A dificuldade em estudar grupos que viveram há cerca de dois mil anos reside no fato de que, muitas vezes, sabemos muito pouco sobre eles, quanto mais sobre como se formaram. A disciplina das "origens cristãs" é um exemplo disso, mostrando o quão difícil é explicar as origens de um movimento. No caso da seita apocalíptica que abandonou a civilização para viver no deserto, às margens do Mar Morto, encontramos algumas pistas sobre as origens desse grupo em Qumran, que pode ou não ser um grupo de essênios.
O texto conhecido como Documento de Damasco (escrito por volta do início ou meados do século I a.C.) começa precisamente com uma descrição, embora repleta de metáforas, das origens de um grupo penitencial de judeus, provavelmente por volta de 190 a.C.:
“[Deus] lembrou-se da aliança do princípio, preservou um remanescente para Israel e não os entregou à destruição. E no momento da ira, trezentos e noventa anos depois de os ter entregado nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, visitou-os e fez brotar de Israel e de Arão um renovo, para que possuíssem a sua terra e se fartassem com os frutos da terra. E eles reconheceram o seu pecado e souberam que eram homens culpados; mas eram como cegos e como aqueles que tateiam o caminho por vinte anos. E Deus apreciou as suas obras, porque o buscaram com um coração íntegro, e lhes suscitou um Mestre da Justiça para os guiar no caminho do seu coração” (Documento de Damasco = CD 1.4-11;
Esta pequena passagem nos revela bastante, embora devamos ter cuidado com a forma como a interpretamos literalmente. Ela menciona um grupo específico entre os judeus como o remanescente e prossegue falando de um movimento penitencial que surgiu como um "broto" (com os anos mencionados coincidindo aproximadamente com a virada do século II, por volta de 190 a.C.). Fala de uma época em que esses homens, que reconheciam sua "culpa", sentiam-se perdidos até que um líder especial emergiu algumas décadas depois (20 anos), o "Mestre da Justiça". Até aqui, tudo bem: temos um movimento penitencial entre a população judaica por volta de 190 a.C. e um líder surgindo talvez por volta de 170 a.C.
Ouvimos falar mais sobre esse “Mestre da Justiça”, que evidentemente era uma figura central do passado na visão do grupo que vivia em Qumran, em outros comentários bíblicos (pesharim) encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto. O autor desse comentário interpreta uma passagem de Habacuque como uma referência ao próprio Mestre da Justiça:
Sua interpretação diz respeito ao Mestre da Justiça, a quem Deus revelou todos os mistérios das palavras de seus servos, os profetas. Pois a visão tem um tempo determinado, terá um fim e não falhará [Habacuque 2:3]. Sua interpretação: a era final se estenderá e irá além de tudo o que os profetas dizem, porque os mistérios de Deus são maravilhosos (1QpHab 7.1-8).
Aqui vemos a centralidade da expectativa de um fim apocalíptico entre esses judeus em particular. Acreditava-se que o Mestre da Justiça tinha acesso privilegiado à interpretação dos mistérios de Deus concernentes aos profetas e ao fim vindouro. Por meio desse mestre, os habitantes de Qumran acreditavam que somente eles tinham acesso aos segredos sobre como interpretar as escrituras e sobre como e quando ocorreria a intervenção final de Deus.
A esse cenário soma-se o “Sacerdote Ímpio”. Parece que desentendimentos entre esse sacerdote, provavelmente um sumo sacerdote hasmoneu (macabeu) do templo de Jerusalém (na década de 150 a.C.), e o Mestre, que também era sacerdote, levaram a um conflito que inspirou membros do movimento penitencial a abandonar completamente a sociedade “ímpia” e fundar a comunidade de Qumran. O tipo de tensões e conflitos que levaram a essa fundação fica evidente quando o autor interpreta uma passagem de Habacuque em termos do “Sacerdote Ímpio que perseguiu o Mestre da Justiça para consumi-lo com a ferocidade de sua ira no lugar de seu exílio, em tempo festivo, durante o restante do Dia da Expiação” (11.4-7). A linguagem de consumir aqui sugere violência, talvez até mesmo uma tentativa de matar o “Mestre”. O grupo de Qumran surgiu de contendas entre sacerdotes no templo de Jerusalém.
A negatividade em relação ao Sacerdote Ímpio e à liderança do templo em geral, que fez com que esses judeus sentissem a necessidade de abandonar completamente a sociedade, é ainda mais confirmada no comentário de que o sacerdote “não circuncidou o prepúcio do seu coração e andou por caminhos de embriaguez para saciar a sua sede; mas o cálice da ira de Deus o engolirá, acumulando [vergonha sobre ele]” (11.11-14).
Temos aqui, então, um grupo sectário que sentia que o fim do mundo e o fim da liderança maligna do templo estavam próximos. Eles foram para o deserto para se preparar e aguardar a “visitação” de Deus, que é descrita com mais clareza no material sobre os “dois espíritos” na Regra da Comunidade. Em breve, pensavam eles, o “domínio de Belial” (o Inútil = Satanás) ou o Príncipe das Trevas terminaria com a destruição ou o tormento eterno do mal e daqueles que se alinhavam com o caminho dos ímpios (“os filhos das trevas”), incluindo a atual liderança “ímpia” do templo de Jerusalém. O destino dos “filhos da luz”, ou seja, os membros da seita de Qumran, era muito melhor: “desfrute eterno com vida sem fim” ( 1QS 4.7).
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