sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Gary Habermas e a ressurreição de Jesus



Jesus Cristo é um personagem real, que passou por esta terra, nasceu, viveu e morreu como qualquer outro homem que realmente existiu, e isso é provado por testemunhas oculares não-cristãs e cristãs, além de provas históricas, que comprovam que Jesus não é um mito. Mas a pergunta principal que fica é: “Mesmo se Jesus é um personagem histórico real, como posso saber que ele é realmente Deus, ressuscitando dentre os mortos?”. Continue lendo...

A RESSURREIÇÃO DE JESUS: O QUE DIZEM OS ESTUDIOSOS?

Gary Habermas completou a mais ampla investigação já feita até o momento sobre o que os estudiosos acreditam a respeito da ressurreição de Jesus. Habermas reuniu mais de 1.400 obras dos eruditos mais críticos que falam sobre a ressurreição de Jesus, escritas de 1975 a 2003. Na obra The Risen Jesus and Future Hope [O Jesus ressurreto e a esperança do futuro], Habermas expõe que quase todos os estudiosos, independentemente do espectro ideológico — desde os ultra liberais até os conservadores defensores da Bíblia -, concordam que os pontos a seguir, todos relacionados a Jesus e ao cristianismo, são fatos históricos reais:
1.   A morte de Jesus deu-se por meio da crucificação romana.
2.    Ele foi sepultado, muito provavelmente, num túmulo particular.
3.    Pouco tempo depois, os discípulos ficaram desanimados, desolados e desacorçoados, tendo perdido a esperança.
4.    O túmulo de Jesus foi encontrado vazio pouco tempo depois de seu sepultamento.
5.   Os discípulos tiveram experiências que acreditaram ser aparições reais do Jesus ressurreto.
6.   Devido a essas experiências, a vida dos discípulos foi totalmente transformada. Depois disso, até mesmo se dispuseram a morrer por sua crença.
7.   A proclamação da ressurreição aconteceu logo de início, desde o começo da história da igreja.
8.   O testemunho público e a pregação dos discípulos sobre a ressurreição de Jesus aconteceram na cidade de Jerusalém, onde Jesus fora crucificado e sepultado pouco tempo antes.
9.   A mensagem do evangelho concentrava-se na pregação da morte e da ressurreição de Jesus.
10.   O domingo passou a ser o principal dia de reunião e adoração.
11.   Tiago, irmão de Jesus e cético antes desse evento, converteu-se quando acreditou que também vira o Jesus ressurreto.
12.   Poucos anos depois, Saulo de Tarso (Paulo) tornou-se cristão devido a uma experiência que ele também acreditou ter sido uma aparição do Jesus ressurreto.

A aceitação desses fatos faz sentido à luz daquilo que vimos até aqui. As evidências nos demonstram os pontos a serem apresentados a seguir.
A história do Novo Testamento não é uma lenda. Os documentos do NT foram escritos exatamente dentro de um período de duas gerações, com base nos eventos, pelas testemunhas oculares ou por seus contemporâneos. A seqüência da história do NT é corroborada por escritores não-cristãos. Além disso, o NT menciona pelo menos 30 personagens históricas que foram confirmadas por fontes externas ao NT. Portanto, a história do NT não pode ser uma lenda.
A história do Novo Testamento não é uma mentira. Os autores do NT incluíram detalhes divergentes e embaraçosos, dizeres difíceis e exigentes e fizeram cuidadosa distinção entre as palavras de Jesus e suas próprias palavras. Eles também se referiram a fatos e a testemunhas oculares que seus leitores já conheciam ou poderiam verificar. De fato, os autores do NT fizeram seus leitores e os mais destacados inimigos do século I verificarem aquilo que disseram. Se isso não é suficiente para confirmar sua fidedignidade, então seu martírio deveria remover qualquer dúvida. Essas testemunhas oculares sofreram perseguição e morte por causa da declaração empírica de que viram, ouviram e tocaram o Jesus ressurreto, embora elas pudessem ter-se salvado simplesmente negando-se a dar o seu testemunho.
A história do Novo Testamento não é um embelezamento. Os autores do NT foram meticulosamente precisos, conforme evidenciado pelos mais de 140 detalhes historicamente confirmados. Registraram milagres nessas narrativas historicamente confirmadas e o fizeram sem maquiagem aparente ou comentário teológico significativo.
Portanto, o Novo Testamento é verdadeiro? Se a maioria dos estudiosos concorda com os 12 fatos relacionados anteriormente porque as evidências mostram que a história do NT não é uma lenda, uma mentira ou um embelezamento, então sabemos, acima do que se considera dúvida justificável, que os autores do NT registraram com precisão aquilo que viram. Por acaso isso significa que todos os acontecimentos do NT são verdadeiros? Não necessariamente. O cético ainda tem uma questão.
A última questão possível para o cético é que os autores do NT foram enganados.
Em outras palavras, talvez os autores do NT estivessem simplesmente errados em relação àquilo que pensaram ter visto. Dadas as características do NT que já revisamos anteriormente, não parece plausível que os autores do NT tenham sido enganados com relação a acontecimentos comuns e não miraculosos. Eles se mostraram corretos em relação a muitos detalhes históricos. Por que duvidar de suas observações de acontecimentos do dia-a-dia?
Mas teriam eles sido enganados no caso de acontecimentos miraculosos como a ressurreição de Jesus? Talvez realmente tenham crido que Jesus ressuscitara dos mortos — e, por isso, pagaram com a própria vida -, mas estavam errados ou enganados. Talvez existam explicações naturais para todos os milagres que julgavam ter visto.
Os estudiosos mais críticos ignoram isso. Considere o fato número 5 daquela lista de 12 nos quais praticamente todos os estudiosos acreditam: "Os discípulos tiveram experiências que eles acreditaram ser aparições reais do Jesus ressurreto". Em outras palavras, os estudiosos não estão necessariamente dizendo que Jesus realmente ressuscitou dos mortos (embora alguns considerem que realmente ressuscitou). O consenso mínimo entre praticamente todos os estudiosos é que os discípulosacreditaram que Jesus ressuscitara dos mortos.
Para que testemunhas oculares e contemporâneos dos acontecimentos estejam errados, é preciso haver alguma outra explicação para a ressurreição de Jesus e os outros milagres registrados no NT. Uma vez que a ressurreição de Jesus é o fato central do cristianismo, vamos começar daí. De que maneira os céticos excluem a ressurreição?

CÉTICO QUANTO A TEORIAS CÉTICAS
Aqui estão as explicações para a ressurreição de Jesus mais freqüentem ente apresentadas pelos céticos.
Teoria da alucinação. Teriam os discípulos sido enganados por alucinações?
Talvez eles pensaram sinceramente que tinham visto o Cristo ressurreto, mas, em vez disso, na verdade estavam experimentando alucinações. Essa teoria tem muitas falhas fatais. Vamos abordar duas delas.
Em primeiro lugar, as alucinações não são experimentadas por grupos, mas apenas por indivíduos. Nesse aspecto, são muito parecidas com sonhos. É por isso que, se um amigo lhe diz pela manhã: "Uau! Esse foi um grande sonho que nós tivemos, não é?", você não diz "Sim, foi fabuloso! Vamos continuar hoje à noite?". Não, você acha que seu amigo ficou louco ou que está simplesmente fazendo uma brincadeira. Você não o leva a sério porque sonhos não são experiências coletivas. Quem tem sonhos é o indivíduo, não grupos. As alucinações funcionam da mesma maneira. Se existirem rarascondições psicológicas, um indivíduo pode ter uma alucinação, mas seus amigos não a terão. Mesmo que a tiverem, não terão a mesma alucinação.
A teoria da alucinação não funciona porque Jesus não apareceu uma única vez para uma única pessoa — ele apareceu em dezenas de ocasiões diferentes, numa grande variedade de cenários, para diferentes pessoas, durante um período de 40 dias. Ele foi visto por homens e mulheres. Foi visto caminhando, falando e comendo. Foi visto dentro e fora de lugares. Foi visto por muitos e por poucos. Um total de mais de 500 pessoas viu o Jesus ressurreto. Elas não estavam tendo uma alucinação ou vendo um fantasma, porque, em seis das 12 aparições, Jesus foi fisicamente tocado e/ou comeu comida verdadeira (v. tabela 12.1).
A existência do túmulo vazio é a segunda falha fatal da teoria da alucinação.
Se mais de 500 testemunhas oculares tiveram a experiência sem precedentes de ter a mesma alucinação em 12 ocasiões diferentes, então por que as autoridades judaicas ou romanas simplesmente não exibiram o corpo de Jesus pela cidade? Isso teria desferido um golpe fatal no cristianismo de uma vez por todas. As autoridades adorariam ter feito isso, mas, aparentemente, não puderam fazê-lo porque o túmulo estava realmente vazio.
As testemunhas foram ao túmulo errado. Talvez os discípulos tenham ido ao túmulo errado e, então, presumiram que Jesus havia ressuscitado. Essa teoria também possui duas falhas fatais.
Primeira falha: se os discípulos tivessem ido à sepultura errada, as autoridades judaicas e romanas teriam ido à sepultura certa e, então, teriam mostrado o corpo de Jesus na cidade. O túmulo era conhecido pelos judeus porque era um túmulo deles (pertencia a José de Arimatéia, membro do Sinédrio). O túmulo também era conhecido pelos romanos porque colocaram guardas ali. Como destaca William Lane Craig, a teoria do túmulo errado presume que todos os judeus (e os romanos) tiveram um tipo de "amnésia coletiva' permanente em relação àquilo que eles haviam feito com o corpo de Jesus.

ORDEM DAS DOZE APARIÇÓES DE JESUS CRISTO

Pessoas
Viram
Ouviram
Tocaram
Outras evidências
1
Maria Madalena(Jo 20.10-18)
X
X
X
túmulo vazio
2.
Maria Madalena e outra Maria (Mt 28.1-10)
X
X
X
túmulo vazio (e panos no sepulcro também em Lc 24.1-12)
3.
Pedro (1Co 15.5) e João (Jo 20.1-10)
X
X

túmulo vazio, panos no sepulcro
4.
Dois discípulos (Lc 24.13-35)
X
X

comeram com ele
5.
Dez apóstolos (Lc 24.36-49; Jo 20.19-23)
X
X
X**
viram as feridas,
comeram
6.
Onze apóstolos
(Jo 20.24-31)
X
X
X**
viram as feridas
7.
Sete apóstolos ao 21)
X
X

comeram
8.
Todos os apóstolos (Mt 28.16-20; Mc 16.14-18)
X
X


9.
Quinhentos irmãos (1Co 15.6)
X
X*


10.
Tiago (1Co 15.7)
X
X*


11.
Todos os apóstolos (At 1.4-8)
X
X

comeram com ele
12.
Paulo (At 9.1-9; 1Co 15.8)
X
X


implícito      ** deixou que seu corpo fosse tocado

Segunda falha: mesmo que os discípulos realmente tivessem ido ao túmulo errado, a teoria não explica de que maneira o Jesus ressurreto apareceu em 12 diferentes ocasiões. Em outras palavras, são as aparições que devem ser explicadas, e não apenas o túmulo vazio.
Perceba que o túmulo vazio não convenceu a totalidade dos discípulos (com a possível exceção de João) de que Jesus ressuscitara dos mortos. Foram as aparições de Jesus que os fizeram deixar de ser covardes assustados, fugitivos e céticos e se transformar na maior força missionária pacífica da história. Isso é especialmente verdadeiro com relação a um religioso inimigo do cristianismo, Saulo (Paulo). Ele não apenas não foi convencido pelo túmulo vazio, como estava perseguindo os cristãos logo após a ressurreição de Jesus. Foi necessária uma aparição do próprio Jesus para transformar Paulo. Parece que Tiago, o cético irmão de Jesus, também foi convertido depois de uma aparição de Jesus. Como vimos, a conversão de Tiago foi tão dramática que ele se tornou líder da igreja de Jerusalém e, mais tarde, foi martirizado nas mãos do sumo sacerdote.
O resumo é este: mesmo que alguém pudesse dar uma explicação natural para o túmulo vazio, não seria suficiente como prova contrária à ressurreição. Qualquer teoria alternativa da ressurreição também deve excluir as aparições de Jesus. A teoria do túmulo vazio não faz nenhuma das duas coisas.
Teoria do desmaio, do desfalecimento ou da morte aparente. Existe a possibilidade de Jesus não ter realmente morrido na cruz? Talvez Jesus tenha simplesmente desfalecido. Em outras palavras, ele ainda estava vivo quando foi colocado no túmulo, mas, de alguma maneira, Jesus escapou e convenceu seus discípulos de que havia ressuscitado dos mortos. Existem diversos erros fatais nessa teoria também.
Primeiro erro: tanto inimigos quanto amigos acreditaram que Jesus estava morto.
Os romanos, que eram executores profissionais, chicotearam e bateram em Jesus de maneira brutal. Então, depois disso, pregaram cravos rústicos em seus punhos e em seus pés e enfiaram uma lança em seu lado. Eles não quebraram as pernas para apressar sua morte porque sabiam que já estava morto (as vítimas de crucificação freqüentemente morriam por asfixia porque não podiam erguer o corpo para poder respirar. Quebrar as pernas, portanto, apressaria a morte). Além do mais, Pilatos foi verificar para certificar-se de que Jesus estava morto, e a morte de Jesus foi a razão de os discípulos terem perdido toda a esperança.
A técnica brutal de crucificação romana foi verificada por toda a arqueologia e por fontes escritas não-cristãs (v. capo 15, em que temos uma vívida descrição da experiência da crucificação de Jesus). Em 1968, os restos de uma vítima de crucificação do século I foram encontrados numa caverna em Jerusalém. O osso do calcanhar desse homem tinha um prego de quase 18 cm que o atravessava, e seus braços também mostravam evidências de pregos. A lança no coração também foi reconhecida como uma técnica romana de crucificação pelo autor romano Quintiliano (35-95 d.C.). Em função desse tratamento dispensado a Jesus, não é de surpreender que as testemunhas oculares tenham pensado que ele estivesse morto.
Não foram apenas as pessoas do século I que acreditaram que Jesus estava morto: médicos modernos também acreditam que Jesus realmente morreu. Escrevendo em 21 de março de 1986, na edição do Journal of the American Medical Association, três médicos, incluindo um patologista da Clínica Mayo, concluíram:
“Está claro que o peso das evidências históricas e médicas indica que Jesus já estava morto antes de receber o ferimento em seu lado e apóia a visão tradicional de que a lança, introduzida entre as costelas do lado direito, provavelmente perfurou não apenas o pulmão direito, mas também o pericárdio e o coração e, portanto, garantiu sua morte. Por conta disso, interpretações baseadas na pressuposição de que Jesus não morreu na cruz parecem não estar de acordo com o conhecimento médico moderno'!”

Como indicamos no capítulo anterior, o sangue e a água que saíram da ferida da lança parecem ser outro detalhe genuíno de uma testemunha ocular, relatado pela pena de João. Esse único fato deveria pôr fim a todas as dúvidas sobre a morte de Jesus.
O segundo grande erro na teoria do desfalecimento é que Jesus foi embalsamado com 34 quilos de bandagens e especiarias. É altamente improvável que José de Arimatéia e Nicodemos pudessem ter embalsamado por engano um Jesus que ainda estivesse vivo.
Terceiro erro: mesmo que todo mundo estivesse errado sobre o fato de Jesus realmente estar morto quando foi para o túmulo, de que maneira um homem gravemente ferido e sangrando ainda estaria vivo 36 horas depois? Ele teria sangrado até morrer naquele túmulo frio, úmido e escuro.
Quarto erro: se ele tivesse sobrevivido ao túmulo frio, úmido e escuro, de que maneira poderia tirar as bandagens, empurrar a pedra para cima e para fora (uma vez que estava dentro do túmulo), passar pelos guardas romanos (que seriam mortos por permitir uma brecha na segurança) e, então, convencer os covardes assustados, fugitivos e céticos de que ele havia triunfado sobre a morte? Mesmo que pudesse sair do túmulo e passar pelos guardas romanos, Jesus seria apenas uma massa mole alquebrada e ensangüentada de homem, da qual os discípulos teriam pena, e não alguém a quem eles adorariam. Eles diriam: "Você pode estar vivo, mas certamente não ressuscitou. Vamos levá-lo já para um médico!".
Quinto erro: a teoria do desfalecimento não pode explicar a brilhante aparição de Jesus a Paulo na estrada de Damasco. O que transformou esse dedicado inimigo do cristianismo logo depois da crucificação? Certamente não foi um ser humano normal que fora curado de sua experiência de crucificação.
A descrição que Paulo faz de sua conversão está registrada duas vezes no livro de Atos, que é historicamente autenticado. No capítulo 22, Paulo fala a uma multidão judaica hostil sobre a aparição de Cristo a ele:
"Por volta do meio-dia, eu me aproximava de Damasco, quando de repente uma forte luz vinda do céu brilhou ao meu redor. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: 'Saulo, Saulo, por que você está me perseguindo?' Então perguntei: 'Quem és tu, Senhor?'. E ele respondeu: 'Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem você persegue'." (v. 6-8).

Paulo ficou sem enxergar por três dias e experimentou uma mudança de 180 graus em suas atitudes. Deixou de ser o mais enérgico inimigo do cristianismo para se tornar o seu mais ardente defensor.
A experiência de conversão de Paulo não pode ser explicada por um Jesus desfalecido segurando uma tocha e usando sua "voz de Deus" no meio dos arbustos. Foi uma mostra dramática do poder divino, em plena luz do dia, que mudou dramaticamente um homem e o mundo para sempre.
Sexto erro: vários autores não-cristãos confirmaram que Jesus morreu por crucificação. Dentre eles, incluímos Josefo, Tácito, Talo e o talmude judaico. Otalmude judaico, por exemplo, diz que Yeshua (Jesus) foi pendurado num madeiro na véspera da Páscoa. Essa não é considerada uma fonte favorável ao cristianismo, de modo que não há razão para duvidar de sua autenticidade.
Por essas e outras razões, poucos estudiosos ainda acreditam na teoria do desfalecimento. Simplesmente existem evidências demais contra ela.
Os discípulos roubaram o corpo. A teoria de que os discípulos roubaram o corpo de Jesus não pode apoiar a última opção dos céticos — a de que os autores do NT foram todos enganados. Por quê? Porque a teoria faz que os autores do NT sejam os enganadores, e não os enganados! Naturalmente, isso é um ataque frontal a todas as evidências que vimos até aqui. A teoria presume a insustentável posição de que os autores do NT eram todos mentirosos. Por alguma razão inexplicável, roubaram o corpo com o objetivo de serem eles mesmos surrados, torturados e martirizados! As pessoas que defendem essa teoria não podem explicar por que qualquer pessoa faria isso. Por qual razão os discípulos embarcariam em tal conluio de autodestruição? E por que todos eles continuaram a dizer que Jesus ressuscitara dos mortos quando poderiam preservar sua vida ao se negarem a dar seu testemunho?
Além do grave conflito de interesse dos discípulos, os defensores dessa idéia não podem explicar outros absurdos exigidos pela teoria. De que maneira, por exemplo, os discípulos passaram pela guarda de elite romana que fora treinada para guardar o túmulo com o penhor da própria vida? Se Jesus nunca ressuscitou dos mortos, então quem apareceu a Paulo, a Tiago e às outras testemunhas oculares? Os autores do NT mentiram sobre sua conversão também?
Paulo simplesmente inventou as evidências encontradas em 1 Coríntios? E o que dizer sobre os autores não-cristãos? Teria Josefo mentido sobre Tiago ter sido martirizado pelo Sinédrio? Por acaso o escritor romano Flegon (nasc. c. 80 d.C.) mentiu também quando escreveu suas Crônicas, em que diz: "Jesus, enquanto vivo, não foi de qualquer ajuda para si mesmo, mas, quando ressuscitou depois da morte, exibiu as marcas de sua punição, e mostrou de que maneira suas mãos foram perfuradas pelos pregos"? Seria preciso mais do que um "milagre" para que tudo isso acontecesse, caso Jesus não tivesse ressuscitado dos mortos. Não temos fé suficiente para acreditar em tudo isso!
Como já vimos, a noção de que os discípulos roubaram o corpo é exatamente a explicação que os judeus ofereceram para justificar o túmulo vazio. Além do fato de os discípulos não terem nenhum motivo ou habilidade para roubar o corpo, essa antiga explicação judaica não foi uma boa mentira por duas outras razões: 1) como os guardas adormecidos poderiam ter visto que os discípulos haviam roubado o corpo? e 2) nenhum guarda romano se deixaria punir com a pena capital por ter dormido no posto (talvez seja por isso, como registra Mateus, que as autoridades judaicas tiveram de pagar os guardas e prometer que os livrariam de problemas com o governador).
Em 1878, foi feita uma fascinante descoberta arqueológica que corrobora a afirmação bíblica de que os judeus estavam espalhando a versão do roubo. Uma placa de mármore de 38 cm por 60 cm foi descoberta em Nazaré com a seguinte inscrição:
“Decreto de César: É meu prazer que tumbas e sepulturas permaneçam perpetuamente imperturbadas por aqueles que as construíram para o culto aos seus ancestrais, aos filhos ou aos membros de sua casa. Se, porém, qualquer um fizer acusação de que outro as destruiu ou que, de alguma maneira, tenha extraído o sepultado, ou o tenha maliciosamente transferido para outro lugar com o objetivo de fazer-lhe mal, ou que tenha substituído o selo por um outro, contra este ordeno que seja constituído um tribunal, tanto com relação aos deuses, como em relação ao culto aos mortais. Pois é muito mais obrigatório honrar os sepultados. Que seja absolutamente proibido a qualquer um perturbá-los. Em caso de violação, desejo que o ofensor seja sentenciado à pena capital ou considerado culpado de violação de sepulcro”

Os estudiosos acreditam que esse edito foi promulgado pelo imperador Tibério, que reinou de 14 a 37 d.C. (durante a maior parte da vida de Cristo), ou pelo imperador Cláudio, que reinou de 41 a 54 d.C. O aspecto notável desse dito é que ele transforma a simples ação de saquear uma sepultura de um ato passível de multa para um ato passível de pena de morte!
Por que o imperador romano se importaria em promulgar um edito tão severo naquele momento, numa área tão remota de seu Império? Embora ninguém saiba com certeza as razões que levaram à promulgação desse edito, existem algumas possibilidades que remetem a Jesus.
Se a inscrição é de Tibério, então é provável que Tibério tenha ouvido falar de Jesus com base em um dos relatórios anuais que Pilatos teria feito. Justino Mártir afirma que foi isso o que aconteceu. Pode ter sido incluída nesse relatório a explicação judaica para o túmulo vazio (os discípulos roubaram o corpo), levando Tibério a impedir qualquer "ressurreição" futura daquele edito.
Se a inscrição é de Cláudio, então o edito pode ter sido parte de sua resposta às revoltas que aconteceram em Roma no ano 49 d.C. Lucas menciona em Atos 18.2 que Cláudio expulsou os judeus de Roma. Isso é confirmado pelo historiador romano Suetônio, que nos diz que "porque os judeus em Roma causavam perturbações contínuas em função da instigação de Crestos, ele [Cláudio] os expulsou da cidade" (Crestos é uma variante do nome Cristo).
Qual a relação entre Cristo e as revoltas judaicas em Roma? Talvez Roma tivesse experimentado o mesmo curso de fatos ocorridos em Tessalônica basicamente no mesmo período. Em Atos 17, Lucas registra que houve um "tumulto" em Tessalônica quando os judeus "ficaram com inveja' porque Paulo estava pregando que Jesus ressuscitara dos mortos. Aqueles judeus reclamaram com os oficiais da cidade, dizendo: "Esses homens, que têm causado alvoroço por todo o mundo, agora chegaram aqui [ ... ]. Todos eles estão agindo contra os decretos de César, dizendo que existe um outro rei, chamado Jesus" (v. 6,7).
Se foi isso o que realmente aconteceu em Roma, então Cláudio não estava feliz com o grupo que agia contra os seus decretos e que seguia outro rei. Uma vez que já tinha conhecimento dessa nova seita rebelde nascida entre os judeus que acreditavam que seu líder havia ressuscitado, é possível que tenha expulsado todos os judeus de Roma e transformado a violação de sepulturas em crime capital.
Qualquer uma dessas duas possibilidades poderia explicar o tempo, o local e a severidade do edito. Contudo, mesmo que o edito não estivesse ligado ao túmulo vazio de Cristo, já temos boas evidências de que os judeus propagaram a hipótese do roubo (v. capo anterior). A questão principal é que a hipótese do roubo foi uma admissão tácita de que o túmulo estava realmente vazio. Além do mais, por que os judeus inventariam uma explicação para o túmulo vazio se o corpo de Jesus ainda estivesse ali?
Um substituto assumiu o lugar de Jesus na cruz. Essa é a explicação apresentada pelos muçulmanos hoje — Jesus não foi crucificado, mas alguém — como Judas, por exemplo — foi morto em seu lugar. O Alcorão faz a seguinte afirmação sobre Jesus:
“Eles não o mataram, não o crucificaram, mais tudo foi feito para que lhes parecesse assim, e aqueles que discordam desse aspecto estão cheios de dúvidas sem conhecimento (correto), mas apenas conjeturas para seguir, pois com certeza eles não o mataram: não, Alá o ressuscitou para si mesmo; e Alá é Exaltado em Poder, Sábio” (surata 4.157,158).

Desse modo, de acordo com o Alcorão, parece que Jesus foi crucificado e que Alá o levou diretamente para o céu.
Existem muitos problemas com essa teoria, sem contar que simplesmente não existe evidência alguma que a apóie. Essa afirmação do Alcorão foi escrita mais de 600 anos depois da vida de Jesus. De que maneira isso pode ser considerado uma fonte mais autorizada sobre a vida de Jesus do que os relatos das testemunhas oculares? Essa teoria contradiz todo o depoimento das testemunhas oculares e o testemunho das fontes não-cristãs.
Além do mais, essa teoria levanta mais perguntas do que respostas. Devemos acreditar que a multidão de testemunhas que presenciou algum aspecto da morte de Jesus — os discípulos, os guardas romanos, Pilatos, os judeus, a família e os amigos de Jesus — estava toda errada sobre quem fora morto? De que maneira tantas pessoas poderiam estar erradas quanto a uma simples identificação? Isso é o mesmo que dizer que Abraham Lincoln não foi a pessoa assassinada ao lado de sua esposa numa noite de abril de 1865 no Teatro Ford. Estaria Mary Lincoln errada sobre o homem que estava sentado ao seu lado? O guarda-costas de Lincoln estava errado sobre quem ele estava guardando? Todas as outras pessoas estavam erradas sobre a identidade do presidente também? Não se pode acreditar nisso.
Existem muitas outras perguntas levantadas por essa teoria. Se Jesus não foi morto, então por que o túmulo do homem que realmente foi morto foi encontrado vazio? Por acaso devemos acreditar que o substituto ressuscitou dos mortos? Se foi assim, de que maneira ele o fez? Devemos acreditar que todos os historiadores não-cristãos estão errados sobre a morte de Jesus? E o que devemos fazer com a admissão judaica da morte de Jesus? Estaria o talmude errado ao dizer que Jesus foi pendurado num madeiro na véspera da Páscoa? Em resumo, devemos acreditar que todas as pessoas do século I estavam erradas sobre tudo?
É preciso questionar uma teoria surgida 600 anos depois dos fatos e que pede a você para acreditar que todas as evidências do século I estão erradas. A verdade é que essa teoria contradiz a maioria dos 12 fatos nos quais praticamente todos os estudiosos acreditam (v. o início deste capítulo). Tal como outras teorias alternativas, essa está construída sobre mera especulação, sem nem mesmo uma partícula de comprovação que possa apoiá-la. Portanto, não temos fé suficiente para acreditar nela.
A fé dos discípulos levou-os à crença na ressurreição. John Dominic Crossan é o co-fundador do grupo de estudiosos e críticos de extrema esquerda que chamam a si mesmos de o "Seminário de Jesus". Eles decidiram que apenas 18% dos dizeres atribuídos a Jesus nos evangelhos são autênticos. Não apresentam nenhuma evidência real para o seu ceticismo, apenas teorias especulativas sobre como a fé dos discípulos levou-os à sua crença na ressurreição e em tudo mais no NT.
Essa teoria foi levantada exatamente durante o debate que Crossan teve com William Lane Craig sobre a ressurreição de Jesus. Crossan apresentou a teoria de que os discípulos inventaram a história da ressurreição porque eles "pesquisaram nas Escrituras" depois de sua morte e descobriram que "a perseguição, se não a execução, era muito semelhante a uma espécie de descrição de função dos eleitos de Deus".
Todo o debate de duas horas girou em torno da resposta de Craig. Ele disse:
"Certo. Isso surgiu depois de terem presenciado as aparições da ressurreição [ ... ]. A fé dos discípulos não levou às aparições [da ressurreição], mas foram as aparições que levaram à sua fé; depois disso é que eles foram pesquisar nas Escrituras".
O fato é que os discípulos assustados, amedrontados e céticos não inventariam uma história de ressurreição e depois sairiam por aí dispostos a morrer por isso.
Em terceiro lugar, antigas fontes não-cristãs sabiam que os autores do NT não estavam apresentando relatos míticos. Como observa Craig L. Blomberg, "os antigos críticos judaicos e pagãos da ressurreição entenderam que os autores dos evangelhos estavam fazendo afirmações históricas, não escrevendo mitos ou lendas. Eles simplesmente discutiam a plausibilidade dessas afirmações".
Em quarto lugar, nenhum mito grego ou romano falou da encarnação literal de um Deus monoteísta numa forma humana (cf. Jo 1.1-3,14), por meio de um nascimento virginal (Mt 1.18-25), seguido por sua morte e ressurreição física. Os gregos eram politeístas, e não monoteístas como os cristãos do NT. Além do mais, os gregos acreditavam na encarnação em um corpo mortal diferente; os cristãos do NT acreditavam naressurreição do mesmo corpo físico que se tornava imortal (cf. Lc 24.37; Jo 9.2; Hb 9.27).
Em quinto lugar, o primeiro paralelo real de um deus que morre e ressuscita só aparece depois do ano 150 d.e, mais de cem anos depois da origem do cristianismo. Desse modo, se houve qualquer influência de um sobre o outro, foi a influência do fato histórico do NT sobre a mitologia, e não o inverso.
O único relato conhecido de um deus sobrevivendo à morte que seja anterior ao cristianismo é o culto egípcio ao deus Osíris. Nesse mito, Osíris é cortado em 14 pedaços, espalhado por todo o Egito e, depois, remontado e trazido de volta à vida pela deusa Ísis. Contudo, Osíris não volta realmente à vida física, mas torna-se membro de um submundo de sombras. Como observam Gary Habermas e Michael Licona, "isso é muito diferente do relato da ressurreição de Jesus, no qual ele é o gloriosamente ressurreto Príncipe da vida que foi visto por outros na terra antes de sua ascensão ao céu".
Por fim, mesmo se existirem mitos sobre deuses morrendo e ressuscitando que sejam anteriores ao cristianismo, isso não significa que os autores do NT copiaram esses mitos. A série de TV de ficção científica Jornada nas estrelas precedeu o programa norte-americano do ônibus espacial, mas isso não significa que as reportagens de jornal sobre as missões do ônibus espacial são influenciadas pelos episódios de Jornada nas estrelas! É preciso olhar para a evidência de cada relato para ver se é histórico ou mítico. Não há testemunhas oculares ou evidências que corroborem a historicidade da ressurreição de Osíris ou de qualquer outro deus pagão. Ninguém acredita que eles sejam realmente figuras históricas. Contudo, como vimos, existem fortes evidências de testemunhas oculares que corroboram a historicidade da morte e da ressurreição de Jesus Cristo.
À luz de todas as evidências positivas da ressurreição, os céticos devem mostrar evidências positivas originárias do século I para suas visões alternativas. Uma coisa é inventar uma teoria alternativa da ressurreição; outra é encontrar evidências do século I para ela. Uma teoria não é uma evidência. É sensato exigir evidências, não apenas teoria. Qualquer um pode inventar uma teoria para explicar um fato histórico qualquer. Por exemplo: você acreditaria numa história que afirmasse que todo o material filmado nos campos de concentração do Holocausto fora encenado e fabricado por judeus com o objetivo de angariar simpatia e apoio para um Estado judeu?

É claro que não, porque isso vai de encontro a todas as evidências conhecidas. Para serem levados a sério, aqueles que propõem tal teoria devem apresentar relatórios dignos de crédito e independentes de testemunhas oculares, além de outras evidências corroborantes, para irem na direção oposta aos inúmeros relatos que dizem que o Holocausto foi real e que foi realmente perpetrado pelos nazistas. Mas não existe nenhuma dessas contra-evidências.

Esse é o caso da ressurreição. Embora os céticos tenham formulado diversas teorias alternativas para desacreditar a ressurreição, não há evidência de alguma fonte do século I que apóie qualquer uma dessas teorias. A única teoria que é até mesmo mencionada por uma fonte do século I (os discípulos roubaram o corpo) vem de Mateus e é claramente identificada como mentira. Ninguém do mundo antigo — nem mesmo os inimigos do cristianismo — deu uma explicação alternativa plausível para a ressurreição. Muitas das teorias alternativas formuladas nos 200 anos seguintes estão baseadas no anti-sobrenaturalismo. Uma vez que os estudiosos modernos eliminam filosoficamente os milagres logo de início, eles inventam explicações ad hoc para desacreditar a ressurreição. Como vimos, suas explicações ad hoc contêm inúmeros absurdos e improbabilidades.

Deveríamos perguntar àqueles que possuem teorias alternativas para a ressurreição: "Que evidências você tem para sua teoria? Por favor, poderia citar três ou quatro fontes do século I que apóiem sua teoria?". Quando os céticos honestos se vêem diante dessa pergunta, normalmente respondem com o silêncio ou admitem de modo gaguejante que não possuem tais evidências, porque elas não existem. E não é apenas a ressurreição que os céticos precisam explicar. Também precisam explicar os outros 35 milagres que as testemunhas oculares associaram a Jesus. Devemos acreditar que os quatro autores dos evangelhos foram todos enganados acerca de todos aqueles milagres, bem como sobre a ressurreição de Jesus?

Essa teoria de engano em massa precisa de evidência. Possuímos alguma outra fonte do século I que ofereça uma explicação diferente para as obras de Jesus? A única que foi descoberta (e que provavelmente é do século 11 é o talmude judaico, que admite que Jesus realizou atos incomuns dizendo que ele "praticava feitiçaria'. Mas essa explicação é tão fraca quanto a explicação judaica para a ressurreição (os discípulos roubaram o corpo). Talvez a feitiçaria pudesse explicar alguns dos "milagres" de Jesus, mas o que dizer de todos os 35? Feiticeiros e mágicos não podem realizar o tipo de ato que se diz que Jesus realizou — ressuscitar mortos, dar vista a cegos, caminhar sobre as águas, e assim por diante.

Desse modo, se não existe nenhuma evidência antiga para esse engano coletivo, devemos aceitar os milagres do NT como são apresentados? Por que não? Vivemos num Universo teísta, onde milagres são possíveis. Embora seja verdade que não tenhamos confirmação independente para todos os milagres do NT (porque alguns são mencionados por apenas um autor), certamente temos múltiplas confirmações de muitos deles (até mesmo a ressurreição de Jesus). A quantidade de milagres de Jesus citados por fontes independentes é grande demais para que eles sejam eliminados como se fossem um grande engano. Uma pessoa pode ser enganada uma vez, mas não é possível que vários observadores sejam enganados repetidamente.

O estudioso alemão Wolfgang Trilling escreve: "Estamos convictos e consideramos historicamente correto que Jesus de fato realizou milagres [ ... ]. Os relatos de milagres ocupam tanto espaço nos evangelhos que é impossível que tudo isso pudesse ter sido subseqüentemente inventado ou transferido para Jesus".
William Lane Craig conclui: "O fato de que a obra miraculosa pertence ao Jesus histórico não é mais discutido". Ou seja, os milagres não são discutidos com bases históricas, mas apenas com bases filosóficas.

O mais importante é que existem muitos milagres e muito testemunho para se acreditar que todas as testemunhas oculares erraram todas as vezes. Com respeito à ressurreição, todas as teorias alternativas possuem erros fatais e temos fortes evidências circunstanciais e de testemunhas oculares de que Jesus realmente ressuscitou dos mortos. Em outras palavras, não apenas carecemos de uma explicação natural para o túmulo vazio, mas temos evidências positivas da ressurreição. A explicação que exige a menor quantidade de fé é a de que Jesus realmente realizou milagres e realmente ressuscitou dos mortos como havia predito anteriormente. Desse modo, não temos fé suficiente para acreditar que os autores do Novo Testamento foram todos enganados.

domingo, 12 de agosto de 2012

Ivã Karamazov, Nietzsche, Zaratustra, e o Diabo




O século 19 é marcado pelo for­talecimento do discurso racional, pelo avanço da Ciência e pela gradativa invisibilidade das concepções religiosas, particularmente na Europa Ocidental. Percebido como fonte e objeto da Razão o Homem deve admitir e obedecer às leis da natureza. Em A Origem das Espécies, Charles Darwin acabou por acrescentar mais uma dura crítica ao cristianismo, na medida em que a idéia evolucionista coloca em xeque o discurso criacionista tradicional. A distância entre Ciência e Religião parece ficar ainda mais acentuada, e mesmo que o discurso sacerdotal, a partir de uma perspectiva dualista, busque exaustivamente blindar a figura de Deus de qualquer autoria quanto ao mal, o Altíssimo acaba não escapando dos questionamentos e das condenações que vão emergir. Em Os Irmãos Karamazov, Ivã expressa sua revolta contra um mundo que considera contraditório. No seu diálogo com Aliócha, ele narra a história de uma menina que sofrera nas mãos dos próprios pais:
aqueles pais instruídos praticavam muitas sevícias na pobre menininha. Açoitavam-na, espezinhavam-na sem razão, seu corpo vivia coberto de equimoses (…). Pelas noites glaciais, no inverno, encerravam a menina na privada, sob o pretexto de que ela não pedia a tempo, à noite, ir para ali (…). Esfregavam-lhe os próprios excrementos na cara, e sua mãe, sua própria mãe obrigava-a a comê-los (…). Vês tu daqui aquele pequeno ser, não compreendendo o que lhe acontece, no frio e na escuridão, bater com seus pequeninos punhos no peito ofegante e derramar lágrimas inocentes, chamando o ‘bom Deus’ em socorro? (…) Dizem que tudo isso é indispensável para estabelecer a distinção entre o bem e o mal no espírito do homem. Para que pagar tão caro essa distinção diabólica?[1].

É interessante notarmos que no discurso desse personagem, Fiódor Dostoievski, embora cristão, nos permite entrever seus próprios conflitos internos, conflitos que também emergem como fruto de sua época. E como nos relembra Bauman, “o mundo moderno é mundo de conflito; é também o mundo de um conflito que foi interiorizado, que virou conflito interior, um estado de ambivalência e contingências pessoais. Este é um mundo que dá à luz a loucura…” [2] O romancista russo, cujas obras literárias não deixaram de influenciar pensadores como Friedrich Nietzsche, vive uma atmosfera na qual os valores modernos já exalam os odores de sua decadência, sobretudo os valores cristãos que levam o indivíduo a imaginar este mundo como algo subjugado aos desígnios de Deus e às investidas do Diabo.

De fato, as personagens dostoievskianas vêm à tona como seqüela de uma Modernidade ambivalente que parece morder a própria cauda. Ivã Karamazov faz parte deste repertório de figuras dramáticas que, com seus discursos ateístas, confrontam antigas idéias cristãs e metafísicas sobre o bem e o mal e que, de certa forma, expõem um réquiem para Deus. Em Dostoievski, o Diabo se mantém vivo como uma voz que clama em favor da vida e contra uma moral que tenta escarnecer da terra. No diálogo com Ivã, o Diabo busca mais uma vez apontar saídas de modo que o homem consiga se libertar das correntes que o impedem de usufruir da vida, das pulsões, dos desejos.

Na minha opinião, não é preciso destruir nada, a não ser a ideia de Deus no espírito do homem: eis por onde é preciso começar. Oh! Os cegos não compreendem nada! Uma vez que a humanidade inteira professe o ateísmo (…), então, por si mesma, sem antropofagia, a antiga concepção do mundo desaparecerá, e, sobretudo a antiga moral (…). Cada qual saberá que é mortal, sem esperança de ressurreição, e resignar-se-á à morte com uma altivez tranquila, como um deus… [3]

Eis o prelúdio dostoievskiano que será evocado por Nietzsche através da boca de Zaratustra. Em plena praça sua voz se fez ouvir: “… Deus morreu, e morreram com ele tais blasfêmias. Agora, o que causa mais espanto é blasfemar da terra, e ter em mira as entranhas do impenetrável e não a razão da terra”.[4]
Esse pronunciamento da morte de Deus, a partir da genealogia nietzschiana, significa que ele teria deixado de ser o alicerce dos valores do homem moderno, ou seja, os valores que nos norteiam não são mais valores cristãos ou sagrados, são humanos. Em outras palavras, ao anunciar este “óbito do divino”, Nietzsche busca sintetizar seu pensamento do que seria a morte de todos os ídolos, de todos os valores santificados que antes permeavam e davam sustentação ao homem ocidental. Mas não podemos deixar de salientar que, embora sendo um crítico ferrenho dos valores cristãos e seculares, Nietzsche não busca abraçar qualquer forma de niilismo de morte e aniquilação em favor da ilusão de um mundo melhor.
A Modernidade, dessa forma, expressaria a passagem de uma visão teológica centrada em Deus e na religião para uma visão racional e laica. Agora é o homem que toma o lugar do Altíssimo. Mas se Deus está morto, o que nos resta? Eis uma questão que ainda se manteve persistente, pois, ao repudiar a maior parte dos valores cristãos e abraçar novos valores laicos, criou-se apenas um deslocamento, pois o homem continua a perceber a vida de forma negativa. O anseio por tal mundo ou paraísos perdidos se constitui numa negação niilista da própria vida.
Assim, o discurso moral do ocidente persiste em manter acesa esta bipolarização entre a ordem e o caos, entre a luz e a sombra, entre Deus e o Diabo, enfim, continua ratificando a ideia do bem e do mal como sendo valores absolutamente inconciliáveis.
E aqui se torna oportuno discutirmos alguns aspectos que envolvem essa reinvenção cristã que estabelece uma linha divisória entre bem e mal. Mas é importante frisarmos que a incursão neste solo não deixa de ser árdua, pois discorrer sobre a invenção de um Deus bom e de um antagônico Anjo do mal é, em certa medida, ponderar sobre os alicerces da própria religião cristã. Contudo, pensadores que se debruçaram a respeito desta questão, como é o caso de Ludwig Feuerbach e Sigmund Freud, por exemplo, assinalam certas pistas que, de uma forma ou de outra, podem nos auxiliar a compreender os dispositivos psicológicos que levam os indivíduos a produzirem seus deuses e demônios.

Em A Essência do Cristianismo, livro publicado em 1841, Feuerbach faz uma critica contundente à teologia cristã ao desenvolver uma interpretação antropológica da religião. É um texto interessante, pois nele o Deus do cristianismo emerge como um produto da imaginação, isto é, as qualidades e características divinas seriam, em certo sentido, uma antropomorfização, uma invenção a partir da própria “essência humana”. Deus não é algo abstrato e distante daquilo que compõe o próprio ser do homem. “Deus é a intimidade revelada, o pronunciamento do Eu do homem; a religião é uma revelação solene das preciosidades ocultas do homem, confissão dos seus mais íntimos pensamentos…” [5] Seguindo tal linha de pensamento, não fica difícil para Feuerbach concluir que não foi Deus quem criou o homem, mas, ao contrário, foi o homem quem inventou Deus a sua própria imagem. A Teologia, até certo ponto, acaba por ser destronada pela Antropologia.
Os teólogos cristãos vêm buscando, ao longo do tempo, sistematizar seu discurso dicotômico entre Homem e Deus, reforçando a ideia da existência de um ser Supremo pessoal, independente, perfeito e eterno, um ser que estaria demasiadamente distante das imperfeições humanas e das limitações corpóreas. O discurso feuerbachiano, grosso modo, visa demonstrar que todo o arcabouço teórico cristão se prende a uma ilusão, a uma “concepção infantil” do que significa a idéia de religião. O cristianismo, portanto, teria inventado um deus com atributos que são, de fato, projeções e fantasias inconscientes fincadas no mundo material. É Feuerbach quem nos diz:
O homem projeta espontaneamente através da imaginação a sua essência interior; ele a mostra fora de si. Esta essência da natureza humana contemplada, personificada, que atua sobre ele através do poder irresistível da imaginação como lei do pensar e agir – é Deus.[6]

Embora na condição de um ser racional e, aparentemente, superior aos animais, o Homem termina sendo refém de sua própria consciência, pois é ela que o lança perante a realidade de sua finitude e, ao mesmo tempo, perante o desejo de imortalidade. Como afirma Bauman, “é a implacável realidade da morte que torna a imortalidade uma proposta atraente, mas é a mesma realidade que torna o sonho da eternidade uma força ativa, um motivo para ação”.[7] E não deixa de ser interessante notar, na concepção feuerbachiana, como a certeza da transitoriedade aflora como um dos aspectos relevantes a fim de compreender a crença em um deus imortal e numa vida eterna. A percepção de sua fragilidade perante as forças da natureza e da inevitabilidade da morte leva o homem a conceber o desejo de continuidade do seu ser e, assim sendo, imagina outro mundo habitado por um deus não apenas onisciente, onipotente e onipresente, mas, acima de tudo, imortal. Feuerbach observa que o sujeito não poderia crer num deus imortal se não acreditasse que sua própria individualidade possa ser também eterna.

A ideia de imortalidade, desta forma, encontra-se na própria genealogia do cristianismo. Nas palavras do filósofo alemão, “… o interesse de que Deus exista é idêntico ao interesse de que eu exista, que seja eterno (…). Deus é a existência correspondente aos meus desejos e sentimentos (…). A imortalidade é a conclusão da religião – o testamento no qual ela expressa o seu último desejo” [8] Vemos aqui a relevância da invenção de um paraíso e de um céu povoado por seres para os quais o tempo humano é ausente. Caso não pudesse projetar este universo espiritual e eterno, não haveria como contornar a angústia provocada pela possibilidade do vazio que a morte nos lança. Mas não somente a angústia, mas o medo da perda da tão valorizada individualidade.

O anseio de continuidade esteve enraizado em várias culturas antigas, como foi caso do Egito com suas mumificações que buscavam, sobretudo, preservar o corpo para a eternidade. E o cristianismo não escapou às regras de tal anseio. Com uma fórmula bem elaborada, o discurso cristão, que se apropria da morte e da idéia de eternidade, consegue, em certa medida, abrandar o medo que emerge diante do inevitável e misterioso destino da finitude. A morte é desenhada como uma passagem, uma ponte para outro mundo eterno no seio de Abraão ou, a depender do veredicto divino, para os aquecidos braços do Diabo. De qualquer maneira, a morte não é concebida como o fim último da alma ou mesmo do corpo. Não devemos esquecer que, no cristianismo, esta ânsia pela continuidade não exclui a esperança de ter um corpo também inacabável. E a fórmula cristã não deixa este problema teológico sem elucidação: a vitória sobre a morte, sobre a morte do corpo encontra-se na ressurreição que ocorrerá no dia do Juízo Final, a exemplo do que teria acontecido com o Lázaro ressuscitado por Cristo.
Outro ponto sublinhado por Feuerbach diz respeito à questão dos valores bem e mal. Deus é bom e justo e, portanto, ele não seria responsável pelas adversidades que recaem sobre a humanidade, a autoria do mal fica por conta de outra figura imaginária: o Diabo. A invenção da dicotomia entre o bem e o mal vem à tona como algo extra-mundano, desconectado do humano, um aspecto, aliás, que o cristianismo, através do seu discurso teológico, vai buscar dá relevo. De qualquer modo, Deus e o Diabo, na perspectiva feuerbachiana, não passam de personagens oriundas da essência humana, ou melhor, das projeções daquilo que se almeja e, ao mesmo tempo, negação de tudo aquilo que o homem considera como mal.
A maior parte das questões discutidas por Feuerbach na Essência do Cristianismo, e que tentamos abordar aqui de forma bastante resumida, foram duramente rechaçadas tanto por homens da Igreja quanto por intelectuais de sua época. Contudo, seus textos críticos em torno da religião cristã vieram a se tornar uma herança teórica significativa para outros pensadores que, posteriormente, também se debruçaram sobre a problemática religiosa. Freud está entre os herdeiros deste “iluminismo feuerbachiano”. Mesmo antes da invenção da Psicanálise, Freud já não escondia sua adesão às concepções ateístas que, em parte, foi nutrida pela filosofia iluminista do século 18. Porém, são as idéias de Feuerbach que acabam se tornando decisivas para o médico vienense elaborar seu próprio discurso em torno da religião, especialmente a cristã. Assim como o autor da Essência do Cristianismo, Freud também vai encarar a religião de uma forma crítica, em particular a ideia de Deus como algo produzido pelos próprios homens. Em Feuerbach encontramos a seguinte observação:
O homem transporta primeiramente a sua essência para fora de si antes de encontrá-la dentro de si. A sua própria essência é para ele objeto primeiramente como uma outra essência. A religião é a essência infantil da humanidade; mas a criança vê a sua essência, o ser humano, fora de si – enquanto criança é o homem objeto para si como um outro homem[9]

Freud, por sua vez, escreve em O Futuro de uma Ilusão:
Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem, não obstante, confia sua proteção. Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra conseqüências de sua debilidade humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer – reação que é, exatamente, a formação da religião.[10]

Sob essa ótica, portanto, a Religião e todo seu discurso doutrinário não passam de uma ilusão, e para Freud, “… acolhemos as ilusões porque nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfações. Portanto, não devemos reclamar se, repetidas vezes, essas ilusões entrarem em choque com alguma parcela da realidade e se despedaçarem contra ela”.[11] Na perspectiva freudiana, tais ilusões possuem raízes fincadas na infância, ou melhor, na relação da criança com o pai. A religião emerge para o inventor da Psicanálise como uma espécie de “patologia psíquica”, pois a idéia de Deus encontra-se relacionada a um determinado processo de substituição da figura paterna. Em outras palavras, o desejo de proteção diante da conjuntura de desamparo volta-se para seu genitor, aquele que lhe garantirá a segurança diante dos perigos.

Com o passar do tempo, a figura paterna vai gradualmente sendo substituída pela ideia de Deus ou outras entidades protetoras. E não seria arriscado afirmar que o medo está conectado em tal processo que, de algum modo, irá acompanhar o indivíduo ao longo de sua existência.

O desamparo do homem (…) permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs. [12]

Sobre esse mesmo aspecto, é interessante fazer vir à baila certa convergência da concepção freudiana com o que Nietzsche pontua em suaGenealogia da Moral:
Para que o sofrimento oculto, não descoberto, não testemunhado, pudesse ser abolido do mundo e honestamente negado, o homem se viu então praticamente obrigado a inventar deuses e seres intermediários para todos os céus e abismos, algo, em suma, que também vagueia no oculto, que também vê no escuro, e que não dispensa facilmente um espetáculo interessante de dor. [13]

O cristianismo institucionalizado emerge principalmente a partir das interpretações dos textos paulinos que acabaram se tornando hegemônicas entre tantas outras interpretações. E neste ponto devemos observar que, equilibrando-se numa moral de “sujeitos ressentidos” diante de sua condição de sofrimento, o projeto do apóstolo Paulo foi vitorioso ao reforçar determinadas idéias. Lembrando que, na interpretação de Nietzsche, o sujeito ressentido é o niilista que não age nem reage, é um fraco que quando busca agir é apenas sob a forma imaginária, ou seja, ““…criando um inimigo que considera malvado e imaginando uma vingança contra seus valores, o que faz o ressentido é dar sentido a sua falta de força: o outro é sempre culpado do que ele não pode, do que ele não é…[14]
Os textos de Paulo são incisivos no que tange à dicotomia entre o bem e o mal, ao pecado e à esperança da salvação eterna. Tais idéias serão cruciais para ajudar a definir e acentuar, de certa forma, os contornos da invenção de um Deus bom e de um Diabo maléfico, figuras imaginárias que serão de extrema valia para o exercício do poder disciplinar contra os ímpios e em favor da manutenção do rebanho de fiéis. Um ponto sobre o qual Nietzsche desce seu martelo: “… as noções de ‘além’, de ‘juízo final’, de ‘imortalidade da alma’, da própria ‘alma’, são instrumentos de tortura, sistemas de crueldade de que se serviam os sacerdotes para se converterem em senhores e para manterem o poder…” ··.
A revolta de Nietzsche contra o cristianismo paulino se justifica. É principalmente com o apóstolo Paulo que a terra deixa de ser o lugar de expansão da vida. Em Paulo, a terra transformar-se num mundo ilusório que abriga o mal proveniente do pecado, um mundo de renúncia das pulsões, um mundo onde brota o sentimento de culpa. O cristianismo, em nome de Deus, acredita erguer o estandarte do bem e da verdade, e elege como seu principal alvo o próprio corpo dos indivíduos, esta alcova de Satanás, este campo profano do qual jorram o desejo e o gozo.
O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz, e transformou em um ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável; e até corrompeu a faculdade daquelas naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que os valores superiores do intelecto não passam de pecados, desvios e tentações. [15]
Eis aí um dos principais paradoxos que podemos pinçar no bojo do cristianismo: o mesmo Deus que supostamente criou o homem dotado de instintos, agora os reprime, os condena, os demoniza em nome do bem. E os textos atribuídos a Paulo não deixam dúvida quanto à importância de valorizar o modo de vida ascético, de vigiar e penalizar o corpo em favor da alma, em favor da esperança de uma vida além-túmulo. Com isso, o cristianismo estaria negando e amaldiçoando a terra na perspectiva de alcançar outro mundo, um mundo sem sofrimentos, um paraíso eterno.
Sabemos que as práticas de vigilância e punição sobre o corpo não desaparecem com o advento da Era Moderna, embora se apresentando encobertas com uma roupagem secularizada. Foucault vai chamar a atenção sobre este aspecto ao demonstrar o investimento disciplinar exercido com o propósito de inibir o desejo e a própria expansão da sexualidade. Na perspectiva foucaultiana, o poder passa a atuar sobre os corpos objetivando controlá-los, torná-los dóceis a fim de melhor servirem à nova ordem econômica que se estabelece. O mercado, em certo sentido, emerge como este novo Senhor que veio substituir o antigo Deus da cristandade, e refletindo a imagem e semelhança do cristianismo que afirma que o corpo deve ser o templo do Espírito Santo, a divina Razão também resplandece sobre este mesmo corpo. O corpo agora deve ser purificado por meio da norma e da disciplina de modo a se constituir em força de trabalho produtiva. Sendo assim, o corpo encontra-se também mergulhado no campo político e econômico, pois “…não se trata de cuidar do corpo, em massa,grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável mais de trabalhá-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica…”[16] E todo aquele que resistir e desobedecer o que é ordenado e normatizado pelo “deus-mercado” deve ser destituído e expulso do paraíso do consumo, não deve existir lugar na sociedade moderna para os que insistem em comer do fruto da emancipação a fim de afastar-se do rebanho servil, os filhos das trevas devem ser rechaçados e diabolizados.
No que diz respeito à diabolização do outro, as idéias cristãs também vieram, sorrateiramente, a impregnar o mundo moderno. Análogo ao cristianismo, a Modernidade também procurou não poupar esforços para colocar em prática o exorcismo de todo o mal que circunda a sociedade de maneira geral, ou até mesmo o mal que porventura possa se alojar no corpo do sujeito que não se adapta à nova ordem. Daí a perseguição e o enclausuramento dos loucos, a intolerância para com os estranhos e diferentes, pois são agentes que se insurgem contra o poder e ameaçam a ordem da Razão. Estes e outros subversivos devem ser expulsos do jardim e ficar à mercê do poder disciplinar de modo que o restante do rebanho não seja contaminado.
Portanto, o mundo moderno com seu discurso racional, ordenador e punitivo, além de abraçar o dualismo cristão, também tratou de lançar mão de suas práticas de supressão. O poder deve expulsar e suprimir os desobedientes, diabolizar e impor o medo aos outros que não querem perceber a diferença entre o certo e o errado, que não são suficientemente capazes de distinguir o falso do verdadeiro.
Assim, o sentimento de desamparo, a insegurança e o próprio medo da morte, podem ser considerados aspectos relevantes no incremento de uma base psicológica que, até certo ponto, vai condicionar o modo de interpretar o mundo real. E em concomitância com a invenção de deuses ou entidades punitivas, brotam discursos doutrinários objetivando alicerçar a crença em tais deuses, mesmo que seja necessário diabolizar e perseguir o outro que se distancia de tal crença. Sob a ótica de uma verdade absoluta, torna-se legítimo impor o medo aos que, ao adorarem outros deuses, blasfemam contra o Espírito Santo e continuam ao lado do mal e crucificando simbolicamente o Filho do Altíssimo.
Assim, apesar das tentativas de matá-lo, o Diabo está bem vivo num cenário em que a Razão e a ciência pareciam emergir como única fonte de explicação do mundo. Se já não possui todos os atributos dos tempos medievos, Satã continua sendo um elemento indispensável para estabelecer o medo e garantir o exercício do poder dos que afirmam estar ao lado do bem. E quanto aos “outros”?
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[1] Ver DOSTOIEVSKI, Fiódor. Os irmãos karamazov. Tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes. 2. ed. Rio de janeiro: Abril Cultural, 1973.
[2] Ver BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
[3] Ver DOSTOIEVSKI, Fiódor. Os irmãos karamazov. p. 451.
[4] Ver NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava zaratustra. Tradução de Eduardo Nunes Fonseca. São Paulo: Hemus, 1985. p. 10.
[5] Ver FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. Tradução de José da Silva Brandão. 2. ed. Campinas-SP: Papirus, 1997. p. 56.
[6] Ver FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. p. 251.
[7] Ver BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. p. 192.
[8] Ver FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. p. 214-215.
[9] Ver FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. [grifo do autor]. p. 56.
[10] Ver FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1969. vol. XXI. (Edição eletrônicaStandard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.).
[11] Idem. A desilusão da guerra. p. 7
[12] Ver FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. p. 11.
[13] Ver NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. p. 58.
[14] Ver MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2002. p. 64.
[15] Ver NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo. p. 40.
[16] Ver FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. p. 126.