segunda-feira, 29 de março de 2010

O PERÍODO NEGRO DA HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

Sem querer agredir a fé cristã dogmática (a qual merece todo o nosso respeito), nem diminuir o valor histórico do cristianismo e da Igreja Católica, mas apenas contribuir para o diálogo inter-religioso, a fim de buscarmos o conhecimento da verdade que nos liberta (“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”), resumo nesta semana alguns dos principais dados da história negra do cristianismo dos cristãos, dados esses que comprovam minha tese de que essa modalidade de cristianismo não pode ter sido fundada pelo verdadeiro Jesus de Nazaré, o qual resumiu toda a sua doutrina religiosa na prática do amor: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (João 13,35). “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros” (João 13,34). “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu sentimento e com toda a tua força.

Este é o primeiro e mais sublime preceito, porém é igual a este: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10,27; Mateus 22,37). Essa foi a verdadeira religião ensinada e vivida por Jesus. Uma religião essencialmente moral, moral religiosa, a qual foi destruída ao longo de dois mil anos pelos cristãos paulinistas. Os dados bárbaros da história negra do cristianismo, que apresentarei abaixo (apoiado em Riboni), contradizem abertamente a religião do amor ensinada e vivida por Jesus. Que o leitor reflita e, ao término da leitura, responda a essa pergunta: É possível conciliar as barbaridades cristãs com a religião do amor autenticamente ensinada e vivida por Jesus?

1) Desde o início da nossa era, os cristãos paulinistas (assim como os judeus) sempre foram superexclusivistas e intolerantes para com os seguidores de outras religiões, uma vez que, para os cristãos paulinistas, Jesus era (e é) o único Deus encarnado, o único salvador e o único Senhor. Logo, o cristianismo paulinista já era considerado, naquela época, a única religião verdadeira. Por causa desse exclusivismo religioso, os cristãos começaram a querer proibir os cultos de deuses que não o seu, o qual eles insistiam ser o “único Deus”. Essa intolerância começou a contrariar a justiça romana, que defendia, nos três primeiros séculos, a liberdade de culto de qualquer religião. Mas, por causa da intolerância de muitos cristãos, a justiça romana começou a puni-los. A propaganda cristã inverte habilmente a situação, declarando “mártires” os condenados pela justiça romana, inventando o mito ou a lenda de que eles foram executados por terem “recusado a renegar a fé”. (Ver RIBONI, “A Página Negra do Cristianismo”, p. 2).

2) No começo do século IV, no ano 312, estourou uma luta enfurecida, entre dois grupos de cristãos, em torno da crença na divindade de Cristo. Ário (padre alexandrino) e seu grupo defendiam a tese de que Cristo não era filho natural de Deus, mas apenas filho adotivo de Deus. Os teólogos romanos se opuseram a esta doutrina, defendendo a tese paulina de que Jesus era uma divindade, o que fez o imperador romano Constantino convocar um Concílio Ecumênico, no ano 325, para dogmatizar a divindade de Cristo. Mas essa luta em torno da divindade de Cristo perdura até hoje, tendo custado muito sangue e provocado um ódio terrível entre os próprios cristãos e, mais ainda, entre cristãos e não-cristãos (ver meu livro Entrevistas com Jesus: reflexões ecumênicas).

3) Indubitavelmente, os maiores conflitos ideológicos entre os cristãos dos primeiros três séculos foram quase todos relacionados com a definição da verdadeira identidade (ou natureza) de Jesus. Houve muita briga entre padres, bispos e papas, o que resultou, finalmente, através de formulações dogmáticas, na excomunhão e condenação de todos aqueles que se opuseram a crer na pessoa mítica de Cristo, como definida pelos que detinham o poder político-religioso da época.

4) No fim do século IV, surgiu a questão em torno da divindade do Espírito Santo, negada por Macedônio, bispo de Constantinopla, fazendo com que o imperador Teodósio convocasse um novo Concílio Ecumênico, no ano 381, para declarar o dogma da divindade do Espírito Santo. Esse novo dogma gerou (e continua gerando) novos ódios e novas perseguições, incluindo muitas mortes em nome da verdadeira fé cristã. Em lugar da caridade, não se viu mais que uma disputa bárbara entre as distintas igrejas cristãs, condenando-se mutuamente.

5) Depois que o cristianismo paulinista se tornou a religião oficial do Império Romano, no final do século IV, todas as outras religiões passaram a ser desprezadas, seus templos destruídos. Somente a religião cristã era a verdadeira religião. Esse exclusivismo da religião cristã deu origem a inúmeros massacres e mortes de não-cristãos, “pagãos”, “infiéis”, “hereges”, “bruxas”, “feiticeiras” etc.

6) No final do século IV (ano 389), Teófilo, hoje Santo Teófilo, apoiado pelo imperador Teodósio, foi nomeado patriarca de Alexandria e inicia uma violenta campanha de destruição de todos os templos e santuários não-cristãos. Deve-se a ele a destruição do templo de Serapis e da famosa Biblioteca de Alexandria, no ano 391 (cf. RIBONI, p. 3).

7) No início do século V (ano 412), “Cirilo, hoje Santo Cirilo, doutor da Igreja, é nomeado bispo de Alexandria e sucede a seu tio Teófilo. Excita os sentimentos anti-semitas difundidos entre os cristãos da cidade e, à frente de uma multidão de cristãos, incendeia as sinagogas da cidade e faz fugir os judeus. Em seguida, encoraja os cristãos a tomar os bens dos fugitivos, deixados para trás” (RIBONI, p. 3).

8) A Igreja Católica tem uma longa história de perseguição aos seus dissidentes, tachados de “hereges”, sobretudo através da chamada “Santa Inquisição” (também denominada de “Tribunal do Santo Ofício), instituição católica responsável pelo extermínio de muita gente ao longo de 600 anos (1226-1826).

A PÁGINA NEGRA DO CRISTIANISMO (Cont.)

9) “As inquisições católicas, em seu todo, mataram centenas de milhares de católicos dissidentes, hereges e supostos bruxos (alguns estudiosos falam em mais de um milhão). Começando na França, no século XIII, as inquisições eram uma rede de tribunais autorizados pelos papas para investigar os acusados de heresia. [...] Os inquisidores eram padres que não tinham escrúpulos de usar tortura para arrancar confissões. A violência e as execuções só chegaram ao fim quando a última vítima foi enforcada em Valência, em 1826” (CORNWELL, John. Quebra da Fé: O Papa, o Povo e o Destino do Catolicismo. Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 213).

10) Durante toda a Idade Média (séculos V a XV), a Igreja impõe o seu domínio sobre a sociedade. No dizer de Riboni, “é também nessa época que se desenvolve o que se tornará uma das mais ricas tradições cristãs: queimar pessoas vivas. Cerca de um milhão de “bruxos” são torrados durante a Idade Média. As cidades concorrerão para tentar bater recordes de quantidade de bruxos queimados por ano. O recorde foi estabelecido pela cidade de Bamberg, sede do episcopado, que conseguiu assar 600 feiticeiros num só ano” (RIBONI, p. 4).

11) A partir do século XII (precisamente em 1184) foi instituída a chamada “Santa Inquisição”, tribunal eclesiástico para preservação e defesa da religião católica, órgão permanente de investigação e combate às heresias, com a pena de morte para quem ousasse discordar de alguma verdade da Igreja Católica. Foi, sem dúvida alguma, a época mais terrível na história do cristianismo mítico. A fé havia que ser mantida pela coerção. As discordâncias religiosas eram abafadas por ameaças de excomunhão, tortura ou até de morte. Quem fosse declarado culpado, além de ter seus bens confiscados, era executado no garrote ou na fogueira em praça pública.

12) O emprego da tortura foi oficialmente sancionado pelo papa Inocêncio IV em 1252. No ano de 1480, a Inquisição se instalou na Espanha e em 1540 em Portugal. Calcula-se que mais de quarenta mil “hereges” foram queimados nestas duas inquisições.

13) No início do século IX (ano 804), “o imperador cristão Carlos Magno converte grande número de cristãos, propondo-lhes a seguinte escolha: converter-se ao catolicismo ou serem decapitados. Vários milhares de cabeças caem, com a bênção da Igreja: os sacerdotes presentes participam da jogada do imperador” (RIBONI, p. 4).

14) Durante seus 46 anos de reinado, o imperador cristão Carlos Magno promove mais de 50 guerras para expandir o cristianismo e impor sua hegemonia ao Ocidente. Conquista a Saxônia, apodera-se da Catalunha, da Baviera, da Lombardia e da Frísia e luta contra árabes na região dos pirineus.

15) No século XI (ano 1054), ocorre, sobretudo por causa de uma pequena divergência teológica com relação à Trindade, a primeira grande divisão do cristianismo, ou seja, o cisma entre o Oriente (com sede em Constantinopla) e o Ocidente (com sede em Roma). As duas sedes se excomungam mutuamente. O cisma provocou mortes por quase mil anos, até aos anos 1990, com as guerras nos Balcãs, ex-Iugoslávia, de católicos contra ortodoxos (cf. RIBONI, p. 4).

16) No final do século XI (1095), a Igreja lança as Cruzadas, guerras santas contra os muçulmanos na Idade Média, que resultaram em milhares de mortes, entre os anos 1095 a 1270, com a finalidade de reconquistar Jerusalém e o túmulo de Cristo sob o poder dos muçulmanos. Segundo Riboni, “estima-se em 70.000 o número de civis massacrados. A última fase do massacre passa-se nas sinagogas e mesquitas da cidade, onde os habitantes aterrorizados se refugiaram: pensam que o caráter religioso dos locais possa inspirar os piedosos cruzados à clemência. Nada disso acontece; os cruzados entram e transformam os locais de culto em vastas carnificinas” (RIBONI, p. 4).

17) No início do século XIII (ano 1209), ocorre, por iniciativa do papa Inocêncio III, a terrível cruzada contra os cátaros e albigenses, membros de uma seita cristã, conhecida por “catarismo”, que discordava de alguns dogmas da Igreja. Toda a população dos cátaros e albigenses (cerca de 30 mil pessoas, incluindo homens, mulheres, crianças e idosos) foi cruelmente exterminada por ordem da Igreja.

18) Em meados do século XIV (anos 1347-1354), reina em toda a Europa os chamados “pogroms” (Movimentos populares de violência contra os judeus). Assim, por exemplo, os judeus foram acusados pelos prelados católicos de envenenar os poços de água que teriam causado uma grande epidemia de peste no continente. Esse boato espalha-se por toda a Europa. Na Alemanha contam-se 350 comunidades judias totalmente destruídas pelos “pogroms” nesse período (cf. RIBONI, p. 5).

19) No final do século XV (ano 1483), o monge dominicano Tomás de Torquemada é nomeado pela Igreja para ser o Grande Inquisidor de Castela. “Esse monge dominicano faz uma ampla uitilização da tortura e da confiscação dos bens das vítimas. Estima-se em 20.000 o número de pessoas queimadas durante o seu mandato” (RIBONI, p. 5).

20) Ainda no final do século XV, com a descoberta da América por Cristóvão Colombo, começa a triste história da trágica cristianização dos índios americanos, “onde os episódios do Paraguai e as perseguições aos índios Pueblo serão alguns dos mais trágicos” (RIBONI, p. 6).

21) No finalzinho desse mesmo século XV (ano 1499), acontece “o maior auto de fé que a História registra. Em um só auto de fé, o inquisidor Diego Rodrigues Lucero queima vivos nada menos que 107 judeus convertidos ao cristianismo, em Córdova” (RIBONI, p. 6).

22) Na primeira metade do século XVI, ocorreu a segunda maior divisão do cristianismo paulinista, com a Reforma Protestante ou Protestantismo na sua tríplice divisão: luteranismo (1517), calvinismo (1536) e anglicanismo (1534), com as múltiplas ramificações que se originaram dessas três alas principais do protestantismo.

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23) Martinho Lutero “inaugura o maior cisma da cristandade: durante os séculos seguintes, os cristãos vão se massacrar mutuamente ainda com mais entusiasmo do que quando eles matavam e queimavam os não-cristãos, os hereges, as bruxas, os judeus e muçulmanos convertidos etc. Lutero escreverá e dirá diversas vezes que era necessário queimar as sinagogas e escorraçar os judeus das cidades” (RIBONI, p. 7).

24) Os pontos doutrinários divergentes entre católicos e protestantes (não-liberais) não se restringem, quase que exclusivamente, à interpretação da verdadeira identidade (ou natureza) de Jesus, como ocorreu nos primeiros sete séculos do cristianismo. Católicos e protestantes estão, de modo geral, unidos quanto à natureza essencial do “Cristo da fé”, exceção feita aos protestantes liberais e a vários teólogos cristãos pluralistas, os quais questionam e rejeitam os dogmas essenciais do cristianismo paulinista, como a suposta natureza divina de Jesus e, conseqüentemente, a trindade, o pecado original, o batismo, a redenção pelo sangue de Cristo e outros dogmas menores. As divergências comuns a todos os protestantes, em relação aos católicos, referem-se, sobretudo, à autoridade e ao magistério da Igreja Católica, aos sacramentos, ao culto dos santos, à crença no purgatório etc.

25) Os reformadores protestantes argumentavam que o cristianismo tinha se corrompido e que era necessário que ele voltasse à sua pureza primitiva. Defendiam a tese de que a Bíblia é a única fonte de fé e, por isso, não necessitam da Tradição nem do Magistério da Igreja Católica.

26) A partir da Reforma Protestante, inúmeras foram as brigas e guerras violentas entre católicos e protestantes.

27) Em 1527, ocorreu o saque de Roma, no qual “os soldados protestantes massacraram a totalidade da população de Roma, umas 40.000 almas, e pilham a cidade. O papa é salvo pelos guardas suíços. Ele se fecha com eles no Castelo de Santo Ângelo, enquanto a população é massacrada” (RIBONI, p. 7).

28) Recordemos também a pavorosa matança da Noite de São Bartolomeu, ocorrida em 24 de agosto de 1572, em que, numa única noite, foram mortos por católicos cerca de cinco mil protestantes.

29) O calvinismo também criou um tribunal semelhante ao da Inquisição católica para julgar e condenar os culpados que persistissem no erro doutrinário. De 1541 a 1546, 58 sentenças de morte foram proferidas por esse tribunal. A tortura era aplicada com frequência. Em 1553, o humanista e médico espanhol Miguel Servet foi queimado vivo, por ter negado o dogma da Santíssima Trindade. “Esse é somente um dos 15 hereges que o reformador [Calvino] fez executar durante a sua ditadura sobre Genebra” (RIBONI, p. 7).

30) A Reforma Protestante dividiu quase metade do mundo cristão: Separaram-se: Alemanha, Inglaterra, Suíça, Dinamarca, Noruega, Suécia, grande parte da Holanda e Polônia. Ademais, a maior parte da América do Norte aderiu ao protestantismo.

31) A partir da Reforma Protestante, o único progresso da Igreja Católica foi na América do Sul, onde os pregadores da Cruz impuseram aos índios a religião católica com a espada à mão.

32) A falta de amor se mostrou também no seio de cada um dos povos cristãos, tendo a Igreja ficado do lado dos ricos, contra os pobres, fomentando assim a luta social que caracteriza a história de cada povo, e que hoje constitui o problema mais sério do mundo.

33) A grande falta de amor entre cristãos é exemplificada também nas duas guerras mundiais do século XX, entre povos cristãos, que mataram cerca de 70 milhões de pessoas. Os que lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki também acreditavam em Deus e se diziam “cristãos”. Os que exterminaram seis milhões de judeus (e um milhão e meio de ciganos) durante a Segunda Guerra Mundial também tinham “uma religião” (Hitler era católico) e os que atualmente exploram os países do Terceiro Mundo são quase todos “cristãos”, no sentido paulinista do termo. Os que escravizaram e exterminaram milhares de africanos e de índios durante o período da escravatura no Brasil e nas Américas também acreditavam em Deus e diziam-se “cristãos”. De que adianta crer em Deus e vivenciar o desamor, o ódio, as guerras, os preconceitos e a discriminação?

34) Tudo isso ocorreu (e continua ocorrendo) neste planeta porque as pessoas que se dizem “religiosas” ou “cristãs” ainda não entenderam que a “verdadeira religião” não consiste essencialmente em “crenças”, mas na “vivência do amor”.

35) Em 1571, a Igreja criou a lista de livros proibidos para católicos, o chamado Índex (Index Additus Librorum Prohibitorum), cuja última edição foi publicada em 1961. Inúmeros livros fizeram parte dessa lista. O católico que lesse livros dessa lista estaria cometendo pecado grave.

36) Em 1572, o papa Pio V, santo da Igreja Católica, “vangloria-se publicamente diversas vezes de ter, durante a sua carreira de inquisidor, colocado fogo com suas próprias mãos em mais de 100 fogueiras de hereges que ele mesmo acusara, confundira e condenara” (RIBONI, p. 8).

37) Desde o fim do século XVI até o início do século XVIII,“os exploradores espanhóis, sempre acompanhados de monges e padres, entram em contato com a tribo dos Pueblo, no território que hoje pertence ao estado americano do Novo México. [...] Estes pacíficos agricultores logo se tornam objeto de atenção dos padres espanhóis, impacientes por substituir o culto do Pai Céu e da Mãe Terra por aquele de cujo deus se bebe o sangue durante as cerimônias: os pajés índios são acusados de bruxaria e executados. [...] Os padres diziam que a religião dos índios era a das trevas, pois era sempre à noite, enquanto que o cristianismo era a religião da luz, pois se come a carne e se bebe o sangue do deus cristão em pleno dia. Diversas revoltas sangrentas pontuam a cristianização dos Pueblo” (RIBONI, p. 8).

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38) No século XVI, Galileu Galilei (1564-1642), um dos fundadores da Ciência Moderna, confirmou, de maneira irrefutável, a tese de Nicolau Copérnico (1473-1543), segundo a qual a Terra não era o centro do Universo, como sustentavam Ptolomeu e as igrejas cristãs. Católicos e protestantes não podiam aceitar a tese revolucionária de Copérnico, comprovada cientificamente por Galileu, porque essa teoria contradizia o que ensinava a Bíblia. Condenado pela Inquisição da Igreja Católica – o maior poder monárquico e absoluto da época – Galileu foi obrigado a negar a verdade do heliocentrismo em favor do erro do geocentrismo, defendido pelas igrejas cristãs. A Igreja Católica levou mais de 300 anos para reconhecer oficialmente seu erro, quando o papa João Paulo II, somente em 1997, decidiu tardiamente perdoar Galileu.

39) Por concordar com a visão copernicana (e também por ser reencarnacionista), o frade Giordano Bruno foi arrastado à Inquisição e, ao não concordar em retratar-se, foi queimado na fogueira em 1600. Também o filósofo natural italiano Lucilio Vanini, que diziam ter ensinado a identidade entre Deus e a natureza, foi queimado em Toulouse, em 1619. Em 1415, Jan Huss também fora condenado à pena de morte pela Igreja e queimado vivo na fogueira, como herege pertinaz.

40) No século XVII, ocorreu, na Alemanha, a guerra religiosa dos 30 anos, que reduziu à metade a população da Alemanha.

41) No século XVIII, no Paraguai, os católicos se massacram e se excomungam entre eles.

42) No século XIX (ano de 1847), a Suíça é dilacerada por uma guerra religiosa entre protestantes e católicos. “Os jesuítas, considerados responsáveis pela guerra, são expulsos da Suíça, e essa expulsão valerá até 1970” (RIBONI, p. 10).

43) No século XX, Hitler declara-se católico em seu livro “Mein Kampf, o livro onde ele anuncia o seu programa político. Também afirma nessa obra que está convencido de ser ele um “instrumento de Deus”. A Igreja Católica nunca colocou no seu Índex o livro “Mein Kampf”, mesmo antes da ascensão de Hitler ao poder. Podemos acreditar que o programa anti-semita do futuro chanceler não desagradava à Igreja. Hitler mostrará o seu reconhecimento tornando obrigatória uma prece a Jesus nas escolas públicas alemãs e reintroduzindo a frase “Gott mit uns” (Deus está conosco) nos uniformes do exército alemão (cf. RIBONI, p. 11).

44) No mesmo século XX, ocorre, na Espanha cristã, uma terrível guerra civil, liderada pelo general Franco. “A guerra faz mais de um milhão de mortos, e Franco fuzila todos os prisioneiros. Franco se mostrará reconhecido por seus aliados, nomeando diversos membros da Opus Dei para o seu governo. A influência da Opus Dei crescerá ao longo da ditadura franquista, ao ponto de se chegar a mais de metade dos ministros serem membros dessa venerável instituição católica” (RIBONI, p. 11).

45) “Durante a 2ª Guerra Mundial, o Vaticano [sob o pontificado do papa Pio XII] estava ciente do extermínio dos judeus pelos nazistas” (RIBONI, p. 11).

46) O catolicismo moderno (séc. XVII-XX) sofreu várias divisões: o Jansenismo, o cisma dos Velhos Católicos, divisões causadas pela Revolução Francesa, conflitos causados pelo Movimento Modernista, a Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB), a Fraternidade São Pio X, os conflitos e divisões entre “católicos conservadores” e “católicos progressistas” etc.

47) A respeito dos conflitos ideológicos e/ou divisões entre “católicos conservadores” e “católicos progressistas”, convém lembrar que o papa progressista João XXIII, com a finalidade de reformar a Igreja Católica, convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965), que propôs, de fato, uma série de reformas, as quais escandalizaram (e continuam escandalizando) a ala conservadora da Igreja (os chamados “católicos conservadores”). Por causa da forte reação dos conservadores, a maioria das reformas propostas pelo Vaticano II ficou só no papel, pois, na prática, a Igreja Católica, com os papas Paulo VI e João Paulo II, voltou a ser superconservadora, gerando dolorosos conflitos com os chamados “católicos progressistas”.

48) Em oposição aos católicos conservadores, que rejeitam os princípios básicos da modernidade, como liberalismo, relativismo, pluralismo e ecumenismo, formou-se a ala dos católicos progressitas, que defende esses mesmos valores da sociedade dos tempos modernos e que vive, por conseguinte, a fazer duras críticas ao conservadorismo da Igreja Católica, particularmente ao conservadorismo do papa João Paulo II e do cardeal Joseph Ratzinger (hoje o papa Bento XVI), alegando que eles fizeram retroceder a Instituição em vez de modernizá-la. Os católicos progressistas chegam mesmo a falar de um “colapso” da Igreja Católica.

49) Quase todos os teólogos ou intelectuais progressistas fizeram (ou continuam fazendo) duras críticas à ala conservadora da Igreja. Por isso, alguns dentre eles, como Hans Küng e Leonardo Boff, foram proibidos de ensinar como católicos. Enquanto Hans Küng continua na Igreja como padre, Leonardo Boff, um dos principais líderes da Teologia da Libertação, corrente teológica duramente reprimida (para não dizer extinta) por João Paulo II e Joseph Ratzinger (Bento XVI), deixou o sacerdócio.

50) Para concluir, eu pergunto ao leitor: Diante de tantos crimes, de tanto ódio, de tanto exclusivismo, de tantos preconceitos, de tantos genocídios hediondos cometidos pelos cristãos, e de tantas divisões entre os próprios cristãos, ao longo de dois mil anos de cristianismo, é possível ainda acreditar que o cristianismo dogmático tenha sido, de fato, fundado por Jesus? Essa modalidade de cristianismo é a Religião de Deus, mesmo sabendo, pela História, que ela é a instituição religiosa mais sangrenta do mundo?

2 comentários:

paulo kk disse...

Sim,eu acredito,pois o problema esta na nao observaçao da biblia,ou seja,o que vem sendo adotado ao longo do tempo nada tem a ver com aquele que deveria ser o fundamento,Jesus.

Ivani Medina disse...

“A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas [...]Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta [...]. A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário”. (ARON cit. por Marrou, s/ data, p. 269)

Se a fé nunca dependeu da história, porque fazem tanta questão desta última? Por que insistem em preservar essa bruma que envolve os primeiros séculos do cristianismo? Não devia ser assim. No entanto, quando fazemos uma aproximação dos fatos com fatos e não com ideias, é possível outra conclusão.

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