segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Caminho dos Ascetas Iniciação à vida espiritual

Caminho dos Ascetas - Iniciação à vida espiritual


Decisão inicial e perseverança

Se queres salvar tua alma e conseguir a vida eterna, sacode o teu torpor, faz o sinal da cruz e diz: "Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém." Não se obtém a fé pela reflexão, mas pela ação. Não são as palavras e a especulação que nos ensinam quem é Deus, mas a experiência. Para deixar entrar o ar fresco, é preciso abrir a janela; para bronzear a pele, é preciso expor-se ao sol. Para adquirir a fé, é a mesma coisa; como dizem os santos Padres, não se chega ao objetivo, permanecendo confortavelmente sentado, esperando. Imitemos o filho pródigo: "Partiu, então, e foi ter com o pai" (Lc 15:20).

Qualquer que seja o peso e o número de cadeias que te acorrentam à terra, nunca é tarde demais. Não é sem motivo que está escrito que Abraão tinha setenta e cinco anos quando partiu; e os operários da undécima hora receberam o mesmo salário que os que trabalharam desde a manhã. E também, nunca é excessivamente cedo. Nunca é cedo demais para apagar um incêndio na floresta. Gostarias de ver tua alma devastada e queimada? No batismo, recebeste a ordem de te lançares num combate invisível contra os inimigos da tua alma. Põe mãos à obra. 

Há bastante tempo, usas de subterfúgios. Mergulhado na negligência e na preguiça, desperdiçastes um tempo precioso. Só te resta recomeçar do princípio, porque lamentavelmente deixastes que se empanasse a pureza que recebestes no batismo. Começa, pois, a trabalhar desde já, sem demora. Não adies a tua decisão para hoje à noite, para amanhã, para mais tarde, "quando eu tiver terminado o que preciso fazer agora." Um atraso pode ser fatal. Não; é agora, no mesmo instante de tomar a decisão, que deves mostrar pelos teus atos, que te despedistes do teu velho "eu" e que acabas de começar uma vida nova, à procura de um novo objetivo, seguindo novos caminhos. Levanta-te, pois, corajosamente, e diz: "Senhor, concedei-me que comece agora. Ajudai-me!" Porque, acima de tudo, tens necessidade da ajuda de Deus. Persevera em tua decisão, e não olhes para trás. Que o exemplo da mulher de Ló te sirva de lição: ela se transformou em coluna de sal, por ter olhado para trás (cf. Gn 19:26). Abandonastes o homem velho: não retomes o que é desprezível. Como Abraão, ouviste a voz do Senhor que te disse: "Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei" (Gn 12:1). De agora em diante, é nesse país que se deve concentrar toda a tua atenção.

A insuficiência das forças humanas

Dizem os santos Padres, todos a uma só voz: "A primeira coisa que deves inculcar no espírito é que nunca, de modo algum, te deves apoiar em ti mesmo. O combate que vais enfrentar é extraordinariamente árduo, e as forças humanas, sozinhas, são de todo insuficientes para conduzi-lo. Se confias em ti mesmo, serás derrubado de imediato, e perderás toda a vontade de continuar a luta. Só Deus te pode dar a vitória, segundo o teu desejo." Para muita gente, a decisão de não colocar em si mesmo a confiança é um sério obstáculo, que os impede de começar uma vez por todas. É necessário perseverar, sob pena de abandonar qualquer esperança de ir mais longe. Com efeito, como poderá um homem receber conselhos, formação e ajuda, se pensa que conhece tudo, pode tudo, e não tem necessidade alguma de conselhos? Através de semelhante muro de suficiência, nenhum raio de luz consegue passar. "Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e inteligentes na sua própria opinião!" (Is 5:21); e São Paulo nos dá este conselho: "... não vos deis ares de sábios" (Rm 12:16). O reino dos céus foi revelado aos pequeninos, mas continua oculto aos sábios e aos doutores (cf. Mt 11:25). Devemos, portanto, nos despojar dessa confiança imoderada que temos em nós mesmos. Muitas vezes, ela está arraigada em nós tão profundamente, que já nem percebemos o domínio que exerce sobre nosso coração. O nosso egoísmo, a preocupação com a nossa pessoa, o amor próprio, são precisamente as causas de todas nossas dificuldades, de nossa falta de liberdade interior na provação, de nossas contrariedades, de nossos tormentos da alma e do corpo. Olha um pouco para ti mesmo, e verás a que ponto estás aprisionado pelo desejo de dar prazer ao teu "eu," e somente a ele. Tua liberdade está presa pelos laços estreitos do amor por ti mesmo; assim, és balançado ao acaso, como um cadáver inconsciente, da manhã à noite. "Agora, estou com vontade de beber," "agora, estou com vontade de sair," "agora estou com vontade de ler o jornal." A cada instante, teus próprios desejos te conduzem como por meio de uma rédea; e, se algum obstáculo se coloca no caminho, imediatamente perdes a calma, sob o efeito da contrariedade, da impaciência ou da cólera. Se sondares as profundezas de tua consciência, descobrirás as mesmas coisas. 

O sentimento de desagrado que experimentas, quando alguém te contradiz, possibilita facilmente essa verificação. Vivemos, assim, como escravos. Mas "... onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade" (2Cor 3:17). Que proveito poderás encontrar em gravitar assim, constantemente, em torno do teu "eu"? Não nos ordenou o Senhor que amássemos ao próximo como a nós mesmos, e que amássemos a Deus acima de todas as coisas? Mas, nós o fazemos? Não estamos, ao contrário, sempre ocupados em pensar no nosso bem-estar? Convence-te, pois, de que nada de bom pode vir de ti próprio. E se algum pensamento desinteressado despertar em ti, podes estar certo de que não vem de ti, mas que deriva da Fonte da Bondade, e que foi depositado em ti; é um dom daquele que dá a vida. Do mesmo modo, o poder de fazer passar ao ato esse bom pensamento, não vem de ti, mas te é concedido pela Santíssima Trindade.

A horta do coração

A vida nova, que acaba de começar, tem sido muitas vezes comparada à de um agricultor. O solo que ele cultiva é um dom de Deus, como as sementes, o calor do sol, a chuva e a força que faz crescer os legumes. Mas o trabalho lhe foi confiado. Se o agricultor quiser obter uma colheita abundante, deve trabalhar de sol a sol, escavar, afofar a terra, regar, podar, pois suas culturas são ameaçadas por muitos perigos que comprometem a colheita. Deve trabalhar sem descanso, estar sempre alerta, sempre preparado para o que der e vier, sempre pronto a intervir. E apesar de tudo isso, afinal de contas, a colheita depende inteiramente do tempo e dos elementos, isto é, de Deus. 

A horta que nos dispusemos a cultivar, e pela qual devemos velar, é o nosso próprio coração; a colheita é a vida eterna. Ela é eterna porque não é medida pelo tempo e pelo espaço; não está ligada às circunstâncias exteriores. É a vida verdadeira, uma vida de liberdade, de amor, de misericórdia e de luz. Não tem nenhum limite, e por isso é eterna. É uma vida espiritual, que transcorre numa esfera espiritual. É uma nova dimensão da existência. Começa neste mundo e não tem fim. Nenhuma autoridade terrestre tem poder sobre ela, e a descobrimos no fundo do coração. "Persegue-te a ti mesmo, diz santo Isaac, o Sírio, e teu inimigo será derrotado só pela tua aproximação. Faze a paz contigo, e contigo farão a paz o céu e a terra. Esforça-te para entrar na tua cela interior, e verás a morada celeste, pois elas são a mesma e única coisa: penetrando em uma, contemplarás também a outra. A escada do Reino está em ti, escondida no teu coração. Se te desfizeres do fardo de teus pecados, descobrirás em ti o atalho que tornará possível a tua ascensão." A morada celeste, de que fala o santo, é um outro nome da vida eterna. Também é chamada Reino dos céus, Reino de Deus, ou simplesmente Cristo. Viver no Cristo, é viver na vida eterna.

Um combate silencioso e invisível

Agora, que sabemos onde se deve travar o combate que acabamos de começar, e o que está em jogo, resta-nos compreender por que o chamam "combate invisível." É que ele se desenvolve inteiro em nosso coração, em silêncio, bem no fundo de nós mesmos. Esse particular também é importante, e os santos Padres insistem sobre ele com veemência: "Conserva os lábios bem fechados sobre o teu segredo!" Se abrirmos a porta durante um banho de vapor, o calor vai-se embora, e o tratamento perde a eficácia. Assim pois, não fales a ninguém da tua recente decisão. Não digas nada da tua nova vida, nem das experiências que fazes, ou daquilo com que, um dia, esperas ser favorecido. Deves tratar disso só entre Deus e ti, exclusivamente. A única exceção deve ser teu pai espiritual. O silêncio é necessário, porque falar com facilidade de seus próprios assuntos só pode incitar à preocupação consigo mesmo, além de alimentar a confiança em si. Ora, são tendências que devem ser reprimidas, antes de tudo. Graças ao silêncio, cresce a nossa confiança naquele que vê o que está escondido; graças ao silêncio, falamos àquele que ouve sem necessidade de palavras. Procura apenas dirigir-te a ele; é nele que deve estar a tua confiança. Estás ancorado na eternidade, e na eternidade, toda palavra emudece. 

De agora em diante, deverás pensar que tudo o que te acontece, importante ou não, te é enviado por Deus, para ajudar-te no teu combate Só ele sabe o que te é necessário, e o que te falta no momento presente: adversidade ou prosperidade, tentação ou queda. Nada acontece por acaso; não há nenhum acontecimento do qual nada tenhas que aprender. Deves compreender bem isso, desde já, pois é assim que aumentarás a tua confiança no Senhor, que escolhestes seguir. Os santos nos dão ainda um outro conselho para a caminhada: considera-te uma criança que apenas começa a falar, e que esteja dando os primeiros passos. Toda a tua sabedoria segundo este mundo, e todo o teu conhecimento, não têm utilidade para o combate que te espera; tampouco te servem a situação social e os bens. Tudo o que se possui, e que não é empregado no serviço do Senhor, é um fardo; um conhecimento do qual o coração não partilhe é astéril e, logo, nocivo, uma vez que é pretensioso. Chamam-no "ciência simples," porque é desprovido de calor e não alimenta o amor. Deves, pois, abandonar toda a tua ciência, e tornar-te ignorante, para seres sábio. Deves tornar- te pobre para seres rico, e fraco para seres forte.

A renúncia de si mesmo e a purificação do coração

Desarmado, fraco e desprovido de poderes, empreende a mais difícil das tarefas: vencer teus próprios desejos egoístas. É exatamente isso a "perseguição de si mesmo" de que depende, finalmente, o resultado do teu combate; pois, enquanto a tua vontade egoísta dominar, não poderás dizer ao Senhor com coração puro: "Que seja feita a tua vontade." Se não te podes desfazer da tua própria grandeza, não poderás abrir-te à verdadeira grandeza. Se te agarras à própria liberdade, não poderás tomar parte na verdadeira liberdade, que é o reino de uma única vontade. O mais profundo segredo dos santos é este: não procures a liberdade, e a liberdade te será dada. 

A terra não produzirá senão cardos e espinhos, diz a Escritura. É com o suor do seu rosto, com muito sofrimento, que o homem deve cultivá-la. Esta terra é o homem mesmo, sua própria natureza. Os santos Padres aconselham a começar pelas coisas pequenas; pois, como diz Santo Efrém, o Sírio, como poderias apagar um grande incêndio antes de aprender a abafar um fogo de pequenas proporções? Se queres ser capaz de resistir a uma paixão violenta — dizem os santos Padres — abate os pequenos desejos. Não creias que se possa separá-los uns dos outros: eles se prendem como os elos de uma corrente, como as malhas de uma rede. Por isso, de nada serve atacar os vícios principais e os maus hábitos que te opõem forte resistência, se ao mesmo tempo não te esforças por vencer as pequenas fraquezas "inocentes": pequenas gulas, tentação de falar, curiosidade, hábito de se meter nos assuntos dos outros. Todos os nossos desejos, de fato, grandes ou pequenos, têm o mesmo fundamento: o nosso hábito constante de satisfazer apenas a nossa própria vontade. 

É, portanto, a vontade própria que deve ser condenada à morte. Desde o pecado original, nossa vontade está exclusivamente a serviço do nosso próprio "eu." Assim, o objetivo do combate é a morte da vontade própria. É preciso começar sem demora, e prosseguir na luta sem descanso. Tens vontade de fazer uma pergunta? Não a faça! Tens muita vontade de tomar duas xícaras de café? Toma apenas uma! Tens a tentação de olhar pela janela? Não olhes! Tens desejo de visitar alguém? Fica em casa. Isso é perseguir a si mesmo. Através desse meio, com a ajuda de Deus, faz-se calar a voz ruidosa da própria vontade. Talvez te perguntes se isso é realmente necessário. Os santos Padres respondem com outra pergunta: Crês mesmo que seja possível encher um vaso com água pura, sem despejar primeiro a água suja que nele se encontra? Ou gostarias de receber um hóspede amado, num quarto abarrotado com toda espécie de velharias e de objetos postos de lado? Não. "Todo o que tem esperança de ver o Senhor tal como ele é, purifica-se a si mesmo," diz o apóstolo São João (1Jo 3:3). Purifiquemos, pois, o nosso coração! Joguemos fora todas as velharias empoeiradas que aí se acumulam; lavemos o chão com escova, limpemos os vidros e abramos as janelas, para que o ar e a luz entrem no quarto, onde queremos fazer um santuário para o Senhor. Troquemos enfim de roupa, para que o nosso velho cheiro de bolor já não fique em nós, e para que não sejamos lançados fora (cf. Lc 13:28). Eis o nosso labor de cada dia e de cada instante. Fazendo isso, estaremos apenas cumprindo o que o Senhor nos ordenou por seu santo apóstolo Tiago: "... santificai os vossos corações" (Tg 4:8). Pede-nos o apóstolo Paulo: "... purifiquemo-nos de toda mancha da carne e do espírito" (2Cor 7:1). Diz o Cristo: "Com efeito, é de dentro do coração dos homens que saem as intenções malignas: prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez. Todas estas coisas más saem de dentro do homem, e são elas que o tornam impuro" (Mc 7:21-23). Por isso, ele exorta assim os fariseus: "... limpa primeiro o interior do copo para que também o exterior fique limpo!" (Mt 23:26). Pondo em prática esse preceito de começar pelo interior, devemos ter presente em nosso espírito que não é, de modo algum, por nós mesmos, que purificamos o nosso coração. Não é para a satisfação pessoal que limpamos e polimos o quarto de hóspedes, mas sim para que o nosso hóspede se sinta bem. Nós nos perguntamos: "Será que vai achá-lo a seu gosto? Irá ficar?" Todo o nosso pensamento é para ele. 

Depois nos retiramos, ficamos em segundo plano, sem esperar resposta. Como explica Nicétas Stéthatos, existem para o homem três estados: o homem carnal, que quer viver para o próprio prazer, mesmo em detrimento dos outros; o homem natural, que deseja agradar ao mesmo tempo a si mesmo e aos outros; o homem espiritual, que quer agradar só a Deus ainda que seja em detrimento de si próprio. O primeiro está abaixo da natureza; o segundo está conforme à natureza; o terceiro está acima da natureza: é a vida no Cristo. O homem espiritual pensa espiritualmente; sua esperança é ouvir um dia os anjos se alegrarem "... por um só pecador que se converte" (Lc 15:10), um pecador que não é outro senão ele mesmo. Que sejam esses os teus sentimentos; trabalha animado por essa esperança, pois o Senhor nos deu este preceito: "... deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5:48), e "Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6:33). Não te concedas repouso algum, nenhuma trégua, até que tenhas condenado à morte essa parte de ti mesmo que provém da natureza carnal. Toma a resolução de descobrir em ti toda manifestação do homem animal, e de persegui-lo implacavelmente. "Pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne" (Gl 5:17). Mas se temes tornar-te justo a teus próprios olhos, trabalhando para a tua salvação; se temes ser vencido pelo orgulho espiritual, examina-te a ti mesmo, e diz que aquele que teme tornar-se justo a seus próprios olhos, é cego. Porque não vê que ele é justo a seus próprios olhos.

É preciso extirpar o desejo do gozo

A Escritura diz que apenas um pequeno número encontra o caminho estreito que conduz à vida; e que nos devemos esforçar para entrar no caminho estreito, "... pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão" (Lc 13:24). Devemos procurar a causa exatamente na repugnância que temos em nos perseguir. Dominamos, talvez, os vícios mais graves e mais perigosos, mas paramos por aí. Deixamos as nossas pequenas fantasias se desenvolverem livremente, como bem entenderem. Não cometemos roubos nem trapaças; porém, os mexericos são a nossa delícia. Não nos embriagamos, mas abusamos do chá ou do café. Nosso coração continua repleto de desejos. As raízes não foram extirpadas, e nós vagamos ao acaso na floresta virgem que cresceu no solo fértil da ternura que sentimos por nós mesmos. Ataca de frente essa ternura para contigo, pois é ela a raiz de todos os males de que sofres. Se não tivesses tanta piedade por ti mesmo, perceberias imediatamente que és tu que fazes a tua própria infelicidade, porque te recusas a compreender que os males que te acontecem são, na realidade, uma coisa boa. 

A ternura por ti mesmo te escurece a vista. Só tens compaixão por ti; conseqüência: teu horizonte é muito estreito. Teu amor é prisioneiro de ti mesmo. Liberta-o, e já não serás infeliz. Renuncia às tuas nocivas fraquezas e à tua insaciável sede de bem-estar; ataca-as por todos os lados! Condena à morte o teu apetite de prazer. Não lhe deixes ar para respirar. Sê rigoroso para contigo; recusa a teu "eu" carnal as migalhas de prazer que ele reclama obstinadamente. Pois o hábito se fortifica pela repetição dos atos; morre, porém, se não for alimentado. Mas, toma muito cuidado para não fechar ao mal a porta principal, deixando entreaberta a porta dos fundos, por onde ele poderá esgueirar-se, com habilidade, sob outra forma. De que serviria, por exemplo, dormir no chão, se, ao mesmo tempo, procurasses a satisfação em banhos quentes? Para que deixar de fumar, se dás livre curso ao desejo de tagarelar? Qual o benefício de não tagarelar, se lês romances cativantes? E de que servirá abster-te de ler, se deixas em liberdade a imaginação, e te deixas embalar por doces devaneios? Tudo isso não passa de diferentes formas de uma só e única realidade: a insaciável sede de satisfazer tua necessidade de gozo.

Precisas decidir-te a extirpar o simples desejo de possuir objetos agradáveis, de experimentar um sentimento de bem-estar, de ter conforto. Deves aprender a amar as contrariedades, a pobreza, o sofrimento, as privações. Deves aprender a seguir os preceitos do Senhor: não dizer coisas inúteis, não se vestir com excessivo aprimoramento, obedecer sempre à autoridade, não olhar uma mulher com concupiscência, não ter acessos de cólera, etc... Todos esses preceitos nos foram dados para que os pratiquemos; não para que nos comportemos como se eles não existissem. Senão, eles não nos teriam sido impostos pelo Deus de misericórdia. "... Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo" (Mt 16:24): o Senhor confia, assim, na vontade de cada um ("se alguém quer") e ao esforço pessoal ("negue-se a si mesmo").

É necessário transferir ao Cristo o amor por nós mesmos

"Se sairmos de nós mesmos, o que encontraremos?" pergunta o bispo Teófano, o Recluso. E ele próprio dá, imediatamente, a resposta: "Encontramos Deus e o próximo." Essa é a verdadeira razão pela qual a negação de si mesmo é uma condição — e a principal — que deve ser cumprida por quem procura a salvação no Cristo: é assim que o centro de gravidade de nosso ser se pode deslocar de nós para o Cristo, que é, a um só tempo, Deus e nosso próximo. Isso significa que toda a solicitude, todo o cuidado, todo o amor que prodigalizamos a nós mesmos é, pois, sem que percebamos, completa e naturalmente transferido para Deus e, por ele, para o nosso próximo. Só então é que poderás fazer o bem de modo que "... não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo" (Mt 6:3-4). Até que isso se realize, não será possível estar "... repletos de todo conhecimento e em grau de vos poder admoestar mutuamente" (Rm 15:14), de modo real, não apenas material. Todas as nossas tentativas nesse sentido são deformadas na base, porque são "nossas" e procedentes do nosso desejo, de nos agradar. É particularmente necessário compreender bem isto; senão, corremos o risco de nos desviar com facilidade, entrando pelo caminho de um pretenso devotamento aos outros e em obras bem intencionadas, mas que nos conduzem inevitavelmente ao lodaçal de nossa própria satisfação. Por conseguinte, não te ocupes demais com vendas de caridade, reuniões de obras assistenciais e de outras atividades semelhantes. 

A agitação, sob todas as suas formas, é um temível veneno. Sonda o teu coração, examina-te com cuidado, e reconhecerás que muitas dessas atividades em que parece que nos doamos aos outros, procedem, na realidade, da necessidade de atordoar nossa consciência; sua verdadeira origem é a nossa invencível tendência de procurar o que nos agrada e nos satisfaz (cf. Rm 15:1). Não; o Deus de amor, de paz e de total sacrifício não pode estar onde se procura a própria satisfação, no barulho e na agitação, mesmo sob nobres pretextos. Este é um princípio de discernimento: se a paz do teu espírito se perturba; se estás desanimado ou um pouco irritado, porque uma razão qualquer te obrigou a renunciar a uma boa obra, para a qual tinhas projetos, isso mostra que a sua origem era equívoca. Talvez te perguntes: por quê? Os homens que têm experiência da vida espiritual responderão que os obstáculos e as oposições exteriores só podem atingir os que não entregaram a Deus a própria vontade. É impensável que Deus tenha pela frente um obstáculo. Ora, um ato realmente desinteressado não é "meu," mas sim de Deus; nada pode impedir a sua realização. São apenas os meus próprios projetos, meus próprios desejos — estudar, trabalhar, descansar, comer, prestar serviço ao meu próximo — que podem ser contrariados por circunstâncias exteriores. Então, eu me entristeço. Mas, para quem descobriu o caminho estreito que conduz à vida, isto é, a Deus, só resta um obstáculo possível: sua própria vontade pecadora. Se quer fazer alguma coisa, mas não pode levá-la a bom termo, por que se entristecerá? Aliás, ele já não faz projetos (cf. Tg 4:13-16). Mas este é um outro segredo dos santos. 

Não te iludas. Um cristão deve "... andar como ele (Cristo) andou" (1Jo 2:6), ele, que jamais procurou a sua vontade (cf. Jo 5:30), mas nasceu sobre a palha, jejuou quarenta dias, passou longas noites em oração, curou doentes, expulsou demônios, não tinha onde pousar a cabeça, e finalmente foi cuspido, flagelado e crucificado. Pensa, o quanto estás longe dele! Pergunta continuamente a ti mesmo: Passei uma única noite velando e orando? Jejuei um só dia? Expulsei um único demônio? Deixei-me insultar e bater sem resistir? Realmente crucifiquei a minha carne (cf. Gl 5:24)? Renunciei a buscar a minha vontade? Tenhas sempre presente, tudo isso, em teu espírito. Por que é necessário negar-se a si mesmo? Porque aquele que verdadeiramente se negou a si mesmo já não se perguntará: Sou feliz? Estou contente? Tais perguntas não se colocarão mais diante de ti, se de fato tiveres negado a ti mesmo. Com efeito, fazendo isso, terás ao mesmo tempo abandonado todo desejo de procurar a tua satisfação própria, na terra ou no céu. Essa vontade obstinada de encontrar a própria satisfação, é a causa da inquietação e da divisão da tua alma. Abandona-a e luta contra ela: o resto te será dado sem esforço.

É necessário estar sempre vigilante contra as repetidas ofensivas do inimigo

As primeiras vitórias sobre ti mesmo devem ter, para ti, valor de sinal: agora estás no bom caminho. Mas não te consideres virtuoso; apenas agradece a Deus, pois foi ele que te deu força; não te alegres em demasia, mas apressa-te em prosseguir na tua estrada. Senão, o demônio vencido reerguerá a cabeça e te pegará pelas costas.

Lembra-te do mandamento que os israelitas tinham recebido de Deus, para te servir de lição: "... Quando tiverdes atravessado o Jordão, em direção à terra de Canaã, expulsareis de diante de vós todos os habitantes da terra. (...) aqueles que deixardes dentre eles se tornarão espinhos nos vossos olhos e aguilhões nas vossas ilhargas" (Nm 33:51-52,55). A aparente importância dessa vitória sobre ti mesmo conta pouco. Pode-se tratar de suprimir o cigarro da manhã, ou até de uma coisa — à primeira vista tão insignificante — como não voltar a cabeça ou evitar uma troca de olhares. O que importa não é o que se vê de fora. As pequenas coisas podem ser grandes, e as grandes, pequenas. Mas, é preciso estar sempre à espera de uma nova fase do combate. Deves estar sempre pronto. Não há tempo para descansar. Além disso, ainda uma vez, permanece em silêncio. Que ninguém saiba o que se passa em ti. Trabalhas para o Ser invisível. Que teu trabalho seja invisível. Os santos nos dizem que, se jogarmos migalhas em torno de nós, elas serão avidamente recolhidas pelos pássaros enviados pelo diabo. Fica sempre alerta contra a vanglória: de um bocado, ela pode devorar o fruto de muitos trabalhos. Por isso, os Padres aconselham discernimento no agir. De dois males, escolhe o menor. Se estás sozinho, escolhe o que há de mais humilde; mas se alguém te observa, toma um caminho intermediário, para atrair a atenção o menos possível. Fica o mais escondido e despercebido que puderes; que seja esta a tua regra em qualquer circunstância. Não fales de ti mesmo; não contes como dormiste, o que sonhaste, o que te aconteceu; não dês tua opinião sem que a peçam; não faças confidências sobre tuas preocupações e cuidados. Tais assuntos de conversa só te podem incitar a te ocupares excessivamente de ti mesmo.

Não mudes nada na tua casa, no teu trabalho, nem nas outras coisas. Lembra-te de que não há lugar, nem ambiente, nem qualquer circunstância exterior, que não seja própria ao combate que empreendeste. A única exceção seria uma ocupação que favorecesse diretamente os teus vícios. Não procures situações nem títulos importantes; quanto mais humilde for o teu estado e mais te puseres a serviço dos outros, mais livre serás. Fica satisfeito com a tua condição atual. Não tenhas pressa de fazer valer os teus conhecimentos e o teu saber-fazer. Evita observações; não digas: "Assim não, nem assim... Faz assim, e deste outro modo." Não contradigas ninguém, não discutas com ninguém, deixa que os outros sempre tenham razão. Não prefiras nunca a tua vontade à dos outros. Isso te ensinará a difícil arte da submissão e, ao mesmo tempo, da humildade. Ela é indispensável.

Recebe as advertências sem recriminações. Dá graças quando és desprezado, esquecido, ignorado. Porém, não cries ocasiões de humilhação: elas te serão fornecidas ao longo do dia, à medida que delas necessitares. Às vezes se notam pessoas que conservam sempre a cabeça baixa e forçam situações para se colocarem em último lugar. Então, talvez digas: "Como ele é humilde!" Mas o verdadeiro humilde tem a arte de não se deixar notar. O mundo não o conhece (1Jo 3:1). Para o mundo ele é, o mais das vezes, "um zero." Quando Pedro e André, Tiago e João largaram as redes e seguiram Jesus, o que pensaram os companheiros que eles abandonavam à beira do lago? Para estes, os outros discípulos não existiam mais; tinham ido embora. Não hesites, não temas desaparecer, tu também, longe "desta geração adúltera e pecadora." Que desejas ganhar: o mundo, ou tua alma? (cf. Mc 8:34-38). Ai de vós, quando todos vos bendisserem! (cf. Lc 6:26).

A vitória sobre o mundo

São Basílio, o Grande, disse: "Não nos podemos aproximar do conhecimento da verdade, com o coração inquieto."
Por isso nos devemos esforçar para evitar tudo o que agita o nosso coração, tudo que é causa de falta de atenção, de super excitação, tudo o que desperta as paixões ou nos torna ansiosos. Na medida do possível, devemos nos libertar do barulho, da agitação e da inquietação que se produzem por objetos sem importância. Pois, quando servimos ao Senhor, não nos devemos "inquietar e agitar por muitas coisas," mas lembrar sempre que "uma só é necessária" (Lc 10:41-42).

Para tomar banho, é preciso despir-se. O mesmo acontece com o nosso coração: ele deve ser libertado de todos os revestimentos exteriores deste mundo, para que possa ser atingido por Aquele que deve purificá-lo. Os raios benfazejos do sol só poderão agir sobre a pele, se esta a eles se expuser a descoberto. Assim é também com a virtude salutar e vivificante do Espírito Santo. Portanto, deves despir-te. Recusa a ti mesmo — mas sem que seja excessivamente visível — tudo o que causa gozo e prazer, bem-estar e distração; tudo o que diverte ou satisfaz aos olhos, aos ouvidos, ao paladar e aos outros sentidos. "Quem não está a meu favor, está contra mim" (Mt 12:30). Despoja-te, dia após dia, de tuas necessidades e de teus hábitos, no campo das relações sociais; faze-o calma e refletidamente, sem rupturas por demais bruscas, mas, no entanto, de maneira radical. Elimina pouco a pouco tudo o que puderes dos laços que te prendem ao mundo exterior: convites, concertos, recepções e, de modo geral, "tudo o que há no mundo — a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho das riquezas — ", pois tudo isso "não vem do Pai, mas do mundo" (1Jo 2:16), e combate contra nossa alma. O que é, pois, o mundo? Não o imaginemos uma realidade exterior e tangível, que carrega a marca do pecado. O mundo, diz São Macário do Egito, é a cortina de chamas que circunda o coração e fecha o acesso à árvore da vida.
O mundo é tudo aquilo a que estamos apegados e que nos traz satisfações terrenas; é o que, em nós, "não conheceu a Deus" (cf. Jo 17:25).
Nossos desejos e impulsos fazem parte do mundo. Santo Isaac, o Sírio, enumera-os: atração pelas riquezas; propensão a acumular e a apropriar-se de todos os tipos de objetos; inclinação para os gozos sensíveis; desejo de ser objeto de honras, de onde procede a inveja; desejo de dominar os outros e de se fazer escutar; orgulho da glória e do poder; preocupação por ser admirado e amado; sede de louvores; preocupação com o bem-estar do corpo. 

Todas essas coisas provêm do mundo; elas se associam contra nós para nos enganar e nos conter em pesadas correntes. Se queres libertar-te, examina-te com a ajuda dessa lista e vê claramente contra o que tens de lutar para te aproximares de Deus. Pois ".. a amizade com o mundo é inimizade com Deus. Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus" (Tg 4:4). Os largos horizontes só se descobrem aos olhos se abandonarmos os vales estreitos, com as ocupações e os prazeres que lhe são próprios. "Ninguém pode servir a dois senhores" (Mt 6:24); é impossível permanecer, ao mesmo tempo, no vale e nas alturas. Para poderes subir com maior facilidade, e para te aliviares o mais rapidamente possível do teu pesado fardo, faz a ti mesmo, com freqüência, perguntas como esta: "Não é para o meu próprio prazer, mais do que para o dos outros, que vou a esse concerto, ou ao cinema? É crucificar a minha carne, ir a essa festa? É vender tudo o que tenho, fazer essa viagem de recreio ou comprar esse livro? É tratar duramente o meu corpo e reduzi-lo à servidão (1Cor 9:27), deitar-me para ler? Essa lista de perguntas pode ser modificada ou aumentada, em função dos teus hábitos e da relação deles com o modo de viver que o Evangelho prescreve. E lembra-te de que "quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito, e quem é iníquo no mínimo, é iníquo também no muito" (Lc 16:10). Não temas o sofrimento: ele é que te ajudará a sair desse vale estreito em que vives nos desejos da carne, satisfazendo as vontades da carne e dos pensamentos condenáveis (cf. Ef 2:3). Faze a ti mesmo essas perguntas, sem descanso. Mas, faze-as apenas a ti. Jamais, em caso algum, nem mesmo em pensamento deves fazê-las em relação aos outros. No mesmo instante em que fizeres uma pergunta desse gênero a respeito de alguém, te erigirás em juiz, e por isso tu mesmo serás julgado. Serás despojado do que tinhas ganho com teus esforços. Tinhas dado um passo à frente, mas acabas de dar dez para trás. Então, tens mesmo razão de chorar por tua obstinação, pela queda dos teus progressos e por teu orgulho.

Os pecados dos outros e os nossos

Agora tomaste consciência da tua miséria, da tua pobreza, da tua propensão para o mal; por isso clamas ao Senhor, como o publicano: "... Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!" (Lc 18:13). E acrescentas: "Sou mesmo bem pior que o publicano, pois não consigo deixar de olhar o fariseu com desprezo; meu coração se enche de orgulho e diz: ‘Eu vos dou graças, porque não sou como ele!' " Mas — dizem os santos — quando verificares as trevas do teu coração e a fraqueza da tua carne, perderás toda a vontade de julgar o teu irmão. Para além da tua própria escuridão, verás então brilhar a luz celeste em todas as criaturas, que resplandecem com o seu reflexo; pois, não poderás mais notar os pecados dos outros, uma vez que os teus são tão grandes. 

Com efeito, quando procurares com ardor a perfeição, é que vais começar a descobrir a tua imperfeição. Somente quando tiveres visto o quanto és imperfeito, é que a perfeição te será acessível. Portanto, a perfeição sai da fraqueza. Só então conseguirás o que santo Isaac, o Sírio, prometeu aos que se perseguem a si mesmos: "E teu inimigo fugirá, só porque te aproximas." De que inimigo o santo fala aqui? Evidentemente, daquele que tomou, um dia, a forma de serpente e que, desde então, excita em nós o descontentamento, a insatisfação, a impaciência, a precipitação, a ira, a inveja, o medo, a ansiedade, o ódio, o abatimento, a indolência, a tristeza, a dúvida, e tudo o que envenena a nossa existência e se enraíza em nosso amor próprio e em nossa auto piedade. Como poderá, pois, querer que os outros lhe obedeçam, aquele que verifica, com o sofrimento profundo inspirado pelo amor, que ele jamais obedece a seu Mestre? Como, então, poderá ele perturbar-se, impacientar-se, irar-se, se as coisas não se passam de acordo com seus desejos? Esse homem acostumou-se, por uma longa prática, a não desejar mais nada, e — como explica o abade Doroteu — a quem já não tem desejos tudo acontece segundo os próprios desejos. Sua vontade ajustou-se, exatamente, à de Deus, e ele obtém tudo o que pede (cf. Mc 11:24). Poderá sentir inveja aquele que, bem longe de querer elevar-se, está consciente de suas próprias deficiências, e pensa que os outros, mais do que ele, merecem estima e consideração? Poderá sentir medo, angústia ou ansiedade, quem, como o ladrão crucificado, vê em tudo o que lhe acontece apenas o justo salário de seus atos (cf. Lc 23:41)? A negligência o abandona, porque ele descobre em si mesmo os seus menores traços e persegue-a sem cessar. O abatimento desaparece; pois, como poderá ser derrubado, quem se mantém constantemente prostrado em espírito? Doravante, seu ódio se voltará, inteiro, para o mal que está nele, e que o impede de ver claramente o Senhor; ele odeia a sua própria vida (cf. Lc 14:26). Esse homem não é mais atingido pela dúvida, pois experimentou e viu quanto o Senhor é bom (cf. Sl 34:8); só o Senhor o sustenta. Seu amor se dilata sem cessar e, com ele, a fé. Ele colhe o fruto da humildade. Mas tudo isso só se encontra no caminho estreito, e são poucos os que o encontram (cf. Mt 7:14).

O combate interior é apenas um meio a serviço de um fim


Ao te desfazeres das cadeias exteriores, tu te livras igualmente dos laços interiores. Quando te libertas das preocupações de fora, teu coração também fica livre dos sofrimentos de dentro. Por conseguinte, o rude combate, que és obrigado a travar, não passa de um meio: como tal, não é nem bom, nem mau; os santos o têm muitas vezes comparado a um tratamento médico. Embora seja muito penoso sujeitar-se a ele, não deixa de ser um simples meio de recobrar a saúde.
Lembra-te sempre de que não realizas nada de virtuoso, esforçando-te para te dominares. De fato, que virtude há em tomar pá e picareta para tentar sair de uma galeria subterrânea, onde se tenha caído por falta de atenção? Não é natural, pois, utilizar as ferramentas entregues por alguém de fora, para escapar dessa atmosfera sufocante e tenebrosa? O contrário não seria pura estupidez? Essa parábola te pode ensinar a sabedoria. As ferramentas são os instrumentos da salvação, os mandamentos do Evangelho, os santos sacramentos da Igreja, que foram postos à disposição de cada cristão por ocasião do santo batismo. Sem uso, não terão nenhum proveito. Porém, utilizados com discernimento, permitirão que abras o caminho para a liberdade e para a luz. "... é preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus" (At 14:22). Devemos, como o homem preso no subterrâneo, renunciar a descansar, a dormir, a aproveitar os prazeres da vida; como ele, devemos permanecer alertas e utilizar, da melhor forma, todos os instantes que os outros homens passam dormindo, ou ocupados com ninharias. Não devemos largar a pá e a picareta, que representam a oração, o jejum, as vigílias, e todas as outras atividades pelas quais pomos em prática tudo quanto o Senhor nos ordenou (cf. Mt 28:20). 

E, se nosso coração encontra dificuldade em aceitar tal disciplina, devemos empregar toda a força de vontade para obrigá-lo a se sujeitar, se quisermos realizar nosso propósito. Que recompensa terá nosso prisioneiro? Pode-se dizer que terá alguma recompensa? A recompensa será o seu próprio labor; ela consiste no amor que ele sente em si mesmo pela liberdade, na esperança e na fé que o fizeram tomar nas mãos as ferramentas. À medida que ele trabalha, aumentam a esperança, o amor e a fé: quanto mais ativo for e menos esforço desperdiçar, mais aumenta a sua recompensa. Ele se considera um prisioneiro entre outros prisioneiros; a seus próprios olhos, ele não se separa de seus companheiros: é um pecador entre os pecadores, nas entranhas da terra. Porém, enquanto os outros, resignados e sem esperança, dormem ou jogam baralho para passar o tempo, ele avança e trabalha. Encontrou um tesouro, mas escondeu-o de novo (cf. Mt 13:44); ele leva, escondido dentro de si, o Reino de Deus, isto é, o amor, a fé, a esperança de chegar um dia ao ar livre, fora. No momento, sem dúvida, ele só entrevê a liberdade como num espelho (cf. lCor 13:12), mas em esperança já está livre: "Pois fomos salvos em esperança" (Rm 8:24). No entanto, o Apóstolo acrescenta: "e ver o que se espera, não é esperar," para compreendermos melhor o alcance do que precede. Com efeito, quando o prisioneiro obtém a liberdade e a vê face a face, não é mais um prisioneiro entre os outros, sobre a terra. Ele se encontra, então, no mundo da liberdade, daquela liberdade na qual Adão fora criado, e que nos foi restituída no Cristo. Como o prisioneiro, já somos livres em esperança; mas a realização de nossa salvação situa-se para além de nossa vida terrena. Só então poderemos dizer definitivamente: "Estou salvo!" De fato, o mandamento de ser perfeito como nosso Pai celeste é perfeito (cf. Mt 5:48), não pode ser plenamente cumprido no homem enquanto permanece neste mundo. Logo, por que nos foi dado? Os santos respondem: Para que possamos começar desde já o nosso trabalho, mas tendo diante dos olhos a eternidade.

A liberdade é o objetivo do homem; porém, ele não a pode dar a si mesmo, nem recebê-la do seu próximo; ele só a obterá em Deus, diz o bispo São Teófano. Na verdade, o convite à liberdade toma esta forma: "Arrependei-vos!" E o Senhor nos dirige este chamado: "Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso" (Mt 11:28). De que cansaço se trata? Daquele que se sofre para assegurar a própria felicidade temporal? E qual é esse fardo? O dos cuidados e preocupações terrenas? De modo nenhum, respondem os santos. Por isso o Senhor diz ainda: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim — de mim, que jamais pensei em meu bem-estar temporal, nem levei o peso dos cuidados deste mundo, durante a minha vida na terra." Mas, o que obterão os que sofrem por sua salvação e que se cansam sob o peso da oposição do mundo, interior e exteriormente ao mesmo tempo? 

Qual será a parte atribuída aos que tomam sobre si mesmos o jugo do Cristo, que vivem como ele viveu, e que aprendem, não dos homens, nem dos anjos, nem dos livros, mas do Senhor mesmo? Que são instruídos por sua própria vida, pela luz e pela ação, no fundo de si? Que podem dizer, também eles: sou doce e humilde de coração, não me tenho em alta conta, nem ao que posso dizer ou fazer? Todos estes encontrarão o repouso para sua alma. Irão recebê-lo do próprio Senhor. Ficarão livres das tentações, dos sofrimentos, das humilhações, do desânimo, da ansiedade, e de tudo o que perturba o coração do homem. Essa é a interpretação de São João Clímaco (Escada, Degrau 25,4). Ao apresentá-la, ele fala de cristão para cristão. Pois a um coração recriado pela graça, a experiência revela, cada dia mais, que o jugo do Cristo é leve para os que o amam. Mas "... aquele que perseverar até o fim, esse será salvo" (Mt 10:22), e não os desanimados e negligentes. A promessa do Senhor não é para eles. Portanto, não devemos jamais nos cansar. Sejamos firmes, inabaláveis, fazendo incessantes progressos na obrado Senhor, cientes de que a nossa fadiga não é vã no Senhor (lCor 15:58). Uma vez que começamos, não deixemos nunca de realizar as obras de uma sincera conversão. Parar seria recuar.

A obediência

A obediência é outro instrumento indispensável, na luta contra a própria vontade. Segundo são João Clímaco, a obediência é a condenação à morte dos membros do nosso corpo, em benefício da vida do espírito. Ela é ainda a sepultura da vontade própria, e a ressurreição da humildade (Escada, Degrau 3:3).

Lembra-te de que, livremente, te deste ao Senhor como escravo; a cruz que levas no pescoço te deve recordar isso. É através dessa escravidão, que chegarás à verdadeira liberdade. Mas, pode um escravo ter vontade própria? Ele deve aprender a obedecer. Talvez perguntes: A quem devo obedecer? Os santos respondem: obedece aos teus dirigentes (cf. Hb 13:17). Mas continuas: Quem são os meus dirigentes? Onde encontrarei um, quando é hoje tão difícil descobrir um dirigente autêntico? A isso, respondem os santos Padres: a Igreja o providenciou. Desde o tempo dos apóstolos, ela nos deu um mestre que supera a todos os outros, e que nos pode alcançar em toda parte, onde quer que estejamos, e em qualquer circunstância. Quer moremos na cidade ou no campo, quer sejamos casados ou solteiros, pobres ou ricos, esse mestre está sempre conosco, e sempre temos ocasião de obedecer-lhe. Queres conhecer o seu nome? É o santo jejum. Deus não precisa do nosso jejum. Nem tem necessidade da nossa oração. Ele é perfeito, nada lhe falta, e não pode precisar de coisa alguma que nós, suas criaturas, possamos oferecer-lhe. Nada temos para lhe dar; mas, diz São João Crisóstomo, ele aceita que lhe apresentemos as nossas ofertas, para nossa própria salvação. A maior oferenda que poderemos apresentar ao Senhor, somos nós mesmos; e, só o poderemos fazer, abandonando a ele nossa vontade. Aprendemos isso pela obediência; e aprendemos a obedecer pela prática. A melhor maneira de praticar a obediência é a que a Igreja nos fornece ao prescrever dias e períodos de jejum. Ela nos diz, então, de certo modo, como Deus a Adão: "... Podes comer de todas as árvores do jardim; mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, não comerás" (Ge 2:16, 3:3).

Além do jejum, temos outros mestres a quem devemos obedecer. Nós os encontramos a cada passo, nas pequenas coisas de nossa vida cotidiana: basta sabermos reconhecer a sua voz. Tua mulher diz que deves levar a capa impermeável; faz o que ela deseja, e estarás praticando a obediência. Um dos teus colegas de trabalho te pede que vás com ele até um ponto do caminho; acompanha-o, e estarás praticando a obediência. Sentes que uma criança precisa que se ocupem dela e que lhe façam companhia: faze o que podes, e estarás praticando a obediência. Um noviço, no mosteiro, não terá mais ocasiões que tu, na tua casa, de praticar a obediência. E outro tanto encontrarás no trabalho e nas relações com teus vizinhos. A obediência derruba muitas barreiras. Conseguirás a liberdade e a paz, à medida que teu coração praticar a não-resistência. Mostra-te obediente, e cercas de espinhos abrir-se-ão diante de ti. Então, o amor terá lugar para se dilatar. Por meio da obediência, aniquilarás o orgulho, o espírito de contradição, a pretensa sabedoria e a teimosia, que te aprisionam numa grossa carapaça. Enquanto estiveres aninhado nela, não poderás encontrar o Deus de amor e de liberdade. Habitua-te, pois, a alegrar-te, quando se te apresenta uma ocasião de obedecer. É absolutamente inútil procurar criá-la; poderias cair, então, num servilismo artificial, e desviar-te, deleitando-te na tua própria virtude. Não tenhas dúvida de que encontrarás tantas ocasiões de obedecer quantas forem necessárias; e serão exatamente aquelas de que precisas. Se notares que deixaste escapar uma ocasião, censura-te por essa negligência. Agiste como um marinheiro que não aproveitaste um vento favorável.

Progresso e profundidade

Depois das noções elementares e ainda exteriores que precedem, chegamos agora ao combate que se trava nas profundezas de nosso ser. Quando se descasca uma cebola, retiram-se, uma após outra, as peles que a recobrem; finalmente se chega ao coração do bulbo, de onde sai o talo para a luz. Quando chegares ao teu quarto interior, é que perceberás a morada celeste, pois elas são uma única coisa, segundo Santo Isaac, o Sírio. Quando te esforçares por penetrar no teu quarto interior, ali perceberás, além do teu rosto verdadeiro, aquilo que Santo Hesíquio chama de face escura dos etíopes, isto é, os pensamentos maus. São Macário do Egito compara-os a uma serpente escondida em teu coração, e que feriu os órgãos mais vitais da tua alma. Se mataste essa serpente, diz ele, podes orgulhar-te de tua generosidade diante de Deus. Porém, se não a mataste, prostra-te com humildade, como um pobre pecador, e ora a Deus, pois o inimigo está sempre oculto, à espreita. Mas, como poderíamos começar a luta, uma vez que nem mesmo penetramos em nosso coração? Ficamos à porta; mas é preciso bater, com o jejum e a oração, como nos recomendou o Senhor: "... batei e vos será aberto" (Mt 7:7). Bater é agir. Se permanecermos firmes na palavra do Senhor, na pobreza, na humildade, e em tudo o que nos prescreve o Evangelho; se dia e noite batermos à porta de Deus, então, poderemos obter o que procuramos. Quem quer sair do cativeiro e das trevas, deve entrar na liberdade por essa porta. Ali, diz São Macário, receberá a liberdade espiritual, e poderá alcançar o Cristo, Rei celestial.

Humildade e vigilância

Aquele que empreende o combate interior necessita, a todo momento, de quatro coisas: humildade, grande vigilância, vontade de resistir e oração. Trata-se de vencer, com a ajuda de Deus, os "etíopes dos pensamentos," expulsando-os pela porta do coração e esmagando seus nenês contra a rocha (cf. Sl 137:9). A humildade é uma condição prévia, pois o homem orgulhoso é eliminado do combate, uma vez por todas. A vigilância é necessária para reconhecer imediatamente os inimigos, e para conservar o coração livre dos vícios. A vontade de resistir deve estar presente assim que o inimigo seja reconhecido. Porém, visto que "... sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5), a oração é o trunfo mais importante, do qual depende todo o combate. Um rápido exemplo te ajudará a compreender: através da vigilância, percebes um inimigo que se aproxima da porta do teu coração: és tentado a pensar mal de um de teus irmãos. Sem demora, fica alerta a tua vontade de resistir, e afastas a tentação. Mas, no último instante, és assaltado por um pensamento de amor-próprio: "Escapei, graças à minha vigilância!" E tua vitória aparente se torna uma terrível derrota. A humildade soçobrou. Se, ao contrário, abandonares a teu Senhor todo o combate, já não terás razão de estar contente contigo mesmo, e continuarás livre. Notarás bem depressa que não há arma com mais poder do que o Nome do Senhor. 

Esse exemplo mostra que o combate deve ser travado sem descanso. As sugestões más penetram em nós como uma rápida torrente, e é preciso barrar a estrada com grande rapidez. São os "... dardos inflamados do Maligno" (Ef. 6:16), de que fala o apóstolo; e eles chovem, sem cessar, sobre nós. Sem cessar, também, por conseguinte, devemos clamar ao Senhor. "Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestes" (Ef 6:12). O combate se inicia pela sugestão, conforme explicam os santos. Vem depois a relação, quando penetramos mais no que a sugestão nos deu. A terceira fase é o consentimento, e a quarta é o pecado cometido exteriormente. A passagem de uma para a outra, dessas quatro fases, pode ser instantânea; mas também é possível que elas se sucedam como tantos outros degraus, o que permite distingui-las. A sugestão bate à porta, como um vendedor ambulante que oferece a sua mercadoria. Se o deixarmos entrar, ele começa com a sua lábia, e é difícil livrar-se dele, mesmo percebendo que sua mercadoria não vale nada. Vem o consentimento, e finalmente a compra, muitas vezes a contragosto. Deixamo-nos vencer por um enviado do Maligno. A respeito da sugestão, disse Davi: "A cada manhã eu farei calar todos os ímpios da terra" (Sl 101:8), pois "em minha casa não habitará quem pratica fraudes" (ibid. 7). Sobre o consentimento, disse Moisés: "Não farás aliança nenhuma com eles" (Ex 23:32). O primeiro versículo do Salmo l fala da relação, segundo a interpretação dos Padres: "Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios." De fato, é muito importante resistir aos inimigos "às portas" (Sl 127:5), sem deixá-los entrar. Mas pode acontecer que seja numerosa a multidão que se comprime diante da porta; sabemos também que "... o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz" (2Cor 11:14). Por isso nos advertem os santos Padres: que conservemos o coração puro de qualquer sugestão, sensação ou imaginação, sejam de que natureza forem. Com efeito, não está em nossas mãos separar as sugestões más das boas: só o Senhor o pode. Devemos, pois, abandonar tudo nele com confiança,sabendo que "... se Iahweh não guarda a cidade, em vão vigiam os guardas" (Sl 127:1). Em contrapartida, depende de nós ficarmos vigilantes para que não surja nenhum pensamento vil em nosso coração (cf. Dt 15:9); para que ele 'não se transforme num mercado onde uma multidão heterogênea se agita num contínuo tumulto, de maneira que se torna impossível reconhecer o que se passa. Ladrões e malfeitores podem, então, encontrar-se ali; mas os anjos da paz, em vão os buscarias. A paz e o Senhor da paz fogem de um lugar assim. Por isso, ele nos disse por seu apóstolo: "... santificai os vossos corações" (Tg 4:8); e ele próprio nos adverte: "Atenção, e vigiai" (Mc 13:33). Pois, se ele vier e encontrar impuros os nossos corações, e nós mesmos adormecidos, dirá: "... não vos conheço!" (Mt 25:12). 

A hora dessa vinda é sempre iminente: se não for no momento presente, será no seguinte; e se não for no seguinte, será agora. Porque, como o Reino dos céus, a hora do julgamento está sempre presente em nosso coração. Assim, pois, se o guarda não vigiar, o Senhor também não vigiará; mas se o Senhor não vigia, o guarda vigia em vão. Por conseguinte, vigiemos à porta do nosso coração, mas sempre chamando o Senhor, incessantemente, para que nos ajude. Não olhes para o lado do inimigo. Não te ponhas jamais a discutir com ele, porque não conseguirás resistir. Devido à sua experiência milenar, ele sabe exatamente como proceder para te abater de imediato. Porém, fica no meio do campo de batalha do teu coração, e dirige para o alto o teu olhar. Assim, o teu coração será protegido de todos os lados ao mesmo tempo. O Senhor mesmo enviará os seus anjos para guardar-te, à direita e à esquerda, impedindo que sejas atacado pelas costas. Em outras palavras, quando fores perseguido pela tentação, não te deves deter para examiná-la, refletir, pesar prós e contras. Agindo assim, já maculas teu coração, perdes tempo; já é uma vitória para o inimigo. Ao contrário, volta-te sem demora para o Senhor e diz: "Senhor, tende piedade de mim, pecador!" Quando tiveres retirado os teus pensamentos da tentação, o Senhor virá. Nunca fiques seguro de ti mesmo. Não formes jamais no teu espírito uma boa resolução deste gênero: "Oh, sim! Vou fazer tudo muito bem!" Nunca tenhas confiança em tuas próprias forças, para resistir a uma tentação, seja ela qual for, grande ou pequena. Pensa, ao contrário: "Tenho certeza de que cairei, quando ela vier." A confiança em si é um aliado perigoso. Quanto menos te apoiares nela, mais seguro estarás. Reconhece que és fraco, totalmente incapaz de resistir à menor insinuação do demônio. E então espantado, descobrirás que não podes absolutamente nada. Visto que farás do Senhor o teu refúgio, poderás imediatamente proclamar que "a desgraça jamais te atingirá" (Sl 91:10) A única desgraça que pode acontecer a um cristão é o pecado. Se te sentes amargurado por teres caído, de um modo ou de outro; se te censuras duramente e se multiplicas as resoluções de "nunca mais recomeçar," é sinal certo de que estás no caminho errado: isso provém do fato de que tua autoconfiança se sente ferida. Quem não confia em si mesmo, fica profundamente surpreso de não ter caído mais baixo, e se sente cheio de reconhecimento. 

Agradece a Deus por lhe ter enviado, a tempo, o socorro sem o qual ele teria sido completamente esmagado. Levanta-se rapidamente, e começa a oração por um triplo "Deus seja louvado!" Uma criança mimada fica muito tempo chorando, quando cai. Procura atrair uma manifestação de simpatia, uma carícia que a console. Mas tu, não sejas pretensioso; pouco importa se sofres. Ergue-te e recomeça o combate. É normal que se fira aquele que luta. Só os anjos não caem nunca. Mas roga a Deus que te perdoe e não permita que sejas novamente surpreendido. Não sigas o exemplo de Adão, jogando a culpa em tua mulher, ou no demônio, ou em qualquer outra causa exterior. A causa da tua queda está em ti mesmo: enquanto o Mestre estava fora de casa, deixaste os ladrões e os malfeitores entrarem e pilharem tudo à vontade. Roga a Deus que isso não se repita. Perguntaram a um monge: "Que fazeis aqui, no mosteiro?" Ele respondeu: "Caímos e nos levantamos, caímos e nos levantamos, caímos e nos levantamos outra vez." De fato, em tua vida, poucos minutos se passam sem que caias pelo menos uma vez. Então, ora para que Deus tenha piedade de ti. Ora para obter perdão e graça; suplica, como o pode fazer um criminoso condenado à morte, e lembra-te de que é somente pela graça que fomos salvos (cf. Ef 2:5). Não podes, de modo algum, reivindicar a libertação e a graça como algo que te é devido. Considera-te um escravo fugido que, prostrado diante de seu senhor, suplica que o poupe. Essa deve ser a tua oração, se queres seguir a doutrina de Santo Isaac, o Sírio, e "abandonar o fardo interior de teus pecados, para descobrir, dentro de ti mesmo, o atalho que sobe, tornando possível a ascensão."

A oração — l

Do que precede, conclui-se que a oração é o primeiro e, sem comparação, o meio mais importante que devemos empregar no combate. Aprende a orar, e vencerás todas as Potências do mal que possam, algum dia, te assaltar. A oração é uma das asas que nos erguem para o céu; a outra é a fé. Com uma asa só, não se pode voar: a fé sem a oração é tão vã quanto a oração sem a fé. Mas, se tua fé é frágil demais, é bom clamar: "Senhor, dai-me a fé!" É muito raro essa oração não ser atendida. 

O grão de mostarda, como disse o Senhor, torna-se uma grande árvore. Quem quer receber sol e ar, abre as janelas. Seria ridículo ficar por trás das cortinas fechadas e queixar-se: "Não há luz; não há nem um pouco de ar!" Essa imagem mostra o papel da oração: o poder de Deus e a sua graça estão sempre e em toda parte ao alcance de cada um de nós; porém, só podemos receber a nossa parte se a desejamos e se agimos conforme esse desejo. Sem a oração, não esperes encontrar o que procuras A oração é o início e o fundamento de todo esforço para Deus. É ela que faz brilhar o primeiro raio de luz, que te faz sentir antecipadamente o gosto do que procuras, e que desperta o desejo de progredir. A oração é, segundo São João Clímaco, o fundamento do mundo. Um outro santo comparou o universo a um globo, que deve a sua estabilidade à Igreja que ali está implantada; mas a própria Igreja é sustentada pela oração. 

A oração é uma troca e um encontro entre a humanidade e Deus. É a ponte pela qual o homem passa para além do seu "eu" carnal e de suas tentações; e acede ao verdadeiro "eu" espiritual e à liberdade. Ela é a muralha contra todas as desordens, a arma contra a dúvida; acaba com a tristeza e contém a ira. A oração é um alimento para a alma e uma luz para o espírito; consegue para nos, já neste mundo, uma parte da alegria que virá. Para aquele que ora verdadeiramente, a oração é a sentença, o tribunal, o trono de Juiz; antecipa o julgamento final para agora, para o momento presente, no fundo do coração. A oração e a vigilância são a mesma e única coisa, pois é em companhia da oração que deves ficar à porta do teu  coração. Olhos bem abertos percebem imediatamente a menor modificação que se produza em seu campo de visão; assim acontece com o coração que ora sem cessar.

Na aranha se encontra outro exemplo: ela fica no meio da teia, ouve a menor mosca que venha prender-se nela, e mata-a. Assim também, a oração deve ficar, como sentinela, no meio do teu coração: ao menor estremecimento que revele a presença de um inimigo, ela o mata. Abandonar a oração, é desertar do posto quando se está de guarda. A porta fica, então, aberta às hordas devastadoras, e os tesouros que se acumularam são entregues à pilhagem. Os ladrões não precisam de muito tempo para fazer o seu trabalho: a ira, por exemplo, pode destruir tudo num instante.

A oração — II

O que precede esclarece que, quando os Padres falam de oração, não estão se referindo a orações ocasionais, nem às orações da manhã e da noite, nem das que se fazem antes das refeições; para eles, oração é sinônimo de oração perpétua; de vida de oração. Tomaram ao pé da letra a ordem "... orai sem cessar" (1Ts 5:17). Compreendida desse modo, a oração é a ciência das ciências e a arte das artes. O artista trabalha com argila, tintas, palavras ou sons; na proporção de seu talento, ele lhes confere harmonia e beleza. A matéria com a qual o homem de oração trabalha, é viva, é a própria natureza humana. Por meio da oração, ele a modela, dando-lhe harmonia e beleza. É ele o seu primeiro beneficiário, mas, por seu intermédio, essa transfiguração se estende a muitos outros. O cientista estuda as coisas criadas e as aparências; o homem de oração se eleva até o Criador de todas as coisas. Ele se interessa, não pelo calor, mas pelo Princípio do calor; não pelas funções vitais, mas pela Origem da vida; não pelo seu próprio "eu," mas por Aquele que lhe dá a consciência do seu "eu," pelo seu Criador. O artista e o cientista devem fazer muitos sacrifícios e muitos esforços para chegar à maturidade da sua arte ou de seu saber, e jamais atingem toda a perfeição que ambicionam. Se esperassem sempre a inspiração para se porem a trabalhar, nunca poderiam aprender nem mesmo os rudimentos de sua profissão. É necessária ao violinista uma prática perseverante, para se iniciar nos segredos de seu instrumento tão delicado. Façamos a mesma coisa; quanto mais delicado ainda é o coração humano! "Chegai-vos para Deus e ele se chegará para vós" (Tg 4:8). Cabe a nós, pôr mãos à obra. Se dermos um passo para ele, dará dez para nós — ele que, avistando o filho pródigo, que vinha ainda longe, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos (cf. Lc 15:20). É preciso, pois, que te decidas, uma vez por todas, a dar os primeiros passos, ainda inseguros, para Deus, se realmente queres aproximar-te dele. Que não te perturbe a falta de jeito, no início do caminho da oração. Não cedas ao respeito humano, à indecisão, aos risos zombeteiros dos demônios que tentam convencer-te de que teu comportamento é ridículo, de que teu desígnio é uma bobagem que não passa de fruto da tua imaginação. Não há nada que o Inimigo tema tanto quanto a oração. Na criança, o desejo de ler aumenta à medida que ela progride no aprendizado da leitura; quando aprendemos uma língua estrangeira, é tanto maior o prazer que sentimos falando-a, quanto melhor a dominamos. O prazer aumenta com o progresso.

O progresso vem pela prática. A prática se torna mais fácil com o progresso. O mesmo se pode dizer da oração. Não esperes, pois, nenhuma inspiração extraordinária, para pôr mãos à obra. O homem foi criado para orar, como o foi para falar e para pensar. Mas ele foi mais especialmente criado para orar, pois "Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar" (Gn 2:15). E onde encontrarás o jardim de Éden, a não ser em teu coração? Como Adão, deves chorar sobre o Éden perdido pela tua intemperança. Estás vestido de folhas de figueira e com uma túnica de pele (cf. Gn 3:21), que são a tua condição mortal, com suas paixões. Entre ti e a estreita entrada do atalho que leva à árvore da vida, interpõem-se as tenebrosas chamas dos desejos terrenos; e somente aos que venceram esses desejos é concedido "comer do fruto da árvore que está no paraíso de Deus" (Ap 2:7). Adão infringiu só um mandamento de Deus, e tu, como diz Santo André de Creta, tu os transgrides todos, cada dia e a cada momento. Das profundezas de teu estado de pecado, e de teu endurecimento, tua oração deve elevar-se para ganhar as alturas. Muitas vezes, um criminoso endurecido não tem consciência de sua culpa; é próprio do endurecimento. É esse o teu caso. Mas, que não te assuste o endurecimento do teu coração: a oração o abrandará, pouco a pouco.

A oração — III

Quando decidimos começar regularmente a oração da manhã, nós o fazemos, em geral, não porque já tenhamos uma certa facilidade natural para orar, mas sim com a finalidade de conseguir alguma coisa que ainda não possuímos. Ora, quem possui uma coisa, corre o risco de se preocupar, com medo de perdê-la; e quem não a possui ainda, fica ansioso por consegui-la. Por isso, deves começar a praticar a oração, sem nada esperar de ti mesmo, sem procurar "chegar a alguma coisa." Se tens a possibilidade de um quarto só teu, podes seguir ao pé da letra, e tranquilamente, as indicações do Manual de Orações: "Quando acordas, antes de começar o dia, coloca-te respeitosamente diante de Deus, que tudo vê. Faz o sinal da cruz e diz: Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém."

"Depois de ter invocado assim a Santíssima Trindade, fica em silêncio por alguns instantes, para que teus pensamentos e teus sentimentos se libertem das preocupações deste mundo. Em seguida, recita, sem pressa e de todo coração: Ó Deus, tende piedade de mim, pecador." Vêm depois as outras orações, começando pela do Espírito Santo, da Santíssima Trindade, e o Pai Nosso, que precedem o conjunto das orações da manhã. É melhor ler apenas algumas, tranquilamente, do que lê-las todas, com pressa.

Essas orações são fruto da experiência que a Igreja acumulou ao longo dos séculos. Através delas, entras na vasta comunhão do Povo de Deus em oração. Não estás sozinho; és uma célula no Corpo da Igreja, que é o Corpo de Cristo. Pela recitação dessas fórmulas, aprenderás também a constância e a paciência, necessárias, não apenas para o corpo, mas também para o coração e o espírito, para que se fortaleça a tua fé. A verdadeira oração é aquela em que o espírito e o coração se põem em uníssono com as palavras; a atenção é, pois, indispensável. Não deixes que teus pensamentos fiquem vagando; recolhe-os continuamente e, cada vez que te deixas levar para longe de tua oração, volta ao ponto em que a deixaste Poderás recitar o saltério da mesma forma. Aprenderás assim a praticar a perseverança e a vigilância na oração. Quem fica diante de uma janela aberta, ouve os ruídos de fora; não pode ser de outra forma. Mas, ele pode, ou não, prestar atenção às palavras que chegam até ele; isso depende da sua vontade. O homem em oração é constantemente solicitado por um fluxo de pensamentos forasteiros, de sentimentos e de impressões. Conter o fastidioso desenrolar desse filme interior, é tão impossível quanto impedir o ar de circular num cômodo cuja janela esteja aberta. Mas depende de cada um prestar atenção nisso, ou deixar de prestar. Dizem os santos ser esse um aprendizado que só se faz pela prática. Quando oras, teu "eu" deve calar-se. Não ores para que se realizem os teus desejos terrenos; mas dizes: "Que seja feita a tua vontade" Não te sirvas de Deus como de um mandatário. Fica calado, e deixa a oração falar.
Segundo São Basílio, tua oração deve conter quatro elementos: adoração, ação de graças, confissão dos pecados e pedido de salvação. Não te preocupes com teus próprios interesses e não ponhas a oração a seu serviço; mas, "busca em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas te serão acrescentadas" (Mt 6: 33). Aquele que procura fazer a própria vontade, e cuja oração não coincide, pois, com a vontade de Deus, encontrará muitos obstáculos no caminho, e cairá incessantemente nas emboscadas do Inimigo. Ficará descontente, irascível, infeliz, hesitante, impaciente ou inquieto; e quando o espírito se encontra nesse estado, ninguém pode permanecer em oração. A oração daquele que tem alguma queixa contra seu próximo é impura. Só podemos e devemos dirigir censuras a uma única pessoa: a nós mesmos. Sem a auto-acusação, a oração será tão vã quanto se, dentro de nosso coração, censurássemos outra pessoa. Não te preocupes por sentires sequidão em ti. A chuva vivificante vem do alto, e não de teu solo ingrato, incapaz de produzir mais do que sarças e espinhos. Aliás, não esperes "estados de oração" extraordinários, êxtases, enlevos ou outras experiências em que encontrarias tua própria satisfação. Não se ora para procurar prazer. "Entristecei-vos, cobri-vos de luto e chorai (...) Humilhai-vos diante do Senhor e ele vos exaltará" (Tg 4:9-10). Pensa no que és e suplica ao Senhor que tenha piedade de ti. O resto depende dele.

A oração — IV

A oração não deve cessar quando terminamos as orações da manhã. Trata-se agora de manter presente a oração ao longo do dia, apesar da diversidade e da complexidade de nossas ocupações cotidianas. O bispo Teófano, o Recluso, aconselha aos principiantes que escolham um versículo curto do saltério, apropriado às suas necessidades; por exemplo, "Senhor, apressa-te em socorrer-me," ou "Criai em mim um coração puro" ou "Bendito és tu, Senhor," etc. O saltério oferece uma grande quantidade dessas orações mais ou menos curtas. Durante todo o dia, podemos guardar no espírito essa oração, e repeti-la com a maior freqüência possível, seja mentalmente, seja em voz baixa ou, melhor ainda, em voz alta, se estivermos sozinhos e se ninguém nos ouvir. No ônibus ou no elevador, no trabalho ou à mesa, tanto quanto possível, retoma-se a oração e fixa-se a atenção no conteúdo das palavras. Assim passa o dia, até a noite, quando se arruma um momento de tranqüilidade para ler a oração da noite no Manual de Orações, antes de deitar. E essas orações curtas também servem para os que não gozam de isolamento suficiente para recitar as orações ordinárias da manhã e da noite. De fato, elas nos podem acompanhar sempre e por toda parte. Em casos assim, a solidão interior supre a ausência de solidão exterior.

A repetição freqüente é importante. É por repetidas batidas de asas que o pássaro se eleva acima das nuvens; o nadador tem de reproduzir inúmeras vezes o mesmo movimento, para chegar ao objetivo desejado. Mas, se o pássaro pára de voar, deverá contentar-se em permanecer nos nevoeiros da terra; e o nadador que pára, corre o risco de perecer no abismo ameaçador que o espreita.
Faz, assim, a tua oração, hora após hora, dia após dia, perpetuamente. Mas ora com simplicidade, sem ênfase, sem complicações, sem fazeres a ti mesmo todo tipo de perguntas: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã" (Mt 6:34). Quando chegar o momento, a resposta te será dada.
Abraão partiu sem perguntar: "Como é a terra que me vais mostrar? O que me espera lá?" Simplesmente "... partiu, como lhe disse Iahweh" (Gn 12:4). Faz como ele. Abraão tomou todos os bens que tinha reunido (ibid. 5). Imita-o também nisso; leva contigo, na viagem, todo o teu ser; não deixes para trás nada que possa reter uma parte da tua afeição, na terra que deixaste.
Noé levou cem anos para construir a arca, peça por peça. Faz a mesma coisa; constrói peça por peça, com toda a paciência, em silêncio, dia após dia, e não te preocupes com os que te cercam. Lembra-te: Noé, no seu tempo, estava sozinho no mundo e "... andava com Deus" (Gn 6:9), isto é, na oração. Pensa também na dificuldade, na escuridão, no mau cheiro em que ele deve ter vivido no interior da arca, antes de poder sair para o ar livre e erguer um altar ao Senhor. O ar puro e o altar, tu os descobrirás em ti, diz São João Crisóstomo, mas só, quando concordares em passar pela mesma porta estreita por que passou Noé. Também como Noé, faz "tudo o que Deus te ordenou" (Gn 6:22), e constrói "com orações e súplicas" (Ef 6:18) o barco que possibilitará que passes do teu "eu" carnal e dos teus interesses, múltiplos e egoístas, para a plenitude do Espírito. Quando o Único vem ao nosso coração, diz são Basílio, o Grande, a multiplicidade desaparece. Teus dias passam, então, numa grande sensação de plenitude, sob a proteção daquele que tem a plenitude do universo em suas mãos.

A sobriedade do corpo e do espírito, condição da oração

Quando nos entregamos à oração dessa maneira, é importante não dar plena liberdade ao corpo. Santo Isaac, o Sírio, diz que uma oração em que o corpo não esteja desconfortável e o coração aflito, permanece embrionária, sem alma. Ela leva em si o germe da autoconfiança e do orgulho, que conduzem o nosso coração a crer que fazemos parte, não apenas dos "chamados," mas também dos "poucos escolhidos" (Mt 22:14). Não confies nesse tipo de oração, pois é a raiz de muitas ilusões. Como teu coração continuou apegado à carne, teu tesouro também continua a ser de ordem carnal; e, enquanto acreditas, talvez, que atinges o céu, consegues apenas o que também é carnal. A alegria que sentes carece de pureza e se traduz de modo exuberante; tens urgência de falar, sentes vontade de catequizar e converter os outros, sem teres sido chamado pela Igreja a exercer o ofício de mestre. Interpretas a Escritura conforme a tua mentalidade carnal, e não consegues suportar que te contradigam; defendes apaixonadamente o teu ponto de vista. Tudo isso porque te esqueceste de disciplinar o corpo e, por isso, de humilhar o coração. A verdadeira alegria é tranquila e estável; por isso, o apóstolo nos ordena: "Ficai sempre alegres" (1Ts 5:16). Ela resulta de um coração que derrama lágrimas sobre o mundo e sobre si mesmo, porque todos se desviaram da luz que não se apaga. A verdadeira alegria se consegue através das lágrimas. Por esse motivo, está escrito: "Bem-aventurados os aflitos" (Mt 5:5), e: "... Bem-aventurados vós, que agora chorais," mortificando o "eu" carnal, "porque haveis de rir" pelo "eu" espiritual (Lc 6:21). A verdadeira alegria é reconfortante, uma alegria que brota, não só do conhecimento de nossa própria fraqueza, mas também da misericórdia do Senhor; e ela não precisa de um riso ruidoso para se expressar. Pensa ainda nisto: quem se apega às coisas da terra, pode encontrar alegria, mas também agitação, inquietação e aflição; seu espírito se expõe a contínuas flutuações. A "alegria do teu Senhor" (Mt 25:21), ao contrário, é estável, porque Deus é imutável. Portanto, vigia a tua língua e disciplina o teu corpo, através do jejum e de uma vida austera. A tagarelice é o grande inimigo da oração. Por isso, deveremos dar contas de toda palavra inútil (Mt 12:36). Quando queremos manter limpo um apartamento, procuramos impedir que entre a poeira da rua. Preserva teu coração das tagarelices e dos mexericos sobre os acontecimentos do dia. "... Notai como um pequeno fogo incendeia uma floresta imensa. Ora, também a língua é um fogo" (Tg 3:5-6). Porém, sem ar, a chama se apaga. Deixa também sem ar as tuas paixões, e elas se extinguirão pouco a pouco. Se sentes inflamar-se a tua ira, cala-te, e não deixes que ela transpareça Fala dela somente a Deus. Assim apagarás a mecha que acabou de se acender. Quando te perturbas pelos erros dos outros, segue o exemplo de Sem e de Jafé, e cobre-os com o manto do silêncio (Gn 9:23); assim sufocarás o desejo de julgar, antes que as chamas subam. 

O silêncio está pronto para ser preenchido com a oração atenta, como um vaso vazio para se encher de água. Porém, quem quiser praticar a arte da vigilância espiritual, não é só da língua que deve cuidar. Deve cuidar de si mesmo (Gl 6:1), minuciosamente, e estender a solicitude às profundezas do seu ser. Nessas profundezas, descobrirá imensos espaços interiores, onde se agita um grande número de lembranças, imaginações, pensamentos, que devem ser reprimidos. Não despertes uma lembrança que poderá cobrir de lama a tua oração; não revolvas as impressões que antigos pecados deixaram em ti. Não sejas "como o cão que torna ao seu vômito" (Pr 26:11). Não deixes que a tua memória se demore em fatos que poderiam reanimar teus maus desejos; não permitas que tua imaginação divague. O baluarte preferido do demônio é exatamente a nossa imaginação. Por meio dela, ele nos atrai para a "relação," isto é, a discussão com ele; daí, para o consentimento e para o pecado em ato. Ele semeia a incerteza e a agitação entre os teus pensamentos; ele te sugere todo tipo de raciocínios, de provas, de perguntas vãs e de respostas que damos a nós mesmos. Opõe, a isso tudo, a palavra do salmista: "Afastai-vos de mim, perversos, eu vou guardar os mandamentos do meu Deus" (Sl 119,115).

O jejum

Um jejum proporcional às tuas forças favorecerá a vigilância espiritual. Não se pode meditar as coisas de Deus com estômago muito cheio, dizem os mestres espirituais. Para um amigo da boa mesa, os segredos menos misteriosos da Santíssima Trindade, se assim se pode dizer, permanecem escondidos. O Cristo nos deu o exemplo com seu longo jejum; quando venceu o demônio, saía de um jejum de quarenta dias. Gostarias de consegui-lo com menor sacrifício? Depois, só depois, "... os anjos de Deus se aproximaram e puseram-se a servi-lo" (Mt 4:11). Para te servir, eles também esperam. O jejum refreia a tagarelice, diz São João Clímaco (Escada, Degrau 14:34). Ele te fará misericordioso e disposto a obedecer; destrói os pensamentos maus e elimina a insensibilidade do coração. Quando o estômago está vazio, o coração é humilde. Quem jejua ora com espírito sóbrio, ao passo que o espírito do intemperante é repleto de imaginações e de pensamentos impuros. O jejum é uma maneira de exprimir o amor e a generosidade; através dele, sacrificam-se os prazeres da terra, para obter as alegrias do céu. Uma parte excessivamente grande de nossos pensamentos é açambarcada pela preocupação com a subsistência e com os prazeres da mesa; gostaríamos de nos libertar dessa preocupação. Assim, o jejum se mostra como uma etapa do caminho da libertação, e um aliado indispensável na luta contra os desejos egoístas. Ao lado da oração, o jejum é um dos mais preciosos dons concedidos aos homens, caro a todos os que fizeram a experiência. 

Quando jejuamos, sentimos crescer o nosso reconhecimento para com Deus, que deu ao homem o poder de jejuar. O jejum dá acesso a um mundo de cuja existência mal suspeitas. Todos os pormenores da tua vida, tudo o que se passa em ti e ao teu redor, é visto sob uma nova luz. O tempo que passa será utilizado de um modo novo, rico e fecundo. Durante as vigílias, a modorra e a confusão dos pensamentos dão lugar a uma grande lucidez de espírito; ao invés de nos revoltarmos contra o que nos contraria, nós o aceitamos calmamente, na humildade e na ação de graças; problemas que pareciam graves e complexos, resolvem-se por si mesmos, com a mesma simplicidade do desabrochar da corola de uma flor. A oração, o jejum e as vigílias são a maneira de bater à porta que desejamos ver abrir-se.
Os santos Padres muitas vezes consideraram o jejum uma medida de capacidade: se jejuamos muito, é que amamos muito; e se amamos muito, é que muito nos foi perdoado (cf. Lc 7:47). Aquele que jejua muito, receberá muito. No entanto, os santos Padres recomendam que se jejue com medida: não é preciso impor ao corpo uma fadiga excessiva, pois a própria alma se prejudicaria com isso. Tampouco é preciso começar a jejuar muito de repente; todas as coisas exigem uma adaptação, e cada um deve levar em conta a própria compleição e as próprias ocupações. Evitar alguns tipos de alimentos seria condenável: toda alimentação é um dom de Deus. Contudo, é prudente abster-se dos alimentos que causam moleza ou que só servem para deleitar o gosto: pratos muito condimentados, carnes, álcool, etc... Quanto ao resto, pode-se comer de tudo o que é barato e fácil de encontrar. Para os Padres, jejuar com medida significa, no entanto, fazer uma única refeição por dia, refeição essa suficientemente leve, para evitar a saciedade.

É preciso evitar o exagero

A experiência demonstra que o pianista que toca com excessivo ardor, ou o escritor que escreve depressa demais, é vítima de cãibras. Desanimado, sem poder fazer nada, vê-se de repente obrigado a interromper o trabalho, ele que, um minuto antes, estava tão entusiasmado. E a inação expõe a muitas influências más. Esse exemplo contém uma lição para ti. O jejum, a obediência, a austeridade de vida, a atenção, a oração, constituem um conjunto de práticas necessárias, mas não passam de práticas. E, toda prática deve ser empregada com naturalidade, calmamente, levando em conta a medida das próprias forças (cf. Lc 14:28-32), evitando qualquer exagero. "... Levai, pois, uma vida de autodomínio e de sobriedade, dedicada à oração" (1Pd 4:7), recomenda-nos o apóstolo Pedro e, por ele, o Senhor mesmo. É possível embriagar-se com outra coisa que não seja o álcool. Igualmente perigosa é a auto-exaltação, que provoca excessiva confiança em si mesmo, e a atividade apressada que dela resulta. Animados por um zelo sem reservas, que se traduz por exageros e falta de comedimento, semeamos assim, no terreno da vida espiritual, o que cremos serem sacrifícios. Mas os frutos que colhemos são duvidosos: tensão excessiva, impaciência quanto aos defeitos do próximo, justificação própria. Trata-se, pois, de "... não se desviar, nem para a direita, nem para a esquerda" (Dt 5:32), e de não ter nem a mais leve confiança em si mesmo.

Se não vemos em nós frutos abundantes de amor, de paz, de alegria, de moderação, de humildade, de simplicidade, de retidão, de fé e de paciência, é vão todo o nosso trabalho, como nos previne São Macário do Egito. Devemos trabalhar para a colheita, mas essa colheita é a obra do Senhor. Fica, pois, atento a ti mesmo e usa de discernimento. Se notares que te tornas irritadiço e exigente para com os outros, diminui um pouco o peso do teu fardo. Se procuras examinar a conduta dos outros, dar-lhes lições, dirigir-lhes observações, estás no caminho errado: quem renuncia verdadeiramente a si mesmo, não tem nada a censurar nos outros. Se achas que as pessoas que te cercam, ou as circunstâncias exteriores, te incomodam e te constrangem, é porque ainda não compreendeste em que consiste o teu trabalho: tudo o que, à primeira vista, parece constranger-te, na realidade te é dado como ocasião de aceitar os outros, de ser paciente e de obedecer. Um homem humilde não pode ser constrangido pelos outros: pode apenas constranger. Passa, pois, despercebido, evita tomar a dianteira, esconde-te. Entra no teu quarto e fecha a porta (Mt 6:6), mesmo quando és obrigado a permanecer no tumulto de uma companhia numerosa. E quando, às vezes, isso se torna demasiadamente difícil de suportar, sai, vai a qualquer lugar, contanto que possas ficar só; clama de toda a tua alma ao Senhor para que te ajude, e ele te ouvirá. Considera-te como uma roda, dizia o staretz Ambrósio. Quanto mais de leve a roda toca a terra, mais ela gira e avança com facilidade. Não penses nas coisas terrenas, não fales delas, não te preocupes com elas mais do que o necessário. Mas lembra-te também de que, se uma roda fica inteiramente no ar, não pode girar.

Do uso das realidades materiais

Somos feitos de alma e de corpo; não podemos fazer abstração dessa dualidade em nosso comportamento. Por conseguinte, usa as realidades materiais. O Cristo conhece a nossa fraqueza, e empregou, como meios, por nossa causa, palavras e gestos, saliva e lama. Por nossa causa, quis que seu poder vivificante se comunicasse pela orla de sua veste (cf. Mt 9:20, 14:36), pelos aventais e lenços que haviam tocado o corpo de Paulo (cf. At 19:12), e até pela sombra do apóstolo Pedro (cf. At 5:15). Assim, ao longo de tua dura peregrinação pelo caminho estreito, apóia-te em todas as coisas terrenas como em um bastão, utilizando-as para te lembrares de Deus: que a brancura da neve e a limpidez do céu, o olho colorido da mosca e o calor do fogo, e todas as criaturas que teus sentidos percebem, te lembrem o Criador. Mas, recorre principalmente aos meios que a Igreja te oferece para "entregar teus membros a serviço da justiça para a santificação" (Rm 6:19). Antes de qualquer outra coisa, a Santa Comunhão do Senhor; mas também os outros mistérios e sacramentos, e as Santas Escrituras. A Igreja também te oferece os santos ícones da Mãe de Deus, dos Anjos e dos Santos, a oração feita diante deles, as velas e as lâmpadas, a água benta, o brilho do ouro, o canto. Recebe tudo isso com agradecimento, para tua edificação e consolo, benefício e progresso, enquanto prossegues o teu caminho rumo a um objetivo mais distante. Não temas a manifestação exterior do amor que tens pelo teu Senhor misericordioso e cheio de amor; beija a cruz e os ícones; enfeita-os com flores. Se apenas impedíssemos que se exprimisse exteriormente o mal que está em nós, a nossa boa vontade poderia respirar livremente. 

Se recebêssemos com amor o que nos é dado por amor, a atividade do nosso amor se tornaria mais ampla e mais poderosa; e é exatamente esse o objetivo de nossos esforços. Quanto mais copioso é um rio, mais se alarga a sua embocadura. Utiliza o teu próprio corpo como um auxiliar no teu combate. Submete-o e torna-o independente dos caprichos do homem velho. Faz com que ele partilhe os teus sentimentos de compunção: se queres aprender a humildade, torna humilde o teu próprio corpo e inclina-o para a terra. Ajoelha-te, com o rosto em terra, tantas vezes quantas puderes, quando estás só; mas levanta-te logo, pois toda queda é seguida de nossa elevação no Cristo. Faz muitas vezes o sinal da cruz: é uma oração sem palavras. Em alguns instantes, sem estar sujeito à lentidão da palavra, ele exprime a tua vontade de participar da vida do Cristo e de crucificar a tua carne; de aceitar, sem murmurar, tudo o que te envia a Santíssima Trindade. Por outro lado, o sinal da cruz é uma arma contra os espíritos maus: utiliza freqüentemente essa arma, atento ao que fazes. Para construir uma casa, é necessário montar uma estrutura. Só um homem forte não precisa de apoio externo. Mas, serás um homem forte? Não serás, antes, um fraco entre os fracos? Será que és mais que uma criança?

Os momentos de escuridão

Ora o céu está nublado, ora claro; depois se torna novamente chuvoso. Assim é também a natureza humana. É sempre de se esperar que, de quando em quando, as nuvens cubram o sol. Os próprios santos conheceram momentos, dias e semanas de escuridão. Diziam então que "Deus os havia abandonado," para fazê-los tomar verdadeiramente consciência da radical pobreza que vivem quando são entregues assim, a si mesmos, e privados de apoio. São inevitáveis esses momentos de escuridão, em que tudo parece sem sentido, absurdo e vão, em que a gente é importunada pela dúvida e tentações. Mas, até eles podem ser proveitosamente utilizados. O melhor meio de não se deixar abater durante esses dias sombrios, é seguir o exemplo de Santa Maria do Egito. Durante quarenta e oito anos, ela morou no deserto, para além do Jordão; quando as tentações se abatiam sobre ela, e a lembrança da sua vida de pecado em Alexandria, solicitava que ela renunciasse à permanência voluntária no deserto, lançava-se ao solo, clamava a Deus, pedindo ajuda, e só se levantava quando seu coração voltava a ser humilde. 

Os primeiros anos foram penosos. Muitas vezes ela teve de ficar nesse estado por longos dias. Mas, após dezessete anos, chegou o tempo do descanso. Em períodos assim, permanece calmo. Não te deixes persuadir a frequentar mais a vida social, nem a procurar uma diversão. Não tenhas piedade de ti mesmo; procura apenas o conforto de clamar ao Senhor: "Vem livrar-me, ó Deus! Iahweh, vem de pressa em meu socorro!" (Sl 70:2); "... estou fechado e não posso sair" (Sl 88:9), e outros apelos semelhantes. Aliás, só dele poderás esperar ajuda verdadeira. Procurando um conforto aleatório, não vás perder toda a tua colheita. Isola-te do que está ao teu redor. Ergue a cabeça: agora tua paciência e constância são postas à prova. Se suportares essa prova, agradece a Deus, que te deu força. Se sucumbires, levanta-te prontamente, pede perdão, e diz a ti mesmo: "O que tenho, é o que mereço!" Pois a própria queda foi a tua punição. Contaste demais contigo mesmo, e agora vês aonde isso te levou. Fizeste uma experiência: não te esqueças de dar graças.

A respeito de Zaqueu

Como Zaqueu, subiste numa árvore para ver o Senhor (cf. Lc 19). Não o fizeste nem apenas em espírito, nem usando unicamente as faculdades intelectuais. És um ser humano, provido de corpo: por isso, como Zaqueu, empregaste o vigor dos teus membros e as realidades terrenas para te elevares do solo. E, se agiste assim, com inteligência e discernimento, levando em conta o peso do teu corpo e a medida das tuas forças, mas sem medo de parecer ridículo, tiveste a felicidade de subir suficientemente acima da agitação da multidão — isto é, dos teus impulsos terrenos — para captar, por um momento, o olhar do Senhor, que te procurava. Tu mesmo o verificas: desde que tomaste mais consciência da tua própria escuridão, já não és tão atraído quanto antes pelas distrações e pela vida social; percebeste, como num relâmpago, o teu homem interior, tal como é na realidade. Talvez tenhas a impressão de que teu coração se assemelhasse, até agora, a uma casca de noz sacudida pelas ondas, sem alvo, nem piloto. 

Agora, a viagem tem um objetivo, e isso é importante. Todavia, continuas a ser a mesma casquinha de noz, perdida no oceano deserto; se navegaste convenientemente, agora percebes, pela primeira vez, a que ponto o teu barco é frágil e minúsculo. Basta que manifestemos nossa boa intenção — diz o arcebispo Teofilacto da Bulgária — para que o próprio Senhor seja constantemente o nosso guia. Jesus disse a Zaqueu: "... desce depressa — isto é, humilha-te — pois hoje devo ficar em tua casa" (Lc 19:5). "tua casa," aqui, pode-se interpretar como "teu coração." Está bem, diz o Senhor, subiste numa árvore e realizaste uma parte de teus desejos terrenos, porque desejavas ver-me. Querias estar em condições de me perceber quando passasse em teu coração. Mas agora, apressa-te em te humilhar, ao invés de ficares aí, pensando que estás melhor colocado que os outros; pois é no coração do humilde que devo habitar. "Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria" (Lc 19:6). Zaqueu, chefe dos publicanos, recebe, portanto, o Cristo E a primeira coisa que faz é renunciar a todos os seus bens. Pois, sem demora, dá a metade deles aos pobres; e o resto é logo distribuído, certamente, para restituir o quádruplo do que havia extorquido. "... Ele também é um filho de Abraão" (Lc 19:9): ele ouviu a voz do Senhor e imediatamente deixou o seu país e a casa do seu pai (cf. Gn 12:1), onde o egoísmo e as paixões reinavam como senhores.

Zaqueu descobriu que um coração que recebe o Cristo deve esvaziar-se de todo o resto; deve dar tudo o que possui de riquezas injustamente adquiridas: "... a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho das riquezas" (1Jo 2:16). Ele compreendeu que quem é rico neste mundo, é pobre no mundo que virá; pois, ser rico materialmente é ser espiritualmente pobre, segundo São João Crisóstomo. Com efeito, se o rico não fosse tão pobre, não procuraria ser tão rico. Assim como é impossível unir a saúde à doença, é também impossível conciliar o amor e a posse, declara Santo Isaac, o Sírio. Pois, quem ama o próximo, abandona incondicionalmente tudo o que possui: essa é a natureza do amor. Mas, sem amor, é de todo impossível entrar no Reino de Deus. Zaqueu também verificou isso. Quanto menos se possui, mais a vida se simplifica. Todo supérfluo é rejeitado, e o coração se recolhe em seu centro. Pouco a pouco, o homem interior se esforça por penetrar no seu quarto mais interno, em que se encontram os degraus que sobem até o céu.

Também a oração se torna, assim, mais simples. As orações se reúnem ao redor do centro do coração e ali penetram. E nessas profundezas, descobre-se a única oração verdadeiramente necessária: o pedido de misericórdia. O que pode desejar um pecador, e o primeiro deles (cf. lTm 1:15), senão que o Senhor tenha piedade dele? Terá alguma coisa para lhe oferecer? Será que tem forças, vontade, segurança, que lhe sejam próprias? Poderá empreender alguma coisa por si mesmo? Poderá saber alguma coisa? Será que pode compreender, apreender alguma coisa, ele, que nada tem de próprio, nada que possa chamar de seu? Ele nada tem, pois o pecado não tem existência positiva; o pecado não é mais que privação, opacidade, recusa. É aí que se encontra o pecador: nesse nada. Ele se vê assim; e, quanto menos possui, mais rico é Porque o quarto vazio, que está no seu coração, transborda, não de bens transitórios, mas da plenitude da vida eterna, da sua luz e de suas certezas: o amor e a misericórdia. E isso, porque o Senhor é o hóspede da sua casa. Mas, como pode o pecador merecer a vinda do Senhor? Como pode apenas imaginar que o Senhor queira olhar para ele, mergulhado nas suas trevas? É inútil esforçar-se para se purificar, combater e trabalhar, seguir os mandamentos do Evangelho, velar, jejuar, procurar de todas as maneiras sacrificar-se pelo Senhor; apesar de tudo isso, ele sucumbe ao mau humor e à ira, à falta de amor e à preguiça, à impaciência e à ingratidão, e a todos os vícios imagináveis. Como pode esperar que o Senhor venha a semelhante morada? Por isso, ele ora nestes termos: "Senhor, tem piedade, tem piedade de mim, pecador; pois, na verdade, tentei fazer o que estava prescrito, para te servir. Trabalhei o campo do meu coração, cujo cuidado me tinhas confiado, e aí guardei os animais (cf. Lc 17:7-10). Mas, sou apenas o teu humilde servo, e sem ti nada posso fazer. Assim, tem piedade de mim e enche-me da tua graça." Pela ação da sua liberdade, ele aumenta a fé (cf. Lc 17:5); e, pela oração, obtém as energias necessárias para agir. Então, ação pessoal e oração unem-se com laços estreitos, até que suas águas se misturem completamente, e que a ação pessoal se torne oração, e a oração se torne o nosso agir. É o que os santos chamam de atividade espiritual, Oração do Coração, ou Oração de Jesus.

A oração de Jesus

O abade Isaías disse que a Oração de Jesus é um espelho para o espírito e uma lâmpada para a consciência. Também a compararam a uma voz tranquila, ressoando numa casa perpetuamente: todos os ladrões que tentam entrar, fogem ao perceber que alguém está acordado. A casa, é o coração; os ladrões, as sugestões más. A oração, é a voz de quem está montando guarda. Porém, aquele que vela, já não sou eu; é o Cristo. A atividade espiritual encarna o Cristo na nossa alma. Ela implica uma contínua lembrança de Deus: ele permanece escondido em ti, na tua alma, no teu coração, na tua consciência: "Eu dormia, mas meu coração velava" (Ct 5:2). Ainda que eu esteja dormindo, ou deva ocupar-me de outra coisa, meu coração continua fixo na oração, isto é, na Vida Eterna, no Reino dos céus, no Cristo. As raízes do meu ser estão firmemente plantadas no solo que as alimenta. O meio de chegar a essa oração é a invocação: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador." Repete-a em voz alta, ou apenas mentalmente, com tranqüilidade, devagar; mas com atenção, com o coração tão livre quanto possível de tudo o que não se harmonize com ela. Não apenas as inquietações terrenas não se conciliam com essa invocação, mas também toda preocupação ou qualquer esperança de ouvir uma resposta; toda visão interior, a impressão de sentir alguma coisa, os devaneios românticos, as perguntas curiosas e o jogo da imaginação. A simplicidade é uma condição indispensável, bem como a humildade, a sobriedade do corpo e do espírito e, de modo geral, tudo o que implica o combate invisível. 

Os principiantes, em particular, devem estar vigilantes contra tudo o que se assemelhe à mais ligeira tendência ao misticismo. A Oração de Jesus é uma atividade, um esforço prático, e um meio que possibilita o acolhimento e o emprego dessa força que se chama Graça de Deus — sempre presente nos batizados, embora escondida — para que ela produza fruto. A oração faz frutificar essa força em nossa alma; ela não tem outro objetivo. É um martelo que quebra uma carapaça. O martelo é duro, e seus golpes machucam. Abandona qualquer ideia de suavidade, de enlevo, de vozes celestiais; só um caminho leva ao Reino de Deus: é o da Cruz. Ficar suspenso, crucificado a uma árvore, é um horrível suplício. Não esperes nada mais. Crucificaste o teu corpo, pregando-o firmemente a um gênero de vida simples e uniforme, impondo a ti mesmo uma estrita disciplina. A atividade mental e a imaginação devem ser, também elas, vigiadas com rigor. Prega-as fortemente com as palavras da oração, a Santa Escritura, a leitura dos Salmos e das obras dos santos Padres, onde todas essas coisas estão prescritas. Não permitas que tua imaginação voe para um lado e para outro, à vontade. As idéias que entusiasmam não passam, em geral, de fugas estéreis para o mundo das ilusões. Quando teu pensamento já não está, de modo útil, ocupado pelo trabalho, chama-o de volta à oração.

Toma cuidado para que tua imaginação e teu pensamento te obedeçam com tanta docilidade quanto um cão bem adestrado. Não permitas que ele fique saltando ao teu redor, latindo; que fuce nas latas de lixo, nem que role no regato. Assim, também deves ter sempre a possibilidade de trazer de volta os pensamentos e a imaginação; e deves fazê-lo inúmeras vezes, a cada instante. Se não o fizeres, diz Santo Antão, serás semelhante a um cavalo montado sucessivamente por vários cavaleiros, sem descanso, e que acaba caindo, exausto e coberto de espuma. Se bates com muita força sobre a casca de uma noz, poderás quebrar também a noz. É necessário agir com precaução. Não comeces com pressa a Oração de Jesus. Não te apresses em te servir dela; e, mesmo depois, continua a dizer as tuas outras orações. Não fiques por demais ansioso. Não creias que, por ti mesmo, possas dizer com atenção um único "Senhor, tem piedade." Tua oração será necessariamente intermitente. Continuas a ser homem; apenas "... os anjos nos céus vêem continuamente a face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18:10). Tu, ao contrário, tens um corpo terreno, que reclama o que necessita. Não julgues ter perdido tudo se, no início, esqueceres de orar por algumas horas, ou até durante um dia ou mais. Faz tudo com naturalidade e simplicidade: és um marinheiro sem experiência, que se ocupou de outra coisa com tanta ansiedade, que se esqueceu de prestar atenção ao vento. Assim, nada esperes de ti mesmo. Mas não contes, tampouco, muito com os outros. A concentração é uma coisa; a distração, outra A oração tornará o teu pensamento vivo e claro. Então, as coisas ficarão em ordem. As pessoas que oram vêem tudo o que as cerca, notando e observando cada coisa; mas a perspicácia desse olhar vem da oração, que derrama sobre tudo a sua luz penetrante. Nosso espírito é ativo quando a pureza reina dentro de nós. Enquanto procurarmos estender no coração, esse reino do desapego, nosso ser espiritual continuará a crescer.

A oração produz a paz interior, uma tranquila calma na tristeza, o amor, o reconhecimento, a humildade. Se, ao contrário, estiveres tenso e agitado, em estado de exaltação ou de desânimo; se sentes abatimento, amargura, ou desejo excessivo de ação; se estás mergulhado num sentimento de êxtase ou na embriaguez dos sentidos, como a que se sente escutando música; se tens a impressão de contentamento e de euforia que te torna "contente contigo mesmo e com o mundo todo," estás no caminho errado. Fizeste repousar demasiadamente o teu edifício sobre ti mesmo. Toca em retirada e volta a reprovar-te; esse deve ser sempre o ponto de partida de toda verdadeira oração. O anjo de luz sempre traz a paz; essa paz que os demônios das trevas querem perturbar a todo custo. É nisso, dizem os santos Padres, que é possível reconhecer os poderes maus, e distingui-los dos bons.


A pérola de alto preço

Desprovido de todo conhecimento, incapaz de qualquer bom pensamento e de qualquer boa ação, sem memória do passado e sem vontade para o futuro; tão inútil quanto um trapo velho, tão insensível quanto as pedras do caminho; desagregando-te como um cogumelo carunchado nos bosques, destinado à morte como um peixe arremessado à margem; derramando lágrimas por tua miserável condição, começarás a orar diante do Todo-poderoso, teu Juiz e teu Criador, teu Salvador e teu Mestre, o Espírito de verdade e o Dispensador de vida. Como o filho pródigo, balbuciarás das profundezas de tua fraqueza: "... Pai, pequei contra o céu e contra Ti; já não sou digno de ser chamado teu filho (Lc 15:21); Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador." Conheces tua fraqueza, e estás diante do Todo-poderoso, como um grão de pó. Mas, do fundo da tua miséria, sentes crescer em ti o amor pelos outros homens, porque eles foram criados pelo Senhor e recebem sua luz. Ele, cuja essência é insondável, cuida deles; e isso basta para que estejas pronto a sacrificar tudo por eles. E acontece então uma coisa estranha: quanto mais desces às profundezas do teu coração, mais te elevas acima de ti mesmo. As condições exteriores de tua vida permanecem idênticas: lavas a louça, cuidas dos filhos, vais trabalhar, recebes o salário e pagas os impostos. Cumpres, como todo mundo, o que faz parte da tua vida exterior, pois não é possível abandoná-lo. Mas, renunciaste a ti mesmo. Abandonaste uma coisa, para obteres outra. "Se possuo a ti, que poderei ainda desejar sobre a terra?" (cf. Sl 73:25). 

Nada, responde São João Clímaco, senão orar sem cessar e unir-me a ti, no silêncio. Os outros são escravos das riquezas, das honrarias, ou do desejo de adquirir bens materiais; meu único desejo é unir-me a Deus. A oração, com tudo o que ela implica de renúncia a si mesmo, tornou-se tua única razão de viver; a parte mais real de tua existência. Andar com Deus (cf. Gn 6:9) é doravante a única coisa que, para ti, possa ter valor diante de todos os acontecimentos do céu e da terra. Para quem leva o Cristo em si, deixou de haver morte, doença e aflição neste mundo. Esse já entrou na vida eterna, e vê tudo sob essa luz. Dia e noite, a semente celestial brota e cresce em teu coração, sem saberes como. A terra do teu coração produz primeiro o caule, depois a espiga, depois o grão que enche a espiga (Mc 4:27-28).

Os santos falam do que chamam de luz sem ocaso. É uma luz que brilha, não para os olhos exteriores, mas no coração de quem não cessa de caminhar na pureza e na inocência. Ela faz as trevas recuarem de pronto, e nos encaminha invencivelmente rumo ao dia pleno. Sua característica é ser sempre mais pura. É a Luz da Eternidade, que não conhece crepúsculo e que já brilha através do véu do tempo e da matéria. Aliás, os santos nunca dizem que essa luz lhes foi dada; afirmam apenas que ela só é concedida aos que purificaram o coração através do amor pelo Senhor, no caminho estreito que escolheram livremente.

O caminho estreito não tem fim: é um caminho eterno (Sl 139:24). Cada passo que se dá é um começo. Aí, o presente inclui o futuro, o dia do julgamento; o presente inclui o passado: a criação. Pois o Cristo está presente em toda parte, sem estar ligado, pelo tempo, ao céu e ao inferno simultaneamente. Quando chega aquele que é o Um, desaparece toda multiplicidade, mesmo no tempo e no espaço. Tudo se reúne e se torna simultâneo, nas profundezas do teu coração. Encontraste, então, o que procuravas: a profundidade, a altura e a largura da cruz; o Salvador e a salvação. Assim, pois, se queres salvar a tua alma e ganhar a vida eterna, recomeça a sacudir incessantemente o teu torpor, a fazer o sinal da cruz e a dizer: "Concede-me, Senhor, que comece bem, em nome do Pai , e do Filho, e do Espírito Santo, Amém."

As Origens do Monaquismo Cristão

As Origens do Monaquismo Cristão

A questão das origens do monaquismo cristão é uma das que voltam periodicamente. Sem dúvida porque se trata de uma questão à qual não se pode oferecer uma resposta totalmente satisfatória, e novas descobertas em muitas disciplinas correlatas a colocam sem cessar de um modo diferente.

Pelo final do século XIX, no momento em que se desenvolvia o estudo comparado das religiões, pesquisadores alemães liderados por H. Weingarten, pensaram que a origem do monaquismo cristão podia se explicar por uma evolução a partir da velha religião egípcia. O monge cristão continuaria a tradição dos reclusos (katochoi) do templo de Serápis. Foi relativamente fácil aos historiadores católicos demonstrar o caráter nitidamente cristão do monaquismo egípcio primitivo e de fazer ver que nenhuma dependência podia ser demonstrada em relação aos cultos pagãos. Enquanto por longo tempo os estudos neste tema se concentravam sobre a história das práticas ascéticas, o estudo de Peter Nagel sobre as motivações destas práticas em 1966, marcou uma reviravolta.

Estas discussões ocasionaram um renovado interesse pelas fontes literárias do monaquismo primitivo. Monges e monjas reaprenderam a buscar seu alimento espiritual naquilo que se começou a denominar de "Fontes monásticas", isto é, as obras do monaquismo antigo, em particular os "Apofetgmas", as Vidas de Antão e de Pacômio, sem esquecer seguramente Cassiano, que havia servido de traço de união entre o Oriente e o Ocidente.

Na onda de renovação dos estudos bíblicos e patrísticos do após-guerra, muitas boas edições críticas sobre o monaquismo antigo foram publicadas, obras estas pouco conhecidas ou de que não se dispunha ainda de edições antigas de acordo com os ditames da ciência contemporânea. Estas edições suscitaram por sua vez a aplicação da crítica textual, histórica e literária a estes escritos que só tinham até este momento servido como alimento para a "leitura espiritual". A questão das origens do monaquismo voltou, pois, a ser colocada de outro modo.

Com efeito, o mito do Egito como "berço do monaquismo", de onde teria em seguida se expandido para os outros países do Oriente inicialmente, e depois para o Ocidente, não podia mais ser mantido. Tornava-se evidente que o monaquismo havia nascido um pouco em toda parte ao mesmo tempo, sob formas muito variadas, e da vitalidade própria de cada Igreja local, no Oriente como no Ocidente. O esquema clássico de Antão e alguns outros eremitas fugindo para o deserto, antes que Pacômio inventasse o cenobitismo para remediar os inconvenientes do eremitismo, não correspondia à nenhuma realidade tal como revelada pelos documentos publicados. Descobria-se que desde suas primeiras manifestações, o monaquismo havia aparecido simultaneamente em todas as suas formas mais diversas: cenobitismo e eremitismo, monaquismo do deserto e monaquismo das cidades, etc.

Um outro mito que não resistiu mais à crítica histórica (mesmo se continua a resistir) é aquele segundo o qual o monaquismo teria nascido após o Edito de Constantino, ou em todo caso, depois da era das perseguições. Por um lado, cristãos ferventes que desejavam o martírio que não estava mais ao seu alcance desejavam fazê-lo através da ascese, e por outro lado, teriam se retirado ao deserto em reação contra uma Igreja cujo fervor diminuía. Uma tal visão das coisas não tinha nenhum fundamento nem na realidade, nem nos documentos históricos que tendiam mais a mostrar a expansão do monaquismo como o fruto do fervor da Igreja que resultava do testemunho corajoso dos mártires.

Os estudos de Anton Vööbus, e sobretudo sua obra monumental sobre o ascetismo cristão na Pérsia, Mesopotâmia e Síria, mostravam, pelo ano 1960, à comunidade científica todo um mundo "monástico" até ali desconhecido salvo de alguns especialistas. Mas poder-se-ia falar de monaquismo a propósito dos Filhos e Filhas do pacto conhecidos por Efrém e Afraat em Nisibe e em Edessa e das numerosas formas de ascese muito radicais que tinham conhecido as Igrejas judeu-cristãs muito antes de Antão e Pacômio? Como fosse difícil ir contra a convenção bem estabelecida pelos historiadores que remontavam o "monaquismo propriamente dito" ao final do século terceiro, começou-se a falar de um "pré-monaquismo".

Dom J. Gribomont, num artigo extremamente importante, que era de fato uma recensão da obra de Vööbus, mostrou bem a estreita ligação entre este pré-monaquismo e o monaquismo. Ora, o que se tornava cada vez mais claro era que não havia descontinuidade entre os dois e que ninguém podia distingui-los nitidamente entre si.

Pela mesma época, ou mesmo um pouco antes, Daniélou e outros interessaram-se pelo judeu-cristianismo Parecia claro que foi nas Igrejas judeu-cristãs que se manifestou em todo seu rigor a corrente ascética ao longo dos três primeiros séculos cristãos. Sob este ponto de vista, não é por acaso que a tradição monástica tenha se desenvolvido de modo particular no Egito.

Em Alexandria, à época de Cristo, achava-se a diáspora judaica mais numerosa. Esta comunidade judaica era particularmente aberta a todas as tendências filosóficas e teológicas. Dois eminentes representantes deste judaismo alexandrino, Filon e Plotino, tiveram uma influência marcante sobre toda a tradição mística cristã e, através de Orígenes e de Evágrio, sobre o monaquismo cristão, Uma comunidade cristã se formou em Alexandria imediatamente após o Pentecostes. Foi neste contexto muito rico que se desenvolveu a Escola de Alexandria com Panteno e Clemente, antes que Orígenes aí vivesse com seus discípulos um tipo de existência que só as convenções dos historiadores nos impedem de qualificar de "monástica". A obra recente de Samuel Rubenson mostrou que Antão e seus companheiros, longe de serem iletrados como se pensou por muito tempo, foram alimentados com o ensinamento filosófico e teológico da Igreja e Alexandria e de seus grandes doutores.

Os Essênios e os Terapeutas conhecidos pelo historiador Flávio Josefo e por Filon haviam vivido no Egito dois séculos antes de Antão e de Pacômio. Não é, pois, de se surpreender que depois da publicação dos documentos de Qumrân e sobretudo da Regra da Comunidade, descrevendo um gênero de vida monástica muito semelhante nas suas expressões exteriores ao dos monges cristãos, a questão das origens do monaquismo foi de novo colocada. Não seria o monaquismo critão a continuação do monaquismo essênio? Ou ainda, os primeiros monges cristãos não teriam sido monges essênios convertidos ao Cristianismo? A estas questões timidamente colcocadas, respondeu-se que as motivações espirituais do monaquismo cristão eram radicalmente diferentes daquelas dos Essênios - o que era bastante claro -e que havia, de toda maneira, um hiato de alguns séculos entre o desaparecimento dos Essênios e o que se convencionou considerar como "os primórdios" do monaquismo cristão, pelo fim do século III no Egito. A resposta era verdadeira, mas nem tudo estava dito.

Nos mesmos anos em que foram descobertos os manuscritos do Mar Morto, foi também achada uma biblioteca copta em Nag Hammadi, no Alto Egito, sobre o lugar de um dos primeiros mosteiros pacomianos. Por diversas razões, particularmente políticas, a publicação destes documentos só começou vários anos mais tarde. A questão das relações entre estes manuscritos e o mosteiro de Pacômio permanece obscura, mas o fato é que os milhares de estudos que esta biblioteca copta, da qual a maioria das obras é gnóstica sob diversos títulos, nos trouxeram uma quantidade inestimável de novos conhecimentos sobre o contexto religioso do Egito durante os séculos que precederam o de Antão e de Pacômio e os primeiros monges dos Desertos da Nítria, Sceta e des Kellia.

Paralelamente, os estudos maniqueus faziam pela mesma época progressos enormes. Depois da descoberta de importantes manuscritos no Xinjiang na China, no início do século e depois no Fayoum em 1930, aquele do Codex Mani de Colônia em 1970 trouxe novas luzes sobre esta grande corrente religiosa, também muito viva no Egito na mesma época e que havia conhecido sua própria forma de vida comunitária que muitos não hesitam em qualificar como monástica. E sobretudo, descobriu-se que Mani provinha de uma seita judeu-cristã.

Todos estes dados novos tinham levado os historiadores do monaquismo cristão a reconsiderar as teorias tradicionais sobre suas origens tomando em consideração este novo conhecimento do contexto religioso e cultural no qual havia se desenvolvido. Mas isto pouco impacto teve, exceto alguns breves mas excelentes estudos de Antoine Guillaumont reunidos num pequeno volume intitulado Aux origines du monachisme chrétien . Infelizmente os historiadores do monaquismo e os especialistas das correntes religiosas acima citadas continuaram - e ainda continuam - em seu conjunto seus estudos em paralelo.

Ora, a questão das origens do monaquismo foi alvo de um novo viez. E isto ocorreu quando um especialista na Antiguidade tardia (Late Antiquity), o Professor Peter Brown, numa série de estudos, a começar pelo bem conhecido "The Rise and Function of the Holy Man in Late Antiquity" e sobretudo naquele mais recente "The Body and Society. Men, Women and Sexual Renunciation in Early Christianity", nos habituou a considerar os fenômenos da ascese cristã num contexto muito mais amplo. O propósito de Peter Brown era mujito mais extenso do que a questão das origens do monaquismo mas seu modo de situar os principais "atores" do monaquismo antigo, cada um no seu meio próprio, se mostrou muito rico e, quer se queira ou não, mudou nosso modo de ver a história monástica.



Vários autores recentes retomaram esta abordagem de Brown, aplicando-a mais precisamente à história do monaquismo, mas talvez com um esquema mais preciso. Em Virgins of God, Susanna Elm concentrou-se no ascetismo feminino, muitas vezes negligenciado nos estudos históricos do passado -e reuniu uma soma importante de dados novos que eram pouco conhecidos ou estavam esparsos em obras pouco acessíveis. O estudo de David Brakke sobre as relações entre a ascese egípcia e as políticas anti-arianas de Atanásio é também uma mina de ensinamentos reunidos com um grande rigor científico. O problema com estas obras, que estão entre as melhores entre muitos outras publicadas nos últimos anos é este: trata-se de estudos feitos com um enorme rigor - coisa que não é sempre comum, infelizmente, nos estudos sobre o monaquismo escritos por monges - mas que ignoram, mesmo explicitamente e deliberadamente por vezes (em virtude de um a priori pós-modernista) a dimensão propriamente espiritual da vida dos monges que eles estudam.

Na esteira dos estudos de Peter Brown e de todas as descobertas mencionadas mais acima, um novo interesse se manifestou depois de vinte anos pelo ascetismo na antiguidade. Tornou-se claro que o monaquismo cristão fez parte de um fenômeno muito mais geral que é o da ascese cristã, e esta não pode ser estudada sem se remeter ao contexto mais geral da ascese humana em geral e de suas inúmeras manifestações na sociedade durante os primeiros séculos da era cristã.

Um grupo de professores e de pesquisadores foi constituído nos Estados Unidos no início dos anos 1980, no seio da American Academy of Religion para estudar o fenômeno do ascetismo sob todos os aspectos. Foi organizada uma conferência internacional em New York em 1993 com o tema: "A dimensão ascética na vida religiosa e a cultura". Uma importante coleção de comunicações feitas a esta conferência foi publicada em 1995 com o título "Asceticism". Se alguns destes estudos mostravam uma compreensão do monaquismo cristão, outros analisavam o fenômeno ascético sem nenhuma referência às motivações que podiam ter aqueles e aquelas que o viveram no passado e o vivem no presente. Muitos estudos parecem reinterpretar a ascese- cristã ou não - à luz das teorias de Michel Foucault.

Columba Stewart - monge beneditino que rompeu com os métodos das disciplinas acadêmicas, e que acaba de publicar o que permanecerá sem dúvida por muito tempo a obra "definitiva" sobre Cassiano , sublinhava recentemente a urgência de uma abordagem multidisciplinar para suprir esta necessidade. Se, por um lado, estudos com um grande rigor metodológico pecam por ignorar a dimensão propriamente espiritual do monaquismo, muitos escritos sobre a espiritualidade monástica, por outro lado, mostram falta do rigor científico que se deve esperar para os nossos dias.

Não se trata talvez de aqui considerar, nem mesmo de esboçar um estudo tal que exigisse, inicialmente, a colaboração de vários especialistas de diversas áreas. Com risco de pecar um pouco por presunção, gostaria de delinear, sem me detalhar, a visão das origens do monaquismo cristão primitivo que me parecem já surgir dos estudos recentes.

Raimundo Panikkar falava do monaquismo como "arquétipo humano", assim sublinhando o fato de que existe uma dimensão monástica em todo ser humano e que aqueles que chamamos "monges" são os que organizam toda sua vida em torno desta dimensão profundamente humana. É isto que explica que a presença do monaquismo seja achada em quase todas as grandes tradições religiosas da humanidade cada vez que elas atingem um nível suficiente de espiritualização. De uma tradição a outra, de um século a outro, as manifestações exteriores deste ascetismo não são muito diferentes - a imaginação humana tem apesar de tudo seus limites. O que é radicalmente diferente de uma tradição espiritual a outra, é o objetivo buscado por esta ascese e a significação última que lhe é conferida.

Havia, à época de Cristo, em toda a região que agora conhecemos como Oriente Médio, e particularmente no judaísmo tardio, uma corrente ascética e mística. João Batista, com seu batismo, se situa nitidamente nesta corrente pelo seu estilo de vida e por sua pregação, independentemente de sua pertença ou não à seita dos essênios. Jesus se fez batizar por João e assim assumiu este movimento - um gesto do qual não se saberia subinhar suficientemente a importância capital. E, é claro, assumindo-o, lhe deu um sentido radicalmente novo.

O próprio Jesus viveu com seus discípulos uma forma de vida comunitária que tinha muito mais em comum com esta tradição do que com as tradições dos rabinos de seu tempo, ou mesmo, com os profetas do Antigo Testamento. Eis porque a expressão "vita apostolica" na literatura monástica primitiva significará primeiramente toda esta vida dos Apóstolos com Jesus. Este último apresentava exigências extremamente radicais àqueles que desejavam segui-lo. Ou, quando, depois da morte de Jesus, certos cristãos desejaram adotar como modo permanente de vida os apelos radicais de Jesus ao celibato, à renúncia total, à pobreza, etc., tinham não só o exemplo de Jesus, mas achavam também nas formas contemporâneas de ascese, e também no arquétipo monástico no fundo de sua psique das estruturas humanas de expressão.

Um ascetismo cristão extremamente radical se desenvolveu muito depressa, em particular nas Igrejas judeu-cristãs, mais sensíveis ao radicalismo do Evangelho de Lucas e também ao papel transformador do batismo no Espírito do que as Igrejas sob a influência de Paulo. Foi a comunidade cristã toda que, em certos momentos, teve nestas Igrejas uma existência "monástica". Foi pouco a pouco que se desenhou no seio da comunidade eclesial a consciência de que nem todos eram chamados a seguir o Cristo pelo mesmo caminho e que se precisou uma via monástica distinta daquela do resto dos fiéis.

Quando se lêem os escritos dos monges cristãos do século 4, é muito claro que eles foram para o deserto ou se agrupavam nas fraternidades urbanas basilianas para seguir o Cristo e para se deixar transformar à imagem do Cristo sob a ação do Espírito Santo. Mas não se pode ignorar que segundo a própria lei da Encarnação, estavam condicionados na realização de seu "projeto" pelo contexto religioso e sócio-cultural no qual eles evoluiam.

As comunidades de Terapeutas e de Essênios no Egito de que faz menção Filon, tinham muito em comum com as comunidades cristãs para que o historiador Sócrates, escrevendo alguns séculos mais tarde, se engane e as considere como grupamentos cristãos. Houve certamente contatos e influências mútuas entre estes grupos e as comunidades cristãs. O erro seria buscar entre uns e outros uma dependência ou continuidade histórica. Para ficarmos ainda no Egito, não se pode negar que o gnosticismo, este movimento que, ao lado de expressões aberrantes, exprimia e veiculava uma grande sede de experiência espiritual , estava muito espalhado no Egito pouco antes do grande desenvolvimento do monaquismo cristão ao final do século 3. É evidente que o monaquismo cristão não deve sua origem ao gnosticismo!

Na verdade, a imagem que se desenha é a de um grande movimento espiritual que se desenvolveu no curso dos primeiros séculos de nossa era, ao mesmo tempo no cristianismo e e fora dele. Este movimento comporta aspectos sublimes e também, aberrações. Há influências recíprocas entre as diversas correntes que o constituem, influências estas que correm em todas as direções. Os grupamentos de origem não cristã sofreram talvez uma forte influência do cristianismo, e certos movimentos cristãos, por outro lado, sofreram influências estrangeiras a ponto de tornar-se heresias. O discernimento se faz pouco a pouco na Igreja através da vida e da experiência assim como pelo "sensus fidei" do povo cristão, até que a nova situação criada na Igreja constantiniana permita a realização de Sínodos onde os bispos terão a autoridade necessária para fazer a clara demarcação entre ortodoxia e heterodoxia.

Quando finalmente se desenha uma forma de vida cristã mais estruturada e reconhecida, utilizando os modos exteriores de expressões comuns aos ascetas de todos os tempos e de todas as tradições, mas exprimindo uma busca espiritual enraizada no Evangelho e vivida sob a direção do Espírito, começa-se a falar de "monaquismo". É o produto de uma longa evolução, e se está em presença do que chamaríamos hoje uma inculturação. O monaquismo cristão é, assim, a primeira, e talvez a mais bem sucedida forma de inculturação. Isto quer dizer que é o encontro da mensagem evangélica sobre a vida perfeita com uma tradição ascética várias vezes secular que exprime as aspirações mais profundas da alma humana criada à imagem de Deus. Neste encontro esta tradição humana - enraizada num arquétipo humano - é enriquecida, e aí acha sua significação última; além disto, a mensagem cristã também é enriquecida de uma forma particular de expressão. Este encontro e este enriquecimento mútuo constituem a própria natureza da inculturação.

Ao longo de toda a história do monaquismo que se desenrolará depois, os momentos de grandes desenvolvimento, de renovação ou de reforma foram aqueles onde, por ocasião de uma transformação cultural mais profunda, monges e monjas foram particularmente sensíveis às aspirações espirituais dos homens e mulheres de seu tempo e souberam dar, através de sua vida e na linha de sua tradição, respostas que foram valiosas não só para eles, mas também para seus contemporâneos.

A questão das origens do monaquismo cristão jamais nos deixará, pois o monaquismo só continua a existir porque é constantemente re-engendrado.

A CRIAÇÃO E A QUEDA (por santo Atanásio)

A CRIAÇÃO E A QUEDA
(por santo Atanásio)

Em nosso Livro anterior tratamos suficientemente sobre alguns dos principais pontos do culto pagão dos ídolos, e como estes falsos deuses surgiram originalmente. Nós também, pela graça de Deus, indicamos brevemente que o Verbo do Pai é Ele mesmo divino, que todas as coisas que existem devem seu próprio ser à sua vontade e poder e que é através dEle que o Pai dá ordem à criação, por Ele que todas as coisas são movidas e através dEle que recebem o seu ser. 


Agora, Macário, verdadeiro amante de Cristo, devemos dar um passo a mais na fé de nossa sagrada religião e considerar também como o Verbo se fêz homem e surgiu entre nós. Para tratar destes assuntos é necessário primeiro que nos lembremos do que já foi dito. Deves entender por que o Verbo do Pai, tão grande e tão elevado, se manifestou em forma corporal. Ele não assumiu um corpo como algo condizente com a sua própria natureza, mas, muito ao contrário, na medida em que Ele é Verbo, Ele é sem corpo. Manifestou-se em um corpo humano por esta única razão, por causa do amor e da bondade de seu Pai, pela salvação de nós homens.

Começaremos, portanto, com a criação do mundo e com Deus seu Criador, pois o primeiro fato que deves entender é este: a renovação da Criação foi levada a efeito pelo mesmo Verbo que a criou em seu início. Em relação à criação do Universo e à criação de todas as coisas têm havido uma diversidade de opiniões, e cada pessoa tem proposto a teoria que bem lhe apraz. Por exemplo, alguns dizem que todas as coisas são auto originadas e, por assim dizer, totalmente ao acaso. Entre estes estão os Epicúreos, os quais negam terminantemente que haja alguma Inteligência anterior ao Universo. Outros fazem seu o ponto de vista expressado por Platão, aquele gigante entre os Gregos. Ele disse que Deus fêz todas as coisas da matéria pre-existente e incriada, assim como o carpinteiro faz as suas obras da madeira que já existe. Mas os que sustentam esta opinião não se dão conta que negar que Deus seja Ele próprio a causa da matéria significa atribuir-Lhe uma limitação, assim como é indubitavelmente uma limitação por parte do carpinteiro que ele não possa fazer nada a não ser que lhe esteja disponível a madeira. Então, finalmente, temos a teoria dos Gnósticos, que inventaram para si mesmos um Artífice de todas as coisas, outro que não o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Estes simplesmente fecham os seus olhos para o sentido óbvio das Sagradas Escrituras. Tais são as noções que os homens têm elaborado. Mas pelo divino ensinamento da fé cristã nós sabemos que, pelo fato de haver uma Inteligência anterior ao Universo, este não se originou a si mesmo; por ser Deus infinito, e não finito, o Universo não foi feito de uma matéria pré-existente, mas do nada e da absoluta e total não existência, de onde Deus o trouxe ao ser através do Verbo.


Ele diz, neste sentido, no Gênesis:


"No início Deus
criou o Céu e a Terra";

e novamente, através daquele valiosíssimo livro ao qual chamamos "O Pastor":


"Crêde primeiro
e antes de tudo o mais
que há apenas um só Deus
o qual criou e ordenou a todas as coisas 
trazendo-as da não existência ao ser."

Paulo também indica a mesma coisa quando nos diz:


"Pela fé conhecemos 
que o mundo foi formado 
pela Palavra de Deus,
de tal modo que as coisas visíveis 
provieram das coisas invisíveis". (Heb. 11, 3)

Pois Deus é bom, ou antes, Ele é a fonte de toda a bondade, e é impossível por isso que Ele deva algo a alguém. Não devendo a existência a ninguém, Ele criou a todas as coisas do nada mediante seu próprio Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, e de todas as suas criaturas terrenas ele reservou um cuidado especial para a raça humana. A eles que, como animais, eram essencialmente impermanentes, Deus concedeu uma graça de que as demais criaturas estavam privadas, isto é, a marca de sua própria Imagem, uma participação no ser racional do próprio Verbo, de tal modo que, refletindo-O, eles mesmos se tornariam racionais expressando a Inteligência de Deus tanto quanto o próprio Verbo, embora em grau limitado. Deste modo, os homens poderiam continuar para sempre na bem aventurada e única verdadeira vida dos santos no paraíso. Como a vontade do homem poderia, porém, voltar-se para vários caminhos, Deus assegurou-lhes esta graça que lhes havia concedido condicionando-a desde o início a duas coisas. Se eles guardassem a graça e retivessem o amor de sua inocência original, então a vida do paraíso seria sua, sem tristeza, dor ou cuidados, e após ela haveria a certeza da imortalidade no céu. Mas se eles se desviassem do caminho e se tornassem vis, desprezando seu direito natal à beleza, então viriam a cair sob a lei natural da morte e viveriam não mais no paraíso, mas, morrendo fora dele, continuariam na morte e na corrupção. Isto é o que a Sagrada Escritura nos ensina, ao proclamar a ordem de Deus:


"De todas as árvores que estão no jardim 
vós certamente comereis,
mas da árvore do conhecimento do bem e do mal
não havereis de comer,
pois certamente havereis de morrer".

"Certamente havereis de morrer", isto é, não apenas morrereis, mas permanecereis no estado de morte e corrupção. Estarás talvez a divagar por que motivo estamos discutindo a origem do homem se nos propusemos a falar sobre o Verbo que se fêz homem. O primeiro assunto é de importância para o último por este motivo: foi justamente o nosso lamentável estado que fêz com que o Verbo se rebaixasse, foi nossa transgressão que tocou o seu amor por nós. Pois Deus havia feito o homem daquela maneira e havia querido que ele permanecesse na incorrupção. Os homens, porém, tendo voltado da contemplação de Deus para o mal que eles próprios inventaram, caíram inevitavelmente sob a lei da morte. Em vez de permanecerem no estado em que Deus os havia criado, entraram em um processo de uma completa degeneração e a morte os tomou inteiramente sob o seu domínio. Pois a transgressão do mandamento os estava fazendo retornarem ao que eles eram segundo a sua natureza, e assim como no início eles haviam sido trazidos ao ser a partir da não existência, passaram a trilhar, pela degeneração, o caminho de volta para a não existência. A presença e o amor do Verbo os havia chamado ao ser; inevitavelmente, então, quando eles perderam o conhecimento de Deus, juntamente com este eles perderam também a sua existência. Pois é somente Deus que existe, o mal é o não-ser, a negação e a antítese do bem. Pela natureza, de fato, o homem é mortal, já que ele foi feito do nada; mas ele traz também consigo a Semelhança dAquele Que É, e se ele preservar esta Semelhança através da contemplação constante, então sua natureza seria despojada de seu poder e ele permaneceria indegenerescente. De fato, é isto o que vemos escrito no Livro da 
Sabedoria:


"A observância de Suas Leis
é a garantia da imortalidade". (Sab. 6, 18)

E, incorrompido, o homem seria como Deus, conforme o diz a própria Escritura, onde afirma:


"Eu disse:
`Sois deuses, 
e todos filhos do Altíssimo. 
Mas vós como homens morrereis, 
caireis como um príncipe qualquer'". (Salmo 81, 6)

Esta, portanto, era a condição do homem. Deus não apenas o havia feito do nada, mas também lhe tinha graciosamente concedido a Sua própria vida pela graça do Verbo. Os homens, porém, voltando-se das coisas eternas para as coisas corruptíveis, pelo conselho do demônio, se tornaram a causa de sua própria degeneração para a morte, porque, conforme dissemos antes, embora eles fossem por natureza sujeitos à corrupção, a graça de sua união com o Verbo os tornava capazes de escapar na lei natural, desde que eles retivessem a beleza da inocência com a qual haviam sido criados. Isto é o mesmo que dizer que a presença do Verbo junto a eles lhes fazia de escudo, protegendo-os até mesmo da degeneração natural, conforme também o diz o Livro da Sabedoria:


"Deus criou o homem para a imortalidade
e como uma imagem de sua própria eternidade;
mas pela inveja do demônio
entrou no mundo a morte". (Sab. 2, 23)

Quando isto aconteceu os homens começaram a morrer e a corrupção correu solta entre eles, tomou poder sobre os mesmos até mais do que seria de se esperar pela natureza, sendo esta a penalidade sobre a qual Deus os havia avisado prevenindo-os acerca da transgressão do mandamento. Na verdade, em seus pecados os homens superaram todos os limites. No início inventaram a maldade; envolvendo-se desta maneira na morte e na corrupção, passaram a caminhar gradualmente de mal a pior, não se detendo em nenhum grau de malícia, mas, como se estivessem dominados por uma insaciável apetite, continuamente inventando novo tipos de pecados. Os adultérios e os roubos se espalharam por todos os lugares, os assassinatos e as rapinas encheram a terra, a lei foi desrespeitada para dar lugar à corrupção e à injustiça, todos os tipos de iniqüidades foram praticados por todos, tanto individualmente como em comum. Cidades fizeram guerra contra cidades, nações se levantaram contra nações, e toda a terra se viu repleta de divisões e lutas, enquanto cada um porfiava em superar o outro em malícia. Até os crimes contrários à natureza não foram desconhecidos, conforme no-lo diz o Apóstolo mártir de Cristo:


"Suas próprias mulheres 
mudaram o uso natural em outro uso,
que é contra a natureza;
e os homens também, 
deixando o uso natural da mulher,
arderam nos seus desejos um para com o outro,
cometendo atos vergonhosos com o seu próprio sexo, 
e recebendo em suas próprias pessoas 
a recompensa devida pela sua perversidade". (Rom. 1, 26-7)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Fenomenologia da Religião

Fenomenologia da Religião

A religiosidade de um povo se manifesta não apenas em rituais complexos e mitos dos tempos primordiais, mas também na experiência cotidiana em todas as áreas da vida. A forma de entrar ou sair de uma casa, um simples gesto no momento da caça ou pesca, a dieta alimentar, a direção do olhar ao se aproximar de determinado objeto, o pronunciar discreto de determinadas palavras ao entrar na água e coisas semelhantes podem expressar muito da religiosidade local.

Chamamos essas manifestações de fenômenos e a fenomenologia da religião se ocupa em estudá-los na tentativa de compreender as idéias que estão por trás dos mesmos e o que significam para aqueles que os praticam. Como missionários, antes de apresentar o evangelho para determinado povo, a primeira providência a ser tomada é buscar uma compreensão satisfatória do mesmo. Compreender um povo equivale compreender a sua cultura e essa envolve complexos sistemas que regulamentam o comportamento do grupo social.

Dentro do bojo cultural, encontramos o sistema de parentesco, o sistema político, a cultura material, cognitiva e muitas outras áreas nas quais podemos concentrar análise. No processo de análise, lançamos mão de ciências específicas que nos fornecem métodos de pesquisa adequados. A ciência que mais tem contribuído no trabalho missionário para compreensão dos povos alvos de evangelização é a antropologia cultural, que se ocupa de todas as áreas acima mencionadas.

Entretanto, dois sistemas culturais são sobremodo amplos e complexos, sendo necessário abordá-los de forma mais específica. Trata-se da língua e da religião. De acordo com o etnólogo alemão Lothar Käser, a religião é um fenômeno universal, presente em todas as culturas. O ateísmo é uma manifestação mais de cunho individual ou no máximo uma opção sociopolítica. Do ponto de vista cultural, todo grupo social apresenta manifestações religiosas.

Na prática, porém, todos esses sistemas culturais são inseparáveis, totalmente interligados, emaranhados, mas os distinguimos para fins de análise. A bem da verdade, essa divisão da cultura em sistemas é uma elaboração nossa, na ótica do observador. Prova disso é que quase nenhuma língua sem escrita possui uma palavra para o conceito “religião”, no mesmo sentido que usamos. Isso se dá porque a religião permeia todas as áreas da cultura e, portanto, uma análise segura da mesma só pode acontecer numa abordagem multidisciplinar. Como comenta o antropólogo brasileiro Luiz Gonzaga Mello, só é possível isolar a religião dentro da cultura como um recurso didático e metodológico apenas.

De qualquer forma, para análise da cultura como um todo, utilizamos a antropologia cultural ou, mais especificamente, a etnologia. Para análise da língua, a linguística antropológica, e para análise da religião, devemos lançar mão da fenomenologia da religião. Ou seja, a fenomenologia é para o estudo da religião, o que a linguística é para o estudo da língua. No contexto brasileiro, temos uma crescente ênfase no estudo da antropologia e da linguística nos currículos de treinamento missionário, mas o estudo da fenomenologia ainda é, de modo geral, pouco evidenciado.

HISTÓRIA DA ESCOLA FENOMENOLÓGICA

A fenomenologia se firmou como corrente filosófica e método científico somente no século 20, ao se distanciar do estudo comparado das religiões. O termo “fenomenologia” surgiu em 1764, com o matemático e filósofo suíço-alemão Johann Heinrich Lambert (1728-1777). Entretanto, o alemão, de ascendência judaica, Edmund Husserl (1859-1938) que é considerado o “pai da fenomenologia”. Com sua obra “Investigações Lógicas” (1900-1901) ele desenvolveu o método fenomenológico de tal forma que o mesmo passou a constituir o centro de gravidade de grande parcela do pensamento filosófico do século 20 e sua influência estendeu-se a todas as ciências humanas. Como método científico, a fenomenologia pode ser utilizada pelas mais diferentes áreas de conhecimento, ciências e meios de expressão que o homem possa desenvolver.

Já a expressão “fenomenologia da religião” foi criada pelo holandês, historiador das religiões, Pierre Daniel Chantepie de la Saussaye (1848-1920). Na primeira edição da sua obra “Manual de História das Religiões” (1887) usou essa expressão, entretanto, não indicava com a mesma um novo método, mas apenas uma alternativa terminológica para a chamada religiões comparadas. Isso ficou evidente quando, dez anos depois, na segunda edição do seu “Manual”, suprimiu a referida seção.

Assim, a primeira expressão significativa da fenomenologia da religião vem do holandês Gerardus van der Leeuw (1890-1950), na sua “Fenomenologia da Religião” (1933). Ligado à fenomenologia filosófica de Husserl, Leeuw propõe um método de compreensão, e não apenas de descrição, da experiência religiosa, a partir da análise das suas linguagens ou meios de manifestação – os fenômenos. Para ele, a meta da pesquisa fenomenológica é atingir a essência da religião, essência essa que o fenomenólogo alemão Gustav Mensching (1901-1978), contemporâneo de Leeuw, definiria como “a experiência do encontro com o Sagrado”.

Apesar de se afastar um pouco da linha filosófica, van der Leeuw retoma pelo menos dois conceitos básicos de Husserl: a epoché e a visão eidética. Epoché é a suspensão do juízo que o fenomenólogo deve operar, se quiser compreender realmente o fenômeno estudado. E visão eidética é a busca pela essência do fenômeno em questão.

Mensching é um dos representantes da escola fenomenológica alemã de Marburgo, fundada pelo iminente Rudolf Otto (1869-1937), com seu livro “O Sagrado” (1917). Apesar de não ser especificamente uma obra fenomenológica, esse livro ofereceu um modelo de análise fenomenológica em chave hermenêutica da experiência religiosa. Se Otto não chegou a ser um fenomenólogo, seus alunos o foram, aprimorando o método de análise fenomenológica compreensiva, típico da escola de Marburgo.

Um dos nomes mais citado na fenomenologia da religião é do romeno, que se radicou nos Estados Unidos, Mircea Eliade (1907-1986). A bem da verdade, Eliade foi um historiador das religiões e não um fenomenólogo, mas suas pesquisas foram tão extensas que acabou deixando um material de valor inestimável para a fenomenologia religiosa.

A escola fenomenológica lança mão de princípios metodológicos de basicamente todas as demais escolas, como as escolas antropológica, psicológica e histórica, mas se distingue por buscar compreender o que a experiência religiosa significa para o próprio homem religioso. O argentino, professor de fenomenologia da religião, José Severino Croatto (1930-2004), sintetiza isso da seguinte forma:
Aplicada à(s) religião(ões), a fenomenologia não estuda os fatos religiosos em si mesmos (o que é tarefa da história das religiões), mas sua intencionalidade (seueidos) ou essência. A pergunta do historiador é sobre quais são os testemunhos do ser humano religioso, a pergunta do fenomenólogo é sobre o que significam. Não o que significam para o estudioso, mas para o homo religiosus, que vive a experiência do sagrado e a manifesta nesses testemunhos ou “fenômenos”.

Entre os cientistas da religião, tem sido defendido que a investigação fenomenológica é a melhor opção para se aproximar, o máximo possível, do significado real da experiência religiosa.

TENTATIVA DE CONCEITUAÇÃO

Fenomenologia

O termo “fenômeno” vem do grego fainomenon, que significa literalmente “aquilo que aparece”, “que se mostra”. Logo, fenomenologia é, literalmente, “o estudo do que aparece”. Mas, obviamente, como método científico, o termo vai muito além do seu significado literal. A fenomenologia é uma tentativa de compreender a essência da experiência humana, seja ela psicológica, social, cultural ou religiosa, a partir da análise das suas manifestações, que chamamos de fenômenos. É uma tentativa de compreensão não do ponto de vista do observador, mas do ponto de vista da própria pessoa que teve a experiência. No meio linguístico e antropológico, isso seria chamado de ponto de vista êmico.

Religião

Já “religião” é um termo conceitualmente bastante complexo. Aceitamos geralmente que religião vem do latim religare, significando assim “religar”, ou seja, religião é o meio de religar o homem a Deus. Entretanto, historicamente isso nem sempre foi assim. Filoramo e Prandi comentam sobre certo pesquisador que comparando 68 respostas que lhe foram enviadas por colegas sobre o modo como definiam religião, objeto de seus estudos, não encontrou sequer duas iguais.

Nos afastaremos aqui das tentativas de definições etimológicas, optando pelas conceituações de cunho antropológico. Nesse meio, várias conceituações já foram sugeridas, mas aceitamos neste texto a sugestão do antropólogo e missiólogo alemão Paul Hiebert, que conceitua religião como “um sistema explicatório que trata das últimas questões da vida e da morte, das razões da própria existência”. Nessa mesma linha também podemos citar o conhecido antropólogo americano Clifford Geertz, que entende a “religião como um sistema cultural”.

Para Felix Keesing, a religião é um sistema explanatório e também interpretativo. Explanatório à medida que responde sistematicamente aos porquês totais, relacionados diretamente com a existência – natureza do mundo e do homem; poder – forças dinâmicas do universo; providência – funções de manutenção do bem-estar; moralidade – vida e morte dos indivíduos. E interpretativo porque tende a interpretar todo o comportamento importante e valorizado, ligando-se aos diferentes setores da vida humana, como economia, política, família, lazer, estética e segurança.

Fenomenologia da Religião

Segundo o professor de fenomenologia Antônio Mendonça, “a fenomenologia da religião pode ser vista num duplo sentido: uma ciência independente, com suas pesquisas e publicações, mas também como um método que faz uso de princípios próprios”. A intenção deste texto é apresentar a fenomenologia da religião como método de pesquisa e, enquanto tal, William Paden a define como “o estudo das coisas em seus aspectos observáveis, contrapondo-se à sua causalidade”. Ou seja, é o estudo das causas religiosas através da observação das suas manifestações. Entretanto, a questão da causalidade é um pouco controversa. Assim, preferimos trabalhar com o conceito de idéias. Por trás das manifestações religiosas existem idéias que determinam o real significado da experiência para aquele que a experimenta.

Ângela Bello, professora de historia da filosofia em Roma, usa o termo “fenomenologia arqueológica”para se referir a esse esforço em busca das idéias por trás dos fenômenos. Para ela, a fenomenologia é uma investigação regressiva que permite escavar no interior da consciência individual e coletiva, até alcançar o significado real da experiência religiosa. A análise fenomenológica é como o trabalho do arqueólogo. A partir de uma pequena evidência que aparece no solo, ele escava até descobrir grandes fósseis escondidos sob os seus pés. Os fenômenos ou manifestações religiosas são apenas pequenas evidências que se mostram. Cabe ao fenomenólogo intuir através delas até alcançar o seu significado mais profundo. Detrás de cada fenômeno há uma idéia, um significado. É essa idéia que a fenomenologia procura compreender. A pergunta mais básica no estudo fenomenológico é: “qual idéia cultural está por trás de cada fenômeno?”

A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA


A experiência é a forma básica de aquisição de conhecimento. Nada chega ao nosso intelecto sem causar uma experiência pessoal, quer seja empírica ou existencial. A experiência existencial pode ser física, social, moral, metafísica ou religiosa. Assim sendo, a religiosidade está intimamente relacionada com a experiência, no caso, com o sagrado.

Se referindo a um contexto cristão, Piazza afirma, como já havia dito Mensching, que “a essência da experiência religiosa é o ‘encontro’ do homem com Deus”. Generalizando esse raciocínio, podemos então dizer que a experiência religiosa consiste no “encontro” do homem com o sagrado. Tácito Leite Filho chama esse mesmo fato de “relações do homem com a divindade”, as quais, para ele, constituem a base de todas as religiões. Vale lembrar, que o cristão pode contar com a Bíblia para conhecer a Deus, mas a maioria dos religiosos só pode contar com a própria experiência para conhecer o divino.

Apesar de não se tratar de uma obra especificamente fenomenológica, o livro “O Sagrado”, de Rudolf Otto, tem sido considerado a ponte da fenomenologia filosófica de Husserl para a fenomenologia da religião de Leeuw. Nele, Otto analisa a experiência religiosa afirmando que a mesma tem por agente o “sagrado”, que se manifesta como um “mistério tremendo e fascinante”. “Mistério” porque é algo maravilhoso, que transcende a compreensão do homem, totalmente outro; “tremendo” porque é uma potência estranha, que se impõe de forma absoluta; e “fascinante” porque desperta curiosidade, causa fascínio. Ou seja, a experiência religiosa se dá quando o homem entra em contato com o sagrado e isso lhe causa um “sentimento de estado de criatura”, enchendo o seu ser de perguntas, terror e admiração.

A experiência religiosa é ao mesmo tempo individual e comunitária. Individual porque o homem religioso a experimenta na sua particularidade. Comunitária porque esse mesmo homem não a contêm e por isso comunica com outros sobre a mesma. Nesse processo, a experiência religiosa se manifesta através de linguagens próprias, que se apresentam em forma de fenômenos. São esses fenômenos que constituem o objeto da fenomenologia da religião.

EPOCHÉ E EIDÉTICA

Esses dois conceitos se tornaram o principal diferencial da fenomenologia, pois enquanto os demais métodos científicos excluíam a subjetividade em favor da objetividade, Husserl sugeriu ser possível compreender o subjetivo, a essência, o eidos. Na sua época, estava em voga o psicologismo para o qual a experiência religiosa não passava de um subproduto da psique humana. A fenomenologia muda o foco da análise, afirmando que, independente dessa experiência ser um produto da psique ou um real encontro com o sagrado, o que interessa é compreender o que a mesma significa para o homem religioso, aquele que vivencia tal experiência. Na linguagem do próprio Husserl, é o “voltar às coisas mesmas”.

A visão eidética é a busca por essa essência do fenômeno. É a tentativa de ver o fenômeno como o próprio homem religioso vê. Para isso é necessário a epoché, a suspensão do juízo, dos pressupostos. O sociólogo clássico se aproxima do homem religioso já pressupondo que a experiência do mesmo é fruto do viver social. O psicólogo clássico pressupõe de antemão ser um resultado da psique. O fenomenólogo tentará não pressupor nada.

Algumas observações aqui se fazem necessárias. Obviamente, como missionários não concordamos com todos os postulados e pressupostos da fenomenologia. Para o fenomenólogo, compreender a experiência religiosa é o fim da sua análise. Para nós, é apenas o meio. Para o fenomenólogo, essa suspensão de juízo é definitiva, perpétua. Para nós, deve ser apenas no primeiro momento, até alcançarmos uma compreensão relevante do fenômeno. Essa epoché é necessária no primeiro momento, porque se não retardarmos um pouco nosso julgamento bíblico-teológico, chegaremos a muitas conclusões erradas e nossa mensagem não terá relevância.

Uma segunda observação é que, mesmo no meio científico, já é consenso a impossibilidade de uma epoché total. A total neutralidade na pesquisa científica é uma falácia. É impossível uma total suspensão de juízo. Alguns afirmam que um religioso não pode ser um cientista da religião, por causa dos seus pressupostos. Entretanto, um ateu também tem pressupostos em relação à religião e, talvez, mais radicais e preconceituosos do que os do religioso. A dificuldade que ambos terão para suspender o juízo será a mesma. No entanto, apesar dessa impossibilidade de uma epoché total, é possível uma neutralidade pelo menos parcial e é essa que deve ser buscada no primeiro momento.
Discordamos também do princípio da vivência. Para alguns fenomenólogos, é necessário não apenas suspender o juízo mas também vivenciar por algum tempo a experiência religiosa em estudo para que se possa compreendê-la bem. É o que defendia van der Leeuw e outros: “precisamos viver aquele conteúdo particular de experiência a fim de poder, em seguida, entender como um outro ser humano por sua vez poderia experimentá-lo”. Esse foi o caso de Roger Bastide que, mesmo se identificando como protestante, iniciou-se no candomblé brasileiro em busca da compreensão do mesmo.

Poderíamos entrar num longo diálogo com os principais teóricos da fenomenologia, discordando de vários dos seus postulados e pressupostos, porém, isso foge do propósito deste texto. Nossa intenção é apenas apresentar a fenomenologia como ferramenta útil ao trabalho missionário.

Outro elemento que surge na busca pelo eidos é a intuição. Para se aproximar da subjetividade da experiência religiosa é preciso intuir. Esse conceito vem do teólogo e filósofo alemão Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834), que precedeu o movimento fenomenológico, mas deixou muitas contribuições para o mesmo. Tommy Goto o chama de “pré-fenomenólogo”. O conceito de intuição em Schleiermacher é tão central que ele chega confundi-lo com a essência da religião, mas o movimento fenomenológico o redefiniu, fazendo do mesmo uma ferramenta de busca do eidos. Somente através de uma atitude intuitiva é possível se aproximar do sentido real do fenômeno religioso, pois o mesmo não é algo lógico.

VISÃO ÉTICA E ÊMICA

O missionário lingüista Kenneth Pike (1912-2000) desenvolveu dois conceitos fundamentais em análise linguística, chamados perspectivas ética e êmica. Esses conceitos alcançaram a academia antropológica se tornando elementos fundamentais também para a análise cultural. Também tornaram-se igualmente fundamentais na fenomenologia para a análise religiosa. São conceitos bem relacionados com a epoché e visão eidética de Husserl.

Perspectiva ética é a visão externa, do observador, numa postura transcultural, comparativa e descritiva. Perspectiva êmica é a visão interna, do observado, numa postura cultural, particular e analítica. Perspectiva ética é de quem está olhando de fora. Perspectiva êmica é de quem olha de dentro. Ética é a visão do “eu” em direção ao “outro”. Êmica é a visão do “eu” em direção ao “nosso”. Ou como comentam Hoebel e Frost, Quando vista de fora e expressa por um observador que não é, por educação e vivência, completamente enculturado com a cultura observada e escrita, a visão é chamada “ética”. A visão interna é chamada de “êmica”.

A perspectiva ética é inevitável e necessária. Sempre que observamos qualquer comportamento nós emitimos juízo sobre o mesmo. Avaliamos o que para nós é certo ou errado e fazemos um julgamento de valores. Como missionários, fazemos um julgamento baseado em nossos princípios cristãos, teológicos, missiológicos e hermenêuticos. Obviamente, precisamos mesmo fazer isso, pois afinal nosso objetivo é levar um evangelho que propõe mudanças. Mas é de extrema importância observar uma cultura primeiramente na perspectiva êmica, procurando compreender como o próprio povo entende cada manifestação cultural e religiosa. Entretanto, ao contrário da perspectiva ética, a êmica não é automática, inevitável, implícita em nossa visão. Pelo contrário, precisamos fazer certo esforço para usá-la, pois equivale a ver o mundo com os olhos do outro.

Quando não procuramos entender o povo a partir de uma perspectiva êmica, geralmente damos respostas para perguntas que não são feitas e nossa apresentação do evangelho fica irrelevante. Por isso, só devemos chegar a conclusões éticas depois que adquirimos uma relevante compreensão êmica de cada fato.

Piazza relata o ocorrido com um missionário católico na África. Próximo à aldeia onde vivia, havia um local em forma de círculo, com uma estaca no meio e uma cabeça de antílope na ponta da mesma. Sempre que os caçadores iam empreender uma caçada, passavam primeiro nesse local, empunhavam seus arcos com a mão esquerda e corriam no sentido anti-horário atirando flechas naquela cabeça de antílope até acertarem o alvo. O missionário concluiu então que se tratava de um ritual invocando alguma divindade para ajudar-lhes na caçada. Um dia se aproximou de um caçador e perguntou se acreditava mesmo que aquele ritual o ajudava a ter sucesso na caçada. O caçador lhe respondeu que era apenas um treino de pontaria! A análise e conclusão daquele missionário foi puramente ética, baseada nos seus pressupostos. A resposta do caçador foi êmica. Antes de chegar a uma conclusão ética sobre qualquer fenômeno, seja cultural, lingüístico ou religioso, é necessário alcançar uma relevante compreensão êmica do mesmo.

A ANÁLISE FENOMENOLÓGICA NA PRÁTICA

Uma pergunta que pode ser feita a esta altura é como tudo isso se dá na prática. O antropólogo brasileiro Roberto de Oliveira escreveu um relevante texto sobre pesquisa de campo que pode nos ajudar nessa questão. Para ele, “o trabalho do antropólogo é olhar, ouvir e escrever”. Isso é igualmente válido para o trabalho do missionário na sua análise fenomenológica.

Olhar, ouvir e escrever são três habilidades que todo missionário precisa desenvolver se quiser compreender o povo para o qual vai ministrar. Oliveira chama essas habilidades de “atos cognitivos”, pois é através delas que se torna possível “construir o saber” ou organizar o conhecimento adquirido. Olhar é muito mais que admirar o exótico de forma ingênua, como um turista que pára cheio de curiosidade diante do diferente, até então desconhecido. Olhar é observar com atenção e discrição, de forma acurada e intuitiva, tentando perceber o real sentido de cada fenômeno. Portanto, faz-se necessário treinar o olhar. É a partir da observação que se deve fazer perguntas, as quais são fundamentais no processo analítico. Ao observar um fenômeno, queremos logo concluir algo sobre o mesmo, porém, no primeiro momento, muito mais importante que chegar às respostas é fazer perguntas. Sem as perguntas certas, jamais chegaremos às respostas certas. E perguntas aqui não são argüições verbais a serem feitas a um “informante”, mas sim, questões de análise que levantamos para nós mesmos e que servirão de um roteiro para nossa observação. A religiosidade do povo se manifesta no seu dia-a-dia, em práticas rotineiras, e não apenas em rituais complexos. Ela permeia todas as áreas da vida. Por isso, é preciso estar atento o tempo todo e tudo que chamar a atenção deve ser analisado. No início o que teremos de palpável serão apenas as perguntas, pois as respostas só virão com o tempo, e algumas com muito tempo. Faremos perguntas a nós mesmos e, quem sabe, algumas vezes teremos a oportunidade de verbalizar com alguém. No entanto, as principais respostas não são obtidas através de perguntas verbalizadas, pontuais e objetivas, e sim através de falas espontâneas. Por isso, o segundo elemento é igualmente fundamental: além de olhar, é preciso ouvir.

Ouvir é estar atento a conversas informais, narrativas, cânticos, fórmulas verbais de rituais. São nas conversas do dia-a-dia que grande parte da religiosidade é expressa e comentada. Um ouvido atento perceberá o que se comenta acerca de entidades e a relação das mesmas com a comunidade. A finalidade de cada fenômeno, as normas e regras de cada ritual, os “porquês” do religioso. Perguntas objetivas dificilmente obterão respostas objetivas, mas conversas informais, na normalidade do dia-a-dia, podem revelar o sentido mais profundo do mundo do outro. Portanto, faz-se necessário um ouvir disciplinado. É claro que, em contexto transcultural, nos primeiros momentos a comunicação será muito limitada e pouco se obterá através do ouvir. Mas se o olhar é acurado, todas as perguntas que vierem à mente desde o primeiro momento podem ser anotadas para uma investigação posterior. Por isso, além de olhar e ouvir é necessário escrever.

Escrever é registrar de forma organizada todas as impressões, perguntas e conclusões. As anotações pessoais com tempo se tornarão um banco de dados. Em um caderno bem organizado, pode-se, por exemplo, anotar todas as observações, descrevendo o que se viu e as perguntas que vieram à mente, deixando uma parte em branco para o futuro registro das respostas e conclusões que se chegar sobre aquele fenômeno. Essas anotações devem conter elementos como local, dia, horário, ambiente e a pessoa diretamente envolvida ou observada. Da mesma forma, deve-se registrar futuramente o que levou o observador às conclusões. Com registros bem organizados ficará bem mais fácil fazer uma análise fenomenológica segura e apresentável. Quando escrevemos, cristalizamos idéias, alinhamos raciocínios e documentamos informações que poderão ser úteis a outros. Mas, obviamente, todo esse processo deve ser feito com muita discrição e naturalidade. Enquanto o olhar e ouvir acontece no dia-a-dia, junto ao povo, o escrever acontece no “gabinete”. É interessante ter sempre consigo um pequeno bloco e caneta para registro de fatos principais, em especial palavras e expressões desconhecidas, mas o registro detalhado e analítico deve ser feito em casa, na quietude do lar, onde o missionário pode ficar à sós com os seus pensamentos. É necessário disciplina. O ideal é ter um horário diário para registrar as observações do dia. Também é aconselhável ter um diário pessoal, além do caderno de anotações. No diário registra-se a experiência pessoal, os principais fatos que marcam o missionário enquanto pessoa nessa vivência transcultural. É um espaço para registrar seus sentimentos, reações e aprendizado. Isso tornará seu registro histórico. Já no caderno de anotações, registra-se as observações, o apreendido pelo olhar e ouvir, perguntas sobre a cultura e religiosidade, descrição de rituais e o máximo de fenômenos observados, sempre evitando conclusões éticas no primeiro momento, buscando as respostas êmicas.

É consenso entre antropólogos e fenomenólogos que os primeiros meses do contato são fundamentais nesse processo de observação. Muitos fenômenos se tornarão naturais para o observador em pouco tempo e não mais lhe chamarão a atenção. Por isso, é preciso fazer o máximo de anotações e perguntas já nos primeiros momentos. É claro que, algumas questões mais sutis, só serão percebidas com algum tempo de convívio, mas o quanto antes dar início a essa prática de registro, melhor.

Imagine um missionário chegando pela primeira vez num grupo indígena pouco conhecido, em algum lugar da Floresta Amazônica. Ele não conhece uma palavra sequer do idioma, mas tem um bom olhar etnográfico e razoável conhecimento etnológico. Entrando em uma grande maloca, em poucos momentos seu olhar aguçado vasculha o interior da mesma. Logo conta os fogos, acesos ou em resíduos de cinzas e carvão, o que indicará possivelmente quantas famílias ou grupos domésticos habitam aquela maloca. Contando as redes de dormir, perceberá quantas pessoas ou pelo menos quantos adultos vivem ali. Observando onde estão as armas, como arco e flecha, lanças e zarabatanas, logo terá uma possível ideia se os homens e mulheres dormem juntos ou separados. Os utensílios e vestimentas lhe darão uma boa ideia do nível de contato com a sociedade externa. Observando a estrutura arquitetônica da maloca e relacionando a mesma às informações disponíveis na literatura etnológica, será possível ter uma suspeita de qual família etnolinguística aquele grupo deve pertencer.

No primeiro momento mais reservado que tiver, registrará todas essas observações no seu caderno de anotações. Essas idéias iniciais são apenas suspeitas e deverão ser confirmadas. Muitas outras perguntas virão à sua mente e serão registradas também: por que alguns pintam o corpo com listras e outros com círculos? Por que algumas redes estão mais próximas das fogueiras que outras? Por que a maloca não tem janelas?

Esse missionário também tem um bom treinamento linguístico e, assim, com pouco tempo de convívio já percebe os sons daquela língua, compreende algumas palavras e até frases mais simples. Começará a tomar nota das nomenclaturas de parentesco, percebendo que os tios paternos são chamados pais e os primos paternos chamados irmãos, enquanto o mesmo não se dá com os tios e primos maternos. Isto já lhe dará uma boa ideia acerca do sistema de parentesco.

A análise fenomenológica acontece no mesmo viés, porém, a subjetividade é maior. Poucas conclusões serão possíveis nos primeiros momentos por se tratar de experiências e não de instituições. O alvo é compreender o que cada fenômeno significa para o homem religioso, de forma eidética e êmica. Mas a prática de observação e elaboração de perguntas é a mesma, tendo sempre em mente a pergunta básica: “qual ideia está por trás desse fenômeno?” Andando nos arredores da aldeia com alguns indígenas, o missionário observará que eles sempre tocam em uma determinada árvore ao passar por perto. Qual a razão? Dão volta ao irem ao rio, para não atravessar um grupo específico de árvores. Será um local sagrado? Parece que algumas palavras jamais são pronunciadas por mulheres. Outras, somente o pajé pronuncia. Será uma fórmula mágica ou algum tabu? Em alguns lugares que os homens passaram corriqueiramente, as mulheres nem se aproximam. Qual o motivo da restrição? Observando um ritual ele perceberá objetos manuseados, palavras e frases proferidas repetidas vezes e alguns nomes até então não ouvidos. Que objetos são estes? E os nomes, seriam de entidades? É preciso fazer perguntas e com o tempo as respostas virão.

5º Seminário do Jesus Histórico - Reconstruindo Jesus e o Reino de Deus





quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Programa Direção Espiritual - A Felicidade Depende de Mim - Pe. Fábio de Melo

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Programa Direção Espiritual - Reconhecer e Aceitar Quem Somos - Pe. Fábio de Melo

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Direção Espiritual - Permita que Deus Cuide de Você em Todos os Momentos

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Programa Direção Espiritual - Não Seja um Cristão de Aparência - Pe. Fábio de Melo

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(Download) Os Progressos da Metafísica - Immanuel Kant

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