Como um movimento apocalíptico judaico, o movimento inicial de Jesus (“Cristianismo”) herdou uma visão de mundo na qual Satanás desempenhava um papel importante como o adversário ou oponente final de Deus e seus agentes. Muito se poderia dizer sobre a centralidade da oposição de Satanás (ou de seus demônios) a Jesus nos evangelhos sinópticos, por exemplo, onde a tentação no deserto, no início da missão de Jesus, chama claramente a atenção para uma luta contínua (ainda mais ilustrada nos muitos exorcismos) que aparentemente ameaça desfazer essa mesma missão.
Jesus é frequentemente apresentado, como no evangelho de Marcos, como o princípio do fim para os poderes malignos que atuam no mundo. A maioria dos primeiros cristãos levava Satanás e seus demônios a sério e acreditava que os poderes malignos podiam estar ativos nos contextos da vida real dos cristãos e de outras pessoas. Portanto, isso era mais do que apenas pensamentos na mente das pessoas, e Satanás desempenhava um papel importante nas interações sociais e políticas da vida real e nos discursos polêmicos.
Aqui, gostaria de chamar brevemente a atenção para duas funções retóricas principais de Satanás em discursos polêmicos ou discursos sobre o “outro”. Além disso, o Oponente supremo (Satanás) podia aparecer (discursivamente) em lutas com (1) oponentes externos ao próprio grupo e (2) oponentes internos (ou à margem) do judaísmo ou do movimento de Jesus, que, no entanto, eram categorizados como “outros”, como forasteiros demoníacos. A “demonização” de inimigos externos ou adversários internos continuou de várias maneiras ao longo da história do cristianismo (e também era característica de discursos polêmicos anteriores no contexto do judaísmo primitivo).
(1) Em primeiro lugar, Satanás e a linguagem do mal desempenham um papel importante na “demonização” de forasteiros ou outros povos, incluindo poderes governantes. O Apocalipse de João (Revelação) fornece um excelente exemplo disso (escrito em algum momento nos anos seguintes à destruição do templo por Roma em 70 d.C., talvez na década de 90). O autor dessas visões pensa em termos de uma luta contínua entre Deus e seu Cordeiro (Jesus), por um lado, e o dragão, Satanás, e sua Besta, por outro.
Mais importante ainda, o dragão aqui está claramente em conluio com o poder imperial romano, que é retratado como uma besta caótica de sete cabeças surgindo do mar no capítulo 13 (com o imperador Nero em particular — como a cabeça mortalmente ferida que “era, e não é, e há de subir” [17:7-14] — no topo da mente do autor). O “dragão deu o seu poder, o seu trono e grande autoridade” a esta besta, e o povo adorou tanto o dragão (Satanás) quanto a besta (o imperador), de acordo com essas visões (13:2). O ataque retórico ao poder imperial romano externo continua nos capítulos 17-18, onde o autor fala da Babilônia (= Roma — ambas destruíram o templo de Deus em Jerusalém) como uma prostituta que cavalga a besta de sete cabeças e bebe o sangue dos santos.
O uso da linguagem do mal e de Satanás ao se referir a pessoas de fora ou oponentes externos continuaria muito depois de João ter registrado essas visões. Um exemplo particularmente notável é a maneira como cristãos posteriores (como Justino Mártir) se referiam aos deuses dos gregos e romanos como "demônios" (compare a primeira carta de Paulo aos cristãos de Corinto em 10:14-22).
(2) Em segundo lugar, nos debates e lutas internas do cristianismo, Satanás era frequentemente invocado para combater aqueles que, dentro ou à margem do próprio grupo cultural, tinham visões diferentes sobre o que significava seguir Jesus. Assim, por exemplo, quando Paulo tentou convencer alguns cristãos em Corinto de que deveriam aceitá-lo como autoridade em vez de outros “super apóstolos” eloquentes, ele empregou a linguagem do mal e de Satanás para descrever esses oponentes (judeu-cristãos):
“Pois tais homens são falsos apóstolos, obreiros enganosos, disfarçando-se de apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois até Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus servos também se disfarcem de servos da justiça. O fim deles será de acordo com as suas obras” (2 Coríntios 11:12-15).
Neste discurso, esses líderes do movimento de Jesus, com os quais Paulo discorda veementemente, tornam-se servos de Satanás e compartilharão o destino do maligno.
Basta mais um exemplo. As epístolas joaninas (1-3 João) refletem um grupo específico de seguidores de Jesus (provavelmente vivendo na Ásia Menor ocidental) que recentemente enfrentou dificuldades que levaram a um cisma. O autor retrata aqueles que deixaram o grupo, que tinham visões diferentes sobre Jesus, como “anticristos” a serviço do diabo:
“Filhinhos, esta é a última hora; e, como ouvistes que o anticristo vem, já agora muitos anticristos têm surgido... Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos... Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, aquele que nega o Pai e o Filho” (1 João 2:18-23; compare com 2 João 7-11).
Aliás, este é o registro mais antigo conhecido do termo "anticristo", que logo desenvolveria sua própria história em referência a um dos principais auxiliares terrenos de Satanás, que precederia a batalha final entre o bem e o mal. Entre os intérpretes posteriores, as bestas do Apocalipse de João, ou do livro de Daniel antes dele, foram por vezes identificadas com essa figura do anticristo em desenvolvimento.
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