quinta-feira, 12 de março de 2026

João vs Sinópticos: Eucaristia

 


Eucaristia


Nos três evangelhos sinópticos, no final da última ceia, Jesus celebra a eucaristia. Esta celebração consiste em comer o pão e tomar o vinho simbolizando o corpo e o sangue do Cristo.

Em João não há relato da celebração da eucaristia na noite da última ceia. Existe apenas o relato de Jesus a lavar os pés dos discípulos, após a ceia, e a discursar longamente. No entanto, numa passagem anterior (fora do contexto da última ceia) é referido por Jesus que “só aquele que come a carne e bebe o sangue do Cristo é que tem salvação” sem haver uma ligação simbólica ao pão e ao vinho.
João 6:53-56 Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.

Repare-se que nestas declarações não existe o simbolismo do pão e do vinho. Pelo contrário, a utilização do termo “verdadeiramente” reforça a noção que estas deveriam ser entendidas literalmente. No entanto, na sequência desta passagem, Jesus explica que a carne é o espírito e o sangue é a vida. Em todo o caso, “João” não fala em nenhuma celebração simbólica com recurso a pão e vinho, e também não existe qualquer ligação à última ceia. E podemos também dizer que esta doutrina de João foi muitas vezes entendida literalmente pelos perseguidores dos cristãos que, muitas vezes, acusavam estes de práticas canibalísticas.

Por outro lado, o (autoproclamado) apóstolo Paulo, que conheceu Jesus apenas por visões, disse que recebeu as seguintes instruções para a eucaristia:
1 Coríntios 11:23-25 Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.

Esta carta, dirigida à igreja de Corinto, foi escrita antes dos evangelhos. Ora, Paulo não estava presente na última ceia com Jesus. Ele disse aos coríntios que foi o "Senhor" (pressupõe que foi por visão ou revelação) que lhe informou como se praticava a eucaristia (mas as visões só ensinam aquilo que uma pessoa já conhece de antemão...). Então, de onde foi Paulo buscar este ritual de comunhão?

O mitraísmo, originário dos persas, tornou-se um culto muito popular para os romanos nesta época. Em tempos, teve rituais que incluíam o sacrifício de um touro fazendo uso da carne e do sangue, mas posteriormente outros rituais eram acompanhados da seguinte frase ou dizer litúrgico: “quem não comer da minha carne e beber do meu sangue de modo a tornar-se parte de mim e eu parte dele, não terá salvação”. Ora havia um grande centro de culto do mitraísmo em Tarso, a cidade originária de Paulo, o que leva a crer que Paulo é que instituiu a eucaristia e não Jesus. Mas a reverência que os judeus tinham pelo sangue (Levítico 3:17; 7:26; Deuteronômio 12:16, 23) não permitia o seu consumo, como ditaria a liturgia, por isso o passo natural seria adoptar ingredientes substitutos, o pão e o vinho, mas mantendo a simbologia. A utilização de pão e vinho teria a vantagem adicional de ser menos dispendioso e mais discreto do que a utilização de um animal sacrificado.

Tendo em conta que a carta aos coríntios foi escrita por volta de 50 EC, imaginemos os cenários alternativos:
-          Jesus instituiu a eucaristia na noite da última ceia, por volta de 30 EC – então os apóstolos tiveram cerca de vinte anos para ensinar e propagar o ritual da eucaristia antes de Paulo escrever esta carta, e não faria sentido Paulo dizer que foi Jesus que lhe transmitiu numa visão;
-          Jesus não instituiu a eucaristia, Paulo é que instituiu – quando chegou a altura da escrita dos evangelhos, em 70 EC, a eucaristia já era um facto entre os cristãos, por isso foi incorporada no relato dos evangelhos;
-          nem Jesus nem Paulo instituíram a eucaristia – este ritual já era praticado antes pelos adeptos do mitraísmo, uma religião popular entre os romanos, e Paulo apenas a integrou no cristianismo.



Bebeu ou não bebeu?

Nos sinópticos, no final da eucaristia, Jesus promete aos apóstolos que não beberá mais nenhum “produto da videira” até ao dia em que se encontrasse no Reino de Deus.

Marcos
Mateus
Lucas
Marcos 14:25 Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até aquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.
Mateus 26:29 Mas digo-vos que desde agora não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco o beba novo, no reino de meu Pai.
Lucas 22:18 porque vos digo que desde agora não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus.


Nos sinópticos, Jesus é verdadeiro com a sua palavras, pois durante o seu caminho para a crucificação, é-lhe oferecido vinho, mas ele recusa.

Marcos
Mateus
Marcos 15:22-23 Levaram-no, pois, ao lugar do Gólgota, que quer dizer, lugar da Caveira. E ofereciam-lhe vinho misturado com mirra; mas ele não o tomou.  
Mateus 27:33-34 Quando chegaram ao lugar chamado Gólgota, que quer dizer, lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber.    


No entanto, enquanto estava na cruz, é-lhe oferecido vinagre (vinho acre) para beber, mas, nos sinópticos, não fica claro se Jesus aceitou e bebeu ou se recusou esta oferta.

Marcos
Mateus
Lucas
Marcos 15:36 Correu um deles, ensopou uma esponja em vinagre e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias virá tirá-lo.
Mateus 27:48-49 E logo correu um deles, tomou uma esponja, ensopou-a em vinagre e, pondo-a numa cana, dava-lhe de beber. Os outros, porém, disseram: Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo.
Lucas 23:36-37 Os soldados também o escarneciam, chegando-se a ele, oferecendo-lhe vinagre, e dizendo: Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.


Em João, fica explícito que ele tomou o vinagre, bebendo-o.
João 19:29-30 Estava ali um vaso cheio de vinagre. Puseram, pois, numa cana de hissopo uma esponja ensopada de vinagre, e lhe chegaram à boca. Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse: está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. 

Se combinarmos a informação de João com os sinópticos então Jesus não cumpriu a sua palavra ao ter recebido o vinagre para beber, porque vinagre é um “produto da videira”. Mas, como em João não existe o episódio da celebração da eucaristia, também não houve a promessa que Jesus fez de não mais beber do produto da videira.

João vs Sinópticos: Data da Morte de Jesus, Sinais

 



Data da morte de Jesus

Nos evangelhos sinópticos, Jesus come a refeição da Páscoa com os apóstolos, na noite anterior à sua morte. Essa refeição consiste num cordeiro sacrificado segundo a tradição judaica, para ser consumido no jantar de 14 do mês de Nisã. A morte de Jesus ocorre no dia seguinte, dia da Preparação (sexta-feira = preparação do sábado) dia 15 de Nisã, o dia a seguir à Páscoa.

Marcos
Mateus
Lucas
Marcos 14:12 Ora, no primeiro dia dos pães ázimos, quando imolavam a páscoa, disseram-lhe seus discípulos: Aonde queres que vamos fazer os preparativos para comeres a páscoa?
Mateus 26:17 Ora, no primeiro dia dos pães ázimos, vieram os discípulos a Jesus, e perguntaram: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa?
Lucas 22:7-9 Ora, chegou o dia dos pães ázimos, em que se devia imolar a páscoa; e Jesus enviou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos. Perguntaram-lhe eles: Onde queres que a preparemos?



Em João, a morte de Jesus ocorre no próprio dia da Páscoa, também uma sexta-feira, mas no dia 14 de Nisã.
João 18:28 Depois conduziram Jesus da presença de Caifás para o pretório; era de manhã cedo; e eles não entraram no pretório, para não se contaminarem, mas poderem comer a páscoa
João 19:13-14 Pilatos, pois, quando ouviu isto, trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado Pavimento, e em hebraico Gabatá. Ora, era a preparação da páscoa, e cerca da hora sexta. E disse aos judeus: Eis o vosso rei.

Podemos ler em João 18:28, que, no dia do julgamento (e morte) de Jesus, os sacerdotes evitaram entrar no palácio do governador para “não se contaminarem, mas poderem comer a páscoa”. Em João 19:13-14, na descriçao do julgamento de Jesus, lemos que era o dia da preparação da páscoa. Isto indica claramente que ainda não tinham celebrado a páscoa, isto é, ainda não tinham tomado a refeição nocturna da páscoa.

Por outro lado, Jesus é retratado por João Baptista como o próprio “cordeiro de Deus”, o último sacrifício de páscoa.

João 1:29 No dia seguinte João viu Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 
João 1:36 e, olhando para Jesus, que passava, disse: Eis o Cordeiro de Deus!

Portanto a crucificação de Jesus seria considerada a última “refeição” de páscoa, porque seria considerada o sacrifício do “Cordeiro de Deus”. Toda esta narrativa está de acordo com o edifício doutrinal de João que começa com Jesus a afirmar que “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (João 6:53-56). A partir dali nunca mais seria necessário fazer sacrifícios animais para Deus para o perdão de pecados.

Na verdade, os judeus, ao ficarem privados do seu Templo em 70 EC, por causa da destruição causada pelos romanos, nunca mais fizeram sacrifícios animais (isto até hoje, século XXI). Tendo em conta que João foi escrito depois do ano 100 EC, esta doutrina seria bastante apelativa para os judeus, pois podiam enveredar por uma fé em que não era necessário fazer sacrifícios animais para o perdão dos pecados.



Quantos sinais?

Se Jesus seria o Messias, haveria quem pedisse provas concretas de que ele seria o tal. Vejamos qual a resposta de Jesus a esta solicitação:

Nenhum sinal
Um sinal
Muitos sinais
Marcos 8:11-12 Saíram os fariseus e começaram a discutir com ele, pedindo-lhe um sinal do céu, para o experimentarem. Ele, suspirando profundamente em seu espírito, disse: Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não será dado sinal algum.
Mateus 12:38-39 Então alguns dos escribas e dos fariseus, tomando a palavra, disseram: Mestre, queremos ver da tua parte algum sinal. Mas ele lhes respondeu: Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o do profeta Jonas;
Lucas 11:29 Como afluíssem as multidões, começou ele a dizer: Geração perversa é esta; ela pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o de Jonas;
João 2:11 Assim deu Jesus início aos seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.
João 2:23 Ora, estando ele em Jerusalém pela festa da páscoa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome.
João 4:54 Foi esta a segunda vez que Jesus, ao voltar da Judeia para a Galiléia, ali operou sinal.
João 6:2 seguia-o uma grande multidão, porque via os sinais que operava sobre os enfermos.    
João 12:37 E embora tivesse operado tantos sinais diante deles, não criam nele;


Temos aqui uma grande diferença de doutrinas nos vários livros:
-          Nenhum sinal: em Marcos, como temos uma doutrina de missão secreta, Jesus começou por afirmar que não daria nenhum sinal para provar que era realmente o Messias. Quem quisesse ser seguidor tinha é que decifrar a sua mensagem enigmática e acreditar nele.

-          Apenas um sinal: em Mateus e Lucas, descobrimos que Jesus indicou que iria mostrar um e um só sinal: o “sinal de Jonas”. Tal como Jonas esteve na barriga do peixe durante três dias, Jesus estaria na morte durante três dias. As pessoas iriam acreditar na mensagem assim que soubessem que ele próprio tinha ressuscitado da morte.

-          Muitos sinais: em João temos a surpresa que, afinal, os sinais que Jesus mostrou foram muitos e bem claros, pois foram presenciados por grandes ajuntamentos. O autor queria “provar” o quão “estúpidos” foram os judeus ao não acreditarem na mensagem de Jesus depois de assistirem a tão claros e expressivos sinais.


E, na verdade, é impossível perceber qual foi realmente o segundo sinal manifestado por Jesus, em João, porque:
-          em João 2:11 é declarado o primeiro sinal: a transformação de água em vinho;
-          em João 2:23 são declarados “muitos sinais” sem os especificar;
-          em João 4:54 é declarado o segundo sinal: a cura do filho de um oficial do “rei” (João chama “rei” a Herodes, quando o título oficial era tetrarca).


Ao longo do texto, são mencionados mais dos “muitos sinais” que Jesus realizou e mostrou (João 3:2; 4:48; 6:14; 7:31; 9:16; 11:47; 12:8; 20:30).

O sinal que “João” descreveu como sendo o primeiro de Jesus foi a transformação de água em vinho durante uma boda onde Jesus era convidado. Não nos debruçando sobre a futilidade deste episódio, porque o que Jesus consegue é apenas ultrapassar o incómodo da falta de vinho durante uma festa, o que interessava ao autor era mostrar que Jesus tinha tanto poder como Dionisos, o deus grego do vinho, ou que Jesus era o próprio Dionisos.


O dilúvio

 

O dilúvio





O Épico de Gilgamesh


A história do dilúvio que encontramos em Génesis é provavelmente baseada num poema épico cujo protagonista é um rei sumério, Gilgamesh. Neste poema, que é considerado a obra literária mais antiga do mundo, existe um trecho sobre um dilúvio destruidor cujo sobrevivente chama-se Utnapishtim em vez de Noé.

O dilúvio no épico de Gilgamesh
(após a morte de Enkidu, o grande amigo de Gilgamesh...)
Tendo ficado bastante perturbado com a morte do seu grande amigo, Gilgamesh foi à procura da imortalidade. Lembrou-se que o seu antepassado Utnapishtim tinha alcançado a vida eterna, porque os deuses o tinham salvo de um dilúvio e lhe tinham concedido imortalidade. Depois de uma viagem atribulada, Gilgamesh consegue então uma entrevista com Utnapishtim, que lhe conta a sua história: 
“Eu vivia em Shurrupak e era fiel a Ea, o deus da água. Entretanto, a deusa Ishtar começou a promover o disturbio e a guerra entre os homens. De tal modo os homens ficaram desassossegados, que os deuses nem podiam dormir, até que Enlil o deus da guerra disse aos outros: ‘Afoguemos toda a raça dos homens, pois nos tiraram o sossego!’. Mas Ea avisou-me a tempo, sussurrando ao vento, de modo que eu construí um barco onde coloquei toda a semente de coisas vivas. De modo que levei a minha família bem como um casal de cada animal para dentro do barco. Durante seis dias e seis noites choveu. No sétimo dia a tempestade acalmou e por fim o barco encostou no cimo de um monte. Para verificar se as águas tinham baixado, soltei primeiro uma pomba, depois uma andorinha e depois um corvo. Os primeiros regressaram, mas o corvo não, porque tinha encontrado um local para pousar. Então, em agradecimento, ofereci um sacrifício aos deuses. Mas Enlil ao sentir o cheiro agradável do fumo do sacrifício ficou furioso e disse: ‘Escaparam alguns daqueles mortais. Quem os avisou?’. Então Ea replicou: ‘O dilúvio foi um castigo severo demais para a humanidade. Pelo menos este homem merecia ser poupado. Não o avisei, ele teve um sonho’. De modo que Enlil amansou e tocou-me na testa e também à minha mulher e ficámos imortais como os deuses.” 
Depois de relatar o dilúvio, Utnapishtim indicou a Gilgamesh o local onde brotava a planta que garantia a vida eterna. Gilgamesh colheu a planta e levou-a para Uruk, a sua cidade, decidido a experimentá-la mas, enquanto fez uma pausa para se banhar numa lagoa, veio uma serpente e comeu a planta.

Os que crêem literalmente no relato de Génesis, defendem que os sumérios escreveram esta história como uma versão modificada do verdadeiro acontecimento.



O Dilúvio no Génesis

Na versão do Antigo Testamento, o dilúvio acontece porque Yahveh deplorou ter feito a criação, afirmando: “Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu; porque me arrependo de os haver feito” (Génesis 6:6-7). Temos, portanto, um deus claramente decepcionado e arrependido da sua criação. Por outro lado, Yahveh afinal deixa o Homem e os animais sobreviverem, revelando-se um deus inseguro face às suas próprias decisões.

Quando Noé apeou-se da arca, fez ofertas de animais em sacrifício queimado a Deus.
Génesis 8:20-21 Edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo animal limpo e de toda ave limpa, e ofereceu holocaustos sobre o altar. Sentiu o Senhor o suave cheiro e disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice; nem tornarei mais a ferir todo vivente, como acabo de fazer.

Claro que Noé não se preocupou com o facto de os animais da Terra estarem à beira da extinção, porque apenas salvou um macho e uma fêmea de cada espécie, embora dos animais para sacrifício tenha salvo sete pares de cada espécie. Correu esse risco apenas para Deus sentir “um suave cheiro” a carne assada (e no livro Levítico, Yahveh é retratado como um ser obcecado pelo “cheiro repousante” da carne assada...)!

A narrativa bíblica do dilúvio também menciona o aparecimento do primeiro arco-íris, como se até esse momento as leis da refracção da luz não existissem ou nunca se tivessem manifestado (Génesis 9:12-16)!

Mais sobre o dilúvio na Bíblia: o texto sobre o dilúvio em Génesis nos capítulos 6 a 9 pode ter sido redigido a partir de duas versões distintas.


Os Egípcios

Na cronologia do Antigo Testamento, o Dilúvio ocorreu no Anno Mundi (calendário segundo a Criação) de 1656.


Passagem
Evento
Data (Anno Mundi)
Génesis 1-2 
Deus cria tudo
0
Génesis 5:3 
Adão é pai de Set aos 130
0 + 130 = 130
Génesis 5:6 
Set é pai de Enos aos 105
130 + 105 = 235
Génesis 5:9 
Enos é pai de Cainan aos 90
235 + 90 = 325
Génesis 5:12 
Cainan é pai de Maalalel aos 70
325 + 70 = 395
Génesis 5:15 
Maalalel é pai de Jarede aos 65
395 + 65 = 460
Génesis 5:18 
Jared é pai de Enoque aos 162
460 + 162 = 622
Génesis 5:21 
Enoque é pai de Matusalém aos 65
622 + 65 = 687
Génesis 5:25 
Matusalém é pai de Lameque aos 187
687 + 187 = 874
Génesis 5:28 
Lameque é pai de Noé aos 182
874 + 182 = 1056
Génesis 7:6 
O dilúvio começa aos 600 anos de Noé.
1056 + 600 = 1656



Segundo grande parte da literatura fundamentalista judaico-cristã, a Criação ou o início do calendário Anno Mundi corresponde ao ano 4000 AEC (com pequenas variações). Isto quer dizer que o Dilúvio, segundo a cronologia fundamentalista, ocorreu por volta de 2350 AEC (Anno Mundi 1656).

Mas por volta desta data já florescia a civilização egípcia, tendo continuado durante séculos. Ou seja, vejamos o absurdo:
-     os egipcios desenvolveram a sua civilização até 2350 AEC;
-     veio o Dilúvio e todos os egípcios morreram - as pirâmides e outras edificações ficam submersas;
-  depois do Dilúvio, descendentes de Noé tornaram-se egípcios e continuaram a civilização egípcia (!!!);


Outras questões

Para finalizar, ficam algumas questões:

-  Se morreram todos os humanos que estavam fora da arca, isso foi porque não havia mais nenhuma outra embarcação no mundo inteiro?
-     Como sobreviveram os peixes de água doce, uma vez que um dilúvio global causaria a mistura de águas oceânicas com águas fluviais?
-      Como sobreviveu a vegetação submersa?
-      Como sobreviveram os anfíbios, que necessitam tanto de meio aquático como de terra seca?

Yahweh e os carros de ferro

 




Segundo o Antigo Testamento, durante alguns séculos, Israel funcionou como uma federação de tribos governada por juízes. Supostamente os juízes deveriam ter como base a Lei revelada a Moisés, mas o livro de Juízes nunca fala de nenhuma dessas leis. Nem sequer há vestígios dos dez mandamentos. O único mandamento em Juízes é o pacto de devoção exclusiva a Yahveh.

O livro Juízes é uma longa sequência de relatos sempre com o mesmo padrão: o povo israelita entrega-se a deuses “falsos” e associa-se a povos estrangeiros e depois, quando se vêm em apuros, pedem ajuda a Yahveh; de seguida, Yahveh salva-os através de um juiz redentor, sucedendo um período de paz e prosperidade. Uma vez Yahveh até aborreceu-se com os israelitas e jurou-lhes que nunca mais os salvaria, mas depois voltou atrás nessa decisão (Juízes 10:11-16).

A descrição de Deus, neste livro, é muito desconcertante para quem está habituado à ideia de um Deus onipotente.

Juízes 1:19 Assim estava Yahveh com Judá, o qual se apoderou da região montanhosa; mas não pôde desapossar os habitantes do vale, porquanto tinham carros de ferro.

Parece que Deus, neste tempo, ainda não era suficientemente forte para enfrentar um exército com carros de ferro. Ou simplesmente o israelitas ainda não tinham saído da idade do bronze enquanto os seus adversários já estavam na idade do ferro.

Os Rolos de Prata

 



Em 1979, uma equipa escavou em Ketef Hinnom, uma região de Jerusalém. O sítio consiste numa série de câmaras fúnebres de pedra talhada baseadas em cavernas naturais.

Dentre os inúmeros artefatos encontrados durante as escavações, uns revelaram-se muito interessantes para o mundo da arqueologia bíblica: dois minúsculos rolos de prata inscritos, aparentemente utilizados como amuletos.

Os amuletos consistiam em duas pequenas folhas de prata (3 × 10 cm e 1 × 4 cm, respectivamente) com inscrições. Eles estavam enrolados quando foram descobertos. Após um cuidadoso trabalho para desenrolá-los, foi recuperado o seguinte texto:

Amuleto 1
Yahve[h]… o grand[e]… [Aquele que guarda] a aliança e benevolência para com aqueles que [o] amam e aqueles que guardam [seus mandamentos…] o Eterno? […] [a?] benção mais do que qualquer [cila]da e mais do que o mal. Pois a redenção está nele. Pois Yahveh é o nosso restaurador [e] rocha. Que Yahveh te abenço[e] e te guarde. [Que] Yahveh faça resplandecer [Seu rosto]…

Amuleto 2
[Para ???]. Que sejas abençoado por Yahveh, o guerreiro/ajudador e repreendedor do mal; que Yahveh te abençoe, te guarde. Que Yahveh faça seu rosto resplandecer sobre ti e te dê a p[a]z. 

Estes dois pequenos objetos de prata encontrados em Ketef Hinnon contém uma bênção sacerdotal semelhante à que se pode encontrar em Números 6. Aos artefatos foram atribuídas datas de cerca de 600 AEC.

A Bênção Sacerdotal, ou Bênção Aarônica, é uma oração recitada durante certos serviços das comunidades judaicas. O texto da oração tem a sua fonte na Bíblia:

Números 6:23-27.
Fala a Aarão e a seus filhos, dizendo: Assim abençoareis os filhos de Israel e dir-lhes-eis: Yahveh te abençoe e te guarde; Yahveh faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; Yahveh sobre ti levante o rosto e te dê a paz. Assim, porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei.

Isto não prova que o livro de Números já existia no tempo em que estes amuletos foram produzidos. Apenas é uma evidência de que o livro de Números e estes amuletos são frutos da mesma cultura. O livro de Números pode ser uma compilação posterior que incluiu a tradição da Bênção Sacerdotal.

Verifiquemos, agora, as datas das mais antigas versões conhecidas de textos do Antigo Testamento (Tanakh para os judeus):
 

Versão
Língua
Data
Rolos de Prata
Paleo-Hebraico
c. 600 AEC (alguns versos)
Hebraico, Aramaico e Grego
c. 150 AEC – 70 EC (fragmentos)
Grego
Século II AEC (fragmentos)
Século IV EC (completo)
Copta
Século IV EC (fragmentos)
Latim
Século V EC (fragmentos)
Século VIII EC (completo)
Aramaico
Século V EC
Hebraico
Século X EC (completo)



 

quinta-feira, 5 de março de 2026

Quem eram os filisteus e de onde vieram?

 

Navios de guerra. Este desenho de um relevo em Medinet Habu mostra uma batalha naval entre os egípcios e os povos das "ilhas", que invadiram o Egito no século XII a.C.

Quem eram os filisteus e de onde vieram? Cerâmica de Ascalão apresenta decorações filisteias.

Cerâmica filisteia. Estas peças de cerâmica de Ashkelon exibem decorações filisteias primitivas. Foto: © Expedição Leon Levy a Ashkelon.

Os filisteus são mais conhecidos na Bíblia como inimigos dos israelitas, mas eram muito mais do que isso. Descobertas arqueológicas recentes ajudam a aprimorar nossa compreensão de sua cultura, economia e até mesmo de suas origens. 

Quem eram os filisteus?

Na Bíblia, os filisteus são lembrados como um povo incircunciso com tecnologia avançada e um exército formidável (Juízes 14:3; 1 Samuel 13:19-20; Êxodo 13:17). Os filisteus frequentemente invadiam o território israelita, o que levou a algumas batalhas, incluindo o famoso confronto entre Davi, o israelita, e Golias, o filisteu (1 Samuel 17). Eles foram condenados por serem idólatras (1 Samuel 5:1-5) e adivinhos (Isaías 2:6). Em resumo, os filisteus são retratados de forma bastante negativa na Bíblia.

Eles viviam nas cidades de Asdode, Ascalom, Ecrom, Gate e Gaza — o coração da antiga Filístia, na costa sudeste do Mar Mediterrâneo. AsdodeAscalomEcrom e Gate foram escavadas nas últimas décadas. Os achados nessas cidades mostram que os filisteus possuíam cerâmica, armas, ferramentas e casas distintas. Eles também consumiam carne de porco e tinham vastas redes comerciais.

A cultura filisteia floresceu durante a Idade do Ferro (do século XII ao VI a.C.). Semelhante aos reinos de Israel e Judá, os filisteus perderam sua autonomia no final da Idade do Ferro. Tornaram-se subservientes e pagaram tributo aos assírios, egípcios e, posteriormente, aos babilônios, as grandes superpotências da região, que puniam severamente a rebelião. Por exemplo, o rei babilônico Nabucodonosor destruiu as cidades de Ascalão e Ecrom, consideradas desleais, e levou muitos filisteus para o exílio.

De onde vieram os filisteus?

Em seu artigo, Daniel Master examina as evidências arqueológicas e bíblicas sobre as origens dos filisteus. Ele considera os relatos do templo mortuário de Ramsés III em Medinet Habu. No século XII a.C., durante o reinado de Ramsés III, uma confederação de tribos das “ilhas” dos “países do norte” atacou o Egito diversas vezes, tanto por mar quanto por terra. Os peleset, que os estudiosos associam aos filisteus, foram citados como uma dessas tribos.

A caminho do Egito, a confederação atravessou o Mediterrâneo oriental e destruiu inúmeras cidades, incluindo Ugarit, na costa síria. Ammurapi, o último rei de Ugarit, escreveu aos reinos vizinhos pedindo ajuda quando os “sete navios do inimigo” chegaram para saquear seu reino. Quando o socorro finalmente chegou, porém, já era tarde demais: Ugarit estava em ruínas.

O Egito derrotou a confederação, como está registrado em uma das paredes do templo de Medinet Habu. Um relevo desse templo também retrata uma batalha naval entre as tribos das ilhas e os egípcios. Nele, os ilhéus usam cocares distintos, que os diferenciam claramente dos egípcios. Após serem derrotados, alguns desses povos se estabeleceram na costa sul de Canaã — no que viria a ser a terra dos filisteus. As fontes egípcias, portanto, parecem registrar uma migração de pessoas das “ilhas” para a Filístia.

Quem eram os filisteus e de onde vieram? Relevos de Medinet Habu retratam uma grande batalha naval.

Retrato filisteu? Uma confederação de tribos insulares, incluindo os peleset (filisteus), atacou o Egito no século XII a.C. Este relevo de Medinet Habu registra uma batalha naval entre as duas forças. Foto: Olaf Tausch , CC BY 3.0 , via Wikimedia Commons.

Master também examina as evidências bíblicas da origem filisteia. Os autores bíblicos se lembram dos filisteus como vindos de uma terra estrangeira, de “Caftor” (Gênesis 10:14; Deuteronômio 2:23; 1 Crônicas 1:12; Amós 9:7; Jeremias 47:4). Os estudiosos há muito estabelecem uma conexão entre Caftor e Creta. Essa conexão se baseia principalmente em inscrições egípcias e pinturas de “Keftio” dos séculos XV e XIV a.C., nas quais os Keftiu são associados à civilização minoica, que tinha Creta como centro.

Mapa de Migração. Quem eram os filisteus e de onde vieram? Novas evidências arqueológicas sugerem que muitos filisteus eram originários de Creta, chamada de "Caftor" na Bíblia. Mapa: © Sociedade de Arqueologia Bíblica.

Escavações revelaram que os filisteus possuíam um conjunto distinto de artefatos. Master observa paralelos entre alguns objetos filisteus antigos, especialmente dos séculos XII e XI a.C., e artefatos egeus e cipriotas. Elementos da cultura material filisteia, portanto, também sugerem uma origem egeia ou mediterrânea para os filisteus.

Novas evidências de Ashkelon reforçam essa conexão. A Expedição Leon Levy realizou escavações em Ashkelon de 1985 a 2016, sob a direção do falecido Lawrence Stager, da Universidade de Harvard; na última década, Daniel Master codirigiu as escavações. Eles encontraram alguns sepultamentos de bebês do século XII a.C., bem como um cemitério filisteu com sepultamentos que datam dos séculos XI ao VIII a.C. Em parceria com cientistas do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, eles conseguiram analisar o DNA de sete desses indivíduos. Ao examinarem o DNA dos bebês do século XII, descobriram que eles possuíam alguma ancestralidade europeia. Creta se mostrou uma das melhores correspondências para a herança genética dos bebês — considerando todo o seu material genético. No entanto, outros locais no Mediterrâneo Ocidental, como a Península Ibérica, também apresentaram boas correspondências.

Curiosamente, nos indivíduos mais recentes do cemitério de Ascalão, essa ancestralidade europeia havia sido tão diluída que mal se fazia notar. Master explica que, no século X a.C., já havia ocorrido tantos casamentos mistos entre os filisteus e a população levantina local que os filisteus se pareciam muito com seus vizinhos:

Embora houvesse alguma evidência da mesma contribuição genética dos caçadores-coletores da Europa Ocidental, para todos os efeitos estatísticos, não foi possível identificá-la com certeza. Os melhores modelos mostraram que essas pessoas [os indivíduos dos séculos X e IX enterrados no cemitério de Ashkelon] eram descendentes tanto dos habitantes do século XII quanto dos habitantes da Idade do Bronze. A partir desses resultados, parece que houve tantos casamentos mistos entre os imigrantes originais e as pessoas ao seu redor que a composição genética dos habitantes de Ashkelon perdeu suas características distintivas de imigrantes.

No entanto, Master esclarece que, nesse ponto da história, os filisteus ainda se consideravam distintos, como fica evidente em uma inscrição do século VII da cidade filisteia de Ecrom. A inscrição nomeia o rei de Ecrom como Ikausu, que significa “aqueu” ou “grego”. O nome Ikausu (ou Aquis) também aparece em 1 Samuel 21:10 como rei de Gate.

Os filisteus se lembravam de suas origens estrangeiras.

Master conclui que as novas evidências de DNA , juntamente com os testemunhos bíblicos e arqueológicos, sugerem que os filisteus se originaram em Creta. Isso não significa que os filisteus eram um grupo homogêneo, todos vindos do mundo egeu, mas parece que muitos filisteus de fato migraram de lá, trazendo consigo vestígios da cultura minoica.