sábado, 1 de agosto de 2026

Pôncio Pilatos: Contexto Histórico

 


Entre os personagens ligados às origens do Cristianismo, poucos possuem uma documentação histórica tão ampla quanto Pôncio Pilatos. Embora tenha sido apenas um prefeito provincial do Império Romano, seu nome atravessou os séculos por ter presidido o julgamento de Jesus de Nazaré e autorizado sua execução por crucificação. Sua relevância, entretanto, não decorre apenas dos relatos do Novo Testamento. Pilatos encontra-se documentado em fontes judaicas, romanas, cristãs e arqueológicas, constituindo um dos personagens mais bem atestados da Palestina do século I. 

A importância historiográfica de Pilatos reside justamente na convergência dessas fontes independentes. Seu nome aparece nas obras de Fílon de Alexandria, Flávio Josefo e Cornélio Tácito, além dos quatro Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, da Primeira Carta a Timóteo e de uma inscrição arqueológica contemporânea conhecida como Pedra de Pilatos. Essa convergência torna possível reconstruir com elevado grau de segurança sua atuação administrativa, o contexto político da Judeia e o cenário em que ocorreu a morte de Jesus. Mais do que um personagem da narrativa cristã, Pilatos representa um elo entre a história política do Império Romano, a história do judaísmo do Segundo Templo e o surgimento do cristianismo. Seu governo situa-se em um período de profundas tensões religiosas, sociais e políticas que marcaram decisivamente a Palestina do século I.


A formação da província romana da Judeia


A presença romana na Palestina consolidou-se em 63 a.C., quando o general romano Pompeu conquistou Jerusalém e incorporou o reino hasmoneu à esfera de influência de Roma. Apesar da conquista, a Judeia não foi imediatamente transformada em província romana. Durante aproximadamente seis décadas permaneceu como um reino cliente administrado por governantes locais sob supervisão romana. O mais importante desses reis foi Herodes, o Grande, que governou entre 37 e 4 a.C. Nomeado pelo Senado Romano com apoio de Marco Antônio e posteriormente confirmado por Augusto, Herodes realizou grandes obras públicas, ampliou o Segundo Templo e promoveu intensa urbanização. Seu governo, entretanto, caracterizou-se por forte centralização política e pela dependência do poder romano.

Após sua morte, seu reino foi dividido entre seus filhos. Arquelau recebeu a Judeia, Samaria e Idumeia com o título de etnarca. Seu governo revelou-se instável e impopular, levando delegações judaicas a solicitar sua remoção ao imperador Augusto. Em resposta, Augusto depôs Arquelau em 6 d.C., transformando seus territórios na província romana da Judeia, administrada diretamente por prefeitos pertencentes à ordem equestre. A partir desse momento, o governador romano passou a exercer autoridade militar, administrativa e judicial sobre a região, mantendo residência oficial em Cesareia Marítima e deslocando-se para Jerusalém durante as grandes festas religiosas.

Os prefeitos da Judéia antes de Pilatos

Antes da chegada de Pôncio Pilatos, quatro prefeitos governaram a província. O primeiro foi Copônio (6–9 d.C.), responsável pela implantação da administração romana direta. Seu governo coincidiu com o famoso recenseamento conduzido por Públio Sulpício Quirino, episódio que provocou a revolta liderada por Judas, o Galileu, frequentemente considerada o marco inicial do movimento zelota. Seguiu-se Marco Ambíbulo (9–12 d.C.), sobre cujo governo as fontes preservam poucas informações. Depois governou Ânio Rufo (12–15 d.C.), igualmente pouco mencionado pelos historiadores antigos. O último antes de Pilatos foi Valério Grato (15–26 d.C.). Josefo relata que Grato interveio repetidamente na nomeação dos sumos sacerdotes, evidenciando o controle romano sobre a principal instituição religiosa judaica². Foi durante sua administração que José Caifás assumiu o sumo sacerdócio, cargo que continuaria exercendo durante o governo de Pilatos.

A nomeação de Pôncio Pilatos

Por volta de 26 d.C., durante o principado do imperador Tibério, Pôncio Pilatos foi nomeado prefeito da Judeia. A maioria dos historiadores considera provável que sua indicação tenha ocorrido durante o período de influência política de Lúcio Élio Sejano, poderoso prefeito da Guarda Pretoriana, embora não exista documento que confirme diretamente essa participação. Como prefeito, Pilatos comandava tropas auxiliares, administrava a justiça, arrecadava impostos e representava a autoridade imperial na província. Sua sede administrativa localizava-se em Cesareia Marítima, cidade construída por Herodes, dotada de porto, palácio governamental e instalações militares. 

Contudo, durante a Páscoa e outras grandes peregrinações religiosas, Pilatos deslocava-se para Jerusalém, onde permanecia para prevenir possíveis revoltas. A Palestina do século I constituía uma das regiões mais delicadas do Império Romano. Conviviam ali diferentes correntes religiosas, grupos sacerdotais, fariseus, saduceus, essênios, movimentos nacionalistas e uma população profundamente marcada pela expectativa de libertação política e religiosa. Nesse contexto, qualquer líder popular poderia ser interpretado como ameaça à estabilidade imperial.

Pilatos segundo Fílon de Alexandria

A primeira descrição detalhada de Pilatos encontra-se na obra Embaixada a Gaio, de Fílon de Alexandria. Escrevendo poucas décadas após os acontecimentos, Fílon apresenta um retrato extremamente negativo do governador, descrevendo-o como um homem caracterizado por corrupção, violência, subornos, roubos, insultos, execuções sem julgamento e crueldade constante. O principal episódio narrado por Fílon refere-se à instalação de escudos dourados dedicados ao imperador Tibério no antigo palácio de Herodes, em Jerusalém. Embora esses escudos não contivessem imagens, possuíam inscrições consideradas ofensivas pela aristocracia judaica. 

Após Pilatos recusar-se a removê-los, os líderes judeus apelaram diretamente ao imperador Tibério. Segundo Fílon, o próprio imperador repreendeu Pilatos e ordenou que os escudos fossem transferidos para Cesareia Marítima. Esse episódio revela dois aspectos importantes. O primeiro é a frequente tensão entre Pilatos e a população judaica. O segundo demonstra que o prefeito, embora representante de Roma, permanecia subordinado à autoridade imperial.

Pilatos segundo Flávio Josefo

A fonte histórica mais extensa sobre Pilatos é Flávio Josefo². Em suas obras A Guerra dos Judeus e Antiguidades Judaicas, Josefo registra diversos episódios ocorridos durante seu governo. Logo no início de sua administração, Pilatos introduziu em Jerusalém estandartes militares contendo a imagem do imperador. Muitos judeus interpretaram esse ato como afronta às prescrições religiosas contra imagens. Josefo relata que uma multidão deslocou-se até Cesareia para protestar. Após vários dias de manifestações, Pilatos ameaçou executar os manifestantes, mas estes preferiram oferecer a própria vida a aceitar a permanência dos estandartes. Impressionado com sua determinação, o governador ordenou sua retirada.

Outro episódio significativo refere-se à construção de um aqueduto destinado ao abastecimento de Jerusalém. Para financiar a obra, Pilatos utilizou recursos provenientes do Tesouro do Templo. A decisão provocou intensa revolta popular. Josefo afirma que soldados disfarçados de civis infiltraram-se entre os manifestantes e, mediante sinal previamente combinado, atacaram a multidão com bastões, causando mortos e feridos. Josefo também menciona Jesus de Nazaré no conhecido Testimonium Flavianum. Embora exista amplo consenso de que a passagem sofreu interpolações cristãs durante sua transmissão manuscrita, a maioria dos especialistas considera autêntico seu núcleo histórico, especialmente a informação de que Jesus foi condenado à crucificação por ordem de Pilatos. 

Essa conclusão é reforçada por outra passagem das Antiguidades Judaicas, universalmente aceita como autêntica, na qual Josefo menciona "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo". O último episódio envolvendo Pilatos registrado por Josefo ocorreu por volta de 36 d.C. Um líder samaritano prometera revelar objetos sagrados ocultos no Monte Gerizim. Interpretando a reunião como possível rebelião, Pilatos enviou tropas que dispersaram violentamente os participantes. A repressão gerou reclamações ao governador da Síria, Lúcio Vitélio, que ordenou o comparecimento de Pilatos a Roma para prestar esclarecimentos ao imperador Tibério. Antes de sua chegada, porém, Tibério faleceu em 37 d.C., e as fontes deixam de registrar seu destino.

Pilatos segundo Cornélio Tácito

Entre os historiadores romanos, Cornélio Tácito fornece o testemunho mais importante sobre Pilatos. Em seus Anais (15.44), ao narrar a perseguição promovida por Nero contra os cristãos após o incêndio de Roma, afirma que Cristo sofreu a pena máxima durante o reinado de Tibério por sentença de Pôncio Pilatos. Embora Tácito utilize o título de "procurador", a descoberta da Pedra de Pilatos demonstrou que o cargo oficial era "prefeito". Os historiadores entendem que Tácito empregou a terminologia corrente no início do século II, quando o termo "procurador" tornara-se mais comum para designar governadores de pequenas províncias. A autenticidade da passagem é praticamente unânime entre os estudiosos. Ao contrário do Testimonium Flavianum, não existem indícios de interpolação cristã. Pelo contrário, Tácito refere-se ao cristianismo como uma "superstição perniciosa", linguagem incompatível com qualquer tentativa de exaltação cristã.

Pilatos no Novo Testamento

O Novo Testamento apresenta Pilatos como a autoridade romana responsável pelo julgamento de Jesus. Os quatro Evangelhos concordam quanto aos elementos fundamentais da narrativa: Jesus foi levado perante Pilatos, interrogado sob a acusação de reivindicar o título de "Rei dos Judeus", condenado à crucificação e executado por ordem da autoridade romana. Cada Evangelho, entretanto, enfatiza aspectos distintos. Mateus acrescenta o episódio simbólico em que Pilatos lava as mãos diante da multidão. Lucas destaca repetidamente que Pilatos não encontrou culpa suficiente para justificar a pena capital. João preserva um extenso diálogo entre Jesus e Pilatos, culminando na célebre pergunta: "O que é a verdade?". Marcos, por sua vez, apresenta a narrativa mais concisa e provavelmente mais antiga. Além dos Evangelhos, Pilatos aparece nos discursos registrados em Atos dos Apóstolos e é mencionado em 1 Timóteo 6.13 como a autoridade diante da qual Cristo deu "o bom testemunho". Seu nome foi posteriormente incorporado aos antigos credos cristãos, situando a morte de Jesus em um contexto histórico concreto.

A Pedra de Pilatos

A principal confirmação arqueológica da existência de Pilatos surgiu em 1961 durante escavações conduzidas por Antonio Frova no teatro romano de Cesareia Marítima⁶. Uma pedra reutilizada em reformas posteriores preservava parte de uma inscrição latina contendo o nome de Pôncio Pilatos e seu título oficial de Praefectus Iudaeae. Os especialistas datam a inscrição entre 26 e 36 d.C. mediante análise epigráfica, paleográfica e arqueológica. O formato das letras, o estilo da inscrição, a dedicatória relacionada ao imperador Tibério e o contexto estratigráfico convergem para situar sua produção exatamente durante o mandato de Pilatos. A Pedra de Pilatos constitui uma das evidências arqueológicas mais importantes relacionadas ao Novo Testamento. Sua autenticidade é amplamente aceita na comunidade acadêmica, inexistindo controvérsia significativa acerca de sua origem ou cronologia.

A convergência das evidências históricas

Poucos personagens da administração provincial romana possuem documentação comparável à de Pôncio Pilatos. Sua existência é confirmada simultaneamente por autores judeus, romanos, cristãos e por evidência arqueológica contemporânea. Embora cada fonte possua objetivos literários distintos, todas convergem em aspectos fundamentais: Pilatos governou a Judeia durante o reinado de Tibério; exerceu autoridade judicial; enfrentou frequentes conflitos com a população local; e autorizou a execução de Jesus. Essa convergência independente fortalece significativamente a confiabilidade histórica da reconstrução de seu governo e reduz a possibilidade de que Pilatos seja uma figura lendária ou literária.

Pilatos e a historicidade de Jesus


A importância historiográfica de Pilatos transcende sua própria biografia. Sua figura constitui um dos principais pontos de ancoragem cronológica para a pesquisa sobre o Jesus histórico. A quase totalidade dos especialistas em história do cristianismo primitivo concorda que Jesus de Nazaré existiu, exerceu atividade pública na Galileia e na Judeia e foi executado por crucificação durante o governo de Pôncio Pilatos. A convergência entre Josefo, Tácito, os Evangelhos e a Pedra de Pilatos fornece um dos conjuntos documentais mais sólidos da Antiguidade para a reconstrução desse episódio. Assim, Pilatos representa muito mais do que um simples governador romano. Sua administração situa historicamente os acontecimentos centrais das origens do cristianismo dentro do quadro político da Palestina do século I, permitindo relacionar os relatos do Novo Testamento com o contexto administrativo do Império Romano. 

Portanto Pôncio Pilatos ocupa posição singular na historiografia antiga. Como prefeito da Judeia entre 26 e 36 d.C., governou uma província marcada por intensas tensões religiosas, sociais e políticas, desempenhando papel decisivo na manutenção da autoridade imperial em uma das regiões mais sensíveis do Oriente Romano. A convergência entre Fílon de Alexandria, Flávio Josefo, Cornélio Tácito, o Novo Testamento e a Pedra de Pilatos fornece uma base documental excepcionalmente robusta para reconstruir sua atuação. Ainda que essas fontes reflitam perspectivas distintas, todas confirmam sua existência, seu cargo, seu período de governo e sua participação na condenação de Jesus. 

Por essa razão, Pôncio Pilatos constitui uma figura-chave não apenas para o estudo da administração romana da Palestina, mas também para a investigação da historicidade de Jesus e do contexto em que surgiu o cristianismo. Seu nome representa um dos mais importantes pontos de convergência entre arqueologia, historiografia clássica e tradição cristã, tornando-se indispensável para qualquer análise histórica rigorosa da Palestina do século I.

As primeiras igrejas domésticas cristãs

 

Relevo representando cavalo e cavaleiro em 
um nicho de santuário doméstico em Éfeso

É sabido que as primeiras comunidades cristãs se reuniam em casas particulares. Edifícios dedicados a igrejas só surgiram muito mais tarde, com igrejas domésticas adaptadas, como Dura-Europos (c. 240 d.C.), emergindo no século III e basílicas construídas especificamente para esse fim tornando-se comuns apenas no século IV. C.M. Thomas inicia sua coluna, “Interesses de Nicho: Santuários Domésticos em Éfeso”, com uma observação que, em retrospectiva, parece óbvia: as casas onde Paulo e outros cristãos primitivos cultuavam já haviam sido moldadas por gerações de prática religiosa. As primeiras igrejas domésticas cristãs não eram, como ela coloca, “telas em branco”.

Thomas fundamenta seu argumento nas Casas Terraço de Éfeso, um complexo de luxuosas residências romanas de vários andares construídas na encosta da cidade. Seu notável estado de conservação — incluindo paredes que se mantêm de pé até a altura do primeiro e, às vezes, do segundo andar — oferece um dos registros arqueológicos mais claros da vida doméstica cotidiana nos primeiros séculos da era cristã.

Escavações revelaram nichos nas paredes que funcionavam como santuários domésticos permanentes, frequentemente contendo estatuetas, relevos, queimadores de incenso, lâmpadas e pequenos altares. Ao examinar diversos apartamentos, Thomas observa que os nichos apareciam em aproximadamente 35 a 50% dos cômodos térreos preservados. Eles se agrupavam em espaços associados a movimento ou vulnerabilidade — portas, escadas, cozinhas, quartos, poços e pátios — revelando que o ritual estava entrelaçado na vida cotidiana, em vez de se restringir a um único cômodo sagrado.

As evidências são particularmente convincentes porque muitos objetos foram encontrados no local nas Casas Terraço. Um relevo de um herói a cavalo (veja a imagem acima) permaneceu no mesmo nicho por impressionantes 250 anos, até que a casa foi destruída por um terremoto. Relevos helenísticos de banquetes, que já tinham mais de um século quando os apartamentos foram construídos, continuaram a ocupar altares domésticos por mais quatro séculos. Em outra unidade, bustos do imperador Tibério e de sua mãe, Lívia, ficavam acima de um altar e uma mesa de oferendas, demonstrando que o culto imperial também fazia parte da vida religiosa doméstica.

As evidências arqueológicas também complicam qualquer instinto de descrever essas casas como “pagãs”. Dentro de uma única residência, os arqueólogos encontraram representações de heróis, governantes, serpentes e ancestrais, bem como imagens de cultos locais e instalações rituais que carregavam histórias distintas. Esses objetos não pertenciam necessariamente a uma religião unificada, tal como seus habitantes a entendiam. Em vez disso, refletiam um acúmulo de tradições familiares, obrigações cívicas, relíquias de família, rituais de proteção e práticas locais inseridas na vida doméstica. A distinção entre espaço “religioso” e “comum” era, portanto, muito menos pronunciada do que as suposições modernas podem sugerir.

O motim em Éfeso (Atos 19:12-41) e a exortação de Paulo para que os crentes se afastassem “das estátuas e se voltassem para o Deus vivo” (1 Tessalonicenses 1:9) tornam-se mais concretos à luz das descobertas arqueológicas de Éfeso. Da perspectiva de Paulo, as diversas imagens encontradas nas casas poderiam ser classificadas como “estátuas” ou “ídolos” dos quais os crentes deveriam se afastar. Para as famílias que habitavam esses cômodos, no entanto, esses mesmos objetos provavelmente carregavam múltiplos significados. Um relevo secular podia servir como foco de devoção religiosa, mas também podia ser uma herança de família, uma homenagem a um ancestral, um símbolo de identidade cultural ou simplesmente parte do que fazia aquela casa parecer um lar. A conversão, portanto, envolvia mais do que adotar novas crenças; exigia renegociar os objetos dentro da casa. Remover uma imagem significava mais do que rejeitar uma divindade externa; podia também significar romper com gerações de memória familiar e práticas domésticas.

Ao recuperar o contexto doméstico cotidiano em que os primeiros cristãos podem ter vivido, a arqueologia de Éfeso revela a conversão não como uma transição de uma religião bem definida para outra, mas como uma complexa renegociação dos objetos, espaços e práticas que moldavam a vida diária. O artigo de Thomas, em última análise, nos lembra que as categorias que usamos — cristão versus pagão, sagrado versus comum — podem obscurecer as realidades da religião vivida. Os lares dos convertidos de Paulo não eram palcos vazios que o cristianismo preenchia; eram lugares já repletos de tradição. A religião estava intrinsecamente ligada a atos da vida cotidiana — tão comuns quanto atravessar a porta de casa.

Visão geral das casas em terraço em Éfeso

Os descendentes de cananeus

 


Após examinarem o DNA de 93 corpos recuperados de sítios arqueológicos no sul do Levante, a terra de Canaã na Bíblia, pesquisadores concluíram que as populações modernas da região são descendentes dos antigos cananeus. A maioria dos grupos judaicos modernos e os grupos de língua árabe da região apresentam pelo menos metade de sua ancestralidade cananeia.

No estudo, publicado na revista Cell em maio de 2020, os pesquisadores explicam que utilizaram análises de DNA já existentes de 20 indivíduos, provenientes de sítios arqueológicos em Israel e no Líbano, e adicionaram outras 73 amostras, extraídas de ossos de indivíduos encontrados em Tel Megido, Tel Abel Beth Maaca e Tel Hazor (norte de Israel), Yehud (centro de Israel) e Baq'ah (centro da Jordânia). Ao eliminar inicialmente os indivíduos intimamente relacionados entre si na amostra e, em seguida, comparar as 62 amostras de DNA restantes com um conjunto de dados de 1.663 indivíduos modernos, eles conseguiram estabelecer a ligação genética com as populações atuais. Os grupos étnicos que ainda vivem em áreas outrora dominadas por Canaã, ou que eram originários dessas regiões antes de migrarem para outros locais, descendem em grande parte dos cananeus.

A cultura cananeia foi dominante no Levante Meridional durante a Idade do Bronze (3500-1200 a.C.). Com o início da Idade do Ferro I, as cidades-estado cananeias entraram em declínio. Os israelitas se identificaram como um grupo distinto. Como especula Volkmar Fritz em "Israelitas e Cananeus", os israelitas podem ter formado estruturas de vida próprias, estabelecendo pequenas aldeias em terras periféricas não habitadas anteriormente e vivendo principalmente em casas de quatro cômodos. Por fim, os israelitas formaram os estados de Israel e Judá, enquanto outros estados bíblicos, como Amon, Moabe, Aram-Damasco e as cidades-estado fenícias, emergiram. Hoje, a região é composta por Israel, Líbano, Jordânia, Autoridade Palestina e o sudoeste da Síria.

O estudo publicado na revista Cell não só estabelece que os antigos israelitas descendiam dos cananeus, como também demonstra que o povo cananeu, distribuído pelas diferentes cidades-estados do sul do Levante e ao longo de um período de 1.500 anos, constituía um povo geneticamente coeso.


Relevo cananeu em basalto 
representando um leão e uma leoa
 brincando, século XIV a.C.

Tácito cita Jesus (chamado de "Cristo") em sua obra final, os Anais (Livro 15, capítulo 44)

 


Tais eram, de fato, as precauções da sabedoria humana. O passo seguinte foi buscar meios de apaziguar os deuses, e recorreu-se aos livros sibilinos, por meio dos quais foram oferecidas orações a Vulcano, Ceres e Proserpina. Juno também foi invocada pelas matronas, primeiro no Capitólio, depois na parte mais próxima da costa, de onde se obtinha água para aspergir o templo e a imagem da deusa. E houve banquetes sagrados e vigílias noturnas celebradas por mulheres casadas. Mas todos os esforços humanos, todos os presentes suntuosos do imperador e as propiciações aos deuses não dissiparam a sinistra crença de que o incêndio fora resultado de uma ordem. Consequentemente, para se livrar do boato, Nero atribuiu a culpa e infligiu as mais requintadas torturas a uma classe odiada por suas abominações, chamada de cristãos pelo povo. Cristo, de quem o nome se originou, sofreu a pena capital durante o reinado de Tibério, pelas mãos de um de nossos procuradores, Pôncio Pilatos, e uma superstição perniciosa, assim contida por ora, irrompeu novamente não só na Judeia, a fonte primária do mal, mas também em Roma, onde todas as coisas hediondas e vergonhosas de todas as partes do mundo encontram seu centro e se popularizam. Consequentemente, foram presos todos os que se declararam culpados; depois, com base em suas informações, uma imensa multidão foi condenada, não tanto pelo crime de incendiar a cidade, mas sim por ódio contra a humanidade. Zombaria de todos os tipos foi acrescentada às suas mortes. Cobertos com peles de animais, foram dilacerados por cães e pereceram, ou pregados em cruzes, ou condenados às chamas e queimados, para servirem de iluminação noturna, após o pôr do sol. Nero ofereceu seus jardins para o espetáculo e apresentava um show no circo, enquanto se misturava ao povo vestido de cocheiro ou em cima de uma carruagem. Assim, mesmo por criminosos que mereciam punição extrema e exemplar, surgia um sentimento de compaixão; pois não era, como parecia, para o bem público, mas para saciar a crueldade de um só homem, que eles estavam sendo destruídos.

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Entretanto, a Itália estava completamente exaurida pelas contribuições monetárias, as províncias arruinadas, assim como as nações aliadas e os estados livres, como eram chamados. Até os deuses foram vítimas da pilhagem; pois os templos de Roma foram saqueados e o ouro levado, ouro esse que, em todas as épocas, o povo romano havia consagrado em sua prosperidade ou em seu desespero, seja por triunfo ou por juramento. Por toda a Ásia e Acaia, não apenas oferendas votivas, mas também imagens de divindades foram confiscadas, tendo Acratus e Secundus Carinas sido enviados a essas províncias. O primeiro era um liberto pronto para qualquer maldade; o segundo, no que dizia respeito à fala, era profundamente versado no conhecimento grego, mas não havia imbuído seu coração de princípios sólidos. Dizia-se que Sêneca, para evitar a infâmia da sacrilégio, implorou pelo isolamento de um retiro rural remoto e, quando lhe foi negado, fingindo-se doente, como se tivesse um problema nervoso, recusou-se a sair de seus aposentos. Segundo alguns autores, Sêneca teria recebido veneno a mando de Nero, preparado por um liberto chamado Cleônico. Ele teria escapado dessa armadilha graças à confissão do liberto ou por sua própria apreensão, sobrevivendo com uma dieta simples de frutos silvestres e bebendo água de um riacho quando sentia sede.

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Durante esse mesmo período, alguns gladiadores na cidade de Preneste, que tentaram se libertar, foram contidos por uma guarda militar posicionada no local para vigiá-los, e o povo, sempre desejoso e ao mesmo tempo receoso de mudanças, começou imediatamente a falar de Espártaco e de calamidades passadas. Logo depois, chegaram notícias de um desastre naval, mas não de guerra, pois nunca houve uma paz tão profunda. Nero, porém, havia ordenado que a frota retornasse à Campânia em um dia determinado, sem levar em conta os perigos do mar. Consequentemente, os pilotos, apesar da fúria das ondas, partiram de Formias e, enquanto lutavam para contornar o promontório de Miseno, foram atingidos por um violento vento sudoeste nas costas de Cumas, perdendo, em todas as direções, várias de suas trirremes e algumas embarcações menores.

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No final do ano, muito se falava de prodígios, presságios de males iminentes. Nunca se viram relâmpagos tão frequentes, e até apareceu um cometa, pelo qual Nero sempre fazia apaziguamento com sangue nobre. Nascimentos de humanos e outros animais com duas cabeças eram expostos ao público, ou descobertos em sacrifícios nos quais era comum imolar vítimas grávidas. E no distrito de Placência, perto da estrada, nasceu um bezerro com a cabeça presa à perna. Seguiu-se então a explicação dos adivinhos, de que outra cabeça estava se preparando para o mundo, a qual, porém, não seria nem poderosa nem oculta, pois seu crescimento fora interrompido no útero e nascera à beira da estrada.

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Silius Nerva e Atticus Vestinus assumiram então o consulado, e uma conspiração foi planejada, tornando-se imediatamente formidável. Senadores, cavaleiros, soldados e até mulheres se ofereceram para apoiá-la com grande entusiasmo, tanto pelo ódio a Nero quanto pela admiração por Caio Pisão. Descendente da casa de Calpúrnia e com laços, por meio da nobreza de seu pai, com muitas famílias ilustres, Pisão gozava de excelente reputação entre o povo por sua virtude, ou aparência de virtude. Usava sua eloquência na defesa de seus concidadãos, era generoso com os amigos e demonstrava cortesia até mesmo para estranhos. Possuía também a vantagem fortuita de ser alto e bonito. Mas a solidez de caráter e a moderação nos prazeres lhe eram totalmente estranhas. Entregava-se à lassidão, à ostentação e, ocasionalmente, aos excessos. Isso agradava àquela numerosa classe que, quando as atrações do vício são tão poderosas, não desejava rigor ou severidade especial no trono.

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A origem da conspiração não residia na ambição pessoal de Pisão. Mas não seria fácil narrar quem a planejou primeiro, ou cuja instigação inspirou um esquema no qual tantos se envolveram. Que os principais idealizadores eram Subrius Flavus, tribuno de uma coorte pretoriana, e Sulpicius Asper, um centurião, foi comprovado pela audácia com que morreram. Lucanus Annaeus e Plautius Lateranus também contribuíram com um ressentimento profundamente acirrado. Lucanus tinha o estímulo de motivos pessoais, pois Nero tentara denegrir a fama de seus poemas e, com a vaidade tola de um rival, proibira-o de publicá-los. Quanto a Lateranus, um cônsul eleito, não foi por maldade, mas sim pelo amor ao Estado que se uniu aos demais. Flavius ​​Scaevinus e Afranius Quintianus, por outro lado, ambos de posição senatorial, contrariamente ao que se esperava deles, empreenderam o início desse crime audacioso. Scaevinus, de fato, havia enfraquecido sua mente com excessos, e sua vida, consequentemente, era de languidez sonolenta. Quintianus, infame por seu vício efeminado, fora satirizado por Nero em uma sátira e estava determinado a vingar-se da afronta.

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Assim, enquanto trocavam indícios entre si ou entre seus amigos sobre os crimes do imperador, o iminente fim do império e a importância de escolher alguém para resgatar o Estado em sua aflição, associaram-se a eles Túlio Sêncio, Cervário Próculo, Vulcácio Arárico, Júlio Augurino, Munácio Grato, Antônio Natalis e Márcio Festo, todos cavaleiros romanos. Destes, Sêncio, um dos que tinha especial intimidade com Nero, ainda mantinha uma aparência de amizade e, consequentemente, tinha que lidar com perigos ainda maiores. Natalis compartilhava com Pisão todos os seus planos secretos. Os demais depositavam suas esperanças na revolução. Além de Subrius e Sulpício, que já mencionei, eles solicitaram o auxílio da força militar de Gávio Silvano e Estácio Próximo, tribunos das coortes pretorianas, e de dois centuriões, Máximo Escauro e Vêneto Paulo. Mas o seu principal alicerce, acreditava-se, era Fênio Rufo, o comandante da guarda, um homem de vida e caráter estimados, a quem Tigelino, com sua brutalidade e descaramento, era superior aos olhos do imperador. Ele o importunava com calúnias e frequentemente o aterrorizava insinuando que fora amante de Agripina e que, movido pela dor de sua perda, buscava vingança. Assim, quando os conspiradores se convenceram, por meio de suas próprias palavras, de que o comandante da guarda pretoriana havia se juntado a eles, discutiram novamente com avidez o momento e o local do ato fatal. Dizia-se que Subrius Flavus havia tomado a súbita decisão de atacar Nero enquanto este cantava no palco, ou quando sua casa estava em chamas e ele corria de um lado para o outro, sozinho, na escuridão. No primeiro caso, havia a oportunidade de estar sozinho; no segundo, a própria multidão que testemunharia um feito tão glorioso despertara uma alma singularmente nobre. Foi apenas o desejo de escapar, esse inimigo de todas as grandes empreitadas, que o deteve.




Escritores bíblicos: excelente escrita, verbos expressivos, descrições concisas

 

Encontrado entre os Manuscritos do Mar Morto,
 o Grande Rolo de Isaías é a cópia completa mais antiga
 do Livro de Isaías da Bíblia Hebraica

Os escritores bíblicos de ambos os testamentos são conhecidos por sua excelente escrita, verbos expressivos, descrições concisas e — acima de tudo! — brevidade. Em vez de longas explicações, eles controlam a narrativa parecendo ponderar cada palavra: ela contribui para o tema do capítulo e do livro?

Como estudioso da Bíblia, lidando diariamente com a concisão do texto bíblico, às vezes me pergunto, com um toque de ironia, se os autores não se preocupavam com o preço do papiro e do pergaminho! Contudo, quanto mais estudo, mais admiro os autores pela criatividade e concisão com que conquistam nossos corações e estimulam nossa imaginação.

Em particular, como discuto aqui, eles utilizam com maestria uma variedade de recursos literários — incluindo símiles (introduzidos por “como” e “igual a”), metáforas e o pronome “quem” — para adicionar cor, personalidade e significado à narrativa bíblica. Aqui estão alguns exemplos: Comparação: Assim como o vento norte traz chuva , a língua astuta traz olhares de ira (Provérbios 25:23).
Comparação: Os céus se desgastarão como uma roupa (Salmo 102:26).
Metáfora: Tu, Senhor, és o meu escudo (Salmo 3:3).
Quem: Ó tu que ouves a oração (Salmo 65:2).

Essas e outras ferramentas desempenham um papel importante tanto na narrativa bíblica quanto na poesia. Elas guiam a interpretação e revelam nuances. Maravilho-me com a paleta de possibilidades que oferecem.

Metáforas para o Senhor

Davi, um personagem singularmente talentoso, era cantor, matador de gigantes, líder de homens e conquistador de mulheres. Como herói militar, Davi reconheceu a presença do Senhor durante múltiplas batalhas de vida ou morte contra os filisteus e as forças de Saul.

No Salmo 18, Davi louva o Senhor renomeando-o. Observe a repetição de “rocha” e “escudo”. Davi parece escrever sobre uma batalha específica na qual as rochas ofereceram proteção; em seu cântico, ouve-se facilmente o choque dos escudos e sente-se o cheiro do suor dos combatentes. Embora suas metáforas sejam altamente pessoais — minha fortaleza e meu refúgio —, o versículo 30 amplia o salmo para incluir todos os leitores e ouvintes. Verso 1: Eu te amo, ó Senhor, minha força.
Versículo 2: O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador. O meu Deus é a minha rocha em quem me refugio . Ele é o meu escudo , a força da minha salvação e o meu alto refúgio.
Versículo 30: Ele é um escudo para todos os que nele se refugiam.

Não é de surpreender que a Bíblia não conceda tal louvor a outros deuses! Por exemplo, o autor de 2 Reis 23:13 expressa sucintamente desprezo pelos respectivos deuses dos amonitas (Milcom), moabitas (Quemos) e sidônios (Astarte). Duas palavras, shiqquwts e towebah, rapidamente descartam os três como “abominações”, algo impuro e detestável. Nesse caso, uma metáfora serve como um apelido e revela algo do caráter da divindade.

Astarote: A abominação (shiqquwts) dos sidônios. Quemos: A abominação (shiqquwts) dos moabitas.

Milcom: A abominação ( towebah ) do povo de Amon

Dando nome à Cidade Santa

Por vezes, o texto bíblico parece incentivar um jogo de adivinhação através da escolha de palavras. Deuteronômio 12 fala sobre “o lugar que o Senhor teu Deus escolher para pôr o seu nome”. Essa é uma definição longa, contudo o capítulo a menciona seis vezes — sim, seis! — (vv. 5, 11, 14, 18, 21, 26).

Neste caso, o jogo de adivinhação também envolveu uma longa espera. O suspense aumentou até séculos depois, quando o local foi revelado como Jerusalém. Na verdade, a precursora de Jerusalém, Jebus, já existia. Davi a conquistou e a tornou sua capital; ela ficou conhecida como “a cidade de Davi” (2 Samuel 5:7); de forma semelhante, no Novo Testamento, Belém ficou conhecida como “a cidade de Davi” (Lucas 2:11).

Muitos adjetivos poéticos carinhosos caracterizam Jerusalém. Metáforas de amor, honra e localização no Salmo 48, por exemplo, transmitem a singularidade da cidade:

Versículo 1: A cidade do nosso Deus, o monte da sua santidade. 
Versículo 2: A alegria de toda a terra.

Profetas Poéticos

Metáforas, apelidos e renomeações adornam Isaías 62:2-4; sua magnífica poesia destaca mudanças e fala da glória vindoura. A profecia a Sião reflete amplamente uma nação, cidade, povo e/ou pessoa. Metáforas brilhantes fazem a ponte entre a situação atual e a glória vindoura. Mas primeiro vem um novo nome.

As nações verão a tua justiça, e todos os reis a tua glória; chamar-te-ão por um novo nome , que a boca do Senhor te dará; serás uma coroa de esplendor na mão do Senhor, um diadema real na mão do teu Deus.

Não te chamarão mais de Abandonada , nem darão à tua terra o nome de Desolada . Mas chamar-te-ão Hefzibá, e à tua terra Beulá; porque o Senhor se agradará de ti , e a tua terra será desposada.

Este texto revela algo a observar em ambos os testamentos: um novo nome indica uma nova era, uma nova missão e o fim de uma estação.

Nomes carregados

Eu ri repetidamente ao perceber a importância dos nomes como ferramentas literárias. Uma delas foi aprender que o nome de uma família, bene parosh , significa literalmente “filhos da pulga” (Esdras 2:3). Embora isso possa soar estranho aos ouvidos modernos, os israelitas frequentemente recebiam nomes de insetos e animais. Afinal, as pessoas são “ovelhas” e uma congregação é um “rebanho” (Salmos 100:3; 74:1). O nome da grande juíza Débora significa “abelha”, e o da profetisa Hulda significa “doninha”. Alguns estudiosos veem uma conexão entre bene parosh e Calebe, o nome do espião fiel, que significa “cão”; ambos os nomes denotam combatentes fiéis.

Um novo nome pode servir como um aviso prévio. Pode expor comportamentos destrutivos que podem prejudicar outros. Veja, por exemplo, Cusã-Risataim (Juízes 3:8), o nome de um senhor feudal que já estava na terra quando os israelitas chegaram. A segunda parte de seu nome, Risataim, provavelmente significa “duplamente perverso”.

Como se pode razoavelmente presumir que nenhuma mãe chamaria seu filho recém-nascido de "duplamente perverso", ele deve ter merecido! Pode-se argumentar que isso indica que suas ações e palavras o tornaram essencialmente maligno. Seu nome nos leva a imaginar o horror que ele causou aos seus súditos e a gratidão que os israelitas sentiram com sua morte. Juízes 3:10 dá o contexto: "O Senhor entregou Cusã-Risataim, rei da Síria, nas mãos de Otniel, que o derrotou."

Autodescrição

O Senhor estabeleceu o tom para a autor revelação ao descrever-se a Moisés como “compassivo” e “gracioso” (Êxodo 34:6), dois adjetivos que se prestam amplamente a alcunhas.

Davi, evidentemente escrevendo em um momento de profunda humilhação, descreveu a si mesmo assim: "Mas eu sou um verme e não um homem, desprezado pelos homens e rejeitado pelos povos" (Salmo 22:6).

No entanto, o Senhor, por meio do profeta Isaías, usa a mesma descrição, mas de uma forma cheia de esperança, e então se define ainda mais: “Não tenha medo, verme , Jacó, pequeno Israel, não tema, pois eu mesmo o ajudarei, diz o Senhor, o seu Redentor, o Santo de Israel ” (Isaías 41:14).

Apelidos, um recurso literário comum, porém pouco reconhecido, demonstram familiaridade em um relacionamento. Jó chamou o Senhor de "Vigilante dos Homens" (Jó 7:20). O Senhor, posteriormente, respondeu chamando Jó de "crítico" e perguntando se ele ousaria "disputar com o Todo-Poderoso" (Jó 40:2).

Amor no Cântico dos Cânticos

A linguagem do amor envolve criatividade constante. O Cântico dos Cânticos, talvez a história de amor mais conhecida da Bíblia, se destaca nos elogios e descrições verbais; expressa a intensidade da paixão. O jovem e a jovem, os principais narradores do livro, descrevem as fases eróticas, emocionais, divertidas, exploratórias, apreciativas (e muitas outras!) do amor. Os dois parecem competir para ver quem usa mais superlativos. Eles sabem que estão jogando um jogo que ambos apreciam e no qual ambos saem ganhando.

Concorde com a cabeça e sorria ao ver esses exemplos. O Amante é o jovem, e a Amada é a jovem.

Meu amado: Como uma macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os jovens (Cântico dos Cânticos 2:3)

*Amante: Como és bela, minha querida! Oh, como és bela! Teus olhos são como pombas (Cântico dos Cânticos 1:15)

*Amado: Meu amado é radiante e rubro, destaca-se entre dez mil (Cântico dos Cânticos 5:10)

Os “Melhores” Nomes

A língua inglesa possui ferramentas para formar superlativos; existem três formas: bom, melhor e o melhor.

Em hebraico, uma forma de expressar o superlativo é simplesmente usar palavras ou frases que transmitam, por definição, algo do mais alto padrão ou qualidade. Metáforas frequentemente seguem essa forma. Alguns exemplos são "tesouro especial", "menina dos seus olhos" e "rola".

*Pois o Senhor escolheu Jacó para si, Israel para seu tesouro especial (Salmo 135:4). Ele o encontrou em uma terra deserta e o guardou como a menina dos seus olhos (Deuteronômio 32:10).

*Oh, não entregue a vida da sua rola às feras! (Salmo 74:19)

Os dois primeiros indicam expressões de carinho para com Israel. O terceiro dá ao salmista a oportunidade de se identificar pessoalmente como o amado do Senhor.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O colapso da Idade do Bronze e o mundo antes de Israel

 

Busto de Odisseu em Stavros, Ítaca (Grécia)

Para muitos, a Odisseia de Homero é uma história sobre a jornada de volta para casa. Os ciclopes, as sereias e os monstros marinhos que prolongam a viagem de Odisseu fizeram dela uma das epopeias mais duradouras da literatura mundial. Eberhard Zangger, cofundador e presidente da Fundação para Estudos Luvitas, tem uma perspectiva diferente. Em um artigo, ele sugere que o poema preserva memórias do colapso da Idade do Bronze Final e de tudo o que foi perdido.


O fim da Idade do Bronze Final, por volta de 1200 a.C., remodelou todo o Mediterrâneo oriental. Grandes reinos desapareceram à medida que palácios foram abandonados ou destruídos. As redes de comércio internacional entraram em colapso. Desse turbilhão surgiu a Idade do Ferro, povoada por povos e reinos familiares aos leitores da Bíblia — incluindo o antigo Israel, os fenícios, os arameus e os filisteus.

O argumento de Zangger centra-se numa parte frequentemente negligenciada da epopeia: a estadia de Odisseu em Esqueria. Odisseu relata aventuras fantásticas enquanto esteve em Esqueria, mas Zangger observa que esses episódios famosos são, na verdade, flashbacks. Estruturalmente, a parte da Odisseia que se passa em Esqueria oferece histórias dentro da história. Zangger convida-nos a resistir ao seu encanto e a concentrarmo-nos no presente.

Diferentemente de todas as outras paradas na jornada de Odisseu, narradas em forma de memória, Zeus decreta que, em tempo real, Odisseu deve ir a Esqueria. Poseidon, apesar de odiar Odisseu, o leva até lá e, na lógica expressa da epopeia, Odisseu não pode voltar para casa sem passar por lá.

Em contraste com as terras de monstros e feiticeiras, Scheria é retratada como uma sociedade notavelmente próspera e organizada. Possui navegação avançada, agricultura florescente, arquitetura impressionante, governo estável e hospitalidade generosa. Contudo, sob sua prosperidade reside uma inegável sensação de desgraça iminente. Homero sugere repetidamente que essa civilização está destinada a desaparecer, como se estivesse escrevendo em uma época em que muitas civilizações avançadas já haviam desaparecido.

Zangger sugere que Scheria representa uma memória idealizada da civilização da Idade do Bronze que existiu antes da destruição generalizada associada à Guerra de Troia e ao colapso mais amplo do mundo mediterrâneo oriental. Em vez de servir como mais uma parada na jornada de Odisseu, Scheria é uma janela literária para uma era melhor.

Zangger sugere que Scheria também se torna o cenário para o acerto de contas moral de Odisseu. Ele argumenta que o célebre estratagema do herói — o Cavalo de Troia — fez mais do que pôr fim à guerra; ajudou a destruir o mundo da Idade do Bronze. Isso confere um novo significado a uma das cenas mais comoventes da Odisseia , quando Odisseu pede a Demódoco que cante sobre a queda de Troia e então é tomado pelas lágrimas. Em vez de expressar uma simples nostalgia por camaradas perdidos ou vitórias, Zangger sugere que Odisseu está lamentando a civilização cuja destruição ele ajudou a provocar.

Vista sob essa perspectiva, a Odisseia de Homero oferece uma memória cultural de como era viver após o colapso da Idade do Bronze, relembrando tempos passados ​​e reconstruindo-os com um sentimento de perda. A melancolia, de fato, permeia a epopeia. Embora Odisseu finalmente retorne para casa e restaure a ordem em Ítaca, a autoridade entrou em colapso, famílias poderosas competem pelo controle e a violência é comum. A antiga ordem morreu e o mundo simplesmente não é mais o mesmo.

É nesse novo mundo da Idade do Ferro que a história bíblica começa a se desenrolar. O surgimento de Israel ocorreu somente após o auge dos grandes impérios da Idade do Bronze. As cidades-estado fenícias expandiram sua influência marítima durante esse período, e os filisteus se estabeleceram ao longo da costa sul de Canaã. O mapa político que conhecemos dos livros de Juízes, Samuel e Reis foi, em muitos aspectos, produto dessa transformação anterior.

Se Zangger estiver certo, Homero e a Bíblia Hebraica se encontram em lados opostos da mesma divisão histórica: um olhando com saudade para uma civilização perdida da Idade do Bronze, o outro apresentando os novos povos e reinos que emergiram, esperançosos, de suas ruínas.







Fragmento da Odisseia de Homero

 

Descoberta em Olímpia, na Grécia, esta tabuleta do século III d.C., 
com trechos da Odisseia de Homero, 
levanta muitas questões interessantes sobre seu contexto

Arqueólogos que trabalham no sítio arqueológico grego de Olímpia, berço dos antigos Jogos Olímpicos , descobriram perto do santuário de Zeus uma tabuleta de argila da época romana contendo 13 versos do poema épico de Homero, A Odisseia. A descoberta foi feita pelo projeto arqueológico "Sítio Multidimensional de Olímpia", liderado pela Dra. Erofili-Iris Kollia, diretora da Eforia de Antiguidades de Ília, e anunciada inicialmente pelo Ministério da Cultura e Esportes da Grécia.

Preliminarmente datada do século III d.C., a tabuleta contém a parte da Odisseia em que o astuto guerreiro grego Odisseu, após passar 10 anos viajando de volta para Ítaca depois da Guerra de Troia (com vários obstáculos e desvios ao longo do caminho), chega à cabana de seu escravo Eumeu, um pastor de porcos.

Esta passagem, do Livro 14, é “um relato de como Eumeu, cuja função era cuidar dos porcos, construiu seu próprio quintal e um conjunto organizado de pocilgas durante os 20 anos em que Odisseu esteve longe de casa, sem nenhuma ajuda de seus donos”, explica Emily Wilson, professora de Estudos Clássicos da Universidade da Pensilvânia, em um artigo da London Review of Books sobre a descoberta em Olímpia. Wilson publicou recentemente uma tradução da Odisseia (Norton, 2017) — a primeira mulher a fazê-lo em inglês.

A Odisseia, com seus 12.000 versos, e a Ilíada, que a precede e narra o último ano da guerra de dez anos entre gregos e troianos, são consideradas as obras mais antigas e importantes da literatura grega que sobreviveram até os nossos dias. Esses poemas épicos são atribuídos a um bardo chamado Homero, que pode ter vivido no século VIII a.C., embora alguns estudiosos questionem se Homero era uma única pessoa ou um nome atribuído a uma coleção de poemas orais.

Embora relatos da mídia tenham descrito erroneamente a descoberta em Olímpia como a mais antiga comprovação da Odisseia, diversas descobertas arqueológicas são anteriores a esta tabuleta do século III d.C., incluindo o exemplo mais antigo conhecido: um fragmento de cerâmica (óstraco) datado do século V a.C. da antiga cidade grega de Olbia, na Ucrânia, contendo o verso 9.39 da Odisseia .

Na London Review of Books, Wilson alerta os leitores para que analisem as notícias com um olhar crítico:

“O lado positivo dessa história relatada de forma imprecisa é que ela revela uma sede do público em geral por notícias sobre o mundo antigo. [...] Talvez essa notícia falsa inspire mais pessoas a investigar o mundo antigo por conta própria e também a perceber que as histórias contadas sobre a Odisseia — assim como o próprio protagonista astuto, ardiloso e enganador do poema — nem sempre devem ser aceitas ao pé da letra.”

Apesar da propaganda enganosa, o tablete de Olympia é interessante por si só.

“Esta descoberta extraordinária e singular levanta muitas questões novas”, disse Diane H. Cline, professora associada do departamento de história da Universidade George Washington, em um e-mail para o Bible History Daily . “Será este um presente para os deuses? E, se for, quem escolheria dedicar uma placa com 13 versos da Odisseia a Zeus? Por que alguém inscreveria esses versos em particular, que não são exatamente concisos ou significativos? Uma grande área do sítio arqueológico de Olímpia era utilizada por atletas, o ginásio e a palestra. Ali, eles se exercitavam, mas também tinham aulas, e este texto pode estar relacionado a isso. Seria parte de um conjunto de tabuletas usadas para estudo e ensino?”

Em seu blog, o classicista Peter Gainsford, da Universidade Victoria de Wellington, que fez um exame preliminar da inscrição com base em imagens fornecidas pelo Ministério da Cultura Grega, descreveu o suporte incomum em que a inscrição foi escrita: “Não está escrita em papiro, como a maioria dos textos literários. Não é uma inscrição em versos em pedra, das quais temos muitas. É uma tabuleta de argila. Este nunca foi um meio de escrita comum no mundo greco-romano. Seu uso para esta tabuleta e para este texto é algo bastante singular.”

“Embora o artefato seja extraordinário, é importante lembrar que o texto é pelo menos mil anos posterior à data de composição de Homero”, explicou Cline. “O que esses versos de Homero significavam para as pessoas que viviam na época do Império Romano tardio? O significado desse artefato em seus contextos físico e temporal será debatido nos próximos anos. Acadêmicos como eu estão ansiosos para aprender mais sobre o local onde foi encontrado e como o texto se compara a outras versões da Odisseia .”

Os reinos de Saul, Davi e Salomão realmente existiram?

 

A estrutura de pedra em degraus

Amihai Mazar (mais conhecido como Ami) é um dos arqueólogos mais renomados de Israel. Ele se aposentou recentemente da Universidade Hebraica de Jerusalém. Lembro-me de quando o coloquei na capa da BAR junto com seu famoso tio, Benjamin Mazar, ex-presidente da Universidade Hebraica e também um renomado arqueólogo; Ami ficou irritado. Ele não queria ser fotografado com o tio. Ami queria trilhar seu próprio caminho, não por causa de sua relação com o ilustre tio. Bem, Ami certamente conquistou seu espaço agora.

Isto serve de introdução a um artigo fundamental que ele publicou recentemente, o qual inclui uma avaliação crítica da historicidade da Monarquia Unida de Israel. Trata-se de uma análise completamente equilibrada do assunto, considerando tanto o texto bíblico quanto as evidências arqueológicas. É demasiado detalhado para ser aqui reproduzido em pormenor — e, como ele próprio afirma, é “altamente especializado e complexo” —, mas vale a pena apenas expor as questões e as conclusões de Ami.

As narrativas bíblicas, diz ele, embora escritas centenas de anos após os reinados de Saul, Davi e Salomão, “contêm memórias da realidade”. São essas “memórias culturais… incorporadas nas narrativas bíblicas” que às vezes são capturadas com a ajuda da arqueologia. E a “contribuição da arqueologia para o estudo do passado só aumenta”.

Sua conclusão é bastante matizada: “Adereço às visões moderadas que, apesar das consideráveis ​​variações e graus de certeza, concordam que os autores [bíblicos] trabalharam com fontes antigas, incluindo narrativas orais e escritas, poesia transmitida, documentos de arquivo, inscrições públicas, etc.” Embora não tenham sido escritas no século X a.C. (a época da Monarquia Unida), as narrativas bíblicas “contêm memórias de realidades enraizadas naquele século”.

Comecemos por considerar a famosa passagem de 1 Reis 9:15-19, que nos diz que o Rei Salomão fortificou Hazor, Megido e Gezer. O grande arqueólogo israelense Yigal Yadin atribuiu, há muito tempo, os três impressionantes portões de seis câmaras nesses três importantes sítios arqueológicos à época de Salomão . Por muito tempo, essa datação foi considerada segura. Então, Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, apresentou sua "Cronologia Baixa", segundo a qual ele estende o período arqueológico relevante — Ferro IIA — em cerca de 80 a 100 anos, muito depois da época do Rei Salomão. Assim, ele data esses portões para um período posterior do Ferro IIA, inicialmente cerca de cem anos depois, provavelmente na época do Rei Acabe. Ami Mazar discorda de Finkelstein e argumenta de forma convincente que, embora seja necessário fazer algum ajuste temporal na duração do período arqueológico envolvido, esses portões monumentais “não podem ser datados de depois do século X [a.C.]”, a época do Rei Salomão.

Se a Idade do Ferro IIA se estendeu até o século IX a.C., Finkelstein poderia estar certo ao afirmar que os portões são posteriores à época de Salomão. Mas não há dúvida de que ela começou no século X a.C. Portanto, os portões também podem ser do século X a.C. “A questão da datação das estruturas monumentais em Megido, Hazor e Gezer”, escreve Ami Mazar, “permanece, em minha opinião, sem solução. As evidências são ambivalentes, e uma data do século X para essa arquitetura continua plausível. Assim, 1 Reis 9:15-19 ainda pode ser considerado uma fonte relacionada à realidade do século X a.C.” Talvez tenha havido duas fases na Idade do Ferro IIA, uma inicial e outra tardia, mas “a data da transição entre essas duas subfases não é totalmente clara”. (Isso explica por que a datação de fragmentos de cerâmica é tão importante na arqueologia; mudanças sutis na cerâmica podem nos ajudar a distinguir o início do fim do mesmo período.)

Em seguida, vamos para Jerusalém. Certamente era uma cidade pequena na época do Rei Davi, talvez um pouco mais de 4 hectares com cerca de mil habitantes. A anexação do Monte do Templo por Salomão mais que dobrou o tamanho da cidade, com uma população de cerca de 2.500 pessoas. Embora pequena, era forte e não devia ser subestimada. A enorme Estrutura de Pedra Escalonada (SSE), com a altura de um prédio de nove andares, já existia no século X a.C., senão antes. O mesmo acontecia com a Grande Estrutura de Pedra (GEP) no topo. Ami Mazar concorda com os seguintes arqueólogos renomados que datam esse complexo do século X a.C. ou um pouco antes: Kathleen Kenyon (que foi a primeira a encontrar as paredes da GEP), Yigal Shiloh, Eilat Mazar (que escavou a GEP), Jane Cahill, Margreet Steiner e Avraham Faust.

“Este imenso complexo [era] uma das maiores estruturas do antigo Israel”, e as enormes fortificações da Idade do Bronze Final que protegiam a Fonte de Gihon e foram escavadas por Ronny Reich e Eli Shukron, continuaram em uso durante o reinado do Rei Davi e do Rei Salomão.

Eilat Mazar também tem escavado estruturas ao sul do Monte do Templo que “devem ter feito parte do complexo administrativo real de Jerusalém” na época da Monarquia Unida. A grande quantidade de cerâmica da Idade do Ferro IIA permitiu que ela datasse esse complexo. Com sua cautela habitual, Ami Mazar conclui: “Embora a datação específica dessas estruturas pela arqueóloga, referente à época de Salomão, possa ser considerada conjectural, a data não pode estar muito longe da realidade, visto que a cerâmica encontrada nos aterros é claramente da Idade do Ferro IIA, ou seja, datada entre os séculos X e IX a.C.”

Quanto ao Templo de Salomão descrito na Bíblia, seu projeto é conhecido na arquitetura de templos do Levante desde o segundo milênio a.C. e persiste até a Idade do Ferro. Embora a arqueologia não possa determinar se Salomão foi o construtor do Templo, “a Bíblia não menciona nenhum outro rei que possa ter fundado um templo semelhante”.

A existência de um governo central que governava a Monarquia Unida é demonstrada pela recente escavação de Yosef Garfinkel em Khirbet Qeiyafa, um sítio na Sefelá judaíta, na fronteira com os filisteus. Embora pequeno, Qeiyafa era protegido por uma enorme muralha de casamatas que o circundava e por um grande edifício público no topo. Foi ocupado apenas brevemente no final do século XI ou início do século X a.C., na época dos reis Saul e Davi. Como observa Ami Mazar, “Deve ter havido uma autoridade central que iniciou essa operação de construção bem planejada. [...] Embora não se conheçam paralelos cananeus para o plano da cidade ou para as fortificações, estes são um protótipo para cidades judaicas [judaítas] posteriores, como Bete-Semes, Tel-en-Nasbe (a bíblica Mizpá), Tel-Beit-Mirsim e Berseba.”

Finalmente, o reino de Salomão parece ter sido sustentado por uma elaborada indústria metalúrgica. Inicialmente, a vasta operação de mineração de cobre em Wadi Feinan, na Jordânia, estava associada aos edomitas que habitavam o planalto acima das minas. Mas não há evidências desses assentamentos em Edom antes do século VIII a.C. Em vez disso, essas minas de cobre na base refletem uma afinidade com uma operação semelhante de mineração e fundição de cobre no Vale de Timna, no Negev de Israel. Agora está claro”, diz-nos Ami Mazar, “que a indústria de mineração e fundição de cobre em larga escala floresceu no Vale do Arabá durante o final do século XI, X e IX a.C. As estruturas em Feinan indicam que a indústria era administrada e controlada por uma autoridade central” e operada por um estado tribal de seminômades.

Isso deve ser suficiente para instigar os leitores mais estudiosos a explorar os detalhes adicionais e frequentemente impactantes do perspicaz artigo de Ami Mazar, que comprovam a existência e a natureza da Monarquia Unida de Israel, governada por Saul, Davi e Salomão. Sim, eles muito provavelmente foram figuras históricas reais e tiveram um reino — embora não tão vasto quanto o descrito na Bíblia. Grande parte do texto bíblico é o que Ami Mazar reconhece como sendo de “natureza literário-lendária”.

Os Túneis de Bar Kokhba na Galileia

 

Túneis em Huqoq usados ​​durante a Revolta de Bar Kokhba


Escavações realizadas pela Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) revelaram um complexo de túneis subterrâneos construído pelos moradores judeus de Huqoq, na Galileia central, por volta da época da Revolta de Bar Kokhba, também conhecida como Segunda Revolta Judaica (c. 132–136 d.C.). Os moradores de Huqoq usavam o sistema de túneis para escapar dos soldados romanos, e ele foi construído para minimizar a eficácia das pesadas armaduras desses soldados.

Escondido em Huqoq

O sistema de túneis em Huqoq é o maior já descoberto na Galileia desse período e lança luz sobre a extensão geográfica da Revolta de Bar Kokhba, um episódio dramático em um conflito secular entre judeus e romanos que levou à destruição do Segundo Templo quase 70 anos antes. As escavações sugerem que o sistema foi inicialmente construído durante a Primeira Revolta Judaica (c. 66-70 d.C.), mas foi ampliado consideravelmente durante a Revolta de Bar Kokhba.
Um pequeno anel descoberto nos túneis de Huqoq

Para construir o sistema, os moradores converteram uma cisterna de água existente, escavando túneis estreitos que lhes permitiam manobrar por baixo das casas da aldeia acima. Em determinado momento, eles também derrubaram as paredes do banho ritual ( mikveh ) da cidade para criar uma entrada adicional para o sistema de túneis. O sistema incluía oito cavidades e túneis separados para esconderijos, escavados em ângulos de 90 graus para dificultar o movimento de soldados romanos armados que pudessem se aventurar nos túneis. Em suas escavações, a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA) também descobriu fragmentos de pratos de barro e vidro e um anel que pertenceu a uma mulher ou criança.

Escavações anteriores em Huqoq revelaram uma impressionante sinagoga do período bizantino (c. 324–634 d.C.) contendo um dos mosaicos mais bem preservados da Galileia da Antiguidade Tardia. Localizada perto dos túneis secretos, a sinagoga é um testemunho da resiliência da população judaica local.

Segundo os diretores de escavação Uri Berger e Yinon Shivtiel, “O complexo de esconderijos oferece um vislumbre de um período difícil para a população judaica em Huqoq e na Galileia em geral. No entanto, a história que o sítio arqueológico conta é também uma história otimista de uma antiga cidade judaica que conseguiu sobreviver às tribulações históricas. É a história de moradores que, mesmo após perderem sua liberdade e depois de muitos anos difíceis de revoltas, saíram do complexo de esconderijos e estabeleceram uma vila próspera, com uma das sinagogas mais impressionantes da região.”


Vista aérea de Huqoq

Descobertos com a ajuda de estudantes do ensino médio da região, os túneis demonstram que a Revolta de Bar Kokhba se estendeu muito além da Judeia. "Não há certeza de que o complexo tenha sido usado como esconderijo e rota de fuga durante a Segunda Revolta, mas parece ter sido preparado para esse propósito", disseram os diretores. "Esperamos que futuras escavações nos aproximem da resposta."


A vida judaica na antiga aldeia da Galileia: O mosaico de Sansão

 

Mosaico de Sansão da sinagoga romano-bizantina de Huqoq

A antiga aldeia galileia de Huqoq emergiu como um dos sítios arqueológicos mais notáveis ​​da região, oferecendo uma janela extraordinária para a vida judaica durante o período romano-bizantino. Escavações revelaram os vestígios de um assentamento completo, incluindo uma sinagoga, uma nascente natural, instalações agrícolas, banhos rituais ( mikva'ot ) e três redes de túneis subterrâneos, sinalizando períodos de perigo. Arqueólogos também descobriram moedas de bronze, um anel e uma adaga escondidos em uma dessas passagens subterrâneas.

Huqoq é talvez mais conhecida por sua espetacular sinagoga, cujos pisos de mosaico ricamente decorados cativaram arqueólogos e o público em geral. Escavada sob a direção da professora Jodi Magness, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, a sinagoga contém alguns dos mosaicos mais belos e criativos já descobertos em Israel. Sua qualidade artística e riqueza narrativa os distinguem de outros mosaicos de sinagogas do período, combinando histórias bíblicas conhecidas com cenas mais raras. Os mosaicos continuam a gerar discussões sobre a comunidade judaica que floresceu em Huqoq há cerca de 1.600 anos.

O mosaico de Sansão é talvez o mais famoso. Ele retrata o herói bíblico carregando os portões de Gaza sobre os ombros. A cena é inspirada diretamente no livro de Juízes e demonstra como as narrativas bíblicas não eram apenas lidas e estudadas, mas também transformadas em obras de arte dentro da sinagoga.

De modo geral, os mosaicos de Huqoq exibem uma notável variedade de narrativas bíblicas, imagens simbólicas e pelo menos uma importante cena histórica não bíblica. Ao lado de Sansão, os painéis de mosaico retratam a Arca de Noé, a abertura do Mar Vermelho, Jonas e o peixe, a Torre de Babel, os Doze Espiões de Canaã e visões do livro de Daniel, incluindo os quatro animais e os três jovens na fornalha ardente. Outra cena pode mostrar Alexandre, o Grande, com elefantes, ao lado de vários elementos decorativos greco-romanos. Os mosaicos de Huqoq refletem uma comunidade judaica que articulava suas tradições bíblicas por meio da linguagem visual da Galileia romana tardia.


Anel, adaga e moedas de bronze encontrados em túneis escavados sob Huqoq

As três redes subterrâneas descobertas em Huqoq constituem outra característica notável do sítio arqueológico. Pelo menos uma delas estava em uso na era romano-bizantina, ou seja, contemporânea à sinagoga. Os achados dentro dos túneis — incluindo um tesouro de moedas de bronze, um anel e uma adaga — sugerem que eles serviam a um propósito defensivo ou de refúgio quando os moradores precisavam se esconder ou fugir. Alguns relacionam os túneis ao padrão mais amplo de comunidades judaicas que preparavam esconderijos subterrâneos durante períodos de instabilidade, particularmente após a Revolta de Bar-Kokhba (132-136 d.C.) e durante períodos posteriores de pressão romana sobre as comunidades judaicas.

Uma nova exposição, Segredos de Huqoq, oferece ao público a primeira oportunidade de explorar essas descobertas enquanto os preparativos para o acesso direto ao sítio arqueológico continuam. Instalado no Centro Yigal Allon, às margens do Mar da Galileia, o museu permite que os visitantes avistem Horvat Huqoq na Floresta Amiad, nas proximidades.

Maquete da antiga aldeia de Huqoq com vegetação, edifícios e uma cor predominantemente arenosa para o terreno.Miniatura da vila romano-bizantina de Huqoq, em exposição no Centro Yigal Allon

No centro da exposição está o mosaico original de Sansão, exibido ao público pela primeira vez ao lado do recém-exposto tesouro de moedas de bronze recuperado dos túneis. Através de achados arqueológicos, fotografias em grande escala dos mosaicos, uma maquete em miniatura do assentamento e um espaço interativo que recria parte da rede subterrânea oculta de Huqoq, os visitantes são convidados a descobrir a beleza da sinagoga, bem como a história da vila e de seu povo. Enquanto o sítio arqueológico não estiver pronto para receber visitantes, " Segredos de Huqoq" oferece uma introdução imersiva a alguns dos maiores tesouros arqueológicos da Galileia.


A Cidade Natal de Jezabel

 

Divindade humanoide-carneiro de Sidon. Com feições humanas,
 além das sobrancelhas, nariz e chifres de um carneiro,
 esta estatueta de calcário pintado representa uma divindade
 e data de cerca de 1650 a.C. (Idade do Bronze Médio)

Quem eram os sidônios e o que sabemos sobre sua religião?

Os sidônios eram os habitantes da antiga Sidon, uma cidade portuária no Mar Mediterrâneo, no atual Líbano. Aqueles familiarizados com o texto bíblico lembrarão que Sidon era uma cidade fenícia influente e rica durante o reinado dos reis de Israel e Judá, na Idade do Ferro. No entanto, Sidon também foi um local importante antes desse período.

Claude Doumet-Serhal, do Museu Britânico, detalha as recentes escavações em Sidon e as últimas descobertas arqueológicas lançam luz sobre a Sidon bíblica e oferecem uma perspectiva sobre a religião politeísta e as práticas de culto dos sidônios durante as Idades do Bronze e do Ferro.

Quem eram os sidônios da Idade do Bronze (c. 3000–1200 a.C.)? Eles eram cananeus e compartilhavam inúmeras semelhanças, incluindo muitos dos mesmos deuses, com seus vizinhos próximos no Levante meridional, que também eram predominantemente cananeus.

Quem eram os sidônios da Idade do Ferro (c. 1200–586 a.C.)? Eram fenícios. Essencialmente, os fenícios eram os cananeus que sobreviveram da Idade do Bronze até a Idade do Ferro e que não foram suplantados por novos grupos étnicos (filisteus, israelitas, etc.). Contudo, embora suas origens fossem cananeias, os fenícios estabeleceram sua própria cultura distinta. Houve, portanto, continuidade na população de Sidon da Idade do Bronze para a Idade do Ferro.

A cidade bíblica de Sidom é talvez mais conhecida como o berço da princesa fenícia Jezabel (1 Reis 16:31), que se tornou rainha dos israelitas durante o reinado do rei Acabe, no século IX a.C. (Idade do Ferro). Na Bíblia, Jezabel é notória por perseguir a adoração a Javé e por exigir que os israelitas adorassem Baal.

Vista aérea de um templo da Idade do Ferro em Sidon, cidade bíblica, mostrando vestígios das fundações das muralhas.
Templo Fenício de Sidon. Arqueólogos em Sidon descobriram um templo datado dos séculos XII-XI a.C. (Idade do Ferro). Uma das salas deste templo possuía um banco, onde provavelmente eram depositadas oferendas, e um altar feito de pedras empilhadas e não talhadas, o que remete à ordem bíblica de construir altares com pedras brutas (ver Êxodo 20:25). Em outra sala, havia uma base circular que provavelmente sustentava uma coluna de madeira


Considerando o fervor religioso de Jezabel na Bíblia, seria de se esperar encontrar evidências de culto a Baal em Sidon. Algumas descobertas extraordinárias de escavações recentes nos permitiram reconstruir parcialmente a religião sidônia durante as Idades do Bronze e do Ferro, mostrando que o culto a Baal no local tinha raízes profundas.

Deus da Tempestade de Sidon. Datada de cerca de 1750 a.C. (Idade do Bronze Médio), esta alça com relevos representa um navio e um dragão leonino, símbolo do deus mesopotâmico da tempestade, Adad. Adad corresponde, em linhas gerais, ao posterior deus fenício da tempestade, Baal, cujo culto é defendido pela nefasta rainha Jezabel na Bíblia

Notavelmente, uma alça impressa encontrada perto de uma tumba cananeia no sítio arqueológico retrata o deus da tempestade de Sidon e um navio. Datada de cerca de 1750 a.C., a alça mostra o deus da tempestade como um dragão leonino. Normalmente, o deus da tempestade é ilustrado como uma figura humana caminhando, mas às vezes ele é representado por um de seus símbolos, como o touro ou o dragão leonino. Doumet-Serhal explica o significado da iconografia da alça:

O dragão personifica a percepção mítica mais fundamental do deus mesopotâmico da tempestade. O cabo exibe a imagem de um navio com o dragão leonino Ušumgal, assistente de Adad, o deus da tempestade, ao lado. Adad (o cananeu Hadad, o semita Hadda, o hurrita Teshub, o egípcio Resheph, o fenício Baal/Bel, o sumério Ishkur) é o deus mesopotâmico da tempestade, que possui atributos marítimos, celestiais e meteorológicos especiais, importantes para o bem-estar dos marinheiros. Dada a localização costeira de Sidon, não é surpreendente que o deus da tempestade seja o deus mais importante da cidade.

De fato, ao longo de sua história, o deus mais importante em Sidon era o deus da tempestade — conhecido durante o período fenício como Baal ou Bel.