” (ST, Ia-IIae q. 81 a. 1 ad 1) [Ad primum ergo dicendum quod filius dicitur non portare peccatum patris, quia non punitur pro peccato patris, nisi sit particeps culpae. Et sic est in proposito, derivatur enim per originem culpa a patre in filium, sicut et peccatum actuale per imitationem.]

Não é difícil perceber que a defesa de uma doutrina inconsistente leva Tomás de Aquino a uma petição de princípio: diante de um texto claro, ele simplesmente assume o que deveria provar. Como conseqüência, Tomás de Aquino segue Agostinho em considerar o pecado original suficiente para a condenação das crianças não batizadas (ST, IIIa q. 68 a. 9 co.). Curiosamente, Tomás de Aquino considerava que o pai, e não a mãe, era responsável por transmitir o Pecado Original (ST, Ia-IIae, q. 81, a. 5), motivo pelo qual cristo não teria pai humano; ao contrário dos católicos romanos modernos, ele não considerava a “Imaculada Conceição de Maria” como necessária para a prevenção do Pecado Original de Jesus.

É claro que o catolicismo romano distanciou-se dessa posição agostiniana e tomista. O Concílio de Trento passou a empregar a expressão latina reatus (acusação, imputação), em vez de culpa. Pode-se argumentar que é uma distinção sem diferença. Não há muita diferença, senão verbal, entre dizer que alguém acusado do que não tem culpa ou é culpado do que não fez. Se toda criança nasce portadora de uma melancia e essa melancia é suficiente para sua condenação, tanto faz se a melancia se chama reatus ou culpa.

De todo modo, o catolicismo moderno caminhou numa direção mais próxima à da Igreja Ortodoxa e dos pais da Igreja “não-agostinianos”. No Catecismo da Igreja Romana (§402–406) não se afirma uma “culpa herdada”, ainda que se diga que em Adão a natureza humana inteira pecou. Karl Rahner, um dos principais nomes da teologia católica romana do século XX, podia declarar: “No “pecado original” não nos é imputado o pecado de Adão.” (Curso Fundamental da Fé, Paulus, p. 139).

Eph’hō Pantes Hēmarton

Como é comum nos erros, eles se emancipam do equívoco que lhes deu origem, de modo que ela encontra defensores mesmo depois de que a tradução foi corrigida. Eis o texto grego e sua transliteração:

Διὰ τοῦτο ὥσπερ δι’ ἑνὸς ἀνθρώπου ἡ ἁμαρτία εἰς τὸν κόσμον εἰσῆλθεν καὶ διὰ τῆς ἁμαρτίας ὁ θάνατος, καὶ οὕτως εἰς πάντας ἀνθρώπους ὁ θάνατος διῆλθεν, ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον (NA28)
Transliteração: Dia touto hōsper di’henos anthrōpou hē hamartia eis ton kosmon eiselthēn kai dia tēs hamartias ho thanatos, kai houtōs eis pantas anthrōpous ho thanatos diēlthen, eph’hō pantes hēmarton.

O que isso quer dizer? As versões em língua portuguesa não ajudam muito. A Bíblia de Jerusalém, Almeida Revista e Atualizada, NVI, NTLH e outras dizem que a morte passou a todos os homens porque todos pecaram. É uma tradução gramaticalmente defensável, e evita o erro de pensar que “todos pecaram em Adão”, mas não faz muito sentido: a morte transmitida por Adão só passa aos outros homens porque (e, portanto, depois que) cada um peca? O texto se tornaria bastante trivial. Contextualmente, não parece ser isso que Paulo quer dizer, mas sim que “pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores” (Rm. 5:18).

Esse mesmo “porque” poderia ser lido como demonstrativo implícito: a morte passou a todos os homens, e o que demonstra isso é o fato de que todos pecaram. Mas penso que a forma mais simples seria traduzi-lo como o fazemos em At. 7:33 (“lugar em que estás é terra santa”), que é a tradução mais natural de epi + dativo, indicando “lugar”, sendo o lugar indicado pelo pronome relativo.

Ou seja, Jerônimo e os demais tradutores latinos intuíram corretamente o sentido da construção ao traduzir como “no qual”; o problema único problema é o gênero. Há dois substantivos masculinos relevantes no texto grego: homem e morte. Mas desses, o mais próximo é morte. Assim como no português, no latim o gênero de “morte” (mors) é feminino, ao passo que é masculino em grego. Não há maneira gramatical de fazer eph’hō referir-se ao anthrōpos. Assim, julgo que a tradução mais natural do texto grego, sem apelar para “entrelinhas” contextuais, ficaria assim:

“Portanto, como por um ser humano entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, na qual todos pecaram.”

“Na qual” significaria “na morte”, uso locativo que aparece também no v. 21, sob outra construção (“o pecado reinou na morte”). Noutras palavras: assim como o pecado causa a morte (de Adão), a morte causa o pecado (dos seus descendentes).