quinta-feira, 17 de maio de 2012

Afinal, quem é Ele...?




questão da divindade de Jesus Cristo, há muito tempo, tem sido um assunto debatido. Desde o tempo em que Jesus viveu na terra, as pessoas têm tido vários pontos de vista a respeito dele. Alguns o chamaram de embusteiro (Mateus 27:63). Alguns disseram que ele desencaminhava as multidões; outros disseram que ele era um bom homem (João 7:12). Alguns declaravam que ele era um dos profetas, como Elias ou Jeremias (Mateus 16:14). Seus discípulos confessaram sua fé em que ele era o Cristo, o Filho de Deus (Mateus 16:16). 

Depois do primeiro século houve continuados debates sobre a natureza e a identidade de Jesus. “As controvérsias cristológicas do fim do segundo século e do início do terceiro foram assim uma parte da dialética interna da fé cristã” (Ferguson 18). Para evitar os extremos do adopcionismo (Jesus era um bom homem a quem Deus adotou como seu Filho) e do modalismo (Jesus era a mesma pessoa que o Pai, que se manifestava em diferentes modos), “a solução ortodoxa foi afirmar ao mesmo tempo a unidade de Deus, a divindade de Cristo, e a distinção entre o Filho e o Pai” (Ferguson 18). 

Devido aos esforços para tentar explicar tudo isto, as controvérsias “trinitárias” do quarto século nasceram. Ainda que sempre tenha havido dissidentes, a posição ortodoxa definida por diversos concílios que se conveniaram durante os próximos poucos séculos foi que Jesus era verdadeiramente Deus, e que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são personalidades distintas. Aqueles que negavam isto foram considerados “anátemas” (Hardy 379). Em tempos modernos, o debate não diminuiu. A teologia liberal do último par de séculos tem questionado o ponto de vista “ortodoxo”, e tem tentado redescobrir o histórico Jesus. O resultado tem sido uma negação da divindade de Jesus nesta era moderna de ceticismo.

O propósito deste estudo é considerar o que a Bíblia ensina sobre a identidade de Jesus. A Bíblia contém a verdade histórica sobre Jesus, e estamos buscando entender as muitas passagens bíblicas relativas à questão de sua identidade. Mesmo dentro de modernos círculos religiosos, entre aqueles que declaram aceitar a Bíblia como verdadeira, tem havido desacordo muito espalhado quanto a se Jesus era Deus ou não. Há também a questão bíblica a respeito do que Jesus renunciou quando veio à terra. 

Alguns ensinam que Jesus era Deus enquanto estava no céu mas, quando veio à terra, despiu sua divindade e se tornou nada mais do que um humano. Estas questões teológicas têm grandes implicações práticas. Se Jesus realmente era Deus, então ele merece pleno compromisso e submissão. Se não era quem declarava ser, então era uma fraude e merece ser relegado ao status de charlatão ou louco.

Nesta dissertação, o foco será sobre o que a própria Bíblia diz a respeito de Jesus Cristo. Será feita menção às modernas tendências que se afastam da aceitação de Jesus como Deus, mas será dada especial atenção aos textos bíblicos. A intenção é mostrar que a Bíblia de fato ensina a divindade de Jesus Cristo. Atenção especial será dada aos versículos específicos que ensinam sobre Jesus. 

A moderna tendência de rejeitar a divindade de Jesus

Alguém que escreveu sobre esta questão fez a seguinte observação:

“Hoje em dia, pode-se encontrar evidência virtualmente em toda parte – em todos os continentes, tanto nos círculos católicos romanos como nos protestantes – que o que está teologicamente “na moda” é contender por um Jesus que era somente um homem por natureza e por uma Bíblia que virtualmente silencia a respeito da clássica cristologia da encarnação de um Cristo de dupla natureza – verdadeiro Deus e verdadeiro homem na única pessoa de Jesus Cristo. Está muito em voga acreditar que a melhor solução pode ser entender Jesus como somente um homem – um homem muito incomum, naturalmente, com uma missão especial de Deus – e explicar as atribuições bíblicas a ele de qualidades divinas em outros termos não ontológicos” (Reymond 2-3).

Esta citação descreve com precisão o pensamento religioso moderno daqueles que são crentes professos em Deus. Tanto estudiosos protestantes como católicos romanos estão ensinando que Jesus não era realmente Deus. Eles estão dizendo que ele nem mesmo declarou ser Deus, mas discípulos mais tarde atribuíram divindade a ele. Parte da razão por que a tendência moderna tem estado afastada da crença na divindade de Jesus é devida à questão da confiabilidade das narrações do evangelho. A questão geral tem sido levantada sobre se os evangelhos, como os temos, são ou não verdadeiras representações da vida e das declarações de Jesus Cristo.

Rudolph Bultmann era um importante estudante liberal que questionou a crença na veracidade histórica das narrações do evangelho. A teologia de Bultmann estava baseada no conceito de que se precisa “desmitologizar” as narrações. Isto significa que é preciso ficar por trás do que é dito para tentar achar o que a verdade real é, o que pode estar escondido em algum lugar nas profundezas do ensinamento mítico. Bultmann questionou a idéia de que Jesus tivesse uma consciência messiânica (Bultmann 26). 

Ele apoiou o conceito que diz que pontos de vista como estes sobre Jesus foram sobrepostos sobre Jesus por discípulos posteriores. Esta abordagem básica é agora adotada por um grande número de estudiosos. Ele assumiu que os relatos do evangelho são informação de segunda mão e que eles contêm tradições humanas sobre Jesus. A “forma de crítica” de Bultmann tomou o mundo teológico como uma tempestade no vigésimo século (Praamsma 61).

Talvez o mais significativo desenvolvimento na era moderna do entendimento bíblico seja a popularização de um “novo” Jesus histórico pelo “Seminário de Jesus”. Este seminário, realizado primeiramente em 1985 sob a liderança de Robert Funk, reuniu-se em várias ocasiões para chegar a conclusões a respeito de quem Jesus realmente foi e quais, dos relatos do evangelho, são suas palavras e declarações reais. “Poderia a fé ter feito com que os escritores de todos os quatro Evangelhos embelezassem o fato real? Teriam as políticas da igreja primitiva feito com que eles alterassem ou acrescentassem à história de Jesus? Quais partes do Novo Testamento poderiam ser relatos puros e não mitificações piedosas?” (Ostling e Towle 54-55). 

Eles decidiram, através de um processo de votação com contas coloridas, que menos do que um quinto dos tradicionais ditos de Jesus são autênticos. Suas conclusões estão publicadas numa obra chamada The Five Gospels (significa “Os Cinco Evangelhos”). Suas conclusões têm recebido muita atenção dos meios de publicação, e a popularização de suas idéias parece que terá um forte impacto sobre a opinião pública nos anos vindouros. Ainda que não esteja dentro do objetivo desta dissertação comentar o Seminário de Jesus, precisa-se questionar o processo de votação sobre as palavras de Jesus por pessoas que estão perto de dois mil anos afastadas dos eventos. 

O ponto é que há um continuado esforço para redefinir o Jesus dos relatos evangélicos. Tudo isto parece realçado por uma tendência anti-sobrenatural e a recusa a considerar os relatos do evangelho como documentos históricos por causa do tipo de material que ele contém. Eles assumem que ele não pode conter material contemporâneo, e que qualquer registro de eventos notáveis ou declarações são automaticamente não confiáveis. “E eles então chegam a conclusões baseadas na fé, freqüentemente de sua própria criação” (Woodward 2).

Um escritor conservador, que tem devotado trabalho à crítica do revisionismo moderno, mostra que ainda há boas razões para se aceitarem os relatos históricos do evangelho. Depois de criticar a evidência da confiabilidade do evangelho de Marcos, ele observa o seguinte:

“O Jesus sobrenatural do Evangelho de Marcos, naturalmente, é difícil de ser aceito por muitas pessoas do vigésimo século. Não é o tipo de retrato que se pudesse esperar que um moderno aceitasse, se boa evidência não houvesse aí em seu favor. Mas a evidência aí está. E, antes que ajustar a evidência para fazer Jesus mais palatável às sensibilidades do século vinte, parece mais razoável deixá-la intacta e simplesmente permitir que o enigma deste judeu do primeiro século confronte nossas sensibilidades do século vinte. Pode mesmo ser que a história, afinal, não seja um continuum, fechado!” (Boyd 243).

Como é o caso em muitos campos, a tendência é freqüentemente o fator determinante de a pessoa aceitar ou não Jesus como os relatos do evangelho o apresentam. Há sempre um outro lado das histórias que é popularizado nos meios de comunicação. Em qualquer caso, a fé é envolvida no processo de aceitação. “Assim, se a pessoa mantém que Jesus era o Filho de Deus e foi levantado dos mortos, ou se a pessoa acredita que Jesus era um filósofo cínico cujo corpo foi finalmente devorado pelas bestas selvagens, a fé é necessariamente envolvida” (Boyd 293). Há muita especulação e pouca evidência objetiva que existe por parte de muitos revisionistas. 

Em vez disso, “a narrativa dos Evangelhos é descartada e pedaços da Escritura são embaralhados para revelar o ‘Jesus histórico’ do próprio estudioso” (Woodward 65). Parece mais razoável considerar os evangelhos à sua luz histórica. Eles declaram ter sido escritos e confirmados por testemunhas oculares (1 João 1:1-3; Lucas 1:1-4; 2 Pedro 1:16). Jesus foi visto, ouvido e seguido. Somente demonstrando que estes escritores eram mentirosos, iludidos, ou de algum outro modo os desacreditando, poderemos assumir que os relatos do evangelho não são designados a serem entendidos historicamente.

A questão se Jesus era ou não o Filho de Deus parece ser mais um assunto filosófico nesta era moderna. Muitos não crêem nele simplesmente porque pensam que é tolice aceitar que um homem que viveu dois mil anos atrás possa ser um salvador numa era moderna. Alguns não aceitarão o conceito de ressurreição sem se importar com quanta evidência é mostrada para isso. A própria Bíblia antecipa que muitos pensariam deste modo (1 Coríntios 1:18 e segs.). Não obstante, houve milhares de cristãos que deram suas vidas pela sua fé na ressurreição, inclusive aqueles que andaram com Jesus. 

Há “pouca dúvida de que o levantamento de Jesus por Deus para uma nova vida foi uma convicção cristã primitiva” (Woodward 66). Eles podem ter sido “tolos,” mas estavam convencidos e convictos. E mais, poderia parecer lógico que estas pessoas que viveram com Jesus, e durante um tão curto tempo depois de Jesus, soubessem mais sobre a vida, os cenários e os tempos de Jesus do que qualquer pessoa moderna saberia. Eles não podem ser desacreditados porque aceitaram Jesus como o Filho de Deus: seus atos baseados em suas convicções deverão dar-lhes credibilidade. Naturalmente, eles também tinham uma tendência, como todos têm; mas pode ser que sua tendência realmente fosse fundada em terreno sólido. 

O que a Bíblia diz sobre Jesus?

A partir deste ponto, o foco mudará para os textos escriturais e perguntará: a Bíblia, de fato, ensina que Jesus era Deus? Há muitos que professam que a Bíblia é historicamente verdadeira, mas que não crêem que Jesus fosse Deus. É este problema que será enfrentado. 

O que significa “divindade”?

Divindade é, geralmente, uma referência a um ser que está no estado de ser Deus. Ao dizer que um ser é “divino”, está-se dizendo que este ser possui a natureza de Deus, ou está no estado de ser Deus. Na Bíblia, Theos, Deus, refere-se “ao ser supremo sobrenatural como criador e mantenedor do universo: Deus” (Louw e Nida 137). A Bíblia se refere a Deus como aquele que “fez o mundo e tudo o que nele existe” (Atos 17:24). Palavras derivadas de theos, como theotes, se referem à “natureza ou estado de ser Deus” (Louw e Nida 140). Esta é a idéia como é encontrada em Colossenses 2:9, que afirma com referência a Jesus“nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Ao afirmar que Jesus é divino, está-se dizendo que Jesus possui certas características divinas. Antes, está-se dizendo que ele é propriamente Deus, o ser supremo sobrenatural que criou e sustenta o universo.

Pode ser mostrado pela Bíblia que Jesus possui a natureza de Deus, então será mostrado que a Bíblia ensina que ele é Deus. A “natureza” se refere aos atributos, características e qualidades que fazem de alguma coisa o que ela é. São os traços essenciais que pertencem a alguma coisa. Se alguém é desprovido destes traços essenciais de divindade,essa pessoa não é Deus. Gálatas 4:8 se refere“àqueles que por natureza não são deuses”

Essas pessoas tinham adorado alguma coisa que não era Deus; esses ídolos não continham a essência da divindade. Conquanto seja impossível definir todos os atributos essenciais de Deus, e isso não esteja dentro do alcance deste estudo, algumas das características específicas que se ajustariam dentro desta categoria incluem a onipotência e a eternidade. Somente Deus é “Todo-Poderoso” e eterno, no sentido em que ele não teve princípio e não tem fim. Qualquer ser que possuísse esta característica seria certamente considerado divino. A questão é: são tais atributos atribuídos a Jesus Cristo na Bíblia? Este estudo responde afirmativamente, e procurará mostrar algumas das várias provas bíblicas da divindade de Jesus. Evidências de ambos, do Velho como do Novo Testamento, serão consideradas. 

O Velho Testamento

Para mostrar que Jesus é o Messias, é comum ir ao Velho Testamento para considerar as muitas profecias e alusões (mais de 300) a respeito do Messias. Depois, deve mostrar no Novo Testamento como Jesus cumpriu estas profecias. Algumas destas profecias incluem referências ao Messias como sendo divindade.

Isaías 9:6 se refere ao Messias como “Deus Poderoso” (El Gibbor). Em Jeremias 32:18, o nome de “Deus Poderoso” é identificado como “SENHOR (Yahweh) dos exércitos”. Alguns têm argumentado que “Deus Poderoso” não é o mesmo que “Deus Todo-Poderoso” e, portanto, Jesus não era realmente Yahweh. Jeremias responde essa questão. O “Deus Poderoso” é “Yahweh dos exércitos.”

“Yahweh” (Jeová ou Javé) é usado 6.800 vezes no Velho Testamento. É o nome mais precioso para Deus. “Jesus,” como abreviação de Jehoshua, significa “Jeová, o Salvador”. Para seus pais terrestres, foi dada a mensagem que seu filho se chamaria “Jesus” (Mateus 1:21). Isto não foi acidental. A Bíblia de fato ensina que Jesus era Yahweh feito carne (João 1:1,14). Considere as seguintes ligações bíblicas:

Isaías 8:13-14 se refere a Yahweh como aquele que se tornaria uma pedra de tropeço e uma rocha de ofensa. O Novo Testamento aplica isto a Jesus em 1 Pedro 2:8.

Isaías 40:3 fala daquele que viria diante de “Yahweh” no deserto. Isto é aplicado a João Batista quando preparava o caminho para Jesus, o Cristo (Mateus 3:3; Lucas 1:76; João 3:28).
Ž Em Isaías 42:8, Yahweh fala da glória que pertence somente a ele, e que ela não seria dada a outro. Jesus pregou sobre a glória que ele partilhava com o Pai antes que houvesse mundo (João 17:5). Em Isaías 6 é relatada uma visão na qual Isaías viu Yahweh sentado em seu trono. João 12:36-41 registra que afirmações feitas por Isaías foram pronunciadas “porque ele viu sua glória, e falou dele”. No contexto, isto é claramente uma referência a Jesus. Isaías viu “sua” glória e falou “dele”, de Jesus. Isto liga Jesus a Yahweh.

Isaías 44:6 faz uma afirmação clara a respeito de Yahweh: “Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não há Deus”. Seria lógico que alguém que declarasse isto teria que ser Deus, ou teria que ser um mentiroso. O Novo Testamento atribui esta mesma frase, “o primeiro e o último”, a Jesus (Apocalipse 1:17-18; 2:8: 22:13-16). Estas referências ensinam que Jesus é Yahweh.

 Salmo 102 começa uma oração a Yahweh. Uma parte desta mesma oração é aplicada a Jesus em Hebreus 1:10-12. Seria difícil conciliar como uma oração (ou mesmo uma parte de uma) feita a Yahweh pudesse ser assim aplicada a alguém que não é Deus.

Estas e outras referências tomadas juntamente provêem um apoio muito forte para a divindade de Cristo sendo ensinada pelo Velho Testamento. Não parece ser por acidente que tais ligações fossem feitas entre os Testamentos. Jesus não estava vindo a esta terra para ser só qualquer outro homem; ele estava vindo para ser o salvador do mundo. Definitivamente, somente o próprio Deus poderia preencher este papel. 



Os relatos do Evangelho não fornecem biografias completas da vida de Jesus. Eles, contudo, dão eventos relevantes, atos, declarações ensinamentos de Jesus enquanto ele vivia nesta terra. Portanto, é apropriado considerar o testemunho destes registros. Ensinam eles que Jesus é divindade? Nem todos os registros dão o mesmo destaque aos atos e ensinamentos que outros. Cada evangelho foi escrito por propósito pretendido e para uma audiência especial. Diferentes ângulos são considerados nos ensinamentos de Jesus, e diferentes fatos são enfatizados.

As declarações de Jesus. Conquanto Jesus não tenha feito nenhuma declaração explícita de que era Deus, ele de fato fez declarações que definitivamente o identificavam como Deus. Tomadas em conjunto, elas apóiam uma questão para o entendimento de Jesus, que ele é Deus.

a. Ele declarou ter uma relação inigualável com o PaiEle não declarou apenas crer ou amar a Deus; ele declarou que ele e o Pai eram um (João 10:30). Ele não se referiu a si mesmo como um filho de Deus, mas o Filho de Deus. João 5:17-18 registra uma ocasião quando Jesus tinha feito um milagre justamente no sábado. Ele disse aos judeus: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. Isto enfureceu os judeus, por isso “ainda mais procuravam matá-lo, porque não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus”. Eles entenderam que Jesus estava alegando ter uma relação com o Pai num sentido incomparável, e creram que isto era blasfêmia, pois ele estava “fazendo-se igual a Deus”.

b. Ele declarava ter autoridade para perdoar pecadosMarcos 2 registra quando Jesus, confrontado com um homem paralítico, simplesmente disse: “Filho, teus pecados são perdoados”. Os judeus pensaram que isto era errado, pois ninguém “pode perdoar pecados a não ser Deus somente”. De modo a provar que ele tinha autoridade para perdoar, Jesus curou o homem. O direito a perdoar pecados é um direito divino.

c. Ele se declarou sem pecado (João 8:29,46; 18:23). Outras passagens bíblicas apóiam esta declaração (Hebreus 4:15), que põe Jesus em nítido contraste com todos os outros, pois pecaram (Romanos 3:23).

d. Ele declarou ter autoridade para julgar o mundo (João 5:25-27). Ele disse que suas palavras haveriam de julgar no último dia (João 12:48). Ou ele se entendia como Deus, ou era o homem mais convencido e arrogante que jamais viveu.

e. Ele declarou falar as próprias palavras de Deus. Ele disse: “Minhas palavras não passarão” (Mateus 24:35). Ele colocou suas próprias palavras em igualdade com as palavras de Deus.

f. Ele declarou ser o único caminho para a salvação. Ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6). Não se pode ficar neutro diante de uma declaração como esta. Ela é estreita e exclusiva. Mais tarde, os apóstolos testemunharam que não há outro nome dado pelo qual podemos ser salvos (Atos 4:12). Se não, a Bíblia está afirmando salvação através de alguém que não tem direito a declarar ser o único caminho até Deus.

g. Ele declarou ser o Autor e Doador da vida. “O Filho do homem dá vida a quem ele quer”(João 5:21). Ele se chamou o “pão da vida” (João 6:48), e a “ressurreição e a vida” (João 11:25).

h. Jesus exigiu a mais alta lealdade da humanidade. Ele disse que seus seguidores têm que negar a si mesmos e segui-lo (Lucas 9:23). Ele disse a seus seguidores que eles têm que amá-lo acima de tudo o mais, incluindo membros da família (Lucas 14:26; Mateus 10:34-39). Se Jesus não pensasse que ele era Deus, o que mais poderia ele estar pensando?

i. Ele declarou cumprir todas as profecias do Velho Testamento a respeito do Messias.(Lucas 24:44). Considerando quantas profecias há sobre o Messias, esta é uma admirável declaração. Uma vez que, conforme já foi demonstrado, o Velho Testamento liga o Messias a Yahweh, então a declaração de Jesus de ser o Messias é também uma declaração de divindade.

j. Jesus declarou ser Deus. Ao falar aos judeus sobre Abraão, Jesus disse: “Antes que Abraão fosse, eu sou” (João 8:58). Isto levaria os judeus de volta ao tempo quando Yahweh falou a Moisés no arbusto ardente, declarando ser “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3:14). Por causa desta declaração os judeus pegaram pedras para atirar em Jesus, pois eles sabiam as suas implicações. Nesta afirmação, Jesus estava declarando existência eterna e auto-suficiência. Se ele não fosse Deus, então isto realmente seria blasfêmia.

Estas declarações demonstram o ensinamento bíblico que Jesus tinha uma consciência messiânica e divina. Rejeitar todas elas como sendo sobrepostas a Jesus por discípulos ulteriores não é consistente com a evidência, e retrata os discípulos ulteriores como sendo tão espertos e fraudulentos que se torna difícil imaginar. Estas declarações são sutis, ainda que fortes. Tomadas em conjunto, elas argumentam que Jesus declarou ser Deus.

As obras de Jesus. Não era suficiente para Jesus fazer declarações espetaculares. Ele precisava apoiar o que dizia. Este era o propósito das obras dele. Em João 5, Jesus afirmou que seu próprio testemunho, por si só, não seria válido. 

Ele defendeu-se apelando para outros testemunhos. Um destes testemunhos são as obras que ele realizava: “as obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu faço, testemunham a meu respeito, de que o Pai me enviou” (João 5:36). Nicodemos tinha vindo antes a Jesus e disse: “Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (João 3:2). 

Mais tarde, Jesus disse aos judeus: “Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis; mas, se faço, e não me credes, crede nas obras; para que possais saber e compreender que o Pai está em mim, e eu estou no Pai” (João 10:37-38). João 20:30-31 afirma que as obras que Jesus fez tinham a intenção de acender a fé naqueles que sabiam delas. 

Pedro disse a alguns judeus no Pentecostes que Jesus era “varão aprovado por Deus diante de vós, com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis” (Atos 2:22). É impossível separar Jesus de suas atividades. Os milagres e as obras que Jesus fez são inseparavelmente ligados com sua vida na terra; e não podem ser rejeitados simplesmente por serem milagrosos.

Jesus fez diferentes tipos de milagres, mas podem todos ser classificados em três categorias: milagres sobre a natureza (p. ex., acalmando a tempestade), milagres de curas físicas (p. ex., curando o homem paralítico), e milagres de ressurreição (p. ex., Lázaro). Houve muitas testemunhas da maioria destes milagres. Mesmo os inimigos de Jesus os admitiam. 

O ponto aqui é que a Bíblia ensina que Jesus operou milagres de modo a apoiar suas declarações. Portanto, o que quer que seja que Jesus declarou, de acordo com a Bíblia, foi provado por suas obras. Desde que suas declarações implicam, direta ou indiretamente, que ele é Deus, então as obras que ele fez verificam isto e a proposição deste estudo é verdadeira: a Bíblia ensina a divindade de Jesus Cristo.

A aceitação de adoraçãoOutra importante prova bíblica da divindade de Jesus é sua aceitação de adoração. A Bíblia ensina que o único que deve ser adorado é Deus. O próprio Jesus reconheceu isto (Mateus 4:10). Conquanto seja possível para alguém que não é Deus aceitar adoração, a aceitação de adoração por Jesus mostra, pelo menos, que ele pensava ser divino. Muitos exemplos disto são dados nos relatos do evangelho (cf. Mateus 8:2; 9:18; 14:33; 28:9,17). Merecem observação especial três passagens do Novo Testamento ligadas com isto:

a. João 5:23. Jesus afirmou que todos deverão honrar o Filho (Jesus) exatamente assim como ele honrava o Pai. Se ele não pensasse que era Deus, então ele era culpado de blasfêmia. Esta afirmação sozinha demonstra o ensinamento bíblico da divindade de Jesus. Para que alguém declare que merece a mesma honra que o Pai, teria que ser Deus, ou teria que ser um mentiroso.

b. João 20:28. Depois da ressurreição, Jesus apareceu aos seus discípulos. Tomé não estava presente no primeiro aparecimento, e duvidou que Jesus tivesse realmente sido visto. Quando Jesus apareceu novamente, Tomé viu e fez a seguinte afirmação a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”. Não há indicação de que Jesus tentasse corrigir isto. Jesus aceitou esta adoração, tanto como a referência a sua divindade. De fato, ele respondeu a Tomé: “Porque tu me viste, acreditaste?” (20:29).

c. Hebreus 1:6. Referindo-se a Jesus, o texto diz: “Que todos os anjos de Deus o adorem”. Esta instrução é dada pelo Pai. A Bíblia mostra que os anjos sabiam que o único que poderiam adorar corretamente era Deus. (Apocalipse 19:10). Se lhes é dito por Deus para adorarem Jesus, então esta é uma clara implicação do ensinamento de que Jesus é Deus.

A ressurreiçãoSe há um evento no qual todo o ensinamento bíblico repousa, é a ressurreição. Pela ressurreição, Jesus foi “designado Filho de Deus com poder” (Romanos 1:4). Este é o único milagre na Bíblia que, se historicamente verdadeiro, valida a possibilidade de todos os outros milagres, e a história como registrada na Bíblia. Por esta razão, é uma das questões mais acaloradamente debatidas. Os revisionistas têm buscado várias explicações para o corpo de Cristo desaparecido do túmulo. 

“A ressurreição é excluída a priori do tribunal porque ela transcende tempo e espaço. Os historiadores têm então que arranjar outra razão para explicar as origens do cristianismo” (Woodward 65). Um estudioso do Novo Testamento argumentou que a ressurreição é uma “fórmula vazia” que precisa ser rejeitada por alguém que tenha um “ponto de vista científico” (Woodward 62). Assim, alguns, como Crossan, argumentam que o corpo de Jesus foi devorado por cães selvagens. 

Outros dizem que ele apenas pareceu estar morto. Outros argumentam que seu corpo apodreceu no túmulo, e que os discípulos foram à sepultura errada. Então alguns argumentam que os aparecimentos de Jesus foram somente experiências psicológicas, “um êxtase de massa”. É interessante que, na busca pelo Jesus “histórico,” estudiosos especulem sobre estas coisas para as quais eles não têm evidência histórica concreta, objetiva. Ainda assim, esperam que esqueçamos a evidência bíblica e aceitemos as especulações.

Contudo, como muitos outros argumentam, há forte evidência histórica para a declaração de Jesus de ser o Messias, e para sua ressurreição corporal (cf. Ostling e Towle 58). Para descartar definitivamente a evidência bíblica por causa da suposição de que milagres como a ressurreição não poderiam ter ocorrido reflete falta de investigação honesta de matérias históricas. Testemunhas oculares declaram ter visto Jesus vivo depois que ele tinha morrido. 

O corpo tinha sumido do túmulo depois do sepultamento, e “nenhuma explicação natural convincente é disponível para responder por este fato” (Craig 280). Na verdade, qualquer outra explicação envolverá necessariamente especulação, pois não há nenhuma evidência contemporânea primitiva crível que responda pelos fatos de outra maneira. Se alguém está indo buscar o Jesus histórico, então os registros do evangelho têm que ser trazidos para testemunho, pois não tem havido “nenhum dado novo sobre a pessoa de Jesus desde que os Evangelhos foram escritos” (Woodward 70).

A evidência histórica é suficientemente maciça para convencer o investigador de mente aberta. Por analogia com qualquer outro evento histórico, a ressurreição tem evidência eminentemente crível por trás dela. Para desacreditar, precisa-se deliberadamente fazer exceção às regras que se usam em toda parte na história. Agora, porque alguém haveria de querer fazer isso? (Kreeft e Tacelli 197).

A ressurreição atesta a identidade de Jesus. Ela declara, com poder, que Jesus foi o Filho de Deus (Romanos 1:4). A Bíblia usa a ressurreição para reforçar a crença em Jesus como o Filho de Deus. Os discípulos que ficaram grandemente desalentados com a morte de Jesus, ficaram convencidos de que Jesus se levantou e se mostraram, subseqüentemente, dispostos a morrer para pregar isso. De todos os milagres e notáveis eventos registrados na Bíblia, a ressurreição é o mais significativo. 

Se ela não aconteceu, então aqueles que dedicam suas vidas a Jesus fazem-no em vão (1 Coríntios 15:12-19). Se ela, de fato, aconteceu, “valida sua declaração de ser divino e não meramente humano, pois a ressurreição da morte está além do poder humano; e sua divindade convalida a verdade de tudo o mais que ele disse, pois Deus não pode mentir” (Kreeft e Tacelli 176).

Títulos atribuídos a Jesus

Jesus se refere a si mesmo por vários títulos, e outros escritores do Novo Testamento se referem a ele por vários descrições. Estas referências a Jesus demonstram uma alta Cristologia na Bíblia. Elas mostram tanto a concepção que Jesus faz de si mesmo como os pontos de vista de outros sobre ele. Esta parte discutirá quatro dos importantes e debatidos títulos, bem como descrições que foram usadas para Jesus, tanto nos relatos do Evangelho como nas epístolas.

Filho de DeusA Bíblia se refere freqüentemente a Jesus como o Filho de Deus. Ainda que Jesus não usasse isto para referir a si mesmo, ele de fato falou de tal modo que apoiaria seu entendimento de que ele era o Filho de Deus (João 5:17-19). Alguns tomaram a frase “Filho de Deus” para significar que Jesus era o “descendente” de Deus. Ela é usada, então, para dizer que a Bíblia ensina que Jesus foi um ser criado. 

Contudo, a frase “filho de” é aberta para diferentes significados na Bíblia. Ela pode significar “descendente”, porém não necessariamente em todo contexto. Ela pode também ter o significado de identidade, aquele que compartilha da mesma natureza ou exibe as mesmas características que outro. Por exemplo, Jesus se referiu a Tiago e João como “filhos do trovão” (Marcos 3:17). Ele falou de“um filho de paz” (Lucas 10:6). Judas foi mencionado como o “filho da perdição” (João 17:12). Portanto, “filho de” nem sempre traz uma idéia física, literal, de “descendente.”

Com respeito a Jesus, Filho de Deus significa “aquele que tem as características essenciais e a natureza de Deus” (Louw e Nida 141). Quando Jesus declarou ser o Filho de Deus, ele estava declarando ter uma relação inigualável com o Pai. Os judeus entenderam que Jesus quis dizer que ele era “igual a Deus” (João 5:17-18; 10:30-38). Assim, ao afirmar que Jesus é o Filho de Deus, está-se afirmando que Jesus compartilhou da mesma natureza que o Pai. Ele é, em essência, “Deus o Filho.” Jesus é o Filho de Deus naquele muito inigualável sentido que ele é uno com o Pai. Isso nada tem a ver com sua origem.

Filho do Homem. Jesus referiu a si mesmo freqüentemente como o “Filho do Homem”. Isso é usado cerca de 82 vezes nos Evangelhos. A primeira impressão que se tem do uso deste título é que ele identifica Jesus com a humanidade. A Bíblia ensina que Jesus era um humano real. “Filho do Homem” pode certamente implicar que Jesus compartilhava da natureza e caráter da humanidade. Parece, contudo, que isto não explica adequadamente a frase. Jesus nunca teve que provar que ele era humano, era óbvio ao se olhar para ele. 

Este uso do termo era uma auto-designação, mas parece haver aí mais do que isso. A evidência indicaria que a frase “Filho do Homem” também era messiânica por natureza. O melhor apoio para isto pode ser dado pelas afirmações messiânicas em Daniel 7:13-14, onde o Messias é retratado como um “Filho do Homem”, ou figura de aparência humana, a quem é dado “domínio, glória e um reino”. Isto prepara o ambiente para o uso do título por Jesus.

Jesus usou a frase “Filho do Homem” em diferentes situações. Primeiro, ele usou-a para falar de si mesmo quando cumpria seu ministério na terra (p. ex., Mateus 8:20; 11:19). Segundo, ele usou a frase para falar de si mesmo como sofredor nas mãos dos homens, que o maltrataram e o executaram (p. ex., Marcos 9:12, 31; Lucas 24:7). Terceiro, ele usou-a para se referir ao seu aparecimento em glória, como juiz supremo (p. ex., Mateus 16:27; 25:31; João 5:27). Jesus é tanto o “servo sofredor” como o juiz de toda a terra. Reymond observou:

“Não pode haver dúvida, então, que todos os quatro evangelistas, quando interpretados corretamente, pretenderam que seus leitores entendessem que Jesus é o Salvador do homem nos papéis de servo sofredor, que veio tanto para ‘buscar e salvar o perdido’ (Lucas 19:10), como ‘não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos’(Marcos 10:45; Mateus 20:28), bem como vinha como juiz e Rei escatológico” (Reymond 57).

Primogênito. A Bíblia se refere a Jesus como “primogênito” (Colossenses 1:15-18; Romanos 8:29). Este termo também é aberto a um par de significados. Ele poderia significar primogênito em tempo (Gênesis 27:19; Êxodo 11:5; Lucas 2:7). Neste sentido ele se refere ao primeiro filho nascido numa família. Alguns têm tomado este significado e concluído que o uso da palavra “primogênito”, com referência a Jesus, significa que ele foi o primeiro ser criado. Contudo, isto não se mantém. O termo “primogênito” também é usado para representar posição superior. Por exemplo, a Bíblia fala de“primogênito de morte”, significando a doença mais fatal e mortal (Jó 18:13). Isaías 14:30 fala de“primogênito dos desamparados”, significando aqueles que mais precisam de auxílio. Outras passagens usam o termo deste modo (Êxodo 4:22; Jeremias 31:9; Salmo 89:27). Nestes casos ele significa “preeminente”.

A respeito de Jesus, “primogênito” significa aquele que é primeiro e preeminente sobre todos. Jesus existia antes da criação, e é superior à criação (Louw e Nida 117). Ele é chamado “primogênito entre muitos irmãos”, o que se refere a posição e não a tempo (Romanos 8:29). Ele é chamado o“Primogênito dos mortos”, significando que ele foi o primeiro a ser levantado para nunca mais morrer (Apocalipse 1:5). Colossenses 1:15 deverá ser entendido como significando que Jesus é preeminente sobre toda a criação porque ele mesmo é o Criador. “A palavra enfatiza a preexistência e incomparabilidade de Cristo com sua superioridade sobre a criação. O termo não indica que Cristo foi uma criação ou um ser criado” (Reinecker 567). 

Portanto o título “Primogênito” mostra uma alta Cristologia; Jesus é Unigênito. A expressão “unigênito” (monogenes) aparece cinco vezes com referência a Jesus (João 1:14,18; 3:16,18; 1 João 4:9). Novamente, isto nada tem a ver com a decisão sobre se Jesus é ou não um ser criado. É uma outra afirmação da posição ímpar mantida por Jesus. Em cada caso, ela significa “único” ou “só”: “pertencente ao que é único no sentido de ser o único da mesma qualidade ou classe” (Louw e Nida 591). Por esta razão, a Nova Versão Internacional explica, numa nota sobre João 3:16, que “unigênito” indica “único”. O mesmo termo é usado para Isaque, como o “único” filho (Hebreus 11:17). 

Isto lança luz sobre o significado do termo. Isaque não era o “unigênito” de Abraão em sentido estrito, literal. Nem Isaque era o filho primogênito em tempo. Contudo, Isaque ocupou uma posição singular e superior como o “único” filho da promessa de Abraão. Por esta razão, Isaque foi o único filho de seu tipo, e o termo pode ser usado adequadamente para ele. Isto é o que o termo significa com referência a Jesus. Ele foi o Filho único de Deus, o único de sua qualidade. É um título de posição, e não de origem.

Há outros termos aplicados a Jesus que são significantes. Por exemplo, Jesus é chamado “o resplendor da glória” de Deus e “a expressão exata de seu ser” (Hebreus 1:3). Jesus não era apenas um reflexo de Deus; a glória de Deus resplandecia através dele de tal modo que quando se via Jesus, via-se Deus (cf. João l4:9-11). Estes termos não poderiam ser corretamente aplicados a alguém que fosse um homem comum. Se eles forem aplicados adequadamente, eles implicarão que o próprio Jesus é Deus. Todos esses termos tomados conjuntamente demonstram a alta Cristologia da Escritura. O ensinamento uniforme é que Jesus foi Deus manifestado em carne.



té este ponto, têm sido considerados os textos que têm tremendas implicações. Agora nos voltamos para alguns textos mais específicos que se referem a Jesus como Deus e afirmam que ele é, de fato, o Criador. Se puder ser demonstrado que Jesus é o Criador e o mantenedor do mundo, de acordo com a Bíblia, então teremos demonstrado que a Bíblia ensina que Jesus é divino. Mais ainda, se há passagens específicas que se referem a Jesus em termos especiais identificando-o como Deus, então o ensinamento bíblico sobre Jesus ficará claro.

Jesus é o Criador e Mantenedor?

Alguns acreditam que a Bíblia ensina que Jesus é um ser criado. Alguma consideração já tem sido dada a isto. Outras passagens verificam que Jesus não foi criado. Por exemplo, Miquéias 5:2 fala do Messias como sendo “dos dias de eternidade,” ou “de eternidade a eternidade.” Isaías 9:6 fala do Messias como o “Pai eterno.” Isto não identifica Jesus com sendo a mesma pessoa que o Pai; identifica-o como o Criador, o originador. 

Ele é chamado “eterno.” Ainda que o Messias tenha nascido neste mundo no “tempo,” sua existência como um ser não teve um início. Esta foi pelo menos uma parte da declaração que Jesus fez quando disse aos judeus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58). 

As Escrituras se referem a Jesus como o Criador. Colossenses 1:15-16 fala de Jesus como o“primogênito de toda a criação”, o que, como foi antes considerado, significa que Jesus é preeminente sobre a criação. Por quê? Porque “nele foram criadas todas as cousas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele”

É evidente que, se Jesus criou “todas as coisas,” é porque ele fica fora da classe dos seres criados. João 1:3 diz: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. Se esta afirmação é verdadeira, então Jesus é o Criador, não a criatura. Portanto, Jesus é o Deus Criador, de acordo com a Bíblia.

As Escrituras também ensinam que Jesus é o mantenedor de todas as coisas. Voltando ao contexto de Jesus como o Criador, a Bíblia afirma que “ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste”(Colossenses 1:17). A expressão “subsiste” (sunesteken) aqui indica “juntar ou manter junto algo em seu lugar próprio ou apropriado ou relação apropriada” (Louw e Nida 614). “Todas as coisas são dependentes do Filho para sua continuação em existência” (Reymond 248). Isto ensina que Jesus é o sustentador do que ele criou. Hebreus 1:3 afirma que Jesus “sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder”. Aqui Jesus é descrito como aquele que faz todas as coisas continuarem. Assim, estas passagens ensinam que Jesus é aquele que preserva e sustenta todas as coisas. Elas implicam que Jesus é Deus, atribuindo a ele qualidades divinas.

Jesus é chamado “Deus”

Outras Escrituras são ainda mais explícitas em sua afirmação da divindade de Jesus. Ele é referido como “Deus” em diversos versículos específicos. Nesta parte, algumas dessas passagens serão brevemente citadas.

Œ João 1:1-18. João 1:1 diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Há três pontos afirmados neste versículo. Primeiro, o “Verbo” já estava em existência quando o tempo e a criação começaram; segundo, o Verbo estava sempre em comunicação com o Pai, e terceiro, o Verbo sempre participou da divindade. 

“O Verbo era Deus” é uma declaração que afirma a natureza divina do LogosTheos, que aqui éanarthrous [substantivo usado sem o artigo], descreve a natureza do Logos, em vez de identificar sua pessoa. Jesus como o Logos é pessoalmente indistinto do Pai (vers. 1b), contudo é uno com o Pai em natureza (vers. 1c) (Harris 93). Neste versículo, então, o Novo Testamento está ensinando a respeito da divindade de Jesus. “Aqui, então, João identifica o Verbo como Deus (totus deus) e assim fazendo atribuir a ele a natureza ou essência da divindade” (Reymond 304). Isto não significa que deveria ser traduzido como “o Verbo era divino,” como alguns têm feito. Que “o Verbo” é uma referência a Jesus é facilmente visto no contexto. O versículo 14 diz: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. O contexto identifica mais adiante o “Verbo” como Jesus (vers. 15-17).

João 1:18 tem alguma dificuldade ligada a ele. A segunda parte do versículo, “o Deus unigênito, que está no seio do Pai,” tem algumas variantes nos manuscritos gregos. A alternativa mais notável é “o Filho unigênito.” Como foi explicado antes, “unigênito” se refere a unicidade (uno e único). A maioria dos críticos, contudo, “concorda que monogenes theos era o escrito original” (Harris 93). Reymond indica: “O respeitável crítico textual precisa admitir que a evidência aponta muito decisivamente em favor de um theos original” (306). 

Parece que haja uma pequena dúvida, em termos da evidência dos manuscritos, sobre o uso aqui da expressão que significa “uno e único Deus”. Se for o sentido original, seria então outra instância de ensinamento a respeito da divindade de Jesus. Contudo, uma vez que esta passagem tem em si alguma ambigüidade, seria difícil repousar um caso inteiro nela. Em ambos os casos, ela não contradiz o resto do testemunho do Novo Testamento da divindade de Jesus.

João 20:28. A Bíblia registra que, depois que Jesus se levantou dentre os mortos e apareceu aos seus discípulos pela primeira vez, Tomé não estava presente. Quando ouviu que Jesus fora visto, Tomé duvidou, e disse que teria que vê-lo por si mesmo para que cresse nisso. Jesus apareceu a eles novamente, e quando Tomé ficou convencido, respondeu a Jesus:
“Meu Senhor e meu Deus”

 Alguns têm tomado esta como uma exclamação de louvor a Deus (não a Jesus). Contudo, o texto afirma que Tomé disse isto “a ele.” Ele estava se dirigindo a Jesus como Senhor e Deus. Outros têm dito que esta foi uma exclamação num momento de excitação. Contudo, não há registro de uma repreensão de Jesus. Ele aceitou esta saudação e levou-a um passo adiante”:  
“Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram” (vers. 29). Isto se torna a base para a declaração de João do motivo porque ele escreveu o livro (vers. 30-31). Não pode haver dúvida de que Jesus dê evidência aqui, por sua aceitação expressa da apreciação dele por Tomé, que ele era em seu próprio entendimento seu Senhor para ser servido e seu Deus para ser adorado” (Reymond 213). “Em nenhum outro lugar no Novo Testamento Jesus é identificado mais claramente como Deus” (Erickson 461). Esta declaração de Tomé, como está, é por si mesma um tremendo testemunho do ensinamento do Novo Testamento da divindade de Jesus.

Romanos 9:5. Paulo escreveu a respeito dos israelitas: “... deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre.” A NVI traduz como “Cristo, que é Deus acima de todos, bendito para sempre”. Ainda que alguns tenham tentado fazer “Deus bendito para sempre” separado do contexto como uma doxologia dirigida ao Pai, “é muito mais natural considerar as palavras finais do versículo como uma descrição ou doxologia do Messias, Jesus Cristo” (Harris 95). Esta passagem, na sua leitura mais natural do texto grego, atribui plena divindade a Jesus Cristo. Ele permanece como o Senhor e dominador do universo, e merece pleno louvor. O argumento de Paulo neste contexto é que ainda que muitos companheiros israelitas tivessem rejeitado Jesus como Messias, Jesus é, realmente, supremo sobre o universo e, como Deus, merece ser servido e louvado. Nenhuma Cristologia mais alta pode ser encontrada.

Tito 2:13 e 2 Pedro 1:1. Estas duas passagens podem ser consideradas juntas por causa de sua frase idêntica: “Deus e Salvador” (theou kai soteros). Em ambas as passagens, “Jesus Cristo” é o objeto da frase. Alguns argumentam que “Salvador” se aplica a Jesus, mas “Deus” é uma referência ao Pai: “Deus (o Pai) e Salvador Jesus Cristo.” Contudo, isto não é apoiado pela construção grega. Esta frase é aplicada a uma pessoa: Jesus Cristo. Primeiro, esta é a leitura mais natural do texto. Segundo, os dois nomes ficam sob um artigo, que precede “Deus.” Isto indica que eles têm que ser construídos juntos, não separadamente. 

E mais, esta frase foi uma fórmula comum e sempre denotou uma divindade, não duas pessoas separadas. Quando ambos Paulo e Pedro usaram a frase, então, “seus leitores sempre a entenderiam como uma referência a uma só pessoa, Jesus Cristo. Simplesmente não ocorreria a eles que ‘Deus’ pudesse significar o Pai, com Jesus Cristo como o ‘Salvador’” (Harris 96-97). O que isto tudo significa é que Pedro e Paulo entenderam que Jesus era ambos, “Deus e Salvador”.

Hebreus 1:8. Em Hebreus 1 há um contraste entre o Filho e os seres angelicais. Isto mostra a superioridade do Filho sobre os anjos. Para defender este ponto, é feito o argumento que Jesus é o único Filho (vers. 5). Ele tem de ser adorado, até mesmo pelos anjos (vers. 6). 

Então, no versículo 8 o próprio Pai chama Jesus Deus: “do Filho ele diz, teu trono, ó Deus, é para todo o sempre”. Ainda que haja alguma controvérsia envolvendo se “ó Deus” é ou não para ser construído vocativamente (como na maioria das traduções) ou como um nominativo (“Deus é teu trono”) ou como predicado nominativo (“teu trono é Deus”), a avassaladora maioria dos gramáticos, comentaristas, autores de estudos gerais e traduções para o inglês dão força a este vocativo (Reymond 296). Na passagem da qual isto é tirado (Salmo 45:6), o vocativo é visível. Os versículos 10 e 11 são ligados aos versículos 8 e 9 pela conjunção kay, que indica que estes versículos caem sob a mesma introdução que os versículos 8-9. No versículo 10, Jesus é saudado como “Senhor”, o que também liga-o com Yahweh (Salmo 102). Isto fortalece a decisão para “ó Deus” ser entendida vocativamente no versículo 8. Isto significa que o Filho é saudado como “Deus” nestes versículos, num sentido ontológico.

A consideração das passagens precedentes mostra que o Novo Testamento atribui consistentemente divindade a Jesus Cristo. Pelo menos quatro escritores – João, Paulo, Pedro e o autor de Hebreus – usam o título “Deus” com referência a Jesus. 

O uso deste título foi primitivo, começando pouco tempo depois da ressurreição (Tomé) e continuando até o final do primeiro século. Os escritos, dirigidos a várias pessoas, foram espalhados através de várias regiões, incluindo a Grécia, a Judéia e Roma. Entre o título de Deus aplicado a Jesus, as declarações de Jesus e o resto das Escrituras que implicam sua divindade, o Novo Testamento está repleto de ensinamento sobre Jesus sendo Deus. Se a pessoa deseja ou não aceitar isto, é outro assunto. Se a pessoa aceita a Bíblia como verdade, então ela precisa também aceitar que Jesus é Deus.

Há duas passagens que ainda não foram consideradas, ambas as quais têm ponto de vista significante sobre o ensinamento do Novo Testamento a respeito da divindade de Jesus. São Colossenses 2:9 e Filienses 2:1-11. Elas merecem consideração especial.

Colossenses 2:9

“...porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Este único versículo, “além de todos os outros no Novo Testamento, afirma que cada atributo divino é encontrado em Jesus” (Harris 66). Ele não diz que “muita” ou “alguma” divindade mora nele, mas a “plenitude da divindade”. Todo elemento que existe como divindade está em Cristo, de acordo com este versículo.
Neste contexto, Paulo fala de “filosofia e vãs sutilezas, de acordo com a tradição dos homens” e“conforme os rudimentos do mundo” como sendo contrários a Cristo (vers. 8). A afirmação no versículo 9, “... porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”, foi feita para se contrapor a estas vãs filosofias e dar uma fundação sobre a qual se pode ser completo em Cristo. Uma das filosofias contra as quais os escritores do Novo Testamento falaram foi a doutrina gnóstica, que negava que Deus poderia realmente vir na carne. Os gnósticos acreditavam que a matéria era inerentemente má, e a partir disto raciocinavam que Deus não poderia morar num corpo carnal. João abordou este mesmo problema (1 João 4:2; 2 João 7). 

Os gnósticos ofereceram uma filosofia adicional. Paulo responde que Cristo é suficiente para fazer alguém completo porque nele está a plenitude da divindade, e ele está acima de tudo porque ele criou tudo. Assim, Colossenses 2:9 afirma que a plenitude da divindade realmente estava em Cristo, não importa o que os filósofos gnósticos, ou quem quer que seja, ensinasse. Nada mais era necessário. Esta, por sua vez, era a base sobre a qual os cristãos deveriam agir. “Por que seus leitores têm que ‘andar’ em Cristo para ‘ficar em guarda’ de modo que ninguém os faça cativos por meio da busca de conhecimento que procede da filosofia humana e da tradição?” (Reymond 249-250). A resposta está no versículo 9.
O termo “plenitude” (pleroma) significa “quantidade total, com ênfase na totalidade” (Louwn e Nida 597). “Mora” (katoikei) indica o assentamento em um lugar fixo. É “estar em casa”. Vincent aponta que o tempo presente de “mora” denota “uma característica eterna e essencial do ser de Cristo. A moradia da plenitude divina nele é característica dele como Cristo, desde todas as eras até todas as eras” (487). 

O que está permanentemente “em casa” em Cristo é a “totalidade” da divindade. A palavra “deidade” (theotes) é o mesmo que “divindade” em várias traduções. O termo significa “a natureza ou estado de ser Deus” (Louw e Nida 140). É isso que é Deus, o estado de divindade. Esta afirmação não está simplesmente dizendo que Jesus é Deus em sua pessoa, mas que ele é tudo o que é Deus. A natureza divina completa está em casa em Cristo.

Há dois significados compulsivos alternativos no termo “corporal” (somatikos) neste contexto. O primeiro é que ele significa “corporalmente,” uma referência ao corpo físico, humano, de Cristo. “A palavra refere-se ao corpo humano de Cristo” (Reinecker 573). Tomada neste sentido, aqui está uma afirmação do conceito que Jesus era plenamente Deus mesmo quando humano. A plenitude da divindade se tornou encarnada. 

Ao vir a este mundo, não houve nenhuma mudança em sua divina natureza. Tudo o que ele é como Deus continuou a morar em sua forma corpórea. O segundo significado possível de “corporal” é “incorporado” ou concentrado numa forma visível, tangível. Neste sentido, a idéia é que à plenitude da divindade foi dada expressão completa através de Jesus. Ele era “completamente” e “substancialmente” Deus e, portanto, plenamente incorporou a natureza divina. Isto ainda incluiria o tempo que Jesus passou na terra, como a palavra “mora” indica. Eu prefiro tomar o termo pelo que aparenta ser para referir à encarnação de Jesus. Em qualquer caso, contudo, este versículo mostra uma alta Cristologia. A passagem ensina que Jesus é divino.

Uma das passagens mais controversas da Bíblia é Filipenses 2:5-8. Tem havido muitas explicações para a passagem; e as diferenças de interpretação são significativas. O modo como se interpreta a passagem afeta seu ponto de vista de Jesus Cristo. Foi ele sempre Deus? Se ele era Deus anteriormente à encarnação, ele reteve sua natureza divina quando veio à terra? Se ele reteve sua divindade ao vir à terra, o que significa quando se diz que ele “esvaziou-se”? Ele deixou sua divindade para ser exatamente um homem comum? Todas as questões como estas têm tremendas implicações. É preciso ser cuidadoso ao considerar uma passagem como esta, evitando uma interpretação que não se ajuste bem com o resto do testemunho do Novo Testamento a respeito de Jesus.


É provável que Filipenses 2:6-11 contenha, pelo menos em parte, um hino primitivo (Reymond 251). Há desacordo sobre se este hino foi composição do próprio Paulo, ou se ele foi escrito antes de Paulo, que simplesmente usou o hino para servir aos seus propósitos nesta epístola. Em qualquer caso, é difícil negar que ele foi um hino primitivo. Neste texto estão as características estilísticas e hinárias, tais como paralelismo de pensamento, inversões, vocabulário incomum e estilo elevado (Reymond 252). Baseado em estudos anteriores de Lohmeyer, agora é geralmente aceito que “o que aqui [vemos] é uma confissão cristã primitiva que pertence à literatura de liturgia antes que prosa epistolar” (Martin 106). Se isto é verdade, então este é um forte argumento por uma alta Cristologia primitiva entre os cristãos do primeiro século. Mesmo que não fosse um hino, é ainda evidência que os cristãos primitivos tinham uma forte fé na divindade de Jesus.

Este é um texto no qual as palavras são muito cuidadosamente escolhidas. Cada palavra parece significante. Portanto, numa interpretação deste texto, as palavras precisam ser definidas e entendidas. Primeiro, contudo, uma consideração do texto completo está em ordem. Sem considerações contextuais, o texto pode facilmente ser mal entendido e mal aplicado. Parece que isto tem sido uma parte do problema que tem levado a algumas das controvérsias.

Não parece provável que alguém entenda os versículos 5-8 sem primeiro entender os versículos 1-4. No todo, a carta de Paulo aos filipenses é muito positiva. O único perigo que ameaçava a igreja, contudo, era a divisão. Estes versículos são escritos para tentar salvaguardar contra a desunião os cristãos dali. No versículo 1 Paulo apela para o encorajamento em Cristo, o poder do amor, o fato da camaradagem, e a necessidade de compaixão e afeição. Se um cristão entende e se empenha com estas coisas, então a unidade prevalecerá. Ele então apela para sua necessidade de ser “de um mesmo pensamento” e “tendo um mesmo sentimento” (vs. 2). Como isto pode ser feito? Ele responde nos versículos 3-4. Nestes versículos há três causas dadas para a desunião (Barclay 31): ambição egoísta, prestígio pessoal, e a concentração em si mesmo. Para os propósitos de explicar os versículos 6-7, deve-se notar especialmente estes versículos, pois eles servem de fundamento para o argumento de Paulo a respeito de Jesus. Barclay observa:

“Paulo está pleiteando com os filipenses para viverem em harmonia, porem de lado suas discórdias, deixarem suas ambições pessoais e seu orgulho e seu desejo de proeminência e prestígio, e terem em seus corações aquele desejo humilde e desprendido de servir, que foi a essência da vida de Cristo. Seu apelo final e irretorquível foi apontar para o exemplo de Jesus Cristo” (34-35).

Com os pensamentos precedentes em mente, Paulo apela para Jesus Cristo como o exemplo definitivo de alguém que nada fez por egoísmo ou vã presunção. “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (vs. 5). Este é o arremate final dos pontos de Paulo nos versículos 1-4: “aprendam a pensar exatamente como Jesus”. Isto também serve para introduzir o que Paulo está para dizer a respeito de Jesus. “Pensem como Jesus”, Paulo disse. O que Jesus pensou? O que ele fez para demonstrar sua despretensiosa atitude? Ele responde nos versículos seguintes.

O versículo 6 ensina que Jesus “existiu na forma de Deus” O termo “existiu” (sendo, huparchon) não é o termo usual para sendo (hon). Como um particípio presente, ele denota continuação de uma condição antecedente. Em outras palavras, Jesus é e sempre tem sido “em forma de Deus”. “Isso descreve aquilo que um homem é em sua própria essência e que não pode ser mudado. Isso descreve aquela parte de um homem que, em quaisquer circunstâncias, permanece o mesmo” (Barclay 35). Paulo começa afirmando que Jesus é inalteravelmente Deus. Seja o que for que Jesus esvaziou, não foi sua essência divina. Portanto, qualquer posição que ensine que Jesus deixou sua divindade não está sendo fiel a este texto.

O significado de “forma de Deus” tem sido acaloradamente debatido. Martin (96) dá dois significados alternativos para o termo “forma” (morphe). O primeiro é o entendimento mais tradicional e filosófico que “forma de Deus” significa atributos essenciais de Deus. 

Um segundo ponto de vista, mais recente, é que a frase tem uma forte ligação com a “glória” (doxa) de Deus; e assim Jesus deixou a glória da divindade, não necessariamente a essência da divindade, quando veio para a terra. Esta posição, contudo, parece carecer de prova. Outros consideram a “forma de Deus” como uma referência à aparência visível como Deus. Esta é outra posição insatisfatória, pois ela dificilmente pode significar a mesma coisa com referência à “forma de um servo”. 

Parece mais provável, contudo, que a “forma de Deus” seja uma referência à divina natureza, que inclui os atributos e características que fazem de Deus o que ele é, “que é inseparável de sua pessoa e que o ser divino se realiza em sua divina glória e atributos divinos imanentes, inerentes” (Muller 78 79). Warfield observou que a “forma de Deus” se refere a “todas aquelas qualidades características de Deus que fazem dele Deus, a presença das quais constitui Deus, e na ausência das quais Deus não existe. Aquele que está na forma de Deus é Deus” (567). Isto também seria verdadeiro quanto à “forma de um servo.” Jesus assumiu todas as qualidades características de servidão. Dizer, então, que Jesus “existiu na forma de Deus” é dizer que Jesus tem sido sempre Deus, com todas as qualidades que pertencem a Deus.

A seguir, Paulo diz que Jesus não “considerou a igualdade com Deus uma coisa a ser agarrada”. Isto, também, tem dado alguma dificuldade à interpretação abrangente do texto. Alguns tomam isto para significar que Jesus não considerava sua divindade como algo a ser segurado e, portanto, ele a abandonou ao vir à terra. Isto, contudo, contradiz o que Paulo tinha dito a respeito da natureza divina inalterável de Jesus. Primeiro, ele afirma que Jesus de fato tem “igualdade com Deus”. Isto, somente, é evidência do ensinamento bíblico da divindade de Jesus. Nada menos do que o próprio Deus pode ter “igualdade com Deus”. Mesmo enquanto estava na terra, Jesus declarou igualdade com o Pai (João 5:17-23). Esta igualdade é em natureza, não necessariamente no papel desempenhado. Neste papel, Jesus tomou uma posição subordinada (1 Coríntios 11:3). Em natureza, ele é igual ao Pai.

Teria Jesus considerado esta igualdade com Deus como algo a ser “agarrado”, ou como algo a ser “segurado”? Ambos os significados são possíveis com a palavra grega (harpogmos). Qual significado faz mais sentido no contexto? “Como quer que tomemos isto, ele mais uma vez ressalta a divindade essencial de Jesus” (Barclay 36). Como foi afirmado antes, não parece provável pelo contexto que isto signifique que Jesus gozou de igualdade com Deus mas dispensou-a ao se tornar um homem. Muitas outras passagens mostram que Jesus foi muito mais do que um homem. 

Parece mais provável que o significado seja que Jesus não se agarrou à igualdade com Deus através de algum exercício de sua própria vontade, separado do Pai. Diversos comentaristas vêem nesta afirmação um paralelo com o relato, em Gênesis, da queda de Adão e Eva. Baseado na afirmação da serpente, “serás igual a Deus”, o pecado de Adão e Eva foi, em essência, uma tentativa de agarrar a divindade. Através do exercício de sua própria vontade, separados de Deus, eles tentaram se tornar seus próprios deuses. Jesus não fez isto. Antes, ele voluntariamente submeteu-se à vontade do Pai, ainda que ele pudesse ter sido tentado a fazer sua própria vontade (cf. João 5:30; Mateus 26:39). 

Reymond argumenta que esta afirmação deveria ser interpretada contra o cenário de sua tentação em Mateus 4 (262). Ele escreve, “este ‘pensamento’ de ‘apreensão de igualdade’, isto é, a tentação de não mais caminhar na trilha do servo mas antes conseguir ‘o senhorio’ sobre ‘todos os reinos deste mundo’ (Mateus 4:8) por uma rota (um ato ‘rebelde’ de exaltação’) não mapeada para o servo no plano da salvação. Cristo Jesus resistiu firmemente” (263). Eu creio que este é o ponto de vista correto porque se ajusta melhor ao contexto anterior. Cristo não fez nada por egoísmo ou vã presunção mas, com humildade, estimou os outros como melhores do que ele mesmo. Nenhum ato mostrou esta atitude mais do que sua disposição a morrer.

Ao contrário de buscar igualdade com o Pai através do exercício de sua própria vontade, Jesus “esvaziou-se”. Isto está no ponto crucial da discussão a respeito da natureza de Jesus nesta terra. Umas poucas observações podem ser feitas sobre isto à luz dos comentários anteriores e do contexto inteiro:

Œ Qualquer posição que destrói efetivamente a divindade de Jesus é errada, porque ela contradiria não somente a passagem, mas também um grande número de outras passagens que afirmam sua divindade. Este é o efeito de uma posição que ensina que Jesus deixou seus atributos e características divinas. A natureza de uma coisa é os atributos e características que fazem-na o que ela é. Se Jesus não tivesse a natureza de Deus, ele não seria Deus (cf. Gálatas 4:8).

O texto não diz que Jesus se esvaziou “de” alguma coisa. Acrescentando “de” à frase, e então enumerando tudo o que ele supostamente deixou para vir à terra não é ser fiel ao texto. Isto é ler no texto o que ele não diz. Ele “esvaziou-se”. Ele não se esvaziou “de” um punhado de coisas.

Insistir que “esvaziou-se” deverá ser tomado literalmente para significar que Jesus teve que despejar alguma coisa fora de si antes que pudesse tomar qualquer outra coisa é um abuso do texto. Diz o texto: “ele esvaziou-se tomando a forma de um servo cativo.” Isto se explica por si mesmo. A aceitação por ele da servidão foi um ato de auto-esvaziamento.

Uma boa comparação pode ser feita com Isaías 53, um texto que descreve o servo sofredor. Note no versículo 12 a frase: “Ele se derramou na morte”Não tem isto uma tocante semelhança com“esvaziou-se”, “humilhou-se, tornando-se obediente até a morte” (Filipenses 2:7-8)? Como o servo sofredor, ele esvaziou-se, derramou-se até a morte.

Novamente, o próprio contexto de Filipenses 2 mostra o que quer dizer com a frase “esvaziou-se.” O ponto de Paulo no texto é insistir com os irmãos para que sejam de um só sentimento, que sejam unidos e decididos por um único propósito (vers. 2). Para cumprir isto ele instrui: “Não façam nada por egoísmo ou vã presunção, mas com humildade de pensamento que cada um considere o outro como mais importante do que si mesmo; não olhe meramente para seus próprios interesses pessoais, mas também para os interesses dos outros” (vers. 3-4). Para atingir o ponto de desprendimento, precisa-se olhar para Jesus. Por quê? Porque ele é o exemplo perfeito destas instruções. Ainda que ele mesmo seja Deus, enquanto esteve na terra ele não se agarrou a sua divindade tentando, separado do Pai, exercer sua própria vontade independente. Antes, ele “esvaziou-se”, que é a frase perfeita para descrever a atitude dos versículos 3-4. 

Assim, o que significa que Jesus “esvaziou-se”? Jesus Cristo, em seu papel do servo, nada fez por egoísmo ou vã pretensão, mas em humildade de pensamento ele considerava os outros como mais importantes do que ele mesmo. Ele se interessava pelos interesses pessoais dos outros. Como ele fez isto? Em última instância, morrendo na cruz. Assim, o ponto de Paulo é que, como Jesus se esvaziou, assim todos temos que nos esvaziar. É simplesmente outro modo de dizer que precisamos negar a nós mesmos (Lucas 9:23), pois isto é o que Jesus fez quando cumpriu sua missão para o mundo perdido. Ele se pôs de parte para que tudo o que ele fez fosse desprendido. Marcos diz isso deste modo: “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). Estas passagens dizem a mesma coisa.

 A idéia de que Jesus se esvaziou de atributos e características é completamente estranha ao argumento de Paulo. Ele aponta Jesus como nosso exemplo de auto-humilhação. Se Jesus esvaziou de si uma quantidade de atributos, então como podemos seguir seu exemplo? Não podemos despir-nos de nossa natureza humana. A linha de raciocínio que Paulo usa para dizer que deveremos ser altruístas se torna sem significado através de uma tal interpretação.

 Muito simplesmente, então, o texto nos diz que deveremos esvaziar-nos. Deveremos negar a nós mesmos, não fazendo nada por egoísmo. Fazemos isto tomando a atitude de Jesus, o supremo exemplo de abnegação. Ele esvaziou-se. Como um servo, ele se submeteu completamente ao Pai e derramou-se na morte. Depois disso, ele foi exaltado. Se nós, também, nos humilharmos do mesmo modo, Deus promete que seremos exaltados (Tiago 4:10). Este é o ponto de toda esta passagem.

O texto ensina a divindade essencial de Jesus Cristo. Ensina que Jesus nada fez por egoísmo, e que ele é o exemplo supremo de abnegação. Ensina, ainda, uma Cristologia extremamente alta; não ensina que ele jamais fosse menos do que tinha sempre sido: Deus.

Outras considerações

É impossível sermos neutros sobre Jesus Cristo. De fato, aceitamos ou não aceitamos Jesus como o Filho de Deus. As implicações da posição que tomamos sobre Jesus alteram nossa vida. Se alguém aceita Jesus como o Filho de Deus, então precisa tomar a decisão de seguir ou não Jesus. Se alguém não aceita Jesus como o Filho de Deus, então a Bíblia é relegada como mito e fábula. Em conseqüência, esta pessoa não sentirá a necessidade de submeter-se aos ensinamentos da Bíblia. Nossa filosofia a respeito de Jesus determinará o curso da vida.
Há quem argumente que Jesus foi um bom homem, porém não foi o Filho de Deus. O problema com isto é que, se Jesus não era o Filho de Deus, então ele era um mentiroso. Se fosse um mentiroso, então como pode alguém argumentar que ele era um bom homem? Não se tem simplesmente a opção de chamar Jesus um bom homem. Teria de rejeitá-lo como uma fraude, porém não se pode ser neutro sobre ele. C. S. Lewis, um ex-agnóstico, expôs este problema com as seguintes palavras:

“Estou tentando aqui evitar que alguém diga a coisa realmente tola que pessoas freqüentemente dizem sobre ele: “Estou pronto a aceitar Jesus como um grande mestre moral, porém não aceito sua declaração de ser Deus.” Esta é a coisa que temos que não dizer. Um homem que era meramente um homem e disse o tipo de coisas que Jesus disse não seria um grande mestre moral. Ele seria ou um lunático – no nível do homem que se diz ser um ovo frito – ou então seria o Diabo do Inferno. Temos que fazer nossa escolha. Ou este homem era, e é, o Filho de Deus, ou então é um louco ou algo pior. Podemos calá-lo como tolo, podemos cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou podemos cair-lhe aos pés e chamá-lo Senhor e Deus. Mas não venhamos com qualquer tolice como ‘panos quentes’ sobre ele ser um grande mestre humano. Ele não deixou isso aberto para nós. Ele não pretendeu deixar” (55-56).

Há quem objete contra o conceito que Jesus não poderia ser tanto Deus como homem. Qualquer atribuição de divindade a Jesus jamais foi levianamente considerada. Tem havido sempre tensões teológicas sobre a natureza de Jesus. O problema, eu creio, é que temos dificuldade em conciliar o Cristo de dupla natureza devido às nossas próprias limitações. Eu serei o primeiro a confessar que não entendo como isto poderia acontecer de outro modo que não por meio da aceitação do poder e conhecimento de um Criador. Se permitirmos que os documentos bíblicos apóiem-se em suas próprias evidências, eles parecem sólidos e bastante confiáveis. O problema aparece quando nossa fé é desafiada a aceitar algumas coisas que não são normais, nem ocorrências de todo dia nesta era científica moderna. 

Eu não creio que se possa dizer honestamente que é impossível para Deus vir na carne. Tal afirmação é equivalente a jactar-se de ter todo o conhecimento. Como podemos saber que Deus não poderia fazer isto a menos que, primeiro, assumamos que Deus não existe e, em segundo lugar, que Deus não pode “interferir” com sua própria criação? Obviamente, a fé desempenha um papel maior neste assunto; mas esta não é uma fé cega, como muitos alegam. Se podemos aceitar Deus pelo número de evidências que ele mesmo deixou, então podemos aceitar o que Deus tem feito por nós. Aceitação e pleno entendimento são dois assuntos diferentes.

Alguns que aceitam a existência de Deus negam a divindade de Jesus baseados em que há um único Deus. Eles rejeitam qualquer conceito de uma “Trindade.” Eu creio que nós todos temos um entendimento básico da possibilidade de haver “uma” de alguma coisa, e contudo essa alguma coisa pode ter elementos plurais. Por exemplo, uma equipe pode consistir de cinco, nove, ou onze jogadores num campo esportivo, dependendo do esporte. Um único casamento consiste de duas pessoas, e uma família pode ter muitos membros. Biblicamente, o conceito é confirmado. 

A Bíblia diz, a respeito do casamento, que dois “se tornarão uma só carne” (Gênesis 2:24). Dois se tornam um, contudo permanecem personalidades distintas. Ninguém argumentaria que eles formam dois casamentos. Qualquer comparação deste conceito com Deus é inadequada, mas pelo menos a idéia é compreensível. Há um Deus, um estado de divindade; mas há três personalidades distintas às quais a divindade é atribuída. Isto não faz três deuses; antes, há um Deus composto de três personalidades. Tire qualquer personalidade do quadro e a unidade de Deus é destruída.

Na maioria dos casos, parece que a rejeição de Jesus como o Filho de Deus é mais em bases filosóficas do que em bases históricas. É virtualmente impossível refutar a Bíblia em bases históricas. Rejeitar sua historicidade por causa de eventos ou mensagens que ela contém em bases filosóficas não é histórico. Francamente, ultimamente não tenho visto uma rejeição de Jesus em qualquer outra base.

Conclusão

O propósito deste estudo tem sido mostrar que a Bíblia, de fato, ensina que Jesus é Deus. Isto tem sido demonstrado por meio de numerosas passagens bíblicas. O Velho Testamento apóia o ensinamento da divindade de Jesus, e o Novo Testamento irresistivelmente ensina que Jesus é Deus. As Escrituras também confirmam que o entendimento de si próprio por Jesus é consistente com este ensinamento. Ainda que ele não tenha promovido sua própria identidade, ele fez declarações que são equivalentes a declarações de divindade. E, mais ainda, suas obras demonstraram sua identidade, e sua aceitação de adoração mostrou seu próprio entendimento. 

Em última análise, a ressurreição é a testemunha mais significativa da divindade de Jesus. Ela declara poderosamente que Jesus é o Filho de Deus (Romanos 1:4).
O resto do Novo Testamento retrata Jesus como divino. Ainda que a Bíblia ensine que Jesus era um ser humano, ela ensina que ele era muito mais do que isso. Ela atribui a ele a natureza essencial e caráter de divindade. Ela não ensina que ele deixou sua divindade quando veio à terra. Antes, ela ensina que Jesus tomou a natureza essencial de servidão; seu maior ato de serviço foi a dádiva de sua vida.

A questão sobre a identidade de Jesus não terminará tão cedo. Questões recentes sobre Jesus têm renovado muito da discussão. Seja qual for a posição com que se termine, ela será aceita através de algum processo de “fé”. Isto é inevitável. A questão permanece, contudo, sobre qual “é” a mais razoável. Baseado em considerações bíblicas, históricas e outras, eu escolhi crer que Jesus foi, e ainda é, Deus. Ele nunca pode ser menos do que isso. 





sábado, 5 de maio de 2012

O cristianismo grego e à identidade judaica


Nas suas recentes publicações The Dead Sea Scrolls Uncovered (em parceria com Michael Wise) e The Dead Sea Scrolls and The First Christians, Rober Eisenman do Institute for the Study of Judeo-Christian Origens e do Institute For Higher Critical Studies, tinha ameaçado/prometido redesenhar o mapa das origens cristãs e agora, por Deus, ele conseguiu. A amplitude e o detalhe da investigação de Eisenman, tanto quanto suas implicações são de tirar o fôlego. Em James The Brother Of Jesus, ele nos conta a longa e perdida história da formação do cristianismo "pré-histórico", tal como ele emerge da atribulada Palestina revolucionária e das hostilidades mutuamente destrutivas entre os Paulinos e o Cristianismo Ebionita. Eu, denomino isso de "pré-histórico", porque Eisenman reconstrói os eventos apresentados diante de nós e por de baixo das histórias canônicas do cristianismo primitivo que conhecemos. Seu empreendimento é, nesse sentido, relacionado com aquele de Burton L. Mack, esse outro grande pesquisador das profundezas subterrâneas do cristianismo pré-histórico. Como Mack, Eisenman descobre um cristianismo (ou talvez uma protocristianismo ou mesmo um pré-cristianismo) para as quais Jesus ainda não tinha obtido centralidade. Apenas, aonde Mack enxerga o germe inicial de uma nova religião como uma variedade do cinismo, Eisenman rejuvenesce ou mesmo reivindica, a antiga alegação de Renan de que o cristianismo começou como "um essenismo".



No processo Eisenman reivindica outro dito de Renan, especificamente, de que para se escrever a história de uma fé, precisamos  ter pertencido a ela, mas não devemos mais pertencer a ela. Enquanto alguém carrega o fardo de representar o cristianismo, parece ser quase impossível se livrar de tendências apologéticas. Lidando com Paulo, isso significa que mesmo especialistas críticos não conseguem se furtar em pressupor, que a mensagem de Paulo, teológica, ou qualquer outra, deve ser, basicamente, verdadeira. Mesmo se alguém deve praticar uma pequena cirurgia crítica, aqui e acolá, e.g, o papel da mulher, Paulo é ainda é o alicerce da Igreja de cada um. Pelo menos, esta tendência Paulina implícita resulta no que Bruce Malina e outros denominam de uma abordagem doceta para o texto.



Para antecipar o núcleo do livro como um todo, digamos que Eisenman primeiro desenha um retrato das comunidades primitivas de Tiago como um religioso, nacionalista messiânico e uma seita xenofóbica de devoção extrema, algo que a maioria de nós consideraria fanatismo. Eisenman mostra como a "cristandade-judia" era parcela de um ambiente sectário o qual incluía Essênios, Zelotas, Nazoreus, Naziritas, Ebionitas, Elchasites (um subgrupo dos Ebionitas), Sabeanos, Mandeanos etc., e que essas categorias, não eram mais do que tipos ideais, de maneira alguma segregados uns dos outros como bestas exóticas em jaulas adjacentes, identificadas no zôo teológico. Contra essa qualidade de "Lubavitcher Christianity", Eisenman retrata o cristianismo Paulino (e ainda seus primos helenistas, os cristianismos Joaninos, de Marcos e Lucas) como sendo raiz e ramo, comprometendo e assimilando uma apostasia herodizante do judaísmo. O cristianismo grego dá a Torá e à identidade judaica, o surto de crescimento. O Cristo Paulino, um redentor espiritual com um reino invisível, é consistente com a cristianização de Vespasiano como messias, por Josefo.

Claro que essas idéias, de maneira alguma são novas. Eisenman está, simplesmente, preenchendo o quadro de uma maneira exaustiva, inimaginável por S.G.F. Brandon, Robert Eisler e seus sucessores. A figura de Jesus nos evangelhos gregos, comendo com coletores de taxas, caçoando das tradições de seu povo, acolhendo pecadores e ridicularizando a devoção da Torá, são todas expressões de antijudaísmo gentílico. Somente gentios, totalmente, sem simpatia com o judaísmo, poderiam professar enxergar Jesus como um nobre pioneiro de "superior virtuosidade". Da mesma forma, a noção do Novo Testamento de que Jerusalém caiu porque seu povo havia rejeitado o messias, quando na verdade eles estavam lutando uma guerra messiânica contra o anticristo romano, deve ser julgada como uma peça helenista cínica de perseguição judia. O cristianismo, tal como emerge na missão gentia é um produto da acomodação cultural, Quinlingismo pró-romano, e assimilação intencional. É uma maneira de judaísmo sincrético diluído, diferente do culto Sabázio.

Armado com uma hermenêutica de suspeição, Eisenman nos mostra como quebrar os códigos da desinformação teológica, para ouvir os ecos amortecidos e longínquos, como encontrar sustentação para o que tem parecido ser uma escalada inacessível a um cume do qual se possa ver, a até agora inobservada paisagem do cristianismo primitivo. Quais são as ferramentas para a escalada?

Primeiro; Eisenman considera uma gama maior de fontes históricas do que a maioria pensa que ele precisa. Ele examina, como poderíamos esperar, os Pergaminhos do Mar Morto, bem como os Reconhecimentos e Homilias Clementinas, as Constituições Apostólicas, Eusébio, os dois Apocalipses de Tiago de Nag Hammadi e até mesmo o texto Ocidental dos Atos e o Josefo Slavônico. Eisenman assume Josefo como fonte dos Atos de Lucas, de uma maneira muito mais séria do que qualquer um jamais tinha considerado antes. Tudo isso, nosso autor escrutina, cuidadosamente, não deixando nada sem crítica. Onde ele se diferencia da maioria dos especialistas é em tomar seriamente esses materiais, como novas fontes de informação, a sugestão estranha, aqui ou acolá, sobre Tiago ou Paulo. Como Richard Pervo (Profit With Delight) começou a mostrar, o negligenciamento tradicional de fontes relacionadas com elas (e.g O Apócrifo Atos dos Apóstolos), por supostamente especialistas críticos é mais um caso de apologética canônica do que método histórico. Por que os especialistas do Novo Testamento concordam, que os Atos de Lucas são legendários e fictícios em larga medida e logo em seguida, assumem a história com o valor de face? Eisenman, por outro lado, percebe que Lucas e a literatura Pseudoclementinas estão mais ou menos par a par. Cada uma delas, deve ser tratada com reservas, todavia com um otimismo que no meio de todo o material, em algum lugar, alguém pode descobrir um pedaço vital de informação.

Segundo; Eisenman desenvolveu um apurado senso para o "jogo dos nomes", jogado nas fontes. A maioria de nós, alguma vez, já quebrou a cabeça com as provocativas confusões latentes na estranha redundância de nomes similares nas narrativas do Novo Testamento. Como pode Maria ter tido uma irmã de nome Maria? Existe alguma diferença entre José Barrabás Justo, Judas Barrabás Justo e Tiago o Justo? Daí todos os Tiagos e Judas? Quem é Simão o Zelote e Judas o Zelote (o qual aparece em alguns manuscritos do NT e em outros documentos do cristianismo primitivo)? Seria Coplas o mesmo que Cleofás? O que acontece com Jesus bem-Ananias, Jesus Barrabás, Elimas bar-Jesus e Jesus Justo? O que realmente significa Boanerges? Seria Nataniel um apelido para alguém que conhecemos? E assim por diante e por diante. A maioria de nós, se espanta, momentaneamente, com essas estranhezas e depois nos movemos adiante. Afinal, quão importante podem ser elas? Eisenman não segue adiante, antes de explicá-las.

Sua hipótese de trabalho é que as confusões, alterações e ofuscações seguem um interesse em encobrir a importância e, portanto, a identidade dos Desposyni, os herdeiros de Jesus, que, aparentemente, funcionaram, ao menos para o cristianismo palestino, como um califado dinástico, similar à sucessão no Islã ou a sucessão dos irmãos hasmoneanos. É lugar comum, que os textos dos evangelhos tratando a mãe de Jesus, irmãos e irmãs, ora duramente (Marcos e João), ora delicadamente (Lucas, c.f, o Evangelho de acordo com os hebreus), são funções das polêmicas eclesiásticas sobre as reivindicações de suas lideranças em oposição a Pedro e aos Doze (analogamente aos Companheiros do Profeta no Islã) ou a forasteiros como Paulo. É igualmente bem conhecido, que as listas dos apóstolos nos Sinóticos diferem entre elas e entre os manuscritos de cada Evangelho. Por quê? Eisenman conecta esse fenômeno com outro, a confusão levantada entre teólogos primitivos sobre os parentes de Jesus, à medida que a doutrina da virgindade perpétua de Maria tornou-se largamente difundida. Eles tiveram que harmonizá-la com o dogma, assim irmãos e irmãs se tornaram primos, meio irmãos etc. E personagens, tornaram-se divididos. Maria, subitamente, tinha uma irmã chamada Maria porque a mãe de Tiago, Joset e Judas, não podia mais também ser a mãe de Jesus. E assim por diante.

Os evangelhos deram importância a um círculo interior de três: Pedro, João filho de Zebedeu e João irmão de Tiago. Gálatas tem os três Pilares em Jerusalém: Pedro, João filho de Zebedeu e Tiago o irmão de Jesus. O que aconteceu aqui? Certamente, o grupo interior de três é entendido como preparatório para os Pilares, para provê-los de uma ancestralidade de Jesus. Mas, então, porque existem dois Tiagos? Não deveriam ser eles, originalmente, os mesmos? Eisenman diz que eles eram, mas certas facções, que pretendiam  enfatizar a autoridade do sombrio colégio dos Doze, contra a primitiva autoridade dos herdeiros, consideraram político levantar uma barreira entre Tiago, o irmão de Jesus, e os Doze, assim Tiago tornou-se, Tiago o Justo, de um lado e Tiago, o irmão de Jesus, no outro.  

Outra tentativa de distanciar Tiago, o Justo, dos Companheiros de Jesus teria sido a clonagem de Tiago o Justo com Tiago o filho de “Alfeu“, cujo nome Papias afirma ser intercambiável com “Cleofás”, que vem a ser o pai de Simão, sucessor de Tiago como bispo de Jerusalém e também seu irmão.  E posteriormente, Tiago o filho de Alfeu e Tiago o filho de Zebedeu ambos substituíram Tiago o Justo no círculo de discípulos. Enquanto isso, Tomé sofreu uma mitose em Judas de Tiago, Tadeu, Lebeu e Judas Iscariotes. Simão o Zelote é Simão bar-Cleofas, outro irmão de Jesus, o sucessor de Tiago como líder dos cristãos de Jerusalém, após o martírio de Tiago. Ele foi confundido também, com Simão Cefas (Simão Pedro).

Eisenman trabalhou uma complexa e coerente construção gramática desses processos e termina, com um círculo muito mais reduzido “dos Doze”, a maioria deles sendo “aliases” e substituições para os irmãos de Jesus. Isso escandalizará alguns, mas outros leitores acharão que a teoria agrega verdade, em contrapartida ao, alternativamente, estranho fato de que os Doze, são entidades sombrias e insignificantes no Novo Testamento.

Terceiro; Eisenman traz, para suportar as narrativas dos Atos, o modelo de uma técnica redacional, "combina e ajusta", pela qual, Lucas é visto como tendo composto suas histórias através da recombinação de características proeminentes de cada história nas suas fontes. Quando Lucas termina, somente pedaços dos paradigmas ou composição sintática dos originais, são encontradas, mas existindo suficiente para reconhecer, uma como mutação da outra. Esse é o procedimento usado, recentemente, com grande resultado, por um número de especialistas, nada menos do que, John Dominic Crossan (o qual mostra a narrativa da paixão ter sido, provadamente, construída a partir de vários textos do Antigo Testamento), Randel (o qual nas ficções do evangelho, mostra caso após caso uma história do evangelho derivada de uma história similar da Septuaginta) e Thomas L. Brodie (o qual decifra numerosas narrativas de Lucas em seus componentes originais Deuteronômicos). A originalidade de Eisenman nesse ponto, não está na técnica, mas no seu zelo de levar a sério o uso de Josefo como fonte por Lucas. (Novamente, isso é algo que ninguém, que deseja uma data mais cedo para Lucas ou uma base histórica para os Atos, gostaria de considerar seriamente, mas dessa forma temos um caso de apologética, disfarçada como crítica). E a análise redacional de Eisenman, sobre Lucas em Josefo, é somente um dos principais avanços de Tiago o irmão de Jesus. Não parece ser demasiado dizer, que o livro inaugura uma nova era no estudo dos Atos.

Não se quer afirmar, entretanto, que Eisenman limita seu uso de técnicas ao uso de Josefo por Lucas. Longe disso: ele é capaz de extrair tradições de várias fontes e identificá-las em seus novos aspectos, nos Atos-Lucas e em qualquer outra parte do Novo Testamento. Eu proponho agora, oferecer sumários de algumas reconstruções de Eisenman, mostrando em contornos amplos o que ele vê em Lucas (ou outros) tendo produzido tradições originais bastante diferentes.

Várias fontes primitivas cristãs, apresentam Tiago como sendo eleito pelos apóstolos como bispo de Jerusalém, sob indicação de Jesus (como no Evangelho de Tomé, logion 12). A agenda helenizante de Lucas o levou a recontar essa história, não como uma substituição de Jesus por Tiago o Justo, mas sim a substituição de um vilão Judas Iscariotes, pelo insignificante "Matias". Tiago, o Justo, foi diminuído bastante, de maneira a se esconder atrás do candidato à posição, "José Barrabás chamado Justo". O nome Matias, foi sugerido, através de simples associação de palavras, por Matias o pai de outro Judas, Judas Macabeu. Assim, quando mais tarde encontramos Tiago, o Justo, como o chefe da Igreja de Jerusalém, temos a expectativa de saber quem é ele, embora Lucas tenha eliminado o que poderia ser sua apresentação! Um sinal evidente da história original, tratando da eleição de Tiago, não como novo 12º apóstolo, mas como o bispo de Jerusalém, é o texto-prova, "seu episcopado deixa outro homem tomar" (Atos 1:20/Ps 109:8). Tiago foi, simplesmente, abortado de várias narrativas dos Atos, nas quais deveríamos esperar ler sobre todos os três pilares, mas agora lemos somente sobre o duo dinâmico Pedro e João.

Como Hans-Joachim Schoeps já tinha conjecturado, o apedrejamento de Estevão suplantou, exatamente, da mesma maneira o apedrejamento de Tiago (na realidade, uma combinação do posterior apedrejamento de Tiago sob o comando de Ananus e um anterior ataque por Saulo nos degraus do templo, preservado em um incidente separado nos Reconhecimentos). O nome de Estevão foi emprestado de um oficial romano surrado por insurgentes judeus, o qual Josefo retrata ter sido emboscado fora dos muros da cidade. Por que esse nome? Por causa de um jogo de palavras: Estevão significa "coroa" e foi sugerido tanto pelos longos cabelos dos Naziritas (ao qual Tiago pertencia de acordo com escritores da igreja primitiva) como pela coroa do martírio. Sobre Estevão, havia sido transferida a declaração de Tiago sobre o Filho do Homem situado à direita de Deus no paraíso, assim como a oração de Tiago para seus perseguidores, do mesmo tipo daquelas proferidas por Cristo.  (Eisenman deve ter notado também, que a identidade original do mártir como Tiago, O justo, é assinalada por Atos 7:52, "Até mataram os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas!").

Lemos que um jovem de nome Saulo estava verificando vestes para os executores de Estevão e com seu gosto por sangue imediatamente estimulado iniciou a fomentar perseguição em Jerusalém e Damasco.  Isso tem sido trazido novamente pelo folclore de Tiago bem como de Josefo. O motivo da roupa foi sugerido pelo golpe final em Tiago com um bastão, ao mesmo tempo logo após sua própria narrativa da morte de Tiago, Josefo relata sobre o tumulto iniciado por um Herodiano de nome Saulo em Jerusalém!  

Eisenman observa vários temas envolvendo Tiago circulando livres para serem conectados de formas inteiramente diferentes nas escrituras cristãs. Por exemplo, a transfiguração traz Jesus resplandecendo em glória celestial como Estevão o viu e Tiago o proclamou. E claro Tiago estava lá na cena.  O elemento "branqueador" é repetido na aparência de Jesus com as roupas brilhantes, mais brancas do que qualquer branqueador as pudesse alvejar. Novamente, nos Reconhecimentos, Saulo está perseguindo Tiago e os santos de Jerusalém até Jericó (nas vizinhanças de Qumran "Damasco"), e de alguma maneira eles são protegidos pelo espetáculo da tumba de dois mártires as quais, milagrosamente, brilham a cada ano. Existe o elemento branqueador ligado à perseguição de Saulo. De novo, na tumba vazia (relembrando aquelas tumbas dos mártires), encontramos um "jovem homem" (o epíteto aplicado a Saulo no apedrejamento de Estevão em Atos) vestido de branco e sentando à direita, dessa vez, no local de repouso de Jesus exatamente como Estevão viu Jesus à mão direita de Deus.

A visita de Pedro a Cornélio, qualificada, praticamente, como uma paródia da história de Josefo sobre Simão, um líder piedoso com sua própria assembléia o qual desejava barrar Herodes Agripa I no templo por conta de suas contaminações gentias, conseqüentemente Agripa o convidou para inspecionar sua casa em Cesaréia e então dispensá-lo com presentes. Lucas pegou emprestado o nome Cornélio de algum local em Josefo aonde Cornélio é o nome de dois soldados romanos, um envolvido no cerco do Templo sob Pompéia, o outro no cerco de Jerusalém sob Tito. Os colaboradores dos romanos em Cesaréia, aonde Lucas estacionou seus piedoso Cornélio, estava entre os mais dispostos à violência da Palestina. O elemento de conflito entre Herodes Agripa I e Simão Pedro foi naturalmente transferido para Atos 12, aonde Herodes prende Pedro e Pedro foge, sendo o mesmo desenvolvimento básico, mas com dramaticidade aumentada.

O que dizer do sempre fascinante personagem Simão Magno? Eisenman o identifica com um mágico de nome Simão de quem Josefo reconta que ele ajudou Berenice a convencer sua irmã Drusila a desprezar seu marido Rei Azizo de Emesa que se circuncisou para esposá-la, para que pudesse se arranjar, não com ele, mas com o não-circuncisado Felix. O Simão mágico de Josefo é um Cipriota enquanto O Simão Mago dos Atos é considerado por escritores posteriores  procedente de Gita na Samária, mas na verdade esse fato estressa a conexão, desde que era natural confundir "Gita" com "Kittim" ou Povo Marítimo de Cipros. Não só isso, mas Eisenman nota que alguns manuscritos de Josefo denominam o mágico "Átomos" que Eisenman relaciona com a doutrina do Adão Primal enxergada por ele como implicada na alegação de Simão ser o uno encarnado muitas vezes. Mas ainda existe uma relação próxima que Eisenman não teve a oportunidade de notar. Qualquer um pode ver que Lucas criou o episódio Saulo/Paulo argumentando contra Elimas o vidente (Atos 13:8 e seguintes) como uma contrapartida paulina para a competição de Pedro com Simão Mago em Atos 8:9 (na verdade, o patronímico de Elimas "bar-Jesus", provavelmente, reflete a alegação que Simão fez de ter aparecido recentemente na Judéia como Jesus). Assim Elimas é simplesmente Simão Mago. E o que você sabe, o texto ocidental dos Atos dá nomes como Etoimas ou Etomas ao invés de Elimas! Assim, Simão Mago=Elimas=Átomos=José de Simão=Simão Mago.

Aonde Lucas encontrou sua matéria prima para a profecia de Ágabo sobre a grande fome para ocorrer no reinado de Cláudio, para a viagem de Paulo da Antioquia para levar fundos de ajuda para a fome a Jerusalém e para a narrativa anterior de Felipe e o eunuco Etíope? Novamente, de Josefo (embora talvez também de outras fontes de informação associadas). Tudo isso deriva, de um jeito ou de outro, da história de Helena, rainha de Adiabene, um reino contíguo e/ou superposto com Edessa, cujo rei Agbaro/Abgaro em algumas fontes é o marido de Helena. Helena e seu filho Izates convertido ao judaísmo, embora inicialmente Izates se abstivesse da circuncisão devido ao conselho de um professor judeu que garantiu a ele que a devoção a Deus era mais importante do que a circuncisão. Sua mãe, também aconselhou contra isso, uma vez que seus súditos poderiam se ressentir por ele abraçar tal costume estrangeiro. Mas logo um professor austero de Jerusalém, um tal de Eliezer, visitou Izates encontrando-o a meditar sobre a passagem de Gêneses da aliança Abraâmica sobre a circuncisão. Eliezer indagou se Izates entendia a implicação do que estava lendo. Se sim, porque então ele não enxergava a importância de ser circunsisado? E isso o príncipe concordou em fazer. Helena e Izates provaram sinceridade na sua conversão, através de entre outras filantropias, ao enviar agentes ao Egito e Cerne para comprar grãos durante a fome no tempo de Cláudio e distribuí-los entre os pobres de Jerusalém.

Esses eventos deixaram sua marca no Novo Testamento da maneira que se segue: Eisenman nota (como naturalmente todos os comentaristas fazem) que não existe espaço para a visita de ajuda da fome no itinerário Galatiano da visita de Paulo a Jerusalém, mas ele tenta colocar o evento durante a jornada na "Arábia" o qual, no idioma da época, poderia incluir Edessa/Adiabene. Os Atos conhecem duas Antioquias, aquela na Pisídia e Síria, mas havia outras incluindo Edessa! Eisenman identifica Paulo como o primeiro professor judeu que diz a Izates que ele não precisa se circuncisar na sua fé em Deus. (Esse episódio também está na base do episódio de Antioquia recontado em Gálatas, quando certo homem de Tiago chega a Antioquia para dizer aos convertidos por Paulo que eles afinal precisam ser cincuncisados.) Paulo é um dos agentes de Helena para trazer ajuda para a fome em Jerusalém, o qual ele diz em Atos 11 fazer "de Antioquia".

Mas, peguemos novamente a história de Helena no capítulo 8, com Filipe substituindo Paulo, aonde Filipe aborda o agente financeiro de um rei estrangeiro indo de Jerusalém para o Egito via Gaza. Esse é claro o eunuco etíope. Porque Lucas transformou Helena a rainha de Adiabene em Candace a rainha da Etiópia? Ele reverteu um padrão do antigo do Antigo Testamento, fazendo Helena, convertida ao judaísmo, em uma Rainha de Sabá do Novo Testamento que viera a Jerusalém para ouvir a sabedoria de Salomão. Existe também um jogo de palavras na raiz saba, denotando batismo no estilo dos Essênios, Sampsaeans, Sabeanos, Masbutheans e Mandeanos, o tipo de judaísmo que Helena havia se convertido (dado o posterior envolvimento Zelote de seus filhos e sua própria reputação de 21 anos de ascetismo Nazirita). Henry Cadbury anotou muito tempo atrás que Lucas caiu na mesma armadilha que um número de literatos contemporâneos foi pego ao assumir como nome próprio, Candace, o título de todas as antigas rainhas Etíopes, kandake, mas Eisenman também vê um jogo de palavras no nome do filho de Helena, Kenedaeos. Que deu sua vida para o adotado povo na Guerra Romana. De qualquer maneira não havia rainhas etíopes naquele tempo.

Quando o profeta Ágabo previu a fome, Lucas derivou seu nome daquele do marido de Helena, Agbaro. Quando o eunuco convida Filipe para entrar em sua carruagem, temos um eco de Jeú recebendo Jonadab em sua carruagem. Quando Filipe pergunta ao etíope se ele entendia o que lia, Lucas estava emprestando isso da história de Izates e Eliezer, aonde a questão também pressagia um ritual de conversão, apenas que dessa vez é a profecia de Isaias sobre Jesus, e o ritual do batismo. A circuncisão original sobrevive na forma de paródia crua (relembrando Gálatas 5:12) com o Etíope sendo totalmente castrado. Até mesmo a localização do episódio dos Atos é ditado pela história de Helena, pois o etíope viaja para o Egito via Gaza porque o agente de Helena precisa estar em posição de comprar grão. A motivação substituída por Lucas para o objeto da a viagem é absurda: um eunuco não poderia ter ido a Jerusalém para adorar uma vez que eunucos eram barrados no Templo!

O suicídio de Judas Iscariotes (originalmente "O Sicário") representa uma mistura de elementos que fazem mais sentido no seu presumível ambiente mais cedo na vida de Tiago e Judas. Os elementos do suicídio (bem como o lançamento de sorte no contexto adjacente de Atos 1) provêm do lançamento de sorte para iniciar os suicídios dos Sicários em Massada. A queda abrupta vem de Tiago sendo empurrado do pináculo do templo, enquanto as entranhas derramadas refletem o esmagamento dos miolos de Tiago pelo diabólico lavador. Como Tiago, Judas nos Atos é enterrado aonde cai.

Eisenman enxerga Tiago estando envolvido, integralmente, em alguns dos episódios que Josefo reconta no mesmo período, tal como a construção de um muro para cortar a vista da sala de jantar de Herodes Agripa do altar sacrifical do templo, que aconteceu logo antes do martírio de Tiago e a profecia de Jesus-ben-Ananias sobre a destruição final de Jerusalém, que aconteceu exatamente depois. Tiago tinha sido a fortaleza impedindo o julgamento de Deus. E com ele fora do caminho, o destino da cidade estava selado. (Orígenes leu uma versão de Josefo na qual ele diz que o povo atribuía a queda da cidade como punição pela morte de Tiago o Justo). Essa profecia de Jesus bem-Ananias é a base tanto para o oráculo mencionado por Eusébio que alertava aos cristãos de Jerusalém para fugirem como para Ágabo alertando Paulo para não continuar em Jerusalém (atos 21).

Tiago foi executado por blasfêmia por conta de sua atuação (como os antigos escritores da Igreja nos contam) como Sumo Sacerdote opositor entrando no Santo do Santos no dia do perdão. Como um essênio (como mostrado por suas práticas ascéticas, suas vestes de linho brancas etc.) ele celebraria o Yom Kippur em um dia diferente, que seria a maneira de não esbarrar com Ananus fazendo a mesma coisa que é a razão pela qual por irregularidades ritualísticas ele teria sido executado, como o Mishnah exigia para infrações como essa.

A maneira como Eisenman descreve o papel de Tiago tem muito pouco a ver com Jesus (tão pouco quanto a Epístola de Tiago). Até mesmo a famosa história de Tiago sendo convidado pelo Sumo Sacerdote para se dirigir ao povo na Páscoa, para dissuadi-los de sua crescente fé em Jesus e recebendo sua surpresa confissão, "Porque vocês me perguntam sobre o Filho do Homem...?" deve ser lido, pelo que parece Eisenman sugerir, como uma cristianização de um original na qual Tiago foi solicitado a acalmar a excitação da multidão na Páscoa (uma fonte anual de dores de cabeça escatológicas para o Templo e para o "establishment" romano) com nenhuma referência a Jesus como o messias esperado. E a resposta de Tiago teria sido um incitamento da expectativa messiânica novamente sem referência a Jesus como o Filho do Homem. Igualmente o voto de Tiago prometendo não comer ou beber até que o Filho do Homem tenha se elevado, pode ser uma redação cristã do voto de Tiago para observar o ascetismo nazirita até a vinda do messias, não necessariamente a ressurreição de Jesus. Assim o Tiago de Eisenman faria muito mais sentido como uma figura religiosa em seu próprio mérito, não se apoiando na sombra de Jesus. Essa é, de qualquer forma, a impressão que ganhamos de Hegésipo e de outros: Como poderiam as autoridades do Templo sequer solicitado a Tiago para acalmar o entusiasmo popular sobre Jesus se eles soubessem que ele mesmo era um líder cristão? Eles o conheciam como um judeu piedoso assim como Josefo.

A figura de Tiago como importante por seu próprio mérito, encerra duas outras hipóteses distintas de Eisenman. O primeiro é a identificação de Tiago o Justo como o Mestre da Retidão de Qumran, uma situação que ele argumenta extensivamente em seu livro anterior The Dead Sea Scrolls and the First Christians. Ele alude à possibilidade dessa identificação várias vezes em James the Brother of Jesus. Claro que, mesmo nas leituras de Eisenman dos textos dos Manuscritos do Mar Morto, muito pouco é dito sobre Jesus. Suas leituras nas fontes originais de Tiago faz sentido com isso. Jesus não tinha ocupado uma centralidade criptológica no contexto original do "Essenismo" o qual posteriormente se fragmentou ao longo das linhas faccionais leais a Jesus (Cristianismo Ebionita), João Batista (Mandeanos) e Tiago o Justo (seita em Qumran). Para um cenário similar em solo gentio veja 1 Co 1:12.

A segunda audaciosa hipótese de Eisenman, relevante para este quadro de um Tiago mais ou menos independente, é que o nosso quadro nos evangelhos gregos parece largamente ser uma amálgama Paulino anti-halaka e episódios emprestados de várias figuras messiânicas e proféticas encontradas em Josefo.

Na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém para "limpar" o Templo que se tornara um "antro de ladrões", como não reconhecer a entrada do messias Simão bar-Giora na cidade sob convite dos sacerdotes para "limpar" o Templo de agitadores subversivos rivais? E (como Eisenman e John Dominic Crossan ambos notaram) não seria a muda flagelação de Jesus pelos sacerdotes e pelo Procurador Romano para prever a destruição do Templo suspeitamente similar àquela de Jesus bem-Ananias? A humilhação de Jesus como um rei durante a visita a um "soberano" herodiano soa marcadamente como o incidente de Carabas reportado por Philo em Contra Flaco (Adversus Flaccus - novamente Crossan também notou isso), o qual também ecoa Barrabas. A tentativa pela multidão de forçar Pilatos a condenar Jesus através da ameaça de relatar sua delinqüência a César lembra a verdadeira alegação feita contra Pilatos feita por Samaritanos após ele liquidar partidários do Samaritano Taheb no Monte Gerizim, um feito que na verdade resultou numa chamada de Pilatos Roma. A execução de Jesus como Rei dos Judeus nos relembra a de Simão bar-Giora em Roma.

A espetada de lança para confirmar sua morte lembra aquela que se seguiu ao pacto de suicídio do rei revolucionário fugitivo espartano Cleomenes e seus colaboradores em Vidas, de Plutarco. Igualmente, os prodígios na crucificação de Jesus são exatamente aqueles da crucificação de Cleomenes os quais deixaram as mulheres espectadoras a aclamar o rei rebelde assassinado como filho dos deuses e a visitarem o local para adorá-lo. E como Eisenman mostra, mesmo as aparições de Jesus depois de três dias de luto de seus discípulos se encaixa nas do herói Niger em na Guerra Romana, o qual foi considerado morto por amigos e adversários, mas estava realmente se escondendo numa caverna por três dias enquanto seus enlutados discípulos procuravam por seu corpo, somente para serem "surpreendidos pela alegria" quando ele reaparece vivo de sua caverna!

Eisenman também nos lembra que sabemos menos do que supomos sobre a cronologia de Jesus. De acordo com evidências em Josefo devemos posicionar a execução de João Batista o mais tardar em 35-36 CE. E Epifânio afirma que o espiscopado de Tiago durou 24 anos após a partida de Jesus; partindo da data informada por Josefo para a morte de Tiago, a morte de Jesus seria colocada cerca de 38 CE. E os Atos de Pilatos, substituído pelo Evangelho Cristão de Nicodemus, datou a execução de Jesus em 21 CE. Irineu imagina Jesus morrendo aos 50 anos, sob Cláudio, enquanto o Talmude o tem crucificado sob Alexandre Janeau! E teria o Credo se importado em afirmar que Pilatos executou Jesus a não ser que alguém estivesse negando isso?

Igualmente chocante para muitos será a sugestão de Eisenman que o Saulo Herodiano de Josefo, ativo durante o cerco de Jerusalém, não era outro senão Saulo de Tarso! Como Hyam Maccoby, recentemente, nos lembrou (No The Mythmaker). Nossa assunção convencional de que Paulo morreu sob ordem de Nero permanece apenas no manifestadamente imperfeito legendário material em Clemente 1 (um resumo anônimo de peças exortatórias de datas desconhecidas) e nos Atos de Paulo. Nós realmente não sabemos o que pode ter acontecido a ele. Igualmente, Eisenman chega perto de identificar Simão Pedro com Simão bar-Cleofas, que é dito, como Simão Pedro, ter sido crucificado, mas bem depois do reinado de Nero. (Na verdade, Eisenman pensa que sem dúvida existia um Pedro distinto do Pilar Cefas, que a tradição referente aos dois tem sido confundida devido à similaridade entre os nomes).

Outro ponto no qual Maccoby e Eisenman coincidem é sua disposição de assumir seriamente a acusação Ebionita de que Paulo nunca foi, para início de conversa, realmente um judeu. Maccoby mostra quase extensivamente em seu Paul and Hellenism que as espístolas paulinas dão pouca evidência séria de que sejam escritas por um judeu, por suas explosões antisemitas, suas afinidades religiosas misteriosas, suas exegeses gnósticas e suas visões definitivamente não-judias do Torá como ônus. Eisenman afirma a evidência da influência Herodiana, alguma coisa que realmente não precisamos ler nas entrelinhas para ver, dado sua cidadania romana, seu parentesco com um dos Herodes e à casa de Aristóbulo. Se isso é o que os Ebionitas querem significar, que Paulo era tão judeu como Herodes o Grande a despeito de suas pretensões, então temos um cenário mais natural do que aquele que os Ebionitas acusam o que de outra forma implica: a idéia de Paulo como um tipo de Grego pagão entrando superficialmente e por fora no judaísmo. Como Eisenman observa, Paulo protesta de que é Hebreu, um Israelita, mesmo um Benjaminita, mas ele evita chamar-se de judeu! E Eisenman sugere que, dado o estranho fato que "Bela" aparece tanto como chefe do clã dos Benjamins como o primeiro rei Edomita. "Benjaminita" pode ter siso um tipo de eufemismo Herodiano para a sua oblíqua relação com o judaísmo.

Eisenman cita a nota do Talmude que os Rechabitas (=Naziritas) costumavam casar com as filhas do Sumo Sacerdote. Embora ela não faça a particular conexão Eu vou fazê-la, pois essa nota talmúdica me sugere uma nova e mais natural maneira de entender a acusação Ebionita de que Paulo se converteu ao judaísmo porque estava fascinado pela filha do Sumo Sacerdote e desejava bajular seu pai para ganhar sua mão. Agora, pense na narrativa dos Atos sobre o estratagema infeliz de Paulo, fingindo uma aliança Nazirita pagando para a purificação de quatro dos ativistas de Tiago (Atos 21:23-26) o quais se voltaram contra ele o que acabou conduzindo a desordens por "ativistas da Torá" de Tiago (não alguns judeus da Ásia Menor, como Lucas reportou) devido à tentativa de Paulo de profanar o Templo (atos 21:27-30). Como o uso de dinheiro para endossar o rito de purificação dos quatro homens parece ser uma variante da apresentação e rejeição da Coleta (Romanos 15:31), podemos suspeitar que a repulsa a Paulo como um pretenso Nazirita, essa decisiva rejeição da tentativa de Paulo de bajular o partido de Tiago tem sido figurativamente interpretada na propaganda posterior Tiaguista (i.e., Ebionita) como uma tentativa frustrada de Paulo fazer o que os Naziritas faziam, "esposar a filha do Sumo Sacerdote!" Porque escolher essa metáfora em particular para Paulo como um falso profeta? Devido às ressonâncias do "cortejador" como sedutor (de Israel), um enganador e falso profeta (cf., 2 Co 11:1-5 aonde Paulo redireciona precisamente a mesma acusação de volta aos "super-apóstolos" de Jerusalém).

Em relação à associação de Eisenman entre Paulo e o Pregador da Mentira que repudiava a Lei e traia a nova aliança, o inimigo do Mestre da Retidão de Qumran, uma tese que permeia inteiramente o livro, eu observarei apenas que as coincidências entre a retórica de Qumran e os vestígios de anti-paulinismo no Novo Testamento são no mínimo tão convincentes como aquelas convencionalmente aceitas como prova de Mateus alvejando Paulo em vários pontos de seu evangelho. Eisenman ameaça obscurecer seu próprio caso exagerando, referenciando muitas terminologias compartilhadas por Paulo e Qumran, algumas vezes utilizadas com sentidos diferentes, e insistindo que elas refletem mutuamente refutação e ridículo, mas os principais exemplos são impressionantes. E certamente a rotulação de Paulo, Tiago e Ananus nos Pergaminhos é muito mais natural que os palpites desordenados através dos quais especialistas convencionais em Qumran procuram identificar os principais personagens dos Pergaminhos com essa ou aquela figura Hasmoniana. (Admitidamente existem raras referências aqui e acolá para denominar figuras do primeiro século da EC, mas Eisenman não sustenta que cada simples pergaminho seja um produto do primeiro século da EC. Como poderia ele, quando seu argumento é que o "cristianismo" de Tiago foi um crescimento evolucionário a partir de uma espécie pré-existente "Essênia").

Uma questão que Eisenman deixa aberta é a verdadeira identidade existente atrás do fictício João "filho de Zebedeu". Quem poderia ter sido ele? Eu penso que temos um par de palpites. (E penso que vale a pena persegui-las dessa maneira demonstrando que a tese de Eisenman não se fia meramente sobre suas próprias impressões subjetivas, mas também em um método que pode ser assumido por outros obtendo seus próprios resultados. Uma vez que alguém absorve o talento, seu método se prova tão científico como qualquer um empregado sobre a forma e crítica redacional).

Primeiro, desde que Tomé/Tadeu é também chamado "Lebeu", uma aparente variante do título de Tiago "Oblias" (o Bastião = O Pilar), devemos supor que os herdeiros de Jesus e os Pilares eram sinônimos, o que de certa maneira torna o Pilar João um irmão de Jesus. (Eisenman supõe que deve ter existido um Pilar de nome João; é sua conexão com o Zé Ninguém "Tiago filho de Zebedeu" é que apresenta a dificuldade). Assim não há problemas em se aceitar o Pilar João como irmão real de Tiago, o Justo, de Judas Tomé e de Simão bar-Cleofas. Todos eram contados como Pilares ou Bastiões cuja presença em Jerusalém mantinha a cidade segura. E lembremos a curiosa questão com Tiago e João sendo cristianizados "Boanerges", que significa "filhos do trovão".

Mas porque João não aparece na lista de parentes em Marcos 6:3? Eu suspeito que seu lugar foi tomado por "Joset". A posição original de João como irmão de Jesus tem sido transferida para outro João, João Batista! Lucas torna o Batista tanto um sacerdote popular hereditário por linhagem como um "primo" de Jesus, da mesma maneira como uma tradição posterior faz Os irmão de Jesus Simão e Tiago seus primos. E um apocalipse anterior preservado no Chrysostom's Encomium on John the Baptist (ver E. A Wallace Budge's Coptic Apocrypha in the Dialect of Upper Egypt) é atribuído a "João o irmão do Senhor", implicando que talvez alguém, em algum lugar, lembrou-se da conexão original.

Mas e sobre o Joset de Marcos? Eisenman sugere que esse nome é simplesmente um disfarce substituindo ninguém mais do que Jesus, o que não é inconcebível. Mas eu sugeriria que Joset é uma reserve para João. O nome propriamente é um vestígio de uma lista que originalmente se leria, "Não é o carpinteiro, o filho de Maria e José, e irmão de Tiago, João, Judas e Simão"? Quando a vemos em Marcos 6 ela já foi misturada, Joset se tornando um dos irmãos e o pai de Jesus sendo retirado da lista. Mateus, aparentemente, pensou isso, assim ele tomou de Jesus o epíteto "o carpinteiro" e colocou-o sobre o pai de Jesus.

O livro de Eisenman James the Brother of Jesus frequentemente parece muito redundante e repetitivo, mas isso é o resultado dele ter mantido uma série de bolas no ar ao mesmo tempo. Ele tem que começar a explicar algo aqui, coloca aquilo em espera, vai para outra material que você precisa ligar ma primeira explicação, então retorna, vai para outra e outra então vota aos primeiros itens, relembra o leitor deles e finalmente monta todo o complexo mecanismo. Eisenman é como os cientistas da Renascença que tem que construir à mão todas as partes intricadas de uma invenção planejada. O livro é um oceano de teorias e abordagens instrutivas, uma maciça e profunda realização que deve abrir novas linhas na pesquisa do Novo Testamento.

Independente de acharmos que o retrato de Tiago apresentado por Eisenman seja convincente ou não deveríamos ficar gratos pela enchente de novas luzes que ele espalha em muitos assuntos incluindo as fontes dos Atos e seu método de redação.


Nota:
Agradecimento pela colaboração na autoria da
 tradução da resenha de Robert Price por Mário Porto: (http://mphp.org).