sábado, 4 de dezembro de 2010

GUILHERME DE PÁDUA E A EMBOSCADA DA RATAZANA

Depois de dezoito anos de silêncio e anonimato, dos quais sete foram passados na prisão, pelo assassinato da atriz Daniela Perez, em 1992, o ex-ator e agora evangélico Guilherme de Pádua se dispôs a uma entrevista televisiva no “Programa do Ratinho”, pelo SBT. Movido pela curiosidade de conhecer mais acerca da história de Pádua que se dizia agora um crente renascido, me dispus a assistir ao programa que, confesso, não se encontra em minha lista de preferências. Mas, faria o sacrifício, pois é sempre gratificante ouvir acerca da graça de Jesus e Sua obra na vida de pecadores antes sem esperança e sem Deus no mundo.

Porém, a pergunta que soava em minha mente era: qual teria sido o motivo que teria levado Pádua a quebrar um silêncio de muitos anos? E creio que ficou também para muitos, esta questão enigmática.

Quando interrogado acerca de seus motivos em entrevistar um assassino da estirpe de Guilherme de Pádua, o apresentador Carlos Massa (vulgo Ratinho) afirmou ter sido motivado pela idéia de entender até que ponto a população ainda se recordava dos delitos de criminosos do passado, ou de que modo a sociedade se dispunha a tratar os ex-detentos. Porém, no início da entrevista, Pádua declarou ter sido assediado durante seis meses para a entrevista e se disse motivado pela oportunidade a ele dada de apresentar à população aquilo que Deus teria feito em sua vida. Mas após o programa, nenhuma das razões apresentadas correspodeu ao verdadeiro motivo, que agora, se tornou tão evidente para mim.

E pensando nesses motivos que ao fazer um balanço da entrevista ocorrida em 08 de abril de 2010, eu pensei em pelo menos quatro lições que poderiam ser tiradas do caso.

1. Em primeiro lugar, fica o registro da intolerância humana. O fato é que mesmo antes de sua apresentação à entrevista, Pádua já sofria as conseqüências de sua “ousadia”. Achincalhado pelos navegantes do micro-blog Twiter do apresentador Carlos Massa, e ameaçado pela própria mãe da vítima assassinada sobre o risco de um processo, caso fizesse alguma menção duvidosa relacionada à filha, Pádua se manteve calado diante da insistente pergunta acerca de seus motivos para a autoria do crime perpretado por ele e sua ex-esposa Paula. Na verdade, Guilherme se disse “coagido” e não abriu mão do seu direito ao silêncio. Frustrado, o apresentador Carlos Massa terminou o programa em tom de vingança: “se eu fosse a Glória Perez, também não te perdoaria”. Se de fato era seu desejo descobrir a maneira como a sociedade lida com ex-criminosos, o apresentador mesmo deu uma demonstração clara e visível: intolerância, imcompreesão e falta de misericórdia.

Afinal, porque a mídia e mesmo os atores se manifestaram de forma tão negativa? Tanto quanto eu saiba, Pádua foi julgado e condenado na forma da lei pelo delito cometido. Arrependeu-se e retomou sua vida, servindo a comunidade como um cidadão produtivo. Desse modo, é ele um cidadão com todos os direitos inerentes de sua cidadania. Como poderia ele então ser obrigado a cumprir uma pena velada, como se ainda fosse seu caso, uma dívida pela qual deveria ainda pagar?

Na verdade, o que o caso mais uma vez traz à tona é o nosso grande drama humano: a nossa tendência à auto-indulgência ou condescendência própria quando nos vemos diante de nossos próprios fracassos, face à intolerância e intransigência para com o outro, quando este “outro” se encontra mergulhado em seu próprio fracasso. Sempre a culpa do “outro” será mais evidente que aquela que guardamos conosco, a culpa secreta, oculta nos lugares mais secretos de nosso coração.

No caso dos Nardoni por exemplo, ocorreu o mesmo. Na sede do povo pela condenação (merecida) do casal, julgado pela violência cometida contra a criança supostamente assassinada, ninguém se lembrava que pela sua condenação, outra violência estaria sendo realizada contra outras duas crianças. Talvez a atitude mais equilibrada da sociedade --que não apenas torcia pela condenação dos réus, como até mesmo buscou a realização de um linchamento-- deveria ser de consternação e comiseração diante do sofrimento dessas duas crianças em perigo de se tornarem órfãs. Se por um lado havia uma mãe que chorava a filha perdida, por outro, dois filhos também choravam a angústia da perda dos pais. Na verdade, a soma de toda a tragédia é agora, as duas famílias despedaçadas. Foi pensando nisso que me neguei a acompanhar os detalhes sórdidos trazidos dia-a-dia pela mídia, numa tentativa bem sucedida de conduzir as emoções da população para o desfecho ocorrido no julgamento histórico de 22 a 27 de março de 2010. Agora, depois de tudo terminado e ouvir do júbilo dos manifestantes diante da conclusão do caso, não julgo haver nenhum motivo para comemoração. Na verdade, nada mudou: a garotinha morta não voltou à vida e nós mesmos nos tornamos piores, quando nos mergulhamos no poço do engulho e do ódio. Na verdade, descobri que por um momento, o mesmo mal que conduziu a mão assassina na realização do crime, nos uniu no ódio quando na exigência da (mais que justiça) condenação dos culpados. O ódio não será jamais um bom caminho a percorrer.

Obviamente, nenhum crime deveria ficar impune, mas não deveríamos ser mais cautelosos em promover a condenação ou em vibrar diante da queda moral ou espiritual do outro? Ainda mais quando no caso de Pádua, que teria se submetido a todas as conseqüências de seus abomináveis atos e busca agora um recomeço diante de Deus e dos homens. Perdão deveria ser o gesto mais natural (ou sobrenatural?) que deveríamos ofertar, mesmo àqueles que não merecem. Afinal, como disse Fábio Damasceno, em seu livro A Psicologia do Perdão, “perdoar é perder”, e nesse caso, “perdão” é uma “grande perda”. Ninguém perdoa a quem merece, isso é desnecessário. Se se perdoa, é justamente porque não há merecimento para o perdão. Perdoar é abrir mão da mágoa e de nossa razão própria, para que o outro seja redimido de seu erro. Asssim nos ensinou o Senhor Jesus, quando na cruz perdoou mesmo a aqueles que o crucificaram (Lucas 23.34).

2. Em segundo lugar, fica o registro da frustração daqueles que se deixam levar pelas emoções nocivas do egoísmo e da mágoa. A começar, foi uma frustração para o entrevistador Carlos Massa, que esperava explorar a imagem do ex-ator para satisfazer apenas a curiosidade do povo pelo bizarro. Falando nisso, desde há muito, o programa em questão era conhecido pela sua bizarria. E a paixão pelo bizarro se deixou notar pelo fato de que aquilo que o apresentador de fato desejava, ao lado do povo, eram detalhes acerca dos motivos e do modo pelos quais a vítima teria sido assassinada. De fato, desde a abertura do programa, era sua intenção dirigir a revolta e a curiosidade do público na forma de perguntas e comentários maliciosos. Prova disso o sarcasmo da pergunta inicial sobre o porquê da frequência de ex-detentos se tornarem evangélicos. Porém, não seria motivo de comemoração saber que alguém reencontrou seu rumo e agora teme a Deus? Nenhum interesse verdadeiro estava direcionado ao entrevistado. Mas diante da recusa de Pádua em responder ao desejo do povo, a atitude de Massa foi deveras, cruel e mesquinha.

Mas além da decepção do apresentador, ficou a do povo. Esperavam um show com detalhes sanguinários acerca da morte da vítima, ou quem sabe uma manifestação raivosa do entrevistado contra toda a situação envolvida no caso que resultou em sua condenação. Tivesse o programa se direcionado de fato para a direção do propósito alegado pelo apresentador, que era entender a maneira como a sociedade lida com ex-criminosos, este teria alcançado um novo rumo. Mas quando a desgraça alheia se transforma em um palco para um espetáculo, todos nós nos frustramos e geramos mais dor e sofrimento em nosso semelhante. E segundo percebi, foi esse o único resultado da entrevista: Massa causou dor no entrevistado, e isso, penso, de modo intencional, a fim de se redimir com a família da vítima bem como diante da mídia que questionava sua ousadia em conceder uma entrevista com o ex-detento. Na verdade, para Glória Perez, a mãe da vítima, também ferida pela ressurreição do caso, até o presente Pádua é um psicopata.

3. Em terceiro lugar, fica o registro de como a graça de Deus tem poder. Sim, ficou a evidência de que o evangelho é verdadeiramente poderoso. Paulo já dissera em Romanos 1.16 que ele não se envergonhava do evangelho, “pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”.

A experiência de Pádua revelou aquilo que diversas vezes o Cristianismo tem demonstrado: que a redenção humana e a força do evangelho não dependerá jamais da simpatia e compreensão dos homens. Sua experiência nos relembra a verdade fudamental do anúncio do evangelho: que quando o pecador se arrepende, Jesus aceita mesmo o pior dos piores, mesmo às vezes, contra o gosto e a aprovação dos homens. E talvez este seja o maior escândalo do evangelho. Ele, Jesus, receberá pecadores culpados, mesmo diante de um pelotão de fuzilamento, como no caso da mulher pecadora em vias de um apedrejamento, conforme João 8. Ele perdoará até mesmo criminosos já condenados à cadeira elétrica, como no caso de Dimas, o ladrão na cruz (Lucas 23.42-43). Ele perdoa e restaura. Ele reescreve a história e renova os passos de todo aquele que a Ele se entrega em confiança.

Agostinho disse certa vez, que é mais glorioso para Deus retirar o bem do mal, do que simplesmente impedir o mal de existir. Nesse caso, isso se aplica. O caso envolvendo a morte de Daniela Perez foi hediondo aos olhos de Deus, como todo pecado que venhamos, em algum momento, cometer. Porém, nenhum deles será tão grande quanto a imensidão da misericórdia divina que sobre todos eles triunfa. Em Miquéias 7.18-19 se afirma que Deus tem prazer na misericórdia, e que Ele mesmo lançará nossos erros todos no mar do esquecimento. E se Deus perdoa, ainda que nós não saibamos compreendê-lo, é no perdão de Deus que deve estar a base de nossa segurança. Já dissera Davi a Gade, o profeta, em um momento de culpa: “Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens, não caia eu” (2Samuel 24.14).

4. Em quarto lugar, fica o registro da carência comum de todos nós. Esperamos e carecemos de apoio e perdão a fim de prosseguirmos, após a visão de nossos fracassos. Que esta carência nos ensine. Como Pádua, todos nós esperamos e necessitamos de amor filial. E é aqui onde eu questiono os motivos alegados por Pádua para que rompesse o silêncio e o anonimato de dezoito anos e comparecesse a um programa de televisão de credibilidade duvidosa. Na verdade, penso que mais que testificar da graça soberana de Deus, como teria alegado, Pádua queria no fundo, a compreensão e aceitação da sociedade. Queria merecer uma nova chance, o respeito perdido. Talvez por isso tenha se referido de modo consternado aos maus-tratos às vezes sofridos por meio daqueles que o reconhecem em público, como o fato mencionado, de ter sido cuspido no rosto, durante um passeio pelo shoping.

Essa carência é própria de todos nós. De um assassino que destrói a vida de uma mulher com dezenove estocadas até o de um adolecente que acaba de perder a namorada. E todos nós, com nossos fracassos e conquistas existimos para isso: para amarmos e sermos amados. Já dissera Francisco de Assis:

“Ó Mestre,
Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna”.

Contudo, no fracasso de encontrarmos a graça da misericórdia e da compaixão naqueles que nos cercam, busquemo-las em Deus e em nós mesmos. E esse certamente é o grande desafio de Pádua: perdoar-se. Ele precisará sepultar seu passado vergonhoso e se deleitar na nova vida ofertada pela infinita graça de Deus. Se ele mesmo não demonstrar que pode realizar isso, ninguém mais o fará por ele. Nem mesmo o perdão da mãe da vítima nem o do apresentador Carlos Massa trará o sossego de uma consciência em paz consigo mesma e com Deus, como a que Deus por meio de Sua graça, lhe deu o privilégio de experimentar.

Certamente Pádua saiu do programa bem pior do que quando entrou. As palavras finais de Massa foram deveras cruéis. Mas quando Pádua conseguir verdadeiramente romper com sua dor e culpa passada, agora lavada pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, encontrará de fato, a plenitude de vida prometida a todo o que crê (João 10.10). Não buscará justificar-se de seus erros em cadeia nacional, nem pedirá ou esperará compaixão de ninguém. A ele bastará apenas graça de Cristo e a benção da comunhão de Sua Igreja. Esse é seu desafio, e eu oro para que dele, saia vitorioso.
*****
"...Quando eu me converti, muita gente dizia: "Seu testemunho vai ajudar outros..." e eu cheguei a acreditar nisso. Mas, um dia, percebi algo que, na verdade, me doeu muito: que o mais significativo na minha trajetória cristã era o simples fato de "colocar à prova o coração dos que se dizem cristãos". Deixe-me explicar: aprendemos que devemos "amar nossos inimigos", "orar por aqueles que nos perseguem" e "desejar bem a quem nos deseja mal". Isto é uma tarefa quase impossível, não é mesmo? Em Mateus, de 5:43 em diante, Jesus ensina que amar quem nos ama qualquer um consegue. Bom, o fato é que eu percebi que quando eu sou mencionado no meio evangélico, ou quando vou a uma igreja dar testemunho, sempre que a notícia "corre" os corações são provados. São testadas as capacidades de cumprir o "estive preso e fostes me ver", o "amai os vossos inimigos", o "não julgueis", o "se vós não perdoardes aos homens as suas faltas Meu Pai não perdoará as vossas" e tantas outras provas pelas quais o verdadeiro cristão passa. Foi muito duro, a princípio, ver que meu testemunho não era nada perto dessas outras questões, pois fiquei me sentindo meio inútil, como se fosse "uma coisa pra testar o coração dos cristãos". Mas como estou com Jesus e "não abro"... "Eis-me aqui, Senhor". Não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim, então que Ele resolva o que deve fazer comigo... e amém ...e graças a Deus ...e aleluia" - Guilherme de Pádua.



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