sábado, 3 de outubro de 2026

Ressurreição de Jesus: como um problema histórico - N.T. Wright

 

A questão da ressurreição de Jesus está no cerne da fé cristã. Não há nenhuma forma de cristianismo primitivo que conhecemos que não afirme que, após a morte vergonhosa de Jesus, Deus o ressuscitou. Essa afirmação é, em particular, a resposta constante do cristianismo primitivo a uma das quatro questões-chave sobre Jesus que devem ser levantadas por todos os historiadores sérios do primeiro século. Já abordei em outro lugar as três primeiras dessas questões, a saber: qual era a relação de Jesus com o judaísmo? Quais eram seus objetivos? Por que ele morreu?

A quarta questão é a seguinte: considerando o que foi dito anteriormente, por que o cristianismo surgiu e assumiu a forma que assumiu? A essa pergunta, praticamente todos os primeiros cristãos que conhecemos dão a mesma resposta: “Ele ressuscitou dos mortos”. O historiador deve, portanto, investigar o que eles queriam dizer com isso e o que pode ser dito a título de comentário histórico.

Nesta primeira aula, examinarei a questão histórica em linhas gerais. Farei isso esboçando as crenças sobre a ressurreição presentes no judaísmo do Segundo Templo e, em seguida, analisando a forma do cristianismo primitivo para examinar como este movimento surgiu do primeiro. Na segunda aula, nos aprofundaremos em algumas das evidências detalhadas, examinando as afirmações do movimento cristão primitivo, conforme refletidas em textos-chave. 

Na aula final, proponho usar uma narrativa específica da ressurreição, a de Lucas, como ponto de partida para a seguinte questão: o que a mensagem da ressurreição pode ter a dizer ao mundo e à igreja, enquanto enfrentamos o desafio pós-moderno nos últimos anos do segundo milênio? As três aulas, portanto, funcionam da seguinte maneira: nesta aula, apresentarei um panorama geral das origens do cristianismo e argumentarei que somente a ressurreição corporal de Jesus pode explicá-las. Na segunda, examinarei os textos detalhados que falam desse evento. Na terceira, avançarei do caminho de Emaús, no primeiro século, até a “Praia de Dover”, de Matthew Arnold, no século XIX, e adentrando o século XX.

Meu tema, portanto, é apresentar o argumento histórico que resulta da análise do judaísmo do primeiro século, por um lado, e do cristianismo do primeiro século, por outro. Encontramo-nos, por assim dizer, contemplando dois pilares em cada margem de um rio caudaloso. Ao estudá-los e sua relação mútua, deveríamos ser capazes de descobrir que tipo de ponte poderia, de fato, uni-los. O cristianismo surgiu do judaísmo, mas como isso aconteceu? Como passamos de uma margem do rio para a outra?

A ressurreição, segundo a perspectiva do judaísmo do Segundo Templo

Como a esperança da ressurreição funcionava dentro da visão de mundo do judaísmo? E qual o lugar da ressurreição nas crenças judaicas do período do Segundo Templo sobre a vida após a morte em geral?

A esperança na ressurreição começou no judaísmo não como dogma, mas como uma história — a história do exílio e da restauração de Israel. A primeira passagem óbvia em que a encontramos é Ezequiel 37:1-14, a visão do vale dos ossos secos. Ali, a esperança na restauração de Israel é expressa por meio da metáfora vívida, quase surreal, de ossos secos voltando à vida, adquirindo carne, tendões e, por fim, fôlego. O contexto deixa claro que essa imagem denota o retorno do exílio; também, por meio dos capítulos anteriores, estabelece uma série de conexões, como resgate, purificação e (particularmente) renovação da aliança. O mesmo se aplica, possivelmente, àquela passagem complexa de Isaías 26:16-21. A ressurreição inicia a vida, em outras palavras, como uma metáfora para o retorno do exílio e tudo o que acompanhava a esperança de Israel nesse retorno.

Mas a história, tal como foi contada pelos judeus do Segundo Templo durante a época de Jesus e posteriormente, nunca sugeriu que o verdadeiro retorno tivesse de fato ocorrido. Ninguém supunha que as profecias de Isaías ou Ezequiel já tivessem se cumprido. Os judeus do Segundo Templo ainda viviam dentro do mundo narrativo do exílio e da restauração. Dentro dessa narrativa, o exílio se concentrava em certos momentos do sofrimento dos mártires, e a ressurreição se concentrava em sua vindicação. Nesse contexto, devemos situar Daniel 12 e, em particular, 2 Macabeus, com seus relatos macabros de mártires que zombam de seus torturadores, assegurando-lhes que eles, os mártires, receberão de volta do deus de Israel os corpos físicos que agora estão sendo dilacerados (por exemplo, 2 Macabeus 7:1-23).

Este é um desenvolvimento — e não um afastamento — do mundo metafórico de Ezequiel 37. O exílio continua e, no início do século II, assumiu a forma de brutal opressão pelo paganismo sírio. A esperança, então, era que o Deus de Israel restaurasse o seu povo e que aqueles que morressem na luta, leais a ele e à sua Torá, ressuscitariam para participar da eventual restauração. Assim também, após a queda de Jerusalém em 70 d.C. ter intensificado o sentimento de exílio a um nível quase insuportável, encontramos 4 Esdras 7 expressando uma esperança semelhante. O mesmo se aplica, independentemente da data, a 1 Enoque e 2 Baruque. Subjacente a todas essas histórias, é claro, está a inabalável crença judaica na justiça do único Deus verdadeiro.

Dois detalhes importantes devem ser mencionados aqui. Primeiro, sabemos por Flávio Josefo (Guerra Judaica 2:163; Antiguidades Judaicas 18:14) e pelo Novo Testamento (Atos 23:7-8) o que poderíamos ter inferido dos rabinos posteriores, ou seja, que a ressurreição era um aspecto importante da teologia farisaica. Mas devemos lembrar que, nos dias de Jesus e Paulo, a maioria dos fariseus pertencia ao que poderíamos chamar de ala revolucionária do judaísmo, mais voltada para a restauração de Israel. 

Para os fariseus, a ressurreição não funcionava como uma doutrina abstrata sobre o que acontece com o povo de Deus (ou com qualquer pessoa) após a morte, mas como uma declaração sobre a grande reviravolta na sorte de Israel que ocorreria em breve, e sobre o fato de que, quando esse evento acontecesse, aqueles que tivessem sido fiéis à Torá, mas que tivessem morrido antes da hora, ressuscitariam para participar das bênçãos da Era Vindoura. Em outras palavras, a crença farisaica deve ser vista como um desenvolvimento da mesma história subjacente que encontramos em Daniel e 2 Macabeus.

O segundo detalhe a ser mencionado diz respeito ao livro conhecido como Sabedoria de Salomão. Há muito tempo é costume entre os estudiosos afirmar que este livro simplesmente ensina a imortalidade da alma, e não a ressurreição. Os versículos iniciais do capítulo três são citados nesse sentido:

As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento jamais as atingirá. Aos olhos dos insensatos, pareciam estar mortas, e sua partida era vista como uma calamidade, e sua ausência como sua destruição; mas eles estão em paz. (3:1-3)

No entanto, a passagem continua alguns versículos depois:

No tempo da sua visitação, eles resplandecerão e correrão como faíscas pela palha. Adorão nações e dominarão povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre. (3:7-8)

Esses judeus justos, martirizados pelas mãos dos pagãos, estão agora em paz, seguros com Deus, mas a imortalidade de suas almas é apenas o prelúdio para sua ressurreição e para serem estabelecidos como autoridade sobre os reinos da terra, dentro do único reino de Deus. O que a passagem oferece, além das outras evidências que consideramos brevemente, é um relato do que acontece aos justos mortos no intervalo entre sua tortura e morte e sua ressurreição: suas almas são cuidadas por Deus.

A ressurreição, portanto, pertence à visão de mundo revolucionária do judaísmo do Segundo Templo. Que papel ela desempenha na esperança judaica de vida após a morte? Havia, dentro do judaísmo, um espectro considerável de crenças e especulações sobre o que acontecia com os mortos em geral e com os judeus mortos em particular. Em uma extremidade estavam os saduceus, que parecem ter negado qualquer doutrina de existência pós-morte (Marcos 12:18; Josefo, Guerra 2:165). 

Na outra, estavam os fariseus, que afirmavam uma futura existência corpórea e que parecem ter, pelo menos, começado a desenvolver teorias sobre como as pessoas continuavam a existir no intervalo de tempo entre a morte física e a ressurreição física. E há outras possibilidades. Alguns escritos falam de almas em êxtase desencarnado, outros especulam sobre almas como seres angelicais ou astrais, e assim por diante. Não podemos, portanto, simplesmente afirmar que os gregos acreditavam na imortalidade e os judeus na ressurreição. As coisas nunca foram tão simples.

A razão pela qual os saduceus se opunham não apenas à ressurreição, mas a qualquer noção de vida após a morte, é muito interessante. Primeiramente, insistiam que as tradições não continham essa doutrina inovadora e que a ressurreição não era ensinada na própria Torá. Mas iam além. A ressurreição era uma doutrina revolucionária, relacionada a crenças fervorosamente arraigadas sobre o clímax vindouro da história de Israel. Era exatamente o tipo de coisa, do ponto de vista saduceu, que aqueles fariseus problemáticos da classe baixa abraçariam para sustentar seus sonhos revolucionários sobre a derrubada da ordem vigente e o estabelecimento do reino de Deus. O principal objetivo das saduceus não era garantir sua própria sobrevivência pessoal em uma vida futura, mas negar uma doutrina que lhes parecia (com razão) representar uma ameaça à sobrevivência de seu poder dentro da ordem presente e diante de quaisquer mudanças futuras.

Já falei antes sobre o estado intermediário entre a morte e a ressurreição. Como acabamos de ver, a Sabedoria de Salomão mencionava as almas dos justos estando nas mãos de Deus, aguardando o dia em que ressuscitariam e governariam nações e reinos. Alternativamente, acreditava-se que os mortos, ou pelo menos os justos mortos, continuavam a viver antes da ressurreição em um estado comparável ao dos anjos ou espíritos. 

Nesse sentido, além dos vários textos judaicos não cristãos, é interessante observar uma passagem em Atos que aponta precisamente nessa direção. Refiro-me àquela cena maravilhosamente cômica em Atos 12, na qual a criada Rode ouve Pedro batendo à porta e falando com ela, e em vez de abrir a porta, corre e conta aos que estavam reunidos. Eles dizem, curiosamente: “Deve ser o anjo dele”. Eles presumem que Pedro foi executado na prisão, que entrou no estado incorpóreo entre a morte e a ressurreição, e que, nessa forma, lhes fez uma espécie de visita póstuma, como várias pessoas em diversas culturas vivenciaram quando alguém próximo havia falecido recentemente. Tal visita é perfeitamente compreensível em termos do “anjo” da pessoa.

Meu ponto aqui é que os judeus desse período tinham ideias razoavelmente bem desenvolvidas sobre um estado intermediário — ou pelo menos um conjunto de conceitos e vocabulário à disposição para se referir a ele. É claro que, se alguém não acreditasse na ressurreição final, mas sim em uma imortalidade contínua desencarnada, o que um fariseu consideraria um estado intermediário poderia ser considerado um estado final. Mas se um judeu do primeiro século dissesse que alguém havia sido "ressuscitado dos mortos", a única coisa que ele não queria dizer era que essa pessoa havia entrado em um estado de êxtase desencarnado, onde repousaria para sempre ou aguardaria o grande dia da reencarnação.

Isso pode ser facilmente testado perguntando se alguém em 150 a.C. que acreditasse fervorosamente que os mártires macabeus eram israelitas verdadeiros e justos, ou alguém em 150 d.C. que acreditasse que Simeão ben-Kosiba era o verdadeiro Messias (se é que tal Messias existiu), teria dito que eles, ou ele, haviam ressuscitado dos mortos, pretendendo com essa declaração simplesmente indicar que sua causa era de fato justa e que eles estavam vivos em um lugar de honra na presença de Deus. 

A resposta é óbvia. Alguém na posição que descrevemos poderia muito bem ter dito que os mártires, ou ben-Kosiba, estavam vivos na forma de um anjo ou espírito, ou que suas almas estavam nas mãos de Deus, mas jamais cogitaria dizer que já haviam ressuscitado dos mortos. Ressurreição significa encarnação; além disso, implicava que uma nova era havia chegado . Ninguém sugeriu que os mártires tivessem sido reencarnados. Ninguém sugeriu que uma nova era tivesse chegado — exceto, é claro, os cristãos, que será o meu ponto daqui a pouco.

Não havia, portanto, uma única esperança judaica do período do Segundo Templo universalmente aceita e comumente articulada para o futuro. Permanece provável, contudo, que a crença farisaica, sua maneira de contar a história, fosse popular entre muitos judeus. Seja como for, por mais amplo que tenha sido o espectro e por mais diferentes posições que os judeus tenham assumido a respeito, "ressurreição" sempre denota uma posição dentro desse espectro. "Ressurreição" não era um termo para "vida após a morte" em geral. Sempre significou reencarnação.

Os Primórdios do Cristianismo

Tendo examinado brevemente um elemento do enigma histórico, o pilar na margem judaica do rio, devemos agora voltar nossa atenção para a outra margem, o pilar cristão primitivo. Então, ao observarmos ambos os pilares em conjunto, poderemos avaliar que tipo de ponte poderia, de fato, ligar duas estruturas tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes.

Esta investigação aborda três aspectos. O cristianismo começou como um movimento do reino de Deus, como um movimento messiânico e como um movimento da ressurreição. Em cada caso, isso representa um enigma considerável para o historiador. Ao considerar cada um desses três aspectos, meu argumento se dividirá em três etapas. Primeiro, examinarei a maneira como o cristianismo começou como um movimento do tipo em questão. Segundo, revisitarei o judaísmo para investigar como esses movimentos se apresentavam e quais eram suas aspirações. Terceiro, demonstrarei que as diferenças marcantes entre os movimentos relevantes no judaísmo e o movimento aparentemente equivalente no cristianismo exigem um tipo específico de explicação.

Um Movimento do Reino de Deus

Os três passos neste caso específico podem ser resumidos da seguinte forma. Primeiro, o cristianismo primitivo surgiu como um movimento do reino de Deus. Segundo, o reino de Deus no judaísmo tinha certos significados particulares. Terceiro, visto que certamente esses significados não se concretizaram, devemos investigar por que os primeiros cristãos afirmavam, mesmo assim, que o reino de Deus havia de fato chegado à Terra.

Primeiramente, o cristianismo primitivo se considerava um movimento do Reino de Deus (Marcos 1:14-15). Já na época de Paulo, a expressão “Reino de Deus” e seus equivalentes haviam se tornado praticamente uma abreviação para o movimento, seu modo de vida e sua razão de ser (Romanos 14:17; 1 Coríntios 4:20, 6:9-10, 15:50; Gálatas 5:21; 1 Tessalonicenses 2:12). Ela já estava intrinsecamente ligada à estrutura do pensamento cristão primitivo. A maneira como Paulo a utiliza demonstra que se tratava de uma expressão comum no cristianismo primitivo e que pertencia ao contexto judaico do qual falei. 

Os primeiros cristãos contavam a história do Reino como sua própria história. Eles reorganizaram suas vidas — no caso dos antigos pagãos, de forma bastante drástica — em torno do novo universo simbólico no qual a esperança judaica de que “não haveria rei senão Deus” se concretizara por meio de Jesus, o Messias. Eles se engajaram em uma práxis que afirmava haver uma maneira diferente de ser humano, uma maneira que correspondia às exigências deste reino. Este é o primeiro passo desta primeira etapa do meu argumento.

O segundo passo, então, é considerar o que “reino de Deus” significava no judaísmo (um tema vasto, é claro, que aqui só podemos resumir brevemente e de forma inadequada). No judaísmo, a vinda do reino de Deus significava o fim do exílio de Israel, a queda de um império pagão e a exaltação de Israel, e o retorno de YHWH a Sião para julgar e salvar. Esses são os temas que emergem da grande profecia do reino, Isaías 40-55, e de numerosos salmos e outras partes das escrituras hebraicas. E, como Josefo deixa claro, nos dias de Jesus, a convicção de que seu “único Governante e Mestre” era Deus era uma marca particular dos revolucionários (Ant. 18:23).

Para um judeu do período do Segundo Templo, portanto, a vinda do reino não se tratava de uma experiência existencialista ou gnóstica privada, mas de eventos públicos. Em sua definição mais restrita, tratava-se da libertação de Israel. Em sua definição mais ampla, tratava-se da vinda da justiça de Deus e da libertação de todo o cosmos. Assim, se você tivesse dito a um judeu do primeiro século: “O reino de Deus está aqui”, e tivesse se explicado falando de uma nova experiência espiritual, um novo senso de perdão ou uma emocionante reorganização de sua interioridade religiosa privada, ele ou ela bem poderia ter dito que estava feliz por você ter tido essa experiência, mas por que você se referia a ela como o reino de Deus? Este, então, é o segundo passo desta primeira etapa do argumento.

O terceiro passo é juntar essas duas perspectivas e observar o contraste. É evidente que, independentemente do que os primeiros cristãos dissessem, o reino de Deus não havia chegado da maneira que os judeus do primeiro século imaginavam. Israel não havia sido libertado, o Templo não havia sido reconstruído e — olhando para o cosmos em uma perspectiva mais ampla — o mal, a injustiça, a dor e a morte ainda assolavam o mundo. A pergunta que se impõe, então, é: por que os primeiros cristãos afirmavam que o reino de Deus havia chegado?

Uma resposta óbvia seria esta: os primeiros cristãos mudaram o significado da expressão de forma tão radical que ela passou a se referir não a um estado de coisas político, mas a um estado interno ou espiritual. Eles haviam tomado o significado apocalíptico vigente em seu mundo e o desmitificaram, desjudaizaram, espiritualizaram ou helenizaram. Mas isso simplesmente não corresponde à realidade do cristianismo primitivo. Os primeiros cristãos agiam como se o reino de Deus, à semelhança do judaísmo, estivesse realmente presente: organizavam suas vidas como se fossem de fato o povo que retornou do exílio, o povo da nova aliança. Quando falavam de uma nova realidade interna ou “espiritual”, usavam a linguagem não do reino de Deus, mas do novo coração, da habitação do Espírito, e assim por diante.

A questão histórica que se coloca, portanto, é: o que, afinal (e digo afinal mesmo ), os teria levado a agir, falar e pensar dessa maneira? Por que, de fato, não deram continuidade ao tipo de revolução do reino que haviam imaginado que Jesus lideraria? Como explicar o fato de o cristianismo primitivo não ter sido um movimento nacionalista judaico nem uma experiência existencial privada? Como explicar o fato de que, dentro da cosmovisão judaica, afirmava-se que o fim dos tempos havia chegado, mesmo que não se parecesse com o que haviam imaginado? A resposta dos primeiros cristãos era, naturalmente, que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Foi por isso que disseram que o reino havia chegado e que a nova era havia amanhecido.

Isso nos leva à segunda etapa do argumento
Um Movimento Messiânico

Já argumentei em outro lugar que o cristianismo foi, desde o princípio, um movimento messiânico. Permitam-me resumir o caso como primeiro passo nesta segunda etapa do meu argumento.

Para começar, as fontes cristãs mais antigas de que possuímos falam de Jesus como Messias. De acordo com Atos, essa afirmação era central para a proclamação inicial de que Deus havia feito Jesus “Senhor e Cristo” (3:36). Quanto a Paulo, argumentei em outro lugar que a messianidade de Jesus permaneceu central e explícita para ele. Mas mesmo que você insista que, na época de Paulo, a palavra Christos havia se tornado simplesmente um nome próprio com algumas vagas lembranças messiânicas associadas a ela, você não pode evitar a conclusão de que, se o ex-fariseu Paulo, trinta anos após a morte de Jesus, se referia a Jesus como Christos — e especialmente se o fazia sem considerar o significado judaico dessa palavra — isso apenas demonstra o quão firmemente a ideia da messianidade de Jesus estava enraizada na tradição mais antiga. Como explicamos tudo isso? Por que eles diziam que Jesus era o Messias?

Diversos estudiosos reconhecem há muito tempo que a ressurreição, por si só, não explica por que os primeiros cristãos consideravam Jesus o Messias. Se alguém que não fosse Jesus tivesse ressuscitado dos mortos, não haveria razão para supor que seus contemporâneos o considerariam o Messias. Devemos, portanto, buscar a razão na execução messiânica de Jesus, crucificado com as palavras “rei dos judeus” acima de sua cabeça. Em Jesus e a Vitória de Deus, argumentei que isso, por sua vez, nos força a olhar mais para trás e a enxergar algumas das principais ações simbólicas de Jesus, notadamente sua ação no Templo, e alguns de seus principais enigmas e parábolas, como implícita e explicitamente messiânicas. 

(Para evitar confusões, gostaria de salientar que, no judaísmo do Segundo Templo, a palavra "messias" não tinha conotações do que hoje chamaríamos de "divindade".) Novamente, mesmo que você discorde e insista que Jesus passou a ser considerado o Messias somente após sua ressurreição, isso, na verdade, reforçaria ainda mais meu argumento.

Meu ponto é — para avançar para o segundo passo desta etapa do meu argumento — um judeu do primeiro século, diante da crucificação de um suposto messias, ou mesmo de um profeta que liderou um número significativo de seguidores, normalmente não concluiria que essa pessoa era o Messias e que o reino havia chegado. Ele ou ela normalmente concluiria que não era e que o reino não havia chegado.

Havia, sem dúvida, diversas variações da crença messiânica judaica nesse período. Nenhuma delas previa um Messias que morreria pelas mãos dos pagãos . Pelo contrário, onde existiam expectativas judaicas em relação a um Messias, elas geralmente possuíam um foco duplo. Em uma linhagem que se estende de Davi a Bar-Coqueba, incluindo os Macabeus e Herodes, encontramos a ideia de que o rei teria que derrotar os pagãos e reconstruir (ou ao menos purificar) o Templo. 

As duas ações, naturalmente, estariam interligadas: enquanto os pagãos permanecessem invictos, Javé não teria retornado a Sião, presumivelmente porque sua casa não estava pronta. Se um messias fosse morto pelos pagãos, especialmente se não tivesse reconstruído o Templo ou libertado Israel, esse era o sinal mais seguro de que ele era mais um na longa linhagem de falsos messias.

Certamente, o que se segue é evidente. Se o messias que você seguia fosse morto pelos pagãos, você se via diante de uma escolha entre dois caminhos. Podia desistir da ideia de revolução e abandonar o sonho de libertação. Alguns seguiram esse caminho, notadamente, é claro, o movimento rabínico como um todo após 135 d.C. Ou podia encontrar um novo messias, se possível da mesma família do falecido e lamentado. Alguns seguiram esse caminho: veja-se o movimento contínuo que se estendeu de Judas, o Galileu, em 6 d.C., a seus filhos ou netos na década de 50; a outro descendente, Menaém, durante a guerra de 66-70; e a outro descendente, Eleazar, que liderou os desventurados sicários em Massada, em 73.

Mais uma vez, sejamos claros. Se, após a morte de Simão bar-Giora no triunfo de Tito em Roma, ou se, após a morte de Simeão ben-Kosiba em 135, você tivesse afirmado que Simão, ou Simeão, era realmente o Messias, você receberia uma resposta bastante áspera do judeu médio do primeiro século. Se, a título de explicação, você dissesse que tinha uma forte sensação de que Simão, ou Simeão, ainda estava com você, ainda o apoiando e guiando, a resposta mais branda que você poderia esperar seria que seu anjo ou espírito ainda se comunicava com você — não que ele tivesse ressuscitado dos mortos.

Até onde sabemos, os seguidores dos movimentos messiânicos ou quase messiânicos do primeiro século eram fanaticamente comprometidos com a causa. Eles, mais do que ninguém, poderiam sofrer de dissonância cognitiva após a morte de seu grande líder. Em nenhum outro caso, porém, ao longo de todo o século anterior a Jesus e do século posterior a ele, ouvimos falar de qualquer grupo judaico dizendo que seu líder executado havia ressuscitado dos mortos.

Então — e aqui está o terceiro passo na segunda etapa do meu argumento — admitindo que Jesus de Nazaré certamente foi crucificado como um rei rebelde, é extremamente estranho que os primeiros cristãos não apenas insistissem que ele era de fato o Messias, mas também reorganizassem sua visão de mundo, sua prática, suas histórias, símbolos e teologia em torno dessa crença.

Afinal, eles tinham duas opções normais à sua disposição. Podiam simplesmente ter voltado à pesca, felizes por terem escapado de Jerusalém com vida. Podiam ter mudado de rumo, abandonado o messianismo (como fizeram os rabinos depois de 135 d.C.) e optado por alguma forma de religião privada, seja através de uma observância mais rigorosa da Torá, de um estudo espiritual privado ou algo mais. Claramente, não fizeram isso. Seria difícil imaginar algo menos parecido com uma religião privada do que percorrer o mundo pagão dizendo que Jesus era o Messias de Israel.

Igualmente, e talvez ainda mais interessante, eles poderiam ter encontrado um novo messias entre os parentes de sangue de Jesus. Isso, creio eu, normalmente não é considerado. Merece ser. Sabemos por diversas fontes que os parentes de Jesus eram importantes e bem conhecidos na igreja primitiva. Um dos mais próximos, seu irmão Tiago, embora não fizesse parte do movimento durante a vida de Jesus, parece ter se tornado o pilar em Jerusalém enquanto Pedro e Paulo percorriam o mundo (Atos 12:17; 15:13, 21:18; Gálatas 1:19, 2:9). 

Tiago era amplamente considerado na igreja primitiva como a pessoa central, geográfica e teologicamente. Contudo — e esta é a pista crucial, como o cão de Sherlock Holmes que não latiu à noite — ninguém no cristianismo primitivo jamais cogitou dizer que Tiago era o Messias. Nada teria sido mais natural, especialmente por analogia com a família de Judas, o Galileu. No entanto, Tiago era simplesmente conhecido como “irmão do Senhor” (Gálatas 1:19; cf. Marcos 6:3).

Devemos, então, perguntar mais uma vez: por que o cristianismo sequer começou, e muito menos continuou, como um movimento messiânico, quando seu Messias tão obviamente não apenas não fez o que um Messias deveria fazer, mas sofreu um destino que deveria ter demonstrado conclusivamente que ele não poderia ser o ungido de Israel? Por que esse grupo de judeus do primeiro século, que acalentava esperanças messiânicas e as concentrava em Jesus de Nazaré, não apenas continuou a acreditar que ele era o Messias apesar de sua execução, mas o anunciou ativamente como tal tanto no mundo pagão quanto no judaico, redesenhando alegremente a imagem do messianismo em torno dele, mas recusando-se a abandoná-la? Sua resposta, consistente em todas as evidências que possuímos, foi que Jesus, após sua execução sob a acusação de ser um suposto Messias, havia ressuscitado dos mortos.

Antes de podermos examinar o que eles queriam dizer com isso, devemos analisar a terceira, e claramente a mais importante, das três etapas deste argumento.

Um Movimento de Ressurreição

O cristianismo começou como um movimento de ressurreição. Como já mencionei, não há evidências de uma forma de cristianismo primitivo em que a ressurreição não fosse uma crença central, por assim dizer, acrescentada ao cristianismo posteriormente. Era a principal força motriz, que norteava todo o movimento. Em particular, podemos ver, intrínseca à teologia cristã mais antiga que possuímos — a de Paulo, é claro —, a crença de que a ressurreição, em princípio, havia ocorrido e que os seguidores de Jesus precisavam reorganizar suas vidas, suas narrativas, seus símbolos e sua prática de acordo com isso (veja, classicamente, Romanos 6:3-11).

Gostaria de destacar aqui um fenômeno particularmente interessante. Essa reflexão sobre a ressurreição possui uma precisão e consistência notáveis. Ao contrário das crenças judaicas que mencionamos anteriormente, desde o princípio, a reutilização da linguagem da ressurreição pelo cristianismo se mostra surpreendentemente livre de especulações vagas e generalizadas. É concisa e clara: ressurreição significa atravessar a morte e emergir para um novo modo de existência. Toda essa posição só é compreensível dentro do universo intelectual do judaísmo, mas é muito mais precisa do que qualquer coisa que o judaísmo não cristão tivesse produzido até então.

O cristianismo, portanto, começou como um movimento de ressurreição. Esse é o primeiro passo desta terceira etapa do meu argumento.

O segundo passo se baseia no que eu disse na primeira parte desta palestra sobre as expectativas judaicas da ressurreição. Como vimos, a “ressurreição” no judaísmo do Segundo Templo funcionava dentro de uma narrativa controladora sobre o exílio e a restauração, e sobre o sofrimento e a vindicação dos mártires. Permitam-me relembrar: começou como uma metáfora para o retorno do exílio, a renovação da aliança e a purificação de Israel de seus pecados. A “ressurreição” era referida de várias maneiras e ocupava seu lugar em uma ampla gama de especulações sobre o futuro da humanidade em geral e de Israel em particular, após a morte física. 

A ressurreição dos mortos era, portanto, tanto um símbolo da vinda das novas eras quanto, em si mesma, em sentido literal, um elemento central do conjunto: quando YHWH restaurasse a sorte de seu povo, então, certamente, Abraão, Isaque e Jacó, juntamente com todo o povo de Deus, incluindo os mártires que morreram pela causa, seriam reencarnados, ressuscitados para uma nova vida no novo mundo de Deus. Para os judeus do período do Segundo Templo, a crença na ressurreição dizia respeito, por um lado, à reencarnação de seres humanos anteriormente mortos e, por outro, à inauguração da nova era, da nova aliança, na qual todos os justos mortos ressuscitariam simultaneamente. Ressurreição significava tanto que os mortos voltariam à vida com corpos novos ou renovados quanto que a Era Vindoura havia sido, pelo menos, inaugurada.

Portanto, se em algum momento desse período você tivesse dito a um judeu: “A ressurreição aconteceu!”, teria recebido a resposta perplexa (ou irritada) de que obviamente não havia acontecido, visto que os patriarcas, profetas e mártires não estavam mais vivos, e a restauração mencionada em Ezequiel 37 claramente também não havia ocorrido — sem mencionar as grandes profecias de Isaías e outros livros. 

E se, a título de explicação, você tivesse dito que não queria dizer tudo isso, que o que queria dizer era que tivera uma nova e maravilhosa sensação de cura e perdão divinos, ou que acreditava que o antigo líder do seu movimento estava vivo na presença de Deus após sua vergonhosa tortura e morte, seu interlocutor poderia tê-lo parabenizado por ter tido tal experiência e discutido essa crença com você, mas ainda assim ficaria perplexo com o fato de você falar da “ressurreição dos mortos” ao se referir a qualquer uma dessas coisas. Essas coisas não eram o que a “ressurreição dos mortos” implicava.

Contudo — e este é o terceiro passo desta terceira etapa do argumento — embora, como já enfatizamos, a nova era não tivesse surgido da maneira como os judeus do primeiro século a imaginavam, e a ressurreição de todo o antigo povo de Deus não tivesse ocorrido, a igreja primitiva persistiu em declarar enfaticamente não apenas que Jesus havia ressuscitado dos mortos, mas também que “a ressurreição dos mortos” já havia acontecido. Além disso, como observamos, os membros da igreja se empenharam em reformular sua visão de mundo — sua práxis característica, suas narrativas principais, seu universo simbólico e sua teologia fundamental — em torno desse novo ponto fixo. Em outras palavras, eles se comportavam como se a nova era já tivesse chegado. 

Essa era a lógica interna da missão aos gentios: visto que Deus já havia feito por Israel o que faria por Israel, os gentios ao menos compartilhariam da bênção (Isaías 66:18-23; Zacarias 14:16). Eles não se comportaram como se tivessem tido uma nova experiência religiosa ou como se seu antigo líder estivesse vivo e bem na presença de Deus, seja como um anjo, um espírito ou qualquer outra entidade. A única explicação para seu comportamento, suas histórias, seus símbolos e sua teologia é que eles realmente acreditavam que Jesus havia ressuscitado corporalmente dos mortos. Essa conclusão é tão bem fundamentada que, hoje, mesmo aqueles que insistem que o corpo de Jesus, na verdade, permaneceu em decomposição no túmulo concordam que os primeiros cristãos acreditavam que ele havia ressuscitado corporalmente, deixando um túmulo vazio para trás.

Conclusão: As perguntas e as opções

Argumentei que o cristianismo começou como um movimento judaico reconhecidamente do primeiro século: era um movimento do reino de Deus, um movimento messiânico e um movimento da ressurreição. O contexto judaico de todos esses movimentos indicava certas expectativas que decididamente não foram cumpridas. De fato, a crucificação de Jesus foi o símbolo não apenas da esperança adiada, mas da esperança esmagada e pisoteada. O historiador, portanto, é obrigado a buscar uma explicação não apenas sobre por que o cristianismo primitivo começou, mas também sobre por que assumiu a forma que assumiu. Na parte final desta palestra, permitam-me revisar rapidamente algumas das opções que foram debatidas nesse contexto.

Para começar, existem algumas pistas falsas bastante conhecidas. Alguns, por exemplo, sugeriram que Jesus não morreu de fato na cruz. Contra todos os defensores dessa chamada teoria do "desmaio", como muitas vezes é chamada, devemos ressaltar que os romanos sabiam como matar pessoas. O reaparecimento de um Jesus ferido e exausto dificilmente sugeriria que ele havia passado pela morte e retornado ao outro lado, que o reino de Deus de fato havia chegado, que a "ressurreição" havia ocorrido e que ele era de fato o Messias que derrotou os inimigos de Deus e reconstruiria o Templo.

Da mesma forma, há muitas pessoas que criam teorias mirabolantes e fantasiosas para explicar que Jesus não ressuscitou dos mortos ou deixou um túmulo vazio. Lembro-me de um livro chamado " O Túmulo de Deus", publicado há dois anos, que termina dizendo que os ossos de Jesus agora repousam em um túmulo lacrado no sudoeste da França.

Entre as objeções mais sérias à ressurreição de Jesus — e talvez a mais famosa deste século — está a de Rudolf Bultmann. Em uma passagem muito discutida, Bultmann afirma que a linguagem da ressurreição da igreja primitiva era usada para denotar não um evento separado da crucificação, mas a fé dos primeiros discípulos de que a crucificação não foi uma derrota trágica, mas o ato divino de salvação. A Páscoa, portanto, trata do surgimento, não de Jesus, mas da fé da igreja primitiva.

Meu argumento até agora se opõe fortemente a isso. Se pensarmos em termos judaicos do primeiro século, é impossível conceber que tipo de experiência religiosa ou espiritual alguém poderia ter que o levasse a dizer que o reino de Deus havia chegado quando claramente não havia, que um líder crucificado era o Messias quando obviamente não era, ou que a ressurreição ocorreu no mês passado quando obviamente não ocorreu. Por mais forte que fosse a sensação dos discípulos de que Jesus havia sido vindicado, de que eles haviam sido perdoados, ou o que fosse, eles ainda assim não teriam dito que ele havia ressuscitado dos mortos. Eles poderiam, talvez, ter escrito uma nova versão de 2 Macabeus 7. Poderiam ter sugerido que Jesus havia previsto sua própria ressurreição. Mas não teriam dito que ela já havia acontecido.

Essa incapacidade de pensar em termos do primeiro século também invalida aqueles que ofereceram variações do esquema de Bultmann. Edward Schillebeeckx, por exemplo, declara que, quando os discípulos foram ao túmulo, suas mentes estavam tão cheias de luz que não importava se havia um corpo lá ou não. O que aconteceu nas aparições da Páscoa foi uma conversão a Jesus como o Cristo, que agora vinha a eles como a luz do mundo, e essa foi a “iluminação” pela qual os discípulos foram “justificados”. Schillebeeckx complementa a sugestão de Bultmann com uma mais precisa: que os discípulos, dominados por profundos sentimentos de culpa por terem fugido e decepcionado Jesus, experimentaram na manhã de Páscoa uma maravilhosa sensação do perdão de Deus e da presença contínua de Jesus. Isso se tornou , então, o início da experiência tipicamente cristã de conhecer o perdão de Deus e/ou conhecer a presença de Jesus.

O problema é que, se você dissesse a um judeu do primeiro século que teve uma experiência maravilhosa do perdão (ou do amor e da graça) de Deus, ele ficaria encantado por você. Mas se você continuasse dizendo que o reino havia chegado, que um líder crucificado era o Messias ou que a ressurreição havia ocorrido, eles ficariam profundamente perplexos, senão francamente ofendidos. Essa linguagem simplesmente não se refere a experiências privadas, nem mesmo experiências privadas comunicáveis, de perdão. Trata-se de escatologia, de algo que aconteceu na história e resultou em um mundo que hoje é um lugar muito diferente. Nem Bultmann nem Schillebeeckx conseguem explicar, a partir dos textos, o surgimento do cristianismo como o conhecemos.

Gerd Lüdemann deu uma nova interpretação à hipótese de Bultmann. Ele sugere que Pedro ficou tão profundamente triste com a morte de Jesus que experimentou o que, como observamos anteriormente, pessoas nesse estado costumam relatar: uma sensação da presença amorosa da pessoa recém-falecida, talvez até mesmo a sensação de ouvi-la falar e confortá-lo. Pedro então, como Lüdemann nos pede para crer, comunicou essa experiência aos outros, que espontaneamente se encheram de alegria ao pensar que Jesus ainda estava vivo. Enquanto isso, Paulo passou pelo tipo oposto de alucinação: tendo se oposto veementemente ao novo movimento, foi tomado pela culpa e experimentou uma fantasia induzida pela culpa, que ele também foi capaz de compartilhar com outros com efeitos notavelmente poderosos.<

Minha resposta a essa proposta é (a) que é preciso muita credulidade para supor que, mesmo admitindo que Pedro e Paulo tivessem tido tais fantasias ou alucinações, elas teriam gerado mais do que um comentário passageiro de simpatia entre seus colegas ou contemporâneos; (b) que teorias psicológicas desse tipo — sobre pessoas de dois mil anos atrás em uma cultura diferente — são, na melhor das hipóteses, impossíveis de provar e, na pior, completamente fantasiosas. Mas, e o mais importante, (c) a proposta simplesmente não faz sentido dentro do contexto do mundo ou do judaísmo do primeiro século.

Como vemos na história de Rode em Atos 12, os judeus do primeiro século conheciam as visitas póstumas de amigos recentemente falecidos e já possuíam sistemas linguísticos para descrever tais fenômenos. "Deve ser o anjo dele", diziam eles, quando pensavam estar recebendo uma visita desse tipo de Pedro. Eles não diziam que Pedro havia ressuscitado dos mortos. Em outras palavras, se fôssemos membros daquele grupo em Atos 12 e tivéssemos tido conhecimento da presença fantasmagórica ou espiritual de Pedro, recentemente executado, certamente teríamos concluído que Pedro estava vivo com Deus. Mas ainda assim teríamos pensado que precisaríamos reclamar seu corpo para o sepultamento no dia seguinte e ainda acreditaríamos que ele só ressuscitaria, juntamente com o restante do povo de Deus, no último dia.

Veja bem, seria muito natural para os judeus do primeiro século, especialmente se já pertencessem a um movimento do reino de Deus, dizer de um líder que havia pago a pena máxima nas mãos das autoridades, que sua alma estava no domínio de Deus, que ele estava vivo para Deus, que havia sido exaltado ao paraíso e que, portanto, estava entre os justos que foram injustamente mortos, mas que ressuscitariam para governar o mundo no tempo certo de Deus. (Isso é, aliás, exatamente o que Sabedoria 3:1-9 diz ?) 

E se os seguidores de Jesus de fato tivessem a sensação de que ele estava vivo de uma forma não física, e até mesmo que ainda estava presente com eles de alguma forma, era assim que eles teriam expressado isso. Mas, ao fazerem isso, não estariam afirmando (para enfatizar o ponto novamente) que a escatologia, o tão desejado reino de Deus, havia finalmente chegado; não estariam dizendo que seu líder crucificado era o Messias; E, acima de tudo, eles não teriam dito que ele havia ressuscitado dos mortos ou que "a ressurreição dos mortos" havia ocorrido.

Em particular, não temos motivos para supor que, após a crucificação de um potencial messias, alguém cogitaria que ele havia sido exaltado a uma posição de domínio mundial ou senhorio divino. Ninguém, até onde sabemos, jamais sugeriu que esse fosse o caso após as mortes de Judas, o Galileu, Simão bar-Giora ou Simeão ben-Kosiba. Na verdade, tal sugestão provavelmente teria sido considerada, na melhor das hipóteses, ridícula e, na pior, escandalosa. O fracasso desses homens em liderar um movimento messiânico bem-sucedido os desqualificou como candidatos a tal posição. Mesmo que alguém tivesse feito tal sugestão, porém, não teria afirmado que essa pessoa havia "ressuscitado dos mortos". 

A crença na exaltação por si só não levaria, no mundo do judaísmo do primeiro século, à crença na ressurreição. Se, por outro lado, supusermos que os seguidores de um suposto messias crucificado primeiro passaram a acreditar que ele havia ressuscitado corporalmente dos mortos, então podemos traçar uma linha clara pela qual eles posteriormente teriam chegado a acreditar que ele devia ser o Messias. E se ele era o Messias, então ele também era o governante mundial prometido no Salmo 89 e em Daniel 7, e assim ele foi exaltado sobre o mundo, e assim por diante. Todos os nossos textos sugerem que essa era de fato a linha de pensamento seguida pelos primeiros cristãos.

É evidente que abordei apenas uma pequena fração das teorias apresentadas sobre o que aconteceu em Easier, mas espero ter dito o suficiente para demonstrar que os defensores de qualquer teoria que afirme que o corpo de Jesus permaneceu no túmulo enquanto os primeiros cristãos diziam que a ressurreição já havia ocorrido enfrentam uma tarefa formidável, considerando apenas o contexto histórico do primeiro século. O que encontramos, na verdade, é a afirmação universal dos primeiros cristãos de que Jesus havia, por assim dizer, passado pela morte e retornado ao outro lado, que ele não estava apenas em um estado intermediário ou em uma existência desencarnada, mas que seu corpo havia sido transformado de uma maneira para a qual seus seguidores não estavam preparados, mas com a qual tiveram que se conformar. 

E eles apresentaram essa como a razão pela qual acreditavam que o anúncio de seu reino havia, de fato, atingido seu ápice, seu cumprimento, em sua morte e ressurreição. Apresentaram essa como a razão pela qual continuaram a considerá-lo o Messias, apesar de sua morte vergonhosa. Apresentaram essa como a razão para afirmar que "a ressurreição" já havia ocorrido, em princípio. Além disso, eles incorporaram essa crença de forma tão sólida em sua teologia, sua prática, suas histórias e seus símbolos que (a menos que estejamos dispostos a parar de escrever história e começar a escrever fantasia) não conseguimos imaginar sua vida comunitária sem ela.

Proponho, portanto, como resultado desta análise abrangente do judaísmo do Segundo Templo e do cristianismo primitivo, que não há, de fato, outra solução para o problema histórico senão concluir que algo extraordinário aconteceu ao corpo de Jesus. Nenhuma outra ponte levará o historiador de um pilar ao outro, atravessando o rio.

Mas o que de fato aconteceu, e como os primeiros cristãos descreveram isso? Essa é a questão que nos ocupará na segunda aula, à medida que analisarmos com mais detalhes o surgimento do cristianismo à luz dos textos-chave de Paulo e dos evangelhos.

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