domingo, 30 de agosto de 2026

O retrato de Jesus por Lucas: o profeta Elias e o “Salvador”

 



Existem diversas abordagens que podem ser adotadas para o estudo dos evangelhos sob uma perspectiva histórica ou acadêmica. Entre elas, destaca-se a abordagem que os considera como biografias antigas, cada uma esboçando um retrato particular do protagonista principal, Jesus. Este método é especialmente adequado para o estudo de documentos que defendem explicitamente uma interpretação específica de Jesus (ou seja, os evangelhos demonstram maior interesse no que os estudiosos por vezes chamam de "Cristo da fé" do que no "Jesus histórico", o camponês). Nesses casos, podemos formular perguntas literárias como: qual é o enredo principal da história, quem são os personagens principais e como o protagonista, Jesus, é retratado?

O retrato de Jesus feito por Lucas também é fortemente influenciado por modelos judaicos, mas Lucas também se preocupa em apresentar Jesus de uma forma que fizesse algum sentido para os gregos e romanos, pelo menos até certo ponto.

Do ponto de vista judaico, Jesus é enfaticamente um profeta, e por vezes o autor parece ter em mente o profeta prometido, como Elias especificamente (ver Malaquias 4:5-6). O autor de Lucas opta por iniciar o ensino e a atividade de cura de Jesus com a leitura de uma passagem de Isaías (61:1-2; Lucas 4:14-21). Jesus então se identifica explicitamente com o profeta mencionado em Isaías, um profeta ungido que pregará boas novas aos pobres, libertará os cativos e dará vista aos cegos. Essa ênfase em Jesus como profeta para os oprimidos ou marginalizados socialmente continua ao longo do evangelho, começando com Jesus curando cegos, expulsando demônios e convivendo com excluídos sociais, “pecadores” e cobradores de impostos. Lucas preserva ou apresenta muitos ensinamentos de Jesus focados em amparar os pobres e condenar os ricos, e esse tema de inversão está explicitamente ligado ao seu papel como profeta.

Quase imediatamente após se identificar como o profeta (de Isaías), Jesus compara sua rejeição em sua cidade natal como um sinal de sua afinidade com Elias e Eliseu (4:24-30). Além disso, há outros indícios de que Lucas quer que seus leitores pensem em Jesus como o profeta Elias prometido (de Malaquias). Jesus, assim como Elias (em 1 Reis 17:17-24), ressuscita o filho da viúva, e aqueles que testemunham isso o chamam de “grande profeta” (Lucas 7:11-17). Quase imediatamente depois disso, como que para enfatizar seu ponto, Lucas apresenta João Batista perguntando a Jesus quem ele é. A resposta de Jesus ecoa mais uma vez a passagem de Isaías: “Ide, contai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e aos pobres são anunciadas as boas-novas” (7:22).

Paralelamente à ênfase em Jesus como o maior profeta judeu, à semelhança de Elias, que veio para ajudar os pobres, está a representação de Jesus como "Salvador" (o Evangelho de João aplica momentaneamente esse título a Jesus). Nenhum outro evangelho identifica Jesus dessa maneira. No Evangelho de Lucas, ser um salvador significa, literalmente, salvar pessoas aqui e agora, dando vista aos cegos e curando os leprosos. A identificação como Salvador surge cedo, na narrativa do nascimento, e continua a aparecer em vários momentos da salvação terrena de Jesus para os doentes e marginalizados. O título "Salvador" ( soter em grego) era muito comum no mundo greco-romano para benfeitores, especialmente deuses, mas também imperadores e outros, que traziam segurança e proteção – a salvação em termos práticos – de forma contínua. Imperadores a partir de Augusto, por exemplo, podiam ser louvados por suas boas obras com o título de "salvador e benfeitor".

Eis, então, em Lucas, um retrato de Jesus que pode soar familiar tanto para os ouvintes judeus quanto para os gregos ou romanos.

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